Aproveite milhões de eBooks, audiolivros, revistas e muito mais

Apenas $11.99 por mês após o período de teste gratuito. Cancele quando quiser.

ÉTICA: Spinoza

ÉTICA: Spinoza

Ler a amostra

ÉTICA: Spinoza

notas:
5/5 (1 nota)
Duração:
698 páginas
10 horas
Lançados:
19 de dez. de 2019
ISBN:
9788583864189
Formato:
Livro

Descrição

Baruch Spinoza, foi um filósofo holandêz. Um dos grandes racionalistas e filósofos do século XVII dentro da chamada Filosofia Moderna, ao lado de René Descartes e Gottfried Leibniz. Spinoza acreditava que Deus era a engrenagem que movia o Universo, e que os textos bíblicos nada mais eram que símbolos, os quais dispensam qualquer abordagem racional. De acordo com sua visão, os textos aí contidos não traduzem a realidade que envolve o Criador e sua criação. Na esfera da sociedade protestante que dominava a Holanda não havia espaço para um pensamento considerado herético como esse, portanto os líderes judeus, recebidos com clemência por estes religiosos, não podiam tolerar uma atitude que investia contra os próprios alicerces do Cristianismo. Spinoza foi acusado de blasfemador e afastado da Sinagoga de Amsterdã, sendo deserdado pela família. O livro Ética – Demonstrada à maneira dos geômetras, concluído em 1675. é a sua obra-prima e influenciou, e continua influenciando, o pensamento de inúmeros grandes filósofos.
Lançados:
19 de dez. de 2019
ISBN:
9788583864189
Formato:
Livro

Sobre o autor


Relacionado a ÉTICA

Livros relacionados

Artigos relacionados

Categorias relacionadas

Amostra do livro

ÉTICA - Baruch Spinoza

humana

Parte I – De Deus

Definições¹

I — Entendo por causa de si aquilo cuja essência² implica a existência; ou, em outras palavras, aquilo cuja natureza não pode ser concebida senão como existente.

II — Diz-se finita em seu gênero a coisa que pode ser limitada por outra da mesma natureza. Por exemplo, um corpo chama-se finito porque podemos sempre conceber outro maior. Da mesma maneira, um pensamento é limitado por outro pensamento. Mas um corpo não é limitado por um pensamento, nem um pensamento por um corpo.³

III — Entendo por substância o que é em si e se concebe por si: isto é, aquilo cujo conceito não tem necessidade do conceito de outra coisa, do qual deve ser formado.

IV — Entendo por atributo⁴ aquilo que o entendimento percebe de uma substância como constituindo a sua essência.

V — Entendo por modo as afecções⁵ de uma substância, ou, em outras palavras, o que existe em outra coisa, mediante a qual também é concebido.⁶

VI — Entendo por Deus um ser absolutamente infinito, isto é, uma substância constituída por uma infinidade de atributos, cada um dos quais exprime uma essência eterna e infinita.

Explicação — Digo absolutamente infinito e não infinito no seu gênero porque daquilo que é infinito somente em seu gênero nós podemos negar uma infinidade de atributos; mas, quanto ao que é absolutamente infinito, tudo aquilo que exprime uma essência e não envolve negação alguma pertence à sua essência.

VII — Livre diz-se da coisa que existe unicamente pela necessidade da sua natureza e é determinada por si só a agir: necessária, ou antes, coagida, a coisa que é determinada em outras palavras a existir e a produzir algum efeito segundo certa e determinada razão.

VIII — Entendo por eternidade a própria existência, enquanto é concebida como seguindo-se necessariamente da mera definição de uma coisa eterna.

Explicação — Tal existência, com efeito, é concebida como uma verdade eterna, assim como a essência da coisa, e, por isso, não pode ser explicada mediante a duração ou o tempo, ainda quando a duração é concebida sem começo nem fim.

Axiomas

I — Tudo que é. É em si ou em outra coisa.

II — O que não pode ser concebido por meio de uma outra coisa, deve ser concebido por si mesmo.¹⁰

III — De uma dada causa determinada segue-se necessariamente um efeito, e, ao contrário, se nenhuma causa determinada é dada, é impossível seguir-se um efeito.¹¹

IV — O conhecimento do efeito depende do conhecimento da causa, e impIica-o.¹²

V — As coisas que não têm nada em comum entre si não se podem conhecer uma por meio da outra; ou, o conceito de uma não implica o conceito da outra.¹³

VI — Uma ideia verdadeira deve concordar com o objeto de que é ideia.

