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Mulheres negras no Brasil escravista e do pós-emancipação

Mulheres negras no Brasil escravista e do pós-emancipação

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Mulheres negras no Brasil escravista e do pós-emancipação

notas:
5/5 (1 nota)
Duração:
595 páginas
9 horas
Lançados:
13 de nov. de 2012
ISBN:
9788584550005
Formato:
Livro

Descrição

Como foi a participação das mulheres cativas na sociedade escravista e nas primeiras décadas da pós-emancipação? Como protestaram mirando a escravidão e contrariando a ideia de que aceitaram com passividade a opressão imposta? Os ensaios desta coletânea, que abrange os séculos 18 a 20, constituem um quadro amplo e fascinante das experiências das mulheres africanas, crioulas, cativas e forras.
Lançados:
13 de nov. de 2012
ISBN:
9788584550005
Formato:
Livro

Sobre o autor


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Mulheres negras no Brasil escravista e do pós-emancipação - Valéria Gomes Costa

mundo.

Mulheres Negras no Brasil escravista e do pós-emancipação

Giovana Xavier

Juliana Barreto Farias

Flavio Gomes

(orgs.)

MULHERES NEGRAS NO BRASIL ESCRAVISTA E DO PÓS-EMANCIPAÇÃO

Copyright© 2012 by autores

Direitos desta edição reservados por Summus Editorial

Editora executiva: Soraia Bini Cury

Editora assistente: Salete Del Guerra

Tradução dos capítulos 4 e 9: Carlos Silveira Mendes Rosa

Capa: Buono Disegno

Imagem de capa: Mayer George Vladimirovich/Shutterstock

Diagramação e produção de ePub: Triall Composição Editorial

Selo Negro Edições

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Impresso no Brasil

Sumário

Capa

Ficha Catalográfica

Rosto

Créditos

Sumário

Apresentação

Capítulo 1 – Mulheres de diversas qualidades e seus testamentos na colonial, escravista e mestiça capitania das Minas Gerais

Eduardo França Paiva

Capítulo 2 – Mulheres afro-ascendentes na Bahia: gênero, cor e mobilidade social (1780-1830)

Adriana Dantas Reis

Capítulo 3 – Três pretas virando o jogo em Minas Gerais no século XVIII

Luciano Figueiredo

Capítulo 4 – Rainhas e juízas – As negras nas irmandades dos pretos no Brasil Central (1772-1860)

Mary Karasch

Capítulo 5 – Entre personagens, tipologias e rótulos da diferença: a mulher escrava na ficção do Rio de Janeiro no século XIX

Giovana Xavier

Capítulo 6 – Mulheres escravizadas na Paraíba oitocentista: trabalho, contradições e lutas por liberdade

Solange P. Rocha

Capítulo 7 – Mônica da Costa e Teresa de Jesus: africanas libertas, status e redes sociais no Recife Oitocentista

Valéria Gomes Costa

Capítulo 8 – Sob o governo das mulheres: casamento e divórcio entre africanas e africanos minas no Rio de Janeiro do século XIX

Juliana Barreto Farias

Capítulo 9 – Uma certa liberdade

Sandra Lauderdale Graham

Capítulo 10 – Com ela tem vivido sempre como o cão com o gato: alforria, maternidade e gênero na fronteira meridional

Paulo Roberto Staudt Moreira

Capítulo 11 – Relações de gênero no cotidiano de mulheres negras da Bahia oitocentista

Isabel Cristina Ferreira dos Reis

Capítulo 12 – À vovó Vitorina, com afeto. Rio de Janeiro, cerca de 1870

Sandra Sofia Machado Koutsoukos

Capítulo 13 – Entre dois Beneditos: histórias de amas de leite no ocaso da escravidão

Maria Helena P. T. Machado

Capítulo 14 – O Fundo de Emancipação Livro de Ouro e as mulheres escravizadas: gênero, abolição e os significados da liberdade na Corte, anos 1880

Camillia Cowling

Capítulo 15 – Teodora Dias da Cunha: construindo um lugar para si no mundo da escrita e da escravidão

Maria Cristina Cortez Wissenbach

Capítulo 16 – Escravas do lar: as mulheres negras e o trabalho doméstico na Corte Imperial

Flavia Fernandes de Souza

Capítulo 17 – Zizinha Guimarães: entre a história e a memória

Petrônio Domingues

Capítulo 18 – Uma volta ao mundo com as mulheres capoeiras: gênero e cultura negra no Brasil (1850-1920)

Antonio Liberac Cardoso Simões Pires

Capítulo 19 – Histórias das diferenças e das desigualdades revisitadas: notas sobre gênero, escravidão, raça e pós-emancipação

Marcelo Paixão e Flavio Gomes

Os autores

APRESENTAÇÃO

Nas últimas décadas, os estudos sobre a escravidão se consolidaram na vasta historiografia sobre o Brasil colonial e pós-colonial. Pesquisas desenvolvidas em programas de pós-graduação, a diversidade na utilização de fontes – em especial para enfoques quantitativos e de história social – e a amplitude nas abordagens no que se refere a tempos e espaços são algumas das principais características dessa viragem historiográfica. Se até os anos 1960 falava-se em escravidão como algo genérico, posteriormente as abordagens sistêmicas sobre o escravismo perderam espaço para análises do cotidiano, das culturas e do próprio escravo. Novas temáticas ganharam destaque. Sabemos mais da sociedade escravista em diferentes regiões e atividades produtivas: plantation, mineração, produção de alimentos, pecuária e escravidão urbana.

