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Os Mineiros Bolivianos: Identidade, Conflito e Consciência de Classe

Os Mineiros Bolivianos: Identidade, Conflito e Consciência de Classe

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Os Mineiros Bolivianos: Identidade, Conflito e Consciência de Classe

Duração:
572 páginas
11 horas
Lançados:
5 de nov. de 2019
ISBN:
9788547318475
Formato:
Livro

Descrição

O livro Os mineiros bolivianos: identidade, conflito e consciência de classe aborda a relação entre os trabalhadores da mineração e o governo Evo Morales entre os anos 2006 e 2014. Os mineiros bolivianos, a partir de uma acumulação histórica prévia, presenciaram uma paulatina recuperação do seu protagonismo capaz de projetar-se novamente na vida política boliviana. A memória coletiva, a história e as tradições reforçaram entre os trabalhadores mineiros velhas identidades, crenças, costumes e práticas políticas/sindicais que pareciam ter desaparecido a partir de 1985, com a desestruturação da condição operária mineira e a crise do movimento sindical tradicional. Esse processo de recuperação e revitalização coincidiu com a chegada à presidência do líder indígena e camponês Evo Morales, em dezembro de 2005. Os conflitos protagonizados pelos trabalhadores mineiros durante o governo Evo Morales foram uma fonte permanente de instabilidade política e social. Ao longo do livro são destacados as tensões, os conflitos, dilemas, acordos e negociações que envolveram essa complexa relação, marcada por formas de resistência e integração. A elaboração deste livro envolveu uma ampla revisão bibliográfica, realização de entrevistas, observação do processo de trabalho e modo de vida dos mineiros no distrito de Huanuni, análise de fontes documentais, hemerográficas e material iconográfico.
Lançados:
5 de nov. de 2019
ISBN:
9788547318475
Formato:
Livro

Sobre o autor


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Os Mineiros Bolivianos - Joallan Cardim Rocha

Editora Appris Ltda.

1ª Edição - Copyright© 2018 do autor

Direitos de Edição Reservados à Editora Appris Ltda.

Nenhuma parte desta obra poderá ser utilizada indevidamente, sem estar de acordo com a Lei nº 9.610/98.

Se incorreções forem encontradas, serão de exclusiva responsabilidade de seus organizadores.

Foi feito o Depósito Legal na Fundação Biblioteca Nacional, de acordo com as Leis nºs 10.994, de 14/12/2004 e 12.192, de 14/01/2010.

COMITÊ CIENTÍFICO DA COLEÇÃO CIÊNCIAS SOCIAIS

Dedico este livro aos meus pais, Amélia Calheira e José Freire (in memoriam), e aos trabalhadores mineiros bolivianos, em especial, aos operários, Miguel Zubieta e Mario Martinez, por sua coragem e determinação.

AGRADECIMENTOS

Agradeço a minha família, em especial aos meus pais, Amélia Cardim e Jose Freire (in memoriam); meus irmãos, Vicente e Alan; minha cunhada, Jamile e os meus queridos sobrinhos, Pedro Arthur e Bernardo. Sempre contarei com o apoio, o carinho e o amor de todos.

À Monique França, pelo apoio e incentivo. Sou eternamente grato por tudo.

À Nericilda Rocha com quem compartilhei a experiência na Bolívia entre os anos 2007 e 2011.

Ao amigo e Prof. Jair Batista por ter aceitado orientar a pesquisa que originou este livro. Suas observações, críticas e sugestões foram fundamentais no desenvolvimento deste trabalho. O rigor acadêmico com que se dedicou à orientação tornou essa experiência um grande aprendizado. Por toda dedicação e esforço, meus sinceros agradecimentos.

Aos amigos, Lucas, Jean, Ana Paula, Henrique, Paula, Neri, Gabriela, Priscila, Matheus, Andre, Ana Luiza, Ayan, Isaias, Cristiano, Daniel Romero, Lana, Zacarias e muitos outros, com os quais tenho compartilhado a luta por um mundo melhor.

Aos novos amigos do IFAL, Gisele, Thaline, Fabio, Felipe Tiago, Ednilson, Marcio e Rafael, com quem tenho compartilhado a experiência da docência.

À amiga Rielda Alves por ter me recebido na Bolívia durante a pesquisa etnográfica.

Às amigas Jaqueline e Alejandra, pelo dedicado trabalho de transcrição das entrevistas. A todos os trabalhadores mineiros de Huanuni, em especial os mineiros Miguel Zubieta e Mario Martinez, por sua dedicação à causa dos trabalhadores.

Aos professores do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFBA que contribuíram direta ou indiretamente para conclusão desta pesquisa, entre eles, Antônio da Silva Câmara, Graça Druck e Clóvis Roberto Zimmermann.

Às professoras Selma Cristina e Iacy Maia. Suas observações, críticas e sugestões foram de grande importância para a pesquisa.

Às Professoras Cecilia Salazar e Magdalena Cajias, pelas reuniões de orientação no período em que morei na Bolivia.

À Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) por haver proporcionado uma bolsa no mestrado (2013-2015) que permitiu a realização da pesquisa que originou este livro.

À Equipe Editorial da APPRIS pelo trabalho de revisão e diagramação do livro.

PREFÁCIO

O livro de Joallan Cardim Rocha, intitulado Mineiros bolivianos: identidade, conflito e consciência de classe, é uma preciosa contribuição aos estudos sobre os trabalhadores vinculados à mineração. Essa colaboração se torna mais significativa se tomarmos o objeto mesmo do estudo de Rocha - os mineiros bolivianos. Tento explicar: a sociologia brasileira, e a sociologia do trabalho em particular, tem destinado uma primordial atenção à literatura de origem norte americana e europeia, descurando em sua maioria as contribuições de intelectuais e pesquisadores latino americanos. Não é isso que encontramos no estudo aqui apresentado. Nesse particular, a contribuição de Rocha não está sozinha, faz-se acompanhar de pesquisas de outros cientistas sociais e historiadores que tem buscado ampliar nosso entendimento dos fenômenos e temáticas presentes na história da América Latina.

O diálogo fecundo com as contribuições da historiografia inglesa, especialmente as pistas e insights colhidos e recolhidos dos escritos de E. P. Thompson, permitem a Joallan Rocha dialogar com essa tradição exógena à realidade boliviana, mas, ao mesmo tempo, empregar os autores, bolivianos ou não, que se dedicaram a pesquisar os trabalhadores mineiros e sua presença na história daquele país. Ocorre, porém, que a pesquisa de Rocha possui, ainda, outro mérito e importância que deve ser destacado: ela se dedica a estudar um aspecto da realidade boliviana, permitindo, assim, descortinar um contexto social e histórico que interessa a todos aqueles preocupados com a vida de homens e mulheres que fazem a história dessa parte sul da América. Portanto, o livro de Rocha realiza esse duplo movimento de chamar a atenção para um conjunto de autores, muitos deles desconhecidos entre nós, mas também nos abre os olhos para a realidade fascinante dos trabalhadores mineiros bolivianos, suas lutas, memórias, valores, identidade, experiência e formas de consciência.

O leitor encontrará ainda neste livro uma pesquisa acurada, na qual diversas fontes são mobilizadas e cotejadas com a realidade investigada. Assim, documentos, entrevistas, dados oficiais, fotografias, jornais, revistas etc. são mobilizados de modo criativo mostrando uma realidade tensa, dramática, contraditória dos trabalhadores mineiros e sua presença na cena política boliviana ao longo de sua história. Tais fontes não são empregadas de modo burocrático, mas de forma crítica. Para abarcar essa realidade era necessário, para tornar a pesquisa factível, recortar um problema particular e um momento desta singularidade histórica, visto que a história dos trabalhadores e do movimento operário mineiro boliviano não se resumem, vale destacar, às experiências vivenciadas pelos mineiros de Huanuni. Considerando que, a partir dos anos 2000, o movimento dos trabalhadores mineiros de Huanuni vai adquirindo protagonismo na cena política da Bolívia, parecia evidente a escolha dessa fração da classe trabalhadora mineira.

No entanto o problema de pesquisa delimitado, ou seja, a relação dos trabalhadores mineiros com o governo de Evo Morales, provocou um paulatino deslocamento do refinamento do universo empírico para aquela parte dos mineiros bolivianos. A hipótese apresentada pelo autor, isto é, a relação dialética e contraditória dos trabalhadores mineiros de Huanuni entre a resistência e integração é demonstrada ao longo do estudo. Desse modo, tanto em um pólo quanto no outro, os trabalhadores mineiros são sujeitos de suas ações, fazem escolhas mediadas pelos contextos nos quais vivenciam suas experiências, compartilham valores, criam e recriam identidades, mobilizam memórias e formas de solidariedade, partilham uma cultura comum em contraposição a outras classes, que lhes permitem fazer e refazer-se como classe.

Uma pergunta se torna necessária aqui: por que os trabalhadores mineiros e suas organizações políticas e sindicais assumiram tamanha importância na cena política boliviana em vários momentos de sua história? Por que no início dos anos 2000, os mineiros de Huanuni estavam recuperando o protagonismo político alcançado em décadas passadas? Primeiro, é necessário sublinhar a importância histórica da mineração na economia do país. Isso implica lembrar o significado da exploração da prata, inicialmente, e do estanho, posteriormente, nas atividades econômicas bolivianas, cuja participação da extração desses minérios colocou a Bolívia durante vários anos como um dos principais produtores mundiais. Aliado a isso, a economia boliviana se tornou bastante dependente da produção desses minerais. Ora, era de se esperar, portanto, que o trabalho mineiro se configurasse para os mineiros e, também, para ampla parcela da população, uma atividade essencial para o desenvolvimento do país.

