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Singular

Singular

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Singular

notas:
3/5 (3 notas)
Duração:
453 páginas
6 horas
Lançados:
23 de set. de 2018
ISBN:
9788568839850
Formato:
Livro

Descrição

"Noah sempre quis ser um garoto. Exatamente desse jeito. Com ponto final depois do substantivo masculino. Bom, ao menos era assim que as outras pessoas viam a situação. Para Noah, ele era um garoto. Novamente: ponto final. Durante toda uma vida Noah se sentiu deslocado, diferente, estranho. Era como se ele fosse um pacote que precisava vir acompanhado de cuidados e explicações. O que ele não sabia − mas estava prestes a descobrir − é que era único. Era singular.
Como muitos garotos − com ponto final − Noah também esperava encontrar alguém com quem dividir absolutamente tudo. E enquanto isso não acontecia, ele achou que seria uma excelente ideia curtir o carnaval na cidade maravilhosa. Ele só não esperava que a terra de clima quente e pessoas calorosas pudesse lhe oferecer muito mais. "
Lançados:
23 de set. de 2018
ISBN:
9788568839850
Formato:
Livro

Sobre o autor


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Singular - Thati Machado

Todos os direitos reservados

Copyright © 2018 by Qualis Editora e Comércio de Livros Ltda

Texto de acordo com as normas do Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa

(Decreto Legislativo nº 54, de 1995)

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

M1491s

1.ed

Machado, Thati, 1990 -

Singular / Thati Machado. - Florianópolis, SC: Qualis Editora e Comércio de Livros Ltda, 2018.

Recurso digital

Formato e-Pub

Requisito do sistema: adobe digital editions

Modo de acesso: word wide web

ISBN: 978-85-68839-85-0

1.Literatura brasileira 2. Ficção 3. Romance LGBTQ I. Título.

CDD 869.93

CDU - 821.134.3(81)

Qualis Editora e Comércio de Livros Ltda

Caixa Postal 6540

Florianópolis - Santa Catarina - SC - Cep.88036-972

www.qualiseditora.com

www.facebook.com/qualiseditora

@qualiseditora - @divasdaqualis

Para todos vocês que, assim como eu,

possuem um Noah em suas vidas.

"Mesmo se você brigar

Eu te enlaço e não me permito soltar

Pro nosso nós não deixar de ser assim: tão singular"

(Anavitória)

E todas as noites eu juntava as mãos para, entre bocejos, com aquela velha cantiga pedir, em voz de segredo, para ser um menino normal. Eu não sabia o que era normal, mas sabia que não era eu.

É por isso que eu luto.

Me enfiavam em saias, me davam bonecas que eu não queria, em mãos que eu não queria e me chamavam de mal agradecido se eu ousasse chorar. E eu buscava refúgio nos livros porque, naquelas entrelinhas, eu podia ser um príncipe e não uma sombra impotente, preso na torre da minha própria mente.

É por isso que eu luto.

E jogava bola e trepava em árvores, me diziam que isso não era coisa de mocinha, e eu não entendia... Porque eu não era e nem queria ser mocinha. Porque minha pretensão do que ser quando crescer era ser moleque.

É por isso que eu luto.

Me doeu sangrar, porque aquilo não era joelho ralado de queda de bicicleta, não era cara esfolada de tropeçar jogando bola, não era fratura exposta de ter subido alto demais em galhos, tentando tocar o céu. Aquilo era punição por um crime que não cometi. Porque quando minha família sorria, dizendo que, naquele dia, eu tinha me tornado mulher, eu chorei a ponto de vomitar, sabendo que nunca mais... Nunca mais... Nunca mais poderia ser moleque.

É por isso que eu luto.

Meu corpo criou curvas, sinuosidades, nuances que me deixavam enojado de olhar no espelho, porque aquele não era eu. Porque cada olhar, cada toque, cada gesto de afeto direcionado a esse corpo era como uma sentença sendo pronunciada de novo, de novo e de novo... Prisão perpétua em um corpo mentiroso e pena de morte à alma discordante. Porque eu aprendi a aceitar, calado, de olhos secos, que ninguém nunca saberia me amar para além desse cárcere privado; que ninguém jamais conseguiria tocar as mãos estendidas, sedentas de minha alma...