Hoje, analisando alforrias, quilombos, irmandades, parentesco, revoltas escravas e famílias nos aproximamos das senzalas, dos zungus, dos cortiços e casebres, perscrutando o imaginário, os discursos e a cultura material dos principais protagonistas da sociedade escravista. Entre temáticas que se impuseram, desapareceram ou reapareceram, evidenciamos uma ainda pouco explorada: as experiências das mulheres negras. Para isso, destacamos aqui os estudos pioneiros de Maria Odila Leite da Silva Dias, Sonia Giacomini, Mary Del Priori, Magali Engel, Martha Abreu, Luciano Figueiredo, Margareth Bakos, Liana Reis, Cecília Moreira, Selma Pantoja, Rachel Soihet e Maria Lúcia Mott e as análises mais recentes de Sandra Graham, Júnia Furtado, Sheila de Castro Faria e Carlos Eugênio Líbano Soares.

A originalidade desta coletânea está em ofertar um painel denso e atualizado sobre o tema, reunindo artigos de 20 especialistas, cobrindo o Brasil de norte a sul em termos teóricos e no uso de fontes diversas. São textos de pesquisas que dão conta não só de cidades, engenhos, fábricas, mansões, mas que fundamentalmente reconstroem cenários e desenham paisagens revelando sombras, suspiros e formas da vida, do corpo, da mente e da alma das mulheres – crioulas, escravas, mulatas, africanas, pardas, forras, pretas, negras e morenas – na escravidão e nas primeiras décadas da pós-emancipação. Foram embaralhados universos, ampliaram-se abordagens e fontes ganharam olhares em outros postos de observação. Sons e imagens se multiplicaram em diferentes conceitos e perspectivas teóricas e metodológicas. A principal ideia foi não somente caminhar a partir das mulheres, mas com elas e por meio delas. Os vários textos tiveram como centro da análise os percursos das pequenas biografias, entre trajetórias inconclusas na procura de personagens modelos.

A disposição dos capítulos obedeceu menos a uma preocupação cronológica do que à diversidade territorial. Iniciamos num espaço nobre para as mulheres na escravidão. O capítulo sobre Minas Gerais setecentista, de Eduardo França Paiva, oferece os primeiros diamantes. Por meio dos testamentos – fonte primordial que aparecerá noutros textos –, vislumbram-se sentidos culturais de negras, pretas, crioulas, índias, mamelucas, mulatas, pardas e cabras com diferentes qualidades e condições, que inventaram, entre vilas e arraiais, espaços mestiços de vivências. E seguimos para a Bahia na passagem para o pós-colonial. Adriana Dantas Reis nos aproxima das experiências da liberdade sob a escravidão. Estratégias de libertas e os caminhos – às vezes atalhos que nem sempre podem ser generalizados – da mobilidade. Novamente os testamentos oferecem registros sobre bens, atitudes e expectativas em narrativas nas quais homens são revelados por vozes não menos fortes que a de crioulas e africanas. Isso nos joga para o interior de um mundo de projetos tecidos sob dores e sorrisos. Antes de seguir em frente, voltamos para as Minas para virar o jogo já desenhado. Luciano Figueiredo, um dos pioneiros nas pesquisas de gênero e escravidão, retoma análises sobre o papel das quitandeiras. Na narrativa das personagens, entre Luzias e Sebastianas, somos conduzidos às ruas, aos cenários de afirmação, aos mercados e à vida de rede fina porém forte das negras nas Gerais. Também no ambiente da mineração chegamos a Goiás e invadimos importante espaço abordado nos estudos sobre a escravidão, mas desconhecido da perspectiva das mulheres negras: as irmandades e o papel das rainhas e juízas. Mary Karasch, responsável por pesquisas de destaque sobre a escravidão no Brasil central, nos presenteia com mais uma abordagem original. Por intermédio dela, conhecemos mais de perto a vida feminina religiosa e associativa nas confrarias católicas dedicadas a Nossa Senhora do Rosário, São Benedito e Santa Efigênia. Festividades e práticas envolvendo a devoção de santos e irmandades eram também espaços de poder e de status para as mulheres negras.

No primeiro passeio que a coletânea faz pelo Rio de Janeiro – a maior cidade escravista e com africanos numa área urbana do atlântico –, encontramos mais mulheres negras. E quem carrega a bússola da interpretação histórica é Giovana Xavier. Certamente caricaturadas com vistas à invisibilidade social, no mundo das ideias identificamos determinados papéis femininos de personagens retratadas em romances, contos e poesias. A repetição de tipologias e rótulos sugere como eram percebidas, notadas, rejeitadas, assediadas e maltratadas. Do Rio de Janeiro fizemos a primeira viagem de volta ao Nordeste. Inicialmente, aportamos na Paraíba Oitocentista. Entre batizados e cartas de alforria, Solange Rocha aborda as expectativas que mobilizavam as mulheres negras. Limites e recuos perfaziam longos e tortuosos caminhos da liberdade num mundo cercado de escravidão. De lá pulamos para Recife, outra das grandes cidades escravistas. Somos guiados por Valéria Costa para encontrar as africanas e suas redes – parte das quais religiosas – também pelos testamentos. E assim seguimos os passos de Monicas e Therezas, moradoras das freguesias de São Frei Pedro Gonçalves do Recife e da Boa Vista, africanas ocidentais arretadas. Com parentela e tutano, elas legaram bens e muita solidariedade a maridos, filhos, afilhadas e mesmo escravas, numa cidade que se tornou escrava delas como espaço de anseios, projetos e vivências.

