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Memórias de um CHEFE DE POLÍCIA
Memórias de um CHEFE DE POLÍCIA
Memórias de um CHEFE DE POLÍCIA
E-book195 páginas3 horas

Memórias de um CHEFE DE POLÍCIA

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Sobre este e-book

Esta obra retrata uma abordagem de segurança pública nos seus mais diversos aspectos, numa ótica de dentro para fora das instituições policiais. O autor consegue através de uma linguagem simplificada, pontuar situações cotidianas do universo policial, com algumas dosagens de humor e singeleza de detalhes. Ao mesmo tempo, retrata seu histórico de vida e suas percepções sobre o Estado Brasileiro dentro do contexto latino-americano.
IdiomaPortuguês
Data de lançamento17 de abr. de 2018
ISBN9788595130982
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    Memórias de um CHEFE DE POLÍCIA - Delegado Adriano Peralta

    Brasil.

    CAPÍTULO I – TEMPOS DE INFÂNCIA

    "Sinto saudades do presente,

    que não aproveitei de todo,

    lembrando do passado

    e apostando no futuro….

    Sinto saudades do futuro,

    que se idealizado,

    provavelmente não será do jeito que eu penso que

    vai ser…" (Clarice Lispector)

    Vim ao mundo no verão de 1971 na pequena cidade de Rinópolis, no oeste do estado de São Paulo. Erámos uma família de sete integrantes: o pai carpinteiro e construtor, a mãe uma dona de casa, a filha mais velha e outros quatro filhos homens, dos quais eu fui o caçula.

    Tivemos uma infância humilde, mas com a mesa sempre farta e onde os princípios norteavam a relação familiar.

    Nos dias atuais seríamos considerados politicamente incorretos; crescemos assistindo programas humorísticos como Os Trapalhões, Chico Anysio, Balança mas não cai e tantos outros que faziam piadas sobre raças, opção sexual, igualdade de gênero, pessoas de baixa estatura etc. Nas tardes de sábados assistíamos pela TV Globo a sessão western onde os mocinhos matavam índios no oeste americano. Além disso, em casa se aprendia a trabalhar desde a infância; com apenas 9 (nove) anos comecei a ajudar minha mãe e minha irmã numa loja da família denominada Novidades Peralta, e lá se foi até os 14 (catorze) anos quando os negócios não trilhavam bem e foi preciso vender a empresa. Se ainda não bastasse, minhas principais brincadeiras, além de andar de bicicleta, eram passar horas com uma coleção de soldadinhos de miniatura e reproduzir faroeste onde cada garoto portava uma arma de plástico e saía atirando um no outro pelos quintais.

    Quando estava noivo de minha esposa, em 1994 presenteei uma criança com um revólver de brinquedo e fui severamente repreendido – só então percebi que aquilo que era normal na minha meninice passou a ter reprovação social.

    Na pacata cidade, estudamos em escola pública o primeiro e o segundo grau (hoje ensino fundamental e médio), e quase nada se sabia sobre uso de drogas ilícitas. Os usuários de drogas, chamados maconheiros eram poucos e conhecidos de toda a comunidade e tratados como verdadeiros leprosos sociais; as famílias proibiam qualquer contato de seus filhos com pessoas dessa linha de conduta. Conheci drogas ilícitas, já na Academia de Polícia, quando estudamos apreensão e identificação em aula prática.

    No interior qualquer inovação virava uma revolução na comunidade. Lembro-me que por volta de 1976, inaugurou na cidade uma filial da rede Supermercados Pag-Poko com matriz em Pompeia/SP; por sinal, minha irmã foi contratada para trabalhar na loja; o empreendimento era o comentário da cidade, com piadas e desconfianças de como seria possível o próprio consumidor adentrar o balcão e escolher suas mercadorias. Muitos resistiam à ideia e continuavam a comprar nos armazéns e empórios onde o comprador apresentava a lista e o proprietário ou funcionário colocava as mercadorias no balcão (e na maioria das vezes ainda vendia fiado com anotação no caderno).

    O supermercado trouxe ainda outra inovação: o óleo comestível (não me recordo se era de soja, milho ou sei lá o que…) era vendido por litro em um galão grande com um bombeador manual; lembro que minha mãe mandava eu ir comprar óleo, me entregando um litro vazio de vidro tampado com rolha ou sabugo e para o Pag-Poko eu ia e mandava encher; não era raro ver garotos deixando escorregar os engordurados vasilhames e vendo os mesmos que se espatifavam no chão. Quem chegava em casa sem o óleo e sem o dinheiro ainda ganhava uma sova.