É por isso que eu luto.

Eu me sabia surdo, cego e louco; eu me sabia pouco; nunca o suficiente ou sempre demais. Eu me sabia exigente por querer, só uma vez, ser visto, ser tocado, ser exposto. Eu me sabia um peso amarrado ao meu próprio tornozelo, no meio de um oceano infinito e furioso. Eu estava sempre me afogando em silêncios. Todos os dias. Cada dia mais um pouco. E quando a noite começava a rastejar por debaixo de minha perna, eu cortava minha carne, querendo sangrar pelo meu crime, querendo arrancar de dentro desse corpo — esse corpo que nunca foi meu — a semente de tudo que era eu. Porque talvez assim, essa essência de mim pudesse voar por outros mares. E quando a exaustão me vencia, as ondas me impediam de respirar, eu queria desistir. Eu queria me matar. Eu queria trocar essa cela por um segundo de descanso, por qualquer mentira que se passasse por paz...

É por isso que eu luto.

Numa casa. Porque as minhas cicatrizes viraram obras de arte enfeitando as paredes. Cada uma contando uma história de uma noite em que eu não desisti. Porque eu aprendi que eu tenho uma voz, que essa voz tem palavras e que essas palavras são minhas, que essas palavras tão minhas podem transformar esse corpo em meu também. Eu luto porque eu aprendi a ser maior; maior a ponto de não caber em mim e transbordar para o mundo inteiro ver. Porque eu escolhi ser sobrevivente em vez de vítima. E tão inteiramente meu que não sobra nada para ser das normas. Eu luto para realizar todos os impossíveis, começando por ser o impossível. Hoje eu sou moleque!

Eu luto porque tudo que existe em mim e tudo que eu sei ser e estar é luta.

Porque somos e porque podemos ser.

Lutemos!

Transcender, por Thiago Uchôa

SUMÁRIO

CAPA

FOLHA DE ROSTO

FICHA CATALOGRÁFICA

DEDICATÓRIA

EPÍGRAFE

PRÓLOGO

CAPÍTULO 01

CAPÍTULO 02

CAPÍTULO 03

CAPÍTULO 04

| Por Elena

| Por Nícolas

CAPÍTULO 05

CAPÍTULO 06

CAPÍTULO 07

CAPÍTULO 08

CAPÍTULO 09

CAPÍTULO 10

CAPÍTULO 11

CAPÍTULO 12

CAPÍTULO 13

CAPÍTULO 14

| Por Rafaella

CAPÍTULO 15

CAPÍTULO 16

CAPÍTULO 17

| Por Rafaella

CAPÍTULO 18

CAPÍTULO 19

CAPÍTULO 20

| Por Marcela

CAPÍTULO 21

CAPÍTULO 22

CAPÍTULO 23

CAPÍTULO 24

CAPÍTULO 25

| Por Rafaella

| Por Noah

CAPÍTULO 26

| Por Rafaella

CAPÍTULO 27

CAPÍTULO 28

| Por Rafaella

CAPÍTULO 29

| Por Rafaella

CAPÍTULO 30

| Por Rafaella

| Por Noah

| Por Rafaella

| Por Noah

| Por Rafaella

| Por Noah

CAPÍTULO 31

| Por Rafaella

| Por Noah

| Por Rafaella

| Por Noah

| Por Rafaella

| Por Noah

| Por Rafaella

CAPÍTULO 32

CAPÍTULO 33

CAPÍTULO 34

| Por Rafaella

CAPÍTULO 35

CAPÍTULO 36

CAPÍTULO 37

CAPÍTULO 38

| Por Rafaella

| Por Noah

CAPÍTULO 39

|Por Rafaella

CAPÍTULO 40

CAPÍTULO 41

CAPÍTULO 42

CAPÍTULO 43

CAPÍTULO 44

EPÍLOGO

| Por Rafaella

AGRADECIMENTOS

Era uma quinta-feira ensolarada quando Nayara, minha colega de faculdade, me convidou para dar uma volta pela cidade.