Algo complexo e semelhante ao cenário reconstruído por Juliana Barreto Farias que nos guia de volta à cidade negra do Rio de Janeiro. Africanas e quitandeiras da África Ocidental são descortinadas em processos de divórcio do Arquivo da Cúria do Rio de Janeiro. Homens e mulheres nos contam por que se casaram, como viveram e por que motivos decidiram romper a união. Invadimos o espaço da casa e de lá saímos para as ruas, divisando os casais entre mercados, barracas e projetos de vida que transformavam cativas em libertas e convertiam todas numa rede de alianças e negócios que também envolvia frustrações da vida conjugal e de sonhos familiares. Viajamos na longa duração para encontrar histórias de ex-escravas narradas por Sandra Graham. Enquanto Balbina, uma cativa doméstica, seguia sendo vendida de uma propriedade a outra pelo interior de Minas Gerais e do Vale do Paraíba de meados do século XIX, nas ruas e nos mercados de Salvador e do Rio de Janeiro as africanas Rosa, Henriqueta e Sabina vivenciavam situações diferentes, mas também desafiadoras. Desfrutando de mais autonomia no ambiente urbano, elas conseguiram conquistar sua liberdade, transformar-se em reconhecidas negociantes e ainda formar novas famílias com agregados e crias de suas escravas, a quem legavam bens.

Daí, seguimos para o Rio Grande do Sul. Em Uruguaiana, cenário quase de fronteira, Paulo Moreira sublinha percursos das mulheres negras e da formação de famílias como uma das expectativas que cercavam as alforrias. Sons de motivação, esperança e desilusão são auscultados nos registros cartoriais e nos inventários. A régua e o compasso de uma face da família negra chegam até Salvador no capítulo de Isabel Reis. Com as trajetórias de Augusta, Ubaldina e Domingas, novamente somos conduzidos por histórias femininas, num cotidiano de exploração no qual afetividade, casamento, vizinhança e recursos materiais eram itens importantes de vidas múltiplas.

Vidas com vários retratos. O capítulo de Sandra Koutsoukos mostra imagens pouco reveladas pela historiografia. Afetividade, ideologias, dádivas, saber médico e mercado de trabalho de amas de leite e mucamas ganhavam coloridos nas lentes de fotógrafos. Mas ainda precisamos saber mais sobre a ama de leite, símbolo da sociedade escravista nas Américas. Foi possível dar muitos passos acompanhando as análises de Maria Helena Machado. A suposta flor das relações entre senhores e escravas no mundo doméstico tinha os espinhos da desconfiança, do ódio e dos assassinatos. Para muitas escravas, maternidade e proteção familiar valiam mais que a emancipação jurídica. Se a liberdade tinha gênero, às vésperas da Abolição, seus significados eram ambíguos. Muita coisa estava em jogo entre leis, esperanças, percepções e expectativas. Centrado na época efervescente do abolicionismo parlamentar, o capítulo de Camillia Cowling trata de forma original das cerimônias do Rio de Janeiro na segunda metade dos anos 1880, momento em que a princesa Isabel distribuía cartas de liberdade. Nessas ocasiões, os registros eram incluídos no Livro de Ouro criado pela Câmara Municipal (1884). Imagens femininas da liberdade e suas contempladas são o pano de fundo para entender os sentidos daquele ritual.

Significados guardaram narrativas próprias, fossem inscritas socialmente e/ou escritas com tintas e papel. Com fontes originais, Maria Cristina Wissenbach nos apresenta cartas e a trajetória da africana Teodora Dias da Cunha. Foi na cidade de São Paulo, nos anos 1860, que essa escrava doméstica teria mandado escrevê-las. A partir desses registros e de outras evidências, a autora propõe atravessar fronteiras borradas do mundo da escrita entre personagens letrados e iletrados numa sociedade hierárquica, com papéis sociais definidos. Se a historiografia da escravidão ainda não conseguiu entrar nas senzalas – para além dos viajantes e alguns poucos estudos de arqueologia –, tem sido possível alcançar lares urbanos e encontrar cenários e práticas pelas ações de mulheres negras. No capítulo de Flávia Souza, elas são anfitriãs, pois janelas e portas das residências das elites imperiais são abertas pelas mãos das inúmeras trabalhadoras domésticas. Uma biografia exemplar de alguém alcançando os derradeiros anos de uma sociedade escravista e as primeiras décadas da liberdade é oferecida por Petrônio Domingues. Na interface da memória, conhecemos a trajetória da professora Eufrozina Guimarães, a Zizinha. Em Sergipe, essa mulher negra alcançou notoriedade que até hoje reverbera em celebrações e homenagens.

Mas nem tudo era sempre festa ou carnaval, tampouco práticas culturais estiveram destituídas de personagens femininas. Assim, vemos o jogo da capoeira por outros ângulos no capítulo de Antônio Liberac, em que são examinadas as evidências da presença de mulheres negras entre os praticantes do século XIX e da primeira metade do XX. A coletânea se encerra fazendo um quase caminho de volta que salta até a história do tempo presente. Flavio Gomes e Marcelo Paixão juntam narrativas de testamentos de mulheres forras nos séculos XVIII e XIX a dados populacionais e socioeconômicos do século XXI, explorando mudanças e permanências da escravidão, da pós-abolição e das relações raciais contemporâneas relativas à variação do mercado de trabalho e aos recursos destinados às mulheres negras.

Donas de passados e presentes atuais e verdadeiros, sólidos tal qual uma rocha, na historiografia sobre a escravidão e a pós-emancipação as mulheres negras são pouco abordadas como protagonistas das mais diversas histórias. Embora só um começo, esta coletânea dá alguns passos nessa direção, revelando silhuetas até então encobertas pelas hierarquias de gênero e raça.

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Mulheres de diversas qualidades e seus testamentos na colonial, escravista e mestiça capitania das Minas Gerais

Eduardo França Paiva

Muito além de Chica da Silva, a célebre liberta que conquistou o intendente dos Diamantes, a então capitania das Minas Gerais, uma das regiões mais ricas do mundo setecentista, gerou várias outras personagens que escreveram suas histórias, malgrado as condições cotidianas muitas vezes avessas às suas pretensões. A maioria delas permanece ainda hoje no anonimato, mas seus rastros podem ser recuperados nos arquivos, museus e bibliotecas, como apresentarei neste texto. Quase sempre o que se consegue são biografias curtas, embora intensas e fascinantes, que trazem consigo nacos importantíssimos da história das Minas Gerais, intimamente conectada com as dinâmicas socioeconômicas, com as redes políticas e culturais e com o trânsito de gente que se deslocava pelo Império português e mesmo fora dele.

