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A quem interessa a democratização da escola?: Reflexões sobre a formação de gestores
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E-book145 páginas2 horas

A quem interessa a democratização da escola?: Reflexões sobre a formação de gestores

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Sobre este e-book

O livro propõe-se a refletir sobre um conjunto de políticas que tenta assegurar a democratização da escola por meio da qualificação dos professores, da ampliação do acesso à universidade e da adoção de práticas dialogadas de gestão escolar. Essas iniciativas acontecem ao mesmo tempo em que são promovidas, com o apoio do Estado, políticas de ranqueamento das escolas, baseadas no princípio da competição. Quatro professores, referências no campo da gestão democrática da educação - Celso Vasconcellos, Danilo Gandin, Pablo Gentili e Vitor H. Paro - expõem suas preocupações e reflexões sobre o tema.
IdiomaPortuguês
Data de lançamento4 de jul. de 2012
ISBN9788588642850
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    A quem interessa a democratização da escola? - Celso Vasconcellos

    Créditos

    Copyright © 2012 by Andréa Rosana Fetzner, Celso Vasconcellos, Danilo Gandin, Janaina Specht da Silva Menezes, Pablo Gentili e Vitor Henrique Paro

         Cip-Brasil. Catalogação-na-Fonte

         Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ

    Q49

         A quem interessa a democratização da escola? : reflexões sobre a formação de gestores / Celso Vasconcellos...[et al.]; Andréa Rosana Fetzner e Janaina Specht da Silva Menezes (organizadoras). - Rio de Janeiro : Outras Letras, 2012.

         132 páginas

         Inclui bibliografi a

         ISBN 978-85-88642-46-1

         1. Democratização da educação - Brasil. 2. Escolas - Organização e administração.

    3. Educação - Aspectos sociais - Brasil. 4. Educação e Estado - Brasil. I. Fetzner, Andréa Rosana. II. Menezes, Janaina Specht da Silva. III. Título.

    Todos os direitos desta edição reservados à

    Outras Letras Editora Ltda.

    Tel/Fax (21) 2267-6627

    contato@outrasletras.com.br

    www.outrasletras.com.br

    Associada à

    www.libre.org.br

    Apresentação

    Este trabalho é composto por artigos que refletem sobre a democratização da escola, levando em consideração políticas e valores que se encontram em crise. Em um momento em que são promovidas, no Brasil, políticas de ranqueamento – que tomam por base o princípio da competição como uma força capaz de desencadear o aperfeiçoamento das pessoas e a melhoria dos serviços –, convidamos quatro professores, referências na temática, a trazerem suas preocupações sobre o assunto. Eles ministraram, para quatrocentos cursistas, palestras do curso de especialização em Gestão Escolar da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro – Unirio, parte do Programa Nacional Escola de Gestores de Educação Básica do Ministério da Educação, que financiou este trabalho.

    Entendemos que a possibilidade de comunicação potencializada pela internet tem, entre outros aspectos, colaborado para divulgar injustiças sociais, econômicas e religiosas que levam parte da sociedade, em âmbito mundial, a reclamar por novas ordens e propostas outras que não se sustentem na exploração e humilhação dos seres humanos. Parece ser este um dos momentos históricos de transformação, em que as ambiguidades das políticas públicas são percebidas por um número significativo de pessoas. No campo dessas ambiguidades, encontramos no Brasil o avanço das políticas que, pautadas pelos testes de larga escala, consomem investimentos e tempo de trabalho escolar na promoção do desgaste da escola pública.

    Na medida em que o discurso sobre a escola incorpora o Ideb (Índice de Desenvolvimento da Escola Básica) como medida padrão – capaz de indicar boas e más escolas –, políticas suplementares tentam promover o aumento desse índice e, com isso, melhorar a escola. A ideia se sustenta em um dos princípios apresentados por Pablo Gentili em seu texto Paralelepípedos e âncoras: a fome de saber e os saberes da fome, de que existe um estado de igualdade originário entre as escolas, que as permite, desde que desenvolvam as atividades com dedicação e cuidado, obter, todas, os mesmos resultados positivos.