VII — Toda coisa que pode ser concebida como não existente, a essência dela não implica a existência¹⁴

Proposição I

A substância é por natureza anterior às suas afecções.¹⁵

Demonstração — Isso é evidente pelas Definições III e V.

Proposição II

Duas substâncias que têm atributos diversos nada têm em comum entre si.

Demonstração — Isso é evidente pela Definição III. Cada uma dessas substâncias, com efeito, deve existir em si mesma e deve ser concebida por si mesma, ou, em outras palavras, o conceito de uma não implica o conceito da outra.¹⁶

Proposição III

Se diversas coisas não têm nada de comum entre si, uma delas não pode ser causa da outra.

Demonstração — Se nada têm em comum entre si, não podem elas pois (Axioma V) conhecer-se uma pela outra, e assim (Axioma IV), uma não pode ser causa da outra. Q.E.D. ¹⁷

Proposição IV

Duas ou mais coisas distintas se distinguem entre si, ou pela diversidade dos atributos das substâncias, ou pela diversidade das afecções destas.

Demonstração — Tudo o que existe, existe em si ou em outra coisa (Axioma I), isto é (Definições III e V) nada é dado fora do entendimento¹⁸ a não ser as substâncias e as suas afecções.¹⁹ Nada pois por que se possam distinguir diversas coisas é dado fora do entendimento, exceto as substâncias ou, o que (Definição IV) vem a dar no mesmo, seus atributos²⁰ e suas afecções. Q.E.D.

Proposição V

Não pode haver na natureza duas ou mais substâncias com a mesma propriedade ou atributo.

Demonstração — Se existissem várias substâncias distintas, deveriam elas distinguir-se entre si ou pela diversidade dos atributos, ou pela diversidade das afecções (proposição precedente). Se elas se distinguem somente pela diversidade dos atributos; concorda-se, pois em que não haja senão uma do mesmo atributo. Se, porém, elas se distinguem pela diversidade das afecções, uma vez que a substância (Proposição I) é anterior²¹ pela sua natureza, às suas afecções, não se poderá, pois, pondo de parte suas afecções e considerando-se em si mesma, isto é (Definição III e Axioma VI), concebê-la realmente como distinta de uma outra, em outros termos, não poderá haver várias substâncias, mas somente uma. Q.E.D.

Proposição VI

Uma substância não pode ser produzida por outra substância.

Demonstração — Não pode haver na natureza duas substâncias que tenham o mesmo atributo (proposição precedente), isto é (Proposição II), que tenham entre si alguma coisa de comum. E assim (Proposição III), uma não pode ser a causa da outra, ou uma não pode ser produzida pela outra. Q.E.D.

Corolário

Segue-se daí que uma substância não pode ser produzida por outra coisa. Por que nada é dado na natureza a não ser as substâncias e suas afecções, como é evidente pelo Axioma I e as Definições III e V. Ora, uma substância não pode ser produzida por outra substância (proposição precedente). Portanto, uma substância não pode ser absolutamente produzida por outra coisa. Q.E.D.

Outra demonstração — Essa proposição demonstra-se ainda mais facilmente pelo absurdo da contraditória. Se, com efeito, uma substância pudesse ser produzida por outra coisa, o seu conhecimento deveria depender da sua causa (Axioma VI); e assim (Definição III), não seria uma substância.

Proposição VI

Existir é próprio da natureza de uma substância.

Demonstração — Como uma substância não pode ser produzida por outra coisa (corolário da proposição precedente), será ela pois causa de si, isto é (Definição I), sua essência implica necessariamente a existência, ou, em outras palavras, é próprio à sua natureza existir. Q.E.D.

Proposição VIII

Toda substância é necessariamente infinita.

Demonstração — Uma substância que tenha um só atributo não pode ser senão única (Proposição V), e é de sua natureza existir (Proposição VII). Será, pois, da sua natureza que ela exista, quer como coisa finita, quer como coisa infinita. Mas, não como coisa finita, pois, nesse caso (Definição II), deveria ser limitada por outra da mesma natureza, a qual (Proposição VII), deveria necessariamente existir; haveria, pois, duas substâncias do mesmo atributo, o que é absurdo (Proposição V). Portanto, ela existe só como infinita. Q.E.D.

