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O príncipe: Uma biografia não autorizada de Marcelo Odebrecht
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E-book459 páginas10 horas

O príncipe: Uma biografia não autorizada de Marcelo Odebrecht

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Sobre este e-book

Marcelo Odebrecht é um homem de bem. Pai carinhoso, marido atencioso e uma pessoa discreta, avessa à ostentação. Deu emprego a quase 200 mil pessoas, pagou bilhões de reais em impostos e levou um dos maiores grupos empresariais do país a uma era de ouro. Marcelo Odebrecht é um homem corrupto. Montou um sistema profissional de pagamento de propinas e caixa dois para uma legião de políticos de todos os espectros ideológicos e subverteu a cultura corporativa criada pelo seu avô, a TEO, uma espécie de teologia que prega a honestidade e a transparência. Todas as afirmações feitas no trecho acima são verdadeiras. A vida do presidente do grupo Odebrecht é um desfile de paradoxos. O empresário respeitável, condenado como líder de quadrilha. Amado pelos funcionários. Temido pelos políticos. Um Príncipe que se sentia como o bobo da corte da República.
IdiomaPortuguês
Data de lançamento29 de jun. de 2017
ISBN9788582462898
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    Pré-visualização do livro

    O príncipe - Marcelo Cabral

    Jato

    [ NOTAS DOS AUTORES ]

    Dizem que toda vida contém material suficiente para se transformar em livro. No entanto, nenhum livro seria capaz de abraçar todos os aspectos de uma vida. Há histórias que parecem nunca terminar, especialmente quando o personagem principal continua influenciando a política e a economia dos locais por onde passou, como é o caso de Marcelo Odebrecht. Mesmo preso e condenado no Brasil, seus segredos ainda podem derrubar presidentes e funcionários do alto escalão em países da América Latina e da África. Por isso, este livro continuará a ser atualizado. Em uma página da Internet, vamos disponibilizar documentos, vídeos, reportagens e um blog com novas histórias sobre o Príncipe. Acompanhe os próximos capítulos dessa história em: livrooprincipe.com.br

    [ APRESENTAÇÃO ]

    "Recuerden, muchachos: una noticia nunca termina

    Y nunca todo está contado"

    Gabriel Garcia Márquez

    Foi num almoço em setembro de 2016 que o jornalista Marcelo Cabral me contou a novidade: dali em diante, além de se desdobrar nos compromissos profissionais diários, iria mergulhar em um extenso trabalho de pesquisa e investigação — projeto ambicioso que ele esperava concluir em pouco mais de seis meses. Fez, então, alguns segundos de suspense, franziu a testa (conheço essa sua mania dos tempos em que trabalhamos juntos) e abriu o jogo, já com um sorriso de canto de boca (outra de suas manias): "Vou escrever um livro com a Regiane [a jornalista Regiane Oliveira, amiga em comum]. Comemoramos. É um livro sobre a Odebrecht. Na verdade, uma biografia não autorizada do Marcelo Odebrecht. Era a minha vez, agora, de fazer a pausa, calar por alguns segundos para processar a notícia. Cabral e Regiane são grandes repórteres. Sérios. Incansáveis. Fuçadores", como dizemos no ofício. Mas escrever uma história que ainda está sendo escrita pela História seria um tremendo desafio. Pensei na velocidade das mudanças de rumo no Brasil da Lava Jato e de que forma isso poderia impactar a obra. Seria mais prudente esperar o quebra-cabeça se consolidar? Cabral me diria mais tarde que não foram poucas as vezes em que ele e Regiane estavam seguindo uma linha de raciocínio e, de repente, liam ou ouviam uma declaração, uma mísera declaração de alguém envolvido no esquema, que implodia a teoria e jogava fora páginas e páginas já escritas. Paciência... Então me lembrei do Gabo: a notícia nunca termina e nunca tudo está contado. Se é assim — e que assim seja — esta biografia do Príncipe, como Marcelo Odebrecht é conhecido na empresa, vem em hora mais do que oportuna. Esperar para quê? O enredo está aí, acontecendo. Comemoramos.