Personagens conectadas

Ao longo dos últimos meses decorridos, algo especial preocupara Joana da Silva Machada, nome cristão dado à escrava vinda da Costa da Mina para o Brasil durante a primeira metade do século XVIII. Corria o ano de 1745 e, por algum motivo que não se conhece, a liberta pressentia que seus dias de vida não seriam muitos mais, o que a levou a mandar escrever seu testamento, feito nesse mesmo ano, na Vila de Santo Antônio do Recife, na capitania de Pernambuco. Ela tinha razão em se preocupar, pois faleceria pouco depois, em 1747. No entanto, entre a feitura do testamento e sua morte, Joana teve energia suficiente para se deslocar do Recife a Minas Gerais, trajeto muito longo e um tanto perigoso que, talvez, explique o cuidado em deixar registrados seus legados e últimos desejos. Antes do Recife, a africana pode ter morado na Cidade da Bahia, onde desejava que fossem rezadas muitas capelas de missas em intenção de sua alma, depois que morresse, o que ocorreu no Arraial dos Carijós, próximo à Vila de São João del Rei, na capitania das Minas Gerais. Nessa vila, Joana vivia na estalagem de Manuel Antunes.

Joana Mina não declarou as razões que a fizeram sair do Recife e migrar para as Minas Gerais, de onde não mais sairia, mas não parece ter sido por vontade de conhecer outra região do extenso Brasil, como uma turista de nosso tempo atual faria. Viajantes que buscavam conhecer outras realidades eram raros naquela época e, em geral, vinculavam-se a grupos restritos de ricos, ou de cientistas, naturalistas e curiosos, aos quais certamente ela não pertencia. A motivação parece que estava ligada às atividades econômicas desempenhadas pela forra, as quais aparecem indicadas em seu testamento e envolviam o comércio de tecidos, roupas e outros objetos. Joana engrossava, muito provavelmente, o grupo de pessoas que transitava entre essas regiões trazendo e levando mercadorias para ser negociadas. A maior parte desses negociantes era composta por homens, e muitos deles foram chamados de homens de caminho. Contudo, como Joana, havia algumas mulheres que também desempenhavam a mesma função e poderiam ter sido chamadas, também, de mulheres de caminho (Ivo, 2009).

Nossa personagem deve ter sido mulher decidida, que transitava por caminhos marcadamente masculinos, nos quais obteve êxito, se considerarmos sua fortuna declarada em testamento e inventariada após sua morte. Tudo que conseguiu parece ter resultado de suas andanças de negócios, que ainda incluíam a praça do Rio de Janeiro. É mesmo extraordinária a extensão geográfica que percorreu essa mulher negra ex-escrava, que ascendera economicamente e se tornara, à sua vez, proprietária de escravos, além de joias e de outros bens materiais. Seu inventário post-mortem, de 1748, arrolava, por exemplo: tecidos de vários tipos, roupas prontas, lençóis e toalhas, sapatos e fivelas de sapato, duas xícaras e um pires da Índia, vidro, colheres e garfos de prata, pratos e tigelas de estanho, tachos e bacias de cobre e de arame, balanças e fumo. Entre roupas de uso, roupas de cama e de mesa, tecidos e sapatos, encontravam-se uma mantilha de veludo guarnecida de renda de prata; saias de primavera preta, de pinhoela preta, de pano azul com seu galão de ouro por baixo, de seda verde, de lã verde, de baeta, de riscadilho com seu uso e de nobreza [?] com muito uso; um capote de camelão forrado de baeta; um colete de galacé [glacê] usado; dois côvados de pano rosco, 11 de riscadilho, dois de lemiste usado e um de baeta cor-de-rosa; duas varas de Bretanha e quatro de entremeio; um chapéu com sua bordadeira; um timão de baeta encarnada; uma caixa de moscóvia; dois lençóis com seu entremeio de pano de linho e dois lisos; 11 camisas de Bretanha, cinco de cambraia e uma de caça usada; quatro toalhas de mão de pano de linho e uma de Bretanha com sua renda; três almofadinhas; um lenço branco; dois guardanapos; um gibão de baeta e um chinelo de marroquim com seu uso. Em ouro e prata lavrados, umas continhas de pescoço, três voltas de corais engranzados, quatro cordões, botões, imagens de Nossa Senhora da Conceição e do Menino Jesus, bentinhos do Carmo, agulheta e olhos de Santa Luzia, uma cruz de filigrana; um breve de marca com seus trancelim, cadeados com aljôfares e diamantes e caixilho de breve de prata com seu trancelim e outras miudezas de prata. Possuía os escravos Antônio Angola e a negrinha por nome Maria, da mesma nação, além de Francisca Mina, que libertara em 1745, sem qualquer condição, e continuara seguindo a ex-senhora. Joana não declarava ter família, casa, nem lugar de moradia fixa. Tampouco mencionou animais de cargas, imprescindíveis para as atividades dessa mulher de caminho, o que pode indicar pertencimento a alguma rede de negociantes que, convenientemente, se deslocavam juntos, compartilhando estruturas operacionais, bases de apoio e estratégias de segurança.

Se não existisse organização de tropeiros e de comerciantes itinerantes, como poderia ter Joana frequentado caminhos infestados de bandidos e salteadores, carregando tantas mercadorias e objetos de valor, acompanhada, aparentemente, por um casal de escravos adultos? Como teria se deslocado por extensões tão alargadas e como teria transportado as mercadorias, além dos objetos pessoais, alguns de muito valor, além de ouro em pó (que servia de moeda) e, às vezes, dinheiro?