Escólio I

Sendo o ser finito, com efeito, uma negação parcial, e o ser infinito, a afirmação absoluta da existência de uma natureza qualquer, segue-se, pois, da Proposição VII, somente que toda substância deve ser infinita.

Escólio II

Não duvido que a todos aqueles que julgam as coisas confusamente e que não têm o costume de conhecê-las pela suas primeiras causas seja difícil conceber a demonstração da Proposição VII; com efeito, não distinguem eles as modificações das substâncias e as próprias substâncias, e não sabem como as coisas se produzem. Mas, vendo que as coisas naturais têm um princípio, atribuem este às substâncias. Os que, com efeito, ignoram as verdadeiras causas das coisas, confundem tudo e, sem repugnância alguma da sua mente, forjam árvores falantes como homens e imaginam homens que nascem de pedras tão bem como do sêmen, e quaisquer formas transformando-se também em quaisquer outras.

Assim, igualmente os que confundem a natureza divina com a humana atribuem facilmente a Deus as paixões humanas, principalmente quando ignoram como se produzem estas. Se, ao contrário, os homens atentassem para a natureza da substância, não duvidariam, de modo algum, da verdade da Proposição VII; melhor, essa proposição seria para todos um axioma e seria enumerada entre as noções comuns.

Por que se entenderia por substância o que é em si e se concebe por si, isto é, aquilo cujo conhecimento não carece do conhecimento de uma outra coisa; por modificações, ao contrário, se entenderia aquilo que existe em uma outra coisa, e cujo conceito se forma por meio da coisa em que elas estão. É por isso que podemos ter ideias verdadeiras a respeito de modificações não existentes; se bem que elas não existam em ato fora do entendimento, a sua essência não é, com efeito, menos compreendida em uma outra coisa pela qual pode ser concebida, ao passo que a verdade das substâncias fora do entendimento não reside senão nelas mesmas, porque elas se concebem por si mesmas. Se, pois, se dissesse que se tem uma ideia clara e distinta de uma substância, isto é, uma ideia verdadeira e que, apesar disso, se duvida da existência dessa substância, na verdade seria o mesmo dizer que se tem uma ideia verdadeira e se duvida da verdade dela (assim como se toma manifesto com um pouco de atenção); ou ainda, quem admitir a criação de uma substância, admitirá ao mesmo tempo que uma ideia falsa²² se tomou verdadeira, e nada mais absurdo se pode conceber. E necessário, pois, reconhecer que a existência de uma substância, da mesma maneira que sua essência, é uma verdade eterna. E daí podemos concluir, ainda de outra maneira, que não pode haver senão uma substância única da mesma natureza, o que supus que valesse a pena ser mostrado aqui. Mas para fazê-lo com ordem é necessário observar:

I — Que a verdadeira definição de cada coisa não envolve e não exprime senão a natureza da coisa definida. Segue-se daí:

II — Que nenhuma definição implica e exprime jamais número determinado de indivíduos, pois que nada exprime senão a natureza da coisa definida. Por exemplo, a definição do triângulo não exprime nada mais do que a natureza do triângulo, e não, de forma alguma um número determinado de triângulos.

III — Deve-se notar que, para cada coisa existente, há necessariamente certa causa em virtude da qual ela existe.

IV — Note-se enfim que essa causa, em virtude da qual essa coisa existe, deve ou ser contida na natureza mesma e na definição da coisa existente (com efeito, então, é próprio da sua natureza existir), ou ser dada fora dela. Isso posto, segue-se que, se existe na natureza certo número de indivíduos, deve haver necessariamente uma causa em virtude da qual existem esses indivíduos, e não um número maior ou menor deles. Se, por, exemplo, existem na natureza vinte homens (suponho, para maior clareza, que eles existem simultaneamente e não tenham sido precedidos por outros), não bastará (para tomar conhecimento da existência desses vinte homens) que mostremos a causa da natureza humana em geral; será necessário, porém, que façamos conhecer a causa pela qual não existem mais de vinte, ou menos que vinte, pois que (em virtude da Observação III) deve haver necessariamente uma causa da existência de cada um. Mas essa causa (segundo as Observações II e III) não pode ser contida na própria natureza humana, pois que a verdadeira definição do homem não implica o número vinte; e, assim (segundo a Observação IV), a causa pela qual existem esses vinte homens, e consequentemente cada um deles em particular, deve ser necessariamente dada de cada um; e, por essa razão, deve-se concluir absolutamente que, para toda coisa de cuja natureza podem existir vários indivíduos deve haver necessariamente uma causa exterior em virtude da qual esses indivíduos existem. Mas, uma vez que (como já se mostrou neste escólio), é próprio da natureza de uma substância existir, sua definição deve envolver a existência necessária e, em consequência, sua existência deve ser concluída unicamente da sua definição. Mas, da sua definição (como se vê pelas Observações II e III) não se pode seguir a existência de várias substâncias; segue-se, pois, necessariamente, que não existe senão uma única substância da mesma natureza, o que se queria afirmar.²³

