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A Hora das Crianças: narrativas radiofônicas de Walter Benjamin
A Hora das Crianças: narrativas radiofônicas de Walter Benjamin
A Hora das Crianças: narrativas radiofônicas de Walter Benjamin
E-book325 páginas5 horas

A Hora das Crianças: narrativas radiofônicas de Walter Benjamin

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Sobre este e-book

Entre os anos de 1927 e 1932, Walter Benjamin apresentou programas de variados gêneros em emissoras de rádio de Berlim e Frankfurt, que consistiam, em sua maioria, em palestras radiofônicas sobre livros e questões culturais. Entre elas, as chamadas "peças radiofônicas"(Hörspiele), encontramse conferências, leituras literárias, resenhas de livros e histórias infantis. Ao todo, somam-se cerca de 86 programas com periodicidade variada, 60 dos quais ele mesmo se encarregou da leitura de apresentação. Propor uma programação que tivesse por interlocutores as crianças, no contexto do surgimento de uma nova tecnologia – o rádio, presente apenas há três anos no contexto alemão – dá-nos a dimensão do lugar ativo que Benjamin reserva às crianças na cultura, e da importância que a temática da infância ocupa em sua obra. Este livro reúne 29 textos que serviram de base para os programas radiofônicos, apresentando, de forma "miniaturizada" os grandes temas que atravessam a obra do autor: arte, técnica, política, cultura, história, memória e experiência. Trata-se de um esforço do filósofo em colocar em debate com as crianças temas que ele julga serem fundamentais à vida social. Nesse esforço, Benjamin reafirma sua tese de que, se por um lado, as crianças reivindicam o reconhecimento de suas especificidades, por outro, elas não constituem uma comunidade apartada da dinâmica social e de suas contradições. As crianças criam para si um mundo próprio, inserido num mundo maior, e o desafio para a construção de uma história em que as diferentes gerações possam se reconhecer em suas narrativas está justamente na busca de sentidos compartilhados à experiência da vida. Projeto Editorial: Rita Ribes Pereira Tradução: Aldo Medeiros
IdiomaPortuguês
Data de lançamento9 de set. de 2019
ISBN9788581280653
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    A Hora das Crianças - Walter Benjamin

