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A crise financeira internacional
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E-book260 páginas3 horas

A crise financeira internacional

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Sobre este e-book

A atual crise financeira internacional (2008-2009) pode ter desfecho menos dramático em relação ao da grande depressão de 1930, cuja solução definitiva foi o choque de demanda imprimido pela Segunda Guerra Mundial? Qual é o vínculo entre o desmonte das previdências públicas e a longa duração do colapso? O "Novo Brasil" resistiria a uma onda especulativa contra o real? Que cicatrizes este período deixará na economia e liderança dos Estados Unidos?
IdiomaPortuguês
Data de lançamento1 de jun. de 2016
ISBN9788568334942
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    A crise financeira internacional - Fernando Ferrari Filho

    Nota do Editor

    Com o objetivo de viabilizar a referência acadêmica aos livros no formato ePub, a Editora Unesp Digital registrará no texto a paginação da edição impressa, que será demarcada, no arquivo digital, pelo número correspondente identificado entre colchetes e em negrito [00].

    A crise financeira internacional: origens, desdobramentos e perspectivas

    FUNDAÇÃO EDITORA DA UNESP

    Presidente do Conselho Curador

    Mário Sérgio Vasconcelos

    Diretor-Presidente

    Jézio Hernani Bomfim Gutierre

    Superintendente Administrativo e Financeiro

    William de Souza Agostinho

    Conselho Editorial Acadêmico

    Danilo Rothberg

    João Luís Cardoso Tápias Ceccantini

    Luiz Fernando Ayerbe

    Marcelo Takeshi Yamashita

    Maria Cristina Pereira Lima

    Milton Terumitsu Sogabe

    Newton La Scala Júnior

    Pedro Angelo Pagni

    Renata Junqueira de Souza

    Rosa Maria Feiteiro Cavalari

    Editores-Adjuntos

    Anderson Nobara

    Leandro Rodrigues

    FERNANDO FERRARI FILHO

    E LUIZ FERNANDO DE PAULA (Orgs.)

    A crise financeira internacional: origens, desdobramentos e perspectivas

    © 2012 Editora Unesp

    Direitos de publicação reservados à:

    Fundação Editora da Unesp (FEU)

    Praça da Sé, 108

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    Tel.: (0xx11) 3242-7171

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    www.editoraunesp.com.br

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    CIP-Brasil. Catalogação na Publicação

    Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ

    Editora afiliada:

    [V] Autores

    Ana Rosa Ribeiro de Mendonça: Professora-assistente do Instituto de Economia da Unicamp. Ex-diretora da Associação Keynesiana Brasileira.

    André de Melo Modenesi: Professor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Atualmente é diretor da Associação Keynesiana Brasileira.

    Ângela Cristina Tepassê: Mestre em Economia pela PUC-SP.

    Carlos Eduardo Carvalho: Professor da PUC-SP.

    Carlos Rodríguez Fuentes: Professor do Departamento de Economia Aplicada da Universidad de La Laguna, Espanha.

    Daniela Magalhães Prates: Professora doutora do Instituto de Economia da Unicamp e pesquisadora do CNPq e da Fapesp. Atualmente é diretora da Associação Keynesiana Brasileira.

    Eliane Cristina de Araújo: Professora do Departamento de Economia da Universidade Estadual de Maringá.

    Elton Eustáquio Casagrande: Professor do Departamento de Economia da Unesp.

    Fábio Henrique Bittes Terra: Professor do Instituto de Economia da Universidade Federal de Uberlândia.

    Fernanda Faria Silva: Doutoranda em Economia pela Universidade Federal de Minas Gerais.

    [VI] Fernando Ferrari Filho: Professor titular do Departamento de Economia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e pesquisador do CNPq. Ex-presidente da Associação Keynesiana Brasileira.

    Fernando José Cardim de Carvalho: Professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro e pesquisador do CNPq. Ex-secretário executivo da Associação Nacional de Pós-Graduação em Economia e patrono da Associação Keynesiana Brasileira.