Proposição IX

Quanto mais realidade ou ser uma coisa tem, tanto mais atributos lhe são próprios.

Demonstração — É evidente pela Definição IV.

Proposição X

Cada um dos atributos de uma mesma substância deve ser concebido por si.

Demonstração — Um atributo é, com efeito, o que o entendimento percebe de uma substância como constituindo a sua essência (Definição IV); e, por conseguinte (Definição III), deve ser concebido por si. Q.E.D.

Escólio I

Vê-se, pois, que mesmo que sejam concebidos dois atributos como realmente distintos, isto é, um sem auxílio do outro, não podemos daí concluir, entretanto, que eles constituam dois seres, isto é, duas substâncias²⁴ diferentes, porque é da natureza de uma substância que cada um dos seus atributos seja concebido por si, uma vez que todos os atributos que ela possui existiram nela ao mesmo tempo e que um não pode ser produzido por outro, mas cada um exprime a realidade ou o ser da substância.

Portanto, não é absurdo referir vários atributos a uma mesma substância; ao contrário, na natureza, nada há de mais claro do que isto: cada ser deve ser concebido sob certo atributo, e a realidade ou ser que possui é proporcional ao número de atributos que exprimem a necessidade, ou, em outras palavras, uma eternidade e uma infinidade; e consequentemente também isto; um ser absolutamente infinito deve ser necessariamente definido (como se disse na Definição VI) como ente que é constituído por uma infinidade de atributos, cada um dos quais exprime certa essência eterna e infinita. Se se perguntar agora qual é o sinal que nos permite reconhecer a diversidade das substâncias, leiam-se as proposições seguintes: mostram elas que não existe na natureza senão uma substância única e que esta é absolutamente infinita, o que faz inútil a procura de tal sinal.

Proposição XI

Deus, isto é, uma substância constituída por uma infinidade²⁵ de atributos, cada um dos quais exprime uma essência eterna e infinita, existe necessariamente.²⁶

Demonstração — Se negais isso, concebeis, se tal é possível, que Deus não existe. Sua essência (Axioma VII), não envolve, pois, a sua existência. Ora, isso (Proposição VII) é absurdo; portanto. Deus existe²⁷ necessariamente.

Outra demonstração — Para qualquer coisa deve haver uma causa, ou razão plausível, para que ela exista ou não. Por exemplo, se um triângulo existe, deve haver uma razão ou causa pela qual exista; se não existe, deve também haver uma razão ou causa que impede a sua existência, ou a suprima. Essa razão ou causa deve ser, aliás, contida, ou na natureza da coisa ou fora dela. A razão, por exemplo, pela qual não existe um círculo quadrado, a sua própria natureza a indica, visto que ela implica uma contradição. Para que, ao contrário, exista uma substância, decorre isso também apenas da sua própria natureza, pois que esta implica a sua existência necessária (Proposição VII). Mas a razão que faz com que o círculo ou triângulo exista ou não, não decorre da sua natureza, mas da ordem de toda a natureza corpórea; pela qual dessa se deve seguir ou que o triângulo exista atualmente por necessidade, ou que seja impossível que ele exista atualmente. E isso é evidente por si.

