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O êxtase da deusa: o caminho do bruxo solitário

O êxtase da deusa: o caminho do bruxo solitário

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O êxtase da deusa: o caminho do bruxo solitário

notas:
5/5 (2 notas)
Duração:
198 páginas
3 horas
Editora:
Lançados:
1 de fev. de 2019
ISBN:
9788530000554
Formato:
Livro

Descrição

O Êxtase da Deusa, é uma proposta de mudança, um novo olhar para um antigo paradigma, em que através de rituais com a sua linguagem mágicka, pretende nos guiar através dos caminhos da Mulher de Poder, da sapiência, despertando a magia, em cada uma, ou um, que ouvir o seu chamado. E para isso, para ouvir o que esse vocare tem a nos dizer, precisaremos empreender uma descida ao mundo subterrâneo, vaginal e uterino da Bruxaria.
Editora:
Lançados:
1 de fev. de 2019
ISBN:
9788530000554
Formato:
Livro

Sobre o autor


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Amostra do livro

O êxtase da deusa - Sérgio Lourenço

oprimidas."

Prefácio

Algumas ideias nos perseguem como uma sombra. Podemos escolher não lhes dar atenção, mas elas parecem ser entidades com vontades próprias. Quanto mais tentamos ignorá-las mais elas irão se instalar sorrateiras e soturnas debaixo da cama, ou debaixo do travesseiro e ainda se esconder dentro da gaveta da cômoda. E quando estivermos quase dormindo irão irromper na escuridão, assombrando-nos noite a fora como um fantasma.

E assim posso dizer que foi com esse livro; um tipo de relação obsessiva, que escolhi abandonar por muitos motivos, mas que recorrentemente têm me perseguido e tirado algumas noites preciosas de sono, inquietando o meu ser. Contudo, não é com pesar que me coloco aqui diante do computador para escrever, muito menos com um senso de dever e obrigação. Não! Acredito que seja muito mais por chamado, e que não é de hoje.

Certamente esse livro é aquele pensamento que jamais me abandonou, e o único jeito de abandoná-lo, no bom e melhor sentido é criando e dando-lhe vida e corpo. Não é de hoje que venho tentando tal proeza, em vista de que muitas vezes no processo criativo tenha me faltado a palavra certa, o ponto seguinte, enfim, aquilo que me motivasse a continuar escrevendo. Procurei o melhor jeito de passar as minhas ideias e intentos nesse livro. E foram muitas voltas, quase como uma masturbação, porém voltei resignado, mas satisfeito – isso por que estou mais seguro do que pretendo – com a maneira que ele foi escrito.

O ano de 2010 foi um ano de uma dedicação teórico-prática muito intensa para com a Arte, então comecei a escrever de forma compulsória a primeira versão jamais publicada de O Êxtase da Deusa, na qual tentei expressar da melhor forma possível todo o conhecimento que tinha acumulado a respeito da Bruxaria como Religião. Posso dizer que foi naquele tempo que percebi que gostaria de ser escritor.

Ansioso, enviei e-mails para todas as editoras de meu conhecimento que publicavam livros sobre o assunto, poucas me responderam e dessas poucas todas de forma negativa. Foi então que em um ritual de Lua Cheia, naquele ano, pedi à Deusa que me ajudasse a publicar o livro. A resposta que ouviria em seguida ao meu clamor me perseguiria tanto quanto a ideia de publicá-lo. Ouvi em minha cabeça de forma muito clara, repetia com meus próprios lábios, para ter certeza de que não esqueceria. Era tão simples e ao mesmo tempo tão profunda como um abismo: ainda não é a hora. E realmente não foi!

Hoje, com mais maturidade percebo que esse ainda não é a hora significava muito mais que meus parcos recursos financeiros e circunstâncias materiais. Significava a minha própria superficialidade sobre a experiência vivida na jornada da Bruxaria e na vida em si mesma, pois embora tivesse uma considerável bagagem de conhecimento, hoje vejo que ainda me faltava a sabedoria que vem com a experiência, não apenas de ritual, mas sim uma que viesse com a presença do cotidiano, uma compreensão mais autoral e sincera sobre a Arte.

Esta obra O Êxtase da Deusa: O Caminho do Bruxo Solitário só foi possível ser (re)escrita devido à minha completa desconstrução. Acredito que, se não fosse por isso, estaria insistindo em seu modelo inicial, e não teria alcançado a profundidade que sei que hoje tenho.

