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Para entender a comunicação

Para entender a comunicação

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Para entender a comunicação

notas:
5/5 (1 nota)
Duração:
261 páginas
2 horas
Lançados:
13 de mar. de 2014
ISBN:
9788534934671
Formato:
Livro

Descrição

Pesquisar comunicação é estudar o processo e a constituição da relação que se cria entre as pessoas. Para entender a comunicação tem o intuito de propor uma nova teoria, necessária e urgente, diante da velocidade da inovação tecnológica, da obsolescência das teorias correntes, da confusão entre as áreas temáticas e as pertinências que se estabeleceram nos últimos anos. Este volume traz, de forma simples e direta, algumas inovações em relação ao conceito de comunicação e suas novas formas de pesquisa.
Lançados:
13 de mar. de 2014
ISBN:
9788534934671
Formato:
Livro

Sobre o autor


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Para entender a comunicação - Ciro Marcondes Filho

Palavra primeira

Para entender a comunicação é a primeira obra que tenta antecipar os resultados de um trabalho de duas décadas, realizado na Universidade de São Paulo, cuja intenção foi a de propor uma nova teoria da comunicação. Esta teoria tornou-se urgente diante velocidade da inovação tecnológica, da obsolescência das teorias correntes, da confusão entre as áreas temáticas e as pertinências que se estabeleceu nos últimos anos e, finalmente, por causa da necessidade de se propor parâmetros teóricos e operacionais novos, frutos de um trabalho local para se realizar pesquisas de comunicação, em seu sentido mais preciso. É a contribuição brasileira ao saber acumulado na área.

Para tanto, o Núcleo de Estudos Filosóficos da Comunicação realizou vinte e três seminários, cada um com um semestre de duração, todos sob esse título, nova teoria da comunicação, onde foi feita uma varredura das grandes correntes filosóficas que trataram do tema comunicação, das principais teorias recentes e antigas de repercussão internacional, assim como dos autores e das escolas pouco conhecidas, marginalizadas, intencionalmente ou não ignorados do cenário geral dos estudos de comunicação. O resultado disso foi a publicação de vários livros intermediários e a trilogia Nova Teoria da Comunicação, cuja edição completa foi assumida pela Editora Paulus, de São Paulo, e que promete para 2009 a publicação final do terceiro volume, assim como do primeiro, totalmente reformulado.

Contudo, para preparar o público leitor universitário do país às suas principais constatações redigiu-se este pequeno volume, que busca trazer, de forma simples e direta, acessível aos estudantes de comunicação de todo o país, as principais inovações da obra, que têm a ver com o conceito de comunicação e com as novas formas da pesquisa em comunicação.

Comunicação é algo que ocorre entre as pessoas. Não é nada material, não é um esquema de caixinhas ligadas por fio, não é uma coisa que eu transmito, repasso, que eu desloco ao outro, como se eu pudesse abrir sua cabeça e pôr lá dentro minhas ideias, princípios, informações, seja o que for. Nada disso. Comunicação é uma relação entre pessoas, um certo tipo de ocorrência em que se cria uma situação favorável à recepção do novo.

Mais ainda: a emissão não tem necessariamente a ver com a recepção. São processos independentes. Todos querem emitir, falar, publicar, comunicar, seduzir, convencer, manipular, o mundo está pleno de divulgadores, de todos os tipos. Outra coisa, absolutamente distinta, é a recepção, o ato de eu aceitar o outro, permitir sua entrada dentro de mim, acolhê-lo, fazer o que era dele, meu. Mas esse outro (outra pessoa, outro objeto) não se mistura comigo, permanece estranho, insondável em sua natureza última. Comunicação é exatamente isso: o fato de eu receber o outro, a fala do outro, a presença do outro, o produto do outro e isso me transformar internamente. O lado oposto, o da emissão, é mera produção de sinais, não comunicação.

