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Descartes e a Invenção do Sujeito

Descartes e a Invenção do Sujeito

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Descartes e a Invenção do Sujeito

Duração:
158 páginas
2 horas
Lançados:
8 de jan. de 2018
ISBN:
9788534946995
Formato:
Livro

Descrição

O conceito de subjetividade tornou-se presença comum no discurso do pensamento contemporâneo. Recorre-se a ele para fundamentar, a partir do sujeito, qualquer forma de discurso. Quando não para fundamentar, recorre-se a ele para refutar, o que é mais frequente, ou para criticar a sua natureza subjetiva e as possíveis consequências nos diversos campos do saber.
Lançados:
8 de jan. de 2018
ISBN:
9788534946995
Formato:
Livro


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Descartes e a Invenção do Sujeito - Joceval Andrade Bittencourt

DA VERDADE SEM SUJEITO AO SUJEITO DA VERDADE

Du siècle d’Aristote à celui de Descartes, j’apperçois un vide de deux mille ans. Dans cet engourdissement général, il falloit un homme qui remontât l’espèce humaine; qui ajoutât de nouveaux ressorts à l’entendement; un homme qui eût assez d’audace pour renverser, assez de génie pour reconstruire; un homme... (M. THOMAS, Éloge de Descartes)

O objetivo, neste capítulo, é apresentar o conceito de sujeito enquanto sujeito que fundamenta, a partir de sua autoconsciência, o conhecimento da verdade, como uma construção originária da filosofia de Descartes. Isto significa mostrar que Descartes rompe com o pensamento tradicional – Platão, Aristóteles, a Patrística, a Escolástica, o Ceticismo vigente até o século XVII, a cultura e a tradição –, indo em busca de uma nova forma de fazer filosofia, fundada unicamente na ordem racional do sujeito, tendo na razão o lugar originário do conhecimento verdadeiro sobre todas as coisas.

Não trataremos, de forma direta (ou interna), nesse primeiro capítulo, da filosofia de Descartes, mas buscaremos identificar e acentuar a crítica e a ruptura feitas por Descartes a toda a filosofia e às formas de pensamento que o antecederam, como momento necessário no processo de construção da sua própria filosofia. O nosso olhar, de certa forma, será de exterioridade, através do qual mostraremos, tendo como referência a crítica de Descartes ao pensamento antigo, que o sujeito, a partir do qual a verdade se constitui, não antecede a sua filosofia, mas tem nela o seu lugar originário. Neste primeiro momento não será feito uma análise sistemática da metafísica cartesiana (tema do segundo capítulo), mas uma reflexão acerca do processo de transição entre o pensamento antigo e o pensamento moderno e, neste, a novidade da filosofia cartesiana.

O projeto cartesiano é construir um conhecimento que abarque todos os saberes, mas que tenha no sujeito a causa originária da sua verdade. Essa característica de tomar o homem, o sujeito, como instância a partir da qual o conhecimento da verdade vem ao mundo, é uma característica que identifica e diferencia a filosofia de Descartes de todo o pensamento filosófico que o antecedeu. É a partir deste lugar (do sujeito da verdade) que Descartes erguerá todo o seu projeto filosófico. Ao anunciar ao mundo uma nova filosofia, tendo o sujeito como causa originária da verdade, Descartes anuncia, ao mesmo tempo, o fim do mundo antigo, e o nascimento do mundo moderno.

Mesmo não sendo Descartes um revolucionário, essa não é a sua natureza, não podemos deixar de reconhecer que as suas ideias – a sua filosofia – adquirem um caráter revolucionário. Aqui, as ideias são mais revolucionárias que o espírito de seu criador:

... a mensagem que ele traz ao mundo é bem mais perigosa (...) que a do matemático florentino. A ciência nova (que Galileu acabara de criar), essa ciência de que os Ensaios nos trazem amostra, não se contenta em tirar o homem, e a Terra, do centro do Cosmo: esse Cosmo, quebra-o destrói-o, aniquila-o ao abrir em seu lugar a imensidade sem limites do espaço ilimitado. E quanto ao Método, empreendimento de revisão sistemática e crítica de todas as nossas ideias, que todas são chamadas por ele a justificarem-se diante do tribunal da razão, Descartes por mais que queira – muito sinceramente, sem dúvida – restringir-lhe o alcance, por mais que nos assegure que nunca quis fazer outra coisa senão reformar as suas próprias ideias, com as quais, no fim de contas, é livre de fazer o que lhe apetecer, não pode deixar de se dar conta que acaba de aperfeiçoar a mais formidável máquina de guerra – guerra contra a autoridade e a tradição – que o homem alguma vez possuiu [1].