Nay e eu éramos amigos desde o primeiro dia de aula. Havíamos nos conhecido de um jeito, no mínimo, clichê. Eu estava focado em um jogo no celular, e ela, em um romance. Trombamos, e tenho certeza de que estávamos prestes a gritar, mas, contrariando todas as expectativas, apenas sorrimos. Mais tarde descobrimos que não só estávamos no mesmo curso, como também dividíamos algumas matérias. A amizade veio de forma natural a partir daí. E como ela havia salvado a minha pele no último trabalho, recusar o seu convite não era uma opção.

Até que dar uma caminhada seria bom. Eu precisava ocupar a minha mente para não ficar pensando tanto na Nina e na minha recente declaração de amor desastrosa. Pois é, a namorada do meu irmão vem mexendo com a minha cabeça mais do que gosto de admitir, mas acredito que se trata apenas de uma confusão e que em algum momento me darei conta disso (assim espero!). Nina foi capaz de me enxergar por trás do rótulo de homem trans, que nada mais é do que uma abreviação de homem transgênero, e talvez fosse apenas por isso que eu estivesse tão encantado por ela.

Encontrei-me com a Nay, e a nossa primeira parada foi em uma sorveteria. Conversamos sobre a faculdade, amigos em comum e outras trivialidades. Assim que nossos sorvetes acabaram, sugeri sairmos para dar uma volta, sem nenhum destino certo. Foi bem legal, e nós tivemos a oportunidade de conversar um pouco mais. Evitei falar da Nina ou da Marcela, pois sabia que ela já estava de saco cheio de tanto que eu falava das duas. Não podia culpá-la.

Há boatos de que Nayara já teve uma queda por mim no primeiro semestre da faculdade. Tornamo-nos colegas e nunca tive certeza disso. Pela forma como vinha agindo, no entanto, algo me dizia que eu estava prestes a descobrir. Ela passava tempo demais encarando meus lábios e o modo como sorria para mim parecia haver mudado: era mais intensa, eu diria.

Já passava das duas da tarde quando resolvi acompanhá-la até seu prédio. Paramos na portaria e nos despedimos com um abraço. Em seguida, beijei sua bochecha direita, e meio segundo depois seus lábios estavam nos meus. Fui pego de surpresa, mas não me afastei. Permiti-me sentir a delicadeza de sua boca, que se abria pronta para abocanhar a minha. Beijamo-nos. Não sei dizer exatamente por quanto tempo, mas foi bom e sinto que não deveria ter acabado.

— Gostaria de subir? — ela perguntou em um sussurro, seus lábios mal desgrudando dos meus. — Meus pais não estão em casa... — comentou com um sorriso, ainda de olhos fechados.

— Adoraria — respondi sincero.

Ao que tudo indicava, Nayara realmente tinha uma queda por mim. E, bom, ela é bonita, inteligente, engraçada, companheira... Por que não ter uma queda por ela também? Se isso me ajudasse a tirar a Nina dos meus pensamentos, melhor ainda. Eu não estava usando-a deliberadamente, mas nós dois já éramos grandinhos o suficiente para uma transa sem compromisso, não é mesmo? Adentramos seu apartamento e não houve tempo de irmos para o seu quarto. Eu estava sedento por tocá-la e assim o fiz. Empurrei-a até a mesa, perto da porta por onde havíamos entrado. Ela se apoiou na tampa, me acomodando entre suas pernas, que rapidamente enlaçaram a minha cintura. Tratei de arrancar sua blusa e dar a ela um destino bem longe de nós. Pretendia arrancar seu sutiã também, mas, para minha surpresa — e sorte! —, Nayara não usava um.

Mas antes que nos envolvêssemos mais, sabia que tinha de contar algo a ela... Sempre havíamos sido sinceros um com o outro. Ou quase. Por isso, tinha de falar antes que...

— Merda — sussurrei, sem pensar.

Eu estava tentando tomar decisões sérias, e o que Nayara estava fazendo? Dificultando as coisas para o meu lado, é claro. Não sei em que momento ela conseguiu se afastar de mim o suficiente para tirar a roupa... A roupa toda, devo ressaltar. Ela encontrava-se nua bem ali, diante dos meus olhos, muito, muito sensual... Como recusar aquele ar de desejo? Caramba, por onde andava minha amiga que ficava de bochechas coradas quando eu falava da minha vida amorosa/sexual? A jovem que vivia sonhando acordada com os romances melosos da literatura?! Droga, eu estava tocando sua intimidade e nem sei como chegamos a esse ponto!

