A retórica de Rousseau
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A retórica de Rousseau - Bento Prado Jr.
Sumário
Apresentação – A força da linguagem e a linguagem da força
Franklin de Mattos
Sobre esta edição
A retórica de Rousseau: o discurso político e as belas-letras
Introdução: leitura de Rousseau
As metamorfoses da obra
A existência
A linguagem
A excentricidade da obra ou a impossível teoria
Em direção ao centro retórico
Primeira parte – A força da voz e a violência das coisas
I O perigo intrínseco
A linguagem impura
A vontade e o desejo
A voz sufocada
A energia da voz
II A força da linguagem
A diferença na linguagem
O conceito de força
III A linguagem indireta ou o paradigma musical
A imitação
A interpretação
IV Retórica e verdade
Segunda parte – As belas-letras – da imitação romanesca e teatral
V Uma espécie de romance: Rousseau, crítico da ideia de gênero
O retorno da retórica
A queda no romanesco e a retomada crítica
O tornar-se-gênero do romance ou as dificuldades do historicismo
O peso do século: escrita, instituição e gênero
VI Imaginar o real
Imitação e universalidade
Para quem escrevemos?
Os limites do moralismo ou o engajamento do sonho
A imaginação rente às coisas
A ambiguidade necessária da ficção
VII Gênese e estrutura dos espetáculos
A crítica moral do teatro
A crítica metafísica do teatro
A posição da cena: uma crítica política do teatro
Ensaios sobre Rousseau
Filosofia, música e botânica: de Rousseau a Lévi-Strauss
O discurso do século e a crítica de Rousseau
Os limites da Aufklärung
Jean-Jacques Rousseau entre as flores e as palavras
Não dizer a verdade equivale a mentir?
Leitura e interrogação: uma aula de 1966
A filosofia das Luzes e as metamorfoses do espírito libertino
Rousseau: filosofia política e revolução
Bibliografia
Sobre o autor
Índice onomástico
Apresentação
A força da linguagem e a linguagem da força
Franklin de Mattos
Bento Prado Jr. partilhou sua vida intelectual entre duas vocações: a filosofia e a literatura. Dentre seus escritos, pertencem ao primeiro domínio Erro, ilusão e loucura (Editora 34, 2004) e Presença e campo transcendental: consciência e negatividade na filosofia de Bergson (Edusp, 1989), este último vertido para o francês em 2002, tendo se tornado referência internacional para os estudiosos do tema. Quanto aos domínios da literatura, deles fazem parte os poemas, inéditos em sua maioria (para quem o ignora, Bento Prado era poeta mais que bissexto e grande leitor de poesia), e também os ensaios sobre Carlos Drummond de Andrade, João Guimarães Rosa, o crítico Roberto Schwarz etc., reunidos na coletânea Alguns ensaios (Max Limonad, 1985; Paz e Terra, 2000).
Obviamente Bento Prado considerava solidárias ambas as vocações e, se fosse preciso prová-lo, bastaria lembrar, por exemplo, que o subtítulo de Alguns ensaios é filosofia, literatura, psicanálise, pois o volume reúne igualmente seus textos sobre fundamentação da psicologia e sobre filosofia e senso comum, em que discute com Oswaldo Porchat Pereira. Além disso, conforme lembrou certa vez, entre 1968 e 1977, quase todos os seus trabalhos foram consagrados a Rousseau, examinando justamente a questão da continuidade entre filosofia e literatura na obra do autor de O contrato social e de A nova Heloísa. Dessa dedicação quase exclusiva, durante mais de uma década, resultaram ensaios e artigos – que a modéstia de Bento Prado bem poderia chamar de fugitivos
–, publicados em revistas ou jornais brasileiros, e um trabalho maior e inédito, A retórica de Rousseau: o discurso político e as belas-letras, escrito originalmente em francês, entre 1970 e 1974, quando ele ocupou o posto de chargé de recherches
no Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS), em Paris.