    Nestas mais de 400 páginas, Cabral e Regiane esmiúçam a trajetória de um poderoso empresário forçado pela Justiça a expor as entranhas da República, a revelar a podridão nas relações entre o público e o privado — uma promíscua simbiose que ele mesmo alimentou com bilhões em propina em nome de um único objetivo: a perpetuação do poder das Organizações Odebrecht, forjada, em boa parte, com a compra a granel de importantes figuras do Legislativo e do Executivo. Perto de uma centena de políticos, de quase todos os partidos, entraram no bolso de Odebrecht. Este livro é, ao mesmo tempo, um recorte preciso de um dos períodos mais explosivos da nossa história e um minucioso perfil de um personagem que se converteu no símbolo de um sistema político doente. Marcelo Bahia Odebrecht ganhou o mundo. Subornou o mundo. E delatou todo mundo. Não se sabe se isso é o fim, como foi anunciado. Ou só o começo. A História dirá.

    Ao desnudar o Príncipe, os autores tratam dos muitos paradoxos que cercam a sua vida.

    1) A figura exemplar no trato com a família revela-se um corrupto contumaz na esfera pública. Em determinado momento do livro, um dos diretores da Odebrecht diz notar um certo prazer de Marcelo em abrir a torneira de propina — não apenas para garantir contratos milionários, mas pela sensação permanente de controlar a classe política. Um titereiro, sem tirar nem pôr. 

    2) Marcelo Odebrecht defendia, com unhas e dentes, a governança e as políticas de compliance em sua empresa, mas as práticas da boa conduta jamais alcançavam o andar de cima — ele mesmo foi o mentor do Departamento de Operações Estruturadas, que cuidava da distribuição de suborno. O DOE (sugestivo nome para a atividade fim do departamento) chegou a ter diretor, seis subordinados, um software próprio e instalações independentes, além de filiais operando no exterior para tentar esconder o esquema todo. Coisa de profissional. 

    3) Considerado um extraordinário executivo até mesmo pelos seus desafetos e concorrentes, Marcelo empurrou a empresa familiar para a beira do precipício. O futuro da Odebrecht, pós-delação, soa tão incerto quanto a continuidade da vida executiva de seu ex-presidente. Cabe lembrar: Marcelo Odebrecht, 46 anos de idade, foi condenado a 19 anos e quatro meses de prisão e proibido de comandar a empresa pelo dobro do tempo da pena. 

    4) Herdeiro de uma das maiores dinastias empresariais, o Príncipe acabou sendo o carrasco de dinastias políticas. Sua delação colocou na mira da Justiça todos os presidentes da República pós-redemocratização — exceção feita a Itamar Franco —, oito ministros, 24 senadores, 39 deputados, todos devidamente nomeados neste livro. Vale a pena guardar os nomes para futuras eleições.

    Cabral e Regiane optaram por não adotar uma sequência cronológica rígida, que fosse do nascimento à prisão, da ascensão à queda de Marcelo. Preferiram, em vez disso, deixar que os fatos controlassem o tempo. Fizeram bem, a meu ver. Diz Cabral: Da forma como os assuntos se entrelaçam na história, viraria um novelo complicado demais. Nossa opção foi dividir por temas, e cada um deles segue a sua cronologia própria. O livro começa com uma descrição detalhada da prisão de Marcelo Odebrecht. A narrativa é envolvente. O Príncipe abrindo, surpreso, a porta de sua mansão para os federais numa sexta-feira de junho de 2015, observando atônito os quartos serem revistados, as gavetas reviradas, os computadores e os celulares apreendidos. Há a conversa com a mulher, Isabela, para definir como proceder com as filhas, que ainda estavam dormindo enquanto a PF fazia o seu trabalho. Há ainda as tentativas de Marcelo de controlar a situação, por vezes mantendo o jeitão autoritário que costumava adotar na empresa. Em determinado momento um dos agentes da PF chama o superior para exibir um documento — Chefe! — e Odebrecht vira a cabeça achando que é com ele. Ouviu-se uma gargalhada federal dos policiais. O Príncipe começava a perder a majestade.

    A chegada de Marcelo a Curitiba, a entrada no presídio, a rotina no cárcere, os exercícios físicos feitos de madrugada (herança do serviço militar), o hábito de escrever todas as noites argumentos para sua defesa nos tribunais, a mania de limpeza... nada escapa aos autores. Nem mesmo as inconfidências dos carcereiros. Uma delas: consta que a cela de Marcelo no Complexo Médico Penal em Pinhais, dividida com dois outros detentos, de tão organizada ganhou o apelido de ditadura. A cela vizinha, de dois companheiros da Odebrecht, bagunçada, virou a democracia. Outra: quando Marcelo foi transferido da carceragem da PF para a de Pinhais, um rapaz que acompanhava a movimentação na rua, ao ver o empresário entrar na van, carregando duas malas, não perdeu a chance: E aí Marcelão, vai viajar?