— Mais rápido — ela pediu, com os lábios colados aos meus.

Já vivi tempo suficiente para saber que não se recusa um pedido de uma mulher. Menos ainda nessas condições. Seria estúpido e suicida da minha parte. Então, atendi aos seus desejos. Toquei-a com mais intensidade e agilidade. Seus gemidos embalavam a ocasião e me motivavam a fazer mais, a fazer melhor, a esquecer o que poderia destruir aquele momento. Eu a beijei, toquei, acolhi em meus braços até o ápice chegar. E ele chegou de forma violenta, acompanhado de espasmos e suspiros. Foi gratificante. Quando seus olhos cansados me fitaram de um jeito avassalador, eu soube que precisava refreá-la por um momento. Tempo suficiente para dizer a verdade. O desfecho daquela cena não dependia de mim.

Eu odiava essa parte em que precisava revelar detalhes a respeito da minha transição. Uma transa, por mais casual que fosse, nunca era uma experiência tranquila para mim. O medo da rejeição ainda era latente e sufocante.

— Nay... Antes de continuarmos, você precisa saber de uma coisa.

— Teremos tempo para conversas depois... — retrucou, com um sorriso safado, já abrindo o zíper da minha calça. Pousei minha mão sobre a sua, impedindo-a de seguir em frente. Seus olhos se voltaram para mim, confusos. — O que há de errado?

— Não há nada de errado, Nay — expliquei calmamente. Em pensamento, completei: não sou um erro, não há nada de errado, nada mesmo. O coração estava descompassado, em expectativa. — Eu não imaginei que fôssemos chegar a esse ponto hoje. — Engoli em seco. — Antes de continuarmos, você precisa saber que sou diferente.

— Diferente? — sua voz, agora embargada, questionou. A expressão de êxtase e prazer abandonou seu rosto. Nayara parecia apenas apreensiva.

— Eu sou um homem. Trans... — complementei, por fim, as palavras finalmente sendo ditas. — Um homem transgênero, Nay — concluí, de forma séria.

Nayara não se importou com esse detalhe e nós continuamos exatamente de onde paramos. Durante as horas seguintes fomos mãos, pés, toques, carícias, cumplicidade e prazer. Foi absolutamente incrível... Cochilamos nos braços um do outro no tapete da sala mesmo. Nossos corpos estavam moídos, e o quarto nunca pareceu tão distante. Mas estávamos satisfeitos. Completos.

Meu nome é Noah, mas espero que vocês já saibam disso. Nasci em Buenos Aires, lugar onde vivo até hoje. Como também já sabem, sou um homem trans, mas esse rótulo, no entanto, não é o que me define. Trata-se apenas de um detalhe como tantos outros.

Mas antes de continuar esta história, preciso confessar uma coisa.

O episódio (muito, muito quente) que acabei de lhes contar, com a Nayara, não foi exatamente desse jeito. Resolvi relatar a versão que eu gostaria que fosse verdadeira, mas que, lamentavelmente, não aconteceu. Uma parte de mim implorava para que Nayara levasse toda essa descoberta numa boa, e aí seguiríamos adiante. Sei que muitos não levam, mas... A verdade foi que ela surtou. Ficou triste, decepcionada, com raiva, tudo de uma vez. Em meio segundo, perdeu a capacidade de falar qualquer coisa e encolheu seu corpo magro, recuando em seguida para longe. Isso me machucou mais do que uma punhalada no coração. Sinto que o seu interesse por mim afundou mais rápido do que o Titanic, com uma camada de gelo a nos afastar definitivamente.

Enquanto saía do seu apartamento, tentei me convencer de que estava tudo bem, que era mais forte do que toda aquela merda. Só que não podia me enganar. Eu já havia passado por aquilo algumas vezes, mas isso não atenuava nada, continuava sendo igualmente doloroso. Repeti para mim mesmo que ficaria tudo bem, que não me deixaria abalar... Mas ainda doía.

Ser rejeitado sempre doía. Algo me dizia que jamais pararia de doer.