A vida um tanto nômade da africana não impediu o estabelecimento e a manutenção de vínculos afetivos com pessoas de várias localidades, e isso pode ajudar a entender parte da complexa organização de suas andanças. Talvez tenham esses conhecidos lhe dado suporte operacional, acolhendo-a e a seus acompanhantes. Talvez eles integrassem redes de apoio às atividades desses negociantes aventureiros. Joana conhecia muita gente em vários lugares e demonstrou isso, em 1745, listando testamenteiros que executariam seus legados. O rol era bem maior que a maioria dos elaborados por testadores brancos e ricos. Ela, que cultivara autonomia e esbanjara coragem, pedia

ao senhor Vitoriano Ribeiro Riba e a Domingos Francisco Braga e a Francisco Álvares Ribeiro e a Bento de Bessa Barbosa e a Manuel Correa de Araújo, na Cidade da Bahia; ao sargento major Miguel Francisco de Araújo e a Sebastião Ribeiro da Silva, no Rio de Janeiro, e a Manuel Ribeiro Manso e a Antônio Álvares nas Minas Gerais, e a Bartolomeu Álvares e a Antônio Rodrigues Coelho e Domingos da Costa Guimarães e, no Sabará, a Antônio Pereira Braga e a Joseph Vieira Antunes e ao Sargento Maior João Vieira, no Serro do Frio, a João Ribeiro da Costa e a João Teixeira Leitão e a Francisco Martins e, nas Minas Novas, Antônio Gonçalves Chaves e ao capitão-mor Francisco Álvares, moradores na Chapada, e ao reverendo vigário da freguesia aonde for meu falecimento [...] serem meus testamenteiros [..]¹.

Ainda em Recife, ao listar seus testamenteiros, ela indicava que as idas e vindas eram constantes e que a viagem em direção às Minas, feita logo depois, não era a primeira. Durante suas viagens, Joana estabelecera contatos com homens importantes nas localidades onde negociava. Mulheres com perfil semelhante, tão dispostas a se aventurar em travessias que demoravam semanas, competentes o suficiente para sair do cativeiro e constituir uma rede pessoal e comercial tão alargada, eram raras. Não obstante, existiram e legaram registros documentais sobre suas aventuras.

As Minas Gerais do século XVIII constituíam uma das regiões mais dinâmicas e ricas do mundo. Ouro, diamantes e pedras preciosas; comércio intenso, conectado com praças e portos do Brasil, da América espanhola e de outros continentes; agricultura e pecuária importantes; prestação de serviços e complexa estrutura administrativa em vilas e arraiais onde se encontrava grande parte da maior população de livres, libertos e escravos entre as capitanias do Brasil: era este o perfil da região que atraiu gente de todas as partes. Tanto entraram escravos africanos e os já nascidos no Brasil quanto chegaram livres e libertos vindos de outras capitanias e da Europa (portugueses, na maioria). Precocemente, a população de nascidos nas Minas teve taxas positivas, fomentando o crescimento demográfico. Ao final do século XVIII eram mais de 360 mil habitantes, quase metade deles composta por escravos e a outra por nascidos livres e por ex-escravos (Maxwell, 1978, p. 302). Era um crisol de culturas e, assim como outras áreas americanas, foi uma sociedade marcada pelo trânsito intenso de gente e culturas e pela mobilidade social.

Em um contexto como esse, as incontáveis alforrias e coartações (prática costumeira resultante de um acordo entre senhor e escravo que permitia o pagamento parcelado da alforria em quatro ou cinco anos) foram instrumento de dinamização social, com forte impacto demográfico, econômico, político e cultural. Nessa sociedade, ex-escravos e não brancos nascidos livres de todas as qualidades – o termo geral de identificação –, ou seja, índios, brancos, pretos, crioulos, pardos, mulatos, cabras, mamelucos, mestiços etc., ascenderam econômica e socialmente, constituíram famílias, adquiriram bens materiais e se tornaram proprietários de escravos.

Inserida nesse quadro e buscando as inúmeras oportunidades que ele gerava, uma mameluca (filha de português e de índia) resolveu atravessar matas, montanhas e rios para se instalar nas Minas Gerais. Anastácia era seu nome, filha de Pascoal Homem e Moxia Carijó. Nascera antes de 1720 e morara na Vila de Itu, na então capitania de São Paulo e Minas do Ouro, onde se casara e tivera uma filha com João Requeixo. Segundo ela, homem rude e violento, que a abandonara com a filha para se aventurar pelo território das Minas, à busca de riqueza fácil. Levara consigo, inclusive, dois carijós que Anastácia ganhara de seu tio, Manuel Homem, sem a concordância dela. A mameluca buscou, durante a ausência do marido, suprir necessidades materiais e afetivas, e acabou tendo outros dois filhos: João e Francisco, este último fruto do relacionamento que tivera com um estudante².

Muitos meses haviam se passado e Anastácia permanecia em Itu, onde, certamente, conseguira arranjar sua vida entre parentes, amigos e conhecidos. Entretanto, de repente, chegou-lhe uma notícia que a faria decidir abandonar de imediato sua situação aparentemente tranquila. Alguém lhe informou que o marido que a abandonara estava voltando dos sertões, o que, aliás, indica a participação dela em redes de informação que se organizavam entre a população. Logo depois, ela decidiu evitar o reencontro e fugir, justamente, para as Minas Gerais, para remir a vida para que o dito meu marido me não matasse. Foi assim que resolveu fazer o caminho inverso ao do marido e procurar vida nova.