Esse tipo de percepção, como sugere o trabalho de Rocha, alimentou a construção de sentimentos e valores comuns que alimentaram as ações dos trabalhadores e de suas entidades políticas em torno da ideia de nação. Segundo, essa pertença comum foi empregada para mobilizar os mineiros em momentos distintos, com intuito de incorporar os trabalhadores, em geral, e os mineiros, em particular, nos arranjos políticos que culminaram nos eventos da década de 1950, particularmente a Revolução de 1952. Mais recentemente, esse valor partilhado foi igualmente usado para obter apoio dos trabalhadores mineiros, em especial daqueles sediados em Huanuni, para o processo de nacionalização das minas e ao Processo de Câmbio. Portanto, a luta efetiva dos trabalhadores mineiros acerca das riquezas nacionais, contra suas precárias condições de trabalho, encontra uma demanda que transcende seus interesses imediatos, tornando-os protagonistas de uma luta nacional com claros traços anti-imperialistas, que mobilizou, também, elementos culturais e identitários no mesmo cenário político.

Partindo das contribuições do historiador inglês E. P. Thompson, especialmente, mas não exclusivamente, suas reflexões contidas em sua obra seminal, A formação classe operária inglesa, Rocha emprega, de modo convincente, a noção de experiência, expõe os debates teóricos ensejados pelo uso, as críticas recebidas por Thompson e a resposta dadas a essas críticas; isso permitiu ao autor inglês refinar sua formulação e introduzir a distinção analítica entre experiência vivida e experiência percebida.

Essa disjuntiva permite a Rocha discutir criticamente um conjunto de trabalhos teóricos e empíricos que mobiliza a escorregadia noção de consciência de classe, considerando-a por meio das imprecisas separações entre falsa e verdadeira consciência, consciência e inconsciência, consciência empírica e adjudicada etc. Como mostra o autor deste livro, ao mencionar Thompson, não faz qualquer sentido afirmar que haja inconsciência ou falta de consciência para os trabalhadores. Tomando como referência a experiência dos mineiros bolivianos, é possível dizer que, ao longo de sua história, eles demonstraram formas de consciência que ora manifestava formas de radicalidade, conflitualidade e integração distintas, considerando os cenários políticos, ideológicos e econômicos, ou seja,

O referencial teórico de Thompson permitiu analisar os trabalhadores mineiros, suas tradições e sistemas de valores a partir das acumulações históricas prévias que são herdados e compartilhadas pelos trabalhadores através de uma memória coletiva¹.

Os valores partilhados, frutos de uma experiência cultural comum, permitiram tecer solidariedades, identidades, vínculos e mobilizar a memória coletiva que eram e são alimento da ação política. Os rituais de entrada nas minas, nos quais a tradição andina se combina complexamente com a tradição católica, o uso de símbolos e representações possibilitaram criar identidades coletivas que reforçaram a condição de trabalhador mineiro; essas experiências permitiram, como demonstra Rocha, construir formas próprias de vínculos sociais, reforçando solidariedades e práticas que estavam presentes na experiência cotidiana dos trabalhadores mineiros, alimentando em muitos momentos o discurso e ação políticas. Nessa direção, ressalta o autor:

Identificamos que os trabalhadores mineiros de Huanuni preservaram uma série de tradições, crenças, festas pagãs e religiosas (como o carnaval e a Festa da Virgem do Rosário), rituais e práticas andinas como a Challa, o Acullico e o culto ao Tio da mina, que contribuem para vigorar entre os trabalhadores, sentimentos de solidariedade que reforçam suas ações coletivas, sejam as de caráter sindical ou política.²

É nessa chave analítica que os rituais de entrada na mina podem também sugerir a incerteza constitutiva da condição operária mineira. Experienciada cotidianamente dentro e fora do local de trabalho, ela é enfrentada pela conjuração de práticas andinas, a exemplo de mascar a folha de coca, fazer referência nos altares na entrada da mina, rogar ao dono da mina uma jornada produtiva e um retorno à superfície seguro, pois, o trabalho nas minas, como mostra Rocha, é marcado pela insegurança e reduzida expectativa de vida – cerca de 49 anos em média, conforme aponta Rocha –, pois as condições são precárias: a carência de equipamento de proteção individual e as condições insalubres de realização do trabalho afetam de maneira dramática a saúde e a vida dos mineiros. Essa condição de incerteza alcança seu paroxismo à medida que o mineiro adentra a mina, mas não sabe efetivamente se retorna vivo dela.

A relação complexa entre os trabalhadores mineiros, especialmente a fração dessa categoria sediada em Huanuni, conforme demonstra de modo consistente Rocha, sempre esteve marcada ora por crítica, oposição e resistência, ora pela aliança, adesão e integração, cujos pólos analíticos são empregados no livro por meio dos termos resistência e integração em relação ao governo Evo Morales entre os anos de 2006 a 2014. Conforme conclui Rocha³: Durante o governo Evo Morales, é possível identificar que as orientações e escolhas políticas dos trabalhadores mineiros foram caracterizadas por um tenso equilíbrio entre a resistência e a integração.

