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O monstro em mim

O monstro em mim

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O monstro em mim

notas:
4.5/5 (8 notas)
Duração:
439 páginas
6 horas
Lançados:
Sep 23, 2018
ISBN:
9788568839898
Formato:
Livro

Descrição

Eu pensei que poderia muda-lo...


Sempre apontada como uma perfeita menina da máfia italiana, Abriella Bonucci era adepta aos costumes, tanto que foi criada para ser uma boa filha, e consequentemente, a esposa perfeita.
Ela ainda insiste sonhar com um conto de fadas, mesmo que tudo a respeito da família onde nasceu tornasse isso quase impossível. Mas um casamento arranjado com um dos chefes da máfia, Lucca DeRossi, a faz duvidar de suas esperanças, porque não há um traço de bondade nas histórias sobre ele que correm pelos solos da Itália.
Abriella está prestes a descobrir que nem mesmo sua inocência e seu sorriso doce vão salvá-la do monstro com quem se casou.
Dizem que do ódio vem o amor e do amor vem o ódio.
Será que um coração morto pode voltar a vida?
Lançados:
Sep 23, 2018
ISBN:
9788568839898
Formato:
Livro

Sobre o autor


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Amostra do livro

O monstro em mim - Nana Simons

CapaFolha de Rosto

Todos os direitos reservados

Copyright © 2018 by Qualis Editora e Comércio de Livros Ltda

Texto de acordo com as normas do Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa

(Decreto Legislativo nº 54, de 1995)

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

S611o

1.ed

imons, Nana, 1997 -

O monstro em mim / Nana Simons. - Florianópolis, SC: Qualis Editora e Comércio de Livros Ltda, 2018.

Recurso digital

Formato e-Pub

Requisito do sistema: adobe digital editions

Modo de acesso: word wide web

ISBN: 978-85-68839-93-5

1. Literatura Nacional 2. Romance Brasileiro 3. Ficção 4. Dark Romântico I. Título

CDD 869.93

CDU - 821.134.3(81)

Qualis Editora e Comércio de Livros Ltda

Caixa Postal 6540

Florianópolis - Santa Catarina - SC - Cep.88036-972

www.qualiseditora.com

www.facebook.com/qualiseditora

@qualiseditora - @divasdaqualis

O meu amor eu guardo para os mais especiais. Não sigo todas as regras da sociedade e às vezes ajo por impulso. Erro, admito, aprendo, ensino. Todos erram um dia: por descuido, inocência ou maldade. Um amor arruinado, ao ser reconstruído, cresce muito mais belo, sólido e maior.

William Shakespeare

"Para todos que não aceitaram perder a batalha e lutaram para vencer a guerra.

E para os amores quebrados.

Que meu pequeno grande Lucca os consuma, e minha 

doce lutadora Abriela os inspire."

Nana Simons

chapéu

SUMÁRIO

CAPA

FOLHA DE ROSTO

FICHA CATALOGRÁFICA

EPÍGRAFE

DEDICATÓRIA

A ÁRVORE GENEALÓGICA DA MÁFIA

PRÓLOGO

CAPÍTULO 01

CAPÍTULO 02

CAPÍTULO 03

CAPÍTULO 04

CAPÍTULO 05

CAPÍTULO 06

CAPÍTULO 07

CAPÍTULO 08

CAPÍTULO 09

CAPÍTULO 10

CAPÍTULO 11

CAPÍTULO 12

CAPÍTULO 13

CAPÍTULO 14

CAPÍTULO 15

CAPÍTULO 16

CAPÍTULO 17

CAPÍTULO 18

CAPÍTULO 19

CAPÍTULO 20

CAPÍTULO 21

CAPÍTULO 22

CAPÍTULO 23

CAPÍTULO 24

CAPÍTULO 25

CAPÍTULO 26

CAPÍTULO 27

CAPÍTULO 28

CAPÍTULO 29

CAPÍTULO 30

CAPÍTULO 31

CAPÍTULO 32

CAPÍTULO 33

CAPÍTULO 34

CAPÍTULO 35

CAPÍTULO 36

CAPÍTULO 37

CAPÍTULO 38

EPÍLOGO

AGRADECIMENTOS

árvore genealógicaprólogo

Lá estava eu novamente.