Sua viagem às Minas, desde o início, foi uma aventura arriscada. Afinal, atravessar grande extensão territorial, provavelmente por caminhos alternativos, para não se encontrar com Requeixo, sem bens alguns se não só com a minha pessoa, conforme ela própria mandou escrever em seu testamento, enfrentando dias e dias de muitas dificuldades de toda ordem, não deve ter sido tarefa fácil. É plausível que ela tenha recebido, de alguma forma, auxílio dos componentes da mesma rede que a informara sobre a volta do marido. Talvez, por isso, tenha conseguido completar a longa viagem com êxito, tendo onde pernoitar e comer e contando com companhias que poderiam protegê-la em trilhas tão rudes, em geral marcadamente masculinas.

A estratégia deu certo e Anastácia passou aos sertões das Minas sem cruzar com o marido. Pouco tempo depois, engravidou novamente e deu à luz outro menino, filho de um tal Antônio Pereira, do Serro do Frio, comarca mineira que na época ia do centro ao norte da capitania, chegando até a divisa com a Bahia, e cuja sede administrativa era a Vila do Príncipe. O relacionamento não parece ter durado muito tempo, pois logo depois Anastácia já tinha outro parceiro, o licenciado paulista Domingos Maciel Aranha, com o qual teve uma filha e permaneceu até falecer, em 1743. O casal viveu vários anos em um sítio que eles possuíam na Vila de Nossa Senhora do Pilar do Pitangui, que pertencia à comarca do Rio das Velhas, a qual se estendia do centro ao norte e ao oeste da capitania, com sede na Vila de Nossa Senhora da Conceição de Sabará. Nessa altura, Anastácia já havia trocado de nome, passando a chamar-se Francisca, o qual ela mesma escolheu. A mudança de nome, como ela declarou em testamento, se deu quando entrei nesta vila [Pitangui]³.

Francisca havia viajado bastante em sua vida até se fixar em Pitangui. Assim como as viagens, muitas foram as relações amorosas nas quais se envolvera. Além disso, essa mulher que parecia cultivar mudanças e aventuras tinha optado por mais uma alteração em sua vida: os novos nome e sobrenome. Nas Minas Gerais, passou a chamar-se Francisca Poderosa (grafado assim no testamento) e Pedrosa (na documentação relativa a visitas episcopais em Pitangui). A mameluca paulista recorrera a um costume da época, talvez procurando apagar rastros que poderiam comprometê-la e construindo para si, dessa maneira, nova identidade.

Os últimos anos da vida de Francisca foram vividos com mais estabilidade ao lado do licenciado Aranha, mas sua personalidade deve ter-lhe rendido inimigos e provocado despeito, pois o casal foi denunciado durante visita episcopal, repreendido pelo visitador Francisco Pinheiro da Fonseca por concubinato e obrigado a pagar uma multa de três mil réis, por ser público e notório de todos o seu relacionamento⁴. Nem assim eles se separaram. Com seu último companheiro, Poderosa/Pedrosa experimentou boas condições de vida e adquiriu bens materiais. Possuía uma escrava angola, que era casada com um escravo pertencente ao amásio Aranha. Além dela, declarava ter comprado a administração de uma carijó (o que significava ter comprado uma escrava índia, prática proibida, daí o eufemismo), Margarida de Brás de Sousa Arsão, por 160 oitavas de ouro (algo em torno de 240 mil réis, valor próximo ao de uma boa escrava), e ter ela quatro filhos, sendo a mais velha livre de sujeição. Os outros três parecem ter servido Francisca como escravos: uma menina, Páscoa bastarda, e dois meninos, João e Inácio mulato e curiboca (curiboca é o mestiço de índia com europeu). Entre os bens materiais contavam-se ferramentas de roça; tachos; pratos de estanho; duas colheres de prata; gamelas; arcas; bacia; uma mula selada e enfreada; toalhas; roupa de meu uso entre o qual quatro camisas de linho e de Bretanha, uma delas boa se dará a minha afilhada; uma corrente com três colares e um catre de pão lavrado [...] uma espingarda. Entre as dívidas, listava o que devia por ter comprado sete varas de pano de linho para sua filha. Já entre os créditos, um era relativo à assistência dada por uma mulata chamada Isabel (sua ex-escrava?) a Manuel Barbosa, morador nas Abóboras da Contagem (Contagem das Abóboras, hoje Contagem), o que indica espraiamento de seus negócios. A mestiça paulista ainda possuía duas oitavas em ouro (em pó); um capote de pano azul fino e novo em folha com seu galão de prata fina e largo; umas casas de capim na Gouveia; a metade do sítio detrás do morro desta vila [...] onde tenho uma casa de capim⁵.

Fugida de São Paulo, sem levar nada consigo, nossa mutante personagem mestiça terminou seus dias desfrutando da ascensão econômica e, talvez, social que encontrara com Domingos Aranha em Pitangui. Antes de morrer ditou seu testamento e, para nossa sorte, não se furtou em contar sua história extraordinária. Embora sua trajetória tenha sido um tanto rara, é importante sublinhar que ela era também uma espécie de sumário de muitas outras trajetórias entrecruzadas e similares. Outras mulheres deixaram em seus testamentos relatos detalhados sobre suas vidas e, ao fazê-lo, legaram-nos informações sobre o viver nas Minas Gerais do século XVIII e início do XIX, o que, em larga medida, foi similar ao viver em outras áreas escravistas urbanas nas Américas.

Realidades como a que se produziu nas Minas promoveram o surgimento de personagens cujas histórias marcaram fortemente a vida de grupos sociais e até de sociedades inteiras. Muitas mulheres não brancas podem ser enquadradas aí, não obstante no imaginário sobre a escravidão, até hoje, e mesmo com todo o avanço dos estudos históricos, sobressaiam as imagens de vítimas aplicadas a escravos e seus descendentes nascidos livres, imagens essas a que costumo chamar de imaginário do tronco (Paiva, 2001, p. 24). O ritmo das mudanças nesse campo parece ser muito menos frenético que o da historiografia, apesar de um e outro sempre ensaiarem diálogos. Ainda assim, os estudos realizados nas últimas décadas revelam um passado escravista colonial muito mais complexo, dinâmico e marcadamente feminino do que se pensava. Voltemos, porém, às nossas protagonistas, saídas da extensa documentação existente em nossos arquivos, sobretudo dos riquíssimos testamentos coloniais. Essas mulheres ainda têm muito a nos contar sobre aquela sociedade e aquela época.

