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Gestão, Trabalho e Cidadania - Novas Articulações

Gestão, Trabalho e Cidadania - Novas Articulações

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Gestão, Trabalho e Cidadania - Novas Articulações

Duração:
536 páginas
7 horas
Lançados:
23 de jan. de 2018
ISBN:
9788582179192
Formato:
Livro

Descrição

Este livro apresenta novas visões sobre o trabalho tomado a partir de suas relações com a sociedade contemporânea, através de textos que articulam abordagens teóricas (baseadas nos principais nomes da economia e da gestão) e experiência prática de gestão, quer diretamente, quer através do relato de trabalhadores. Considerando os aspectos simbólico e social das transformações que ocorrem atualmente nas empresas, os autores engendram pensamentos fundamentais para aqueles ligados à gestão, à administração e à economia.
Lançados:
23 de jan. de 2018
ISBN:
9788582179192
Formato:
Livro

Sobre o autor


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Amostra do livro

Gestão, Trabalho e Cidadania - Novas Articulações - Maria Laetitia Corrêa

Organizadoras

Solange Maria Pimenta

Maria Laetitia Corrêa

GESTÃO, TRABALHO

E CIDADANIA

Novas articulações

Belo Horizonte

2001

Prefácio

Desde que existe mundo, o trabalho se manifesta nas mais variadas formas e ocupa o imaginário do ser humano. Falar sobre o trabalho é complexo, em razão da riqueza e quantidade de atributos incidentes sobre o mesmo, entre os quais se podem apontar os seguintes, dos mais tangíveis até os mais abstratos: sistema de compensação, realização, motivação, ética, ergonomia, progressão, geração de conhecimento e muitos outros. O trabalho influencia a todos nós e adquire valores diferenciados para diferentes povos em etnias, culturas, religiões e formatos políticos diversos. De qualquer ângulo que se imaginar, o trabalho estará aí para influenciar de alguma forma determinante. O trabalho é um atávico sentimento de utilidade e realizações para todos nós. Atinge-nos nos mais íntimos sentimentos, gerando emoções e mobilizando o racional. O trabalho perpassa do mais íntimo dos indivíduos à família, aos grupos organizados, ao tecido social e às nações. Encontra-se presente nas mais variadas formas, da voluntária e democrática até a escravista. Até meados do século passado se polarizava em ideologias diferentes, que definiam forma e relacionamentos entre dois focos concentradores, de um lado o modelo capitalista e de outro o social comunista. Cada um advogava suas vantagens e, com a derrubada de uma das ideologias, o outro buscou formas, em um primeiro momento, de chamar para si os louros de suas concepções. Vendo também que não estava perfeito, esforça-se para permear as vantagens da ideologia que se amorteceu.

Somos convidados a concordar que o trabalho e suas relações na atual sociedade adquiriram enorme complexidade. Os sistemas sociais, nos países de primeiro mundo, acumularam riquezas e desenvolvimento tecnológico, explodiram o trabalho em miríades de variedades funcionais instáveis, conhecimentos complexos e relacionamentos abrangentes em múltiplos canais. Vários fatores contribuíram e contribuem para uma crescente complexidade e variedade no mundo do trabalho, a exemplo do desenvolvimento das tecnologias e suas associações sinérgicas, como a informática e as telecomunicações, estabelecendo a chamada sociedade da informação – que, na prática, está derrotando não somente as barreiras geográficas físicas, como também da linguagem e do conhecimento. Corroborando o sistema tecnológico, tem-se as evoluções da mecânica e da química fina, da genética, com implicações significativas no mundo da farmacologia, medicina e nas engenharias. Estabeleceu-se, dessa forma, um moto continuo, no qual os produtos possuem ciclos de vida cada vez mais curtos, um canibalismo genético, onde o produto mais novo devora o mais velho no mais curto espaço de tempo, em uma grande competitividade intra e extra-organizações – isso no paradigma de que a mudança é sempre a certeza, o que garante a sobrevivência pela competitividade.

A reflexão sobre essa diversidade e complexidade do trabalho contemporâneo, em suas interconexões com a gestão, a educação e a cidadania, é o que propõem as Professoras Solange Maria Pimenta (FACE/UFMG) e Maria Laetitia Corrêa (FAE/UFMG), em conjunto com os pesquisadores do GETEC – Grupo de Pesquisa sobre Gestão, Trabalho, Educação e Cidadania, vinculado ao CEPEAD/FACE/UFMG, através do presente livro. Livro que se originou de trabalhos acadêmicos, em sua maioria fundamentados em pesquisas empíricas e todos em contribuições teóricas consistentes e atualizadas, trazendo, portanto, comprovações válidas e com fortes recomendações gerenciais para a gestão de mudanças e intervenções organizacionais. Trata-se de um conjunto de textos com mérito reconhecido em sua diversidade, mas também na sua integração temática.

