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Deus e sua criação: Doutrina de Deus, doutrina da criação
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Deus e sua criação: Doutrina de Deus, doutrina da criação
E-book467 páginas4 horas

Deus e sua criação: Doutrina de Deus, doutrina da criação

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Sobre este e-book

No centro desta obra, encontra-se uma doutrina de Deus que documenta, em estreita relação com a Bíblia e, principalmente, com Jesus de Nazaré, o interesse de Deus pelos seres humanos. Ao mesmo tempo, revela-se aqui um Deus criador, cuja atuação dinâmica pode ser percebida também contra o pano de fundo de intelecções científico-naturais da cosmologia, física quântica e teoria do caos. Dessa maneira, o autor aponta uma saída sólida do estreitamento no pensamento judeu-cristão sobre a criação, um estreitamento novamente atual.
IdiomaPortuguês
Data de lançamento13 de mar. de 2014
ISBN9788534938129
Deus e sua criação: Doutrina de Deus, doutrina da criação
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    Deus e sua criação - Renold Blank

    Rosto

    Índice

    SIGLAS

    PREFÁCIO

    I. Desafios estruturais de uma doutrina contemporânea de Deus

    1. A problemática perspectívica de doutrinas tradicionais de Deus

    1.1 O vínculo contextual

    1.2 A determinação pré-textual

    2. A autocomunicação de Deus e nosso discurso simbólico sobre Deus

    3. Um Deus em três pessoas: a orientação fundamental das afirmações do magistério eclesiástico

    3.1 Panorama histórico-dogmático e histórico-teológico

    3.2 Tentativas de definição teológica no limiar do emudecimento

    4. O problema das imagens de Deus unilaterais ou alienadas no cristianismo

    4.1 Estamos venerando o Deus certo?

    4.2 Reconhecer e superar manipulações da imagem de Deus

    4.3 Unilateralidades históricas do discurso sobre Deus e suas consequências

    4.4 Unilateralidades ideológicas ou falsificações da imagem de Deus e suas consequências

    4.5 Idolatria ou o perigo da instrumentalização da imagem de Deus

    4.6 Manipulação da imagem de Deus por meio de mecanismos miméticos de projeção

    4.6.1 Impulsos inconscientes de agressividade e sua projeção sobre Deus

    4.6.2 A imagem de um Deus vingativo

    4.6.3 A imagem de um Deus que exige sacrifícios

    4.7 Imagem de Deus e ideias sobre Deus na realidade virtual do cyberspace

    4.8 Imagem de Deus e atividade cerebral neuronal

    5. A dificuldade de tornar falsas imagens de Deus conscientes

    6. Abraão ou a experiência de um Deus que chama para partir rumo a novos horizontes

    Para continuar a leitura

    Para as seções 4.7 e 4.8

    II. Doutrina de Deus

    A. Quais de suas características Deus quer nos revelar principalmente?

    7. Perguntar sobre como Deus quer ser reconhecido por nós

    7.1 Considerações hermenêuticas prévias

    7.2 Por que Deus se revelou assim como se revelou?

    8. Da doutrina filosófica de Deus de volta para a doutrina bíblica de Deus

    9. Entender Deus com base nas informações mais abrangentes e mais claras que ele dá sobre si

    9.1 Levar a sério as afirmações dogmáticas sobre Jesus Cristo, o Deus que se tornou humano

    9.2 Aquelas características de Deus sob as quais ele quer ser principalmente conhecido revelam-se de forma mais clara em Jesus