    Cabral e Regiane passeiam, então, pela trajetória do empresário. A infância em Salvador, a juventude na Europa, as longas conversas de doutrinação com o avô Norberto na ilha de Kieppe, a relação conflituosa com o pai, Emilio, a adoração pela mãe, Regina, o ingresso na empresa e a meteórica ascensão ao cargo de CEO da Odebrecht. O Príncipe multiplica o império, é admirado dentro e fora das Organizações, torna-se um dos expoentes do capitalismo brasileiro. E, como tal, estreita ainda mais as históricas relações da companhia com o governo. Os principais projetos de sua gestão acontecem durante a segunda metade do governo Lula e no primeiro mandato de Dilma Rousseff. Para Lula, Marcelinho era até um jovem promissor, mas tinha de moderar seu temperamento e aprender com o pai a arte da conversa. Dilma se referia ao empresário como aquele menino meio complicado.

    E vem o Petrolão, a origem do envolvimento da Odebrecht nas licitações para serviços da Petrobras. E vem a Lava Jato, a pedra no sapato bem engraxado do Príncipe. Cabral e Regiane se debruçam sobre uma interessante comparação entre o juiz Sérgio Moro e Marcelo Odebrecht, ressaltando suas óbvias diferenças, mas também algumas semelhanças. ... Ambos se guiam por conjuntos de valores que devem ser vitoriosos, não importa o custo... Moro é mais do que um juiz que faz do combate à corrupção a sua bandeira máxima. No processo, é um magistrado que toma decisões controversas em nome de uma cruzada judicial chamada operação Lava Jato.... Para muitos, essa cruzada de Moro fez de Marcelo Odebrecht um bode expiatório. Centenas de funcionários da companhia e mesmo alguns colegas empresários sustentam a tese de que Marcelo é um injustiçado, que foi tragado por um sistema político corrompido e se viu obrigado a seguir as regras de um jogo viciado para defender o seu império. Um grande executivo brasileiro, ouvido por Cabral e Regiane, diz até que uma certa extrapolação do limite da lei é razoável, pois do contrário nada se faz nesse país. Uma pena. Que os súditos do Príncipe não se multipliquem, para o bem da nação.

    Os autores, então, anunciam a tempestade política que se avizinha e fecham a história com a delação de Marcelo e de outros 76 executivos da Odebrecht, cujos tentáculos alcançaram até mesmo governantes da África e da América Latina, mostrando que o DOE não era apenas um departamento, mas sim uma poderosa multinacional. Outros capítulos virão, certamente. Uma notícia nunca termina — sobretudo uma notícia desse tamanho.

    Darcio Oliveira, jornalista, é chefe de redação da revista Época Negócios

    Sumário

    [ NOTAS DOS AUTORES ]

    [ APRESENTAÇÃO ]

    [ INTRODUÇÃO ]

    Um príncipe sem virtude

    [ 1 ]

    A queda

    [ 2 ]

    O cidadão de bem

    [ 3 ]

    O corrupto

    [ 4 ]

    Uma mentira repetida mil vezes

    [ 5 ]

    A teologia

    [ 6 ]

    A cruzada

    [ 7 ]

    O reino

    [ 8 ]

    Que país é esse?

    [ 9 ]

    A tempestade

    [ 10 ]

    A delação

    [ CONCLUSÃO ]

    O legado

    [ AGRADECIMENTOS ]

    [ CRÉDITOS DE FOTOS ]

    [ SIGLAS ]

    [ REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ]

    [ INTRODUÇÃO ]

    Um

    príncipe

    sem

    virtude

    Nicolau Maquiavel viveu em tempos turbulentos. No início do século XVI, sua cidade, Florença, localizada no norte da Itália, fervilhava com as intrigas palacianas, golpes e contragolpes diários armados entre as diversas facções locais. Esse era o pano de fundo que cercava o autor florentino em 1513, quando escreveu O Príncipe, obra considerada como um dos pilares da moderna ciência política. No livro, Maquiavel dita como deve ser o comportamento de um líder — encarnado na figura do Príncipe — para atingir a estabilidade e a prosperidade. Segundo ele, essa liderança ideal deveria reunir tanto a Virtude, ou seja, a sabedoria, quanto a Fortuna, entendida aqui como a oportunidade, ou a velha e boa sorte.

