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Transformações da política na era da comunicação de massa

Transformações da política na era da comunicação de massa

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Transformações da política na era da comunicação de massa

Duração:
633 páginas
8 horas
Lançados:
13 de mar. de 2014
ISBN:
9788534934725
Formato:
Livro

Descrição

Transformações da política na era da comunicação de massa de Wilson Gomes, lançamento Paulus, vem mostrar o que não representa mais nenhuma novidade hoje em dia, a dependência, por parte da atividade política, dos recursos e das linguagens da comunicação de massa. Políticos profissionais planejam as suas ações com um olho no jogo político partidário e outro no jornalismo; governantes nem podem se dar ao luxo de abrir mão de um conjunto de profissionais de comunicação habilitados a uma gestão eficiente da sua imagem; ninguém que tenha recursos e competência se apresenta a uma eleição sem considerar as suas chances em face de cada um dos emes fundamentais: media, money e marketing. Só que em alguns casos a obviedade em demasia tende a simplificar demais o olhar. Todos parecem saber demais sobre a política que se tornou um mero espetáculo da mídia, sobre o fato de que os políticos deixaram de ser agentes para serem atores da cena televisiva, sobre o fato de que os marqueteiros e os consultores de comunicação é que afinal decidem as eleições. Este livro pretende de algum modo desafiar esse conjunto de certezas. Para isso, põe-se a examinar de perto cada uma das teses que tratam da interface entre comunicação e política: a profissionalização da política através das consultorias de comunicação, a cobertura jornalística da política, a construção das imagens políticas e a luta pela imposição da imagem predominante dos políticos, a fabricação da opinião pública, o controle político da comunicação, a espetacularização da política. Depois, contrapõe à evidência presente o argumento histórico: o que a política se tornou parece muito diferente daquilo que a política sempre foi? Por exemplo, fala-se hoje que a competição pela produção de imagens públicas consome grande parte das energias no campo político, mas esquece-se que as prescrições de Maquiavel aos príncipes incluíam cuidadosos conselhos para a gestão de imagens.
Lançados:
13 de mar. de 2014
ISBN:
9788534934725
Formato:
Livro

Sobre o autor


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Amostra do livro

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Rosto

Sumário

PREFÁCIO

INTRODUÇÃO

O QUE HÁ DE COMUNICAÇÃO NA COMUNICAÇÃO POLÍTICA?

1. Meios de comunicação e política: apenas meios?

2. Comunicação: relevos e ambientes

2.1. A comunicação em dois campos

2.2. A profissionalização da comunicação política

NEGOCIAÇÃO POLÍTICA E COMUNICAÇÃO DE MASSA

1. Formas e agentes da luta política

2. A negociação política

2.1. As alianças sistemáticas

2.2. A barganha

3. Fatores que incidem sobre a política de negociação

3.1. A eleição interminável e a esfera de visibilidade pública

3.2. Os fatores publicidade

3.2.1. Palcos políticos e cotas de visibilidade

3.2.2. Risco de exposição negativa

3.2.3. Apoio popular

3.2.4. Imagem

A POLÍTICA EM CENA E OS INTERESSES FORA DE CENA

1. A insuficiência da idéia de duplo domínio e a perspectiva do terceiro convidado

2. Três domínios, um sistema

3. De como cada domínio obtém ou tenta obter o que quer dos outros

3.1. Negócios e política

3.2. Comunicação e negócios

3.3. Comunicação e política

O CONTROLE POLÍTICO DA COMUNICAÇÃO

1. Do controle da comunicação política

2. Do controle examinado de um ponto de vista normativo

A PROPAGANDA POLÍTICA: ÉTICA E ESTRATÉGIA

1. A propaganda na comunicação política

2. A propaganda política e a lógica da comunicação: três cenas e algumas questões

2.1. Primeira cena: da propaganda à telepropaganda

2.2. Segunda cena: crítica da propaganda eleitoral midiática

2.3. Terceira cena: o espaço legal e a manutenção da lógica midiática

3. Ética política e propaganda midiática

3.1. Pressupostos de uma ética da dimensão pública

3.2. Problemas éticos da nova propaganda política

3.2.1. Primeira questão: esfera da situação interativa ideal (a desigualdade das pré-condições argumentativas)

3.2.2. Segunda questão: esfera das pré-condições ético-pragmáticas da interação (estratégia persuasiva vs. pretenção de verdade)

A POLÍTICA DE IMAGEM

1. A disputa política e a disputa por imagem

2. Elementos para uma teoria da imagem pública política

2.1. A imagem pública: visual ou conceitual?

2.2. O fenômeno e a sua classe

2.3. Da dificuldade de identificação das imagens públicas

2.4. O fenômeno da imagem pública e a arte da política

2.5. Construindo a imagem pública política

2.6. Imagem pública e pesquisa de opinião

2.7. Imagens, perfis ideais e expectativas

3. Política de imagem

THEATRUM POLITICUM

1. A política e a arte de compor representações

2. Premissas sobre a dramatização da comunicação política contemporânea

2.1. A comunicação de massa e a lógica publicitária

2.2. A lógica midiática no sistema informativo

2.3. A demanda cognitiva da política e o sistema informativo da comunicação de massa

3. A dramaturgia política

3.1. A encenação da política: as astúcias teatrais da esfera política

3.2. O jornalismo-espetáculo: quando os jornalistas produzem o drama político

A TRANSFORMAÇÃO DA POLÍTICA

1. Política de aparências

1.1. Formulando o problema

1.2. A fabricação da glória de Luís XIV

1.3. Maquiavel e a prescrição do controle das aparências

2. A política-espetáculo

2.1. A política em cena

2.2. A dramaturgia política

2.3. A espetacularização da política

2.4. O simulacro político

2.5. As referências básicas

2.6. A política-espetáculo: continuidade ou descontinuidade?

2.6.1. As cerimônias do poder político

2.6.2. O manejo social das impressões

3. A transformação da política

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

PRE­FÁ­CIO

JOSÉ LUIZ BRAGA

Estou con­ven­ci­do de que este livro será obra de refe­rên­cia fun­da­men­tal para pes­qui­sa e estu­dos sobre as rela­ções en­tre comu­ni­ca­ção e polí­ti­ca – quais­quer que sejam os ob­je­­­ti­vos do lei­tor, aca­dê­mi­cos ou polí­ti­cos, teó­ri­cos ou prá­ti­cos, de ação polí­ti­ca ou de ação comu­ni­ca­cio­nal.

Jun­ta­men­te com esta con­vic­ção, decor­ren­te da lei­tu­ra que fiz dos ori­­­­gi­nais, sur­giu tam­bém a ques­tão de como expres­sar esse movi­men­to genuí­no de valo­ra­ção. Para subli­nhar o rigor da tare­fa, faço refe­rên­cia ao sen­ti­men­to de enor­me satis­fa­ção que senti quan­do o prof. Wil­son Gomes, por tele­fo­ne, con­vi­dou-me a escre­ver a apre­sen­ta­ção de seu livro – sen­ti­men­to ime­dia­ta­men­te con­fron­ta­do pela res­pon­sa­bi­li­da­de aca­dê­mi­ca e pes­soal dessa incum­bên­cia. Um dos ris­­cos pre­sen­tes seria o de fazer ape­nas elo­gios gené­ri­cos, de apre­cia­ção sub­je­ti­va. Ou então, ao ten­tar fugir dos adje­ti­vos de apre­cia­ção em dire­ção ao mais subs­tan­ti­vo, seria fácil cair no resu­mo dos acha­dos – usur­pan­do do livro e do lei­tor a tare­fa de ofe­re­cê-los no ­melhor momen­to e a de encon­trá-los no pra­zer da pró­pria des­co­ber­ta.

Apre­sen­tar um livro faz, por­tan­to, parte dos gêne­ros que, mais do que serem exer­ci­dos, pre­ci­sam ser desar­ma­di­lha­dos.

É pre­ci­so então sus­ten­tar aque­la con­vic­ção ini­cial em ­outras bases, que não ape­nas a admi­ra­ção pes­soal e aca­dê­mi­ca que tenho pelo autor. Creio que isto pode ser feito pela obser­va­ção do que se apren­de com a lei­tu­ra deste livro.

O autor nos fala sobre a trans­for­ma­ção da polí­ti­ca por sua entra­da em pro­ces­sos de comu­ni­ca­ção midia­ti­za­da (ou pela entra­da, nela, des­ses pro­ces­sos). Las­trea­do em exten­si­va refe­rên­cia a pes­qui­sas da área, no Bra­sil e no exte­rior, o autor as uti­li­za a ser­vi­ço de um eixo com­pos­to de pro­po­si­ções orde­na­do­ras e escla­re­ce­do­ras que são de sua pró­pria ofer­ta e con­tri­bui­ção. Esse olhar, vigo­ro­so e crí­ti­co, ultra­pas­sa o conhe­ci­men­to esta­be­le­ci­do. Não caben­do ante­ci­par, deixa-se ao livro e a seu lei­tor os ensi­na­men­tos e a apren­di­za­gem dessa con­tri­bui­ção – ape­nas enfa­ti­za­mos que todos os pon­tos tra­ta­dos nos capí­tu­los efe­ti­va­men­te con­ver­gem para o que o títu­lo da obra e o de seu capí­tu­lo final enfo­cam – as trans­for­ma­ções da polí­ti­ca.