    Flávio Basilio: Doutorando em Economia pela Universidade de Brasília.

    Gary Dymski: Professor de Economia da Leeds University Business School, Reino Unido.

    Giuliano Contento de Oliveira: Professor do Instituto de Economia da Unicamp.

    Guilherme Jonas Costa da Silva: Professor do Instituto de Economia da Universidade Federal de Uberlândia e doutorando em Teoria Econômica pela Universidade Federal de Minas Gerais.

    Jan Kregel: Professor sênior do Levy Institute, Estados Unidos, e professor visitante do Center for Full Employment and Price Stability da University of Missouri-Kansas City, Estados Unidos.

    Jennifer Hermann: Professora adjunta do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

    José Carlos de Assis: Jornalista e economista.

    José Luís Oreiro: Professor adjunto do Departamento de Economia da Universidade de Brasília e pesquisador do CNPq. Atualmente é diretor da Associação Keynesiana Brasileira.

    José Roberto Afonso: Economista e doutor pela Unicamp.

    Luiz Carlos Bresser-Pereira: Professor emérito da Fundação Getúlio Vargas, editor da Revista de Economia Política e professor associado da École d’Hautes Études en Sciences Sociales, França. Ex-ministro da Fazenda (1987), da Administração Federal e Reforma do Estado (1995-98) e da Ciência e Tecnologia (1999). Patrono da Associação Keynesiana Brasileira.

    [VII] Luiz Fernando de Paula: Professor titular da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e pesquisador do CNPq. Atualmente é presidente da Associação Keynesiana Brasileira.

    Marco Flávio da Cunha Resende: Professor adjunto da Universidade Federal de Minas Gerais e pesquisador do CNPq. Atualmente é vice-presidente da Associação Keynesiana Brasileira.

    Marcos Antonio Macedo Cintra: Técnico do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, onde é, atualmente, Diretor de Estudos e Relações Econômicas e Políticas Internacionais.

    Maria Cristina Penido de Freitas: Doutora pela Université Paris 13, França.

    Maria de Lourdes Rollemberg Mollo: Professora do Departamento de Economia da Universidade de Brasília e patrona da Associação Keynesiana Brasileira.

    Maryse Farhi: Professora doutora do Instituto de Economia da Unicamp e pesquisadora do Centro de Estudos da Conjuntura na referida Instituição.

    Paulo Sérgio de Oliveira Simões Gala: Professor da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas.

    Philip Arestis: Professor titular da University of Cambridge, Reino Unido, e professor visitante da Universidad del País Vasco, Espanha.

    Rogério Sobreira: Professor adjunto da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas da Fundação Getúlio Vargas e pesquisador do CNPq.

    Simone Deos: Professora doutora do Instituto de Economia da Unicamp.

    Thomas Palley: Schwartz Economic Growth Fellow na New America Foundation, Estados Unidos.

    Vanessa da Costa Val Munhoz: Professora do Instituto de Economia da Universidade Federal de Uberlândia. Atualmente é diretora da Associação Keynesiana Brasileira.

    [VIII] Vanessa Petrelli Corrêa: Professora do Instituto de Economia da Universidade Federal de Uberlândia. Ex-diretora da Associação Keynesiana Brasileira. Atualmente é diretora de estudos e políticas macroeconômicas do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada.

    [IX] Sumário

    [V] Autores

    Apresentação [1

    Fernando Ferrari Filho e Luiz Fernando de Paula

    Parte 1 – ENTENDENDO A CRISE FINANCEIRA INTERNACIONAL [7

    1 Crise e recuperação da confiança [9

    Luiz Carlos Bresser-Pereira

    2 Crise e deflação de ativos: por quê? [13

    Maria de Lourdes Rollemberg Mollo

    3 A contemporaneidade de Minsky [17

    Simone Deos

    4 Entendendo a recente crise financeira global [21

    Fernando José Cardim de Carvalho

    5 A exaustão do paradigma de crescimento da economia norte--americana [29

    Thomas Palley

    6 Double Dip: a recuperação econômica em questão [35

    Maryse Farhi

    [X] 7 Quatro crises do sistema mundial e o futuro do novo Brasil [41

    Gary Dymski

    8 A crise econômica internacional em 2010: uma avaliação no meio do caminho [49

    Fernando José Cardim de Carvalho

    9 A crise e os desafios para a nova arquitetura financeira internacional [53

    Maryse Farhi, Daniela Magalhães Prates, Maria Cristina Penido de Freitas e Marcos Antonio Macedo Cintra

