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Intercontinental 767

Intercontinental 767

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Intercontinental 767

Duração:
190 páginas
2 horas
Editora:
Lançados:
31 de out. de 2019
ISBN:
9788569243397
Formato:
Livro

Descrição

Aproximadamente 44 milhões de passageiros de todo o planeta trafegam anualmente pelos corredores, balcões de check-in e portões de embarque do Aeroporto Internacional de Miami, no Condado de Miami-Dade, na Flórida, nos Estados Unidos.

Mas naquela noite, a semanas do Natal, os 250 passageiros do voo 767 da Intercontinental Airlines pareciam apreensivos. Brasileiros e estrangeiros olhavam distantes pelas vidraças do terminal, enquanto a aeronave era abastecida.

Ali, na fila do embarque, a poucos minutos do fechamento das portas, nenhum deles imaginava que todos já tinham uma rota traçada. E seu destino final não era o desembarque no Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo.

Cada capítulo da antologia "Intercontinental 767" traz a história pregressa de vida de um dos misteriosos passageiros até a noite do fatídico voo internacional. Estariam eles, sem saber, conectados entre si por uma engenhosa coincidência do Universo?
Editora:
Lançados:
31 de out. de 2019
ISBN:
9788569243397
Formato:
Livro

Sobre o autor


Amostra do livro

Intercontinental 767 - Raquel Pagno

Bentes

VICTOR, COPILOTO DO VOO 767

Rodrigo Ortiz Vinholo

É hoje. Sei que é. Eu consigo sentir. Alguma coisa no ar. Algo grande. Um Acontecimento, com A maiúsculo. Um Happening.

Claro que Victor não falou para ninguém. Não queria perder o emprego, mesmo se ele não significasse nada depois de tudo mudar. Não queria causar pânico desnecessário em ninguém da equipe ou nos passageiros, ainda mais caso isso pudesse alterar o Happening de algum modo.

Era uma pena que o cálculo de sincronicidade de Terence McKenna já não servia, e nem o recálculo de seus sucessores. Conferiu o GCP¹ antes de entrar no avião, mas não encontrou padrões no gráfico que parecessem especialmente indicativos de alguma mudança. Mas a falta de dados para embasar sua teoria — mesmo tão esotéricos quanto aqueles — pouco fazia para dissuadi-lo.

Havia alguma conversa pela internet. Um youtuber que falava para um pequeno nicho de fanáticos vinha especulando sobre uma alteração de linhas do tempo aparentemente a caminho. Nos chans começavam a ressurgir teorias sobre o Mandela Effect, ou Efeito Mandela. De algum modo, havia um consenso nesses cantos estranhos da internet.

Olhou por uma das janelas do avião pousado. Era o mesmo aeroporto, o mesmo mundo. Talvez, quando tudo mudasse, aquilo continuasse igual. Ou, ao menos, quase. Depois do Happening, seria outro mundo, mas do ponto de vista de quem estava ali, teria sido aquele mesmo, sempre.

O nome Mandela Effect fora adotado por conta de Nelson Mandela. Muitas pessoas aparentemente juravam que, em vez de cumprir sua pena e seguir seu papel como líder político, ele morrera na prisão. Pior, essas juravam ter visto noticiários, jornais, revistas e tinham imagens claras em suas mentes. A explicação era simples depois que se aceitavam alguns pressupostos: em uma linha do tempo, Mandela realmente havia morrido na prisão. Mas algo, algum Happening, juntou as linhas do tempo. Ou transportou as pessoas de uma realidade para outra.

Mudanças do tipo já haviam acontecido com Victor outras vezes, no passado, mas, nessas ocasiões, era menos atento. Menos consciente. A ideia é que a maior parte da humanidade como ele conhecia havia vindo de outras linhas temporais. Como as diferentes linhas eram próximas demais, a maior parte não notava e qualquer lembrança de infância já era automaticamente coberta pela mente humana, incapaz de suportar contradições. Mas eram nos detalhes mais pontuais, e até ridículos, que o efeito ficava evidente.