    10. Entender Deus como palavra dinâmica em vez de imagem muda

    10.1 Com suas interferências, Deus pode encontrar resistência mesmo nas pessoas que creem nele

    10.2 Em Jesus, Deus se revela como o defensor também daqueles que foram descartados pelo sistema religioso

    11. Elementos estruturais da imagem de Deus no Primeiro Testamento

    Para continuar a leitura

    B. Centros temáticos da revelação de Deus, ou: Como Deus quer ser reconhecido por nós

    12. Deus é poderoso, mas ele não se situa no lado do poder

    13. Deus reage veementemente contra qualquer opressão dos seres humanos

    13.1 A opção de Deus pelos oprimidos e excluídos tem também uma dimensão política

    13.2 Deus identifica-se com os seres humanos

    14. Deus é goel, isto é, o defensor de quem não tem defensor

    14.1 Deus conclui um contrato (aliança) com os seres humanos

    14.2 Deus assume os deveres de um parente de sangue, ele se torna goel

    14.3 Em Jesus Cristo, a atuação de Deus como goel alcança seu auge

    14.4 Em Jesus Cristo, Deus mesmo assume a defesa de quem não tem mais defensor

    15. Deus está presente na história humana, em atuação ativa

    16. Um Deus que se torna o servo dos seres humanos

    17. Um Deus que se preocupa com a felicidade dos seres humanos

    18. O que, porém, devemos pensar da imagem do Deus vingador que inspira medo?

    18.1 Mudanças semânticas na compreensão do temor a Deus

    18.2 Contradições dialéticas na história da desconstrução de uma imagem de Deus dominada pelo medo

    18.3 Um Deus que estabelece a comunhão com pecadores e perdoa seus pecados

    18.4 Um Deus que pede o amor dos seres humanos

    19. Deus é realmente bom? A pergunta da teodiceia diante da história do sofrimento do mundo

    20. Um Deus que quer a vida dos seres humanos, e o que resulta disso para os seres humanos

    Para continuar a leitura

    C. Enfoques específicos da revelação de Deus em Jesus Cristo

    21. Natal ou: um Deus que procura a proximidade dos seres humanos

    21.1 Ninguém precisa ter medo de Deus

    21.2 O que Deus quer é ser amado pelos seres humanos

    21.3 Deus entrega-se aos seres humanos, para o bem ou para o mal

    21.4 Deus torna-se um desafio para os seres humanos

    22. As opções fundamentais de Jesus são as opções fundamentais de Deus

    22.1 Em Jesus Cristo, Deus situa-se do lado dos pobres

    a) Em sua opção preferencial pelos pobres, Deus se coloca do lado dos derrotados e não dos vencedores

    b) Em sua opção pelos pobres, Deus concretiza sua opção por todas as pessoas que são humilhadas por algum sistema injusto

    22.2 Em Jesus, Deus opta pela justiça e contra toda opressão

    22.3 Em Jesus, Deus opta pela misericórdia, contra todo legalismo

    22.4 Em Jesus, Deus opta pelo serviço e contra toda violência

    22.5 Deus opta pela vida dos seres humanos

    23. Em Jesus, Deus revela-nos que ele é singelo e humilde

    23.1 Um Deus humilde não corresponde à imagem convencional de Deus

    23.2 Um Deus simples e humilde expõe-se ao perigo de ser crucificado

    23.3 Um Deus singelo que opta pelos derrotados questiona também os sistemas tradicionais de valores

    24. Em Jesus, Deus chama também os sistemas religiosos de todos os tempos para a conversão

    25. Um Deus que não aparece como juiz castigador liberta os seres humanos de medo e complexos de culpa

    26. A cruz revela a identificação de Deus com todos os sofredores da história universal

    27. Pela ressuscitação de Jesus, Deus Pai confirma sua fidelidade além da morte

    28. Pela ressuscitação de Jesus, Deus confirma aos olhos de todos que ele é capaz de ressuscitar mortos

    29. Pela ressuscitação do Crucificado, Deus mostra também que ele é mais forte do que todos que têm o poder de crucificar

    30. Pela ressuscitação de Jesus, Deus cria o fundamento da esperança por um mundo melhor

    31. Ao ressuscitar Jesus da morte, Deus confirma a esperança por nossa própria ressurreição

    32. Ao ressuscitar Jesus da morte, Deus Pai confirma-o como aquele que pode justificar pecadores

    33. Por meio da ressuscitação de Jesus, Deus mesmo garante o sucesso de seu projeto de um Reino de Deus

    Para continuar a leitura

    III. Doutrina da criação: O Deus criador e seu mundo

    34. Desafios intrateológicos para uma doutrina contemporânea da criação

    34.1 Deduzir do produto criação características do criador

    34.2 Dificuldades semânticas na tentativa de deduzir Deus da criação

    34.2.1 O problema de uma perspectiva dualista secular

    34.2.2 Fórmulas linguísticas que evocam imagens de poder e dominação

    35. Desafios extrateológicos para uma doutrina contemporânea da criação

    36. O que os textos bíblicos sobre a criação querem dizer e o que não

    36.1 O caráter funcional dos textos bíblicos sobre a criação

    36.2 Os textos bíblicos sobre a criação não descrevem o início, mas elucidam o futuro

    36.3 Os textos bíblicos sobre a criação falam do fundamento primordial e não do início temporal de todas as coisas

    36.4 Os sete intervalos de dias dos textos bíblicos sobre a criação não contêm afirmativas acerca da evolução

    37. O modelo padrão científico para a formação do cosmo

    38. A suposição teológica de uma criação ex nihilo move-se num plano fora das coisas que podem ser verificadas pelas ciências naturais