Um vestido elegante, cabelo longo em ondas e o sapato perfeito. O que poderia dizer? A Famiglia gostava de festas.

Eu tinha retornado de uma viagem para Paris há exatamente quatro horas e, durante todo o voo de volta para a Itália, formei uma linda imagem de que chegaria em casa e simplesmente dormiria por horas. Doce ilusão.

Mal passei pela porta quando uma de minhas irmãs mais velhas, Alessa, jogou-se em mim, gritando a respeito de um baile. Sendo como eu era, segui-a para seu quarto e esperei que me arrumasse como sua bonequinha, como sempre fazia. Minha segunda irmã, Anita, gêmea de Alessa, esperava-nos na sala e, como sempre, não compartilhava do nosso entusiasmo.

Agora mesmo, olhando em volta do salão e vendo algumas pessoas que eu conhecia por toda minha vida, ou das quais, pelo menos, já tinha ouvido falar, não entendia o téDio da minha irmã. Crescer na máfia não era um mar de rosas, mas foi o que o destino nos reservou, então, eu era grata e sorria por isso.

Na maioria das vezes era até legal enxergar nosso modo de vida nos filmes e documentários. As pessoas glamorizavam nossa cultura sem nem saber o que realmente existia por trás das belas tomadas de Hollywood. Na primeira vez em que assisti a um filme sobre a máfia italiana, perguntei-me quem poderia ter passado aquelas informações para os roteiristas e produtores. Na internet, todos ficavam em êxtase, animados e desejando fazer parte da nossa sociedade. Foi quando percebi que alguns enfeites e a maquiagem que a indústria passou mostraram uma ficção absurdamente diferente da nossa realidade, principalmente o que concernia a tudo ao que nós, mulheres, tínhamos que nos submeter. Era uma cultura muito diferente, e, nela, cada um tinha seu papel definido; ou você lutava para fazer dar certo, ou sua vida seria um inferno total. O direito do sim e não nos era tirado assim que o médico dizia aos nossos pais se seríamos meninos ou meninas. Não existia glamour nos meus dias. Existiam regras, punições, leis que não podiam ser quebradas e instruções de como ser uma dama perfeita.

Com toda a certeza, O Poderoso Chefão não nos representava. Nem Os Bons Companheiros.

— Irmã? Você está dormindo aí? ­— Olhei para frente, para os belos olhos verdes de Alessa, percebendo que estava divagando até ela me sacudir.

— Desculpe, eu me distraí. — Sorri.

— Já estão anunciando o ponto alto da noite. — Ela sorriu, batendo palmas levemente, fazendo Anita bufar ao seu lado.

— Sim, vamos lá, estamos ansiosas para sermos vendidas como vacas.

— Revirou olhos verdes, idênticos aos da irmã.

— Bois — retrucou Alessa, fazendo Anita franzir a testa.

— O quê?

— Você quis dizer, vendidas como bois.

— Não, eu quis dizer exatamente o que eu disse.

— O ditado está errado, você não pode mudar só porque somos mulheres.

— Alessa, quem se importa? É só um ditado — Anita sussurrou, claramente perdendo a paciência.

Um sorriso brincava em meus lábios, enquanto observava minhas duas belas irmãs fazendo o que elas mais adoravam fazer: discutir. Fosse por muito ou por pouca coisa, às vezes sequer precisavam de um motivo. As duas se pareciam tanto fisicamente, principalmente os olhos verdes e os cabelos escuros, mas tinham personalidades completamente diferentes uma da outra.

De onde eu estava sentada, conseguia uma boa vista de Lorenzo e Bernardo; meus irmãos mais velhos estavam conversando com nosso pai e com mais dois homens.

Olhei de volta para minhas irmãs e sorri mais ainda, pois não importava onde eu estava, tinha uma família de verdade além da Famiglia, e eles sempre estavam lá para me lembrar disso. Papai e Lorenzo eram distantes, mas eu me forçava a acreditar que ainda tínhamos um elo. Alessa e Anita não pensavam da mesma forma, mas eu sempre tive fé demais.

