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Gênesis Proibido: A tragédia de Adão e Lilith

Gênesis Proibido: A tragédia de Adão e Lilith

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Gênesis Proibido: A tragédia de Adão e Lilith

notas:
3/5 (2 notas)
Duração:
660 páginas
20 horas
Editora:
Lançados:
27 de jul. de 2020
ISBN:
9783960284611
Formato:
Livro

Descrição

ESTA É UMA OBRA DE FICÇÃO
------------------
Muitos conhecem a lenda dos anjos liderados por Lúcifer que se rebelaram e caíram por ciúme ao homem, mas poucos sabem como foram os bastidores dessa guerra sangrenta.

***
Muitos conhecem o mito da serpente que tentou a mulher e fez com que ela e o esposo perdessem o Éden, mas poucos sabem quem foi e como viveu Lilith, a belíssima dama que precedeu Eva e arrebatou o coração de Adão.

***

Muitos conhecem o odioso crime de Caim contra o jovem Abel, mas poucos sabem quem foram Luluvah e Aclia, as irmãs gêmeas de ambos.

***

Muitos conhecem a narrativa dos anjos que tomaram mulheres como esposas e nelas fecundaram uma raça híbrida de gigantes, os chamados "nefilins", mas poucos sabem como foi a lida de um querubim que enfrentou o próprio Inferno para tentar varrê-los da face da Terra.
Editora:
Lançados:
27 de jul. de 2020
ISBN:
9783960284611
Formato:
Livro

Sobre o autor


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Gênesis Proibido - Marcelo de Lima Lessa

Metatron

Agradecimento

Este modesto projeto começou a ser desenvolvido há cerca de vinte e cinco anos, sendo interrompido inúmeras vezes em razão da falta de tempo que as inconstâncias profissionais do dia a dia impingem àqueles que, como eu, infelizmente não podem viver apenas da literatura.

Quando, no início dos anos 1990, eu escutei o nome Lilith pela primeira vez, fui tomado por uma curiosidade desmesurada, afinal, quem seria aquela que, envolta em mistério e sensualidade, havia antecedido a nossa conhecida Eva? Sem pretensão, escrevi na época um arremedo de poema chamado Diva do Éden, que fecha o presente livro. Logo após, fiz um desenho que envergava, de maneira codificada, várias vertentes do que um dia viria a ser esta obra. Ambos, pelo valor sentimental, aqui também estão.

Seguiram-se anos de pesquisa e, com ela, veio a curiosidade sobre a angelologia. Pois colhendo dados, informes e imagens sobre o tema, a base da história tomou corpo e recebeu o título provisório de Os Degredados, e assim ela ficou — estagnada no primeiro capítulo — por mais de vinte anos.

Mas enquanto apenas eu acreditava na existência dos tais anjos do meu conto, eis que em 2012 surgiu um anjo real — a minha sublime amiga Vanessa Guimarães —, que após ouvir um comentário esporádico que eu fiz sobre a existência do esboço, passou a me incentivar a dar continuidade a ele, algo que, embora relutante em princípio, passei a levar mais a sério. E foram necessários mais três anos para finalizá-lo, algo que só foi possível em razão dessa grata intervenção que o destino me proporcionou.

Os que gostarem da história, façam um agradecimento mental a ela, sem a qual este livro simplesmente não existiria. E os que não gostarem, agradeçam nem que seja por mero altruísmo, pois embora eu não tenha a pretensão de agradar a todos, a conclusão deste trabalho me realizou enquanto aspirante a escritor, pois ao término desta obra, descobri que livro algum tem fim, e por isso decidi que passarei a usar a literatura fantástica para conversar com o mundo, até o dia em que Deus me der saúde para materializar tudo o que pulula na minha mente.

Enfim, muito obrigado!

Marcelo de Lima Lessa

Prefácio

Sinto-me honrada ao apresentar a você, caro leitor, esta obra de qualidade inigualável. Marcelo de Lima Lessa nos transporta a um tempo remoto. O princípio de tudo, o início do mundo e da vida na Terra. Há muito especulado por diversos estudiosos e escritores, o Velho Testamento ganha uma versão surpreendente, jamais imaginada.