    O Brasil do século XXI guarda algumas semelhanças com a Florença de Maquiavel. As disputas entre os partidos nos bastidores de Brasília por vezes lembram os jogos de poder disputados entre a família Médici, o padre Savonarola e os papas do Vaticano medieval. Nos últimos anos, o país também presenciou o surgimento de um Príncipe. Marcelo Odebrecht recebeu o apelido por ser o herdeiro de uma das principais dinastias corporativas nacionais. A pequena construtora criada por seu avô Norberto, em 1944, transformou-se em um conglomerado industrial sob a regência de seu pai, Emílio, durante as décadas de 1980 e 1990. Quando Marcelo se sentou no trono, em 2008, deu início a uma era dourada. Entrou em novos segmentos. Passou a faturar mais de R$ 100 bilhões por ano. Tornou-se uma das estrelas mais brilhantes do Brasil Grande, o período de crescimento acelerado que marcou a primeira década do milênio.

    Da mesma forma como subiu, Marcelo caiu. Tornou-se o personagem principal de um escândalo que foi classificado por Deltan Dallagnol, procurador do Ministério Público Federal (MPF), como pior que Watergate, o processo que tirou da Casa Branca o presidente americano Richard Nixon durante os anos 1970. Em meio à turbulência provocada pela operação Lava Jato, o herdeiro dos Odebrecht foi preso, acusado de participar de um gigantesco esquema de propinas em licitações da Petrobras. Da prisão, assistiu à descoberta da máquina de pagamentos ilegais que havia montado dentro do grupo. Viu ruir o governo petista, no poder desde 2003. Fechou um acordo de delação premiada que expôs a verdadeira dimensão da corrupção vigente no país e dizimou a liderança política nacional. Em vias de passar para o regime de prisão domiciliar, acompanha agora tanto o desmantelamento do sistema político brasileiro quanto a via-crúcis enfrentada pela empresa da família para tentar evitar a ruína. Sob muitos aspectos, Marcelo Odebrecht teve a Fortuna. Mas a Virtude fugiu ao Príncipe.

    Hoje, essa ausência cobra o seu preço. Marcelo, de certa forma, foi um pioneiro. Trata-se do primeiro empresário de peso que tirou o tapete que existia sobre a sujeira das relações mantidas entre o poder público e as empresas privadas. Antes, existiam apenas vislumbres e suspeitas dessa realidade, hoje escancarada. Com suas ações, o Odebrecht III se tornou uma espécie de troféu da Lava Jato, um símbolo do combate à corrupção. Como tal, foi punido pelo juiz Sérgio Moro de modo exemplar. Mesmo com a delação premiada, enfrenta uma pena de dez anos de reclusão: após deixar a penitenciária, no final de 2017, ainda terá pela frente sete anos e meio a serem cumpridos em regime de prisão domiciliar. Durante todo esse tempo, ficará afastado de qualquer tipo de atividade da companhia.

    É um contraste notável com o acordo obtido pelos irmãos Joesley e Wesley Batista, da JBS, pouco antes da conclusão deste livro. Em troca de sua delação e da gravação de conversas com o presidente Michel Temer, ambos terão imunidade total. Não serão denunciados, passarão longe da prisão, não terão que usar tornozeleira eletrônica e poderão seguir à frente dos negócios. Ambos já se preparam para mudar sua residência para Nova York. Marcelo Odebrecht corre o risco de se tornar o único peixe grande do empresariado brasileiro a pagar por suas ações. Caso isso se confirme, abre-se um precedente perigoso: o crime que compensa. Igualmente corruptos. Desigualmente punidos. Mais um paradoxo para a conta da Justiça brasileira.

    ...

    A própria figura do chamado Odebrecht III, no entanto, é uma ilha cercada de paradoxos. Publicamente, tinha uma atuação dinâmica no mundo dos negócios, que o levou ao seleto grupo de empresários mais importantes da última década. Pessoalmente, é um homem modesto, que abomina a ostentação e as badalações da vida dos bilionários e celebridades em geral — a ponto de receber o apelido de o chato dos colegas menos afeitos à moderação. Tomou para si a defesa da cultura corporativa da empresa, a TEO, uma espécie de teologia martelada em todos os funcionários do grupo, cujos motes principais são a transparência e a honestidade nas relações. Ao mesmo tempo, criou um departamento altamente profissionalizado para corromper políticos e gestores públicos.