Este é um livro que mergulha no mundo do trabalho e da gestão e, certamente, envolverá seus leitores, que tentarão lê-lo de um só fôlego. Recomendamos sua leitura a todos – acadêmicos ou empresários. É um representante nato de um depósito perene do conhecimento que, de forma criativa e bem escolhida pelas organizadoras, trata desse tema desafiador, envolvente, emocionante e importante para todos nós. É mais um marco importante ao longo da história do CEPEAD, que sentimos grande alegria em apresentar, como um reflexo do trabalho sério e consistente de todos os nossos pesquisadores. Mais ainda, como uma importante produção interdepartamental e interinstitucional, pois congrega pesquisadores de outras unidades da UFMG – como a Faculdade de Educação e a Escola da Ciência da Informação –, além de professores de outras instituições, como o Centro Universitário Vila Velha – ES e a Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, tanto a de Belo Horizonte como a de Poços de Caldas/MG.

Carlos Alberto Gonçalves

Coordenador do CEPEAD/FACE/UFMG

Centro de Pós-graduação e Pesquisas em Administração

Apresentação

Novos olhares sobre gestão, trabalho e cidadania:

as possibilidades de outras articulações

O que fundamenta este livro é a busca de uma interlocução entre a política e as organizações, entre a cultura e a sociedade, entre a gestão e a educação, articulando temas que dêem conta desta realidade cifrada, na tentativa de tecer laços de inteligibilidade entre as múltiplas dimensões da vida contemporânea e da experiência cotidiana.

A sua proposta, coletada na diversidade dos autores, mas articulada no grupo de pesquisa que os congrega – o GETEC –, constitui-se nas múltiplas imagens que vasculham diferentes registros produzidos em várias dimensões, referenciando-se em diversas representações de distintos atores com projetos e experiências múltiplas.

Cada autor escolheu um tema e um tom, de modo a se produzir um mapeamento das transformações em curso e da perspectiva teórica mais ampla que fundamenta o GETEC. Todos nós vivenciamos os impasses, os dilemas e as contradições entre uma realidade idealizada e aparente contraposta, muitas vezes, ao desejo de intervenção e às (im)possibilidade de novas reconstruções. Cada um dos autores mostra as diferentes posições e o nível de intimidade com o tema proposto, mas todos ensaiam compreender as práticas sócio-culturais, políticas e ideológicas, ainda que não se constituam em seu eixo principal. Neste quadro, pretende-se, além de novas possibilidades de leitura do social e do administrativo, engendrar novas articulações em face dos múltiplos enfoques que se propõe o livro. É interessante observar, numa visão de conjunto, como certas questões surgem e se entrecruzam na trama de constituição de seus diversos objetos. Se o eixo central que articula os temas é o trabalho e a gestão, a questão de fundo é a cidadania, ainda que não apareça explicitamente em todos os textos. É a vivência no espaço das organizações, no terreno da política e do público que fornece o elemento estruturador que fundamenta a vertente básica de todos os autores e que se constitui no eixo triangular deste livro.

Toda sociedade tem uma idéia preconcebida e inexata de seu funcionamento, nos ensina Durkheim. Nesse sentido, o trabalho e o papel do pesquisador consistirão, neste espaço, em introduzir rupturas que terão valor de compreensão e de criticidade. É nesta perspectiva que se constrói, ao mesmo tempo, um estudo científico e uma obra de alcance social e político.

O debate atual das ciências sociais sobre a gestão, o trabalho, os trabalhadores – sua história, sua maneira de viver, sua cultura e suas formas de luta, sua performance na sociedade como um todo – constituem um momento crucial de reavaliação e de abertura para novas dimensões. Estamos em presença de uma realidade que se esgarça em diversos pontos, da emergência de outras palavras que anteriormente se mantinham silenciosas na história. A proposição atual é a de criar esta ruptura, uma outra maneira de configurar e pensar a realidade, o que nos coloca em consonância com estudos que apontam para uma mudança de direção, uma transformação qualitativa do pensamento administrativo acadêmico no país.

Face à diversidade do real e do leque aberto de possibilidades, as interrogações são sempre plurais e múltiplas. Em função do terreno explorado, é uma parte do universo social que se faz objeto de pesquisas e de elaborações teóricas. O desvendamento do social e do político não é uma operação simples, uma vez que em todo grupo social se encontra sempre a resistência à sua própria elucidação. A investigação só se torna possível graças ao instrumental teórico que, por seu rigor, assegura a validade científica e oferece sempre uma leitura socializada da produção do conhecimento.

Compreender os espaços de transformação engendrados pela globalização, reestruturação produtiva, novos enfoque e novas formas de trabalho, diferentes articulações no mundo do político, do social e do ideológico, nos remete a um outro mundo cujas dimensões ensaiamos compreender.

