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Jovens, ensino médio e educação profissional:: Políticas públicas em debate

Jovens, ensino médio e educação profissional:: Políticas públicas em debate

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Jovens, ensino médio e educação profissional:: Políticas públicas em debate

Duração:
357 páginas
4 horas
Lançados:
30 de jun. de 2020
ISBN:
9786556500188
Formato:
Livro

Descrição

Esse livro reúne contribuições de vários pesquisadores sobre as temáticas: ensino médio, educação tecnológica, jovens e políticas públicas de qualificação profissional. Objetiva proporcionar ao leitor uma visão ampliada dos enfrentamentos da sociedade brasileira, nos campos da educação básica e profissional, e dos desafios impostos pela globalização econômica e pelas mudanças no mundo do trabalho. São discutidas as políticas de formação do jovem trabalhador, nas diversas modalidades de qualificação profissional em curso.
A coletânea expõe os riscos e as possíveis consequências da adequação dessas políticas aos interesses do capital. Os autores argumentam a favor de uma sólida formação para todos os jovens, cuja finalidade não seja atender apenas aos interesses mercadológicos, mas sim estimular a autonomia e a formação de jovens trabalhadores envolvidos na construção de uma sociedade mais justa e solidária.
Lançados:
30 de jun. de 2020
ISBN:
9786556500188
Formato:
Livro


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Jovens, ensino médio e educação profissional: - Ramon de Oliveira (org.)

2011

1

A EDUCAÇÃO TECNOLÓGICA COMO POLÍTICA DE ESTADO

Marise Ramos

Introdução

A expressão educação tecnológica é alvo de um debate conceitual importante, tendo sido usada por Marx, no século XIX, para discutir o programa de educação da classe trabalhadora. Atualmente, ela tende a definir um tipo de educação afinada com as características da vida contemporânea, na qual as tecnologias estão fortemente presentes, podendo ou não estar vinculada a uma finalidade profissionalizante. Ainda assim, dessa perspectiva não escapa a preocupação de preparar as pessoas para o uso das tecnologias mais comuns. Especificamente na história da educação brasileira a expressão educação tecnológica passa a ser utilizada como um suposto do ensino técnico, especialmente configurado a partir da superação da eletromecânica como base técnico-científica da produção pela microeletrônica.

É nesse contexto que se travam os debates sobre as tendências a desqualificação, qualificação, requalificação e polarização das qualificações dos postos de trabalho, conjugados a uma certa reconfiguração do trabalho do técnico de nível médio. Este, como sabemos, em sua origem se caracterizava pelas funções intermediárias àquelas exercidas por profissionais considerados qualificados – com escolaridade de nível superior – e às exercidas por operários pouco qualificados, de baixa escolaridade. Divisão esta típica do modelo taylorista-fordista de organização da produção com o predomínio da eletromecânica como base técnico-científica.

A reestruturação produtiva, a qual, sabemos, conjugou mudanças de ordem tecnológica com novos modelos de organização do trabalho, colocou em xeque essa classificação, porque demandou dos trabalhadores em geral, e especialmente dos mais escolarizados, uma compreensão mais global dos processos produtivos, uma vez que a gestão do trabalho passou a se realizar de maneira mais horizontalizada, na forma, por exemplo, de células de produção baseadas na integração em equipes de postos e tarefas de trabalho antes parcelados.

Nesses termos, tanto a base técnico-científica da produção demandaria uma formação que proporcionasse a compreensão dos princípios científico-tecnológicos dos processos produtivos, quanto os novos modelos de gestão pediriam a ampliação da educação básica dos trabalhadores. Uma vez que o ensino técnico, principalmente aquele realizado em instituições consideradas de excelência, como é o caso das escolas federais, já enfrentava o desafio de articular a formação propriamente técnica com o ensino das ciências, a transição desse tipo de ensino para uma educação mais ampla e complexa, na forma da educação tecnológica, parecia um fenômeno tão inevitável quanto necessário. Os rumos concretos tomados por esse fenômeno, entretanto, não podem ser compreendidos a despeito da natureza dependente do capitalismo brasileiro.

Florestan Fernandes caracteriza o capitalismo dependente pela aliança entre a burguesia de um país com a burguesia de países capitalistas hegemônicos, num movimento que reúne os interesses capitalistas de uma classe para além dos limites de uma nação. Para ele, o capitalismo dependente é uma forma de capitalismo necessária à acumulação do capital, portanto, estrutural ao sistema capital. Algumas de suas marcas são a inexistência de um projeto (capitalista) nacional e, por consequência, de uma burguesia nacional, bem como o predomínio da autocracia exercida por representantes dessa classe e, assim, a redução ao mínimo da democracia.