    A cidade não era comarca, e por mais estranho que pareça, minha referência de autoridade na infância era o temido e poderoso fiscal do ônibus; quando precisávamos de uma consulta, um procedimento médico ou uma compra mais sofisticada (como um rádio) nos deslocávamos para uma cidade maior, normalmente em Tupã. Criança viajava de graça no ônibus da empresa Guerino Seiscento, mas em compensação tinha que estar no colo e não podia ocupar individualmente um assento. Por diversas vezes eu estava dormindo sozinho numa poltrona e fui assustadoramente acordado por minha mãe avisando: acorda, tem fiscal no ônibus!; era o sinal de que todas as crianças deveriam ir para os respectivos colos, todos deveriam ficar em silêncio com as passagens nas mãos para serem conferidas pelo sisudo fiscal do ônibus. Para dar um ar ainda mais sinistro, ele ficava escondido à beira da estrada e aparecia de repente mostrando a credencial e mandando parar o veículo.

    Quando eu tinha cerca de um ano, tentamos a sorte como pioneiros na zona rural onde hoje é a cidade de Tangará da Serra, no longínquo estado de Mato Grosso. Meu pai trabalhava para o fazendeiro José Severo Lins Neto que tinha várias propriedades e estava abrindo a Fazenda Olinda na região denominada Boa Vista, nas proximidades do Rio Pecuama. Não acredito em superstição, mas tem uma que diz que a gente sempre volta ao local onde enterramos o umbigo, e o meu foi enterrado na porteira dessa fazenda. Se é válido ou não, o fato é que por obra do destino, voltei a Tangará da Serra 21 anos mais tarde e foi quando conheci minha esposa e tivemos nossas três filhas. Silvana é da família Lopes, e seu avô, Jonas Lopes da Silva é um dos fundadores de Tangará da Serra, onde chegou em 1961, tendo sido vice-prefeito de Barra do Bugres representando o eleitorado do então distrito de Tangará.

    Nossa família permaneceu por menos de um ano no Mato Grosso. A região estava sendo aberta, era inóspita e com muitas doenças; uma febre misteriosa que matou muita gente e que nunca foi devidamente esclarecida, e além disso, a fazenda era vizinha da Fazenda Pecuama. Essa fazenda com aproximadamente 50.000 hectares de terras e maior que muitos países, estava sendo aberta com mão-de-obra de outros estados e os peões eram controlados por jagunços armados que faziam suas próprias leis. Numa certa ocasião, minha família se deslocava para o vilarejo numa caminhoneta da Fazenda Olinda, quando da selva à beira da estrada surgiu um homem machucado clamando por socorro e dizendo que estava sendo perseguido por jagunços da Pecuama; eles aceitaram dar carona ao homem até o vilarejo e logo adiante foram interceptados por um Jeep da Pecuama com vários homens armados que fecharam a camioneta forçando-a a parar e em ato contínuo retiraram a força o homem fugitivo enquanto esse gritava para não deixarem levá-lo porque iriam matá-lo. A voz corrente na região é que muitos peões eram assassinados e enterrados como indigentes. Por todos esses fatos minha família resolveu colocar a mudança sobre um caminhão e fazer o caminho de volta em cinco dias de viagem até o interior de São Paulo.

    Provavelmente o maior sonho frustrado de minha infância tenha ocorrido no campo de futebol. Já vi muitos garotos péssimos no futebol, mas eu superava todos eles. Quando começava aquela clássica disputa onde dois líderes iam um para cada lado, escolhendo alternadamente os jogadores, eu sabia que podia sentar na beira do campo e seria o último a ser chamado, ou muito provavelmente, agregado a um time quando não tivesse mais ninguém pra chamar. Com a compleição física parruda, quando visitava meus primos em outras cidades e saíamos para jogar bola, acontecia dos líderes inadvertidamente me escolherem entre os primeiros, acreditando que tinham feito uma boa aquisição, o que logo se mostrava um grande equívoco. Nas dezenas de jogos que participei, joguei em todas as posições do campo, e o resultado era indiferente, lembro-me de ter marcado dois gols ao longo de toda a carreira.

    Felizmente, nos estudos era um aluno com notas medianamente altas, tipo oito ou mais; e pra compensar, me tornei um exímio jogador de truco tradicional ou paulista, embora no Mato Grosso a quase totalidade dos jogos é na modalidade de truco espanhol.

    CAPÍTULO II – A ADOLESCÊNCIA

    "As águas de um rio atraem para si, as boas e

    as más qualidades dos leitos que percorrem"

    (Baltasar Gracián).

    Aos 14 (catorze) anos ingressei como contínuo na pequena agência da Caixa Econômica Federal em Rinópolis e lá trabalhei até completar a maioridade. Essa fase foi crucial na minha vida. A experiência de passar a adolescência dentro de uma pequena agência bancária agrega mais conhecimento do que qualquer faculdade; ali aprendi muita coisa: organização, raciocínio lógico, domínio de tempo, honrar compromissos financeiros, enfim, um curso prático de administração e gestão.

    Como tinha menos de meia dúzia de funcionários, eu fazia de tudo: malotes, depósitos, entrega de correspondência, atendimento ao público, carimbo de documentos, checagem para abertura de contas e qualquer outra necessidade que surgisse.