Se este é o conceito de comunicação que rege este livro e a Nova Teoria, qual seria, então, o novo conceito de pesquisa em comunicação? Vemos cotidianamente que nas escolas e faculdades de comunicação pesquisam-se jornais, telenovelas, spots publicitários, transmissões on-line, opinião pública e tantas outras coisas. Mas nem tudo isso, ou melhor, muito pouco dessas pesquisas são, de fato, pesquisas em comunicação no sentido estrito. Muitas vezes trata-se de história, sociologia, semiologia e semiótica, antropologia, psicologia, psicanálise da comunicação, ou seja, a leitura da comunicação por outra ciência, objeto de estudo delas. Da mesma forma, quando estudamos a produção: sistema de edição de um jornal, diagramação, leitura visual; quando analisamos a realização de um filme, os formatos técnicos utilizados, os clichês, os ângulos das tomadas; quando estudamos o discurso político, sua interpretação, seus códigos de linguagem. Tampouco é do campo específico da comunicação as interfaces dos meios de comunicação com o Estado, com a sociedade civil, com as instituições religiosas e demais. Temos aí, em todos esses casos, estudos de ciência política, de sociologia, de economia, de análise literária, todos eles necessários, importantes, merecedores de apoio e de financiamento. Mas nenhum deles se ocupa com o fenômeno da comunicação propriamente dita, lado esquecido da nossa pesquisa.

Por isso, o objeto da pesquisa em comunicação é a própria comunicação, não seus enredamentos políticos, sua economia, a comparação entre veículos ou gêneros, a história de sua atividade ou produção, o trabalho com comunidades virtuais, com a sociabilidade em rede, as questões ligadas ao corpo, à geografia, das transformações sociais das massas. Todos esses temas são importantes e decisivos para a área, mas pertencem às relações genéricas dos meios de comunicação com a sociedade; não tratam exatamente da comunicação.

Pesquisar a comunicação é estudar o processo e a constituição da relação que se cria entre as pessoas comunicantes, é falar da ocorrência do acontecimento comunicacional, que tem caráter único, efêmero, irrepetível; é falar da interveniência de fatos extralinguísticos na comunicação, de processos que são mais sentidos do que verbalizados; trata-se da captura do momento em que a comunicação se realiza e, em todos esses casos, é preciso que o pesquisador possa apreender a atmosfera presente, o clima criado, o incorpóreo que atravessa os atos. Tudo isso constitui o evento mágico da comunicação humana.

O pesquisador de comunicação voltado para este princípio não opera com métodos fixos e definitivos. Já que a comunicação é um processo dinâmico, instantâneo, pulsante, já que as tecnologias se superam a cada momento, já que se trata de operar de uma coisa viva, cujos efeitos se sentem na vibração da vida a cada momento, é preciso que o próprio procedimento de pesquisa se flexibilize, se adapte, se corrija e esta é uma das atribuições do pesquisador, a de atuar também desbravando, abrindo caminhos, renovando as mentes para acompanhar a renovação das técnicas.

Não há outra saída: ou nos instalamos nos processos comunicacionais para vê-los mais de perto, para poder melhor compreendê-los e comunicá-los a outros, ou seremos irremediavelmente deixados para trás no acompanhamento desse cometa que não pára de nos escapar.

Granja Vianna, 10 de novembro de 2007.

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1. Sobre Comunicação

– Meu nome é João. Eu tenho uma família, três filhos, vários amigos e outros tantos colegas de trabalho. Sempre estive com eles, conversando, contando as coisas que me aconteciam, trocando ideias, mas, recentemente, tenho a sensação de que isso não basta. Sinto-me só. Já procurei a igreja do bairro, já tentei recuperar antigas amizades, mas o resultado final tem sido o mesmo: parece que entre mim e as outras pessoas há uma muralha, uma barreira, eu tenho a impressão de que a comunicação que estabeleço com eles vai só até certo ponto, que ela fica muito aquém do necessário, que é pobre demais. Por isso eu vim aqui, pois, talvez, conversando com vocês, surja uma luz que me diga o que está acontecendo. Eu tenho às vezes pânico, tenho medo de que aumente essa sensação de solidão que me acompanha... Eu já falei isso à minha mulher, ela ouve, fica quieta, não tem respostas. Às vezes eu acho que ela sente a mesma coisa... Não sei, me dá um grande aperto no peito...