Precisava de um tempo sozinho. Precisava, sei lá... Pensar no que aconteceu e ficar me torturando um pouco mais. Bufei, irritado, enquanto saía do prédio da Nayara. Onde estava o meu carro? Olhei em volta, procurando por ele... Ah, verdade! Eu tinha vindo caminhando. Resolvi que caminhar seria bom, me permitiria pensar sem colocar muitas vidas em risco. Chamar um táxi ou ligar para o meu irmão significava que precisaria falar, dar explicações, e não queria isso no momento. Precisava ficar comigo mesmo e esfriar a cabeça. Caminhei até o ar me faltar e as pernas doerem. Quando me permiti parar, desabei em um banco qualquer, em uma praça desconhecida, cercado por gente que eu nunca havia visto.

Precisava pensar, colocar as ideias em ordem. Eu sabia que adorava a Nayara e não deixaria que esse sentimento sumisse de uma hora para outra. Ela tinha qualidades incríveis e era uma excelente companhia. Não podia, de forma alguma, julgá-la por não estar pronta para ficar comigo... De forma mais íntima. Doía-me o fato de ela refrear os próprios desejos em virtude do que lhe dizia a razão, por limitar suas vontades. Por que tentar entender com a mente quando o nosso corpo parece ter todas as respostas? Às vezes, até mesmo nosso coração.

Tinha certeza de que Nayara e eu nos entenderíamos. Voltaríamos a ser amigos e ponto final. Aquele episódio de quase-sexo seria deixado para trás, e eu tentaria não permitir que ele abalasse a minha confiança.

Segui de volta para o apartamento, ainda um pouco absorto. Fiquei feliz por encontrar Nico logo na esquina do nosso prédio. Meu irmão é muito perspicaz — ou talvez apenas me conheça muito bem — e notou que havia algo de errado. Não tínhamos segredos um com o outro, então lhe contei. Ele pareceu tão arrasado quanto eu, e justo quando pensei que fosse dizer algo para me animar, Nícolas apenas riu. Riu abertamente como se eu tivesse acabado de lhe contar a piada do século.

— O que é tão engraçado? — perguntei, enfezado.

— Você tem sorte, cara — disse entre risos. — Um homem normal — ele fez aspas no ar e logo prosseguiu — teria brochado na hora, deixando as coisas ainda piores. Pelo menos você saiu de lá com alguma dignidade.

— Que pensamento machista — retruquei, embora aquilo tenha soado melhor do que qualquer gesto consolador.

— Eu sei, e é por isso que é tão engraçado... Você e eu... Machistas... Dá para imaginar? — Cutucou-me de um jeito brincalhão, e eu acabei rindo também. Meu irmão tinha essa estranha capacidade de me distrair dos problemas. Desde pequeno, quando ele colocava o som bem alto para que eu não escutasse as brigas dos nossos pais. Nico continuava fazendo isso por mim, me protegendo do mundo. Sempre. — Sabe do que estamos precisando?

— Eu ia dizer que estamos precisando de umas gostosas... Mas você já tem a Nina. — Me fiz de coitado. O pior é que eu me sentia um pouco assim mesmo.

— Pois é. Eu já tenho uma gostosa... Gostosa é pouco, na verdade. Mas sei que você também vai encontrar a sua. Enquanto isso não acontece, deveríamos assistir Os Simpsons.

— Você não poderia ter mais razão!

Subimos até o apartamento e jogamos nossos tênis em qualquer lugar, como se fôssemos adolescentes novamente. Estávamos jogados no sofá em tempo recorde.

Tínhamos o lugar todo só para nós. Marcela havia saído para procurar um lugar para morar e mandou mensagem, avisando que estava na confeitaria com a Nina. Quando elas, por fim, invadiram o apartamento, sorridentes e descontraídas, deixaram tudo mais leve, como se aquele encontro com a Nayara nunca houvesse acontecido. Já chegaram chamando Os Simpsons de comédia barata, e eu quase discuti com as duas, chocado com tamanho sacrilégio. Isso só não aconteceu, pois elas se ofereceram para preparar o nosso jantar.

Embora não fossem exímias cozinheiras, aquelas duas prepararam um dos melhores macarrões que já comi na vida. Aos poucos, eu ia deixando as recentes confusões de lado e juntando os cacos da minha dignidade como era possível... Não seria fácil, eu sabia bem.