    10 Da liberalização à crise financeira norte-americana: a morte anunciada chega ao Paraíso [61

    Jennifer Hermann

    11 Os derivativos e a crise de crédito [69

    Rogério Sobreira

    12 Regulamentação bancária, gestão de riscos e gestação da desordem financeira [75

    Ana Rosa Ribeiro de Mendonça

    13 Crescimento da dívida pública dos PIIGS e movimentos especulativos [79

    Vanessa Petrelli Corrêa

    14 A tragédia grega e a crise na zona do euro [85

    Philip Arestis

    15 Euro, pensar o impensável [91

    Luiz Carlos Bresser-Pereira

    16 A crise na Europa e os dilemas da Espanha [95

    José Luis Oreiro

    [XI] Parte II – DESDOBRAMENTOS E CAMINHOS PARA A SUPERAÇÃO DA CRISE [101

    17 A crise das finanças desregulamentadas: o que fazer? [103

    Fernando Ferrari Filho e Luiz Fernando de Paula

    18 Proteção natural e regulação das instituições financeiras pós-Basileia II [107

    Jan Kregel

    19 A superação da crise pelo pleno emprego [115

    José Carlos de Assis

    20 Menos arquitetura financeira e mais banco funcional [123

    Carlos Rodríguez Fuentes e Fernanda Faria Silva

    Parte III – A CRISE NO BRASIL E AS RESPOSTAS DE POLÍTICA ECONÔMICA [129

    21 A crise financeira brasileira: uma análise a partir do conceito de fragilidade financeira à la Minsky [131

    José Luís Oreiro e Flávio Basilio

    22 Preferência pela liquidez e a natureza da crise brasileira [137

    Luiz Fernando de Paula

    23 Evolução recente do câmbio no Brasil: momento Minsky [143

    Paulo Sérgio de Oliveira Simões Gala

    24 A crise está aí, e agora? [147

    Guilherme Jonas Costa da Silva e Marco Flávio da Cunha Resende

    25 O efeito-contágio da crise global sobre os países emergentes [151

    Daniela Magalhães Prates

    [XII] 26 Expectativas e políticas fiscais na América Latina: uma perspectiva a partir das publicações da Cepal sobre a crise financeira de 2008 [155

    Elton Eustáquio Casagrande

    27 O papel dos bancos públicos e a experiência brasileira recente [163

    Ana Rosa Ribeiro de Mendonça e Simone Deos

    28 A relevância da atuação dos bancos públicos federais brasileiros diante dos impactos da crise financeira internacional [169

    Carlos Eduardo Carvalho, Giuliano Contento de Oliveira e Ângela Cristina Tepassê

    29 (In)consistência macroeconômica [175

    José Roberto Afonso

    30 Câmbio, investimento, poupança e conta-corrente no Brasil [181

    Marco Flávio da Cunha Resende

    31 Determinantes macroeconômicos da inflação: implicações para a política monetária [187

    André de Melo Modenesi e Eliane Cristina de Araújo

    32 Prevenir é melhor que remediar: alternativas de políticas econômicas keynesianas para a prevenção de crises financeiras [191

    Fábio Henrique Bittes Terra e Guilherme Jonas Costa da Silva

    33 Uma proposição de política cambial para a economia brasileira [197

    Fernando Ferrari Filho e Luiz Fernando de Paula

    34 Liquidez internacional pós-crise e controle de capitais: a taxação via IOF pode conter os influxos financeiros especulativos no Brasil? [203