Victor não sabia qual era o objetivo dessas mudanças em linhas temporais. De todas as explicações e teorias ouvidas sobre isso, uma sempre soava mais verdadeira para ele: viagens temporais. O tal youtuber lhe havia apresentado essa e, como com tantas outras conspirações, algo lhe dizia que era verdadeira.

Alguém, em algum ponto da existência, estava manipulando linhas temporais. Viajantes vinham para fazer alterações minúsculas na realidade, acabando por colocar em colapso diferentes realidades, que se tornavam uma só. O objetivo talvez fosse uma única realidade perfeita. Ou a ideia de perfeição de alguém.

— Está tudo bem?

A pergunta veio de uma comissária de bordo. Não havia decorado seu nome ainda, e não se lembrava dela de outras viagens. O raciocínio de que talvez ela fosse uma dessas figuras temporais, ou fruto de outra linha, só não prosseguiu porque Victor se lembrou que tinha de sorrir, acenar afirmativamente com a cabeça e assegurá-la de estar tudo tranquilo.

— Estou um pouco distraído, mas está tudo bem. Vou visitar minha família quando chegarmos em São Paulo.

Ela sorriu simpática, como sorria para os passageiros.

— Faz tempo, pelo jeito.

— Bastante. Preciso ver meu irmão. — respondeu Victor, tentando evitar que sua fala parecesse sarcástica.

A comissária reforçou o sorriso, acenou com a cabeça e seguiu com seus afazeres.

O primeiro Happening da vida de Victor havia sido quando era criança, mas só muitos anos depois se deu conta de algo ter mudado. Aconteceu no dia 12 de outubro de 1996, quando tinha 8 anos. Naquela manhã, acordou normalmente, foi à escola e, quando voltou para casa, havia outro garoto vivendo com sua família sob o mesmo teto, com o uniforme da mesma escola. Era seu irmão, e todos pareciam ter isso como pressuposto.

Sempre havia sido daquele jeito.

Por algumas horas, sua mente ficou extremamente confusa sobre a existência, mas com um clique, no começo da noite, tudo passou. Já crescido, as memórias da contradição começaram a voltar e Victor começou a entender que não havia sido o único a passar por aquilo, fosse o efeito como um todo ou a mudança daquele dia exato. Provavelmente ela nascera em outra linha do tempo, ou seu irmão havia sido transportado de outra realidade e contextualizado automaticamente na mente de todos e na história do mundo.

Aparentemente, havia ocorrido um eclipse naquela data, em alguns pontos da América do Norte, Europa e África, mas mesmo a maior parte do mundo não tendo sido afetada, vários círculos de teóricos apontavam aquela data como um momento de cisão de realidades, mesmo para quem não tivesse visto o eclipse.

O grande problema de ter esse tipo de conhecimento é: ele nunca possui qualquer base em uma realidade mensurável. Não existem registros físicos. Nem objetos perdidos de outra realidade. Claro, haviam histórias sobre relíquias de certas linhas do tempo alternativas, mas, mesmo entre os teóricos de conspiração, essas não eram tão respeitadas. Como o homem que supostamente encontrou uma fita dos Beatles de uma realidade alternativa, mas cujas canções nada mais eram que remixes feitos nas carreiras solo de cada um dos músicos somados a outros samples.

Victor caminhou devagar pelo avião sabendo que logo estaria cheio de passageiros. Tentava imaginar de onde cada um deles teria vindo e para onde todos iriam juntos. Um pensamento louco cruzou sua mente, e apesar de reconhecê-lo como absurdo, imediatamente viu-se convencido de que era a verdade: e se cada um deles viesse de uma realidade diferente?

E se o Happening fosse de várias linhas simultâneas?