— Senhoras e senhores, gostaria da atenção de vocês por alguns minutos — a voz veio do palco, onde Marco Berlot se mostrava todo sorridente. — Como sempre, é um prazer estar com vocês nesta linda noite, todos são bem-vindos. — Houve uma pausa para alguns aplausos, e ele logo voltou a falar: — Nossas festas sempre são agradáveis, mas muito ansiei por esta data em especial. Nesta noite, apresentaremos a vocês as jovens solteiras mais adoráveis de nossas familias! Homens descomprometidos, vocês estão liberados para dar o maior lance por uma bela dama com quem quiserem um jantar... — Suas palavras foram cortadas quando a atenção dos convidados se dirigiu à porta de entrada do salão.

E com razão, pois ninguém menos do que Lucca DeRossi havia acabado de chegar.

Durou apenas um momento, mas eu juro que pude ouvir suspiros por onde ele passou.

Todos logo voltaram a fingir se concentrar, e Marco deu continuidade ao seu discurso. Forcei-me a focar nas palavras dele, mas simplesmente não conseguia desviar o olhar de Lucca.

Provavelmente não fui a única, uma vez que era impossível não perceber o clima tenso que se espalhara pelo local. De fundo, conseguia ouvir Marco chamando as meninas, destacando o sobrenome de suas famílias. Mas meu foco ainda permanecia em Lucca, enquanto ele se sentava com seus irmãos na mesa mais distante do palco e acendia um cigarro. Seus soldados se posicionaram atrás de sua cadeira, prontos para arriscarem suas vidas por seu chefe, caso fosse necessário. Seus irmãos falavam algo, mas ele simplesmente acenava ou elevava o queixo, analisando todo o lugar sem expressar qualquer reação.

Lucca não possuía uma boa reputação, e eu não sentia tesão nele ou algo parecido; aquele homem apenas me intrigava, pois tudo que sabia sobre ele, ouvi das pessoas do nosso círculo social, e não se tratavam de coisas boas. Mas eu também não era cega. Podia ser uma virgem, mas conseguia reconhecer quando via algo bonito, e Lucca, sendo alto, forte e com um rosto certamente esculpido por anjos, tinha uma aparência impressionante.

Nem mesmo quando minhas irmãs foram chamadas no palco eu parei de observá-lo.

Não sei se meu olhar foi tão intenso como eu imaginava, mas ele eventualmente olhou para mim. Seus olhos azuis como céu, frios e distantes, cortaram diretamente os meus. Um arrepio passou por meu corpo, e eu rapidamente desviei. Mas ainda sentia seu olhar me queimando como fogo. Forcei-me a concentrar em outra coisa, mas tudo o que consegui foi focar em meu prato, pedindo silenciosamente que conseguisse entrar nele e virar parte daquele molho.

Minutos depois, minhas irmãs voltaram para a mesa. Anita estava irritada, e Alessa, com um sorriso brilhante, que vacilou um pouco ao ver sua outra metade.

— Ella, por que ele não te chamou? — Alessa questionou. Anita pareceu sair de seus devaneios e arregalou os olhos, inclinando-se em minha direção.

— Oh, meu Deus! É verdade, papai te disse algo? — Eu franzi a testa, confusa e impressionada por não ter me dado conta de que não fui a leilão.

Todas as meninas jovens da Famiglia eram obrigadas a participar. Eles faziam parecer que era nossa maior honra estar em cima do palco e arrecadarmos dinheiro para jantarmos com um associado ou amigo da máfia.

Tive o meu primeiro aos dezesseis anos e achava algo inocente, pois nossa função era apenas sentar à mesa com quem nos alugou para o jantar e ouvi-los falar. Éramos como enfeites.

— Ele encerrou os lances? Quer dizer, não há mais ninguém para subir ao palco?

— Não! Todas já foram. — Alessa tinha uma expressão indignada. — Quem ele pensa que é para excluir uma Bonucci? — Anita assentiu, concordando.

— Eu odeio essa merda, mas ele não pode simplesmente esquecer de você. Eu vou castrar o fi...