– Eu sou Marieta, tenho 23 anos, já tive vários relacionamentos, já gostei demais de uns caras, mas a coisa sempre degringolou. Parece que eles estão tão bem ao meu lado, mas, de repente, vão embora... Não me querem mais, não sei, talvez eu não seja suficientemente sexy para eles, sei lá... Eu sonho com alguém que me entenda, que saiba dos meus desejos, que penetre em minha alma, que viva essas coisas tão ardentes que rolam dentro de mim. Queria demais um cara que tivesse uma sensibilidade para certos cheiros, para perceber os tons de minha roupa, para me dizer se meu cabelo fica melhor assim ou assado, queria tanto, mas não acho... Tem vezes que me parece que o mundo dos homens é um mundo totalmente diferente do meu.

– Eu faço cinema, não sou nenhum grande realizador, faço cinema modesto, filmo meus amigos, bolo umas cenas legais, faço cortes, edito, exibo para as pessoas do bairro. Um dia sonho apresentar meu filme a um grande público, compartilhar minhas emoções com eles, sei lá, entrar nesse jogo do glamour, da grande tela, poder levar para o país inteiro as coisas que eu sinto. É minha forma de tentar melhorar a vida das outras pessoas, trazendo fatos, histórias, retratando personagens cotidianos, descrevendo suas dores, seus desejos, seus sonhos na tela. Bem, isso é meu desejo, mas estou aqui, como vocês todos, para dividir essa coisa complicada que é o contato humano. Às vezes tenho a sensação de que sou frio demais com os outros – já me falaram isso, que vou atrás das pessoas, mas, passado o primeiro encontro, já me desinteresso delas. Não sei se isso é uma doença, só sei que ultimamente tem me importunado, queria entregar-me mais, envolver-me mais, misturar-me na outra pessoa, mas não consigo...

– Meu nome é Sara. Sou jornalista há algum tempo, falo na rádio, às vezes na televisão, tenho uma vida muito conturbada, mal tenho tempo de ver meus filhos, meu marido vive reclamando que eu não paro em casa... Mas eu adoro essa minha vida, ela é tão animada, tão agitada... Adrenalina é meu forte. Acho que vou morrer disso um dia... Eu não consigo parar. A dinâmica da redação me deixa sempre acelerada, eu adoro entrar naquela agitação, todo mundo falando, discutindo, de repente, o governo apronta mais uma, um avião cai, um novo bando de estelionatários é descoberto. Eu vibro com isso, chego a ter orgasmos de tanto prazer... Mas à noite, quando chego em casa e olho meus filhos, ali, quietinhos, dormindo, quando vejo meu marido na cama, sozinho, entregue a seu cansaço e a seus sonhos, eu fico pensando: que diabo de vida! Como alguém pode viver assim? Como eu posso ser tão indiferente à vida das pessoas que me são mais próximas? E choro, choro muito, bebo meu uísque, fico lá, sentada na cozinha, sozinha, vendo a noite e as estrelas... Me dá uma vontade de morrer, mas eu não quero morrer, amo meus filhos, amo meu marido, mas estamos tão longe um do outro...

– Eu não sei o que faço em casa. Passo o tempo todo no computador. Para mim, a internet é a melhor coisa que já inventaram. Gente, eu participo de vários grupos de discussão, tenho meu blog, tenho amigos no mundo inteiro, chego da faculdade e já entro na internet. Participo das comunidades virtuais, tenho meu espaço na Second Life, sou um pouco viciado na coisa. Tem dias que eu me levanto, almoço, atravesso uma tarde inteira e uma noite, vou dormir e, no meio da insônia, ligo outra vez meu computador e continuo... Sou inveterado, não tem jeito, já é um vício... A coisa me consome. Meus pais falam que eu precisava sair, arranjar uma namorada, sair por aí, transar, mas eu não quero, não gosto da rua, não gosto da noite, me sinto incomodado com as pessoas, eu quero mesmo é isto: ficar de frente para a tela, navegar, visitar mundos virtuais... Mas, de repente, tenho medo do que seja isso, dessa vida, temo que mais tarde eu vá me arrepender de estar vivendo só para minha telinha...