    A

    HORA

    DAS CRIANÇAS

    narrativas radiofônicas

    Walter Benjamin

    A

    HORA

    DAS CRIANÇAS

    narrativas radiofônicas

    Walter Benjamin

    Tradução

    Aldo Medeiros

    Rio de Janeiro, 2018

    Sumário

    Nota à edição alemã

    O dialeto berlinense

    O comércio de rua e as feiras na Berlim antiga e moderna

    O teatro de marionetes em Berlim

    A Berlim demoníaca

    Um menino nas ruas de Berlim

    Passeio pelos brinquedos de Berlim I

    Passeio pelos brinquedos de Berlim II

    Borsig

    As casernas de aluguel

    Theodor Hosemann

    Visita à fabrica de latão

    Os Passeios pelo Marco de Brandenburgo de Theodor Fontane

    Processos contra bruxas

    Bandoleiros na antiga Alemanha

    Os ciganos

    A Bastilha, a antiga prisão nacionalda França

    Caspar Hauser

    Doutor Fausto

    Cagliostro

    As fraudes em filatelia

    Os bootleggers

    Nápoles

    A destruição de Herculano e Pompeia

    O terremoto de Lisboa

    O incêndio do teatro de Cantão

    O desastre ferroviário da ponte do Rio Tay

    A enchente do rio Mississipi em 1927

    Histórias reais sobre cães

    Um dia maluco

    Nota à edição alemã

    De 1929 a 1932, Walter Benjamin falou na então jovem rádio alemã quase que regularmente. Ele próprio não tinha muito apreço por estes trabalhos, que lhe renderam, segundo Adorno, os poucos anos em que ele pôde viver até certo ponto livre de preocupações. Assim ele escrevia a Scholem no início de 1930: Fiz duas palestras na rádio de Frankfurt e agora posso […] dedicar-me a coisas mais úteis. […] Não estou descontente por ter conseguido um certo afastamento, no que se refere à organização e à técnica, pois tudo que sou obrigado a considerar como trabalho de ganha-pão, seja com as revistas ou o rádio, não preciso redigir, limitando-me apenas a ditar. E um ano mais tarde, em outra carta a Scholem: Nos próximos 12 dias estarei em Frankfurt para resolver questões nebulosas na rádio. Dos trabalhos de Benjamin para o rádio, apenas alguns modelos radiofônicos e palestras sobre literatura eram acessíveis; faltavam sobretudo os inúmeros textos nos quais ele se dirigia às crianças e aos jovens, fosse na Jugendstunde (A hora da juventude) na Funkstunde S.A. em Berlim, fosse na Stunde der Jugend (igualmente, A hora, ou o momento da juventude) da Südwestdeutschen Rundfunks, em Frankfurt, textos que devido a circunstâncias infelizes não puderam ser publicados. Através desta primeira edição, o leitor de Benjamin poderá apreciar e corrigir aquele julgamento que o autor faz de seus trabalhos. Estas palestras radiofônicas para crianças dão uma nova dimensão à fisionomia do escritor que é Benjamin, revelando um pedagogo tão discreto quanto engenhoso que, assumindo o lugar de narrador, leva adiante o Iluminismo […].

    Rolf Tiedemann, janeiro de 1985.

    O dialeto berlinense

    Bom, hoje quero conversar com vocês sobre o jeito de falar dos berlinenses; o famoso bico¹ enorme é a primeira coisa na qual se pensa, quando se fala de Berlim. Na casa de um berlinense tudo é diferente, tudo é melhor e feito de um jeito mais esperto, pelo menos é o que se diz na Alemanha. Na verdade, é até bom quando se tem a capital de um país da qual se pode falar mal.

    Mas afinal será verdade mesmo esta história do jeito de falar berlinense? Sim e não. Cada um de vocês certamente conhece uma série de histórias nas quais esse bico é tão escancarado que, dizem, até o portal de Brandenburgo caberia nele. Daqui a pouco eu conto algumas que vocês talvez ainda não conheçam. Mas, se pensarmos um pouco melhor, muito do que se fala do bico do berlinense não chega a ser verdade. Por exemplo, uma coisa muito simples: tribos diferentes de diferentes territórios se orgulham de ter sua própria língua: seu dialeto, pois assim é chamada a língua que se fala somente em determinadas cidades ou regiões. Bom, esses povos dão enorme importância a isso, se orgulham e amam seus poetas, como Reuter, que escrevia no plattdeutsch² da região de Mecklenburg, ou Hebel e seu allemanisch³, ou ainda Gotthelf em alemão suíço. E eles bem têm razão. Mas os berlinenses, precisamente no que se refere ao seu berlinês, sempre foram muito modestos. Na verdade eles se envergonhavam mais de sua língua do que qualquer outra coisa, pelo menos na presença de pessoas refinadas, ou de estrangeiros. Conversando entre si, é claro que eles se divertiam muito mais. Faziam piada sobre seu jeito de falar, como, aliás, fazem piada sobre tudo. Sobre isso há um bocado de histórias divertidas, por exemplo: um homem está sentado à mesa com sua mulher e diz: U quê? hoji téim fejão di novo, mais si iêu já comeu deles ónti. Ao que sua mulher corrige e diz: Eu comeu não, eu cumi, e o homem responde: Ah, 'cê fala por você! – Ou a conhecida história do pai que sai com o filho para um passeio no campo: Como qui choma a borboleta, pai?, e o pai diz: Ela não choma, ela chama.