Logo nas primeiras páginas, encontramo-nos com os celestiais, que demonstram preocupação por conta de uma resolução de Deus. A decisão de se ausentar do Céu para moldar uma nova dimensão, que mais tarde seria a morada dos seres humanos. Mas Lúcifer jamais se diminuiria ao homem feito de barro, ser inferior, conforme seu pensamento. As ordens angelicais ficam divididas entre aqueles que acatam a determinação do Criador sem questionar, e aqueles que dela desconfiam, iniciando-se assim grande revolta em parte da população celeste.

Tentando burlar o portal que leva à Terra para destruir o homem, vislumbramos a primeira batalha entre os iguais, enquanto uma série de nomes tão conhecidos por nós, nos é apresentada e descrita de forma renovada e tão envolvente que fica impossível interrompermos a leitura.

Nas páginas seguintes, você conhecerá a história proibida da primeira mulher, Lilith, como foi criada, banida e depois substituída por nossa conhecida Eva. Terá nova visão sobre as primeiras linhagens; saberá os verdadeiros motivos pelos quais Caim matou o seu irmão Abel; terá um encontro inesquecível com Noé, ao mesmo tempo em que lhe será contado o que está acontecendo no Céu e no Inferno e todas as influências que tal guerra celestial teve sobre os humanos em questão.

Esta é uma história de ódio, redenção e amor. Ouso dizer, não fossem redigidas em distintas épocas, uma de minhas obras se encaixaria perfeitamente em Gênesis Proibido; livro que completa muitas ideias e traz coincidências indescritíveis entre os nossos personagens em comum.

Agora deixo a cargo do autor a narração desta obra extraordinária, pois todos os méritos deste show de palavras são dele. Em seu primeiro livro, Marcelo de Lima Lessa já nos mostra a que veio. É com muito orgulho e convicção que prometo a você, caro leitor, uma viagem sem precedentes através destas páginas.

Boa leitura!

Susy Ramone

Eu, réu confesso

Desde o começo dos tempos, a nossa saga foi sendo escrita por inúmeros historiadores, os quais se dizendo espiritualmente inspirados a difundiram sob os seus exclusivos pontos de vista. E vários foram os que, antes mesmo da vinda do Messias de Nazaré, ousaram escrever sobre a nossa misteriosa criação.

Entretanto, parece-nos que nenhum deles esteve no Jardim do Éden ou nas gigantescas muralhas do palácio de Deus e, por assim dizer, tudo o que redigiram lhes foi mística ou materialmente repassado de uma forma que nos é desconhecida. Por isso, nada — se não a lida do Criador e dos Seus mensageiros de luz — pode ser considerado uma verdade absoluta e livre de penitências.

Não sou pastor ou evangelista, longe disso, mas ao compilar esta obra, encontrei inspiração na mesma sensibilidade que talvez tenha influenciado alguns intérpretes de outrora. Destarte, depois de me enveredar em várias searas religiosas — todas abarrotadas de dogmas que nos foram impostos geração após geração —, cheguei à conclusão de que só conhece a exata verdade dos fatos quem efetivamente os vivenciou. E esta narrativa — cujo influxo eu afianço a um sussurro místico — empresta foco à segunda grande guerra dos anjos e à origem do homem e de sua primeira nubente, que não a conhecida Eva.

O foco bíblico do trabalho é predominante; dele, dada a natureza da grande maioria dos personagens, não temos como fugir. Mas mesmo o Livro dos Livros teve inúmeros apócrifos suprimidos pelos Concílios do passado e, nessa toada, não há como ignorarmos que existiram inúmeras versões de uma mesma história. Algumas salvas; outras, propositalmente, não.

E se com este despretensioso conto eu, de alguma forma pequei, peço perdão apenas a Deus, pois após muito viver, convenci-me de que ninguém — que não somente Ele — é totalmente imaculado. A santidade do ser humano, defendo, é altamente questionável. Por isso, neste plano repleto de transgressores, não terei temor algum, afinal, todos são meus iguais e, se desrespeito cometi, deixo a prolação de minha sentença apenas para o Pai de todos nós, e não para os meus irmãos, que no final da equação da vida, são tão ou mais pecadores do que eu.

Prelúdio

Muito antes de conceber o solo pelo qual caminhamos, o espectro de Deus já tinha assento sobre os mais intangíveis horizontes.