Bárbara Gomes de Abreu e Lima era crioula, ou seja, era nascida no Brasil e filha de mãe e pai africanos. Provavelmente, tinha a pele preta como os pais. Nascera escrava em Sergipe del Rei, filha legítima de Antônio Benguela e de sua mulher Maria Gomes do gentio da Mina e se forrara, segundo seu testamento, nas Minas Gerais, para onde se dirigiu, acompanhando o seu senhor, de quem herdara o sobrenome imponente. Sua trajetória de vida foi fascinante e, mais uma vez, a dinâmica da sociedade mineira ajudou a moldar essa personagem extraordinária. Sua ascensão econômica e social foi notável e rápida. Quando, em 1735, ditou seu testamento, ela já era uma mulher rica para os padrões da época. Morava na cosmopolita Sabará, uma das vilas mais populosas das Minas, ponto de passagem obrigatório para os comerciantes globalizados que negociavam produtos vindos das quatro partes do mundo e transitavam entre a Bahia e a região central de mineração de ouro. Bárbara possuía uma morada de casas no largo da igreja grande e defronte da igreja matriz desta vila. Sua fonte de renda estava ligada ao comércio entre a Bahia e a comarca do Rio das Velhas, feito ao longo do caminho dos currais, por onde passava o gado vacum que abastecia a região. Ela não explicitou em que tipo de comércio estava envolvida, mas a lista de testamenteiros era extensa e incluía homens que ocupavam cargos importantes, responsáveis por cuidar de seus interesses na mencionada comarca, na Vila de Sabará, nas Minas, na Bahia, no sertão e no caminho dos currais. No grupo de nomeados por ela encontravam-se um capitão-mor, um vigário de vara, um homem tratado de Dom, um mestre de campo, dois sargentos-mores e um tenente-coronel⁶. Destacam-se, obviamente, os postos militares, o que joga luz não apenas sobre esse caso, mas sobre os anteriores, em especial quando nos perguntamos acerca da aparente facilidade de deslocamento de mulheres entre extensas e perigosas áreas coloniais e do controle que algumas delas exerciam sobre redes comerciais que atuavam nessas mesmas áreas. Bárbara foi, nesse sentido, uma precursora de Joana Machada, nossa primeira personagem. Pode ter sido, também, uma dessas pessoas cujas vidas e autonomia repercutiram sobre a vida e os projetos de várias outras pessoas que viviam em torno.

A crioula forra era uma daquelas mulheres que possuíam e, por certo, usaram um objeto raro nas Minas, um misto de joia, adereço distintivo e conjunto de amuletos que foi chamado, ainda que mais tarde, de penca de balangandãs. Era muito mais comum na Bahia, onde parece ter nascido o costume entre negras e crioulas de trazer a penca à cintura, presa a uma cinta ou a uma corrente, como se vê nas imagens reproduzidas abaixo, outras vezes sustentada por um correntão posto em perpendicular, desde o ombro até a penca, sobreposta no peito e nas costas das usuárias. Objeto emblemático da autonomia de algumas dessas mulheres, a penca era composta por berloques de formatos os mais variados. Existiam tanto cachos de uvas e romãs, que, desde o período medieval pelo menos, eram associados à fertilidade e à maternidade, até figas, que são antiquíssimos amuletos de origem mediterrânica, e machados de Xangô, pandeiros, frutos de cacau e de caju, peixes, cachorros, chaves, entre muitos outros.

Bárbara possuía, porém, muito mais que os vários berloques de ouro que compunham sua penca. Suas roupas de tecidos caros deviam chamar a atenção dos moradores da Sabará setecentista. No testamento declarava ter quatro saias, duas de seda preta e uma de rossa grana parda e uma de camelão e a roupa branca que se achar [...] três panos de dois côvados, um preto, um azul e um verde...⁷. Entre as joias que possuía encontravam-se voltas de corais engranzados em ouro, âmbar, brincos de aljôfares, cordões e botões de ouro. Possuía pratos de estanho, tachos de cobre e colheres, garfos e faca de prata. Era ainda senhora de três negras minas, e de duas crioulinhas e dois crioulinhos, provavelmente filhos das africanas, o que indica possível formação de famílias matrifocais (isto é, em que a mãe era o centro da organização) em sua escravaria. Além disso, a composição mancípia aponta para a reprodução interna, no lugar da compra de escravos importados da África. Em sua morada de casas de frente para a igreja matriz de Sabará, essa ex-escrava viveu e, certamente, deu exemplos de vida a muitas outras mulheres que buscavam se libertar ou ascender econômica e socialmente.