A dependência e a subordinação de países desse tipo – tanto em termos econômicos quanto culturais – trazem limitações estruturais às possibilidades de desenvolvimento social e econômico nacional, para o qual a produção intelectual e material no seu território é parâmetro fundamental. Dessa forma, o desenvolvimento da ciência e da tecnologia, bem como a formação intelectual de seus trabalhadores, não constituem princípios ordenadores de sociedades de capitalismo dependente.

Por esse viés se pode compreender que a educação tecnológica no Brasil não se configurou com base no princípio da elevação cultural e intelectual dos trabalhadores e no desenvolvimento científico-tecnológico de corte nacional. Ao contrário, o que se viu, especialmente a partir dos anos 1990 – e o período é historicamente significativo diante do avanço e da consolidação do pensamento neoliberal, especialmente em países de capitalismo dependente –, foi a fragmentação do ensino técnico, em face das novas regulamentações do que se passou a designar como educação profissional, bem como a diversificação do ensino superior, por meio dos cursos superiores de tecnologia. Essas políticas, juntamente com outras, foram enfeixadas na denominação de educação profissional e tecnológica.

Apresentadas essas reflexões iniciais, desenvolveremos nossa exposição considerando três grandes momentos históricos da educação dos trabalhadores brasileiros, dois dos quais representativos do movimento de transição do ensino técnico à educação tecnológica. Nossa análise irá se apoiar numa abordagem teórica sobre a concepção de Estado, bem como sobre a especificidade do capitalismo brasileiro, sem o que algumas contradições importantes da educação tecnológica como política de Estado podem não se manifestar.

Marcos teóricos para a análise da educação tecnológica como política de Estado: Concepções e funções do Estado capitalista

Ao abordarmos a educação tecnológica como programa de Estado, somos levados a fazê-lo mediante uma concepção de Estado, sendo essa demarcação uma necessidade teórica, posto que ela fundamenta a direção metodológica e ético-política da análise. Nosso ponto de partida é a negação da neutralidade do Estado[1] e a afirmação de sua vinculação estrutural e orgânica com o modo de produção capitalista, tal como encontramos na tradição filosófica marxista.

Uma teoria sobre o Estado em Marx deve ser encontrada menos em uma formulação teórica direta e mais nas críticas feitas por ele à concepção de Estado em Hegel e nos liberais, esta última mediante a crítica à economia política. Por meio dessas, Marx desenvolve o método e a teoria sobre a sociedade capitalista baseados no conceito de modo de produção. Também análises de conjunturas históricas específicas nos fornecem elementos sobre sua concepção de Estado como a superestrutura política e jurídica que emerge das relações de produção, e que é expressão da dominação da classe burguesa no capitalismo.

Esta última abordagem sofre influência de Engels e das próprias visitas de Marx a Paris, destacando a visão da dinâmica social fundamentada na luta de classes. Compreende-se, assim, o Estado como uma instituição com vínculo de classe, uma forma de organização que a burguesia necessariamente adota para fins internos e externos, para a garantia mútua de sua propriedade e de seus interesses. Na sociedade capitalista, o Estado representa, ainda, o braço repressivo da burguesia.

Antonio Gramsci, analisando a luta de classes no início do século XX, compreende que a exploração e a expropriação da classe trabalhadora pela burguesia não ocorrem somente pela dominação, mas também pela obtenção do consentimento ativo das massas. Isso implica que a classe no poder é não somente dominante, mas também dirigente, na medida em que exerce a hegemonia, ou seja, que confere direção política e cultural à sociedade. Nesses termos, o Estado deixa de ser compreendido exclusivamente como aparelho de repressão e passa a ser visto também como aparelho de obtenção do consenso.

Configura-se, assim, o Estado educador, cujo fim é adequar a ‘civilização’ e a moralidade das mais amplas massas populares às necessidades do desenvolvimento continuado do aparelho econômico de produção, portanto, elaborar também fisicamente tipos novos de humanidade (Gramsci 1991, p. 91). É nesses termos que Gramsci formula sua concepção de Estado como todo o complexo de atividades práticas e teóricas com as quais a classe dirigente justifica e mantém não só o seu domínio, mas consegue obter o consentimento ativo dos governados (ibidem, p. 87).