As ações de oposição e resistência assumiram uma variada configuração, cujos momentos mais emblemáticos são as manifestações, os bloqueios de vias, as marchas, os enfrentamentos, as ocupações etc. Rocha mostra que, especialmente durante as marchas, os mineiros, ao carregarem um equipamento necessário ao seu trabalho, a dinamite, confrontavam e intimidavam as forças de repressão do Estado. Durante as marchas, os trabalhadores mineiros recebiam da população diversas manifestações de apoio mediante aplausos, doação de alimentos, cordões de segurança etc. As críticas ao governo Evo Morales também apareciam na política de aliança com frações das classes dominantes bolivianas. O desdobramento organizativo mais emblemático dessa ação configurou-se na criação do Partido dos Trabalhadores. As ações de adesão e integração representavam a votação e o apoio político às iniciativas do governo Morales, ou seja, uma defesa das políticas adotadas pelo governo e eleição de lideranças associadas ao projeto político de Evo Morales. Mas, perguntaria o leitor, qual a deste comportamento político dos trabalhadores presente entre os mineiros de Huanuni? A conclusão de Rocha nos oferece uma pista que pode ser explorada em outras pesquisas:

Podemos concluir que esta relação política decorre da natureza dos embates, do nível de organização dos trabalhadores, da radicalidade das suas pautas e reivindicações e dos métodos e formas de lutas, mas também pela influencia da tradição e da memória coletiva no imaginário mineiro, fortemente marcado por um discurso de autonomia frente ao Estado e aos governos.

São várias as razões que poderíamos indicar e recomendar com entusiasmo a leitura e o debate do livro de Joallan Cardim Rocha, mas gostaria de mencionar apenas três: a primeira, trata-se de uma qualificada pesquisa na qual uma vasta gama de fontes e materiais de pesquisa são usados para compreender o objeto da investigação de modo objetivo e preciso. Esse aspecto revela a riqueza metodológica usada na realização da pesquisa, destaque especial deve ser dado ao uso de imagens produzidas pelo autor em sua pesquisa de campo. Uma segunda razão refere-se a uma leitura apaixonada, naquele sentido apontado por Hegel, ou seja, nada de relevante no mundo se fez sem paixão; isso não implica ausência de rigor, pois aqui o engajamento com os sujeitos da investigação significa perscrutar de modo detido o objeto, revelando suas diversas nuances e movimentos. Nesse particular, o livro de Rocha é uma demonstração compromissada com o destino daqueles que constituem a maioria social na América Latina e fora dela – os trabalhadores – e, no caso particular deste estudo, os trabalhadores mineiros e sua fração sediada em Huanuni.

Finalmente, a última razão, o livro de Rocha revela, de modo rico e abrangente, as complexas relações entre os trabalhadores mineiros e o Estado, ou, ainda, entre classes sociais, frações de classe e Estado. Isso lhe permite retomar um debate tão caro dentro das ciências humanas, ao sublinhar os limites das concepções de classe que a compreende apenas na sua chave econômica e objetivista, desconsiderando a experiência, a cultura e a ideologia de classe para compreendê-la de modo mais complexo e dinâmico.

Por fim, esta preciosa pesquisa pode nos ajudar a entender – ao olhar a trajetória dos mineiros de Huanani, seus dilemas, suas práticas e seus valores –, as contradições enfrentadas na atualidade pelo conjunto da classe trabalhadora na América Latina, o que inclui igualmente refletir sobre os impasses enfrentados pelos trabalhadores brasileiros nessa conjuntura de ataques contra os direitos mais elementares do trabalho entre nós. Boa leitura!

Salvador, junho de 2018.

Jair Batista da Silva

Departamento de Sociologia/CRH/UFBA

A classe é uma conformação social e cultural, que frequentemente encontra expressão institucional, que não pode ser definida de modo abstrato, tomada isoladamente, senão, tão somente a partir de suas relações com outras classes. E, em última instância, a definição só é possível em meio ao tempo, isto é, como ação e reação, mudança e conflito. Quando falamos de uma classe estamos pensando num conjunto de gente difusamente delimitado que participa do mesmo conjunto de interesses, experiências sociais, tradições e sistemas de valores; que tem uma predisposição a atuar como classe, a definir-se a si mesma em suas ações e em sua consciência, em relação a outros grupos de pessoas, de um modo classista. Pois a classe em si mesma não é uma coisa, é um acontecer.