Essa revolução de mentalidade, cujo resultado é a afirmação do projeto cartesiano de construir uma razão livre que não esteja, em hipótese alguma, submetida a nenhuma autoridade ou à tradição, mas que se fundamente unicamente na ordem racional do sujeito, passa por uma rigoros a crítica a toda uma tradição filosófica e cultural que a antecedeu. É singular o projeto cartesiano – Eu, primeira pessoa do singular –, é a partir de si mesmo que ele pretende construir essa formidável máquina de guerra [2]. Descartes descobre a filosofia por um movimento próprio [3], é este movimento próprio e singular que o leva a fazer uma completa suspensão de juízo, negando os hábitos, a tradição filosófica, os conhecimentos adquiridos na escola, fechando o livro do passado, abrindo um novo livro, escrito em uma nova linguagem, no qual revelará uma nova configuração para o mundo.

Ao iniciar o Discurso do Método, bem como as Meditações, Descartes anuncia a necessidade de romper com a tradição cultural e filosófica que o antecedeu, de desfazer-se de todas as opiniões a que até então dera crédito, por não reconhecer nelas nenhuma base sólida que lhe possibilitasse um conhecimento seguro e certo sobre coisa alguma. Assim, Descartes quer retomar o processo do filosofar a partir de novas bases, novas referências, distintas daquelas – as da filosofia antiga – que lhe foram ensinadas, no seu processo de formação, no colégio La Fléche, dos jesuítas, onde estudou de 1906 a 1916, tendo acesso ao que de melhor tinha no mundo acadêmico da época.

Fui nutrido nas letras (...) estivera numa das mais célebres escolas da Europa, onde pensava que deviam existir homens sapientes, se é que existem em algum lugar da Terra [4].

No retrato de Descartes, gravado por Cornelis A, Hellemans [5], 1687-1691, encontramos uma imagem significativa, que bem ilustra a relação de negação de Descartes para com toda a filosofia tradicional, principalmente contra a filosofia de Aristóteles e de seus herdeiros. Nesta obra, Descartes encontra-se posicionado majestosamente em sua escrivaninha, escrevendo um livro, tendo à mão uma pena e com o seu pé direito repousado sobre um livro fechado, onde se ler claramente o nome de seu autor: Aristóteles. Nessa imagem, vê-se, de forma ilustrativa, a afirmação de Descartes sobre aquele que foi o pensador símbolo do pensamento antigo. O livro de Aristóteles representa o passado filosófico, bem como toda a tradição dele derivada, que deve manter-se fechado, pois nada mais tem a ensinar. É preciso cerrar as portas do passado, silenciá-lo, ignorá-lo por completo – excetuando Deus e a Matemática que, mais tarde, depois de serem repensados, subordinados a um mesmo tratamento metodológico, serão incorporados ao seu sistema filosófico. O velho mundo precisa ser substituído. Descartes tem um novo mundo para apresentar ao mundo, ele sabe que chegou o momento de seu mundo ver o mundo.

Se essa postura crítica de Descartes se apresenta, disseminada em toda a sua obra – principalmente em sua vasta correspondência, é na Carta-Prefácio – Princípios da Filosofia, escrita em 1647 e enviada ao editor, como sugestão para prefácio ao seu livro: Princípios da Filosofia – que, de forma direta, até demais, Descartes indica os motivos que o levaram a negar o passado e construir, no seu lugar, um mundo novo. A importância dessa carta (quase que uma carta testamento de ruptura com a tradição filosófica) justifica a longa citação que se segue:

Ora, através de todos os tempos houve grandes homens que se esforçaram por encontrar [...] as primeiras causas e os verdadeiros Princípios donde se podem deduzir as razões de tudo quanto pode ser conhecido; e os que se chamam filósofos são exatamente os que trabalham para isso. Todavia, não conheço quem haja, até agora, alcançado este objetivo. Os primeiros e os principais de que temos notícia são os escritos de Platão e Aristóteles, entre os quais apenas existe esta diferença: o primeiro seguiu as pisadas de seu mestre Sócrates e confessou, genuinamente, que ainda não encontrara nada de certo, contentando-se com escrever as coisas que lhe parecem verossímeis e imaginando alguns princípios com que procurava explicar outras coisas. Quanto a Aristóteles, teve menos franqueza, e embora se mantivesse durante vinte anos como seu discípulo e não tivessem outros princípios senão os do seu mestre, alterou completamente a forma de os divulgar e propô-los como verdadeiros e seguros, embora não haja qualquer indício de os ter considerado como tais. Ora, esses dois homens tinham muito mais espírito e Sabedoria do [...], o lhes conferia muita autoridade. Assim, aqueles que vieram depois limitaram-se mais a seguir as suas opiniões do que a investigar alguma coisa melhor. A principal disputa que os seus discípulos tiveram foi tratar de saber se deviam por todas as coisas em dúvida ou então se havia alguma que fossem certas. Isso arrastou a uns e a outros, a extravagantes erros: aqueles que defendiam a dúvida logo a tornavam extensiva às ações da vida, de tal maneira que desprezavam o uso da prudência para se conduzirem; e os que sustentavam a certeza, supondo que devia depender dos sentidos. [...] Mas o erro dos que pendiam demasiado para o lado da dúvida não foi seguido durante muito tempo e o dos outros foi corrigido, pois reconheceu-se que os sentidos nos enganam acerca de muitas coisas. No entanto, que eu saiba, o erro ainda não foi completamente eliminado, pois não basta dizer que a certeza não se encontra nos sentidos: a certeza provém somente do entendimento quando este tem percepções evidentes. [...] Quem não conhecer tal verdade, ou se alguém a conhecer e não a utilizar, então a maior parte daqueles que nos últimos séculos quiseram ser filósofos seguiram Aristóteles cegamente, deturpando o sentidos dos seus escritos e atribuindo-lhe opiniões que ele próprio não a reconheceria como suas se voltasse ao mundo. No número dos que o seguiram incluem-se alguns dos melhores espíritos cuja juventude foi influenciada pelas suas opiniões, porque são as únicas que se ensinam nas escolas, o que os preocupou de tal maneira que não lograram chegar ao conhecimento dos verdadeiros princípios.[...] Depois de ter explicado tudo isso, gostaria de expor as razões que servem para provar que os verdadeiros princípios que permitem alcançar o mais algo grau da sabedoria, que consiste no soberano bem da vida, são aqueles que expus neste livro [6].

A crítica de Descartes não tem como único alvo as filosofias de Platão ou de Aristóteles, incluindo as filosofias deles derivadas, dirige-se também a diversos outros campos do saber, buscando sempre afirmar a razão, e somente a razão, como causa originária de todo conhecimento possível. Não só isso, Descartes quer mostrar que, em seu processo de construção, a razão encontra-se sozinha, não contando com nenhuma forma de conhecimento que a ela antecede, através do qual possa fundamentar a sua ordem de verdade [7].

Na primeira parte do Discurso do Método, Descartes, de forma direta, retira seu crédito à possibilidade de encontrar na Teologia, nas coisas que estão acima da inteligência humana, o lugar a partir do qual possa o homem construir as verdades da razão natural. Assim, para manter a razão no território do humano, sem se comprometer em demasia diante das autoridades eclesiásticas, mesmo recorrendo a certa ironia, dizendo que para se ter acesso às verdades reveladas é preciso ser mais que humano, Descartes demarca a diferença da natureza da verdade originária de sua filosofia, daquela produzida pela teologia, indicando que todo o seu projeto filosófico encontra-se subordinado nos limites da razão natural. "Eu reverenciava a nossa Teologia e pretendia, como qualquer outro, ganhar o céu; mas, tendo aprendido, como coisa muito segura,

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O que as pessoas acham de Descartes e a Invenção do Sujeito

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