A profundidade que me refiro, é a de querer tornar esse livro um material de apoio crítico e sério, não só a respeito da Bruxaria como Religião Contemporânea Neopagã, Mistérica e (Auto) Iniciática sob a perspectiva do Caminho Eclético e Solitário, mas uma lente que permita questionar o atual paradigma ecológico, social e político em que vivemos e que, a partir do olhar ancestral e prático das bruxas, seja possível lançar outro paradigma e propor uma nova utopia. E através do rico caldeirão de símbolos e rituais da Bruxaria Contemporânea (Wicca), oferecer ferramentas de apoio para uma nova consciência humana, que tem como ponte de partida o indivíduo que se vê parte de um Todo. Partindo da ideia que, esse Todo, envolve nossas esferas políticas e sociais além das espirituais, tendo na ponte do numinoso, um instrumento de poder para a construção de outro sistema.

Introdução

Dia desses em que o tédio precisa ser ocupado com qualquer coisa, parei diante de uma pequena aranha de jardim. E ali, sentado, observei o seu tear delicado. Do seu ventre saia o fio prateado que era tão sincronicamente colocado um sobre o outro, e este me sugeriu uma pergunta: quem havia lhe ensinado isso?

Todo o meu aprendizado científico e técnico não caberia como resposta, e me voltei para a alma das coisas, o mistério que regia aquele momento. E o pequeno aracnídeo se revelou como meu professor, que me ensinou a sua ancestralidade latente em cada fibra de seu ser e de sua teia e que, agora, também fazia parte do meu ser.

E dessa forma, poderia aprender com a árvore e as nuvens, pássaro e a grama, e até mesmo das células que formavam o tecido de minha totalidade humana. Tudo que precisava fazer era passar a habitar o mundo poeticamente, abandonando qualquer pretensiosismo científico que, com o seu caráter laico me conduzira por caminhos demasiados mecanicistas e positivistas.

Poesia era a linguagem que os outros seres à minha volta e à minha ecologia interior se utilizavam para aprender, comunicar e ensinar. E tudo o que eu necessitava era uma permissão e abertura sincera e desimportante, sem etnocentrismos, para poder tocar, ver, farejar, ouvir, degustar e intuir o mundo, o macro e o microcosmo à minha volta e assimilar a sua magia.

Sem saber, havia atravessado uma fabulosa jornada. Sem saber, havia aprendido como as primeiras mulheres e homens aprenderam. Sem saber, estava falando a linguagem das xamãs, das curandeiras, das Bruxas.

E no lugar do tédio, surgiu algo que agora me obrigava a sentar e escrever. E assim começou a nascer esse livro sobre a linguagem das bruxas – a linguagem da natureza.

Poucos são os caminhos oferecidos na contemporaneidade que nos conduzem a um contato com a natureza, e não apenas isso, mas que nos devolva a ela enquanto fazemos uma leitura crítica da realidade que nos é oferecida pelo sistema em que vivemos, e um desses caminhos é o da Bruxaria como prática ancestral matrilinear.

Para que verdadeiramente possamos compreender o que é a Bruxaria como religião contemporânea e jornada sagrada, precisamos desconstruir conceitos que nos foram ensinados ao longo da história da civilização patriarcal. Por isso que o caminho das bruxas exige de nós um resgate da memória do mundo e das vozes que cantam antigas canções e falam de um tempo em que antes do verbo foi o útero.¹ Pois quando o útero era presente em nossa humanidade, outras eram nossas relações. Então fica o questionamento: o que perdemos ao longo de todo esse processo civilizatório? A questão nos deixa escapar uma angústia que aponta para perspectivas cada vez mais pessimistas da vida, a qual virou lucro e mercadoria, colocando-nos à deriva das inconsequentes intencionalidades humanas num mundo cada vez mais ganancioso e competitivo.

A Bruxaria não é só uma prática, ela é um modo de ver o mundo e se comunicar com ele. Por exemplo, enquanto escrevia este capítulo preparava um chá de erva cidreira para me aquecer nesse lindo e nostálgico dia de inverno. A Bruxaria está presente nas folhas do chá, na sabedoria aprendida pelas avós de minhas avós que o prepararam tantas vezes para algum tipo de mazela. A Bruxaria está presente na água que permite que eu prepare esse chá, no fogo, no cultivo, em tudo o que ele precisou para estar nesse momento em forma de um líquido que aquece não só o meu corpo físico. Isso é Bruxaria também!

Mas é claro que ela não é somente isso, já que a mesma envolve uma complexidade simples, que só os seus iniciados compreendem, e que eu, como seu caminhante, também pretendo compartilhar em forma de livro com vocês.

E voltando ao meu chá, que está uma delícia, lembro-me que também me é delicioso falar sobre bruxas, as quais dedicam boa parte de suas vidas à sua Arte, mas, que de maneira diferente de outras religiões, nós a vivenciamos entrelaçada no dia a dia, nas aventuras de sermos seres humanos nesse desenfreado e injusto sistema consumista e individualista que tem nos distanciado cada vez mais dos ciclos criativos interno/externos da natureza manifesta, e que infelizmente parte dessa Bruxaria se viu seduzida, produzindo tragicamente uma falsa bruxaria, feita de prateleira e propaganda massiva que deturpam o seu real significado, produzindo um bando de gente alienada que se apropria indevidamente de seus conteúdos sagrados. Isso ainda quando não a confunde com a literatura de massa e filmes de ficção. Poucos são os que sabem o seu verdadeiro significado e o engajamento político que ela nos provoca a ter como postura sacerdotal.²

Talvez, um dos significados e engajamentos mais estampados dela seja o empoderamento feminino e de um olhar sagrado para com a ecologia, o que podemos fundir em único eixo: ecofeminismo.