Ao lado desta parte subs­tan­ti­va apren­de-se, ainda, com o que o prof. Wil­son faz sobre seu obje­to espe­cí­fi­co; e ao fazê-lo, o que traz como apor­tes para a inter­fa­ce e para o campo da comu­ni­ca­ção. Na cons­tru­ção de suas pro­po­si­ções sobre o obje­to (os pro­ces­sos ocor­ren­tes na inter­fa­ce entre a comu­ni­ca­ção e a polí­ti­ca e as trans­for­ma­ções con­se­qüen­tes, no espa­ço de uma socie­da­de midia­tizada) o texto, bem mais do que dizer suas pers­pec­ti­vas, desen­vol­ve ope­ra­ções por meio de seu pró­prio mate­rial, resul­tan­do em um fazer com o qual o lei­tor pode pro­du­ti­va­men­te inte­ra­gir.

Uma ati­vi­da­de rele­van­te (expres­sa­men­te pre­ten­di­da e que, como lei­tor, posso asse­gu­rar muito bem rea­li­za­da) é a de expor o esta­do da ques­tão. A abran­gên­cia de pon­tos em que a inter­fa­ce se põe como ques­tão con­cre­ta, como pro­ble­ma no espa­ço polí­ti­co-­social ou como desa­fio para a refle­xão em busca de conhe­ci­men­to é tal que o livro adqui­re a dimen­são de um quase-tra­ta­do. Ainda que haja (e cer­ta­men­te há) muito a des­bra­var nos ter­ri­tó­rios da inter­fa­ce, o tra­ba­lho topo­grá­fi­co rea­li­za­do mos­tra o des­bra­va­men­to feito até aqui por pes­qui­sa­do­res, mos­tran­do, bem, os ter­re­nos con­quis­ta­dos e os espa­ços que ainda pedem o inves­ti­men­to de pes­qui­sas.

A segun­da ofer­ta, dire­ta­men­te rela­cio­na­da com esta, cor­res­pon­de a subli­nhar o pro­ces­so em cons­tru­ção dos estu­dos da inter­fa­ce – tra­du­zin­do-se em hipó­te­ses esti­mu­la­do­ras de con­ti­nua­ção das pes­qui­sas. O texto se man­tém assim em aber­to, impli­ci­tan­do, por seu esfor­ço de abran­gên­cia, novos espa­ços nos quais a pes­qui­sa se reno­va­rá.

Uma ter­cei­ra ope­ra­ção do livro é de ordem pro­ces­sual. O modo de apre­sen­ta­ção das ­opções fei­tas pelo uso dos dados e conhe­ci­men­tos dis­po­ní­veis, da pro­po­si­ção inter­pre­ta­ti­va das ques­tões em pauta, e sobre­tu­do, o enca­mi­nha­men­to da refle­xão e do argu­men­to, tudo isso resul­ta em indi­ca­ções meto­do­ló­gi­cas ao vivo, pro­du­zi­das no pró­prio desen­vol­vi­men­to das ­idéias, obser­va­ções e tra­ta­men­to do mate­rial. Isto é, não se reduz a pro­por expli­ca­ções carac­te­ri­za­do­ras do fenô­me­no em obser­va­ção, mas cons­tan­te­men­te pro­duz ques­tões e modos de abor­da­gem que podem, por sua vez, ser uti­li­za­dos para novas pes­qui­sas e inter­pre­ta­ções. Trata-se de uma con­tri­bui­ção meto­do­ló­gi­ca impor­tan­te para os pes­qui­sa­do­res desse espa­ço espe­cí­fi­co, em que a polí­ti­ca e a comu­ni­ca­ção se rela­cio­nam em inci­dên­cia mútua.

Decor­re daí ainda outra con­tri­bui­ção, bem mais ampla em abran­gên­cia, embo­ra menos expres­sa nas inten­ções do autor – entre­tan­to ple­na­men­te rea­li­za­da. Trata-se da ofer­ta, tam­bém de ordem meto­do­ló­gi­ca, para o estu­do de inter­fa­ces que a comu­ni­ca­ção obser­va e entre­tém com múl­ti­plas áreas ­outras do fazer huma­no, ­social, ins­ti­tu­cio­nal. É sobre­tu­do atra­vés da com­preen­são e da for­ma­li­za­ção teó­ri­ca do conhe­ci­men­to sobre como estas inter­fa­ces se dão (em coo­pe­ra­ção e con­fli­to) que, acima das dife­ren­ças entre os diver­sos espa­ços de arti­cu­la­ção, o campo de estu­do se cons­trói na sua com­ple­xi­da­de e con­sis­tên­cia.

Essa cons­tru­ção do campo soli­ci­ta que se este­ja cons­tan­te­men­te aten­to para o que é pro­pria­men­te comu­ni­ca­cio­nal nos obje­tos espe­cí­fi­cos em pes­qui­sa, por con­tras­te ao que é pró­prio dos obje­ti­vos e pro­ces­sos da área de arti­cu­la­ção. A per­gun­ta-títu­lo do Capí­tu­lo 1 é emble­má­ti­ca dessa preo­cu­pa­ção, no livro, e marca a pre­sen­ça desse pro­ce­di­men­to de cons­tru­ção do campo de estu­dos em Comu­ni­ca­ção: O que há de Comu­ni­ca­ção na Comu­ni­ca­ção Polí­ti­ca?

O campo da comu­ni­ca­ção (tanto no ambien­te ­social como na pro­du­ção de conhe­ci­men­to aca­dê­mi­co) é estru­tu­ral­men­te um âmbi­to de inter­fa­ces. Na socie­da­de, a pro­ces­sua­li­da­de comu­ni­ca­cio­nal se rea­li­za por inclu­si­vi­da­de, obser­van­do e absor­ven­do, de modo avas­sa­la­dor, toda e qual­quer ação ou temá­ti­ca ­social. Carac­te­ri­za-se tam­bém por sua pene­tra­bi­li­da­de – modi­fi­can­do na ori­gem todos os ­demais pro­ces­sos ­sociais –, que na socie­da­de midia­ti­za­da vêem seus obje­ti­vos, pro­ce­di­men­tos e cri­té­rios refor­mu­la­dos no pró­prio sur­gi­men­to, de modo gené­ti­co (e não ape­nas por acrés­ci­mo pos­te­rior), em fun­ção das neces­si­da­des de inte­ra­ção, de visi­bi­li­da­de, de inser­ção mais ampla que a do cír­cu­lo dos ini­cia­dos.

No âmbi­to da pro­du­ção de conhe­ci­men­to, o inte­ra­cio­nal mul­ti­fa­ce­ta­do segue essa neces­si­da­de (estru­tu­ral), uma vez que o obje­to não apa­re­ce nunca em esta­do puro (que seria o exclu­si­va­men­te comu­ni­ca­cio­nal), iso­la­do de moti­vos e pro­ces­sos ­outros, que lhe dão tona­li­da­des.

Não se trata de abs­trair o obje­to (por um gesto epis­te­mo­ló­gi­co que seria arti­fi­cial) de suas ins­tân­cias prag­má­ti­cas de exis­tên­cia. Exige-se, por­tan­to, refe­rên­cia fre­qüen­te a teo­rias ­sociais, psi­co­ló­gi­cas, his­tó­ri­cas, pra­xio­ló­gi­cas, lin­güís­ti­cas, antro­po­ló­gi­cas – sem entre­tan­to nos cir­cuns­cre­ver­mos a qual­quer delas, para assim nos man­ter­mos perto do obje­to em sua exis­tên­cia con­cre­ta e ­social, para cons­truir o obje­to enquan­to ins­tân­cia teó­ri­co-meto­do­ló­gi­ca de comu­ni­ca­ção.

Assim, uma inter­fa­ce com­ple­xa, como aque­la entre a comu­ni­ca­ção e a polí­ti­ca, tra­ta­da com habi­li­da­de e rigor, ilu­mi­na ques­tões e abor­da­gens para o estu­do de ­outras inter­fa­ces. Isso faz deste livro uma refe­rên­cia rele­van­te para todos os pes­qui­sa­do­res em comu­ni­ca­ção – mesmo quan­do estes não este­jam par­ti­cu­lar­men­te preo­cu­pa­dos com as peri­pé­cias da inter­fa­ce polí­ti­ca que é seu obje­to pró­prio.

O que se tem a apren­der (para pes­qui­sa­do­res preo­cu­pa­dos com ­outras inter­fa­ces, menos cons­truí­das) não decor­re­rá, por­tan­to, de asse­me­lha­men­tos, que jus­ta­men­te ­seriam sim­pli­fi­ca­do­res. Mas da trans­fe­rên­cia de abor­da­gens (muta­tis mutan­dis essa é a ques­tão rele­van­te: mudan­do o que pre­ci­sa ser muda­do, nas per­cep­ções, con­cei­tos e pers­pec­ti­vas); da obser­va­ção das dife­ren­ças e das espe­ci­fi­ci­da­des que, carac­te­ri­za­do­ras variá­veis de cada âmbi­to de inter­fa­ce, podem aju­dar a com­por em sua com­ple­xi­da­de (e em cons­tan­te modi­fi­ca­ção) um acer­vo teó­ri­co-e-obser­va­cio­nal que nos devol­va, por sua vez, o que é o comu­ni­ca­cio­nal arti­cu­la­dor des­sas dife­ren­ças.