Certa vez, com sua irrepreensível elegância, Bento Prado Jr. declarou que as teses de Luiz Roberto Salinas Fortes¹ o haviam feito desistir de completar [seu] livro sobre Rousseau, com a parte prevista sobre retórica e política, por encontrá-la exposta com mais competência nas páginas já escritas por Salinas
.² Apesar disso, não há dúvida de que considerava aquilo que escrevera uma obra de certo modo acabada, pois em entrevistas ou conversas informais volta e meia prometia publicar o trabalho, coisa que ia protelando, sempre mergulhado em projetos mais recentes. Vez por outra, ao sabor das circunstâncias, recortava um trecho do livro, improvisava um parágrafo de abertura e dava ao fragmento um ar de ensaio acabado. Quem já ouvira falar da preciosa fonte, mal podia esperar para conhecê-la por inteiro. E foi assim que A retórica de Rousseau, que tanto valoriza o Ensaio sobre a origem das línguas, conheceu a mesma sorte reservada a este clássico de Rousseau: permaneceu, durante aproximadamente trinta anos, entre os guardados de seu autor, vindo a público somente após a morte dele. Creio não exagerar se disser que o livro que o leitor tem, afinal, em mãos representa uma espécie de síntese das duas vocações acima. Num ensaio brilhante, Paulo Eduardo Arantes afirmou que não é fácil explicar de que modo Bento Prado passou de Bergson para Rousseau.³ Ora, a meu ver, não há muito que entender, pois a chegada a Jean-Jacques era algo, por assim dizer, natural em sua trajetória. Mas, poderá perguntar o leitor, por que Rousseau então, e não Montesquieu, Diderot ou mesmo Sartre? Adiante voltarei ao tema.
O trabalho trata da teoria da linguagem, da teoria do romance e da teoria do teatro em Rousseau
,⁴ declarou ele em outra parte sobre o livro que afinal decidiu não concluir. A abrangência da discussão sugere desde logo aquilo que está em jogo na obra: a questão da unidade do pensamento de J.-J. Rousseau, que tanto ocupou seus grandes intérpretes no século passado.
Bento Prado Jr. sempre fazia questão de deixar às claras o lugar de onde falava ou escrevia e, certamente por isso, começa pelas metamorfoses
da obra de Rousseau, por uma história de suas leituras, situando nela seu próprio discurso. Conforme lembra, os primeiros leitores do filósofo, fossem refratários ou favoráveis a ele, recalcaram sistematicamente seus escritos. Os adversários o assimilaram à loucura
ou à literatura
, mergulhando-o, por assim dizer, no espaço do sem sentido
. Os demais, sob as aparências da apologia e do reconhecimento, tornaram a verdade de seu pensamento algo exterior à própria obra: é o caso de Kant (e de Cassirer), para quem Rousseau descobriu o mundo da liberdade, cujo conceito será fornecido por sua própria Crítica, e ainda de Hegel e Engels, que lhe atribuem uma dialética da história
a qual, pela mediação da desigualdade, conduz da igualdade inconsciente à igualdade refletida, ou seja, à cidade legal.
Felizmente, algumas mudanças ocorridas na filosofia do pós-guerra levaram os historiadores a recortar o passado de modo um pouco diferente. Inspirando-se em Émile Bréhier, Bento Prado enumera as condições que levaram os estudiosos a reapreciar, dentre outras, a obra de Rousseau: o paradigma da dialética da separação
, que renuncia ao ideal tradicional de unidade e unificação em benefício da preservação das contradições que dilaceram a experiência; essa não é uma dialética do Saber, mas começa em seu limite, considerando menos o sujeito
do que uma trama de relações em que os demais termos são o outro e Deus (o que privilegia o vivido
, não o conhecido); o desaparecimento das fronteiras entre filosofia e literatura, que se tornam espaços imbricados internamente. Existiria algo mais adequado a essas condições do que o perfil de Jean-Jacques? Não se diz que seu tema preferido, desde o Discurso sobre as ciências e as artes, é o da fratura entre o ser e o parecer? Para ele, à inocência original não sucede justamente a história como progresso da mentira e da violência? Além de filósofo, também não foi romancista, dramaturgo, teórico do teatro e autor dos Devaneios e das Confissões?
Os primeiros resultados dessa nova postura surgiram com as leituras existencialistas, para as quais deve-se ler no texto de Rousseau não somente uma teoria, mas a expressão de certo ritmo existencial, o destino excepcional de uma consciência singular
.⁵ É o que fizeram, cada um a seu modo, Pierre Burgelin,⁶ para quem o sentimento da existência
em Rousseau é tanto a descoberta da ordem universal da natureza quanto de uma subjetividade singular, e Jean Starobinski,⁷ que sustenta que os temas da transparência e do obstáculo revelam ao mesmo tempo a verdade do discurso de Rousseau e a verdade da existência de Jean-Jacques.