— Anita, controle-se e não faça uma cena. — Nós três nos viramos para ver nosso pai bem atrás de mim. Ele me lançou um olhar incerto e estendeu a mão.

Eu a peguei, hesitante, e me levantei. Logo estávamos andando em direção a um comprido corredor. Passamos por todo o caminho até que ele parou em frente a um soldado, que abriu a porta e esperou que nós entrássemos.

Antes disso, virei-me para meu pai, preocupada e ansiosa.

Papa, o que há de errado?

Ele balançou a cabeça e fez sinal para a porta.

— Apenas entre. — Eu respirei fundo e entrei.

Dentro da sala, olhei para os rostos ali e soube, naquele momento, que tudo mudaria.

Capítulo

Um mês. Agora faltava apenas um mês e uma semana para o meu aniversário, a data pela qual eu sempre ansiei, que agora só conseguia temer.

Eu mal tinha acordado, e meus pensamentos já vagavam para aquela noite, sete dias atrás.

Ainda me lembrava da expressão do meu pai quando me falou as piores palavras que eu poderia ouvir. Fez-me sentar de frente a ele e deu-me praticamente uma condenação.

Meus irmãos também estavam na sala. Enquanto Lorenzo parecia tranquilo, Bernardo tinha uma expressão assassina, e meu pai parecia triste, mas severo. O caso era que eu faria vinte e um anos em breve e tinha obrigações com a Famiglia. Suas palavras foram cortantes, deixando claro que não havia espaço para discussões sobre o tema.

"Você sabe que no nosso mundo todos têm obrigações com a organização... Chegou a sua vez de cumprir com seus deveres. Portanto, vai se casar.".

Fiquei tão chocada que pensei que fosse uma brincadeira. Olhei para os meus irmãos, tentando descobrir se era um teste, mas, não. Papai falava sério. Lorenzo deveria se casar primeiro, então Bernardo, Anita, Alessa e, por último, eu.

Lucca DeRossi me procurou pessoalmente, não através de seus soldados ou de algum de seus irmãos. Ele veio até nossa casa dizendo que se casaria com você. Eu te amo, você é minha filhinha, mas ele não pede, ele toma. Então, por favor, não lute contra isso. Por mim, por seus irmãos e por suas irmãs.

Saí do escritório logo depois, tentando limpar a neblina na minha mente. Parei no corredor e revi silenciosamente a conversa toda. Só consegui ficar mais apavorada ainda. Meu pai não era um homem ruim, ele foi bom para nós – dentro do que se considera ser bom vindo de um homem da máfia. Ele não sabia ser carinhoso e por muitas vezes foi rígido além do necessário, mas, ainda assim, melhor do que muitos patricarcas mafiosos. Mas o fato de me entregar em casamento para um assassino, um criminoso e possivelmente o homem mais cruel que eu poderia imaginar, fazia tudo dentro de mim se revirar. Eu também não podia esquecer que se meu pai ou qualquer outro Capo negasse algo ao Chefe, tudo iria para os ares.

Sentia-me em pânico e tentava desesperadamente controlar a respiração. Anita e Alessa estavam no começo daquele corredor, e a última coisa que eu queria era assustá-las.

Ensaiei uma expressão calma e tentei agir como se nada estivesse errado, mas, assim que voltei para o salão, dei de cara com ele. Se fechasse os olhos podia me lembrar exatamente de como foi.

Seus frios olhos azuis estavam em mim, mas, diferente de antes, não desviei o olhar. Eu o encarei de volta. E todo o salão simplesmente sumiu quando ele, em câmera lenta, levantou-se, abotoou o paletó e começou a caminhar em minha direção.

Cada passo emanava perigo, e não havia sequer uma pessoa que não abaixasse o olhar quando ele passava.

Lucca estava a uma pequena distância de mim quando me mudei para o corredor e parei. Era, provavelmente, um movimento suicida, e não havia uma célula do meu corpo que não me dissesse para correr, mas eu fiquei.