Mas, além da determinação material de nossa formação e transformação social, existe um suporte imaginário, uma matriz de representações que produz visões da sociedade e é fruto de uma elaboração coletiva, desigual, mas articulada. Emergem, assim, os discursos que colocam em cena a formação da sociedade, articulam as figuras da sua história e constantemente colocam e reconduzem questões sobre a apreensão de sua singularidade. Singularidade das dimensões que, entrecruzadas, desvendam um conjunto múltiplo de ações e de posições que estruturam e definem o todo social. O mundo sustentado pelas significações instituídas sobre o conjunto de nossa população, a presença das possibilidades e limites das ações de classes e grupos, formam um imaginário persistente que aparece e reaparece de inúmeras maneiras, na medida em que ele é também um discurso de poder e de representações. Ele se cola ao real que o nomeia.

Na história humana, cada acontecimento revela uma paisagem inesperada de ações, de paixões e de novas potencialidades, onde o conjunto ultrapassa a soma total de todas as vontades e a significação de todas as origens. Assim, para reconstruir uma história, é necessário separar as implicações de um período dado, elucidando sempre a sua força significativa. A história é uma narrativa que não cessa de começar e que não termina jamais, dizia Hanna Arendt. Compreender este momento, hoje, tentar aprisionar significados, desvendar compartimentos e estruturas, elucidar as direções que todo mapeamento conduz, torna-se uma tarefa não só acadêmica – como é escopo deste livro – mas uma entrada efetiva nos acontecimentos, na medida em que a compreensão dos fenômenos passa a ser um instrumento poderoso na visão do que foi, do que poderia ter sido e do que de fato se construiu.

Falar do universo do trabalho é fugir da homogeneidade. O cotidiano de cada um de nós implica a realização de tarefas múltiplas. É a partir deste mundo, conjugado com as condições específicas de cada existência e as diferentes dimensões da prática cultural, que nós construímos nossa inserção no social e no político. A nossa entrada no mundo – e no mundo cada vez mais urbano e diferenciado – se reveste sempre de um caráter ideológico. Num universo que se transforma rapidamente, assiste-se, hoje, a perdas de códigos específicos, assinalando a destruição/modificação das regras do jogo antigo, vivido e estruturado. É através das mudanças – em sua forma e conteúdo – das transformações de antigos nichos de relações, que outras lógicas e novas dimensões se (re) estruturam, assim como os elementos constitutivos de uma nova vida. Ela se inscreve em um outro social, carregado de expectativas, mas construído a partir de outras referências, cujo sentido nos escapa no que vivenciamos cotidianamente. Mas, sempre revestido pelo simbólico e pelo imaginário. Daí a sua força e persistência, sua conotação e sua extensão, sua profundidade e o seu uso.

Neste contexto, a presença do conflito no interior do sistema social e político faz parte integrante do jogo democrático – é de fato, o motor de sua articulação e desenvolvimento. É por sua intermediação que se consegue estabelecer a difícil síntese que se opera entre as exigências contraditórias e complementares da formação social. No Brasil, a cidadania é vivida como um fenômeno colocado sob a tutela do Estado, sendo que a hierarquia e a desigualdade são vistas como naturais. Assim, pode-se assinalar a obstrução histórica de uma dinâmica igualitária específica e própria de outras sociedades e de outros países. Pois, como centro de um imaginário que se exprime sob a forma de sociabilidade entre indivíduos, grupos e classes sociais, a igualdade é colocada à prova através do reconhecimento – de fato e de direito – das diferenças e do outro. Somente no interior de um imaginário igualitário é que o conflito pode emergir como um acontecimento legítimo. Numa sociedade formada e governada pelo código de igualdade, o conflito aparece como um fenômeno inevitável e irredutível da vida social, na medida em que os indivíduos se reconhecem e são reconhecidos através de seus iguais e têm o direito sempre de questionar os modos de ser, de se instituir, de sua sociedade.

A ausência de um imaginário igualitário é o elemento que funda a desigualdade entre classes e grupos e diferencia os homens a partir de sua exterioridade e de estereótipos construídos historicamente. Na ausência deste imaginário, a trama social configura o conflito como um acontecimento ilegítimo, dissolve seus motivos e origens nos processos de (re)significação sob uma ótica de violência, de desordem e de caos, incompatíveis com os mitos – em especial, de um povo cordato e tranqüilo – tão caros na história brasileira.

Neste terreno, trabalhadores e cidadãos articulam suas representações – como indivíduos e como coletivo – sobre o negativo, isto é, eles confirmam a existência da desigualdade no espaço social. Mas, a experiência de dominação acaba por construir uma nova posição e uma visão diferente do mundo. É através da organização e das lutas que se torna possível um discurso transgressor, criando outras significações e fazendo da igualdade um fato e um direito, obrigando a sociedade a tomar consciência das diferenças e responder as questões maiores que são colocadas no espaço público.