    Vanessa da Costa Val Munhoz

    [1] Apresentação

    Fernando Ferrari Filho e Luiz Fernando de Paula

    Em um dos seus livros mais conhecidos, Can It Happen Again? (1982, Armonk, M. E. Sharpe), a palavra "it (ela) a que se refere Hyman Minsky é a Grande Depressão dos anos 1930. Como se sabe, esse famoso economista pós-keynesiano formulou sua hipótese de fragilidade financeira mostrando que economias capitalistas em expansão são inerentemente instáveis e propensas a crises, uma vez que a maioria dos agentes econômicos apresenta postura especulativa, resultando em práticas de empréstimos de alto risco. O aumento da fragilidade financeira é produzido por um lento e não percebido processo de erosão das margens de segurança de consumidores, firmas e bancos, em um contexto no qual o crescimento das rendas e dos lucros valida" o aumento do endividamento.

    Para Minsky, respondendo à pergunta que ele mesmo formulou, a depressão pode ser evitada ou atenuada por conta da atuação do banco central como emprestador de última instância ("Big Bank) e da adoção de políticas fiscais contracíclicas (Big Government").

    A inspiração de Minsky obviamente veio de John Maynard Keynes, que, em The General Theory of Employment, Interest and Money (1964), doravante TG, mostra que economias monetárias estão sujeitas, inerentemente, a severas flutuações dos níveis de produto e emprego. Assim, Keynes sugere que o problema principal dos economistas não deveria ser explicar a flutuação, mas sim entender como um sistema tão simples não entra em [2] colapso em função de suas próprias contradições. Nesse sentido, o que impede que o sistema seja violentamente instável é a existência de convenções e instituições, entre as quais o governo.

    Não há dúvida de que as lições de Minsky foram aprendidas no meio do vendaval que tem varrido os sistemas financeiros em todo o mundo, desde 2007-08. Os governos dos países desenvolvidos acabaram por atuar ativamente para evitar que uma aguda e profunda crise financeira resultasse em uma grande e prolongada depressão. Assim, de um Momento Minsky – crescente fragilização financeira que resulta em uma crise financeira – passamos para um Momento Keynes, em que os governos dos países desenvolvidos (Estado Unidos, Japão e Europa) passaram a adotar políticas fiscais e monetárias contracíclicas, face à crescente deterioração no estado de expectativas dos agentes econômicos.

    Ainda que as lições de Keynes e Minsky tenham sido apreendidas, após algumas vacilações por parte dos governos (em particular dos Estados Unidos e, em menor escala, do Brasil) em perceber a gravidade da crise, estamos sem dúvida vivendo a mais profunda crise financeira mundial desde a Grande Depressão de 1929-33.

    O que aconteceu de errado? O sistema financeiro na época em que Minsky escreveu seus textos (anos 1970 e 1980) era caracterizado pela segmentação e especialização: cada instituição especializada (um banco comercial ou um banco de poupança) somente poderia atuar em um segmento específico do sistema financeiro. A ideia subjacente era evitar que uma crise em um desses segmentos se propagasse para o sistema financeiro como um todo. Por exemplo, a crise das instituições de poupança – que atuavam no mercado de crédito imobiliário nos anos 1980 – foi profunda, mas não contagiou o restante do sistema financeiro. A novidade na crise atual é que temos uma crise das finanças desregulamentadas, ou seja, um mundo livre, de crescente globalização das relações comerciais entre países e de complacência com vários instrumentos financeiros sofisticados. Somente isso explica por que uma crise em um subsegmento do setor imobiliário norte-americano (subprime) acabou resultando em uma crise mundial de grandes proporções.

    Explorando um pouco mais a lógica das finanças desregulamentadas – e, por conseguinte, seu processo de globalização –, [3] os mercados financeiros têm sido integrados de forma a criar um único mercado mundial de dinheiro e crédito; diante de um quadro em que inexistem regras monetário-financeiras e cambiais estabilizantes, os instrumentos tradicionais de política macroeconômica tornaram-se crescentemente insuficientes para conter os colapsos financeiros (e cambiais) em nível mundial, e acabam resultando em frequentes crises de demanda efetiva.