A concepção de Estado então se amplia, juntamente com suas funções, que passam a ser de hegemonia revestida de coerção, e implica tanto a superestrutura política e jurídica, quanto a própria economia. A sociedade civil, antes esfera específica desta última e identificada com a estrutura econômica, passa a ser reconhecida como dimensão própria do Estado juntamente com a sociedade política a qual, com os dispositivos jurídicos, configura o Estado stricto sensu ou governo.

O Estado assume funções também econômicas, assim como a esfera da sociedade civil passa a compor a superestrutura, já que é nela que se organizam os aparelhos privados de hegemonia, por meio dos quais a direção política e cultural ao povo se realiza. No pensamento de Gramsci, a metáfora marxiana da sociedade como edifício, formada pela base ou estrutura sobre a qual se elevaria a superestrutura, é substituída pelo bloco histórico ou unidade entre a natureza e o espírito (estrutura e superestrutura), unidade dos contrários e dos distintos (ibidem, p. 12).

Ellen Wood tratará dessa questão mostrando que essa unidade é inerente à análise de Marx, dada especialmente pela afirmação de que ‘o capital é uma relação social de produção’, [e] que categorias econômicas expressam certas relações sociais determinadas (Wood 2003, p. 30). As relações de produção se manifestam como relações de dominação, como direitos de propriedade, como o poder de organizar e governar a produção e a apropriação. Ou seja,

(...) elas tomam forma de relações jurídicas e políticas particulares – modos de dominação e coerção, formas de propriedade e organização social – que não são meros reflexos secundários, nem mesmo apoios secundários, mas constituintes dessas relações de produção. A esfera da produção é dominante não no sentido de se manter afastada das formas jurídico-políticas ou de precedê-las, mas exatamente no sentido de que essas formas são formas de produção, os atributos de um sistema produtivo particular. (Ibidem, p. 33; grifos da autora)

No capitalismo, as esferas da economia e da política, unidades constituintes das relações sociais de produção, aparecem diferenciadas, uma vez que as funções sociais de produção e distribuição, extração e apropriação de excedentes, e a alocação do trabalho social são, de certa forma, privatizadas e obtidas por meios não autoritários e não políticos. A esfera política no capitalismo tem um caráter especial porque o poder de coação que apoia a exploração capitalista não é acionado pelo apropriador nem se baseia na subordinação política ou jurídica do produtor a um senhor apropriador. Mas são essenciais um poder e uma estrutura de dominação. A propriedade privada dos meios de produção e a relação contratual entre produtor e apropriador, assim como o processo de troca de mercadorias, exigem formas legais, aparato de coação e as funções policiais do Estado. Historicamente, é o Estado que cumpre essas funções, estando na base do capitalismo. Em todos esses sentidos, apesar de sua diferenciação, a esfera econômica se apoia firmemente na política (Wood 2003, p. 35).

A análise de Poulantzas (1985) segue na mesma direção, considerando que o Estado organiza a classe dominante – burguesia e suas frações – representando e organizando o interesse político a longo prazo do bloco no poder, do qual participam, em certas circunstâncias, as frações provenientes de outros modos de produção presentes na formação social capitalista, a exemplo dos grandes proprietários de terra – observação esta particularmente importante para a análise do Brasil, uma vez que o poder do Estado capitalista brasileiro se exerceu mediante uma aliança estratégica entre setores da burguesia industrial e latifundiários.

Com base nisso, Poulantzas (ibidem, p. 148) define o Estado como "a condensação material e específica de uma relação de forças entre classes e frações de classe" (grifos do autor). Essa condensação é tanto da relação de forças entre frações do bloco no poder quanto entre estas e as classes dominadas, de tal modo que as lutas políticas que ocorrem no Estado atravessam suas instituições e fazem o próprio Estado ficar imerso nelas. Sobre os momentos da relação de forças que devem ser analisadas na perspectiva revolucionária, revisitar Gramsci (1991) pode ser elucidativo. Este identifica três momentos fundamentais, a saber: um relacionado ao grau de desenvolvimento das forças produtivas; outro concernente à organização política, considerando tanto o momento econômico-corporativo – em que esta organização se dá em torno de interesses grupistas – quanto o ético-político, em que se instaura uma luta de ideologias, sendo que a hegemônica unifica e tende a tornar universal os fins de ordem intelectual e moral, além dos econômicos e políticos; e, finalmente, a relação das forças militares.