É neste quadro que o processo de gestão se torna uma arte. No contexto de mutação das organizações, emergem novos fundamentos de dominação. Fundamentos que supõem a existência de dimensões culturais, articuladas ao substrato simbólico, que fundam uma nova racionalidade das interações que se processam no interior das organizações. Os gestores buscam (re)articular todas estas dimensões, através de políticas em que o conteúdo é fundado sob novas interações e relações entre os atores do processo. Propõe-se uma visão da empresa enquanto comunidade, no sentido de manter a coesão da organização, mesmo que ela seja composta por múltiplos coletivos ou por subjetividade individuais que turbilhonam, não como átomos em colisão, mas como ações que repercutem umas sobre as outras como vontades agrupadas – nos ensina Thompson. Novos espaços simbólicos são construídos em outros sistemas de legitimidade. O eixo da gestão passa por esta articulação, jogando os diferentes constructos da cultura organizacional, buscando racionalidade, rentabilidade e competitividade através do desenvolvimento da participação, da ideologia comunitária e dos sentimentos de lealdade e de adesão de todos os trabalhadores. Assim, a empresa passa a ser um espaço de bricolage ideológica, onde os gestores são incumbidos de alimentar a cultura que eles querem consensual. O projeto da empresa passa a ser a narrativa fundadora, a qual cada um deve aderir. Esse mito fundador permite estabelecer a analogia com a sociedade e aí trabalhar as suas contradições internas.

Para compreender todas essas transformações, é preciso reencontrar não somente a idéia de mudança do campo simbólico, mas também aquela, mais escondida, de que as necessidades são socialmente induzidas e que a sua satisfação é também um fenômeno social. Os bens simbólicos se ajuntam aos bens materiais e todos eles circulam no mercado, seja social, político ou ideológico. Na empresa, esses bens são distribuídos pela gestão, unificando as necessidades e, ao mesmo tempo, respondendo a elas. Dessa forma, todo sistema implica num reconhecimento intersubjetivo e numa criação coletiva. Assiste-se, assim, a uma sorte de conversão de valores próprios de um sistema que se transmudam, mas que mantêm a mesma coerência interna de dominação e de legitimação. Daí, a idéia atual de comunidade, onde o sistema relacional forma a identidade que faz o indivíduo ser reconhecido como um de seus membros, onde o ciclo de reconhecimento é criado e delimitado por esse mesmo sistema, criado e dirigido pelo processo gestor.

Por outro lado, pertencemos a uma organização social que faz do trabalho um valor cardinal, numa sociedade fundada sobre a idéia da independência do indivíduo, onde o trabalho é a garantia e a única ancoragem de uma atividade social e politicamente reconhecida. A evolução da vida moderna provoca transformações e, neste quadro em mutação, o trabalho se modifica e suas representações se transformam. As reivindicações e desejos, as contestações, as esperanças e os papéis de cada um se diluem, se transformam e repercutem fundamentalmente na existência cotidiana. Assim, a complexidade do ordinário, da rotina, do dia-a-dia retoma todo o seu significado.

A descoberta moderna da intimidade aparece como uma proposta de distanciamento do mundo exterior para uma subjetividade interior do indivíduo, subjetividade que esteve, anteriormente, abrigada e protegida pela esfera privada. A dissolução dessa esfera e sua transformação em esfera social podem ser observadas na crescente transformação das sociedades modernas. A apropriação desta intimidade – possibilitada pela mobilização das subjetividades em curso nas organizações – dessa propriedade do homem que não é outra coisa senão sua própria vida, aliada à segregação de uma comunidade, representada pela empresa, realizada pela sua delimitação física e simbólica, significa a possibilidade de formas importantes de expropriação, a constituição de um espaço onde a organização é o proprietário, o senhor e a única autoridade. É neste sentido que as organizações pretendem ser e se constituírem como a referência mais fundamental do social. Para os trabalhadores, o mundo das máquinas substitui o mundo real, apesar do fato de que o primeiro não é capaz de substituir totalmente o segundo. Mas ele oferece um abrigo permanente e mais estável: ele protege o indivíduo. A necessidade e a vida são tão intimamente ligadas que eles se entrelaçam e se completam mas, ao mesmo tempo, se opõem no tecido contraditório da existência. Esta experiência, pela sua referência ao vivido, é renovada a cada instante da vida cotidiana.

