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Subindo o Solimões

Subindo o Solimões

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Subindo o Solimões

Duração:
213 páginas
2 horas
Editora:
Lançados:
4 de fev. de 2019
ISBN:
9788582456378
Formato:
Livro

Descrição

Desde que conheci a Amazônia fiquei imaginando como contar o que é a vida naquele mundão de meu Deus a quem não teve, e talvez não tenha, a oportunidade de viver essa interessante experiência.
Afinal, aquela região é a metade do território do Brasil, mas é a metade que a maioria dos brasileiros desconhece... e olha que ainda tem Amazônia em mais oito países vizinhos.
Invariavelmente quando alguém diz que já esteve por aqueles recantos se refere a Belém, Manaus, às suas imediações, ou mesmo à sua borda sul, ou seja, na reduzida parte onde acontece o dito turismo ecológico ou na parte em que a agroindústria vem avançando. Mas, não onde acontece verdadeiramente a vida naquela imensa região de água e floresta, aquela vida que existe em seu interior por muitas e muitas gerações.
O que tenho lido a respeito foi um bocado de crônicas e contos sobre um tantão do que ocorre nas entranhas daquele mundo sui generis. Boa literatura.
Mas, aqui vou tentar fazer um pouco diferente, esmiuçando um bocado o jeito de viver do caboclo, aquela conversa de pé de ouvido no dia a dia com a mata e com o rio e que tem permitido sua gente sobreviver ali por tanto tempo.
Caçando u'a maneira de fazer a coisa ficar interessante findei por achar que se colocasse o assunto como uma aventura e contada por um forasteiro que ali viveu por algum tempo e, portanto, teve de se integrar à cultura do lugar e também se sentir gente do lugar, talvez fosse possível levar as pessoas a ler um pouco sobre a vida amazônida.
Daí surgiu a ideia de transformar em um pequeno livro os registros amontoados durante uma viagem de barco que fizemos, minha esposa e eu, subindo boa parte do principal rio que corta ao meio o Estado do Amazonas, o Solimões, na verdade uns 1.000 km de Manaus a Jutaí.
É como se fosse um diário de viagem, com breves comentários a respeito do que fomos observando e do que foi acontecendo durante o percurso da origem, o porto de Manaus às margens do rio Negro, ao destino, a vila de Copatana, no rio Jutaí, e o retorno até a cidade de Tefé, bem no centro daquele estado.
Também busquei no fundo do baú uns fatos do passado enxertando-os no meio do texto, para ajudar entender como funcionavam as coisas por ali.
A linguagem de propósito tem um bocado da mistura do "goianês" com o "caboclês", pois, afinal, é o relato de um forasteiro adaptado ao contexto daquela região, de como foi possível perceber e sentir a vida naquele mundo onde a natureza ainda ditava à época o ritmo da vida.
Editora:
Lançados:
4 de fev. de 2019
ISBN:
9788582456378
Formato:
Livro

Sobre o autor


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Subindo o Solimões - Leone Porto

Manaus

SUBINDO O SOLIMÕES

DESATRACANDO DO PORTO DE MANAUS

Nossa Amazônia! Metade do tamanho Brasil e maior que qualquer país da América do Sul. Sozinha faz fronteira com sete desses países e, de quebra, também tem um litoral de mais de 1.200 km de extensão… uma desconforme fábrica de lonjura.

Rios gigantes, um amontoado de igarapés e de igapós onde a descomunal floresta se mistura a caudalosas águas, ora barrentas e ora escuras e todas singrando rumo a um só ponto do Atlântico.

Nessa vastidão toda sobrevive só 12% da população brasileira. A cidade de São Paulo tem mais gente do que em toda a nossa grande Amazônia.

Ali é o caboclo que luta e labuta da hora em que nasce até na hora de morrer. Ele é uma mistura de índio com nordestino, duas gentes acostumadas aos aperreios do interior e, por isto, gentes valentes.

Para o caboclo o que não é do Norte é Sul… não tem meio termo. E o Norte, sua terra, acaba nas ilhargas de Rondônia, norte do Mato Grosso e Pará… o resto, não tem conversa, para ele, é Sul.

E ele vê que do Sul em geral o que aparece é aventureiro ou fiscal de alguma coisa. De rebarba chegam alguns bem intencionados e bem poucos vão além das intenções.

Pois é! Eu, no meio disso, depois de muito levar bordoada aprendi a gostar dali e daquele povo.