    E foi necessário encorajar o berlinense a se reconhecer como um falante de sua própria língua. Mas nem sempre houve essa necessidade. Há cem anos os escritores berlinenses criavam personagens que se tornavam famosos em toda a Alemanha. Os mais conhecidos entre eles são: o aprendiz de sapateiro, a feirante, o dono de botequim, o camelô e principalmente o famoso "inspetor de esquina, Nante. E talvez, folheando algum jornal humorístico da época, vocês já tenham visto aqueles dois berlinenses famosos, um gordinho e baixinho, o outro bem alto e magro. Os dois falavam de política e às vezes se chamavam Kielmeier e Strobelweber, outras vezes Plümecke e Bohnammel, outras vezes, Meck e Scherbel e, por fim, simplesmente Müller e Schulze – sempre falando as mais divertidas bobagens de Berlim. Toda semana havia uma história nova no jornal. Mas então chegou o ano de 1870 e a fundação do império, e os berlinenses de repente quiseram sonhar alto e se tornar muito nobres. Foi necessário, primeiramente, que alguns dos grandes homens, por quem eles sempre tiveram respeito, lhes restituíssem a coragem de usar o próprio dialeto. Curiosamente, dois deles eram pintores e não poetas. E eles nos deixaram uma boa quantidade de belas histórias. Um deles, a maioria de vocês não deve conhecê-lo, é o velho e famoso Max Liebermann, que ainda é vivo e bastante temido por seu terrível bico. Só que certa vez, um outro pintor chamado Bondi levou a melhor sobre ele. Os dois estavam sentados num café, conversando amigavelmente, até que uma hora Liebermann diz a Bondi: Sabe de uma coisa, Bondi, você até que é um sujeito legal, pena que você tem essas mãozinhas aí que dão nojo. Bondi olha bem para o professor Lieber e diz: Professor, o senhor tem razão, mas tem uma coisa, a mão eu posso enfiar no bolso, e o senhor faz o que com a sua cara? E o outro grande berlinense, que vocês bem conhecem e que faleceu há pouco tempo, chama-se Heinrich Zille. Sempre que ele escutava ou presenciava uma bela história, não perdia a oportunidade de transformá-la num desenho que certamente ganharia fama. E estas histórias ilustradas foram reunidas agora após a sua morte, muitos de vocês devem conhecer, além do que são ótima sugestão para um presente. Ou esta outra, talvez vocês conheçam: um pai e seus três filhos estão sentados à mesa, tomando sopa. Um dos garotos diz: Oskar, olha lá, o pai fica balançando o macarrão no bico! E o mais velho, Albert, diz: Gustav, como é que você chama a fuça do pai de bico?!Ué, diz Gustav, se o pato do pai não se importa! Bom, aí o pai fica roxo de raiva e sai pra pegar um pedaço de pau, mas os três meninos Gustav, Albert e Oskar saem correndo e se enfiam debaixo da cama. O pai bem que tenta, sem sucesso, tirá-los dali debaixo, e diz finalmente para o menor: Vem, Oskar, você não falou nada, não vou fazer nada com você. E então, ouve-se a voz de Oskar: Te conheço, seu malandro!" Bom, depois eu conto mais algumas histórias de moleques atrevidos.

    Mas não vão pensar que o dialeto berlinense é uma coleção de piadas. Trata-se de uma verdadeira e maravilhosa língua. E com uma gramática sistematizada, escrita por Hans Meyer, diretor do antigo ginásio berlinense do Grauen Kloster⁵. Seu livro se chama: O autêntico berlinês em vocábulos e expressões. É possível falar em berlinês de forma tão refinada, tão engraçada, tão carinhosa e tão inteligente como em qualquer outra língua. Certamente só é preciso saber onde e quando. O berlinês é uma língua que vem do universo do trabalho. Ela não nasceu com os escritores e os eruditos, mas sim no alojamento do quartel, na mesa de carteado, no ônibus, na casa de penhores, no estádio esportivo e na fábrica. O berlinês é uma língua de pessoas que não têm tempo, que precisam se fazer entender com uma simples insinuação, um olhar ou uma meia palavra. E este não é o caso das pessoas que se encontram ocasionalmente nos círculos da sociedade; só as pessoas que se veem regularmente, diariamente e sob determinadas circunstâncias que se repetem são capazes disto. Entre elas sempre surge uma língua particular, e o melhor exemplo disso vocês têm na escola. Pois existe uma língua particular falada pelos estudantes. Assim existem também expressões particulares entre os trabalhadores, os esportistas, entre os soldados, os ladrões, e assim por diante. E todas estas línguas contribuem de alguma forma para o berlinês, pois é exatamente em Berlim que todas essas pessoas convivem em grandes massas, nas mais diversas profissões e posições sociais. O berlinês é hoje uma das expressões mais belas e exatas desse ritmo de vida vertiginoso. É claro que nem sempre foi assim. Agora vou ler uma história de Berlim, de uma época em que ela ainda não era uma cidade de quatro milhões de habitantes, mas de apenas algumas centenas de milhares:

    Vassoureiro (carregando suas escovas e vassouras, mas tão bêbado que esqueceu que está levando suas mercadorias): Olha a enguia! Olha a enguia! Quem vai levar?

    Aprendiz de sapateiro: Olhe, seu vassoureiro, quem comer dessa sua enguia, vai é passar mal! (ele deixa o bêbado e sai correndo pela rua de um lado para o outro) Jeeesus do céu, e essa agora! Tá proibido fumar na janela!

    Várias pessoas: O que é que 'cê' tá dizendo? Isso é verdade? Não se pode fumar da janela? Era só o que faltava!