    De fato, a crise financeira que emergiu em 2007-08 (cujos desdobramentos ainda se fazem sentir nos dias atuais, por exemplo, na zona do euro) é, sobretudo, a crise da globalização financeira, entendida como uma tendência à criação de um mercado financeiro global e de intensificação no fluxo de capitais entre países. Esse processo remonta à crise do sistema de Bretton Woods e à formação do mercado de eurodólares, que, diga-se de passagem, acabou contribuindo para a desregulamentação doméstica dos sistemas financeiros – com o fim da segmentação entre mercados – e a liberalização dos fluxos de capitais.

    Como resultado desse processo de desregulamentação e livre mobilidade de capitais, as instituições financeiras passaram a explorar diferentes mercados, inclusive de mais baixa renda. No mercado de títulos, desenvolveram-se mecanismos de securitização, estimulados pelo crescimento de investidores institucionais, em que firmas e bancos financiam a si próprios, empacotando rendas a receber.

    A crise do subprime – mercado de financiamento imobiliário de maior risco – acabou por expressar todas as contradições do processo de globalização financeira. A necessidade de ampliação de escala levou as instituições financeiras a incorporarem segmentos de baixa renda em condições de exploração financeira – no caso do subprime, com taxas de juros variáveis (baixas no início, elevando-se ao longo do tempo) –, o que acabou resultando em um processo de estrangulamento do tomador de crédito. A securitização, que serviria para diluir riscos, na prática serviu para esconder riscos: títulos lastreados em hipotecas eram emitidos por instituições financeiras de grande porte, sendo tais ativos classificados como grau de investimento por uma agência de rating. Esses ativos, por sua vez, passaram a ser comprados por investidores de diferentes nacionalidades. Criaram-se, assim, novos instrumentos financeiros que não foram devidamente [4] regulamentados pelas autoridades econômicas. Assim, mecanismos de autorregulação mostraram-se falhos devido ao caráter pró-cíclico da tomada de risco: projetos considerados ruins na desaceleração passaram a ser vistos como bons no boom cíclico.

    Keynes, em sua TG, chamava a atenção para o fato de que, em economias monetárias de produção, a organização dos mercados financeiros enfrenta um trade-off entre liquidez e investimento: por um lado, eles estimulam o desenvolvimento da atividade produtiva ao tornar os ativos mais líquidos, liberando, portanto, o investidor da irreversibilidade do investimento; por outro lado, aumentam as possibilidades de ganhos especulativos. Assim, ao estabelecer uma conexão entre os mercados financeiro e real da economia, Keynes afirma que a posição é séria quando o empreendimento torna-se uma bolha sobre o redemoinho da especulação. Quando o desenvolvimento das atividades de um país torna-se o subproduto das atividades de um cassino, o trabalho provavelmente será malfeito (1964, p.159).

    Indo ao encontro da ideia de Keynes, atualmente, a ação dos global players, em um mercado mais liberalizado e integrado, faz que os mercados financeiros convertam-se em uma espécie de grande casa de apostas global. Especulação, em uma economia global, tem caráter disruptivo não somente em mercados domésticos, mas também sobre os países como um todo, criando uma espécie de cassino financeiro ampliado. Na perspectiva keynesiana, a instabilidade financeira não é vista como anomalia, mas como resultante da própria forma de operação dos mercados em um sistema no qual não existe uma estrutura de salvaguarda que exerça o papel de um market maker global. Nesse sentido, o formato institucional específico desses mercados determina as possibilidades de se ter um ambiente em que a especulação possa florescer e, portanto, crises financeiras não são apenas resultados de comportamentos irracionais dos agentes econômicos, mas resultam da própria forma de operação dos mercados financeiros globais liberalizados sem um sistema de regulação adequado.

    Diante do exposto, a atual crise financeira internacional nos induz a duas reflexões. Em primeiro lugar, ela põe em xeque os benefícios

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