    Discordamos da proposta de tomar a competição como base para promover a boa escola. Empenhados no trabalho intelectual de refletir sobre o que vivemos, sobre os acontecimentos e as possibilidades, trazemos a experiência desenvolvida no curso de especialização em Gestão Escolar com o objetivo de demonstrar a amplitude dos compromissos, caminhos e responsabilidades das escolas ao lidarem com questões da gestão, especialmente quando a proposta se refere a uma gestão democrática.

    Entendemos que a gestão democrática tem por princípio promover a educação como um direito, por meio de uma participação que coloca em diálogo interesses, conhecimentos e projetos. Assim, compreendemos o conteúdo e a metodologia do programa Escola de Gestores e, com este fundamento, construímos a proposta deste livro, aproveitando as conferências proferidas nos encontros presenciais e, ao mesmo tempo, trazendo o registro da experiência da Unirio nesse processo, durante os anos de 2009 a 2011.

    Cada autor, professor e conferencista traz, portanto, suas preocupações com o momento atual em que vive a escola e, com um trabalho intelectual militante, contribui com o pensar de outras possibilidades para as políticas que se implementam. Pablo Gentili questiona as ideias que sustentam a competição, em âmbito dos mercados e da escola, como um estado de igualdade originária e analisa discursos sobre bons alunos, adolescentes efi cazes e sucesso profi ssional, contrapondo dados sobre a fome no planeta, em especial na América Latina, demonstrando como essas ideias se forjam na mentira.

    O professor Danilo Gandin, em seu ensaio Poder, participação e escola democrática, provoca-nos a pensar a institucionalização como a praga que tenta, por meio do administrativo, regular tudo, desprezar a dialética, excluir o incerto. Indica para a gestão a honrosa tarefa de colocar a instituição a serviço das pessoas que dela fazem parte e, com este objetivo, destaca o papel da gestão no planejamento participativo, por ele definido como exercício do poder para que ele seja de todos, além de salientar o papel da construção coletiva na transformação da escola.

    O professor Vitor Henrique Paro, em seu artigo Estrutura da escola e integração da comunidade, analisa a participação da comunidade por meio da discussão da estrutura escolar. Destaca a finalidade da participação como valor em si, a continuidade da educação familiar, da educação escolar e da participação da família na escola como uma forma importante de pressão por melhor ensino e de interlocução cultural. No referido artigo, o autor apresenta uma descrição detalhada de como um pai de aluno de escola pública se sente em relação à escola, suas expectativas sobre o estudo de seu filho e o quanto as leituras tradicionais (não científicas) sobre essa relação são injustas com as famílias de classes populares. Discute, trazendo a experiência de uma escola onde desenvolveu sua pesquisa, que a maneira como a instituição de ensino estrutura os espaços de participação faz a diferença nos resultados obtidos nesse processo.

    O professor Celso Vasconcellos, em seu artigo Sociedade, políticas para a educação e a produção da subjetividade avaliativa, discute a questão que nos inspirou como tema deste livro: A quem interessa a escola de qualidade democrática?. Seu artigo debruça-se sobre a sina classificatória que ainda hoje se manifesta nas escolas, que chama de trajetória de internalização inconsciente no sujeito dos elementos da cultura social e escolar, o ímpeto classificatório do ser humano e, sempre comprometido com a responsabilidade da escola em fomentar a aprendizagem e o desenvolvimento dos estudantes, questiona o que poderíamos tomar como instrumentos de superação deste problema.