    Aprendiz de sapateiro (sai correndo): Não! Agora só pode fumar do cachimbo! Ha, ha!

    Inspetor de esquina Birisch (em frente a um museu): Eu gosto dessa casa, ela me diverte.

    Inspetor de esquina Lange: Diverte? Como assim?

    Birisch: Ora, por causa dessas águias que ficam lá em cima.

    Lange: E desde quando águia diverte alguém?

    Birisch: Porque são águias reais e têm que ficar de castigo. Imagina s'eu fosse uma águia real e tivesse que ficar lá em cima do museu de castigo e de enfeite! Só sei duma coisa, se me desse sede, eu não ficava de enfeite nem um minuto, tirava a garrafa do bolso, tomava uns gole' e gritava pro povo lá embaixo: Leve a mal não, gente, águia real tam'ém é filho de Deus!

    Todas as línguas se transformam rapidamente, mas a língua na cidade grande se transforma mais rapidamente ainda do que nas regiões rurais. Escutem agora e comparem com a pequena história anterior o discurso de um pregoeiro de hoje em dia. O homem que escreveu este texto se chama Döblin e veio falar de Berlim a vocês num dos últimos sábados. Com certeza ele não reproduziu exatamente tudo o que ouviu. Muitas vezes se postou ali na Alexander Platz para ouvir as pessoas que vendiam seus troços, e dali retirou o melhor para colocar em seus textos.

    Mas por que é que no lado ocidental o homem fino usa gravata e o proletário não? Meus senhores, minhas senhoras, cheguem mais perto, a senhorita também, a senhora também com seu esposo, e os jovens, por favor, a entrada é franca, pra jovens não é mais caro. Por que o proletário não usa gravata? Porque ele não sabe dar o laço. Então ele tem que comprar um suporte pra gravata, e quando ele compra percebe que não adianta e que não consegue dar o nó com ele. Ele vê que foi enganado, isso deixa qualquer um contrariado, é isto que empurra a Alemanha ainda mais para baixo, numa miséria ainda pior do que ela se encontra. Por que, por exemplo, ninguém usou este prendedor de gravata? Porque ninguém vai querer sair por aí com uma porcaria pendurada no pescoço. Nenhum homem, nenhuma mulher gostaria, nem uma criança de colo ia dizer que gostaria, se ela pudesse falar. Não precisa rir não, meus senhores e minhas senhoras, não riam não, a gente não sabe o que se passa na cabeça da criança. Meu Deus do céu, aquela cabecinha, tão pequenininha, com os cabelinhos, não é verdade, tão lindo, mas tem que comprar o leite, isso não é pra rir não, a vida é dura. Comprem essa gravata na Tietz ou na Werhheim, ou, se os senhores não quiserem comprar em loja de judeu, vão a uma outra loja. Eu sou um ariano. As grandes lojas não precisam que eu fique aqui fazendo propaganda delas, elas se viram bem sem mim. Comprem gravatas desse tipo aqui comigo, gente, e não esqueçam de como fazer para dar o nó de manhã. Meus senhores e minhas senhoras, quem hoje em dia vai querer desperdiçar um minuto do seu sono pra dar o nó da gravata direito? Todo mundo precisa dormir bem e o suficiente, porque a gente trabalha muito e ganha pouco. Esse suporte de gravata aqui vai lhe proporcionar um sono muito melhor. Ele faz concorrência com o farmacêutico, porque quem compra esse suporte de gravata que eu tenho aqui não precisa de remédio pra dormir, nem inalação, nem nada. Ele dorme tranquilo como a criança no colo da mãe, porque ele sabe: amanhã não tem correria; o que ele precisa tá ali em cima da cômoda, prontinho, bastando apenas colocar em volta da gola. O senhor e a senhora jogam dinheiro fora com tanta porcaria. Os senhores viram no ano passado, os senhores foram ao Crocodilo ver a Ganofim, na entrada distribuíam salsichão, lá dentro o Jolly ficava deitado dentro de uma caixa de vidro sem nada de chucrute pra encher a barriga. Todo mundo viu isso, não foi? Cheguem mais perto, meus senhores, minhas senhoras, pra que eu possa economizar um pouco a minha voz, eu ainda não fiz o seguro da minha voz, ainda tenho que pagar a primeira parcela, que nem o Jolly na caixa de vidro. Eles davam chocolate pra ele, isso os senhores não viram, né. Aqui os senhores compram mercadoria autêntica, não é celuloide, é revestida de borracha, uma peça vinte centavos, três por cinquenta.