Por fim, como mais uma con­tri­bui­ção – e não de menor impor­tân­cia – o texto é claro, mar­ca­do pelo sen­ti­do mais essen­cial do valor didá­ti­co. Se há com­ple­xi­da­de no obje­to, não se adota, por isso, com­pli­ca­ções de texto. Ao con­trá­rio, o esfor­ço gene­ro­so é o de tor­nar aces­sí­vel, até para o não-espe­cia­lis­ta, uma com­preen­são dos pro­ces­sos envol­vi­dos. Isto não sig­ni­fi­ca que o livro seja fácil, mas que o esfor­ço inte­lec­tual de ­seguir sua argu­men­ta­ção é sem­pre recom­pen­sa­do por um enca­mi­nha­men­to segu­ro e esti­mu­lan­te.

SOBRE WIL­SON GOMES

Final­men­te, não posso dei­xar de fazer refe­rên­cia às com­pe­tên­cias e carac­te­rís­ti­cas do autor. Para escre­ver esta obra, muita pes­qui­sa foi feita, e mui­tas lei­tu­ras refle­ti­das. Aque­les que conhe­cem o pro­f. Wil­son Gomes sabem da serie­da­de com que se dedi­cou a este tra­ba­lho. Mas é pre­ci­so, tal­vez, mais que isso. É con­ve­nien­te que, ­depois de for­ma­do em filo­so­fia (incluin­do estu­dos na Ale­ma­nha e dou­to­ra­men­to na Itá­lia), o pes­qui­sa­dor volte ao Bra­sil para tra­ba­lhar no Pro­gra­ma de Pós-Gra­dua­ção em Comu­ni­ca­ção da UFBA no momen­to de sua maior pro­du­ti­vi­da­de e efer­ves­cên­cia pro­po­si­ti­va. Que tenha con­ta­to com pes­qui­sa­do­res já che­ga­dos ao campo – e neste, par­ti­ci­pe ati­va­men­te de um ambien­te de deba­te. Que lance um olhar seve­ro e crí­ti­co sobre o que aí se faz – mas não se limi­te a cri­ti­car. E, arre­ga­çan­do as man­gas, que tra­ba­lhe ati­va­men­te na exi­gên­cia e na supe­ra­ção, apren­den­do com isto um olhar de abran­gên­cia para nele ­situar seu obje­to. Ainda par­ti­ci­pa ati­va­men­te de um dos Gru­pos de Tra­ba­lho da Com­pós, mais aguer­ri­do no deba­te inter­no – o de comu­ni­ca­ção e polí­ti­ca –, jus­ta­men­te para, no tra­ba­lho de pro­pos­tas, pes­qui­sas e obje­ções, desen­vol­ver em acui­da­de sua refle­xão.

Ter coor­de­na­do o Pro­gra­ma de Pós-Gra­dua­ção em Comu­ni­ca­ção e Cul­tu­ra da UFBA e ter repre­sen­ta­do a área da comu­ni­ca­ção na Capes cer­ta­men­te con­tri­bui para essa for­ma­ção, uma vez que para além das obri­ga­ções deli­be­ra­ti­vas e de ges­tão ine­ren­te aos car­gos, o autor desen­vol­veu um conhe­ci­men­to com­preen­si­vo e ago­nís­ti­co (como é neces­sá­rio para os sabe­res sóli­dos) do que a área diz e do que a área faz. O que tal­vez expli­que a per­ti­nên­cia da ins­cri­ção de sua temá­ti­ca espe­cí­fi­ca nos melho­res obje­ti­vos de cons­tru­ção do campo da comu­ni­ca­ção.

O rigor argu­men­ta­ti­vo e a cla­re­za de ­idéias de Wil­son Gomes têm se mani­fes­ta­do em todas as ins­tân­cias nas quais, nos últi­mos doze anos, desde que o conhe­ci, temos nos encon­tra­do, seja nas con­ver­sas de ami­za­de, seja no diá­lo­go – às vezes tenso – da refle­xão aca­dê­mi­ca e das polí­ti­cas da área. Nem sem­pre con­cor­da­mos – e sei que o tra­ba­lho do desa­cor­do exige do inter­lo­cu­tor uma pres­te­za de racio­cí­nio, uma com­pe­tên­cia ver­bal e um rigor argu­men­ta­ti­vo difí­ceis de sus­ten­tar. Mas sei tam­bém que, con­cor­dan­do ou dis­cor­dan­do, pode­mos sem­pre ter a con­fian­ça de encon­trar uma forte con­sis­tên­cia entre suas ­idéias e suas ações, e cla­re­za entre o que pensa e o des­te­mor com que expõe seu pen­sa­men­to.

INTRO­DU­ÇÃO

A uno prin­ci­pe, adun­que, non è neces­sa­rio avere tutte le sopras­crit­te qua­li­tà, ma è bene neces­sa­rio pare­re di aver­le. Anzi, ardi­rò di dire ques­to, che aven­do­le et osser­van­do­le sem­pre, sono dan­no­se, e paren­do di aver­le, sono utile: co­me pare­re pie­to­so, fede­le, umano, inte­ro, rel­li­gio­so, et esse­re; mas stare in modo edi­fi­ca­to con ­l’animo, che, bisog­nan­do non esse­re, tu possa e sappi muta­re al con­tra­rio. (Machia­vel­li, Il Prin­ci­pe, sezio­ne XVIII.)

Há basi­ca­men­te três está­gios na lite­ra­tu­ra sobre comu­ni­ca­ção e polí­ti­ca¹. Pri­mei­ro há a fase dos estu­dos dis­per­sos sobre aque­les fenô­me­nos sin­gu­la­res da polí­ti­ca onde se veri­fi­ca uma pre­sen­ça impor­tan­te da comu­ni­ca­ção de massa ou sobre aspec­tos da comu­ni­ca­ção de massa com inci­dên­cia na polí­ti­ca. As duas pers­pec­ti­vas estão cons­tan­te­men­te impli­ca­das, mas pode­mos iden­ti­fi­car, gros­so modo, os estu­dos sobre voto como uma ilus­tra­ção do pri­mei­ro aspec­to e os estu­dos sobre pro­pa­gan­da como um exem­plo do segun­do. Nesta fase mais remo­ta, os estu­dos con­cen­tram-se nes­ses aspec­tos mais pro­nun­cia­dos do refle­xo daqui­lo que então foi cha­ma­do de mass media – expres­são taqui­grá­fi­ca para rádio, impren­sa, cine­ma e, pos­te­rior­men­te, tele­vi­são – em com­por­ta­men­tos típi­cos da vida polí­ti­ca, par­ti­cu­lar­men­te a pro­pa­gan­da (pen­se­mos no impac­to da pro­pa­gan­da béli­ca nas duas guer­ras mun­diais), a opi­nião públi­ca e a deci­são de voto (Ber­nays 1928; Lipp­man 1922; Tcha­ko­ti­ne 1939; Lazars­feld et al. 1944; Smith, Lass­well e Casey 1946; Lazars­feld 1954).

Nes­ses anos, que vão da déca­da de 20 à meta­de dos anos 40, a lite­ra­tu­ra é escas­sa e, con­cen­tra-se sobre­tu­do, em pro­ble­mas iso­la­dos pela pes­qui­sa, prin­ci­pal­men­te nos três está­gios indi­ca­dos acima. Nesse momen­to, e até por pelo menos mais três déca­das, o ponto de vista da aná­li­se é dado pelas gran­des cate­go­rias – a polí­ti­ca ou a socie­da­de – enquan­to as ins­ti­tui­ções da comu­ni­ca­ção de massa, esses ­núcleos que são ao mesmo tempo dis­po­si­ti­vos téc­ni­cos, for­ma­ções ­sociais e recur­sos expres­si­vos, são con­si­de­ra­das numa pers­pec­ti­va ins­tru­men­tal, isto é, como meras inter­me­diá­rias, como meios entre os dois pólos que real­men­te con­tam. São meios ou ins­tru­men­tos de que os Esta­dos, a socie­da­de ou os par­ti­cu­la­res lan­ça­riam mão para pro­du­zir um certo efei­to ou rea­li­zar uma deter­mi­na­da fun­ção. A pers­pec­ti­va ins­tru­men­tal refle­te uma con­cep­ção que atri­bui pouca impor­tân­cia às pro­prie­da­des ima­nen­tes da comu­ni­ca­ção de massa² (sua lógi­ca, seus regis­tros, sua gra­má­ti­ca, suas pro­prie­da­des como ins­ti­tui­ção ­social), ao mesmo tempo em que tende a exa­ge­rar a capa­ci­da­de dos efei­tos que esses novos meios pro­du­zem nas pes­soas, seja por­que eles alcan­çam ao mesmo tempo uma espan­to­sa quan­ti­da­de de pes­soas (as mas­sas), seja por­que pare­ce que os indi­ví­duos não têm defe­sa em face do seu poder de influen­ciar deci­são, gosto e opi­nião, como se acre­di­ta­va até os anos 40, seja, enfim, alter­na­ti­va­men­te, por­que são capa­zes de con­for­mar e repro­du­zir, sis­te­ma­ti­ca­men­te, a longo ou curto prazo, dire­ta­men­te ou atra­vés de media­ções, os sis­te­mas ­sociais, as repre­sen­ta­ções domi­nan­tes, a cul­tu­ra do capi­ta­lis­mo, como repe­ti­ram as pers­pec­ti­vas crí­ti­cas até bem pouco tempo atrás. São vis­tos, então, como meios que se podem empre­gar para o bem ou para o mal. Prin­ci­pal­men­te para o mal, como repe­ti­da­men­te afir­mou um pen­sa­men­to da sus­pei­ta com rela­ção à comu­ni­ca­ção de massa que insis­tiu em acom­pa­nhar a pes­qui­sa em comu­ni­ca­ção duran­te pra­ti­ca­men­te todo o sécu­lo XX³.