Quando ele apareceu à minha vista novamente e parou, analisando-me lentamente, eu me agarrei ao fio de esperança de que ele não fosse tão ruim quanto falavam. Acreditei que ele diria Oi, talvez se apresentaria oficialmente, ou até mesmo me explicaria alguns dos motivos pelos quais deveríamos nos casar.

Não.

Não. Mesmo.

Ele andou até ficar a centímetros de mim, tirou a mão do bolso, segurou meu braço, abriu a primeira porta que viu pela frente e me arrastou para dentro.

— Finalmente a sós, Abriela — ele disse meu nome, como se experimentasse como soava, com aquela voz forte, que enviou calafrios através de mim. Ao me dar conta do que ele poderia fazer comigo ali dentro, estando sozinhos, meus olhos se encheram d’água.

— Enxugue as lágrimas ou eu vou te dar motivo para deixá-las cair.

Engasguei com um soluço e coloquei a mão sobre a boca, os olhos arregalados de medo.

— Sinceramente, não entendo o fascínio. Você é muito bonita, não posso negar. Mas não vejo o porquê de todo homem dessa maldita Famiglia, cair de encantos por você. Não é exatamente animador ouvi-los falando o quanto a minha noivinha é bonita.

— Estudando-me, analisando cada traço do meu rosto, levantou a mão em direção à minha face, e eu vacilei, Lucca pareceu não se incomodar e arrastou o dedo da minha têmpora ao queixo. — Talvez você seja uma vadia manipuladora. Todas são, não é?

Eu ainda estava parada em silêncio quando ele deu uma volta em torno do meu corpo, parando atrás das minhas costas. Logo senti sua voz reverberando em um sussurro rouco, que enviou arrepios através de mim.

— Se esse for o caso, vai aprender da pior forma que comigo não há manipulação, querida futura esposa, portanto, não tente brincar ou jogar, você irá perder.

— Eu não joguei com você.

— Você quis a minha atenção desde o momento em que eu entrei no salão, agora você a teve. — Lucca saiu de trás de mim e andou até a porta. Sem se virar, disse: — Estarei na sua casa daqui uma semana para te explicar como tudo irá funcionar.

Fechei os olhos assim que ouvi a porta bater. Meu coração disparou mais rápido do que nunca, minhas mãos suavam e as lágrimas que vinha segurando, desde que papai me deu aquela notícia, vieram com força. Lágrimas e mais lágrimas de puro desespero. Se eu tinha alguma dúvida sobre o que falavam de Lucca DeRossi, não havia restado mais nenhuma.

Colocando a mão onde ele havia segurado em meu braço, permiti-me deixar que tudo desmoronasse. Sabia que se eu segurasse o que estava sentindo, depois seria mil vezes pior. A percepção de que eu seria a primeira dos meus irmãos a se casar, e que não havia ninguém para me defender daquele destino, amedrontava-me. Lucca me aterrorizava.

Desde que tive idade o suficiente para entender como as coisas naquele mundo funciovam, nunca foi um mistério que algum dia precisaria me casar pelos interesses, por negócios. Eu só tinha aquele gigante defeito de acreditar que algo bom poderia acontecer, e o que recebi em troca dessa esperança vazia, foi ser prometida ao pior dos homens que conhecia.

— Vou me casar com Lucca DeRossi ­­— sussurrei.

Minha vida estava caminhando para ser um inferno. A razão me dizia para me conformar e aceitar aquilo como o fim, mas meu coração sonhador, no meio da dor e a decepção dos acontecimentos daquele dia, sentia aquela velha chama crescer.

Aquela que me fazia sonhar e querer acreditar que talvez pudesse dar certo.

chapéu

Levantar-me não foi uma tarefa fácil, principalmente quando tudo que eu queria era passar o dia na cama, tentando prever meu futuro. Mas não podia.

Aquele era o grande dia.

Assim que coloquei o pé no chão, houve uma batida na porta. Fiquei tensa, mas logo ouvi minhas irmãs tentando falar baixo do outro lado e quase relaxei.

Estava prestes a começar.

Capítulo

Assim que abri a porta, fui envolvida pelos braços de Anita. Alessa foi até a janela puxar as cortinas para abri-las.

Minha irmã me soltou e segurou em meus braços, olhando-me profundamente nos olhos.