O segundo de sua vida havia acontecido no fim de 2012. Parecia muito distante, e talvez realmente fosse, por efeito de alguma alteração no espaço-tempo. Era o dia 12, e em um minuto Victor namorava Dalila, e no instante seguinte, namorava David.

Não era o fim de um relacionamento e começo de outro. Não: a partir do momento em que estava namorando David, estavam juntos há oito anos. Haviam se conhecido quando eram adolescentes e faziam planos para casamento. Dalila nunca havia existido, ainda que em sua mente, e somente nela, estivessem juntos há quase quatro anos, tendo se conhecido na faculdade e viajado muitas vezes juntos.

Foi essa ocasião que fez Victor se lembrar de seu irmão e começar suas pesquisas, porque a tristeza por perder Dalila lhe parecia loucura e pareceu para todas as outras pessoas. Era ainda mais difícil porque realmente acreditava ter vivido oito anos com David e tinha todas as memórias do tempo passado juntos. E realmente o amava tanto quanto amara Dalila.

Na época, por pouco não foi internado. Concordou em fazer um acompanhamento psicológico e, com apoio de sua família e da de David, acabou superando a fase ruim. Foi nesse período, também, que parou de falar para os outros esse tipo de coisa, pois via que nenhum deles entenderia. Tomou a decisão quando exauriu todas as maneiras que tinha de localizar Dalila e chegou à conclusão de que ela não existia e jamais havia existido naquele mundo. A mãe dela, ele descobriu através de uma rede social, era solteira e vivia, sem filhos, em outra cidade.

Aparentemente, Dalila não fazia parte de um plano maior. Ou talvez David fosse uma das pessoas que precisasse estar em outra realidade para que o plano, fosse qual fosse, pudesse funcionar.

Com o tempo, passou a aceitar e compreender: os viajantes temporais, por terem acesso a tudo que ocorreria, havia ocorrido e poderia ocorrer, sabiam como fazer as pequenas alterações que possibilitariam cada elemento necessário para a linha do tempo única se formar. No fórum /x/, no 4chan, uma discussão especialmente bizarra sobre o Efeito Mandela havia fornecido algumas ideias fantásticas, as quais Victor agregou ao seu leque. Um grupo de anônimos discutia como os meios usados pelos viajantes influenciavam a realidade: Efeito Borboleta é o meu rabo! Esses cucks não fazem a menor ideia, disse um deles. Ou o Efeito Borboleta SEMPRE FOI o que os viajantes fazem!, arriscou outro.

No anonimato do fórum, Victor compartilhou suas histórias de mudança de realidade, mas ganhou pouca atenção, pois tinha tanta capacidade de explicar e provar quanto qualquer outro por lá. Isso não o impedia, claro, de continuar sempre procurando alguém capaz de lhe ajudar. Ao menos para lhe dar alguma pista do que sempre sentia que iria acontecer.

Devia ter algum significado. Se havia acontecido duas vezes com ele de maneiras tão drásticas, devia ter alguma importância. Assim, bastaram os primeiros boatos sobre indicações misteriosas, sobre novas alterações no espaço-tempo, para ser tomado pela eletricidade de excitação.

Não havia como escapar. Tudo ia mudar.

David pareceu estranhar algo em seu olhar quando se despediram, mas Victor disfarçou, dizendo já estar com saudades e prometendo que traria todos presentinhos que pudesse do Brasil. Incluindo a tapioca que ele tanto gostava e que os mercadinhos brasileiros teimavam em inflar o preço em Miami.

Na cabine do avião, sentia o corpo relaxado, mas a mente acelerada. As mãos nos controles suavam com a antecipação. Em pouco tempo estariam no ar, talvez em outra realidade. O que poderia acontecer se mudasse de realidade em pleno voo? Será que as pessoas se encontrariam em um avião fora de controle, com um piloto a menos? Ou, ainda, apenas sua consciência seria transferida e, naquela realidade que deixasse para trás, alguém em seu corpo manteria tudo sob controle?