Acre­di­to que se possa ­situar em algum momen­to nos anos 60 o sur­gi­men­to de ten­ta­ti­vas de se pen­sar não mais sim­ples­men­te os efei­tos dos meios e recur­sos da comu­ni­ca­ção nos fatos da polí­ti­ca, mas a rela­ção entre duas gran­de­zas ins­ti­tu­cio­nais: a comu­ni­ca­ção e a polí­ti­ca. A auto­no­mia cres­cen­te da indús­tria da comu­ni­ca­ção e da indús­tria cul­tu­ral que lhe esta­va asso­cia­da, se ainda não leva­va a uma crise da pers­pec­ti­va ins­tru­men­tal dos meios de massa, pelo menos obri­ga­va a pen­sar a comu­ni­ca­ção como uma uni­da­de ins­ti­tu­cio­nal. Mas ainda são os anos da incer­te­za sobre a natu­re­za da comu­ni­ca­ção impli­ca­da na rela­ção com a polí­ti­ca, isto é, da dúvi­da sobre se afi­nal se tra­ta­va de comu­ni­ca­ção de massa, de comu­ni­ca­ção huma­na em geral ou de ambas.

Um ­manual des­ses anos, de ­Richard F. Fagen, então pro­fes­sor na Uni­ver­si­da­de de Stan­ford, é um bom exem­plo da con­cep­ção que se ins­ta­la­va. O títu­lo indi­ca­va a pers­pec­ti­va da con­tra­po­si­ção entre duas ins­ti­tui­ções: Poli­tics and Com­mu­ni­ca­tion. Mas o termo co­mu­ni­ca­ção ­incluía na sua refe­rên­cia toda a comu­ni­ca­ção huma­na, natu­ral­men­te a par­tir da sua rela­ção com o uni­ver­so da polí­ti­ca. Isso ­inclui desde a cober­tu­ra de fatos de impor­tân­cia públi­ca pelo jor­na­lis­mo (o exem­plo é o assas­si­na­to do pre­si­den­te ame­ri­ca­no Ken­nedy ocor­ri­do em 1963) até o con­jun­to das men­sa­gens gera­das, trans­mi­ti­das e rece­bi­das por públi­cos espe­ciais, como uni­da­des mili­ta­res, ins­ti­tui­ção gover­na­men­tal e gover­nos estran­gei­ros a par­tir do ata­que japo­nês a Pearl Har­bor, desde as inte­ra­ções ­sociais até as rela­ções inter­na­cio­nais (inter­câm­bios de mer­ca­do­rias, pes­soas e docu­men­tos) e a con­ver­sa­ção civil.

É claro que uma defi­ni­ção tão ampla da comu­ni­ca­ção tem a fun­ção de asse­gu­rar a sua impor­tân­cia para a polí­ti­ca, numa demons­tra­ção que reve­la quão peque­na era a segu­ran­ça do autor quan­to às pos­si­bi­li­da­des de con­tra­por sim­ples­men­te, como se faz hoje, a comu­ni­ca­ção de massa e a ati­vi­da­de polí­ti­ca⁴. Não pode­mos con­ce­ber o exer­cí­cio do poder por parte do indi­ví­duo A sobre o indi­ví­duo B sem algu­ma comu­ni­ca­ção de A para B, decla­ra Fagen (1971: 17) na cer­te­za de que assim se jus­ti­fi­ca apro­xi­mar comu­ni­ca­ção e polí­ti­ca. Ade­mais, essa rela­ção faria parte da natu­re­za his­tó­ri­ca da polí­ti­ca. Hoje em dia, como há três mil anos, o rei ainda con­sul­ta os seus minis­tros, os cam­po­ne­ses ainda se reú­nem no campo e se quei­xam do gover­no, os ­homens ainda se reú­nem nos cafés para dis­cu­tir polí­ti­ca e os cida­dãos ainda cho­ram na rua à pas­sa­gem do fére­tro real (p. 15). Em suma, Fagen crê jus­ti­fi­ca­da a rela­ção pro­pos­ta entre as duas cate­go­rias por­que a comu­ni­ca­ção como pro­ces­so pene­tra a polí­ti­ca como ati­vi­da­de e por­que mesmo quan­do não é ime­dia­ta­men­te óbvio, pode­mos des­cre­ver mui­tos aspec­tos da vida polí­ti­ca como tipos de comu­ni­ca­ção (p. 29).

Entre os anos 60 e iní­cio dos anos 70 o foco das con­si­de­ra­ções muda. A comu­ni­ca­ção havia se trans­for­ma­do muito rapi­da­men­te numa indús­tria poten­te e espa­lha­da pelo mundo e a prá­ti­ca polí­ti­ca que se apoia­va na comu­ni­ca­ção de massa já se difun­dia pelas gran­des demo­cra­cias do pla­ne­ta. A ame­ri­ca­ni­za­ção da polí­ti­ca era per­ce­bi­da, então, como um fato irre­ver­sí­vel. Nesse con­tex­to, surge a segun­da fase da pes­qui­sa em comu­ni­ca­ção polí­ti­ca.

De ins­tru­men­tal e enver­go­nha­da, a comu­ni­ca­ção de massa e a indús­tria cul­tu­ral são apre­sen­ta­das agora no cen­tro da cena das ins­ti­tui­ções ­sociais. Este é o momen­to dos pri­mei­ros gran­des estu­dos mono­grá­fi­cos teó­ri­cos sobre a comu­ni­ca­ção polí­ti­ca (não o pro­ces­so da comu­ni­ca­ção huma­na, mas a comu­ni­ca­ção de mas­sas) e sobre a sua impor­tân­cia para a vitó­ria elei­to­ral e para o exer­cí­cio do gover­no. Este é, sobre­tu­do, o momen­to das pri­mei­ras for­mu­la­ções ­gerais sobre a polí­ti­ca con­quis­ta­da e domi­na­da pelos meios de comu­ni­ca­ção. Em algum ponto não pre­ci­sa­men­te iden­ti­fi­ca­do da his­tó­ria as coi­sas se inver­te­ram para os pes­qui­sa­do­res, e o fize­ram com gran­de rapi­dez. De uma lite­ra­tu­ra segun­do a qual há meios à dis­po­si­ção dos agen­tes ­sociais e dos gover­nos, pas­sa­mos ver­ti­gi­no­sa­men­te a uma lite­ra­tu­ra onde a comu­ni­ca­ção apa­re­ce como campo ­social pre­do­mi­nan­te que impõe as suas estra­té­gias e lin­gua­gens à polí­ti­ca e suas opi­niões, ima­gens e agen­das ao públi­co.

Essa fase dos estu­dos, que acre­di­to estar se encer­ran­do agora, herda da fase ante­rior um posi­cio­na­men­to geral­men­te des­con­fia­do com rela­ção à comu­ni­ca­ção de massa e ao seu lugar no con­jun­to da vida ­social. A pri­mei­ra gera­ção de tex­tos sis­te­má­ti­cos sobre comu­ni­ca­ção e polí­ti­ca pode ser clas­si­fi­ca­da, con­for­me a dico­to­mia cria­da por Umber­to Eco, como mar­ca­da­men­te apo­ca­líp­ti­ca. Os juí­zos são seve­ros, nega­ti­vos e se con­cen­tram numa espé­cie de inven­tá­rio de per­das huma­nas, ­sociais e polí­ti­cas que a novi­da­de com­por­ta­ria. As teo­rias dos efei­tos limi­ta­dos, que pre­do­mi­nam na pes­qui­sa ame­ri­ca­na entre os anos 40 e 60, podem ser cor­re­ta­men­te vis­tas, desta pers­pec­ti­va, como ape­nas um impor­tan­te inter­va­lo entre a ati­tu­de de sus­pei­ta das pri­mi­ti­vas teo­rias dos efei­tos dire­tos e as abor­da­gens crí­ti­cas ins­pi­ra­das no neomar­xis­mo ou nos Estu­dos Cul­tu­rais (Wolf 1985 e 1992).

Com a crise do cha­ma­do pen­sa­men­to crí­ti­co e a entra­da em cena dos mode­los de abor­da­gem inte­res­sa­dos na aná­li­se das estru­tu­ras de sen­ti­do e dos meca­nis­mos ope­ran­tes na comu­ni­ca­ção e cul­tu­ra de massa, que ­tinham sur­gi­do nos anos 70 e cau­sa­ram gran­de impac­to nas pes­qui­sas dos anos 80, o ponto de vista nega­ti­vo deixa de ser o dia­le­to bási­co da comu­ni­ca­ção polí­ti­ca. Mas ape­nas no sen­ti­do de que agora tam­bém têm lugar pers­pec­ti­vas mais inte­res­sa­das em enten­der e des­cre­ver os fenô­me­nos do que em julgá-los, e até pers­pec­ti­vas cele­bra­ti­vas do novo mundo da polí­ti­ca midiática. A pers­pec­ti­va crí­ti­ca, entre­tan­to, con­ti­nua cons­ti­tuin­do a maior parte dos dis­cur­sos sobre a comu­ni­ca­ção polí­ti­ca, prin­ci­pal­men­te na pes­qui­sa teó­ri­ca e nos dis­cur­sos situa­dos nos cam­pos ­sociais fora dos cír­cu­los mais res­tri­tos dos pes­qui­sa­do­res da área.