Segue-se daí que existe necessariamente aquilo para o qual não foi dada nenhuma razão ou causa que impeça a sua existência. Portanto, se não pode ser dada nenhuma razão ou causa que impeça a existência de Deus ou a suprima, não se poderá absolutamente evitar a conclusão de que ele existe necessariamente. Mas, para que pudesse ser dada, deveria tal razão ou causa ser contida na própria natureza de Deus ou fora dessa natureza, isto é, em uma outra substância de outra natureza. Pois, se fosse da mesma natureza, concordar-se-ia, por isso mesmo, que Deus é dado. Mas uma substância que fosse de outra natureza nada poderia ter em comum com Deus (Proposição II), e, portanto, não poderia pôr sua existência nem tirá-la. Portanto, não se podendo dar a razão ou causa que exclua a existência divina fora da natureza de Deus, ela deverá, necessariamente, a não ser que não exista, ser contida na sua própria natureza, a qual deveria então envolver uma contradição. Ora, é absurdo afirmá-lo de um ser absolutamente infinito e soberanamente perfeito; portanto, nem em Deus nem fora de Deus é dada razão ou causa alguma que suprima sua existência, e, por conseguinte. Deus existe necessariamente.²⁸ Q.E.D.

Outra demonstração — Poder não existir é impotência, e, ao contrário, poder existir é poder (como é evidente). Se, pois, o que existe no instante atual, necessariamente, são somente seres finitos, seres finitos serão mais poderosos que um Ser absolutamente infinito; ora, isso (como é evidente) é absurdo; pois ou nada existe, ou um ser absolutamente infinito existe também necessariamente. Ora, nós existimos em nós mesmos ou em outra coisa que existe necessariamente (ver Axioma I e Proposição VII); um Ser absolutamente infinito, isto é (Definição VI), Deus, existe necessariamente.²⁹ Q.E.D.

Escólio

Nessa última demonstração, quis mostrar a posteriori a existência de Deus, a fim de que a prova fosse mais fácil de se perceber; não que a existência de Deus não se siga a priori do mesmo princípio. Porque, se poder existir é potência, segue-se que, quanto mais realidade tem a natureza de uma coisa, tanto mais ela tem, por si mesma, forças para existir; assim, um Ser absolutamente infinito, em outras palavras. Deus, tem, por si mesmo, uma potência absolutamente infinita de existir, e, por consequência, existe absolutamente.³⁰

Entretanto, talvez muitos não verão facilmente a evidência dessa demonstração porque se acostumaram a considerar somente as coisas que provêm de causas exteriores; e entre essas coisas, as que se formam depressa, isto é, que existem facilmente, eles as veem também perecer facilmente, ao passo que as que concebem como tendo maior número de caracteres, eles as julgam mais difíceis de fazer, isto é, não creem que elas existam tão facilmente. Para os libertar desses preconceitos, porém, não tenho necessidade de mostrar aqui a medida em que é verdadeiro este dito: o que se faz depressa, depressa perece; nem tampouco, em relação ao conjunto da natureza, todas as coisas são igualmente fáceis ou não. Basta notar somente que não falo aqui de coisas que provêm de causas exteriores, mas somente de substâncias que (Proposição VI) não podem ser produzidas por nenhuma causa exterior. Porque para as coisas que provêm de causas exteriores, quer se componham de muitas partes, quer de pequeno número, tudo o que têm elas de perfeição e de realidade, é devido à virtude da causa exterior, e, assim, sua existência provém somente da perfeição dessa causa, não da sua.

Ao contrário, tudo o que uma substância tem de perfeição não se deve a nenhuma causa exterior, porquanto a sua existência tem de resultar exclusivamente da natureza que lhe é própria, a qual dela não é mais do que a própria essência. A perfeição de uma coisa não suprime a sua existência, antes, pelo contrário, a estabelece; é a sua imperfeição que a suprime; e, assim, não podemos estar mais certos da existência de alguma coisa do que da existência do Ser absolutamente infinito ou perfeito, isto é, de Deus. Com efeito, uma vez que sua essência exclui toda imperfeição e implica a perfeição absoluta, por isso mesmo tira toda a razão de duvidar da sua existência e dessa dá uma certeza, soberana, como creio que o veja qualquer pessoa que preste um pouco de atenção.

Proposição XII

De nenhum atributo da substância pode ser formado um conceito verdadeiro de que decorra que a substância possa ser dividida.

Demonstração — Ou, com efeito, as partes nas quais a substância assim concebida fosse dividida, conservariam a natureza da substância, ou não conservariam. Na primeira hipótese, cada parte (Proposição VIII) deverá ser infinita e (Proposição VI) causa de si, e (Proposição V) ser constituída por um atributo diferente; assim, de uma só substância poderiam ser formadas várias substâncias, o que (Proposição VI) é absurdo. Acresce que as artes (Proposição II) nada teriam de comum com o seu todo, e que o todo (Definição IV e Proposição X) poderia existir e ser concebido sem as partes, o que ninguém poderá duvidar que seja absurdo. Agora admitamos a segunda hipótese, a saber, que as partes não conservaram a natureza substâncias; desde então, se a substância inteira fosse dividida em partes iguais, perderia ela a sua natureza de substância e cessaria de ser, o que é (Proposição VII) absurdo.