Apeei de madrugada na porteira de entrada da Amazônia, Belém, lá pelo início dos anos 70 e, quando a porta do avião abriu entrou aquele bafo quente e úmido, parecendo coisa de sauna.

-Nossa! Mas, aqui é quente, assim?!

- Aqui até que é fresco. Quente mesmo é no meio da cidade – respondeu o colega de viagem.

E era mesmo! O suor escorria em bicas o tempo todo. E fui para ficar sabe-se lá até quando.

Amanheceu e desde cedo um mormaço danado abafava em todo lugar. Procurei uma sorveteria e perguntei picolé de quê que tinha e a resposta me deixou mais estonteado do que já estava:

-Abacaba, taperebá, cupuaçu, açaí…

-Pera aí, menina. Nem sei o que você está falando…

Ela riu.

-Tu não és daqui, não é? Tu és lá do 'Sul'.

Pai d'égua! Já estava definido que eu era alienígena.

No mercado Ver-o-Peso vi no balcão e pedi um copo de canjica.

O caboclo botou na minha frente num pires um pedaço de curau.

-Mas, eu pedi foi canjica!…

-Pois então, aí está.

-Não! Isto aqui é curau.

-O quê, rapaz?! Aqui não tem isso, não.

Apontei o que eu queria e, rindo da minha ignorância:

-Tu não és daqui, não é? Tu és lá do 'Sul'. O que tu queres é mugunzá, rapaz! Caramba! Adaptar aqui vai ser uma briga.

Para completar, um colega me convidou a acompanhá-lo na merenda, antes da chuva diária, claro! E lá fui eu merendar.

Debaixo de um sol esturricante paramos numa banca de esquina e, então, uma cabocla toda de branco, atrás de um tacho fumegante contendo u'a mistura de tucupi, jambu, camarão e outras trosobas mais, serviu-nos em uma cuia aquela gosma esverdeada fervente. Olhei aquilo… olhei pro colega… olhei para ela… e, duvidando que aquilo fosse comestível:

-Pago o dobro se a senhora tomar esse trem.

Ela caiu na gargalhada e sentenciou-me:

-Tu não és daqui, não é? Tu és lá do 'Sul'. Isto é tacacá, isto é o que há de melhor no mundo. E quem toma tacacá não sai mais daqui.

Rapaz! E num é que não saí, mesmo? Findei por sentar praça por aquelas terras por um tempão da vida. E acabei aprendendo a gostar.

Região muito difícil para a gente do Sul, mas também muito bonita. Um mundo diferente, mundo das águas, mundo das matas, mundo do caboclo batalhador, mundo de sobreviventes.

Gostei tanto que, vira e mexe tô de volta naquela enorme sauna da natureza. Não dá para comparar o aqui e o lá. São, de fato, países diferentes. Geografia, povo, cultura, comida, jeito de falar… tudo diferente. E o caboclo tem um amor por aquele torrão calorento e ensopado que não é brincadeira, viu?

Aquele rincão socado no distante Norte me cativou tanto que, numa das voltas por lá, juntei imagens na toada da viagem, tentado registrar as coisas que fazem o dia a dia da majestosa Amazônia. E olha que a viagem foi bem no estilo caboclo.

De barco recreio (tipo gaiola) de Manaus a Tefé e, de daí em diante, noutro menor ainda até a vila de Copatana, às margens do rio Jutaí… umas 80 horas gingando no convés por uns 1.000 km, enquanto subíamos o rio Solimões.

E é esta a história:

O chão caboclo é de areia e argila. Pedra boa mesmo só acima da calha do rio Negro. O resto é aquela mistura arenosa que num dá consistência. Ruim para pasto e pior para roça.

Veja a cachoeira aí da foto. Fica no município de Presidente Figueiredo, uns 120 km ao norte de Manaus, indo pela BR-174.

Faz parte de um conjunto de quedas d'água que, diferente das do Sul, são temperadas. Pode-se, então, entrar e se banhar sem susto de passar frio.

Água muito limpa, transparente e aquele barulhão de cachoeira desabando em riba das pedras. Foi uma espécie de benzeção à viagem rumo ao Solimões.

Viagem que começou no porto de Manaus, cheio de atracadouros ao cardume de recreios.

O porto é antigo, da dita Era da Borracha, quando os ingleses ainda infestavam as ruas manauaras e faziam o comércio do látex com o mundo todo, mas presta os seus serviços até hoje.