No mundo do trabalho, o processo de gestão não se situa como isolado, resultado autônomo da ação do patronato. Ele é produto de uma construção histórica, na qual todos os atores marcam a sua presença, em que todos podem ter voz nas articulações que se estabelecem e nas mobilizações que se efetuam. Os limites da organização não representam o quadro total da experiência dos trabalhadores: ela se articula também aos processos vividos no interior de toda sociedade civil. É preciso integrar a dimensão social, tornar visível o ambiente e suas variáveis contextuais. Para compreender o comportamento dos trabalhadores é necessária a construção de uma rua de mão dupla, em que os elementos da vida além do trabalho se tornam importantes, como fator de experiência dos movimentos vivos que se reproduzem no todo social. Mas, é através do trabalho e de todas as suas formas de realização que o indivíduo se apropria do conteúdo do mundo exterior e pela sua representação, o integra fundamentalmente em seu mundo interior. Nessa concepção, o conceito de cidadania representa uma abordagem analítica igualmente importante, que pode articular os diversos fios constituintes da trama social e cotidiana. A cidadania vivida reflete, assim, este mundo interiorizado pelo indivíduo enquanto trabalhador.

Os princípios de realidade e de relatividade marcam o nascimento do cidadão no tempo e no espaço. O princípio de realidade refere-se ao entendimento que ele registra da evidência de dados políticos, estruturados pelas conquistas representadas pelos direitos sociais, civis e políticos. O princípio de relatividade, estruturado pela razão, define o acordo inicial efetivado pelo desenvolvimento histórico e a entrada do indivíduo neste mundo. A passagem de um princípio a outro gera um enorme grau de incerteza no que concerne à construção social do campo específico da cidadania. Daí a constante tensão deste campo.

No desenvolvimento dialético da história, assiste-se às contradições entre os direitos específicos de todo indivíduo e os direitos políticos de um certo número de indivíduos. No interior deste mundo, uma hierarquia de direitos é sempre entrecruzada com uma segregação de seres que, sem serem escravos, não atingiram, ainda, os signos da cidadania. Uma multiplicidade de interditos, oriundos da nossa formação social e política, tem estigmatizado um grande percentual da população brasileira.

As transformações das condições objetivas da existência impuseram a constituição de perspectivas diferentes sobre a cidade, as organizações, o trabalho e os trabalhadores, do espaço social e político, denotando uma outra forma de leitura e compreensão do social que se transforma. Os traços referenciais nos remetem às rupturas produzidas pela vida moderna num contexto de transformações mundiais, em especial numa sociedade como a brasileira, que vivencia um processo de modernização conservadora e de grandes restrições históricas ao exercício de certos direitos sociais, políticos e civis.

Neste contexto é possível compreender os traços constitutivos da vida contemporânea: a experiência da perda, a fragmentação em seus diversos níveis de existência, o tormento explicado pela existência comandada por resíduos de uma tradição que não se domina mais. Mas, ao mesmo tempo, não se trata de um sujeito, aqui, despossuído de experiências sociais significativas ou de um objeto marcado pelo assujeitamento e pela submissão. Existe uma outra possibilidade de ruptura, de uma reconstrução contínua, singular e dialética, que se efetua entre os atores presentes neste processo.

É esta história que este livro se propõe contar. A transformação que se efetua na fusão de dois eixos temporais: a perspectiva da modernização produtiva considerada como a saída de uma mundo atrasado, a passagem para a modernidade, mas também a possibilidade de reintegração deste mundo naquele outro, construído pela força do imaginário refeito por símbolos (re)significados. A natureza desta transformação só pode ser compreendida através deste processo de (re)significação. Em primeiro lugar, porque a atribuição de novos significados – diferentes do conteúdo original – se funda no terreno da experiência histórica e social dos sujeitos que vivem este processo. Em seguida, por se apropriar dos fatos históricos e sociais, as organizações produzem um novo acontecimento que se torna a composição fundamental de realidade comunitária partilhada pelos atores que aí vivem. O conhecimento e, sobretudo, a compreensão destes fatores é a contribuição que este livro pretende dar. Conhecimento e compreensão são duas coisas distintas, nos ensina Hanna Arendt, mas são fundamentalmente articulados, na medida em que o primeiro precede e prolonga a segunda: juntos eles dão sentido ao saber.

Estas mutações introduzem ainda transformações sobre a visão e representação do espaço público. Esta questão se desdobra, além de sua importância intrínseca no campo da política, assim como interfere nas condições e na capacidade de ação dos cidadãos. Na sociedade brasileira, a esfera pública é um importante campo de contradições, ambigüidades e paradoxos. As alterações que são efetuadas no espaço do público, do privado e da intimidade – para usar as expressões de Arendt – são realizadas na ausência de um imaginário igualitário. Essa visão coloca importantes questões sobre as possibilidade de democratização das empresas e de um efetivo quadro democrático no país, assentados que são num terreno de desigualdades materiais e simbólicas.