A análise desses graus de relação de forças ajuda a explicar a natureza dos processos revolucionários e, sobre isso Gramsci desenvolveu o conceito de revolução processual, ou guerra de posição, própria de sociedades do tipo ocidental, em que se atingiu um nível de organização da sociedade civil e de participação democrática no Estado. A perspectiva revolucionária vincula-se fortemente à crise de hegemonia de uma classe ou fração de classe. A crise de hegemonia da classe dirigente é, também, crise do Estado, e o processo revolucionário implica a capacidade de unificar as massas no sentido ético-político, ultrapassando os interesses econômico-corporativos.

Em contraposição, a guerra de movimento ocorre em contextos históricos em que a sociedade civil ainda é desorganizada ou gelatinosa. Valendo-se da metáfora bélica e inspirado em Rosa Luxemburgo, Gramsci explica que, na guerra de movimento, o elemento econômico imediato (crises etc.) é considerado como a artilharia de campo que na guerra abre a brecha na defesa inimiga, brecha suficiente para que as tropas irrompam e obtenham um sucesso estratégico definitivo.

Com um componente fortemente economicista, essa perspectiva implica a tomada do Estado e uma rápida organização dos quadros estatais e do sistema ideológico para fazer cumprir o fim a ser alcançado (Gramsci 1991). Para ele, porém, nos Estados mais avançados, a sociedade civil transformou-se numa estrutura muito complexa e resistente às irrupções levadas pelo elemento econômico imediato (crises, depressões etc.), de modo que aparelhos de hegemonia organizados na sociedade civil atuam como o sistema de trincheiras na guerra de posição, constituindo os elementos fundamentais da luta de classes.

Essa forma de entender as possibilidades da revolução está vinculada a sociedades definidas, em termos da relação entre Estado e sociedade civil, como de tipo oriental ou ocidental. No primeiro caso, o Estado representa a totalidade política, enquanto a sociedade civil é primitiva e gelatinosa. Em sociedades de tipo ocidental, a relação entre Estado e sociedade civil é equilibrada. Ou, nas palavras do próprio Gramsci, no Oriente, o Estado era tudo, a sociedade civil era primordial e gelatinosa; no Ocidente, havia entre o Estado e a sociedade civil uma justa relação e em qualquer abalo do Estado imediatamente descobria-se uma poderosa estrutura da sociedade civil (ibidem, p. 75).

Ao lado desses conceitos, o de revolução passiva ou revolução de restauração é também fundamental para compreendermos o processo histórico de formação da sociedade brasileira. Recorremos, mais uma vez, literalmente ao autor. Diz ele:

O conceito de revolução passiva deduz-se rigorosamente dos dois princípios fundamentais da ciência política: 1) nenhuma formação social desaparece enquanto as forças produtivas que nela se desenvolveram encontrarem lugar para um ulterior movimento progressista; 2) a sociedade não assume compromissos para cuja solução ainda não tenham surgido as condições necessárias, etc. Assim, devem ser reportados à descrição dos três momentos fundamentais [da relação de forças] que podem distinguir uma situação ou um equilíbrio de forças com o máximo de valorização do segundo momento ou equilíbrio das forças políticas e, especialmente, do terceiro momento ou equilíbrio político-militar. (Gramsci 1991, p. 75)

Especificamente, esse conceito[2] refere-se a processos de transformação em que ocorre uma conciliação entre as frações modernas e atrasadas das classes dominantes, com a explícita tentativa de excluir as camadas populares de uma participação mais ampla em tais processos. Ao referir-se ao tipo de Estado que resulta de processos de revolução passiva, Gramsci fala em ditaduras sem hegemonia. Na revolução passiva, então, há modificações progressivas na composição precedente das forças, no sentido de neutralizar as forças oponentes, realizando-se, assim, transformações pelo alto, com vistas a conservar as condições de manutenção do bloco no poder e a hegemonia desse grupo. A revolução passiva implica o recurso ao transformismo, ou seja, a cooptação das principais lideranças da oposição pelo bloco no poder.

Em síntese, o conceito ampliado de Estado se aplica a sociedades de tipo ocidental, nas quais é a guerra de posição que traça perspectivas revolucionárias. A contrarrevolução, por sua vez, implica estratégias de revolução passiva. Nesses casos, a função coercitiva do Estado continua sendo estrutural à dominação, mas o exercício da hegemonia é fundamental para assegurá-la. Em outras palavras, além do uso legítimo da força, a luta ideológica precisa ser mantida sob controle e num equilíbrio favorável ao bloco no poder, o que se faz obtendo-se o consentimento ativo das massas.