Sobre a incomunicabilidade humana

As pessoas são diferentes, suas vidas são distintas umas das outras, mas há uma constante em todas elas: a incomunicabilidade. É o mal do século. Nosso século é o século da incomunicação. E o século do paradoxo, pois, em nenhuma outra época da história humana, as pessoas tiveram à sua disposição tantos meios de comunicação: telefones, mensagens eletrônicas, equipamentos para transmitir imagens, vozes, acontecimentos. Todos podem ser localizáveis, estejam aqui, na esquina ou do outro lado do mundo. Podemos criar amigos na China, no Alasca, na África do Sul, podemos trazer para nossa casa dados de bibliotecas do Irã, da Nigéria, da Irlanda, podemos ver o mesmo que estão vendo os californianos, os australianos, os italianos, em suma, o mundo inteiro tornou-se o quintal de nossa casa. O mundo veio para dentro de nosso espaço. E, mesmo assim, fala-se de incomunicabilidade? Como assim? Por que não nos comunicamos?

De certa forma, esse volume e essa quantidade de aparelhos, máquinas, sistemas, redes, acessos, canais, equipamentos nos cegam, nos iludem. Temos a sensação de estar entrando no paraíso, onde tudo é permitido, onde tudo é acessível, onde todas as coisas podem ser vistas, mas o resultado final é que isso tudo é enganoso, que caímos no conto do vigário, que nos venderam gato por lebre. Não melhoraram nossos relacionamentos, não reduzimos nossa sensação de estarmos sós, não nos tornamos mais felizes, não realizaram a promessa que faziam. Pelo simples motivo que essa promessa – a promessa de felicidade, de aconchego, de proximidade, de prazer com o outro, de amparo, de ligação, de companheirismo, de apoio – não tem nada a ver com esses aparelhos de comunicação. Eles apenas embaralham mais as coisas, escondem-nas, criam uma situação de festa e de empolgação que nos impede de ver que, além dela, além de todos esses objetos, além de todos esses aparelhos, ainda há seres humanos, pessoas como você e eu – caro leitor – que sentimos a necessidade de outras pessoas.

A família, o trabalho, a escola, o clube são espaços em que as pessoas estão próximas. Próximas fisicamente, posso tocá-las, beijá-las, abraçá-las. Eu tenho a sensação de que não estou só no mundo. Nós conversamos, rimos, contamos casos, histórias, acontecimentos, falamos de outros, relatamos o que fizemos, o que faremos. E ouvimos, damos palpite, fazemos sugestões, citamos casos parecidos. É tanta coisa que acontece nessas ocasiões. Precisamos disso, isso é nosso alimento da alma, não dá para viver sem o contato com as pessoas, nós enlouqueceríamos.

Mas isso não basta. Voltamos à casa. Olhamos os móveis, a decoração, os ambientes, olhamos a fotografia dos seres amados e volta a sensação de incompletude. Parece que os encontros, as conversas, os risos, os casos preencheram apenas uma parte de nossa existência. E uma parte menor. Nós queremos mais, temos nostalgia de uma comunicabilidade maior, ansiamos compartilhar com outros nossos medos, nossa angústia, nossa insegurança, nossos temores mais diversos. Seria tão bom se o outro estivesse dentro de mim e pudesse sentir as coisas como eu sinto!

Mas isso é impossível. Ninguém jamais poderá estar dentro da gente, sentir as coisas como a gente sente. Por isso, a primeira constatação, a comunicação plena, absoluta, total é impossível. Temos de nos conformar com isso. Eu só posso repassar ao outro algo de mim, uma informação, uma notícia, algo que minha linguagem consegue formular. Mas como o outro vai traduzir isso eu não sei, jamais saberei, está além de minha capacidade.

Comunicação não é transmissão, passagem de algo a outro

A comunicação, portanto, jamais pode ser vista como

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