Dos anos 70 aos anos 90 a pers­pec­ti­va domi­nan­te nessa área de estu­do ainda regis­tra e acom­pa­nha a sur­pre­sa com o fato de a comu­ni­ca­ção e a cul­tu­ra de massa irem ocu­pan­do o cen­tro da cena ­social e a preo­cu­pa­ção com os modos e a velo­ci­da­de com que o fazem. Em ­alguns casos, prin­ci­pal­men­te nos for­mu­la­do­res de teo­rias ­gerais da polí­ti­ca ou da demo­cra­cia na era da comu­ni­ca­ção de massa, a sur­pre­sa mani­fes­tou-se nes­ses anos prin­ci­pal­men­te como incô­mo­do. Em ­outros, ape­nas como a curio­si­da­de que move os pro­ce­di­men­tos da inves­ti­ga­ção empí­ri­ca, do estu­do de casos, das aná­li­ses de con­jun­tu­ra e dos levan­ta­men­tos. Nas déca­das de 80 e 90, quan­do cer­ta­men­te se publi­cou muito mais sobre comu­ni­ca­ção e polí­ti­ca que nos seten­ta anos pre­ce­den­tes e quan­do real­men­te se for­mou uma espe­cia­li­da­de, a área acu­mu­lou um volu­me de pes­qui­sa que não se con­se­gue mais acom­pa­nhar, tão gran­de a diver­si­da­de dos aspec­tos con­si­de­ra­dos, o volu­me e a pro­ce­dên­cia geo­grá­fi­ca dos auto­res.

Desse modo, a comu­ni­ca­ção polí­ti­ca, em par­ti­cu­lar, e a inter­fa­ce entre a polí­ti­ca e os fenô­me­nos, recur­sos e lin­gua­gens da co­mu­ni­ca­ção de massa, em geral, des­pon­tam nas últi­mas déca­das como uma área de inte­res­se cen­tral para os pes­qui­sa­do­res de ciên­cias polí­ti­cas, comu­ni­ca­ção, filo­so­fia polí­ti­ca e de ­outras ciên­cias ­sociais. Pouco a pouco foi se for­man­do uma espe­cia­li­da­de inter­dis­ci­pli­nar, sobre a qual se acu­mu­lam pes­qui­sas empí­ri­cas e estu­dos teó­ri­cos em um volu­me con­si­de­ra­vel­men­te ele­va­do e que vem cres­cen­do em pro­por­ções extraor­di­ná­rias nos últi­mos anos. Apa­re­ce pri­mei­ro como uma espe­cia­li­da­de das ciên­cias ­sociais ame­ri­ca­nas, para, enfim, ­ganhar o mundo no ras­tro da dis­se­mi­na­ção do pró­prio fenô­me­no que lhe é obje­to. O cres­ci­men­to da área é tão gran­de que os estu­dio­sos, que já não con­se­guem acom­pa­nhar toda a biblio­gra­fia, come­çam a cul­ti­var espe­cia­li­da­des den­tro da espe­cia­li­da­de, uns se ocu­pan­do do estu­do das cam­pa­nhas polí­ti­cas, ­outros dos meca­nis­mos da demo­cra­cia em face das mudan­ças na polí­ti­ca em fun­ção da comu­ni­ca­ção, ­outros ainda do jor­na­lis­mo polí­ti­co e da cober­tu­ra da impren­sa do jogo polí­ti­co, ­outros, por fim, come­çam a se dedi­car a uma espé­cie de comu­ni­ca­ção polí­ti­ca com­pa­ra­da entre as ­várias ­regiões do mundo etc.

Mas um campo de pes­qui­sas não se forma, pelo menos não tão rapi­da­men­te e com tanta inten­si­da­de, se não hou­ver um fenô­me­no na ordem da rea­li­da­de que o jus­ti­fi­que. De fato, o que salta aos olhos de todos neste momen­to, é a velo­ci­da­de com que um mode­lo de inter­fa­ce entre as esfe­ras da comu­ni­ca­ção de massa e da polí­ti­ca se esta­be­le­ceu e se espa­lhou pelo mundo nas últi­mas três, no máxi­mo qua­tro déca­das. Em geral des­ta­cam-se os seguin­tes aspec­tos:

1. Que a polí­ti­ca con­tem­po­râ­nea, do exer­cí­cio do gover­no à dis­pu­ta elei­to­ral, se esta­be­le­ce numa estrei­ta rela­ção com a comu­ni­ca­ção de massa. Ganha ares de evi­dên­cia comum o fato de que gran­de parte da ação polí­ti­ca se dá em rela­ção com a comu­ni­ca­ção, que os agen­tes polí­ti­cos (mesmo aque­les da socie­da­de civil) ten­dem a atuar para esfe­ra de visi­bi­li­da­de públi­ca con­tro­la­da pela comu­ni­ca­ção, que gran­de parte (senão tudo) da polí­ti­ca se encer­ra nos meios, lin­gua­gens, pro­ces­sos e ins­ti­tui­ções da comu­ni­ca­ção de massa, que a pre­sen­ça da tele­vi­são alte­rou a ati­vi­da­de polí­ti­ca e exi­giu a for­ma­ção de novas com­pe­tên­cias e habi­li­da­des no campo polí­ti­co que lhe trans­for­ma­ram sig­ni­fi­ca­ti­va­men­te a con­fi­gu­ra­ção inter­na.

2. Que, em fun­ção disso, as estra­té­gias elei­to­rais em par­ti­cu­lar e as estra­té­gias polí­ti­cas em geral ­supõem uma cul­tu­ra polí­ti­ca cen­tra­da no con­su­mo de ima­gens públi­cas. Os pro­ce­di­men­tos de pro­du­ção e cir­cu­la­ção de ima­gens e de dis­pu­ta pela impo­si­ção das ima­gens pre­do­mi­nan­tes des­lo­cam-se em dire­ção ao cen­tro da ati­vi­da­de estra­té­gi­ca da polí­ti­ca.

3. Que tais estra­té­gias, para serem efi­cien­tes, soli­ci­tam as com­pe­tên­cias e as habi­li­da­des téc­ni­cas do mar­ke­ting, da son­da­gem de opi­nião, das con­sul­to­rias de ima­gem, das aná­li­ses de opi­nião públi­ca e das asses­so­rias de comu­ni­ca­ção. Tais habi­li­da­des e com­pe­tên­cias se cons­ti­tuí­ram, por con­se­guin­te, num uni­ver­so de ser­vi­ços polí­ti­cos essen­ciais para o suces­so das ins­ti­tui­ções nas com­pe­ti­ções elei­to­rais e no exer­cí­cio do gover­no.

4. Que a depen­dên­cia da comu­ni­ca­ção de massa com­por­ta a ne­ces­si­da­de de que, em fun­ção de cál­cu­los de efi­ciên­cia, os dis­cur­sos polí­ti­cos pre­do­mi­nan­tes sejam orga­ni­za­dos de acor­do com a gra­má­ti­ca espe­cí­fi­ca das lin­gua­gens dos meios onde devem cir­cu­lar. Lin­gua­gens que vêm a ser jus­ta­men­te aque­las que orien­tam a apre­cia­ção e o con­su­mo de men­sa­gens por parte dos públi­cos que se dese­ja alcan­çar. Donde a neces­si­da­de de con­ver­são do dis­cur­so polí­ti­co segun­do a gra­má­ti­ca do audio­vi­sual e as fór­mu­las de exi­bi­ção e de nar­ra­ção pró­prias do uni­ver­so do entre­te­ni­men­to. Decor­re desse pres­su­pos­to a evi­dên­cia da cen­tra­li­da­de de estra­té­gias vol­ta­das para a pro­du­ção e admi­nis­tra­ção de afe­tos e de emo­ções, para a con­ver­são de even­­tos e ­idéias em nar­ra­ti­vas e para o des­ta­que daqui­lo que é espe­ta­cu­lar, inco­mum ou escan­da­lo­so.

5. Que as estra­té­gias polí­ti­cas, apoia­das em dis­po­si­ti­vos e re­cur­­sos da comu­ni­ca­ção, vol­tam-se dire­ta­men­te para os públi­cos que cons­­­ti­tuem a audiên­cia dos meios de infor­ma­ção e entre­te­ni­men­to e que, por con­se­guin­te, for­mam a clien­te­la que deman­da e con­so­me os seus pro­du­tos. A supo­si­ção domi­nan­te é de que as audiên­cias podem ser con­ver­ti­das em elei­to­res, nos perío­dos elei­to­rais, e em opi­nião públi­ca favo­rá­vel, no jogo polí­ti­co regu­lar, atra­vés da comu­ni­ca­ção de mas­sas.