Edward Palmer Thompson (1924-1993)

[…]. Os objetivos que eu sempre persegui e pelos quais sigo acreditando é de mudar a sociedade, mudar profundamente as estruturas da sociedade, fazendo desaparecer o capitalismo como um sistema gerador de pobreza, de corrupção, de morte, de miséria; para que os pobres e os operários possam ter a opção de poder administrar os Estados, ter o controle administrativo dos governos. Mas, isso passa por uma necessária conscientização […]. Agora, mais que tudo, estão deixando de lado esses objetivos históricos, esses objetivos estruturais. Nós sempre dissemos que deveríamos ver o sindicalismo como meio, não como fim. Lamentavelmente, agora, só é um fim para muitos dos dirigentes, e não um meio para contribuir com um processo de mudanças das estruturas sociais. Esse é o problema central que acredito que atravessamos. Deveríamos recuperar esses princípios e fortalecê-los porque isso sempre vai permanecer, e é de fato uma solução, ainda que muitos digam que seja utópica, mas não há outra opção. O sistema em que vivemos será sempre degenerado […] Concluo dizendo que estamos elegendo, pouco a pouco, uma das opções, quando se disse em algum momento socialismo ou barbárie. Lamentavelmente estamos indo pela opção da barbárie porque é o que se vê cada vez mais […] Mas, eu tenho uma esperança de que isso não pode ser sempre assim […] Devemos mudar e devemos lutar que é o fundamental porque não se pode conseguir algo em base às boas intenções.

Miguel Zubieta, trabalhador mineiro de Huanuni

LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO

1

OS MINEIROS BOLIVIANOS: EXPERIÊNCIA E CONSCIÊNCIA DE CLASSE

1.1 UMA PERSPECTIVA TEÓRICA E HISTÓRICA

1.2 CONDIÇÃO OPERÁRIA E EXPERIÊNCIA DE CLASSE

1.3 A FORMAÇÃO HISTÓRICA DOS TRABALHADORES MINEIROS BOLIVIANOS

1.4 AS PRIMEIRAS ORGANIZAÇÕES SINDICAIS

1.5 O ESTADO BOLIVIANO, O CONTROLE SINDICAL E A FORMAÇÃO DA FSTMB

1.6 O SINDICALISMO MINEIRO: DA LUTA ECONÔMICA À INTERVENÇÃO POLÍTICA

1.7 OS MINEIROS DE HUANUNI: TRADIÇÃO, MEMÓRIA E EXPERIÊNCIA DE CLASSE

1.8 OS MINEIROS DE HUANUNI E AS REBELIÕES POPULARES DE 2003 E 2005

2

OS TRABALHADORES MINEIROS, OS SINDICATOS E O ESTADO BOLIVIANO (1952-1985)

2.1 OS TRABALHADORES MINEIROS E A REVOLUÇÃO NACIONAL DE 1952

2.2 TRABALHADORES, SINDICATOS E O GOVERNO DO MNR

2.3 EXPERIÊNCIA E RUPTURA COM O NACIONALISMO REVOLUCIONÁRIO (MNR)

2.4 A ASSEMBLEIA POPULAR E O PAPEL DOS TRABALHADORES MINEIROS

2.5 AS DITADURAS MILITARES E A LUTA DOS MINEIROS PELA REDEMOCRATIZAÇÃO

2.6 OS TRABALHADORES MINEIROS FRENTE AO GOVERNO DA UDP (1982-1985)

2.7 NEOLIBERALISMO, REESTRUTURAÇÃO PRODUTIVA E AS TRANSFORMAÇÕES NA MINERAÇÃO BOLIVIANA

2.8 DESESTRUTURAÇÃO DA CONDIÇÃO OPERÁRIA MINEIRA E A CRISE DO MOVIMENTO SINDICAL

3

ENTRE A RESISTÊNCIA E A INTEGRAÇÃO: OS TRABALHADORES MINEIROS DE HUANUNI E O GOVERNO EVO MORALES

3.1 O GOVERNO EVO MORALES: O NACIONALISMO INDÍGENA NO PODER

3.2 OS DILEMAS DOS TRABALHADORES MINEIROS: ENTRE A RESISTÊNCIA E A INTEGRAÇÃO

3.3 O CONFLITO ENTRE COOPERATIVISTAS E ASSALARIADOS: A GUERRA PELO ESTANHO EM HUANUNI

3.4 O FORTALECIMENTO DO SINDICALISMO AUTÔNOMO E CLASSISTA EM HUANUNI

3.5 XXX CONGRESSO DA FSTMB: A DEFESA DA NACIONALIZAÇÃO DAS MINAS

3.6 A RADICALIZAÇÃO OPERÁRIA CONTRA O GOVERNO EVO MORALES

3.7 DA AUTONOMIA AO ACORDO ELEITORAL EM 2009

3.8 OS MINEIROS DE HUANUNI E A FORMAÇÃO DO PARTIDO DOS TRABALHADORES

CONSIDERAÇÕES FINAIS

REFERÊNCIAS

INTRODUÇÃO

O presente livro pretende analisar a relação entre os trabalhadores mineiros bolivianos e o governo Evo Morales. Esta obra é resultado de uma pesquisa realizada entre os anos 2013 e 2016, desenvolvida no Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal da Bahia.