    Por aí vocês podem logo ver como o dialeto berlinense pode ser útil, e como a pessoa pode ganhar dinheiro com ele se souber fazer boa propaganda do seu prendedor de gravata, como se fosse o dono de uma grande loja de departamentos.

    Uma língua como essa se renova a cada instante. Todos os acontecimentos, dos mais insignificantes aos mais decisivos, deixam nela sua marca. A guerra e a inflação, da mesma forma que a passagem do Zeppelin ou a chegada de Amanullah⁶ ou do Gustavo de Ferro⁷. O berlinês chega até mesmo a ter os seus modismos. Alguns de vocês talvez ainda se lembrem do famoso lá em casa.⁸ Por exemplo: quando alguém vinha falando bobagem e a outra pessoa não queria dar muita confiança, ela dizia: Lá em casa, a Igreja da Memória! O que significa: as torres. E torres em alemão é uma expressão conhecida para Cai fora! Ou um garoto a quem se pede para ir comprar alguma coisa, e então se pergunta a ele: Você vai resolver isso ou não? Ao que ele responde: Lá em casa, quadro-negro de pedra!⁹ (O senhor pode contar comigo.)

    Em muitas destas histórias vocês devem ter percebido, o bico enorme não é a única característica peculiar dos berlinenses. Às vezes, por exemplo, a pessoa pode ser bastante atrevida e ainda por cima totalmente desajeitada. O berlinense, pelo menos o verdadeiro, sabe, porém, juntar sua insolência com a língua afiada, o refinamento e o bom humor. Ele não se deixa, como se costuma dizer, fazer-se de bobo¹⁰. Há esta bela história de um senhor que, cheio de pressa, segue numa carruagem que vai bem devagar: Ah, meu Deus, senhor cocheiro, o senhor não pode andar um pouco mais rápido? Poder eu posso, mas aí vou deixar o coitado do cavalo sozinho pra trás! Mas o autêntico berlinense não faz piada para zombar dos outros, e sim de si mesmo. É isso que faz dele uma pessoa tão amável e tão livre. Ele não poupa nem o próprio dialeto, e há muitas histórias divertidas que mostram isso, por exemplo: chega um homem já um pouquinho bêbado no botequim e pergunta: Tem pinga aí? Pinga não, diz o dono, a gente já consertou o telhado.

    Bom, agora as histórias de crianças que eu prometi. Três garotos chegam numa drogaria. Um deles pede: Quarenta centavos de bala de alcaçuz. O vendedor arrasta a enorme escada, sobe até alcançar a prateleira mais alta, enche o pacotinho e desce. Assim que o garoto acabou de pagar, o segundo diz: Também queria quarenta centavos de bala de alcaçuz. O vendedor irritado então pergunta ao terceiro, antes de subir na escada: Você também quer quarenta centavos de bala de alcaçuz? Nããoo, diz ele. O vendedor sobe novamente, enche o pacotinho, desce. Daí pergunta ao terceiro garoto. E o que você quer, meu jovem? Eu queria sessenta centavos de bala de alcaçuz. – Ou uma outra: um senhor encontra um jovem na rua: O quê! Você, fumando, nessa idade? Pois eu vou contar ao seu professor! Ah vai, seu velho besta, só que eu não tô na escola ainda. – Ou essa: um garoto da quinta série não consegue se acostumar a tratar o professor por senhor. O professor se chama Ackermann. Ele escuta aquilo por um tempo, por fim se irrita e diz: "Para amanhã, você vai me escrever cem vezes no caderno: Não devo tratar meu professor por você. No dia seguinte, o garoto chega e entrega o caderno ao professor, e realmente ele escreveu cem vezes Não devo tratar meu professor por você, quase a metade do caderno. O professor conta e vê que está certo. E o garoto, em pé ao lado dele, diz: Nem tá acreditando, né, Ackermann!"

    De uma outra vez, se vocês quiserem, trago mais histórias sobre o berlinês. Mas não há a menor necessidade de vocês ficarem esperando. Quem abrir os olhos, apurar os ouvidos e caminhar por Berlim, poderá reunir muito mais dessas belas histórias do que as que eu contei hoje aqui no rádio.