Os dis­cur­sos em que se regis­tra e des­ta­ca a novi­da­de não se con­ten­tam, em geral, com a enun­cia­ção das carac­te­rís­ti­cas pre­do­­­­mi­nan­tes da polí­ti­ca que se trans­for­ma. Com efei­to, a esse pri­mei­ro rol de carac­te­rís­ti­cas se acres­cen­ta comu­men­te um se­gun­do elen­co que se des­ti­na a indi­car as alte­ra­ções que inci­dem sobre domí­nios fun­da­men­tais da ati­vi­da­de polí­ti­ca nes­ses novos tem­pos. Tais alte­ra­ções são nor­mal­men­te qua­li­fi­ca­das como per­das ou des­fi­gu­ra­ções de aspec­tos impor­tan­tes na con­fi­gu­ra­ção da arte polí­ti­ca. Em geral, quan­do são qua­li­fi­ca­das isso é feito com base em ­razões cro­no­ló­gi­cas ou nor­ma­ti­vas. A qua­li­fi­ca­ção cro­no­ló­gi­ca se dá num pre­su­mi­do juízo de fato apoia­do em conhe­ci­men­to his­tó­ri­co, indi­can­do-se como cer­tas pro­prie­da­des que outro­ra efe­ti­va­men­te con­fi­gu­ra­vam a polí­ti­ca foram alte­ra­das ou desa­pa­re­ce­ram, enquan­to a qua­li­fi­ca­ção nor­ma­ti­va tra­ba­lha com a idéia de que cer­tas pro­prie­da­des, cate­go­rial­men­te essen­ciais ao con­cei­to de polí­ti­ca ou de demo­cra­cia, já não se encon­tram ou foram des­fi­gu­ra­das.

Além disso, os dis­cur­sos que dão conta das trans­for­ma­ções bus­cam esta­be­le­cer cone­xões entre o elen­co das novi­da­des e a lista das alte­ra­ções, geral­men­te atra­vés de rela­ções dire­tas de causa e efei­to. Alter­na­ti­va­men­te, recor­re-se a um pro­ce­di­men­to retó­ri­co que con­sis­te em jus­ta­por as duas clas­ses (a das novi­da­des e a das dis­fun­ções) para, então, cha­mar em causa um ter­cei­ro ele­men­to, em geral mudan­ças na socie­da­de, que as deter­mi­na­ria. Por fim, as alte­ra­ções são apre­sen­ta­das como perda de pro­prie­da­des. Uma perda que dife­ren­tes retó­ri­cas ­situam numa esca­la de graus que varia da sim­ples asser­ti­va da dimi­nui­ção da impor­tân­cia de um fenô­me­no deter­mi­na­do até a afir­ma­ção radi­cal do seu desa­pa­re­ci­men­to ou fim.

As pro­prie­da­des que ­teriam cons­ti­tuí­do, efe­ti­va ou essen­cial­men­te, a ati­vi­da­de polí­ti­ca em socie­da­des demo­crá­ti­cas e que no momen­to ces­sa­ram a sua fun­ção ou viram redu­zi­das a sua impor­tân­cia, são em geral aque­las indi­ca­das abai­xo:

1. O alcan­ce dos valo­res ideo­ló­gi­cos no emba­te polí­ti­co e na carac­te­ri­za­ção das posi­ções em dis­pu­ta. Carac­te­rís­ti­cas da gra­má­ti­ca e da lógi­ca da enun­cia­ção na comu­ni­ca­ção de massa, como a prio­ri­da­de da ima­gem sobre o ver­bal e o pre­do­mí­nio do texto curto, dire­to e forte sobre o dis­cur­so argu­men­ta­ti­vo clás­si­co, esva­zia­riam as con­tra­po­si­ções ideo­ló­gi­cas. Dife­ren­ças ideo­ló­gi­cas são dife­ren­ças de visão do mundo e da vida. A lin­gua­gem veloz da comu­ni­ca­ção indus­trial, pouco afei­ta ao dis­cur­so e à polê­mi­ca com­ple­xa e ver­bal­men­te sofis­ti­ca­da, impe­di­ria a expo­si­ção ade­qua­da das dife­ren­ças entre as posi­ções polí­ti­cas e, ainda mais, cons­ti­tui­ria um empe­ci­lho à polê­mi­ca dis­cur­si­va que se deve­ria ­seguir à apre­sen­ta­ção das posi­ções. Além disso, as com­pe­tên­cias comu­ni­ca­cio­nais tra­zi­das para o campo polí­ti­co por téc­ni­cos de mar­ke­ting, de ima­gem e de opi­nião, ten­de­riam a redu­zir o com­po­nen­te espe­ci­fi­ca­men­te polí­ti­co da arena, con­ver­ten­do as dife­ren­ças ideo­ló­gi­cas em alter­na­ti­vas de marca, pre­fe­rên­cia e gosto.

2. Idéias, con­cei­tos e pro­gra­mas polí­ti­cos. Na mesma linha de racio­cí­nio, como a comu­ni­ca­ção se diri­ge ime­dia­ta­men­te a um públi­co de massa inte­res­sa­do em entre­te­ni­men­to, curio­si­da­des, espe­tá­cu­los e com­pe­ti­ções, a tare­fa de dis­cu­tir con­cei­tos, for­mu­lar e apre­sen­tar ­idéias, expor e dis­pu­tar pro­gra­mas se tor­na­ria infe­cun­da e ingra­ta. Um gran­de públi­co dota­do de pouco capi­tal cul­tu­ral, muita impa­ciên­cia, peque­no inte­res­se estri­ta­men­te polí­ti­co, con­si­de­rá­vel ofer­ta de pro­du­tos de infor­ma­ção e entre­te­ni­men­to, muito difi­cil­men­te se deixa entre­ter pelos dis­cur­sos coe­ren­tes, lon­gos e sutis e pela con­tra­po­si­ção de ­idéias e con­cei­tos. Além disso, o pró­prio sis­te­ma polí­ti­co se recon­fi­gu­ra de tal modo que à dis­pu­ta polí­ti­ca inte­res­sa a per­cep­ção das pre­di­le­ções do públi­co e a con­quis­ta da sua pre­fe­rên­cia, não inte­res­san­do a opi­nião públi­ca senão naqui­lo que nela é sufi­cien­te para pro­du­zir o voto.

3. O públi­co. Teria havi­do uma trans­fi­gu­ra­ção dos valo­res públi­cos demo­crá­ti­cos, por força dos meca­nis­mos da comu­ni­ca­ção de massa. Antes de tudo, os públi­cos – enten­di­dos como reu­niões de indi­ví­duos pri­va­dos para a dis­cus­são das coi­sas de inte­res­se polí­ti­co e para a, con­se­qüen­te, for­ma­ção dis­cur­si­va da opi­nião – ter-se-iam tor­na­do dis­pen­sá­veis, pois a comu­ni­ca­ção polí­ti­ca de massa nem o reco­nhe­ce­ria nem o pres­su­po­ria, res­trin­gin­do-se o seu inte­res­se às audiên­cias ou aos públi­cos-espec­ta­do­res. Por con­se­qüên­cia, o deba­te rea­li­za­do pelos públi­cos de cida­dãos per­de­ria a sua impor­tân­cia em face do deba­te feito para a apre­cia­ção públi­ca, rea­li­za­do no inte­rior dos meios de comu­ni­ca­ção e pro­ta­go­ni­za­do por for­ma­do­res de opi­nião. Enfim, a opi­nião públi­ca, enten­di­da como a posi­ção sobre as ques­tões de inte­res­se comum resul­tan­te da dis­cus­são de públi­cos de cida­dãos ver-se-ia subs­ti­tuí­da por uma opi­nião pro­du­zi­da pro­fis­sio­nal­men­te atra­vés de flu­xos de comu­ni­ca­ção des­ti­na­dos à audiên­cia, por­tan­to, for­ma­da longe dos públi­cos.

4. Auten­ti­ci­da­de. Sus­pei­ta-se de uma perda de auten­ti­ci­da­de geral da polí­ti­ca. Essa com­preen­são decor­re da per­cep­ção de que o campo polí­ti­co é cada vez mais pro­fis­sio­nal, téc­ni­co, cien­tí­fi­co e de que a comu­ni­ca­ção polí­ti­ca de massa supõe pla­ne­ja­men­to, pre­vi­são e con­tro­le. Per­ce­be-se que aqui­lo que o agen­te polí­ti­co diz e faz e que o modo como ele se apre­sen­ta acom­pa­nham um ­script pro­fis­sio­nal­men­te esta­be­le­ci­do e orien­ta­do por cál­cu­los de efi­ciên­cia. Per­ce­be-se, ade­mais, que há cada vez menos espa­ço para o ama­do­ris­mo, para a pre­ca­rie­da­de da orga­ni­za­ção, para a impro­vi­sa­ção e para a espon­ta­nei­da­de. Busca-se con­tro­lar o acaso e esta­be­le­cer pre­vi­sões e pro­vi­dên­cias. A son­da­gem, a pes­qui­sa, a aná­li­se pro­du­zem o tempo todo sabe­res que per­mi­tem a ante­vi­são e a inter­ven­ção do arti­fí­cio tendo em vista o suces­so polí­ti­co. Até mesmo as agen­das, isto é, o sis­te­ma das prio­ri­da­des ­sociais que o públi­co acre­di­ta serem as suas, podem ser con­du­zi­das e con­tro­la­das. O mesmo pode ser dito da opi­nião públi­ca, que antes seria pro­du­zi­da pelo uni­ver­so polí­ti­co e pelo mundo da comu­ni­ca­ção. Em suma, onde há arti­fi­cia­li­da­de, inter­ven­ção téc­ni­ca, a auten­ti­ci­da­de per­de­ria força e sen­ti­do.