    Estas duas faces de Marcelo Odebrecht — a brilhante e a obscura — condizem com a forma como ele é visto pela opinião pública. Para parte da sociedade brasileira, o empresário é uma espécie de representação do mal, o corrupto que turbinou a expansão de sua empresa com base na compra de poder político e de desfalques em licitações públicas. Outro segmento, no entanto, que inclui muitos dos funcionários do grupo, vê Marcelo como um empresário genial, que acabou tragado por um sistema político corrompido e foi obrigado a seguir as regras de um jogo viciado para defender a empresa e a família. Para o observador externo, é como se essas facetas fossem duas pessoas diferentes, uma espécie de versão tropical do Dr. Jekyll e do Sr. Hyde, os personagens do romance O Médico e o Monstro, do escocês Robert Louis Stevenson. Em um mundo cada vez mais dominado por bolhas ideológicas, essas diferentes visões combatem umas às outras, em vez de se complementarem. É nesse ponto que esta obra se posiciona. Na tentativa de contrapor essa visão binária e artificial da vida, buscamos empregar a maior arma disponível no arsenal do jornalismo: informação.

    O projeto deste livro teve início em meados de 2016, quando os autores — dois jornalistas que se conhecem desde 2010, quando trabalharam juntos na redação do jornal Brasil Econômico — foram procurados pela editora Astral Cultural com a proposta de escrever sobre a vida do homem que ameaçava delatar a República. O desafio era imenso. Marcelo Odebrecht é uma dessas pessoas que, ao mesmo tempo em que mantém o status de celebridade profissionalmente — chefe de quase duzentas mil pessoas, tem uma reputação quase mítica como empresário —, guarda a sua vida pessoal atrás de uma espécie de cortina de ferro. Não existem fotos ou informações sobre sua família na internet. Sua trajetória dentro dos corredores da empresa é, em boa parte, obscura. Seus gostos, suas preferências e sua rotina ficam restritos a um grupo mínimo de conhecidos. Tem por hábito acionar judicialmente quem publica informações sobre sua vida particular. Uma pesquisa sobre essa figura teria, obrigatoriamente, que chegar até o seu círculo mais íntimo para romper o véu de mistério sobre o personagem. E não havia roteiros sobre o caminho a ser trilhado até atingir esse pote de ouro jornalístico.

    Ao mesmo tempo, o prazo era curto. O ritmo teria que ser frenético, similar ao fechamento de um jornal diário — sem que isso afetasse o desempenho em nossos empregos, trabalhos e serviços regulares. De cara, sinalizava um adeus aos finais de semana, que se tornariam um período para reuniões, discussões sobre o projeto, conferência de materiais e produção do texto. Significava também mergulhar em um universo altamente complexo, tentando entender ao mesmo tempo a estrutura da Odebrecht, sua peculiar cultura corporativa, o funcionamento da Lava Jato, a máquina subterrânea de corrupção montada nos escritórios da empresa, os círculos ocultos de influência na capital federal e, como se não fosse o bastante, toda a linguagem jurídica usada nos inquéritos judiciais do processo — por si só, um aprendizado semelhante ao de um novo idioma. Tudo isso levando ainda em conta que o projeto estaria sujeito ao desenrolar diário da operação Lava Jato e da tempestade política que corria solta em Brasília. Escrever em meio ao calor dos acontecimentos é uma aventura, onde o acaso pode derrubar em segundos todo um planejamento montado ao longo de meses. Finalmente, um livro sobre Marcelo Odebrecht precisaria, necessariamente, adentrar e analisar assuntos espinhosos e extremamente polarizados junto à opinião pública nacional, como as ações do PT, a conduta do juiz Sérgio Moro e o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. Todos esses fatores passaram pela cabeça durante os cerca de cinco segundos que levamos para aceitar a incumbência. Para um repórter, não existe tentação maior que o desafio. É o famoso espírito animal que move as redações mundo afora. Quanto mais alto tentam construir os muros, mais fundo os repórteres cavam túneis para atravessá-los; quanto mais cadeados são colocados em uma porta, mais dinamite reunimos para explodi-la. Sim, somos curiosos, somos insistentes, e temos orgulho disso.