    1 No original, Schnauze, focinho, bico, matraca. (Obs: todas as notas desta edição são do tradutor.)

    2 Dialeto do norte da Alemanha, região de planície (de onde platt, plano).

    3 Dialeto do sudoeste da Alemanha.

    4 No original, Eckensteher, indicando também um desocupado.

    5 O Gymnasium zum Grauen Kloster (literalmente mosteiro cinza) é o primeiro e mais antigo ginásio de Berlim.

    6 Amanullah Khan, antigo monarca do Afeganistão de 1919 a 1929.

    7 Gustav Hartmann (1859-1938), condutor de charretes berlinense. Realizou em 1928 uma viagem de ida e volta até Paris de charrete, em protesto contra o uso cada vez maior de automóveis. Após a proeza, ficou conhecido como Eiserner Gustav (Gustavo de Ferro).

    8 No original, bei mir, comigo, na minha casa, conosco, na nossa casa.

    9 No original, Schiefertafel, lousa de ardósia.

    10 No original, nicht für dumm verkaufen, não (se deixar) vender por tolo.

    O comércio de rua e as feiras na Berlim antiga e moderna

    Vocês conhecem a história d'O vaso dourado, lembram-se da estranha vendedora de maçãs, que logo no início leva um esbarrão do estudante Anselmo¹¹? Ou conhecem a história de Hauff, Nariz de anão, que começa numa feira, onde a bruxa vai escolhendo as melhores mercadorias com seus dedos ressecados feito os de uma aranha? Já não aconteceu com vocês mesmos de irem alguma vez à feira com suas mães e presenciarem alguma coisa emocionante ou um clima de festa? Pois mesmo as mais modestas feiras semanais guardam ainda um pouco da magia dos mercados do Oriente, dos bazares de Samarcanda. Ou será que vocês assistiram ao novo filme em que o diretor rodou cenas do mercado na praça Wittenberg, e o resultado ficou mais emocionante do que um filme de detetive? Só uma coisa é naturalmente impossível de ser mostrada no filme, e mesmo os livros raramente dão conta dela: é aquela conversa da feira, são as pechinchas e o toma-lá-dá-cá das mercadorias e do dinheiro, que à sua maneira são tão suculentos e apetitosos como a imagem que a feira oferece aos olhos. Isso vale especialmente para as feiras de Berlim. Há alguns meses eu falei aqui a vocês sobre o dialeto de Berlim. E a feira é um dos melhores lugares para se apurar os ouvidos e perceber o modo de falar berlinense, sua história e suas transformações. É sobre o comércio de rua da Berlim antiga e moderna que eu quero contar hoje a vocês.

    Desde os tempos da antiga Berlim as feirantes já eram personagens de uma qualidade incomparável. Entre as comerciantes elas eram as únicas que possuíam licença para expor suas mercadorias na feira semanal, e eram em sua maioria, provavelmente, camponesas que vinham colocar à venda o produto de sua colheita. Completamente diferente das chamadas vendedoras ambulantes¹², que não tinham permissão para vender suas melhores mercadorias e eram, além disso, obrigadas a fiar quatro libras de algodão por mês para o armazém como pagamento por sua licença de venda. Como as compras também eram extremamente limitadas para elas – não podiam, por exemplo, comprar diretamente dos camponeses, apenas se contentar com os restos de fim de feira da semana – estas ambulantes conduziam seus negócios de forma precária e passavam enorme necessidade com suas famílias. E isso já no século XVIII. Naquela época, se uma mulher da classe mais baixa desejasse contribuir para o orçamento familiar, como era o caso de muitas esposas de soldados, frequentemente não lhe sobrava outra alternativa a não ser o ofício de ambulante. Para uma feirante em situação regularizada não havia, portanto, ofensa maior do que ser chamada de ambulante. Glassbrenner descreveu em uma de suas melhores cenas uma destas feirantes usando seu mundialmente famoso linguajar berlinense e falando o que lhe dá na telha para passar uma descompostura num freguês que acabou de xingá-la de ambulante. Ambulante? ela repete, se levanta e bota a mão nas cadeiras: S'cuta 'qui, ô vira-lata puguento, 'gora tu vá latí longi daqui ô iêu lhe dô um bico na fuça di tu ficá ganino oito dia! Ao que o freguês responde: Mas é impressionante como essas vendedoras sabem xingar! – E a ambulante: "Xingá? Ess' istrupício dess' infeliz nem tem como a gente xingá, que tudo que é baixaria que a gente inventá esse verme é pió. Ess' filhote de cruz-credo qué tirá onda co'a cara da gente. Essa topêra disgraçada quer fazê a gente de besta? Fazê a gente de besta? Que vá botá uma corda

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