Trata-se de um estudo de caso no distrito mineiro de Huanuni⁵, localizado no Departamento de Oruro, na Bolívia. Essa mina, administrada pela Empresa Mineira Huanuni, concentra as maiores reservas de estanho do país e pertence ao Estado boliviano. Em junho de 2006, após um sangrento enfrentamento entre mineiros assalariados e cooperativistas, a EMH foi estatizada pelo governo Evo Morales. A partir de então, 100% das reservas do minério de estanho passaram a ser controladas e exploradas pela Coorporação Mineira Boliviana (COMIBOL), empresa vinculada ao Ministério de Mineração. No período anterior à nacionalização, a mina era explorada por 800 trabalhadores assalariados, filiados à Federação Sindical dos Trabalhadores Mineiros da Bolívia (FSTMB), e por quatro cooperativas mineiras, que reuniam aproximadamente quatro mil cooperativistas filiados à Federação Nacional das Cooperativas Mineiras da Bolívia (FENCOMIM).

A exploração da mina por assalariados e cooperativistas resultou em inúmeros conflitos e disputas que culminaram no enfrentamento de outubro de 2006, quando 14 mineiros morreram. O governo Evo Morales, diante da tragédia e da comoção nacional, foi obrigado a estatizar completamente a reserva mineira, incorporando os quatro mil cooperativistas à empresa estatal. A partir de então, Huanuni tornou-se o maior e mais importante centro mineiro da Bolívia e a principal base de apoio do fragilizado sindicalismo operário.

Após a completa nacionalização, a empresa passou a contar com 4300 mineiros assalariados. A recomposição e o fortalecimento do sindicalismo mineiro de Huanuni ocorreram em um contexto de retomada das lutas sociais e populares na Bolívia, protagonizadas por novos atores e sujeitos políticos, como os povos e nações indígenas, e os novos movimentos sociais urbanos e rurais.

O ciclo de lutas sociais na Bolívia, que se iniciou no ano 2000, colocou em discussão uma nova agenda política. Nela, estavam presentes demandas, como a nacionalização dos recursos naturais, a defesa do tradicional cultivo da folha de coca, a luta contra a privatização da água, a nacionalização das minas, a convocação de uma Assembleia Constituinte e a refundação do Estado boliviano. De forma paralela à emergência política dos povos indígenas e camponeses, os mineiros de Huanuni tornaram-se uma importante referência para o conjunto do movimento operário boliviano. Este processo de fortalecimento e recuperação do protagonismo da classe operária boliviana coincide com a chegada à presidência do país, do dirigente sindical, Evo Morales, eleito em dezembro de 2005.

Os conflitos e acordos protagonizados pelos mineiros de Huanuni, durante o governo Evo Morales, caracterizam uma permanente tensão entre a resistência e a integração. Essa tensão não só ocorreu pela importância econômica do distrito de Huanuni; mas, sobretudo, pelo protagonismo político e sindical que os trabalhadores mineiros assumiram a partir do ano 2000, quando empreenderam uma luta pela nacionalização da empresa, melhores condições de trabalho, redução da idade de aposentadoria, aumento salarial e a modernização do maquinário. Essas pautas, quase sempre, alcançavam uma dimensão política, fortalecendo os vínculos de solidariedade e pertencimento de classe.

A efêmera, porém, significativa, experiência de formação de um partido operário independente, o Partido dos Trabalhadores, em maio de 2013, representou o auge da resistência e autonomia dos mineiros de Huanuni frente o Governo Evo. O congresso de fundação do Partido dos Trabalhadores foi convocado pela Central Operária Boliviana, em cumprimento à resolução votada no congresso da organização. O encontro ocorreu em Huanuni e teve como principais protagonistas os trabalhadores mineiros.

A Bolívia, durante grande parte da sua história, foi um país mineiro. A economia, a política e as tradições culturais estiveram, em grande medida, marcados por essa característica extrativista. Desde a exploração de prata no Cerro Rico de Potosí, no período colonial (1492-1825), passando pela extração de estanho no século XX, a economia boliviana esteve dependente da produção de minérios. O estanho, conhecido como o Metal do Diabo⁶, foi a principal fonte de riquezas e poder no país no século XX.

A partir da Revolução Nacional de abril de 1952, as grandes minas foram nacionalizadas. Construiu-se uma poderosa empresa estatal de mineração, a COMIBOL, que se transformou no pilar de sustentação da economia boliviana, chegando a empregar 36 mil trabalhadores mineiros, entre os anos 1952 e 1986. Em 1978, a COMIBOL, controlava 65% da produção de minérios e 70% de toda a produção de estanho, sendo a maior geradora de divisas para o país e impostos ao Estado⁷.

Os mineiros foram a coluna vertebral do movimento operário boliviano, sendo os protagonistas nos principais processos políticos que ocorreram no país na segunda metade do século XX, a exemplo da Revolução Nacional de 1952, a Assembleia Popular de 1971 e as Jornadas de 1985 (no governo de centro-esquerda da UDP). Nesses acontecimentos históricos, os trabalhadores mineiros e suas organizações sindicais transcenderam as reivindicações econômico-coorporativas e assumiram funções políticas, constituindo "organismos de poder dual"⁸.