5. Par­ti­dos e repre­sen­ta­ção. Por se diri­gir prio­ri­ta­ria­men­te à massa, a polí­ti­ca que se apóia na comu­ni­ca­ção ­social tor­nar-se-ia, de algum modo, ple­bis­ci­tá­ria, isto é, depen­de­ria da apro­va­ção ou da repro­va­ção dire­ta dos públi­cos. Com isso, per­de­riam impor­tân­cia e efe­ti­vi­da­de as ins­ti­tui­ções e estru­tu­ras que se apre­sen­tam, his­to­ri­ca­men­te, como a repre­sen­ta­ção do inte­res­se e da von­ta­de dos cida­dãos no inte­rior do mundo polí­ti­co, os par­ti­dos. Esta­riam vin­cu­la­das a esse fato as cons­tan­te­men­te decla­ra­das cri­ses ­atuais dos par­ti­dos polí­ti­cos e da clas­se polí­ti­ca tra­di­cio­nal. Como os par­ti­dos cum­prem basi­ca­men­te a fun­ção de gover­nar, con­tro­lar a quem gover­na ou cons­ti­tuir uma alter­na­ti­va de gover­no, a dimi­nui­ção da sua impor­tân­cia inci­di­ria gra­ve­men­te sobre a con­du­ção do Esta­do, com con­se­qüên­cias que ainda não podem ser total­men­te pre­vis­tas, mas que, no míni­mo, deve­riam recon­fi­gu­rar a polí­ti­ca con­tem­po­râ­nea como um todo.

6. Inser­ção dos cida­dãos no jogo polí­ti­co. Como a arena polí­ti­ca se apóia nos pro­ces­sos, men­sa­gens e lin­gua­gens da comu­ni­ca­ção de massa, os cida­dãos ­seriam aí impli­ca­dos nos mes­mos ter­mos que os públi­cos são supos­tos na indús­tria da comu­ni­ca­ção, isto é, como espec­ta­do­res. De um lado, isso quer dizer que a ati­vi­da­de supos­ta seria ape­nas a da esco­lha em face de uma ofer­ta de pro­du­tos polí­ti­cos apre­sen­ta­dos no bal­cão dos meios de comu­ni­ca­ção. Uma ati­vi­da­de que repre­sen­ta­ria ao mesmo tempo uma pas­si­vi­da­de, por­que a audiên­cia não seria con­vo­ca­da para a fase da pro­du­ção e da emis­são do pro­du­to polí­ti­co. O públi­co de massa não seria pre­vis­to como agen­te, mas como um con­jun­to deter­mi­ná­vel de inte­res­ses e neces­si­da­des que os pro­du­tos polí­ti­cos se des­ti­nam a satis­fa­zer. Além disso, do públi­co ima­gi­na­do pelo cir­cui­to atual da comu­ni­ca­ção polí­ti­ca não se espe­ra­ria ou supo­ria que neces­si­te colo­car-se no inte­rior de for­mas asso­cia­ti­vas e dis­cur­si­vas para rea­li­zar o seu papel de con­su­mi­dor dos pro­du­tos polí­ti­cos, como pre­su­mi­vel­men­te se usava fazer em mode­los ante­rio­res de vida públi­ca. A inser­ção da cida­da­nia no jogo polí­ti­co, por­tan­to, não ape­nas seria pos­te­rior e, de certo modo, pas­si­va, como tam­bém seria, por assim dizer, pri­va­da.

Ao lei­tor já pron­to para se enga­jar nes­ses jul­ga­men­tos e nes­sas iden­ti­fi­ca­ções sugi­ro pru­dên­cia. Tra­tan­do-se de uma espe­cia­li­da­de ainda em for­ma­ção e com gran­de cir­cu­la­ção de hipó­te­ses e teses, mas tam­bém de pal­pi­tes e impres­sões, con­vém exa­mi­nar tudo mais de uma vez. A área de comu­ni­ca­ção e polí­ti­ca, prin­ci­pal­men­te em sua teo­ria, só há pouco come­çou a sair da fase do espan­to dian­te da novi­da­de repre­sen­ta­da pela trans­for­ma­ção midiática da polí­ti­ca, fase esta que, como todo mundo sabe, nos leva even­tual­men­te a exa­ge­rar na per­cep­ção do alcan­ce e na ava­lia­ção do sen­ti­do das coi­sas novas. O momen­to suces­si­vo, que tal­vez só agora se tenha esta­be­le­ci­do, é aque­le em que atra­vés de pro­ces­sos de crí­ti­ca inter­na, come­çam as sus­pei­tas e os ree­xa­mes das ­velhas hipó­te­ses e teses sere­na­men­te pos­tas e das evi­dên­cias ainda pouco tes­ta­das.

Por outro lado, pare­ce-me bas­tan­te ren­tá­vel, do ponto de vista didá­ti­co, tra­ba­lhar na área de estu­dos da comu­ni­ca­ção polí­ti­ca com a dico­to­mia entre hiper­midiáticos e hipo­midiáticos. Os hiper­midiáticos são aque­les auto­res, ­livros e teses que iden­ti­fi­cam na comu­ni­ca­ção de massa, em seus meios, recur­sos, ins­ti­tui­ções e lin­gua­gem o aspec­to fun­da­men­tal de qual­quer fenô­me­no con­tem­po­râ­neo estu­da­do, trate-se da cul­tu­ra, da socia­bi­li­da­de ou da polí­ti­ca. Os hipo­midiáticos são aque­les que con­ti­nuam estu­dan­do cul­tu­ra, socia­bi­li­da­de ou polí­ti­ca como se a comu­ni­ca­ção e a cul­tu­ra de massa fos­sem ape­nas mais uma das con­tin­gên­cias e cir­cuns­tân­cias do mundo con­tem­po­râ­neo, sem inci­dên­cia dire­ta sobre a natu­re­za dos fenô­me­nos e como ape­nas mais uma das variá­veis ins­tru­men­tais a expli­car as coi­sas. Pode-se esta­be­le­cer de modo cor­re­to que em deter­mi­na­das cir­cuns­tân­cias há muita pre­sen­ça, ou pou­quís­si­ma pre­sen­ça, da comu­ni­ca­ção nos fenô­me­nos sem que se seja hipo­mi­diá­ti­co ou hiper­mi­diá­ti­co – nem a pro­cu­ra de uma ter­cei­ra posi­ção será sem­pre uma neces­si­da­de cien­tí­fi­ca. Afi­nal, há de se admi­tir fenô­me­nos onde a hipó­te­se da pre­sen­ça da comu­ni­ca­ção midiática expli­ca real­men­te muito pouco e ­outros fenô­me­nos onde tal hipó­te­se expli­ca quase tudo. É a fami­lia­ri­da­de com o fenô­me­no, a aten­ção que ele nos soli­ci­ta, que deve nos auto­ri­zar a iden­ti­fi­car exa­ta­men­te qual a dosa­gem do fator comu­ni­ca­ção de massa que expli­ca sua natu­re­za e suas carac­te­rís­ti­cas. É na ava­lia­ção do grau e da inten­si­da­de do fator que faz sen­ti­do empre­gar a dico­to­mia, enquan­to uns con­ce­dem impor­tân­cia ­demais à comu­ni­ca­ção ­outros con­ce­dem de menos.

Antes que ­alguém me acuse de pla­giar uma dico­to­mia famo­sa, aque­la entre apo­ca­líp­ti­cos e inte­gra­dos, devo dizer em minha defe­sa que enquan­to na dico­to­mia de Eco o prin­cí­pio de corte é dado pela dife­ren­ça de ava­lia­ção em ter­mos axio­ló­gi­cos, os hiper e hipo­midiáticos se dis­tin­guem pela dife­ren­ça de inten­si­da­de, de grau. É-se apo­ca­líp­ti­co ou inte­gra­do pelo modo como se julga o mundo con­tem­po­râ­neo e as suas mudan­ças; o apo­ca­líp­ti­co o rejei­ta, o inte­gra­do sente-se con­for­tá­vel. Dife­ren­te­men­te, os hiper­mi­diá­ti­cos são os que vêem comu­ni­ca­ção ­demais nas coi­sas, enquan­to os hipo­mi­diá­ti­cos a subes­ti­mam na expli­ca­ção dos fenô­me­nos. Além disso, os dois mode­los que pro­po­nho são cons­tru­tos teó­ri­cos nega­ti­vos, com fina­li­da­de didá­ti­ca, ela­bo­ra­dos de tal forma que ­nenhum autor pode con­for­ta­vel­men­te iden­ti­fi­car-se com eles.