— Eu vou resolver isso — sussurrou, e antes que eu pudesse responder já estava sendo empurrada para o banheiro.

— Banho, agora. E rápido, você está terrível. Tenho apenas algumas horas para dar um jeito em você — Alessa exclamou, tentando fechar a porta do banheiro comigo lá dentro.

— Cristo, Alessa! Você vai só se sentar aí e pegar revistas de vestidos de noiva, ver decorações e fazer os preparativos para a sua bonequinha se casar? O casamento perfeito, a família perfeita, um perfeito sorriso no rosto, a porra do dia perfeito! Anita gritou.

Minha irmã não se alterou diante do ataque histérico de sua gêmea, apenas rosnou:

Você acha que eu estou feliz? Minha irmãzinha mais nova vai se casar com o cara mais poderoso e temido da Famiglia, e você acha que eu estou radiante? Abriela não precisa de você para colocar bobagens na cabeça dela agora.

— Eu me sinto com o anjo e o demônio nos meus ombros — respondi, sabendo que as duas tinham suas razões. Alessa seguia rigidamente cada lei imposta pela máfia, e Anita não se importava em quebrá-las. As opiniões divergiam de todas as formas.

— Sim? Bem, seria engraçado se não fosse trágico. Nós não temos muito tempo; você resolveu acordar tarde logo hoje! Perfetto.

Percebi Anita cabisbaixa e segurei suas mãos.

— Irmã, sei que tudo o que você quer é a sua liberdade, mas comigo nunca foi assim. Sempre quis um casamento e um lar para cuidar. Talvez isso dê certo — tentei soar convicta, mas nem eu acreditava muito nas minhas palavras.

Minha irmã jogou os braços para o ar, bufando e revirando os olhos.

— Você está louca! Sabe o que vai acontecer? Ele chegará todos os dias desses bordéis de luxo que a família DeRossi controla, cheirando a whisky caro e perfume de prostituta, vai te estuprar e, por fim, colocar meia dúzia de filhos em você, pra que fique tão ocupada cuidando dessas crianças que não poderá reclamar sobre as suas escapadas. Este é o seu sonho? — gritou.

— Você acha que não tenho medo disso? Pelo menos estou tentando fazer funcionar; não fico arrumando qualquer desculpa numa tentativa desesperada para fugir, porque sei que não há como escapar disso! Se já é difícil para qualquer outra moça na Famiglia, imagina para a escolhida do Chefe — explodi, gritando as palavras de volta para Anita.

— E como está funcionando pra você? Ser uma covarde que na primeira oportunidade enfia o rabo entre as pernas e aceita qualquer merda que te dão? — Fiquei alguns segundos encarando-a, em choque.

— Vou tomar meu banho agora, e quando eu entrar neste quarto novamente, não quero você aqui. — Virei-me e fui fazer o que deveria, ainda com as palavras dela rodando em minha mente.

chapeu

Quando pisei no quarto novamente, as duas estavam lá. Encarei Anita e soltei:

— Achei que tinha sido clara o suficiente.

— Me desculpe, eu não deveria ter dito o que disse. Não concordo e nem acho certo; você é tão jovem, eu apenas... eu... — ela soluçou e eu apressei meus passos para abraçá-la.

— Shi... tudo vai ficar bem. — Deslizei os dedos por seus cabelos, tentando acalmá-la, e sussurrei. — Eu preciso da minha irmã forte neste momento. Preciso do seu apoio, ou não vou conseguir.

Com isso, Anita rapidamente secou as lágrimas e me olhou decidida.

Va bene! Vamos fazer isso. Temos algumas horas até o jantar, então, vamos te deixar mais linda ainda.

Alessa sorriu e se aproximou.

— Eu gosto disso.

Meia hora depois eu vestia um roupão, e uma representante da Valentino me mostrava modelos de vestimenta para um jantar.

Eu planejava simplesmente pegar um dos tantos que tinha no meu armário quando Alessa me avisou que receberíamos uma profissional. Não duvidava que ela já estivesse com metade do casamento planejado.