Proposição XIII

A substância absolutamente infinita é indivisível.³¹

Demonstração — Se fosse divisível, as partes nas quais fosse dividida ou conservariam a natureza da substância absolutamente infinita ou não a conservariam. Na primeira hipótese haveria várias substâncias da mesma natureza, o que é (Proposição V) absurdo. Na segunda, uma substância absolutamente infinita poderia, como se viu mais acima, cessar de ser, o que é (Proposição XI) igualmente absurdo.

Corolário

Daí decorre que nenhuma substância e, por conseguinte, nenhuma substância corporal, à medida que é uma substância, é divisível.

Escólio

Que a substância seja indivisível pode-se entender, ainda mais simplesmente, tão somente pelo fato de que a natureza de uma substância não pode ser concebida de outro modo senão como infinita, e que só se pode entender como parte da substância uma substância finita, o que implica manifesta contradição.

Proposição XIV

Fora de Deus nenhuma substância pode ser dada e conhecida.

Demonstração — Como Deus é o ser absolutamente infinito, do qual nenhum atributo que exprima uma essência da substância pode ser negado (Definição VI), segue-se que existe necessariamente (Proposição XI); se, portanto, alguma substância existisse fora de Deus, deveria ser explicada por algum atributo de Deus, e assim existiriam duas substâncias do mesmo atributo, o que é absurdo (Proposição V); em consequência, nenhuma substância fora de Deus pode existir e, consequentemente, também não pode ser concebida. Pois se pudesse ser concebida, deveria necessariamente ser concebida como existente; ora, isso (pela primeira parte desta demonstração) é absurdo. Portanto, fora de Deus nenhuma substância pode existir e ser concebida. Q.E.D.

Corolário I

Segue-se daí clarissimamente: I) que Deus é único³², isto é (Definição VI), não há na natureza senão uma só substância que é absolutamente infinita, como já indicamos no escólio da Proposição X.

Corolário II

Segue-se: II) que a coisa pensante e a coisa extensa são ou atributos de Deus ou afecções dos atributos de Deus.³³

Proposição XV

Tudo o que existe, existe em Deus, e sem Deus nada pode existir nem ser concebido.

Demonstração — Fora de Deus nenhuma substância pode existir nem ser concebida (Proposição XIV), isto é (Definição III), nenhuma coisa que é em si e é concebida por si. Por outro lado, os modos (Definição V) não podem existir nem ser concebidos sem uma substância; portanto, só podem existir na natureza divina e ser concebidos por ela. Ora, nada existe fora das substâncias e dos modos (Axioma I)³⁴. Portanto, sem Deus nada pode existir nem ser concebido. Q.E.D.

Escólio

Há quem imagine Deus composto, como o homem, de corpo e alma, e sujeito a paixões; bastam as demonstrações precedentes para mostrar que aqueles estão afastados do verdadeiro conhecimento de Deus. Deixo-os de lado, porque os que, de qualquer modo, consideram a natureza divina, estão de acordo em negar que Deus seja corpóreo. E tiram esses muito justamente a prova dessa verdade do fato de que entendemos por corpo toda quantidade, longa, larga e profunda, limitada por certa figura; o que seria a coisa mais absurda que se pudesse dizer de Deus, ou, o que é o mesmo, do ser absolutamente infinito. Ao mesmo tempo, porém, fazem ver claramente, tentando demonstrá-lo por outras razões, que separam inteiramente a substância corporal ou extensa da natureza de Deus³⁵ e admitem que esta é criada por Deus. Mas ignoram completamente a potência divina pela qual pode ser criada, o que mostra claramente que não conhecem o que eles próprios dizem³⁶.