Nos grandes centros mineiros, a exemplo de Huanuni, Catavi e Siglo XX gestou-se um conjunto de crenças, valores e identidades fortemente marcadas pelo orgulho de ser mineiro e o reconhecimento do seu trabalho como a principal fonte de riquezas para o país⁹. As concentrações massivas de trabalhadores em acampamentos, relativamente isolados, o processo e as condições de trabalho, a experiência da exploração, a convivência cotidiana nas comunidades, os rituais, tradições e crenças andinas, sua história de massacres e sangrentos enfretamentos, contribuíram para a formação, entre os trabalhadores mineiros bolivianos, de um forte tecido social e político, e um claro sentido de pertencimento de classe.

A centralidade política dos mineiros na história boliviana foi amplamente estudada e analisada em diferentes obras que buscaram compreender as especificidades e peculiaridades do processo de formação da classe operária mineira e sua experiência de classe. Os estudos abrangeram a constituição dos primeiros sindicatos, a fundação da FSTMB e da COB, em 1944 e 1952, respectivamente, o protagonismo dos trabalhadores mineiros a partir de 1952 e a posterior crise da condição operária mineira, nos anos 80 e 90.

A partir de 1985, essa cultura operária classista e radicalizada em seus métodos de luta ingressou em uma profunda crise. Um intenso processo de desestruturação/reestruturação da condição operária¹⁰ provocou mudanças irreversíveis no interior da classe trabalhadora boliviana. A crise econômica nos anos 80, a queda dos preços do estanho no mercado internacional, a aplicação das reformas neoliberais e o processo de reestruturação produtiva nas minas pertencentes ao Estado resultaram em uma significativa diminuição do número de trabalhadores mineiros assalariados¹¹ e a consequente crise do sindicalismo operário boliviano.

A combinação entre privatização/cooperativização/relocalização provocou a demissão de aproximadamente 23 mil mineiros entre os anos de 1986 e 1993. O número de mineiros assalariados da COMIBOL foi reduzido a 4.720 trabalhadores no início dos anos 90. Das 35 empresas de mineração estatais, restaram apenas 22 na década de 90¹². Nas empresas privadas, ficaram apenas 4.000 mineiros. Em 1999, a EMH (que empregava aproximadamente 800 trabalhadores), última empresa mineira pertencente ao Estado, foi privatizada e entregue a uma multinacional de capital inglês. A poderosa COMIBOL, responsável pela administração dos principais centros mineiros, entre 1952 e 1985, empregava apenas 100 funcionários no ano 2000.

O fechamento das minas e a demissão massiva dos trabalhadores foram as consequências imediatas da aplicação de um conjunto de políticas neoliberais, que ficaram conhecidas com o nome de Nova Política Econômica e foram aplicadas no início do governo de Victor Paz Estensoro (1985-1989) sob as orientações do Fundo Monetário Internacional. A principal medida do governo Estensoro foi o Decreto n.° 21060¹³, de 29 de agosto de 1985, que estabelecia o fim da estabilidade no emprego para o setor público e preparava o caminho para a chamada Relocalização de milhares de trabalhadores mineiros.

Essas políticas tiveram um impacto profundo sobre a classe operária boliviana, em especial, os trabalhadores das minas e suas tradicionais organizações sindicais, como a FSTMB, a COB e os sindicatos dos centros mineiros de Huanuni, Catavi e Siglo XX¹⁴. Quando os preços do estanho despencaram no mercado internacional, o modelo de acumulação da economia boliviana colapsou e com ele o tradicional movimento operário mineiro iniciou uma irreversível desestruturação.

Um número significativo de trabalhadores que se retiraram das minas estatais aderiu às cooperativas mineiras ou dirigiram-se à região do Chapare (tradicional produtora da folha de coca), bastião do novo sindicalismo camponês (liderado pelo atual presidente Evo Morales). Milhares de famílias mineiras dirigiram-se às periferias das cidades de El Alto e La Paz, onde engrossaram as fileiras do setor informal, como comerciantes ou transportistas. A crise e a demissão massiva nas minas provocaram um crescimento desordenado das cooperativas mineiras. Segundo o Ministério de Mineração da Bolívia, as cooperativas representavam em 2013, 87% da força de trabalho nas minas. Em números absolutos, estima-se que existam 114 mil cooperativistas em todo o país, organizados na FENCOMIN.

O setor mineiro assalariado foi reduzido drasticamente, representando, na atualidade, apenas 13% do total da força de trabalho (16 mil trabalhadores) nas minas bolivianas. Essa fração da classe trabalhadora segue organizada em sindicatos por empresa, filiados à histórica Federação Sindical dos Trabalhadores Mineiros da Bolívia (FSTMB)¹⁵, entidade fundada em 11 de junho de 1944. A FSTMB, por sua vez, é filiada à COB (Central Operária Boliviana), única central sindical do país, fundada em 16 de abril de 1952, durante um processo revolucionário. Segundo os estatutos da COB¹⁶, a secretaria executiva deve ser ocupada por um trabalhador mineiro assalariado.