Com a voga do estruturalismo vem à tona outro Rousseau, que nos transporta agora para o limiar da modernidade, o filósofo cuja reflexão sobre a linguagem e sobre as relações entre natureza e cultura é uma espécie de esboço de crítica da metafísica, ou seja, da filosofia da representação e da consciência.
Para Claude Lévi-Strauss os escritos de Rousseau denunciam a ideia de razão fundada na oposição entre o sensível e o inteligível, inaugurando assim o procedimento que levará à crítica etnológica do projeto universalista da metafísica. Tal descentramento
percorre três níveis solidários, que conduzem o si do centro à periferia: a crítica psicológica do cogito cartesiano, a denúncia do etnocentrismo, a recusa do humanismo. Rousseau realiza a primeira operação ao substituir, como Malebranche, o cogito pelo sentimento da existência, e ao transformar, como Condillac, a consciência de si numa experiência e conhecimento confusos. Tal deslocamento, por sua vez, é confirmado pela perspectiva etnológica de Rousseau, para quem toda humanidade é local e a universalidade só se encontra no sistema das diferenças. Essa dupla redução nos leva, assim, a um descentramento da própria humanidade, que deixa então de ser o sujeito global da história.
Ainda segundo Lévi-Strauss, esta série de reduções só é possível porque Rousseau possui uma concepção de linguagem que resgata uma camada esquecida e primitiva, a linguagem da metáfora, que é origem do seu estrato racional. A lógica inscrita no sensível, revelada pela linguística, pode ainda ser desentranhada por intermédio da música e da botânica, que Rousseau tanto apreciava.
Da gramatologia, de Jacques Derrida, também sustenta que ler Rousseau é pensar o problema do fim da metafísica
, mas empresta ao termo um significado diferente de Lévi-Strauss. Enquanto a metafísica, para este, constitui um sistema de preconceitos que funcionam como obstáculo à instituição do saber científico, Derrida sustenta, como Heidegger, que o destino dela não pode ser decidido no território da cientificidade, pois a própria ideia de ciência não é exterior à era da metafísica. Para o autor de Ser e tempo, em resumo, a essência da metafísica, de Aristóteles a Hegel, reside na decisão de identificar o verdadeiro com o presente enquanto presente. A esse privilégio do ente, Derrida acrescenta o da palavra viva
: a metafísica é igualmente "limitação ao logos", não apenas esquecimento do ser, mas também da escrita, que ela concebe como o exterior da linguagem, a sombra do logos no mundo empírico. Ao tomar a escrita como objeto de reflexão, Rousseau embaralha essas nítidas oposições. Assim, na dialética entre o originário e o suplemento que toma seu lugar, seu discurso afirma a plenitude da palavra e da presença, mas ao mesmo tempo sustenta que a palavra pode ser o lugar da ausência, e a escrita pode garantir o retorno da presença. Numa palavra, para Derrida, Rousseau conduz a metafísica a seu limite e, no esforço de recalcar a escrita, leva a pensar seu caráter originário.
Entretanto, todas essas leituras paradigmáticas deixam intacta a questão da aparente excentricidade
dos escritos de Rousseau. Ao contrário das diferentes interpretações de Leibniz, por exemplo, que são complementares e apoiadas, segundo afirmou Michel Serres, nas entradas múltiplas de sua obra, as leituras divergentes de Rousseau parecem revelar afinal uma ausência de centro
, que justifica e ao mesmo tempo anula todas. Sabemos, porém, que o compromisso entre ordem e mathesis tem uma história na história da filosofia, e sabemos ainda que o modelo matemático não é o guia exclusivo do discurso filosófico. A fim de chegar ao paradigma de Rousseau, Bento Prado Jr. dialoga intensamente com seus maiores leitores e intérpretes (além dos já citados, seria preciso acrescentar Henri Gouhier, Michel Foucault, Louis Althusser, Maurice Blanchot, Alain Grosrichard etc.), mas é notório que se inspira especialmente em Jean Starobinski e Claude Lévi-Strauss.⁸
Starobinski procurou a continuidade entre a filosofia e a literatura de Rousseau de um ponto de vista psicanalítico-existencial
, tomando sua obra, segundo seus próprios termos, como se fosse uma ação imaginária
, e fazendo do comportamento de Jean-Jacques uma ficção vivida
. Conforme certa vez resumiu Bento Prado,
o que o livro [de Starobinski ] visa é a repetição de alguns