Eu, pelo menos, demonstrei claramente, tanto quanto posso julgar (corolário da Proposição VI e Escólio II da Proposição VIII) que nenhuma substância pode ser produzida ou criada por outro ser. Além disso, mostramos pela Proposição XIV que, fora de Deus, nenhuma substância pode existir nem ser concebida; concluímos daí que a substância extensa é um dos atributos infinitos de Deus³⁷. Todavia, para uma explicação mais completa, refutarei os argumentos desses adversários, argumentos esses que se reduzem todos ao seguinte: 1º) que a substância corporal, como substância, se compõe, segundo pensam, de partes; e por essa razão negam que possa ela ser infinita, e, consequentemente, que ela possa pertencer a Deus. Exprimem-no por numerosos exemplos, alguns dos quais exporei. Se a substância corporal, dizem eles, é infinita, conceba- se a sua divisão em duas partes: cada uma delas será finita ou infinita. Na primeira hipótese, o infinito se compõe de duas partes finitas, o que é absurdo. Na segunda, haverá, pois, um infinito que é o dobro de um outro, o que não é menos absurdo. Além disso, se uma quantidade infinita é medida por meio de partes que têm o comprimento de um pé, deve ser composta de uma infinidade dessas partes; da mesma maneira, se for medida por meio de partes do comprimento de uma polegada; em consequência, um número infinito será doze vezes maior que outro número infinito.

Enfim, se se conceber que duas linhas, A B e A C, partem de um ponto de uma quantidade infinita, e que essas, situadas a certa distância inicialmente determinada, sejam prolongadas até o infinito, é certo que a distância entre B e C aumentará continuamente, e de determinada passará a ser enfim indeterminável. Pois que esses absurdos são, conforme eles pensam, a consequência de que se supõe uma quantidade infinita, concluem daí que a substância corpórea deve ser finita e, consequentemente, não pertence à essência de Deus.

O segundo argumento é extraído da soberana perfeição de Deus. Deus, dizem eles, pois que é um ser soberanamente perfeito, não pode ser passivo; ora, a substância corpórea, uma vez que é divisível, pode ser passiva; segue-se, pois, que ela não pertence à essência de Deus.

Tais são os argumentos que encontrei nos autores, e pelos quais se tenta mostrar que a substância corporal é indigna da natureza de Deus e que não lhe pode pertencer. Entretanto, se se prestar atenção, há de se reconhecer que já respondi a esses argumentos; pois eles se fundam somente na suposição de que a substância corpórea é composta de partes, o que já fiz ver (Proposição XII e corolário da Proposição XIII) que é absurdo. Depois, se se quiser examinar a questão, ver-se-á que todas essas consequências absurdas (supondo que o sejam todas, a respeito do que não discuto por ora), das quais eles querem concluir que a substância extensa é finita, não decorrem do fato de que se supõe a quantidade infinita, mas de que se supôs mensurável essa quantidade infinita, e composta de partes finitas; não se pode pois concluir coisa alguma desses absurdos, senão que uma quantidade infinita não é mensurável e não se pode compor de partes finitas. E é isso mesmo que já demonstramos acima (Proposição XII, etc.). A seta que nos destinam volta-se, pois, realmente contra eles próprios.

Se querem concluir, aliás, do absurdo de sua própria suposição de que uma substância extensa deve ser finita, na verdade fazem como alguém que, por ter forjado um círculo com as propriedades do quadrado, concluísse disso que um círculo não tem um centro de onde todas as linhas traçadas até a circunferência são iguais. Porque a substância corporal não pode ser concebida senão como infinita, única e indivisível (Proposição VIII, V e XII), eles a concebem como múltipla e divisível para poder concluir daí que ela é finita.

E assim que outros, depois de ter imaginado que uma linha é composta de pontos, sabem achar numerosos argumentos para mostrar que uma linha não pode ser dividida até o infinito. E com efeito, não é menos absurdo supor que a substância corporal é composta de corpos ou de partes do que supor o corpo formado de superfícies, a superfície, de linhas, e a linha, enfim, de pontos.

Todos aqueles que sabem que uma razão clara é infalível devem convir nisso, principalmente aqueles que negam a existência do vácuo. Porque, se a substância corporal pudesse ser dividida de tal sorte que as suas partes fossem realmente distintas, por que é que uma parte não poderia ser aniquilada, conservando as outras entre si as mesmas conexões que anteriormente? E por que devem elas todas adaptar-se umas às outras, de maneira que não haja o vácuo? Certamente, se

Você chegou ao final dessa amostra. Cadastre-se para ler mais!
Página 1 de 1

Análises

O que as pessoas acham de ÉTICA

5.0
1 notas / 0 Análises
O que você achou?
Nota: 0 de 5 estrelas

Avaliações do leitor