Todos acabaram indo tarde para a cama, mas eu não estava conseguindo dormir. Fui parar na varanda do apartamento, encarando o céu sem estrelas, pensando em tudo o que tinha acontecido.

Uma parte de mim queria que tivesse aula no dia seguinte, assim eu poderia esclarecer as coisas com a Nayara e acabar com esse sofrimento que martelava na minha cabeça em modo repeat. Por outro lado, queria me dar um tempo, colocar as ideias em ordem antes de me pronunciar sobre o ocorrido. Eu queria ter tempo de catar todos os caquinhos da minha autoestima antes de encontrá-la.

— Sem sono? — uma voz feminina e sedutora questionou, de repente. Parecia rouca e provocante, mexia comigo.

Marcela.

— Pensativo, eu diria. — Virei-me para encará-la e... Eu não devia ter feito isso. Marcela usava uma calça preta de moletom e uma camiseta branca com rendas. Tratava-se de uma roupa de dormir bastante confortável e até seria muito decente, se ela não estivesse sem sutiã. E se os seus mamilos não estivessem visivelmente enrijecidos. Senti minha boca salivar diante daquela visão e posso apostar que corei. Será que algum homem ainda cora diante de uma mulher?!

— Você é tão fofo — ela disse, com um riso sincero. Com poucos passos se aproximou e se sentou na cadeira livre ao meu lado. Fofo, eu? Será que ela havia percebido que meus olhos estavam fixos em seus...? — Me acompanha? — ela perguntou, enquanto me estendia uma garrafa de cerveja, vinda sei lá de onde. Peguei a bebida de sua mão e tomei um gole longo e gelado.

— Acho que estava mesmo precisando disso... — confessei, estendendo a garrafa de volta para ela em seguida.

— Quisera eu precisar apenas de uma cerveja — comentou, com um sorriso de canto. Não entendi.

— Do que mais você precisa? — perguntei, pelo simples fato de querer ajudá-la. Parecia louco, mas apesar de conhecer Marcela há pouco tempo, gostava dela. Mesmo que ela me intimidasse.

— Você não deveria me fazer essa pergunta, Noah — rebateu com a sobrancelha direita erguida e um sorriso safado brincando no rosto. Eu tentei responder, mas falhei... Acabei corando de novo. Marcela voltou a rir daquele jeito espontâneo e para mim ficava óbvio que ela havia percebido que eu a olhava com desejo. Duas vezes. — Gosto de você, Noah... — ela disse, seus olhos pareciam escavar os meus. — Gosto da sua ingenuidade, de como é descomplicado.

— Não sou descomplicado — confessei, com certa amargura. Eu podia ser qualquer coisa, menos isso.

Marcela continuava a tentar me desvendar com os olhos, como se a qualquer momento pudesse chegar à minha alma. Gelei. Aquilo era intenso e desconcertante.

Não notei que estava arfando. Não notei que a palma das minhas mãos estavam molhadas. Nem que Marcela havia se levantado... Só me dei conta de tudo isso quando ela se sentou em meu colo, parecendo mais à vontade do que jamais estivera.

Fiquei sem ação. Corei novamente. Fiquei excitado. E...

— Você é tão fofo, Noah — ela repetiu, dessa vez com os lábios muito, muito próximos dos meus.

O dia estava sendo bastante conturbado. Começou com um agradável passeio ao lado da Nayara, que rapidamente virou algo mais, porém foi interrompido de forma abrupta e cruel. Eu não estava pronto para me decepcionar de novo, com poucas horas de diferença, mas algo me dizia que as coisas com a Marcela seriam diferentes. Se ela sabia sobre mim e ainda parecia interessada, não havia o que temer, certo?

Seus lábios continuaram ali, muito, muito próximos dos meus. Afastados por um centímetro de hesitação. Eu tentava decifrar o que me diziam seus olhos, mas Marcela tinha um ar todo enigmático. Fiquei pensando se deveria tomar a iniciativa... Marcela me intimidava, mas algo dentro de mim dizia que eu precisava tomar as rédeas pela primeira vez.

— Fofo é apenas uma das minhas muitas qualidades — devolvi, tentando abandonar meu lado de menino amedrontado. — Quer conhecer todas as outras? — perguntei, aproximando meu rosto do dela e roçando nossos lábios por uma fração mínima de segundo.