    39. A constante criação ex nihilo por Deus é experimentada na dimensão humana de espaço-tempo como creatio continua

    39.1 Delimitação da creatio continua em relação ao neocriacionismo e ao Intelligent Design

    39.2 O princípio antrópico e a imanência criadora de Deus

    40. Evolução e princípio antrópico como configuração interacional de creatio continua

    41. Modelo da física quântica para a compreensão análoga de creatio continua

    42. Um Deus criador que ama sua criação

    43. Possibilidade e tarefa do ser humano de colaborar com a criação de Deus

    44. Criação e futuro escatológico, considerados sob a perspectiva cosmológica da teoria do caos

    44.1 Falar de criação significa mais do que falar sobre um início temporal do cosmo

    44.2 O futuro do cosmo está aberto

    44.3 Também o discurso teológico sobre criação precisa partir de uma perspectiva cosmológico-evolucionista

    44.4 O futuro escatológico positivo do cosmo e os modelos cosmológicos do futuro

    44.5 A atuação criadora de Deus inclui também o plano do acaso do sistema mecânico-quântico e a dinâmica própria não linear de processos evolutivos

    44.6 Cruz e ressurreição de Jesus como garantia da fé num futuro positivo da história cósmica

    Para continuar a leitura

    Para o tema criação

    Para o tema cosmos, evolução e fé na criação

    Bibliografia completa

    "A ideia sobre Deus pode se tornar

    o obstáculo último no caminho para Deus"

    (Mestre Eckhart, místico, séc. XIII/XIV).

    SIGLAS

    AG

    Ad gentes – Decreto sobre a atuação missionária da Igreja (07 de dezembro de 1965).

    Denzh

    DENZINGER, Heinrich. Kompendium der Glaubensbe­kenntnisse und kirchlichen Lehrentscheidungen. Verbessert, erweitert, ins Deutsche übertragen und unter Mitarbeit von Helmut Hoping herausgegeben von Peter Hünermann. Friburgo (Alemanha), 38ª ed., 1999.

    DV

    Dei Verbum – Constituição Dogmática sobre a revelação divina (18 de novembro de 1965).

    LThK

    KASPER, Walter etc. (org.). Lexikon für Theologie und Kirche, 10 vol. Friburgo (Alemanha), 2ª ed., 1957ss, 3ª ed., 1993ss.

    NR

    NEUNER, Josef; ROOS, Heinrich. Der Glaube der Kirche in den Urkunden der Lehrverkündigung. Neubear­beitet von Karl Rahner und Karl-Heinz Weger. Regensburg, 10ª ed., 1971.

    SKZ

    Schweizerische Kirchenzeitung, Lucerna, desde 1832.

    PREFÁCIO

    O presente livro tem suas raízes nas aulas sobre teologia da revelação, que o autor ministrou até tornar-se emérito, na Pontifícia Faculdade Teológica de São Paulo. Em continuidade dessas aulas, a presente doutrina de Deus procura oferecer impulsos para uma nova descoberta daquele Deus cuja dinâmica transformadora do mundo já não é percebida por tantas pessoas.

    São demasiadamente numerosas as pessoas que acreditam saber exatamente como Deus é. Apesar desse saber, porém, seus corações permanecem vazios, porque o Deus que acreditam conhecer lhes parece, em medida crescente, uma figura insignificante e, em última instância, domesticada.

    Contudo, também quando esse Deus se manifesta como aquele que ama apaixonadamente, ele deixa muitas pessoas indiferentes. E até mesmo sua onipotência e sua existência eterna são hoje, para muitos, assustadoras, e isso principalmente em vista do monstruoso abuso de poder com o qual a história universal confronta as pessoas contemporâneas. É também por isso que muitos se distanciam da imagem do Deus todo-poderoso, e procuram outras fontes de auxílio e consolo. Procuram canções melhores e argumentos diferentes.