Se essa reconstrução se faz no terreno ideológico, ela se faz também no campo do simbólico e do imaginário. E é aí que existem as possibilidades de transgressão. A ideologia pertence à categoria dos discursos racionais, pelo fato de que ela se constrói se orientando para a conquista/legitimidade de um projeto hegemônico. O simbólico, certamente, comporta também elementos reais-racionais e remete à funcionalidade, uma vez que sem o simbólico a sociedade não pode existir e sem a funcionalidade não pode sobreviver. Mas o simbólico se funda sobre um eixo quase infinito de significações e não se cola a uma única visão do real: ele denota, através de seu tecido imaginário, as possibilidades virtualmente ilimitadas, de formas de agir e de pensar.

Rupturas e permanências, (re)significações de práticas e representações não significam respostas completas e definitivas sobre os temas aqui elaborados. Mas novas questões são suscitadas na oposição entre a tradição e os projetos de modernização e induzem aos questionamentos, na remodelação das próprias questões, atravessadas por diferentes eixos, em vertentes antigas travestidas pelo novo. Se atingimos essas dimensões, estamos satisfeitos. Mais ainda se muitos aceitarem o convite implícito neste livro, de nos acompanharem nessa trajetória de descoberta e apreensão da multiplicidade e complexidade que permeiam as organizações, o fazer administrativo e o exercício do trabalho humano, e que se situam num registro outro que não o prescritivo e a perspectiva simplista de que só subsistem os valores e as práticas hegemônicas, presentes muitas vezes nos textos de Administração.

Assim, a ordenação que se fez aqui dos relatos e reflexões dos pesquisadores do GETEC em torno dos seus estudos mais recentes não significa, em absoluto, a uniformidade de perspectivas, nem a hierarquização de conteúdos numa ótica unidimensional. Pelo contrário, reflete a polifonia de uma compreensão do social e do administrativo enquanto fenômenos multifacetados e sujeitos a múltiplas leituras e interpretações.

Num primeiro bloco, reunimos os textos que enfatizavam as questões em torno da gestão, da cultura e da política, seja no sentido de refletir sobre as possibilidades de (re)construção política, na ótica dos coletivos de trabalhadores submetidos a uma sofisticada engenharia cultural, que homogeiniza o espaço organizacional em torno dos objetivos empresariais, ou então desafia-os a criarem novas formas de atuação, a partir de um trabalho que não mais se exerce no espaço das fábricas, mas no domicílio dos trabalhadores, seja na perspectiva do desenvolvimento de localidades, dos espaços urbanos que abrigam organizações e gestores, trabalhadores e cidadãos. A problemática do poder e do seu exercício numa sociedade marcada por tão profundas desigualdades constituem o substrato desses estudos, sendo mesmo central no texto que analisa o poder organizacional sob o prisma da nossa inserção no processo de globalização (ou mundialização) do capital.

Sob a rubrica da organização e gestão, encontram-se os textos sobre a permanência do tradicional nos novos modelos de gestão, a partir da discussão sobre o paternalismo industrial, os descompassos entre o discurso e as práticas gerenciais, que acabam por suscitar dúvidas sobre as efetivas possibilidades de democratização organizacional, os contornos do relacionamento gerencial num modelo solidário de relações interfirmas, o impacto da sucessão nas empresas familiares, tão numerosas na economia brasileira (e mundial, ao contrário do que habitualmente se pensa), o peso do estresse ocupacional no contexto das transformações vividas no cotidiano das organizações, os impactos da demissão para um segmento significativo de gestores, em época de desemprego e de novas formas de inserção no mercado de trabalho, a importância da gestão do conhecimento e os desafios que as organizações do Terceiro Setor colocam ao pensar e fazer administrativos. Não é só a atualidade e a multiplicidade de temas que este bloco de textos abrange, mas também de enfoques e perspectivas teóricas, num maior ou menor grau de criticidade diante dos dilemas que a realidade social coloca e dos efeitos sociais que provoca. Em todas as contribuições, porém, descortinam-se novas formas de abordar essas temáticas e um sabor de descoberta nas pesquisas que as exploram.

O terceiro bloco aglutina os artigos que tratam basicamente das interseções entre o trabalho e a educação, embora as questões relativas ao exercício do poder, às contradições da gestão e às possibilidades de construção da cidadania estejam presentes nos artigos que analisam o processo, em curso nas organizações, de mobilização da subjetividade do coletivo de trabalhadores, contraposta às dificuldades de sua mobilização coletiva, os desafios e contradições que as novas tecnologias educacionais (im)põem ao trabalho docente e uma instigante reflexão sobre a educação profissional no interior das empresas.