É dele que partem e chegam os recreios ou motor, como lá são conhecidos. Funcionam como se fossem os ônibus intermunicipais e até interestaduais da Amazônia.

Os recreios são cascos tipo baleeira, ou seja, quilha miúda e fundo achatado que atraca em qualquer praia.

Também tem os meia-baleeira, alcunhados de rola-rola, pois têm casco mais estreito e, por isto, balançam mais no meio do banzeiro (marolas).

A velocidade média é de 13 km/h na subida e uns 15 km/h na baixada. Só tem 2 classes: camarotes… poucos, e redes… muitas. E em geral tem 2 banheiros por convés.

Neles se transporta de tudo e, para muitas das vilas penduradas nas barrancas dos rios, é o que existe de comunicação com Manaus, única metrópole do interior da floresta e que abriga metade da população daquele maior estado da federação.

Tem muito caboclo que mora com sua família em embarcações assim, de madeira, e por muito tempo. Em tais casos, invariavelmente têm 4 cômodos: a ponte de comando, a cozinha, uma área maior onde ficam as redes de dormir e o porão, que faz as vezes de casa de máquinas e depósito de tudo quanto é tipo de tranqueiras.

A cadência monótona do motor ajuda a rede a embalar o caboclo por dias, cortando aquelas águas imensas até um lugarzinho sumido no meio da mata, onde ele pratica algum tipo de extrativismo e volta na mesma toada no rumo do velho e conhecido porto de Manaus.

Mas, vamos embarcar que já está na hora de puxar a prancha, desatracar, virar o leme, dar força no motor e rasgar água.

Abandonar o porto requer poucas manobras, pois a baía do Rio Negro frente à cidade tem espaço e fundura de sobra até para os grandes navios da Petrobrás.

Na altura do igarapé do Tarumã, um pouco a noroeste do porto, a largura da baía passa dos 10 km, a mesma distância entre Rio e Niterói.

E logo Manaus vai ficando ao longe. Seus prédios vão se amiudando no horizonte, a água vai tomando conta da paisagem e fazendo-os sumir de vez.

Mais à frente, já no rumo da embocadura do Furo do Paracuúba a proa corta da água escura do Negro para a água barrenta do Solimões.

Furo naquelas bandas é um braço d'água que alaga a terra baixa na época da cheia, deixando os barcos varar por ali e, assim, economizar o tempão de viagem que levaria para contornar a extensa ponta de terra que por léguas separa os dois rios.

Ali é uma minúscula amostra do decantado encontro das águas que fica mais à frente e que, de verdade, é a trombada do rio Negro com o rio Solimões, daí parindo o rio Amazonas que se espicha até topar com a ilha de Marajó, perto de Belém.

Água escura é a do rio Negro e a barrenta é a do Solimões.

Só vê o furo quem conhece bem a sua entrada e só nele navega quem conhece a sua fundura. Tem de ser caboclo experiente.

Ao longe se vê bem a silhueta de um navio tanque da Petrobrás à espera de iniciar viagem prá Belém… 5 dias. O monstro de casco de metal tem de ir devagarinho, porque, senão, o banzeiro que ele faz sai alagando tudo quanto é tapera de caboclo à beira d'água, afunda as canoas e apressa a terra caída, que é o desbarrancamento progressivo das margens dos rios, levando tudo que tem e até a vida do caboclo. Antigamente não tinha esses cuidados e a desgraceira era grande. Sem ter a quem reclamar o caboclo tinha de recomeçar tudo de novo. Não bastasse ter de enfrentar os estragos das insistentes enchentes, ainda tinha o aperreio de vida que os navios causavam ao seu mundo.

Ah! Agora apareceu a entrada do furo, então é só embicar naquele rumo e logo a gente vê a vilazinha de palafitas aparecer, como se estivesse numa jangada grande esparramada à beira da floresta.

Assim é mesmo a coisa pelos beiradões. Condições precárias para tudo e facilidades para nada. É como se o Brasil não tivesse chegado por ali, ou se chegou, só dá as caras de vez em quando.

Tem gente que até tenta, porém é canseira dar conta de tudo, as lonjuras, tudo muito afastado, um Estado do tamanho de país e daqueles para lá de muito grande.

Ainda mais, tem gente achando que o caboclo não precisa de remédios de farmácia, porque as ervas da mata que ele usa são melhores. Ledo engano, pois o uso

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