    Na época, entre 1985 e início de 1989 a Caixa Econômica Federal funcionava de forma muito rudimentar e quase tudo era manual. Os documentos eram remetidos ao final do expediente para o processamento eletrônico via malote e no expediente seguinte recebíamos uma listagem eletrônica com o saldo de cada cliente. Se um cliente procurava saber o saldo no início do expediente era fácil, bastava olhar a listagem. Na medida em que iam caindo os depósitos anotava-se a caneta o valor seguido de um + , e a cada cheque ou saque que era feito fazíamos as anotações a caneta dos valores e um –. Assim, se ao final do expediente o cliente quisesse saber seu saldo era necessário usar a calculadora lançando as anotações. De tecnologia avançada na própria agência tínhamos o telex e a máquina de microfilmagem utilizada para pesquisar restrições a pessoas impedidas de abrir contas; esta máquina tinha uma tela parecida com a de computador e uma super lente que era usada para ler os milhares de nomes de pessoas com restrição no sistema do Banco Central.

    Ao final do expediente tínhamos hora para fazer o fechamento dos malotes e entregar ao maloteiro que tinha o horário limite para sair da agência e chegar nas centrais; um maloteiro seguia para Presidente Prudente e outro para Bauru. Caso houvesse algum problema (tipo diferença contábil) e não se conseguisse fechar o malote a tempo, havia duas opções: a primeira era fazer uma vaquinha e levantar um dinheiro para pagar ao maloteiro para ele esperar uns vinte minutos a mais e tentar resolver o problema nesse tempo. Os maloteiros nunca quebravam o galho de ninguém de graça, eles vendiam esse tempo adicional e depois tiravam a diferença no pé. A segunda opção seria pegar um carro particular com abastecimento por conta dos funcionários e levar até a central ainda naquela noite. Como se vê, nos lugares onde menos se espera existe corrupção.

    No início da adolescência escrevi um conto e participei do Concurso de Criação Artística Coronel Eugênio Rino promovido pela Prefeitura de Rinópolis; fui laureado com troféu e certificado; acho que isso me empolgou e aos 17 anos lancei meu primeiro livro, uma coletânea de textos intitulada Meras Definições pela editora Cruzeiro do Sul em Araçatuba/SP; o resultado foi uma tiragem de 200 exemplares dos quais consegui vender 55 e outros 145 pereceram num depósito. Só fui me resignar com a literatura aos 32 anos quando resolvi lançar meu segundo livro, O advogado Cuyabano em ação, com 1.000 exemplares que foram todos vendidos em curto espaço de tempo, à exceção de uma pequena reserva técnica que mantive.

    No segundo ano do ensino médio em 1986, na Escola Estadual Ginez Carmona Martinez, fundei e presidi o Grêmio Estudantil e a União Municipal dos Estudantes Secundaristas de Rinópolis. Desde a década de 70 a meados da década de 80 o movimento estudantil estava adormecido no Brasil, e começou a dar o ar da graça na campanha das Diretas Já no final de 1983. Nós ouvíamos alguma coisa pela televisão e líamos nos jornais e tentamos criar um movimento revolucionário no município, mas nas pequenas cidades do interior não havia qualquer tradição de luta política ou estudantil e nós dispúnhamos de pouca informação sobre o tema – acho que nem nós sabíamos o que a gente queria de verdade. Não havia internet e as opções de doutrinas externas eram muito limitadas, restringindo-se a duas reuniões que participei em Marília/SP com outros líderes estudantis do interior de São Paulo que tentavam recriar o movimento. Não bastasse isso, eu vinha de uma família com tradição em apoiar o Malufismo, o que conturbava ainda mais a cabeça de um adolescente que tentava conciliar os ideais de esquerda com o conservadorismo.

    CAPÍTULO III – A JUVENTUDE NA FACULDADE

    "Aos vinte anos reina a vontade, aos trinta a

    inteligência, aos quarenta o discernimento."

    (Baltasar Gracián)

    Faltando três dias para completar 18 anos de idade, minha família adquiriu uma sorveteria na cidade de Quatá no interior do estado de São Paulo. Foi uma mudança radical em minha vida, tudo era novo. O contrato de trabalho com a Caixa Federal tinha expirado e passamos a trabalhar com a produção e venda de sorvetes – uma atividade que não conhecíamos. Cidade nova, amigos novos, outra residência, outra família (passei a viver com meu irmão, cunhada e sobrinha), e uma semana depois iniciava o curso na Faculdade de Direito da Alta Paulista em Tupã.

    A classe era bem grande com aproximadamente 215 alunos por ano. Nunca fui um aluno nota dez, mas sempre me mantive no grupo dos vinte por cento com melhor desempenho da turma.

    Com os melhores colegas de faculdade jogávamos muito truco, bebíamos muita cerveja, mas também estudávamos bastante. Como dizia o amigo Alemão que também seguiu a carreira de delegado (no território paulista): não vamos nos preocupar, a gente tira boas notas; se a água bater no nosso pescoço, é porque já matou a maioria afogada. A vida mudou bastante, há anos sou abstêmio, e as partidas de truco tornaram-se muito raras, até porque, em Cuiabá se joga o truco espanhol, modalidade com regras bem diferentes do

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