— Você não tem algo mais inocente? Por Deus, ela vai receber o noivo, não vai a uma boate se prostituir — Anita protestou.

— Senhorita Bonucci, eu... — Os olhos da representante de vendas estavam arregalados, e ela parecia prestes a correr porta afora a qualquer momento.

Prendi o riso e me levantei, indo em direção a um vestido azul claro longo. Escolhi sandálias simples, pretas, e sorri para ela.

— Obrigada por isso, e ignore minha irmã. Anita está naqueles dias. — A coitada rapidamente acenou para seu assistente, que recolheu as peças e as guardou, enquanto nos despediamos.

— Ótimo, agora você pode ir se vestir e vamos fazer seu cabelo. Depois, é só esperar. — Alessa sorriu.

chapeu

Após uma tarde totalmente dedicada à minha aparência, lá estava eu, sentada no sofá da sala da minha própria casa, mais desconfortável do que nunca. Bernardo tinha se jogado em uma poltrona e ficara conversado comigo na última hora, fazendo-me rir e esquecer um pouco do que me aguardava. Agora restávamos apenas eu e meu pai.

O mesmo me encarou e pareceu escolher as palavras antes de falar.

— Eu sei que durante toda a semana Anita veio colocando coisas em sua cabeça. Mas esqueça tudo o que ela possivelmente disse e foque no que você sabe que deve fazer. Esse casamento vai acontecer de qualquer forma, não há como impedi-lo. — Ele se inclinou e beijou minha testa. — Você é minha princesinha; eu queria que nunca precisasse crescer. — Suspirou, ficando de pé assim que a campainha tocou.

Levantei-me de imediato, parando bem atrás dele. Respirei fundo, antecipação queimando em mim.

Logo ouvi passos pelo corredor. Luigi e Dante DeRossi apareceram no meu campo de visão, logo depois, ele.

Luigi me olhou e sorriu de canto, Dante apenas levantou o queixo e acenou para meu pai.

Lucca se colocou à frente dos dois e pronunciou.

— Leon.

— Como vai, Lucca?

— Deixe-nos — ignorou-o totalmente, voltando seus olhos para mim.

— Acredito que seria melhor que um de meus meninos ou seus irmãos ficassem aqui. Não vejo como seria bom para a reputação da minha filha que ela fique sozinha com o noivo antes do casamento.

Virei-me para ele, com os olhos arregalados, e depois observei Lucca novamente. Este apenas ergueu uma sobrancelha e foi até a estante de bebidas, servindo-se de uísque como se estivesse em sua própria casa. Tomou um longo gole antes de ficar a centímetros do rosto de meu pai.

— Você sabe, Leon, que se eu quiser fazer algo com sua preciosa filha, farei. Estando numa sala com cinquenta pessoas ou apenas com ela. No entanto, não lhe dei a opção de discutir sobre isso, só ordenei que saia.

Meu pai parecia incerto sobre o que fazer, mas o temor que Lucca irradiava sobre todos era tão forte que ele logo saiu. Luigi soltou uma risadinha de fundo, enquanto Dante apenas observava a situação. Segundos depois, lançou-me um olhar compadecido e também saiu, seguido por seu irmão, que assoviava.

Lucca andou até mim, inclinou-se e, sem que eu esperasse, cheirou meu pescoço.

— Você cheira bem, Abriela. — Afastou-se e sentou-se no sofá, cruzando as pernas de uma forma tão perversamente sexy que, por alguns segundos, esqueci-me de que era o próprio Lúcifer na minha sala. — Sente-se.

Voltei alguns passos atrás e me acomodei a uma boa distância dele.

— Giorgia irá te ligar esta semana. Você tem um mês para planejar o casamento, faça o que quiser, eu não me importo, apenas esteja pronta para se casar em trinta dias.

— Por que eu?

— Você não concorda que todo Chefe precisa de uma esposa para mantê-lo feliz? — perguntou, irônico.

— Você não parecia muito feliz há alguns dias.