    Esse fato, porém, levanta, para cristãs e cristãos no início de um século que é também marcado pela globalização cultural e religiosa, a pergunta premente: em que nosso Deus se distingue verdadeiramente das divindades de tantas outras religiões? Numa época de crescente diálogo inter-religioso, esse desafio fica cada vez mais consciente, e com ele também a exigência de cada pessoa chegar a uma maior clareza acerca do específico da imagem de Deus por ela acalentada. Hoje, mais do que nunca, é preciso romper com a habituação com uma imagem domesticada de Deus.

    É exatamente para isso que o presente livro deseja convidar suas leitoras e seus leitores. Ele deseja animá-los a aproximar-se de uma maneira nova daquele Deus que tantas pessoas julgam hoje dispensável e uma projeção antiquada. Outras pessoas estão vendo em Deus apenas o braço prolongado de uma instituição eclesiástica à qual elas há tempo deram as costas, por decepção. Outras ainda continuam a preservar uma imagem de Deus estática e há tempo ultrapassada pela pesquisa. Por trás de sua rigidez, porém, está o medo de que Deus, se ele for diferente daquilo que pensam, poderia questionar sua própria visão de mundo – e talvez até mesmo sua compreensão da fé. Por esse motivo voltam-se energicamente contra todos que ousam apresentar a imagem de Deus, que lhes era tão familiar, numa nova perspectiva.

    Por essas e outras razões, muitas pessoas evitam a confrontação com uma dinâmica que faz desmoronar em todos os campos os limites do nosso imaginário. Essa dinâmica o faz na projeção daquela tempestade de fogo que, como big bang, rasga os limites do nada no início do cosmo; e igualmente na ternura infinita de uma criança na qual Deus rompe todos os limites da razão para estar para sempre com os seres humanos.

    O que estamos vendo é um universo que se abre e evolui na explosão termonuclear, e tudo isso, diz a fé, seria a obra de um Deus imenso e criador, poderoso acerca da existência e terrível em seu poder.

    Ora, do poder protege-nos o sorriso de uma criança. No centro do fogo cósmico, Deus está sorrindo como criança. E a imagem desse Deus sorridente, por sua vez, torna-se o ponto central dinâmico de uma evolução permeada pelo Espírito divino. Um cosmo, impelido pela dinâmica incontentável de uma energia que se comprova, em última instância, como energia do amor. E esse cosmo se lança num movimento frenético e certeiro por bilhões de anos de volta a sua origem, de volta para seu centro, para o sorriso da criança que é Deus e que é a meta e o ponto de chegada de toda evolução: o Ponto Ômega do visionário Teilhard de Chardin, mas não apenas dele.

    A imagem desse Deus é muito distinta da imagem de um Deus domesticado conservada em nossa sala de estar. E, muitas vezes, também distante daquilo que pessoas escutam ocasionalmente em eventos de ensino catequético – de modo escolar e num tom de humanismo iluminado. No entanto, o Deus ali anunciado é um Deus que não assusta nem anima, e isso não obstante o fato de que é possível apresentar os elementos de sua natureza como resultado da reflexão teológica ao longo de séculos.

    Também a presente doutrina de Deus fala de Deus naquela base. Sua ênfase, porém, é a revelação do engajamento escandalosamente pessoal que este Deus assumiu em relação ao mundo e a nós. Ela procura apresentar aquelas canções melhores que Friedrich Nietzsche exigiu outrora dos discípulos daquele Deus para poder crer no Deus e Salvador deles. Diante de sua acusação, somos chamados a descobrir o Deus da Bíblia de modo qualitativamente novo. O Deus da revelação, indócil, provocador, não domesticável. O desconhecido que, mesmo assim, deve ser a meta e o centro de qualquer reflexão teológica. O Deus verdadeiro. Aquele Deus que disse de si mesmo, em algum momento, mil e trezentos anos antes do nascimento de Jesus, que é alguém que está presente (cf. Ex 3,14):

    Eu sou aquele que sempre está presente para ti.

    Convido as caras leitoras e os caros leitores a descobri-lo de novo, sob recurso aos textos bíblicos, e fazer isso considerando o que a interpretação científica da Bíblia tem a dizer hoje sobre esses assuntos. Convido a ousar, além de todas as dimensões científicas, aquele passo que leva para o plano da fé. Uma fé que se apoia nos resultados da ciência, mas que tem a coragem de ir além do âmbito deles, porque defende que tudo que existe se abre para horizontes que transpõem qualquer plano empiricamente perceptível. Em consequência, somos convocados a confessar, sempre de novo, que nunca conseguiremos explicar Deus exaustivamente.