Alguém na internet, certa vez, havia lhe apresentado um conceito interessante: morte quântica. A ideia, dizia essa pessoa, era que era impossível morrer, ou ao menos o era fora de um meio predeterminado e específico. Se alguém, porém, morresse fora de hora, a consciência apenas era transferida à outra realidade equivalente. Ou seja, alguma ficaria sem uma versão da pessoa, mas a consciência seguiria em outra, por vezes sem notar a mudança. Talvez algo parecido com aquilo tivesse acontecido com ele mesmo, ou com o irmão, com Dalila e com David.

Uma vibração. Algo intenso, que vinha de dentro para fora e parecia tomar o ar e depois parecia vir de cima. Aos seus ouvidos, era como a fuselagem se retorcendo, algo intenso e bizarro, quase doloroso. Mas Victor sorria, porque sabia: era chegada a hora. Era o seu momento, era o Happening.

Dessa vez, estava consciente o suficiente da realidade para notar que sua visão escureceu, e que perdeu a consciência. A velocidade com que tudo voltou à clareza, silêncio e normalidade lhe teriam enganado se não tivesse se preparado tanto para aquilo.

— Está tudo bem?

Victor estava outra vez no corredor do avião, olhando pela janela. A pergunta veio de uma comissária de bordo, mas essa era diferente da com a qual havia conversado mais cedo. Se é que aquilo havia acontecido. Virou-se devagar e sorriu para ela.

— Estou um pouco distraído, mas está tudo bem. Vou visitar minha família quando chegarmos em São Paulo.

A jovem hesitou, apertando as sobrancelhas.

— Que bom, mas... eu me refiro ao seu nariz.

— Meu nariz?

— Você está sangrando.

Victor levou a mão ao rosto e, tão logo notou o sangramento, a comissária já lhe estendia lenços de papel.

— Oh, céus! — respondeu, com uma afetação quase teatral, conforme evitava rir e deixar transparecer como aquele momento absurdo lhe interessava. — É o clima. Meu nariz sofre nesse tempo.

A moça balançou a cabeça de modo incerto.

— Tem certeza? Você pode acabar piorando com a pressão.

Victor balançou a cabeça.

— Não se preocupe, mesmo. Finja que não aconteceu.

Passou o lenço no rosto, assoou o nariz e, conferindo na câmera do celular, sorriu para a jovem enquanto enfiava o papel amassado no rosto.

— Pronto! Nunca aconteceu nada! Não existem provas!

Ela apertou os lábios e cruzou os braços.

— Eu sei que aconteceu.

— Ah, mas sua memória não é prova o suficiente! Jamais funcionaria em um tribunal! — retorquiu Victor, com tom divertido, caminhando em direção à cabine. — Sério: obrigado pelo lenço.

A comissária fungou, sem interesse em cobrá-lo então Victor desapareceu atrás da porta. Estava feliz. Apesar do tempo pilotando, teria tempo para pensar e notar o que havia de diferente na realidade nova na qual havia chegado. Ou seriam outras realidades que haviam se chocado com a sua?

Seu pensamento, porém, foi interrompido quando notou um estadunidense de meia-idade sentado na cadeira do piloto. O estranho sorriu calorosamente para Victor e, notando sua expressão confusa, colocou uma mão em seu ombro.

— Que cara é essa, Victor? Tudo bem?

Uma pontada no cérebro fez com Victor fechar os olhos, e então a informação veio. Aquele era Glenn. O conhecia havia pouco mais de um ano. Era um piloto muito experiente e amigável, sempre tendo algo para ensinar.

Victor abriu os olhos, sorriu, e respondeu:

— Estava distraído! Não foi nada.

— Preciso de você atento, ok? Não é por se chamar copiloto que eu vou esperar menos de você! — brincou Glenn, com o rosto rosado enquanto ria da

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