    O primeiro passo, que ocupou os últimos meses de 2016, foi tentar descobrir o que já se sabia e o que faltava saber sobre o Odebrecht III e a Lava Jato. Começamos lendo centenas e centenas de matérias publicadas em jornais e revistas — basicamente, tudo o que saiu sobre o assunto desde 2002, ano em que, simultaneamente, Marcelo tomou posse da presidência da Construtora Norberto Odebrecht e Lula venceu as eleições para exercer seu primeiro mandato como presidente da República. Concomitantemente, iniciamos a leitura de diversos livros, inclusive alguns escritos pelos próprios antecessores familiares do empresário. Muitas das informações contidas nesta obra tiveram origem nesses trabalhos, e somos gratos aos colegas que os produziram. Uma lista completa de nossas fontes jornalísticas pode ser encontrada nas referências ao final deste livro. Também procuramos descobrir os caminhos que finalmente nos permitiram ganhar acesso aos inquéritos que corriam na Justiça sobre as 41 fases da Lava Jato. São dezenas deles. Cada um possui outras dezenas de anexos, e cada anexo pode chegar a possuir mais dezenas e dezenas de páginas. Para ler esse material e montar um mapa que nos situasse, foram necessárias, obviamente, outras dezenas de horas.

    Desbravando essa montanha de informação, percebemos que muito havia sido publicado sobre a Odebrecht, mas pouco existia sobre o Odebrecht pessoa física. Tudo aquilo trazia, com riqueza de detalhes, os resultados das ações do empresário, mas (quase) nada mostrava sobre sua figura humana ou sua forma de pensar. Era hora de seguir a velha receita preconizada desde a invenção do jornalismo: colocar o pé na rua e ouvir pessoas. Obviamente, não existem fontes em qualquer esquina que falem sobre a Odebrecht. Iniciamos pelas agendas que acumulamos durante nossos anos de estrada na profissão. Muitas portas foram fechadas logo de cara. Não foram poucos os que tentaram nos dissuadir de nossa missão. Rapidamente entendemos que a falta de informação, somada aos mitos que cercam os Odebrecht, criam uma sensação de insegurança que ajuda a afastar as pessoas da família. Mas as poucas que ficaram abertas começaram, gradativamente, a nos contar histórias e sugerir novos nomes para serem ouvidos. Aos poucos, o pequeno grupo inicial de fontes foi se ampliando e passou a incluir empresários que fizeram negócios com Marcelo, concorrentes, antigos e atuais funcionários da companhia, analistas que acompanham o negócio e figuras próximas à família. A Odebrecht, o empresário e diversas outras figuras citadas nessas páginas foram procuradas, na busca do tradicional outro lado, que consiste em dar voz para que os retratados mostrem sua própria versão dos acontecimentos. Nenhum deles se pronunciou oficialmente.

    Não foi um processo fácil. Muitas das pessoas que poderiam ajudar com informações sobre Marcelo estavam elas próprias negociando com a Justiça — ou tentando fugir dela. Outras tinham receio de perder o emprego na empresa. Algumas nem mesmo poderiam falar oficialmente, devido à falta de autorização judicial formal para isso. Nesses casos, usamos o recurso jornalístico conhecido como "off the record, uma expressão em inglês que significa literalmente com o gravador desligado. Na prática, significa que os depoimentos dessas fontes são anônimos. Não citamos seus nomes, mas usamos alternativas como um empregado da companhia ou um executivo do setor", como forma de referência para o leitor.

    O off é, reconhecidamente, uma ferramenta jornalística controversa. Ao mesmo tempo em que permite o acesso e a publicação de informações que, de outro modo, ficariam ocultas, é uma porta aberta para o surgimento de fontes sem o compromisso com a verdade ou interessadas em expor apenas uma faceta de algum episódio — que as favoreça, é claro. A única maneira de um jornalista tentar se prevenir contra esse tipo de manobra é usar toneladas de ceticismo frente às informações captadas dessa forma. Foi o que buscamos fazer neste trabalho. Todos os dados publicados foram checados no melhor de nossas capacidades. À primeira vista, parecia uma missão quase impossível. Isso é especialmente válido no caso de Marcelo Odebrecht, cuja vida pessoal, de tão bem guardada, torna-se um terreno fértil para o surgimento de mitos e dos chamados fatos alternativos, ou, sendo mais diretos, mentiras camufladas de verdade. Em tempos de pós-verdade, onde a percepção sobre um evento torna-se muito mais relevante do que os fatos objetivos, é tarefa dos jornalistas fazer escolhas éticas. Por isso, algumas histórias contadas pelas 47 pessoas entrevistadas, que não sobreviveram à checagem, ficaram de fora deste livro. Ainda assim, ressaltamos que eventuais erros e imprecisões que possam ter passado nesse processo são de nossa inteira responsabilidade.