    Se isso for correto, então também cada doutrina de Deus precisa, em última análise, perguntar modesta e humildemente sobre quais de suas características infinitamente numerosas este Deus realmente revelou aos seres humanos e como ele as revelou. E tal doutrina é convocada a reconhecer e tornar consciente que são, com grande probabilidade, essas as características sob as quais Deus quer ser conhecido principalmente entre os seres humanos. Procurar e reconhecer essas características, aceitá-las e anunciá-las também em todas as suas consequências, este é o convite a quem lê este livro sobre a doutrina de Deus e da criação, que é a primeira parte da dogmática.

    Renold Blank

    I.

    Desafios estruturais de uma doutrina contemporânea de Deus

    1. A problemática perspectívica de doutrinas tradicionais de Deus

    1.1 O vínculo contextual

    O teólogo estadunidense James H. Cone levanta, em um de seus livros, a pergunta sobre se o problema central dos concílios de Niceia e de Calcedônia teria sido também o tema da consubstancialidade de Jesus Cristo e Deus Pai, se esses concílios tivessem acontecido no contexto dos escravos negros sequestrados na África. E ele reflete ainda sobre a pergunta se o interesse prioritário de Martinho Lutero teria se voltado também para a temática da presença real de Jesus Cristo na Eucaristia, se Lutero tivesse nascido um escravo negro.¹

    Com esses questionamentos, Cone tematiza um problema que perpassa quase ininterruptamente também a doutrina tradicional de Deus: eles refletem também o contexto cultural no qual surgiram. Esse contexto, porém, é quase exclusivamente o contexto daquela camada populacional branca europeia e norte-americana.

    Essa constatação não diminui de forma alguma os méritos e a importância das reflexões teológicas sobre Deus que nasceram naquele círculo cultural. Contudo, a conscientização acerca do fato de que as respectivas reflexões exprimem necessariamente também as perspectivas daquele espaço cultural abre a vista para um fato frequentemente esquecido: a mesma temática pode ser vista desde a perspectiva de outros ambientes culturais, sociais ou econômicos. A partir desses ambientes, ilumina-se a pergunta sobre como é o Deus da revelação judaico-cristã, desde outras perspectivas. Disso, porém, surgirão necessariamente também enfoques temáticos diferentes, influenciados pelos respectivos contextos culturais.

    Já em 1957, Helmut Richard Niebuhr expressou o fato do condicionamento cultural de afirmativas teológicas em palavras muito claras:

    As opiniões teológicas têm suas raízes nas relações entre a vida religiosa e as condições culturais e políticas que predominam num determinado grupo de cristãos.²

    Num tempo de crescente globalização, em que não só as relações econômicas, mas também as relações teológico-religiosas, se dão em redes cada vez mais amplas, essa intelecção é mais importante do que nunca.

    A tudo isso se acrescentam ainda, na elaboração da imagem de Deus, determinações de ideologias e da história intelectual. No ambiente da teologia ocidental, é importante não esquecer a influência fundamental da filosofia grega. Foi devido a ela que, ao longo de séculos, a doutrina cristã sobre Deus esteve primordialmente determinada pela terminologia abstrata da metafísica helenista. Por causa desse vínculo, surgiram, por um lado, caminhos novos e interessantes para expressar o inefável do divino em categorias humanas efáveis. Por outro lado, porém, perdeu-se amplamente, nesse tipo de abstração, o impacto direto de Deus, que é predeterminante nas escrituras bíblicas, e levanta a pergunta: o que significa, concretamente, encontrar o Deus vivo e ser existencialmente interpelado por ele?

    Finalmente, devemos lembrar, principalmente no contexto europeu, o efeito determinante do direito romano e, posteriormente, do direito feudal germânico. Sua influência sobre a compreensão teológica de Deus como o Governante Onipotente e Deus Juiz, justo, mas severo, é muito maior do que se pensa comumente. À guisa de exemplo, lembremos da soteriologia de Anselmo de Cantuária. Sua conhecida obra Cur Deus homo (Por que Deus se fez humano?) e a subjacente imagem de Deus eram, ao longo de séculos, um dos fatores que marcaram a doutrina de Deus. Influências e efeitos mútuos podem ser detectados ao longo de toda a história.³

    1.2 A determinação pré-textual

    Ao lado da determinação contextual, cada texto, portanto cada discurso sobre Deus, é também marcado por seu pré-texto. Isso se refere à intenção ou ao propósito com que um determinado texto é composto dentro de um contexto ideológico.