Isso para dizer que gran­de parte das teo­ri­za­ções, aca­dê­mi­cas ou não, sobre a inter­fa­ce entre comu­ni­ca­ção e polí­ti­ca é ainda, no meu modo de ver, hiper­midiática. Tende a exa­ge­rar a impor­tân­cia da comu­ni­ca­ção na trans­for­ma­ção da polí­ti­ca e da demo­cra­cia. Tende tam­bém a ser hiper­bó­li­ca e pes­si­mis­ta. Hiper­bó­li­ca, por­que vê mu­dan­ças ­demais, onde há uma trans­for­ma­ção que pre­ci­sa ser exa­mi­na­da em seu alcan­ce. Pes­si­mis­ta por­que tende a não gos­tar da trans­for­ma­ção que vê e a con­si­de­rá-la pior do que real­men­te o é.

Este livro tem como pre­ten­são ofe­re­cer uma intro­du­ção à espe­cia­li­da­de da comu­ni­ca­ção polí­ti­ca para estu­dan­tes das áreas de comu­ni­ca­ção, ciên­cia polí­ti­ca e socio­lo­gia. Ele con­sis­te na apre­sen­ta­ção e na dis­cus­são de um núme­ro razoa­vel­men­te gran­de dos temas e dos con­cei­tos fun­da­men­tais dessa espe­cia­li­da­de. Com oti­mis­mo, ima­gi­no que pode­rá cons­ti­tuir uma apre­sen­ta­ção con­sis­ten­te do estado da ques­tão na espe­cia­li­da­de. Uma apre­sen­ta­ção, razoa­vel­men­te bem fun­da­da e bem atua­li­za­da, dota­da de algu­ma uti­li­da­de até mesmo para os pes­qui­sa­do­res mais expe­rien­tes, inte­res­sa­dos numa ver­são de ques­tões can­den­tes de comu­ni­ca­ção polí­ti­ca.

Há neste livro mar­cas de mais de uma déca­da de tra­ba­lho na área de comu­ni­ca­ção polí­ti­ca. Reto­ma ­alguns arti­gos e ­outros tan­tos capí­tu­los de ­livros que foram publi­ca­dos ao longo des­ses anos, em geral pro­fun­da­men­te ree­la­bo­ra­dos para esta publi­ca­ção, e os com­bi­na com ­outros tex­tos pre­pa­ra­dos exclu­si­va­men­te para este livro. Oito tex­tos pre­ce­den­tes, den­tre aque­les que publi­quei no perío­do, cons­ti­tuem a base de uma boa parte dos seus capí­tu­los. ­Outros tan­tos foram bene­fi­cia­dos pelo tra­ba­lho pre­ce­den­te, mas são ela­bo­ra­ções iné­di­tas para com­por este volu­me. Trata-se de mate­rial pro­du­zi­do no con­tex­to dos deba­tes que for­ma­ram o campo de estu­dos da comu­ni­ca­ção polí­ti­ca no Bra­sil e, não por acaso, que acom­pa­nham pra­ti­ca­men­te todo o perío­do de con­so­li­da­ção das prá­ti­cas de comu­ni­ca­ção polí­ti­ca ­depois da res­tau­ra­ção demo­crá­ti­ca no país. Tra­ba­lhar com os mate­riais mais ­velhos não foi, entre­tan­to, uma mera con­ve­niên­cia, mesmo por­que ­alguns ­outros arti­gos publi­ca­dos sobre o mesmo assun­to no perío­do foram des­car­ta­dos por mim por ­várias ­razões, mas prin­ci­pal­men­te por não encon­trar neles coe­rên­cia com o pro­je­to de exa­mi­nar ­alguns dos con­cei­tos fun­da­men­tais de comu­ni­ca­ção polí­ti­ca – que orien­ta este livro e tem orien­ta­do o meu per­cur­so inte­lec­tual nos últi­mos anos.

Os capí­tu­los O que há de comu­ni­ca­ção na comu­ni­ca­ção polí­ti­ca?, Nego­cia­ção polí­ti­ca e comu­ni­ca­ção de massa e A trans­for­ma­ção da polí­ti­ca foram cons­truí­dos intei­ra­men­te para este livro. Embo­ra iné­di­ta, uma ver­são do segun­do texto foi dis­cu­ti­da na XII Reu­nião Anual da Com­pós, em Reci­fe, em junho de 2003, no grupo de tra­ba­lho de comu­ni­ca­ção e polí­ti­ca.

A polí­ti­ca em cena e os inte­res­ses fora de cena con­sis­te na ree­la­bo­ra­ção do capí­tu­lo O sis­te­ma da polí­ti­ca midiática, publi­ca­do em 2002 na cole­tâ­nea Mídia, cul­tu­ra e comu­ni­ca­ção, orga­ni­za­da por Anna Maria ­Balogh, Anto­nio Adami, Juan Dro­guett e Hay­dée Car­do­so (São Paulo: Arte e Ciên­cia). A refor­mu­la­ção visou aten­der a crí­ti­cas e suges­tões rece­bi­das em duas oca­siões impor­tan­tes: a reu­nião do grupo de tra­ba­lho em comu­ni­ca­ção e polí­ti­ca na XI Com­pós, em 2002, no Rio de Janei­ro, e uma reu­nião de tra­ba­lho com os docen­tes do curso de mes­tra­do em comu­ni­ca­ção da Uni­ver­si­da­de Tuiu­ti do Para­ná.

O con­tro­le polí­ti­co da comu­ni­ca­ção apóia-se no texto mais anti­go den­tre aque­les que foram empre­ga­dos aqui. A sua base é dada por Pres­su­pos­tos ético-polí­ti­cos da ques­tão da demo­cra­ti­za­ção da comu­ni­ca­ção, publi­ca­do em 1993 na cole­tâ­nea Comu­ni­ca­ção e cul­tu­ra con­tem­po­râ­neas, orga­ni­za­da por Car­los Alber­to Mes­se­der Perei­ra e A. Faus­to Neto (Rio de Janei­ro: Notr­ya). Parte dele havia sido ree­la­bo­ra­da e publi­ca­da em 2001 com o títu­lo Die Dis­kur­se­thik und die durch die Mas­sen­me­dien ver­mit­tel­te und bear­bei­te­te Kom­mu­ni­ka­tion, na cole­tâ­nea Dis­kur­se­thik: Grun­dle­gung und Anwen­dun­gen, orga­ni­za­da por M. ­Niquet, F. J. Her­re­ro e ­Michael Hanke (Würz­burg: Königs­hau­sen e Neu­mann). O texto de 1993 foi com­ple­ta­men­te rees­tru­tu­ra­do, com gran­de núme­ro de des­car­tes e de inclu­sões e uma revi­são com­ple­ta das refe­rên­cias.

A pro­pa­gan­da polí­ti­ca: ética e estra­té­gia é resul­ta­do dos espó­lios de dois tex­tos pre­ce­den­tes. A base foi dada por Pro­pa­gan­da polí­ti­ca, ética e demo­cra­cia, publi­ca­do em 1994 na cole­tâ­nea Mídia, elei­ções e demo­cra­cia, orga­ni­za­da por Heloi­za Matos (São Paulo: Scrit­ta). Outro texto for­ne­ceu um con­jun­to de suges­tões e ­alguns tre­chos: Estra­té­gia retó­ri­ca e ética da argu­men­ta­ção, publi­ca­do neste mesmo ano na cole­tâ­nea Bra­sil: comu­ni­ca­ção, cul­tu­ra e polí­ti­ca, orga­ni­za­da por A. Faus­to Neto, José Luiz Braga e Sér­gio Porto (Rio de Janei­ro: Dia­do­rim). Como dez anos nos dis­tan­ciam da escri­tu­ra des­ses tex­tos, eles pre­ci­sa­ram ser bas­tan­te alte­ra­dos para esta publi­ca­ção, em fun­ção não ape­nas das mudan­ças no mundo, mas tam­bém das trans­for­ma­ções dos pon­tos de vista do autor.

A polí­ti­ca de ima­gem foi publi­ca­do ori­gi­nal­men­te na revis­ta Fron­tei­ras, da Uni­si­nos, em seu nº. 1 (1999: pp.133-160, v.1). O texto ­sofreu um núme­ro peque­no de alte­ra­ções para este pro­je­to.

Thea­trum Poli­ti­cum é a ree­la­bo­ra­ção de dois tex­tos pre­ce­den­tes. A base foi dada pelo capí­tu­lo "Thea­trum poli­ti­cum: a ence­na­ção polí­ti­ca na socie­da­de dos mass media. Pri­mei­ra parte: as astú­cias da polí­ti­ca", publi­ca­do em 1995 na cole­tâ­nea A ence­na­ção dos sen­ti­dos: mídia, cul­tu­ra e polí­ti­ca, orga­ni­za­da por José Luiz Braga, Sér­gio Porto e A. Faus­to Neto (Rio de Janei­ro: Dia­do­rim). Além disso, foram assi­mi­la­das algu­mas ­seções de Duas pre­mis­sas para a com­preen­são da polí­ti­ca-espe­tá­cu­lo, publi­ca­do em 1996 na cole­tâ­nea O indi­ví­duo e as ­mídias, orga­ni­za­da por A. Faus­to Neto e Mil­ton Pinto (Rio de Janei­ro: Dia­do­rim). Os tex­tos foram tra­ba­lha­dos, com mui­tos des­car­tes e ­várias inclu­sões, além da neces­sá­ria atua­li­za­ção das refe­rên­cias. Por fim, a seção sobre jor­na­lis­mo-espe­tá­cu­lo repre­sen­ta

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