    Por fi m, no artigo Democratização, participação e políticas de governo: a experiência da escola de gestores na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, apresentamos uma síntese da experiência do curso de especialização em Gestão Escolar – Escola de Gestores Unirio/MEC, em que discutimos algumas das ambiguidades das políticas públicas em educação no Brasil e os desafios que a experiência nos apresentou, com vistas a, entre outros aspectos, possibilitar subsídios àqueles que pretendem conhecer e implantar essa experiência em instituições de ensino superior.

    Acreditamos que o conjunto dos textos apresentados contribui para a democratização não apenas da escola mas também dos pensamentos possíveis sobre a escola, que tem compromisso com a transformação social, com suas necessidades de repensar-se cotidianamente, de mobilizar desejos, viabilizar caminhos e, assim, contribuir com a democratização da sociedade.

    1. Paralelepípedos e âncoras: a fome de saber e os saberes da fome Pablo Gentili

    A fome de saber e os saberes da fome

    Andréa Rosana Fetzner e

    Janaina Specht da Silva Menezes

    Pablo Gentili[1]

    O ar-condicionado do aeroporto do Rio de Janeiro parecia ter sido programado pelo responsável pelo aquecimento global. Em alguns momentos, sentia-me como um expedicionário na Antártida. Em outros, como um legionário de Cristo, atravessando o deserto do Saara. É um defeito irreparável no termostato – sentenciou de forma resignada um senhor de baixa estatura, em cujo pescoço rechonchudo os sulcos da transpiração formavam caprichosas estalactites.

    Como se isso não bastasse, meu voo estava atrasado. Na maleta de mão, carregava vários livros que precisava ler e resumir, mas a preguiça me dominava. Resignado e vencido pela sonolência, dirigi-me quase instintivamente a uma banca de re-vistas. Tentei me interessar pelo novo número da National Geographic mas, embora tenha feito um grande esforço, não consegui. Pensei em levar um exemplar da Men’s Health, que prometia ensinar a dizer adeus à barriga e revelar os mistérios de como deixar os bíceps torneados e vigorosos, mas ela também não chegou a conquistar meu coração de atleta rebaixado. Parei diante da revista Vida Simples, uma de minhas prediletas, que garantia que, com cinco minutos de exercícios por dia, eu conseguiria associar relaxamento, prazer e bem-estar, e aumentar o meu salário sem abandonar uma atitude zen. Contudo, foi a re-vista Época, de informação geral, que despertou meu interesse com sua capa alegre e colorida, na qual um menino pensativo e sonhador se apoiava sobre um livro aberto exatamente na metade: O segredo dos bons alunos. Como eles tiram boas notas (sem ser superdotados). Isto, sim, me interessa, pensei. Quando estava pagando a revista, a jovem do caixa me recomendou um livro que estava fazendo muito sucesso e que, com certeza, iria me interessar: Os sete hábitos dos adolescentes altamente efi cazes. Uma obra pequena, disse-me ela, mostrando algo que parecia um bloco de anotações, mas ao qual ela chamava livro. Tenho certeza que sim, respondi resignado, é justamente o que estou precisando. Você vai gostar – prometeu a jovem, sorrindo de satisfação talvez por ter descoberto meu perfil de leitor.

    Os eternos minutos que antecederam a decolagem do avião foram de grande angústia. Sabia que devia reler um dos excelentes capítulos de Los efectos de la educación (Os efeitos da educação), obra inspiradora de Christian Baudelot e François Leclerc. Contudo, meu coração pedia gritando que eu dedicasse a viagem a desfrutar os segredos dos bons alunos e a conhecer os hábitos dos jovens eficazes. Ao embarcar, e enquanto ainda me debatia entre a futilidade e a responsabilidade analítica, uma aeromoça desferiu seu golpe mortal ao pensamento crítico. Quer uma revista? – perguntou-me. Antes que eu respondesse sim, ela colocou em minhas mãos um pesado exemplar de Capital, publicação espanhola dedicada aos negócios e às tendências do mundo empresarial. A matéria de capa sentenciava: Atrevase a comer o mundo. Minha

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