Sobre essa perspectiva, a imagem que se encaixaria nesse ideal de bruxa contemporânea em seu compromisso sacerdotal, seria a de uma mulher na Avenida Paulista protestando contra a cultura que estupra as mulheres bem como também os recursos da natureza.

Porém, a Bruxaria é ainda algo além dos cartazes a cobrirem as ruas; ela daria a mulher um senso de poder a partir de seu contato com o seu feminino profundo e presente em todas as coisas, tornando uma mulher que reconhece em si mesma a Deusa. E aos homens ela devolve o seu papel de coparticipação na criação da vida, na sua preservação e homeostasia.

Na Bruxaria como religare de ancestralidade matrilinear, somos todos, independente de gênero ou sexo biológico, chamados para ver, ser, tocar e sentir a Deusa, como Ela, em todas as nossas relações. Talvez a Deusa, hoje em dia, seja a expressão máxima e o motivo único de muitas pessoas encontrarem o seu eco no caminho das bruxas.

Somos todos filhos de uma sociedade produto do patriarcado, que foi mascarada por um cientificismo que há pouco, principalmente após a Segunda Guerra Mundial, começou a questionar a si mesma e a maneira como vinha produzindo ciência, ou seja, somos uma reprodução de acontecimentos da mesma forma de um materialismo histórico dialético e hoje nos encontramos à deriva em nossa própria casa, a Terra.

Não sabemos mais admirar o Sol, não entendemos mais a relação da dança mutante das estações na gestação do cultivo dos alimentos. Não pedimos mais licença às árvores e aos animais. A cada dia, toda vez que dizemos sim aos grandes capitalistas, que são os filhos mais novos do patriarcado, negamos essas relações e admitimos a nossa alienação parental com todos os seres vivos da Mãe Terra, e com a própria Mãe. E como consequências, temos o adoecimento.

Por isso, cada vez mais, talvez uma consciência coletiva tenha despertado para antigas práticas ancestrais e por isso temos que protegê-las, seja do fanatismo religioso, seja do neoliberalismo que tenta tornar tudo consumível e embalável e, a melhor forma de proteção seria a transmissão desse conhecimento milenar e inerente à nossa natureza criativa.

O que o novo olhar de biólogos, físicos quânticos, filósofos, etc. explanam com tanta importância e uma pretensa descoberta, as bruxas, xamãs, curandeiras, povos nativos de todos os tempos e lugares já diziam e vivenciavam, ao seu modo, com a sua linguagem simples e universal.

É claro que, as ciências são importantes. É claro que devemos grandes e importantes descobertas que mudaram o nosso modo de interpretar o mundo, e isso é bom. Mas devemos ter a crítica de qual foi o custo disso para todo o planeta?

A Bruxaria é a voz da ancestralidade, cujos rituais pretendem nos conduzir até os mundos suprassensíveis da natureza e de lá acessar a sua sabedoria visceral e latente. Despertando-nos insights poderosos, que nos ajudam a transformar a realidade consensual e provocar as mudanças necessárias no mundo objetivo.

O Êxtase da Deusa é uma proposta de mudança, um novo olhar para um antigo paradigma, em que através de rituais com a sua linguagem mágicka, pretende nos guiar através dos caminhos da Mulher de Poder, da sapiência, despertando a magia, em cada uma, ou um, que ouvir o seu chamado. E para isso, para ouvir o que esse vocare tem a nos dizer, precisaremos empreender uma descida ao mundo subterrâneo, vaginal e uterino da Bruxaria.


1 MURARO, 2000, p.61

2 STARHAWK, 2007

I

Os Paradigmas da Bruxaria

A Bruxaria como religião contemporânea não é meramente uma prática espiritual; é um conjunto de valores que pretende evocar uma visão de mundo e de ser que valorize primariamente a relação do ser humano com a natureza de forma harmônica e homeostática.

A Bruxaria também, não é uma religião homogênea, revelada e nem muito menos possui um livro de leis e condutas, como os cristãos, judeus, islâmicos, entre outras. Ela se inspira na intuição promovida através do contato da natureza e suas forças suprassensíveis. A mesma postura intuitiva das xamãs nas culturas paleolíticas.³

Essa outra concepção de mundo e de ser arraigada nas culturas pré-cristãs, sob a luz de uma perspectiva contemporânea pretende libertar o

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