Finalmente, o último bloco congrega os artigos que focalizam questões importantes e atuais sobre trabalho e gênero, discutindo essencialmente o novo significado e a importância das representações sociais do feminino nas atuais formas de organização do trabalho, no contexto da globalização e da reestruturação produtiva.

Esperamos que essa trajetória múltipla sobre o processo gestor e o trabalho humano na contemporaneidade, nessa tessitura em que a política, a cultura e a cidadania encontram-se tão fortemente entrelaçadas, contribua para o fortalecimento de uma abordagem crítica e interdisciplinar no campo administrativo.

As organizadoras

Trabalho e cidadania: as possibilidades

de uma (re)construção política

Solange Maria Pimenta

As condições de participação política no mundo contemporâneo colocam constantemente a existência de tensões para uma ação política que não domina suas condições de realização, nem as transformações que, no interior das sociedades, têm implicações extremamente significativas para o exercício mesmo da política. Nesta concepção, a política é caracterizada como a construção do possível, exposta aos limites determinados e ao exercício de pressões. É nesta angulação que reconhecemos a expressão de homens e mulheres que procuram se constituir como sujeitos em seu processo de existência e nas diversas contingências da vida cotidiana. Por meio destas (re)construções, eles instauram o campo da política, onde se inscrevem as relações de poder, que se insinuam em todos os espaços da socialização e da sociabilidade. Mas, por outro lado, há tentativas de busca de diálogo e não mais a contestação do poder, negocia-se o equilíbrio no interior de uma ordem não necessariamente nova, mas provisoriamente adequada.

Nesse quadro, o pensamento e a ação política perderam grande parte de seu impacto, em razão da fragilidade dos movimentos sociais e sindicais, da fadiga de uma luta essencialmente defensiva, do caráter fragmentário e de curto fôlego das reivindicações populares. É neste sentido que este trabalho – através de uma abordagem qualitativa – procura recuperar/resgatar as representações sociais da política, via discurso dos trabalhadores de uma empresa do setor automobilístico. Introduzir a noção de cultura política – compreendida como o campo específico da produção e reprodução das concepções que uma sociedade elabora sobre ela mesma e sua esfera política – desvenda as relações de significados/significantes que fundamentam as ações e as tornam compreensivas no processo de (re)modelação da sociedade e na construção possível do trabalhador como cidadão emancipado.

A política dos outros

A dimensão do político, segundo Lefort (1986, p. 19) revela-se "não apenas no espaço da atividade política, mas em um duplo movimento de desvendar e ocultar o modo mesmo de instituição da própria sociedade. Desvendar, no sentido de tornar visível o processo pelo qual se ordena e se unifica a sociedade, através de suas divisões específicas; ocultar, com um significado próprio do locus da política (lugar onde se exerce a competição entre partidos e onde se forma e se renova a instância geral do poder) e pode ser designado como particular, onde se encontra dissimulado o princípio fundamental e gerador das estruturas sociais. Essa significação geral torna-se a constituição do espaço social, torna-se a forma da sociedade constituída. Para o autor, o político é, ao mesmo tempo, um conjunto de significados e um jogo de cena. Conjunto de significados, porque o espaço social se abre como espaço de inteligibilidade na articulação entre o real e o imaginário, do verdadeiro e do falso, do justo e injusto, do livre e do interdito. Jogo de cena, porque esse espaço contém uma quase representação dele mesmo em sua constituição aristocrática, monárquica ou despótica, democrática ou totalitária. A política implica sempre uma relação entre os homens, fundada na exigência de respostas à questões que dizem respeito ao seu destino comum. Dessa forma, temos a ambigüidade resultante da distinção necessária entre a política e o político de que nos fala o autor.

É nesse contexto que emerge a figura do sujeito da ação, que pensa a sua experiência, que se engaja e se ordena em virtude de uma concepção explícita das relações dos homens entre si e de uma concepção e visão de mundo. A perspectiva do sujeito neutro significa a castração do pensar político, uma vez que esta neutralidade é que lhe interdita pensar o que é pensado em toda sociedade e que lhe fornece o estatuto de sociedade humana: a diferença entre o que é legítimo e ilegítimo, entre a verdade e a mentira, entre a autenticidade e a impostura, a busca do poder ou de interesses privados e a busca do bem comum (LEFORT, 1986, p. 21). Nessa perspectiva é que o autor nos alerta para a importância de repensar a política em nosso tempo.