— Nem antes, nem agora. Mas sei que você será uma boa esposa, respeitosa, manterá sua postura e honrará a sua posição nesta Famiglia. Irá morar na minha casa, visitará seus familiares com meus soldados e vai me avisar sobre qualquer lugar aonde quiser ir, antes de ir. Cumprirá com suas obrigações, Abriela, tanto na rua, quanto em eventos, em casa e, principalmente, na minha cama. O que eu faço não lhe diz respeito, e não vou aturar crises de rebeldia. Você entende?

— O que quer dizer com não me diz respeito?

— Alguns dias chegarei tarde, outros apenas não voltarei pra casa. Você vai perguntar, talvez eu responda, e talvez, não; então, não faça uma cena por isso. Não questione qualquer regra ou ordem minha, e ficaremos bem.

Eu estava tendo dificuldades em encontrar palavras depois daquela aula de porcarias que ele me deu.

— Um pouco machista? — Assim que as palavras saíram eu quis engoli-las de volta. Mas ele apenas sorriu de canto, sem humor nenhum, tirando algo do bolso do paletó. Pegou minha mão e colocou um diamante em meu dedo anelar. O anel que eu tanto sonhei, o símbolo do amor e do verdadeiro respeito, que para Lucca era apenas sua marca sobre mim.

Enquanto eu olhava a linda joia, ele se levantou, inclinou meu queixo para cima e com aqueles intensos olhos azuis me estudou antes de falar.

— Estamos entendidos? — Eu assenti, engolindo o nó na garganta. Ele soltou a mão e enfiou a dele nos bolsos. — Ótimo, não faremos um noivado. O casamento está perto demais, não é necessário. Estou ansioso para isso, querida futura esposa.

Querida futura esposa.

Segundos depois de ele ir embora, peguei-me encarando aquele anel, pensando em como faria para que Lucca me visse com outros olhos. Mesmo que a máfia insistisse em nos colocar como objetos e em posições submissas a qualquer situação, eu não me enxergava daquela forma. Acreditava mais em minha força a cada dia, por simplesmente não ter desistido diante da vida que levávamos. Eu não podia aceitar aquilo. Com um suspiro, passei os dedos levemente pelo diamante e permiti que um pequeno fio de esperança voltasse a crescer dentro de mim, afinal, aquele encontro fora melhor do que o último.

Deixei-me suspirar aliviada, sem me iludir, e quase sorri. Quase.

Querida.

Futura.

Esposa.

Essa frase tinha que significar algo mais e não apenas uma ironia.

Capítulo

— Eu não posso acreditar que estamos esperando simplesmente Giorgia DeRossi para almoçar — Alessa exclamou, sorrindo de orelha a orelha.

— Você acha que foi dela que o os filhos herdaram aquele humor? — perguntei, preocupada.

— Não. Trabalhei em um evento da Famiglia com ela uma vez; não passamos muito tempo juntas, mas ela sempre foi um doce, a classe em pessoa. Provavelmente puxaram ao pai. Thomas DeRossi é um bastardo gigante.

Assenti aliviada.

— Menos mal, então. — Alessa sorriu e deu um gole no chá.

— Falando nela, olha só quem chegou. — Olhei para trás, para vê-la andando em nossa direção com um discreto sorriso no rosto, cabelos perfeitamente alinhados e uma vestimenta que dizia sou puro poder. Ela era belíssima.

— Meninas — cumprimentou-nos com um leve abraço, beijinhos na bochecha e sentou-se. — Como vocês estão?

— Muito bem, Sra. DeRossi.

Ela sorriu para mim e disse:

— Querida, seremos da mesma família daqui um mês, então, me chame apenas de Giorgia, por favor. — Sorri e concordei. — Alessa, querida, já faz um tempo que não nos vemos.

— É bom trabalharmos juntas novamente.

— Somos uma bela dupla, sim? — Seus olhos recaíram sobre minha mão, que estava em cima da mesa, e ela abriu um sorriso brilhante. — Lucca esteve em sua casa ontem, não é?

— Esteve. Nós conversamos, e ele fez o pedido oficial.

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Análises

O que as pessoas acham de O monstro em mim

4.6
8 notas / 1 Análises
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Avaliações do leitor

  • (5/5)
    Excelente leitura! Dinâmico, inteligente, com pitadas de humor e muito romance.