Ela deveria ter dito sim, mas apenas passou a língua onde meus lábios acabaram de tocar. Levantei-me da cadeira carregando-a no colo. Ela riu de um jeito descontraído e não questionou sobre a direção que estávamos tomando.

— Estou com as mãos ocupadas — lembrei-a assim que paramos diante da porta do meu quarto.

Marcela estendeu uma das mãos livres até a maçaneta e finalmente abriu a entrada do meu refúgio. Eu deveria ter ficado um pouco constrangido pela bagunça, mas não tive tempo para isso. Coloquei Marcela na minha cama com toda delicadeza que pode se esperar de um cavalheiro. A questão era que ela, de delicada, não tinha nada. Enlaçou o meu pescoço e me puxou para si, me fazendo cair sobre seu corpo magro. Temi tê-la machucado, mas seu sorriso me dizia que o sentimento que lhe tomava o corpo era outro completamente diferente da dor.

— Desde que te vi pela primeira vez, na portaria desse prédio, anseio por esse momento — confessou-me como se tivesse esperado por uma agonizante eternidade. Sorri.

— Isso faz poucos dias — justifiquei.

— Poucos dias, mas desperdiçados. — A conversa se seguiria pelos próximos minutos se eu não a tivesse interrompido. Se na opinião dela havíamos perdido muito tempo, eu estava pronto para compensá-lo.

Finalmente uni meus lábios aos seus. Minha língua percorreu cada centímetro de sua boca e era tudo tão avassalador! Nenhuma das mulheres com quem fiquei eram tão intensas quanto ela. E embora fosse assustador e intimidante, também era delicioso. Nós nos beijamos por incontáveis minutos, até que nossas bocas ficaram dormentes. Paramos por um breve segundo, e eu me permiti admirá-la de cima. Seu sorriso frouxo era inebriante e chegava aos olhos com inacreditável facilidade. O cabelo castanho claro cobria todo o meu travesseiro de uma forma quase poética. Levei uma das mãos até o seu rosto, contornando-o com uma recém-descoberta admiração. Marcela apenas fechou os olhos e se permitiu as sensações que acompanhavam aquele toque. Curvei-me sobre ela e lhe beijei o pescoço, que me foi cedido de imediato.

Ela suspirou. No mesmo instante, pude sentir seu corpo sendo pressionado contra o meu. Embora o volume da minha calça não subisse, como o esperado, Marcela parecia em êxtase com o contato intenso. Ela grunhia e era evidente que, assim como eu, queria mais. A situação não era ruim, apenas uma ou duas camadas de roupa nos separavam naquele momento. Toquei sua cintura e a apertei com gana, para em seguida deslizar minha mão para cima, trazendo junto a camiseta branca de seu pijama. Não houve contestações. Quando seus seios finalmente ficaram expostos, foi minha vez de salivar. Eles eram redondos, rosados, pequenos, delicados e extremamente convidativos. Prendi seu mamilo entre o dedo indicador e o do meio, arrancando-lhe alguns suspiros sôfregos. Acariciei seus seios com extrema adoração enquanto via sua expressão variar entre o êxtase e o desespero.

Com a boca colada em sua orelha esquerda, resolvi provocá-la um pouco mais. Durante os últimos dias, Marcela havia brincado com fogo, era hora de se queimar!

— Vou chupar seus seios até ficarem doloridos — prometi calmamente, aos sussurros. — E você vai adorar... Vai implorar por mais.

— Não sou mulher de implorar — rebateu confiante, embora sua feição evidenciasse o desespero que sentia.

— É porque nunca esteve com um homem como eu — afirmei, e ela não teve como contestar.

Meus lábios foram de encontro aos seus mamilos, e eu sabia que faria Marcela mudar de ideia, que, quando acabasse, ela estaria implorando. Precisei, inutilmente, conter seus gemidos, que a cada segundo ficavam mais descontrolados. Juntos, chegávamos perto do paraíso.

Eu tinha certeza de que lhe daria um orgasmo logo nas preliminares, ainda de roupa. Aquilo era só um pedacinho minúsculo do que a aguardava naquela noite. Mas eu sabia como provocar. Justo quando Marcela quase chegava ao limite, desacelerei os meus movimentos, ameaçando parar. Seus olhos se arregalaram, e ali não mais estava a mulher que costumava me intimidar. Ali estava uma mulher entregue, com um olhar arrebatado e suplicante.