    ...

    Um dos melhores sentimentos que um jornalista tem é a satisfação de ver dados e histórias apuradas, inicialmente desconexas e contraditórias, começarem finalmente a se encaixar e a fazer sentido. É nesse momento, em que surgem trilhas abertas em meio à selva de informações, que a apuração se torna madura para ser transformada em texto. No nosso caso, esse ponto foi atingido em março de 2017. Nessa ocasião, o material acumulado de apuração somava cerca de 600 páginas do programa Microsoft Word, ou o equivalente a pouco mais de um milhão de caracteres. Era necessário transformar tudo isso em texto final — e só havia espaço editorial para algo em torno de metade desse total.

    Selecionar qual parte da apuração entra em uma reportagem e qual fica de fora é algo doloroso para jornalistas. Cortar o texto, como chamamos essa etapa, é um processo darwiniano de renúncia a uma parte do trabalho — e só as informações mais resistentes sobrevivem. Optamos por deixar de fora alguns dados pessoais sobre as três filhas do empresário, por entender que são um aspecto íntimo cuja ausência não prejudica o entendimento da trajetória de Marcelo. Outros detalhes particulares, no entanto, como as relações políticas dentro da família, foram incluídos por serem fundamentais para entender a personalidade do Príncipe.

    Outro ponto complexo é decidir como será a estrutura de uma obra desse tipo. Uma alternativa óbvia era seguir a cronologia temporal, iniciando pela infância de Marcelo, passando pela sua formação e pela chegada até os postos mais elevados da empresa até, finalmente, desembocar nas relações com o poder, na Lava Jato e na prisão. No entanto, logo ficou evidente que esse caminho era pouco atrativo. O conjunto de referências que se cruzam na vida de Marcelo — a família, a empresa, a política — converge em um momento específico de sua trajetória: o instante em que o empresário entra na mira da Lava Jato. Isso deixaria esse trecho carregado demais, enquanto outros períodos se tornariam menos interessantes. E ainda poderia transformar o texto em algo como um jantar enfadonho, que levaria o leitor a percorrer um longo caminho até chegar ao ponto mais, digamos, saboroso do material.

    Diante desse problema, nossa opção foi dividir o livro por temas, cada um com seu próprio capítulo. Em vez de uma cronologia linear, esses capítulos têm sua temporalidade própria. Isso torna um pouco mais simples o entendimento dos diversos fatores que cortam a trajetória de Marcelo. Cada capítulo pode ser lido de forma separada, como uma reportagem independente — embora nosso convite aos leitores seja nos acompanhar nessa jornada do início ao fim. Dessa forma, alguns episódios são citados mais de uma vez, em contextos específicos. Por exemplo, a divulgação das conversas telefônicas entre o ex-presidente Lula e a então presidente Dilma Rouseff — a famosa conversa do Bessias — é analisada em um capítulo do ponto de vista de sua validade para a Lava Jato; em outro, relatamos seu impacto no aquecimento do caldeirão político que cozinhava o país naquele momento.

    Assim, esta obra se inicia com o relato da prisão de Marcelo Odebrecht e dos seus primeiros dias na cadeia. Na sequência, mostramos suas duas facetas mais conhecidas: o pai de família exemplar e o empresário que se tornou um participante ávido do clube montado pelas empreiteiras para fraudar as licitações de obras na estatal petrolífera, bem como a forma como ele montou sua estratégia de defesa frente às acusações. Muito da eficácia dessa defesa no convencimento dos funcionários odebrechianos de sua inocência se deve à TEO, cujas características parecidas com as de uma religião são apresentadas a seguir. Por falar em religião, outro movimento que apresenta um fervor quase místico é a própria Lava Jato, cuja história, estrutura de funcionamento — e polêmicas — também são apresentadas.

    A partir desse ponto, iniciamos um mergulho no universo das holdings corporativas que se formaram a partir das construtoras. Passeamos pela história, pelos personagens e pelos negócios da Odebrecht e, de lá, ampliamos o escopo para as chamadas Quatro Irmãs, o grupo de grandes empreiteiras, que faz parte das dinastias empresariais brasileiras e se consolidaram a partir do início do governo militar. Mostramos ainda que o próprio modelo econômico presente no Brasil, o chamado capitalismo de laços ou de compadrio, facilitou o caminho para que essas companhias espalhassem seus tentáculos em torno do Estado, aproveitando-se das janelas que a legislação abre para práticas ilegais.