Outra crioula, Bárbara de Oliveira, também morou na Vila de Sabará. Em 1766, ela resolveu ditar seu testamento e, por isso, temos ainda hoje o registro de uma das grandes fortunas acumuladas naquela época. Bárbara declarou ser filha de uma preta por nome Maria de nação mina já defunta, mas não mencionou o nome do pai. É bem possível que ela não o tenha conhecido, pois as famílias matrifocais eram muito comuns entre as populações escrava, forra e livre não branca; nelas os pais parecem ter tido papel secundário e nem sempre os filhos ficavam sabendo quem eles eram. Bárbara ditou ao escrivão que havia sido escrava de Mariana dos Anjos e que, conforme supunha, a antiga senhora habitava no Convento de Santa Clara, na Cidade da Bahia. Depois de tornar-se liberta, ainda na Bahia, ela se mudou para as Minas Gerais, onde permaneceu até a morte, e manteve-se solteira, ainda que servida por 23 escravos que possuía, dos quais 70% eram mulheres, entre adultas e meninas: duas negras de nação courana; seis crioulas adultas; duas mulheres adultas sem identificação de qualidade; três meninas cabrinhas; três mulatinhas, além de três filhos das adultas, a saber, um cabrinho, um mulatinho e um sem definição de qualidade. Entre os homens adultos, todos crioulos, um havia fugido para a região do Paracatu, segundo Bárbara, e outro ela o alugava à razão de ¾ por semana ao padre Antônio José de Araújo. A maioria dos escravos estava envolvida em núcleos familiares, vivia em conjunto e, aparentemente, compartilhava a mesma casa de Bárbara. Se contarmos mães e filhos, 77% dos escravos estavam envolvidos em laços familiares próximos, o que indica claramente a reprodução interna positiva do grupo, daí os muitos crioulos e mestiços, um padrão repetido entre grande parte das posses de escravos nas Minas Gerais do Setecentos.

O relacionamento de Bárbara com seus escravos era muito próximo, outra característica das pequenas e médias posses de escravos. Na época em que mandou escrever o testamento, ciente de que mors inevitabilis est et hora incerta (Tuielman Kerver apud Martins, 1969, p. 176), a crioula mandou registrar uma série de legados materiais destinados a eles, além de alforriar e coartar alguns. Suas palavras, ainda que escritas por outrem, revelam a proximidade e, até mesmo, certa cumplicidade existente nesses relacionamentos. Ao mesmo tempo, informam sobre o mundo material e cotidiano vivenciado por ela. À maneira de um agradecimento pelos serviços prestados, alforriava e coartava quase todas as suas escravas e os filhos delas, e, em uma espécie de proteção de uma de suas favorecidas, à mulatinha Josefa, visando evitar-lhe uma vida desregrada no futuro, legava duas caixas de roupas [e] uma canastra também com roupa branca [...] para tomar estado de casada quando for tempo, sendo que não tome estado de casada e não obstante viva com honra lhe entregará a dita roupa e, ainda, uma saia de primavera de seda, uma de droguete preto e uma de seda passada de ouro [...], um catre de jacarandá preto torneado⁸.

À outra protegida, a mulatinha Úrsula, legava 32 oitavas de ouro (48 mil réis, aproximadamente) para que tomasse estado de casada (sem fazer as mesmas observações destinadas a Josefa), além de uma saia de brilhante de seda verde quase nova e uma casaquinha de pano berne e três camisas de cambraia. Quanto ao produto das dívidas pendentes (sem identificação das origens), deveria ser repartido, de acordo com Bárbara, igualmente entre Brás de Oliveira Perto, Ana de Oliveira, Bonifácia, Josefinha mulata, Maria de Oliveira crioula e todos os meus fâmulos de casa⁹.

A fortuna acumulada pela crioula forra era ainda maior. Complementavam-na numerosas joias em ouro, prata e pedras preciosas, muitas peças de vestuários e muitos créditos. Contudo, a ascensão econômica e também social experimentada por essa ex-escrava e sua notável fortuna não dirimiram certa angústia que parecia atormentá-la. Diante da iminência da morte, ela pensava na família que morava na distante Cidade da Bahia. Lá estava uma filha parda, que permanecera escrava da mesma ex-senhora Mariana dos Anjos quando Bárbara se mudou para as Minas. Depois disso, a parda conseguira sua alforria, casara-se, tivera uma filha, que também havia se casado e tido dois filhos machos. Apesar de todas as informações que tinha sobre a sua descendência já longa, Bárbara nunca havia voltado a ver a filha e não conhecia os netos e bisnetos. Mesmo assim, ela os designava como seus herdeiros universais. Essa situação, ao lado das demais informações arroladas sobre a crioula, reforça nossa suspeita inicial: é provável que uma das maiores fortunas encontradas entre testadores libertos nas Minas Gerais tenha sido formada graças à prostituição, talvez da própria testadora e, também, de suas escravas¹⁰.

Casos em que essas mulheres coloniais ascenderam econômica e socialmente foram comuns, sobretudo nas áreas mais urbanizadas da capitania. Quando isso ocorreu, não foi raro o fato de elas incorporarem alguns valores católicos e europeus, atitudes pias e práticas moralizadoras que, a priori, se esperariam mais de mulheres brancas. Embora tenha permanecido solteira e tivesse uma filha com quem perdera o contato, além de, provavelmente, ter explorado a prostituição de suas escravas, Bárbara de Oliveira, por exemplo, buscou induzir duas de suas mulatinhas escravas a se casar, deixando-lhes bens pecuniários, móveis e roupas. Outras testadoras, por seu turno, umas mais que outras, tornaram-se católicas por convicção, mais que por conveniência, devotas fervorosas da Virgem e de vários santos. Na verdade, isso era muito comum mesmo entre as que, em paralelo, procediam a outros rituais religiosos e acreditavam em outros deuses. Essa não foi, no entanto, necessariamente uma situação que envolveu todos os escravos, forros e livres não brancos coloniais, incluídos os homens e mulheres provenientes de várias partes do continente africano, portadores de variadas perspectivas religiosas. Convertidos, nascidos católicos ou praticantes de religiões distintas, antes de morrer quase todos recorreram ao testamento como forma de construir o perfil que legariam à posteridade e/ou que pretendiam apresentar no Juízo Final. A evocação de santos que intercedessem junto a Deus pela alma do testador, apesar de ser formalidade característica do início desse tipo de documento, também informava sobre esse universo religioso no qual se inseriam as mulheres (e homens) não brancas de todas as qualidades e condições (livres, forras ou escravas) que habitaram as Minas Gerais.

Ex-escrava, levada da África para

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