— Pelo amor que você tem à sua vida... — ela disse, arfando. — Continue. — Ergui uma sobrancelha em sua direção e pressionei meus dedos contra sua intimidade. Seus olhos se fecharam e um gemido morreu na sua garganta. — Eu estou implorando — confessou em alto e bom som, rendendo-se.

Só então continuei. Porque Marcela havia implorado e porque eu queria tanto quanto ela. Minha boca voltou para seu seio direito, pronto para lhe dar tudo o que quisesse.

— Vou mergulhar em você, sentir o seu gosto. Não ouse me interromper — anunciei, arrancando-lhe um sorriso fraco e exausto.

— Achei que eu era a dominadora — confessou.

— Sou um aluno bem aplicado. — Lancei-lhe um olhar sacana.

Eu livrava seu corpo da calça de moletom e trazia sua última peça, a calcinha, comigo. Completamente nua, Marcela parecia totalmente confortável com seu corpo. Embora o considerasse demasiado magro (tendo em mente que naquele momento eram os parâmetros da Nina que não saíam da minha cabeça), a confiança daquela mulher a tornava ainda mais bonita. Admirei-a durante longos minutos, acariciando sua barriga e nos permitindo um breve descanso. O segundo round começaria em breve e eu pretendia não ter que parar tão cedo...

Ela se sentou na cama, pegando-me de surpresa. Acomodou uma perna de cada lado da minha cintura e agarrou a base da minha camisa. Seu gesto indicava que estava pronta para tirá-la, então, apenas levantei os braços, facilitando. Marcela encarou meu peitoral definido e contornou os traços da tatuagem tribal que cobria minha cicatriz, sem, no entanto tocá-la. Curvando-se sobre mim, depositou diversos beijos na minha barriga... Desceu os lábios até que chegassem no cós da minha calça. Seus olhos travessos permaneciam bem presos aos meus, enquanto suas pequenas e habilidosas mãos abriam o botão e, em seguida, o zíper. Enganchou dois dedos na minha cueca, para poder puxá-la junto com a calça em um único movimento. Inclinei minha cintura para cima, facilitando as coisas, e Marcela apenas sorriu. Quando, por fim, eu estava completamente nu, veio...

A surpresa.

Estampada nos olhos dela.

E também nos meus.

— Você quer me explicar alguma coisa? — ela perguntou baixinho, desviando o olhar do meu packer e fixando-o nos meus olhos.

Pela surpresa em seus olhos, fico me perguntando se ela realmente sabia de alguma coisa, porque não era o que parecia. Não tinha contado nada a ela, mas supus que a Nina tivesse comentado algo... E então me dou conta do quão estúpido sou (e me odeio por isso). Como pude imaginar que a Nina, a mulher incrível por quem criei uma admiração enorme em pouquíssimo tempo, haveria contado algo tão íntimo a meu respeito, ainda que para sua melhor amiga?! Só agora percebo o tamanho da minha estupidez.

— Vou entender se quiser desistir — garanti, embora soubesse que meu coração e minha autoestima não aguentariam duas porradas no mesmo dia. — Você não fazia ideia que sou um homem trans... Pensei que a Nina tivesse te contado... — afirmei e me encolhi de imediato. Lembram da pokebola imaginária da qual a Nina não se cansa de falar? Agora seria um ótimo momento para ser sabiamente tragado para dentro dela.

— Achou que ela me contaria algo que diz respeito somente a você? — Sua risada é ácida, e não sei se é um bom sinal. — Minha amiga jamais sairia espalhando coisas sobre a sua intimidade por aí, nem mesmo para mim. Isso tem a ver com você e com as pessoas com quem vai se envolver... Mas não se preocupe — podia sentir a respiração dela contra o meu rosto —, não vou fugir ou te olhar diferente daqui em diante. Eu apenas gostaria que tivesse me contado antes. Espero, de verdade, que tenha deixado de me contar sobre este detalhe por simples esquecimento e não por falta de confiança... Não combina contigo, Noah.

— Não,

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