Apesar da expressiva redução numérica e sua paulatina perda de protagonismo político e sindical nos anos 90, sobrevive entre os mineiros bolivianos uma memória histórica e coletiva que influência as ações coletivas e a interpretação dos eventos contemporâneos¹⁷.

Um conjunto de tradições, crenças e atitudes políticas e sindicais, que marcaram esse grupo social ao longo do século XX, manifestam-se de maneira significativa no distrito mineiro de Huanuni¹⁸. Segundo Schmidt o passado é permanentemente reconstruido e vivificado, enquanto é resignificado [...] a memória coletiva pode ser entendida como uma forma de história vivente. A memória coletiva vive, sobretudo, na tradição [...]¹⁹.

Os trabalhadores mineiros, a partir de uma acumulação histórica prévia, presenciaram, a partir do ano 2000, uma paulatina recuperação do seu protagonismo, capaz de se projetar novamente na vida política nacional²⁰. A memória, a história e as tradições reforçaram velhas identidades, crenças, costumes e práticas sociais que pareciam ter desaparecido do imaginário social e coletivo dos mineiros bolivianos. Essa memória coletiva explica, em grande medida, a tensa e conflitiva relação dos mineiros com o Governo Evo Morales. Podemos afirmar que entre os mineiros de Huanuni o passado está sempre presente²¹.

Referencial Teórico

Para melhor compreender essa complexa relação; tomamos, como referência teórica, os conceitos de experiência e consciência de classe do historiador inglês, E. P. Thompson. Sua perspectiva permite analisar os comportamentos sociais e a luta de classes a partir das acumulações históricas prévias, sejam estas objetivas ou subjetivas²². Segundo Thompson,

[...] a classe acontece quando alguns homens [e mulheres], como resultado de experiências comuns (herdadas ou compartilhadas), sentem e articulam a identidade de seus interesses entre si, e contra outros homens cujos interesses diferem (e geralmente se opõem) dos seus²³.

A experiência de classe possibilita o reconhecimento dessa comunidade de interesses comum que é a classe social.

Os valores, os discursos e as referências culturais que articulam tal experiência não surgem do nada; desenvolvem-se a partir da experiência da exploração e da luta de classes²⁴. A classe constitui-se enquanto sujeito político e social no processo da luta, quando, ao criarem-se laços de solidariedade entre os indivíduos, enfrenta-se os patrões e o Estado²⁵.

Segundo Arcary, a consciência de pertencer a uma comunidade particular da sociedade, com seus próprios interesses, fruto de sua condição de trabalhadores assalariados, é um processo dinâmico e histórico, em que os trabalhadores vão construindo a partir de determinadas experiências²⁶.

Nessa perspectiva, cada classe e fração da classe trabalhadora é, inevitavelmente, herdeira de seu próprio passado e se apoia em suas próprias heranças e tradições²⁷. Seguindo essa abordagem teórica, o autor boliviano, René Zavaleta afirma que a classe não se define apenas pelo lugar que ocupa no processo da produção; sua vida e seu caráter estão também definidos pelo modo como ocorreu sua história como classe²⁸.

Os trabalhadores da mineração na Bolívia constituem um grupo social e político que compartilha, conserva, transmite e desenvolve um conjunto de experiências sociais, costumes, tradições, sistemas de valores e um modo de ser²⁹ que incidem diretamente em seus posicionamentos políticos e ideológicos. A experiência de classe dos mineiros bolivianos com o Estado e as outras classes sociais, ao longo do século XX, foram recriadas/reinterpretadas por meio de uma memória coletiva, herdada e compartilhada. A partir dessa perspectiva teórico-metodológica, nos aproximamos de nosso objeto e dos sujeitos da pesquisa, os trabalhadores mineiros de Huanuni. Buscamos demonstrar que a experiência e a consciência de classe dos trabalhadores mineiros bolivianos se realizam/manifestam por meio de uma permanente tensão dialética entre a resistência e a integração ao governo Evo e ao Estado boliviano.

Aspectos metodológicos

Há uma profunda lacuna nos estudos sobre os trabalhadores mineiros bolivianos na atualidade. A imensa maioria das pesquisas limitaram-se a estudar os trabalhadores mineiros até o ano 1985. Para muitos intelectuais, com o processo de relocalização e demissão massiva decretou-se o fim da classe operária mineira enquanto sujeito político e social. Verificamos que existem escassos estudos e pesquisas sobre a ação política e sindical dos trabalhadores mineiros bolivianos a partir do ano 2000, sobretudo o período que compreende o governo Evo Morales (2006-2014).

Uma das raras exceções é o estudo desenvolvido pela historiadora boliviana Magdalena Cajías, que, desde a década de 80, vem produzindo uma extensa pesquisa sobre os trabalhadores mineiros bolivianos, tendo lançado recentemente o seu principal estudo, "O poder da memória. A mina de Huanuni na história do movimento operário, 1900-2010". Apesar da abrangência histórica e teórica, essa obra não aprofunda e analisa a relação

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