No mesmo sentido, Castoriadis (1990, p. 150) nos fala do enigma da política. Uma sociedade autônoma implica em indivíduos autônomos. Os indivíduos se formam e se tornam aquilo que eles são absorvendo e interiorizando as instituições: seus valores, suas regras de conduta, seus modos de pensar e de agir. Mesmo as suas identidades dependem das instituições. A solução do enigma é, ao mesmo tempo, o objeto primeiro de uma política de autonomia, democrática: ajudar a coletividade a criar as instituições, onde a interiorização efetuada pelos indivíduos não limite, mas amplie suas capacidades de se tornarem autônomos (1990, p. 50). Assim, uma política de autonomia é parte pregnante de todas as tarefas e fornece ao sujeito a capacidade de se tornar livre em suas perspectivas e em suas escolhas. Um dos pontos decisivos, para o autor, é o processo como se efetiva a interiorização dos significados sociais imaginários. Compreender esse processo, suas condições de formação, pode nos desvendar a própria condição do indivíduo e suas possibilidades de se constituir enquanto sujeito.

Para os dois autores, a autonomia e ação política do sujeito constituem o nódulo fundamental da constituição do universo político.

Em uma outra perspectiva, Cardoso (1988, p. 76) afirma que o movimento atual é o de desacralização da política e que o primeiro desafio é a restrição de seu espaço de ação. É nesse campo mais restrito e limitado que emergem, hoje, as representações da política entre os trabalhadores entrevistados:

Eu penso que o problema da política no Brasil é uma questão de cultura. A partir do momento em que um povo se torna culto, a situação pode mudar. (trabalhador)

Minha geração é desiludida com a política. Ninguém acredita mais. São poucos os que ainda acreditam e lutam por um partido, ou por uma causa. A maioria só age na hora de votar. Mas, eu penso que o brasileiro ainda tem esperanças. Ele espera que as coisas mudem. Mas, vem sempre a frustração. E como estes momentos se repetem sempre, eu tenho medo que ele perca a sua capacidade de esperar. (trabalhador)

Sobre política o que eu penso é que faltam informações para a população. A ausência de leitura nos faz crédulos. Não temos a capacidade de criticar, de distinguir a verdade da fraude. (trabalhador)

Todos esses horrores que vemos hoje no mundo têm uma só causa: a política. O governo não tem projetos, não governa. Ele pensa somente na maldita política. (trabalhador)

Eu detesto política. Não me envolvo. Penso que é só tumulto, engano, anarquia. É tudo que eu tenho para dizer sobre política. (trabalhador)

De política, eu não entendo nada. Assim, eu não posso falar. (trabalhador)

Da política, eu prefiro me isolar. Não leva a nada. (trabalhador)

Verifica-se, através dos depoimentos, que a concepção de política introjetada pelos trabalhadores é fundamentalmente negativa. Nessa angulação, pode-se imaginar as conseqüências para a reconstituição de uma sociedade autônoma no Brasil, assim como uma perspectiva de democratização no interior das organizações. Uma análise dessas significações aponta questões importantes.

Primeiramente, é preciso ressaltar as relações existentes entre as situações socioeconômicas e a política, relações que se multiplicam e passam a ser cada vez mais complexas e mais diferenciadas. No caso do Brasil, historicamente, tem se produzido num vazio institucional. Segundo O’Donnel (1988, p. 79) o regime burocrático-autoritário dos governos militares era, essencialmente, hostil ao estabelecimento de mediações institucionais representativas do setor popular. Mas este vazio tem também raízes mais profundas e antigas. Para ele, as relações sociais fundadas no autoritarismo (como característica essencial da cultura brasileira) de relações personalizadas e personalísticas – e portanto anti-institucionais e arcaicas – tendem a gerar uma política igualmente personalística e autoritária. Os hiatos socioeconômicos existentes entre as classes são facilmente tranferíveis para aqueles existentes entre elites e povo. Os dois se reforçam mutuamente e juntos impedem a realização do que é mais importante para a consolidação da democracia no país: a emergência de instituições políticas específicas dos regimes democráticos. Assiste-se, assim, ao drama de um país sem tradição democrática que luta contra as múltiplas heranças negativas de seu passado e que é sempre confrontado com graves crises econômicas e sociais, num mundo globalizado e em mutação.

Nesse quadro, a democracia é o resultado incerto de um jogo de conflitos que constitui mesmo a sociedade e, em razão de sua natureza contingente, ele implica em um processo constante de avanços e recuos dos mecanismos políticos e institucionais capazes de concretizar o princípio de soberania popular. Dois aspectos se destacam como importantes e complementares neste contexto. O primeiro é a ambigüidade de uma democracia que coexiste com privilégios e diferenciações entre classes, onde o voto – hoje liberado e universal – não se inscreveu historicamente no cotidiano dos trabalhadores e do cidadão brasileiro como fator de transformação. A outra face, a da exclusão do povo – visto como intruso nos espaços públicos e políticos, mas enobrecido no discurso competente – faz da política um negócio das elites. A distância existente entre a realidade de sujeitos efetivos capazes de exprimir a vontade do povo real e das instituições políticas, ou mais concretamente a relação entre a heterogeneidade social e o princípio

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