É preciso, agora, discutir a função econômica do Estado,[3] considerando, como nos demonstra Ellen Wood (2003), que a separação entre o econômico e o político no capitalismo é tanto artificial quanto um dispositivo também ideológico que permite ao Estado atuar em benefício da classe dominante de uma forma supostamente neutra, voltada para o interesse público. Ainda que, por esse motivo, as funções coercitivas e ideológicas do Estado não se manifestem de forma diretamente vinculada à economia, tanto essa relação é organicamente estrutural à acumulação do capital, quanto a forma como assume historicamente expressa o momento do desenvolvimento do capitalismo.

A análise de Poulantzas (1985) é exemplar nesse sentido. No estágio do capitalismo concorrencial, as funções econômicas do Estado eram subordinadas ao exercício da coerção e da hegemonia, mesmo que não reduzidas a ele. Como explica o autor, as principais disposições do Estado consistiam em organizar materialmente o espaço político-social da acumulação do capital. No estágio monopolista do capital, entretanto, o conjunto das operações do Estado se reorganiza em relação ao seu papel econômico. A estratégia econômica não pode mais estar calcada sobre a política geral de organização da hegemonia. Ao contrário, o Estado deve continuar a tomar resoluções absolutamente essenciais para a reprodução do capital, mesmo quando isso cria graves problemas para sua hegemonia, o que pode levar ao acirramento de contradições no seio do bloco no poder e entre este e as classes dominadas.

Com isso, há uma inversão na relação entre as funções coercitivas e ideológicas e as econômicas, se comparada com a relação instaurada no estágio concorrencial. Como explica o autor, não apenas as funções político-ideológicas do Estado ficam subordinadas a seu papel econômico, como também as funções econômicas ficam encarregadas da reprodução da ideologia dominante. Isso se faz mediante a substituição da ideologia dominante pelo tecnocratismo ou ideologia do planejamento, pela imagem do Estado garantidor do crescimento ou ideologia do desenvolvimento.

Nos países europeus, essas ideologias se consolidaram na imagem do Estado-providência ou Estado de Bem-Estar Social, que se tentou retratar também em países de capitalismo dependente. Porém nesses, como nos mostra Florestan Fernandes (2006), tais ideologias alimentaram o caráter dependente do capitalismo brasileiro, e, ao contrário do Estado de Bem-Estar Social, vivemos a exacerbação da desigualdade, especialmente pela derrota de um projeto de caráter nacional-popular.

De todo modo, as funções do Estado se incorporaram à materialidade institucional de seus aparelhos, mediante uma especialização que caracteriza formas particulares de divisão social do trabalho no próprio seio do Estado. Esse fato nos leva a ampliar o conceito de Estado para o âmbito da sociedade civil, mas também o próprio conceito de sociedade política, nos termos que Wood (2003, p. 37) define Estado, a saber: O complexo de instituições por meio das quais o poder da sociedade se organiza numa base superior à familiar.

Complementamos esta síntese com Poulantzas (1985), quando afirma não se poder conceber o aparelho econômico do Estado como um aparelho à parte e separado de seus outros aparelhos e dispositivos. Estes últimos, igualmente, preenchem funções econômicas e se reestruturam em relação à formação e ao funcionamento do aparelho econômico. Exemplos disso são o declínio das instituições da democracia representativa em favor do executivo, a retração do papel dos partidos políticos em face da burocratização e da administração do Estado, além de transformações de outras instituições, dentre elas a escola. Nossa análise sobre a educação tecnológica como política de Estado poderá ser considerada nesses termos.

O Estado capitalista brasileiro: A materialidade econômica e política da historicidade da educação tecnológica no país

Ruy Mauro Marini (2000) argumenta que a burguesia brasileira, mesmo tendo protagonizado o trânsito de uma economia semicolonial para uma economia diversificada nos anos 1930, animada pela industrialização, renunciou a uma iniciativa revolucionária, fazendo uma aliança com as velhas classes dominantes. Com isso, enquadrou o desenvolvimento capitalista nacional numa via traçada pelos interesses dessa coalizão, resultando num tipo de industrialização que se processou, inicialmente, à custa de desemprego e de baixos salários, e, posteriormente, pela associação com o capital estrangeiro, especialmente o norte-americano. Capital esse que ingressou no país principalmente em forma de equipamentos e técnicas, associando-se a grandes unidades de produção que pudessem absorver uma tecnologia que, pelo fato de ser obsoleta nos Estados Unidos, não deixava de ser avançada para o Brasil.