    Finalmente, avançamos para o furacão político que varreu o país, ao mesmo tempo em que era revelado o sistema profissional de pagamentos ilegais criados por Marcelo dentro da Odebrecht. Enquanto a economia entrava em colapso, acumulavam-se as denúncias contra Lula, Dilma era afastada do poder, e o empresário negociava sua delação. As explosivas revelações feitas pelo terceiro membro do clã Odebrecht, seus desdobramentos para o futuro e o legado deixado por ele encerram o trabalho.

    Dizem que todas as vidas contêm material suficiente para se transformarem em livro. No entanto, nenhum livro seria capaz de abraçar todos os aspectos de uma vida. Este trabalho não tem a pretensão de ser uma obra definitiva sobre Marcelo Odebrecht — até porque é concluído bem no meio de uma tormenta política de consequências imprevisíveis, que envolve não só o empresário, mas a maior parte do Congresso. Tampouco esperamos trazer à luz alguma grande teoria da conspiração escondida por interesses nefastos — não, Marcelo não foi vítima de uma ação dos Estados Unidos, que teriam treinado os procurados da Lava Jato para desestabilizar as empresas nacionais e roubar o petróleo do pré-sal ou algo do tipo, a despeito do que você possa ter lido em websites sensacionalistas ou em grupos do WhatsApp que espalham notícias falsas. Nosso objetivo é um recorte específico: mostrar o homem por trás da dicotomia do bem e do mal que domina as discussões sociais atualmente e, através dele, relatar os episódios que mudaram o rumo do Brasil. Este é, fundamentalmente, um livro que se apoia na trajetória de um personagem, Marcelo Odebrecht, para falar sobre a ambição, o poder e seus paradoxos.

    [ 1 ]

    A

    queda

    O destino bateu na porta de Marcelo Odebrecht às seis horas da manhã de uma sexta-feira. O dia começou como outro qualquer: Marcelo se levantou às 5h30, comeu uma barrinha de cereal, tirou o pijama e colocou tênis e bermuda, preparando-se para sua rotina diária de exercícios. Mal teve chance de começar os abdominais. Ao escutar as batidas e a campainha, o empresário abriu pessoalmente a porta e foi surpreendido pela visão de diversos homens da Polícia Federal (PF) usando coletes à prova de balas. Um dos agentes segurava nas mãos um fuzil. Naquela manhã ensolarada de 19 de junho de 2015, o Príncipe — apelido que recebeu como herdeiro de uma das maiores dinastias empresariais brasileiras — iria conhecer o significado de erga omnes, termo em latim escolhido pela PF para batizar a 14ª fase da operação Lava Jato: a Justiça vale para todos.

    Durante alguns segundos, o empresário de 46 anos ficou mudo, como se tentasse absorver o significado daquilo tudo. Alguns instantes depois, abriu a porta, pediu para que os policiais entrassem no hall da casa, decorado com uma obra do artista polonês Frans Krajcberg, e reclamou do fuzil. Não precisa disso, minhas filhas estão em casa. Os policiais aceitaram deixar a arma em um dos carros. Na sequência, quis ver o mandado. O chefe da operação lhe mostrou apenas um, assinado pelo juiz Sérgio Moro, da 13ª Vara Federal Criminal de Curitiba, que previa busca e apreensão em sua casa. Outro despacho, de prisão preventiva, permaneceu guardado pelos policiais naquele instante.

    Enquanto os agentes iniciavam as buscas, a mulher de Marcelo, Isabela, acordou e conversou com o marido sobre como o casal deveria agir em relação às filhas, que ainda estavam dormindo. A decisão foi despachá-las normalmente para a escola, até como forma de evitar o constrangimento de ter que passar o dia ao lado da Polícia Federal. Enquanto as meninas iam para a aula, os policiais focavam na procura dos celulares da família. Um dos agentes pediu que Marcelo entregasse o seu aparelho pessoal. O empresário procurou na cozinha, não o achou e disse que ia subir as escadas para checar o quarto de casal. O agente retrucou que teria que acompanhá-lo. Na porta do cômodo, Marcelo fez menção de entrar sozinho. O policial não titubeou. "Agora o senhor só

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