    Por exemplo, não é acidental que a transição da imagem de Jesus Cristo como Bom Pastor para a imagem dominante do Pantocrator se dá exatamente no século IV. A religião cristã torna-se a religião estatal do Império Romano-Bizantino. O ícone de um pastor como imagem do Deus oficial do Estado não combina com a política de poder de um Império. Portanto, estava no interesse dos respectivos detentores de poder substituí-lo pela imagem de um governante universal, em cujo poder e grandiosidade pode se refletir também o poder e a pompa grandiosa do Império Bizantino e de sua corte. Basil Studer entende a teologia politicamente inspirada do século IV que se desenvolveu em consequência disso como um exemplo da imensa influência da ideologia política do Império sobre o pensar e sentir eclesiástico, e assim também sobre a devoção a Cristo.

    Em termos teológicos, não há nada a ser criticado na consequente troca de ícones. Quando Jesus Cristo é compreendido como a segunda pessoa divina que se tornou humana, é plenamente legítimo representá-lo também como o governante do cosmo. As consequências, porém, que tal mudança de paradigma gera no plano psicológico-religioso manifestam-se até hoje: seres humanos aproximam-se de um governante universal todo-poderoso de outra maneira do que de um bom pastor.

    O exemplo mostra o efeito de pré-textos, que opera consciente ou inconscientemente e que não pode ser subestimado. No âmbito de todas as doutrinas sobre Deus que surgiram historicamente, também a análise crítica de tais pré-textos não deve ser eclipsada. Pois, segundo o pré-texto operante no pano de fundo, numa doutrina de Deus, determinadas características de Deus podem receber uma ênfase maior ou menor, podem ser eventualmente excluídas, ou também simplesmente não valorizadas ou julgadas sem importância.

    A presente tentativa de elaborar uma doutrina de Deus e da criação procura conscientemente enfrentar essa situação. Isso significa, porém, que ela deve considerar em suas abordagens também aspectos que, numa doutrina clássica de Deus e da criação, não são tematizados ou apenas muito pouco.

    Também o discurso sobre Deus é influenciado por determinações contextuais e pré-textuais conscientes ou inconscientes:

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    2. A autocomunicação de Deus e nosso discurso simbólico sobre Deus

    O modo de nosso discurso sobre Deus difere essencialmente do modo discursivo da pesquisa das ciências naturais. Todas as ciências naturais baseiam-se em fatos empiricamente constatáveis e em resultados experimentalmente verificáveis. Deus, porém, não pode ser definido nas categorias do pensamento racional-empírico. O discurso humano sobre ele sempre será um discurso análogo, porque Deus transcende todas as nossas categorias.⁵ Ele permanecerá sempre além daquilo que pode ser definido e fixado em termos e conceitos racionais. Isso já foi formulado por Anselmo de Cantuária em sua prova da existência de Deus: Deus é aquilo do qual não é possível pensar nada maior.⁶

    Por outro lado, é possível, não obstante, falar sobre Deus. É possível porque, segundo nossa fé, Deus mesmo se dá a conhecer aos seres humanos. O Concílio Vaticano II formulou isso de modo orientador e fundamental em sua Constituição Dei Verbum:

    Aprouve a Deus, na sua bondade e sabedoria, revelar-se a Si mesmo e dar a conhecer o mistério da sua vontade (cf. Ef 1,9) [...] Em virtude dessa revelação, Deus invisível (cf. Cl 1,15; 1Tm 1,17), na riqueza do seu amor, fala aos homens como amigos (cf. Ex 33,11; Jo 15,14-15) e convive com eles (cf. Br 3,38), para os convidar e admitir à comunhão com Ele. Esta «economia» da revelação realiza-se por meio de ações e palavras intimamente relacionadas entre si [...] Porém, a verdade profunda tanto a respeito de Deus como a respeito da salvação dos homens, manifesta-se-nos, por esta revelação, em Cristo, que é, simultaneamente, o mediador e a plenitude de toda a revelação (DV 2, sic, cf. http://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_const_19651118_dei-verbum_po.html).