Florestan Fernandes (2006), por sua vez, identifica a universalização do trabalho assalariado e a expansão da ordem social competitiva no Brasil,[4] como expressão de uma revolução burguesa, ainda que não no modelo clássico que poderia ter conduzido ao capitalismo independente e à democracia política. O Brasil teria vivido, na verdade, uma revolução burguesa periférica, que resultou no capitalismo dependente, na dominação externa e na autocracia burguesa. Fernandes explica que em nenhuma das fases do desenvolvimento capitalista no Brasil as classes dominantes chegaram a impor a ruptura com a associação dependente em relação ao exterior (ou aos centros hegemônicos da dominação capitalista); a desagregação completa do antigo regime e de suas sequelas – ou, falando-se alternativamente, das formas pré-capitalistas de produção, troca ou circulação; a superação de estados relativos de subdesenvolvimento, inerentes à satelitização imperialista da economia interna e à extrema concentração social e regional resultante da riqueza.

Valendo-se de categorias gramscianas, algumas das quais discutidas neste capítulo, Coutinho (2006) reitera que o movimento liderado por Getúlio Vargas na transição do Brasil para o capitalismo, especialmente pela expansão da indústria – considerada por Marx como o modo de produção especificamente capitalista (ibidem, p. 176) –, teria sido a forma mais emblemática de manifestação de revolução passiva, de modernização conservadora, em nossa história. O caráter intervencionista e corporativista do Estado brasileiro se mantém ao longo da implementação da política econômica nacional-desenvolvimentista iniciada durante o primeiro governo Vargas. Os interesses considerados válidos eram aqueles que se fizessem representar no interior do próprio Estado.

O autor analisa a força e o autoritarismo do Estado brasileiro, em contraposição a uma sociedade civil débil, primitiva e amorfa, com as categorias gramscianas de sociedades do tipo oriental e ocidental, identificando a formação da nação brasileira a partir do Estado e não da ação das massas populares. A classe dominante nada tinha a ver com o povo, não era expressão de movimentos populares, mas foi imposta ao povo de cima para baixo ou mesmo de fora para dentro e, portanto, não possuía uma efetiva identificação com as questões nacionais. Diz ele:

Para usar a terminologia de Gramsci, isso impediu que nossas elites além de dominantes, fossem dirigentes. O Estado moderno brasileiro foi quase sempre uma ditadura sem hegemonia, ou, para usarmos a terminologia de Florestan Fernandes, uma autocracia burguesa. (Coutinho 2006, p. 176)

As três referências demonstram que a modernização tecnológica no Brasil foi de origem estrangeira, definida por Florestan Fernandes como uma modernização do arcaico, marcada, inicialmente, pelo embate entre um projeto de desenvolvimento autônomo e outro associado e subordinado ao grande capital. Essa análise identifica a existência de uma estratégia de desenvolvimento nacionalista em alguns períodos da história do país, demarcados por Ianni (1991) em 1930-1945; 1951-1954; 1961-1964, quando se tinha como pressuposto implícito o projeto de um capitalismo nacional, como uma única alternativa para o progresso econômico e social. Esse projeto implicaria a crescente nacionalização dos centros de decisão sobre assuntos econômicos. Mas essa estratégia foi vencida pela segunda, de desenvolvimento associado, predominante nos anos de 1946-1950, 1955-1960 e desde 1964. Esta continha o projeto de um capitalismo associado como única alternativa para o progresso econômico e social, que implicava o reconhecimento das conveniências e exigências da interdependência das nações capitalistas, sob a hegemonia dos Estados Unidos.

Esse tenso equilíbrio foi rompido e deslocado em favor do capital estrangeiro no governo de Juscelino Kubitschek. Apesar de contratendências no curto período do governo João Goulart, a associação ao capital estrangeiro se consolidou a partir da ditadura civil-militar. Ainda que no governo de Jango e mesmo, em menor medida, no período de JK, a sociedade civil tenha se tornado mais ativa, levando a um cenário de crise do populismo, o Estado brasileiro não deixou de ser centralizador e corporativo. Ao contrário, o golpe civil-militar de 1964 reforçou e desenvolveu esses traços, implementando a modernização desenvolvimentista baseada na abertura da economia ao capital estrangeiro. Se, no lastro da herança de Vargas, a intervenção do Estado na economia visava favorecer sobretudo o capital nacional, garantindo as

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