    A autorrevelação de Deus aqui mencionada ocorre em vários planos. Seus planos mais importantes podem ser resumidos como segue:

    1. Deus revela-se pessoal e singularmente em Jesus Cristo;

    2. Deus revela-se como Deus atuante na história;

    3. Deus revela-se na natureza;

    4. Deus revela-se em intelecções lógico-racionais do ser humano pensante;

    5. Deus revela-se em experiências pessoais, radicalmente existenciais.

    Portanto, trata-se sempre de uma autocomunicação de Deus, na qual ele mesmo – e não o ser humano – toma a iniciativa e dá o primeiro passo. Por outro lado, porém, é esse ser humano que se encontra diante da tarefa de expressar em palavras os conteúdos da autocomunicação de Deus. Ao fazer isso, ele se serve necessariamente daqueles meios que estão a sua disposição na respectiva cultura. Segundo a opinião consensual da teoria contemporânea sobre meios, porém, surge, entre o meio usado e a ideia formulada pelo meio, necessária e quase automaticamente, um efeito de retroação.

    No passado, o meio geralmente usado da reflexão teológica foi o da filosofia clássica. Segundo a orientação básica desse meio, a atenção principal volta-se também para a tentativa de tornar a natureza de Deus enunciável em conceitos e termos primeiramente metafísico-filosóficos.

    A realidade dos meios contemporâneos, porém, mudou completamente. Ela está marcada por uma presença quase absoluta dos meios eletrônicos que se estendem até as realidades virtuais do cyberspace que ganham cada vez mais importância.⁸ O meio ali usado não é primeiramente o da filosofia nem o da palavra, é o da imagem. Portanto, no sentido do mencionado efeito de retroação, também a doutrina contemporânea de Deus deve visar primeiramente não abstrações, e sim imagens.

    Uma doutrina de Deus que hoje ainda deseja ser compreensível e convincente precisa reencontrar aquelas linguagens acerca de Deus que se encontram centralmente também nas afirmações bíblicas: falar em imagens. Essas imagens, porém, diz o professor de Antigo Testamento Franz Böhmisch, não têm nada em comum com as ‘estátuas de Deus’ das quais fala a proibição bíblica de confeccionar imagens [...] ‘Imagens de Deus’ são nossa maneira de falar da transcendência.

    Segundo essa máxima, também as reflexões a seguir sobre a doutrina de Deus procurarão primeiramente por imagens de Deus e usarão imagens correspondentes. Que essas imagens são e precisam ser necessariamente de caráter metafórico-análogo deve ser constantemente lembrado.

    3. Um Deus em três pessoas: a orientação fundamental das afirmações do magistério eclesiástico

    3.1 Panorama histórico-dogmático e histórico-teológico

    As afirmativas do magistério eclesiástico sobre a doutrina de Deus formaram-se durante um longo e complexo processo histórico, mas, diante da abundante literatura afim, não abordaremos esse processo aqui detalhadamente.¹⁰ Em vez disso, vamos aqui, numa síntese concentrada nas grandes etapas do desenvolvimento histórico-teológico e histórico-dogmático, apresentar os elementos centrais daquilo que se tornou finalmente a afirmativa magisterial sobre a teologia da Trindade que está em vigor até hoje.¹¹

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    Excurso

    Na história da dogmática designa-se de subordinacionismo aquele modelo intelectivo da Trindade que não entende Filho e Espírito Santo no mesmo plano que o Pai, mas, ao contrário, subordinados ao mesmo. Contudo, se fosse assim, já não seria um Deus trinitário. A última consequência de tal conceituação encontra-se no arianismo, que atribui a divindade plena somente ao Pai. Isso não só nega a divindade do Filho, mas, em consequência dessa compreensão, também a redenção.

    O modalismo, por sua vez, nega a diferença real entre Pai, Filho e Espírito. Compreende Deus como um só sujeito que apenas se manifesta de modos diferentes.

    A teologia da Trindade refere-se à unidade de Deus em três pessoas. Essas pessoas, o Pai, o Filho e o Espírito Santo, são designadas também como três hipóstases, modos existenciais ou formas de ser consubstanciais do Deus uno.

    O conceito da pericorese expressa a relacionalidade mutuamente penetrante das três pessoas divinas, das quais cada uma preserva sua própria identidade, e que ainda assim formam uma unidade dinâmica, como hipóstases. O que afirma Jo 10,38; 14,11; 17,21 sobre o Pai e o Filho se aplica também ao Espírito Santo.

    Chama-se de trindade imanente a essência interior de Deus. Essa essência interior de Deus expressa-se como trindade econômica

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