Ao lado Dele estavam os que Lhe serviam, reverenciavam e auferiam força. Tais entes — até então únicos no Cosmo — possuíam em si o reflexo da imagem do Criador, sobejando virtude, beleza e notável mobilidade; esta última, dimanada dos afiados planos de sustentação que envergavam sobre as costas.

E milhares eram essas emanações feitas de sangue, de luz e de fogo, e que apesar de pertencerem a uma mesma espécie, diferenciavam-se apenas na aparência; vez austera, vez suave, vez até infantil. Nobres, tinham alguns — os originalmente chamados dez príncipes-primeiros — inúmeros emissários encarregados de zelar pela ordem e a lida das suas respectivas castas. Eram eles, acima de tudo, irmãos.

Mas em razão de um infortúnio, a concórdia outrora reinante foi maculada pelo pecado decorrente da barbárie que banhou um terço do Céu em sangue. A fatídica insurreição dos anjos — tida como o segundo grande conflito sideral — quase destruiu a abóbada celeste, dela elevando-se mártires e padecendo criminosos, cuja pena, em grau máximo, foi o sumário degredo para longe daquela imaculada morada.

Por vingança, os anjos oprimidos pela armada que permaneceu fiel ao Eterno atentaram ardilosamente contra os primogênitos da nossa espécie e, movidos por uma inveja incomensurável, trataram de lhes arraigar a culpa original, privando-lhes, por puro revanchismo, da direta presença do Senhor.

Mas graças à infinita misericórdia do Elevado a esperança dos nossos primeiros pais não se esvaiu e, se hoje ainda vivemos lutando pelo perdão, devemos isso à sagrada e incontestável vontade Dele.

É esta, pois, a saga dos que presenciaram o nascimento do primeiro homem e da primeira mulher; do amor e da inveja; da inocência e do pecado. É esta, enfim, a narrativa perdida do nosso nascimento, da ascensão e queda daqueles que, pelas mãos do Grandíssimo — ou pelo cálido fio das aguçadas espadas angélicas — nela tiveram voz.

Os seis livros perdidos

1548. Trento, Norte da Itália.

Em meio a corredores úmidos e mal iluminados, três nobres helvécios usando armaduras e capacetes com plumas vermelhas conduziam a ferros um prisioneiro visivelmente ferido, a fim de apresentá-lo como troféu.

— Isso foi mesmo necessário? — indagou-lhes um senhor com a cabeça coberta por um pomposo galero escarlate, ao ver o detido subjugado e exibindo severas marcas nas costas.

— Ele nos deu um pouco de trabalho, Eminência. Mas esses estigmas não foram obra nossa... — acentuou um dos jovens oficiais vindo de Zurique, enquanto puxava o cativo pelas grossas correntes que o prendiam.

— Eu entendo comandante..., mas, e então? Encontraram o que buscavam? — completou o velho, ansioso.

Em resposta, o cavaleiro assentiu positivamente, fazendo com que alguns pajens se aproximassem carregando seis grossos cartapácios — similares a pergaminhos — um tanto envelhecidos pelo rigor do tempo. E, sobre uma mesa lá posta, um deles foi logo aberto pelo vetusto.

— Inacreditável, eles existem! — exclamou o ancião que, dentre os presentes, parecia envergar maior autoridade.

— Parece ser o redigido, não há dúvidas. O material é extremamente primitivo e não denota ter origem animal, o que potencializa ainda mais as minhas expectativas... — pontuou um homem de aparência rude usando sotaina, barba comprida e tonsura. — E o atramento... Jamais vi tinta similar, fora esse alfabeto, que embora não possa ser interpretado por um de nós, talvez seja de fácil percepção para algum herege inspirado pelo demônio... — finalizou o enigmático exegeta.

— Vindo tal observação de um experto, assim como vós, dou-me por satisfeito, Padre Lucci. Agora venha! Sua Santidade precisa ser informada antes que o Concílio conclua o índice dos grandes livros, pois após esta revelação, o nome daquela sacrílega será finalmente excluído das escrituras...

— E quanto a ele, Eminência? — indagou o armígero, referindo-se ao judiado cativo.

Sem muita cerimônia, o alto dignitário retornou na direção do maculado que ali estava e, após olhar friamente para os respectivos algozes, gesticulou quatro vezes com a mão direita, prolatando a sua sentença:

— Ego te absolvo… In nomine Patris, et Filii, et Spiritus Sancti, amen…

Ao ouvir aquelas palavras, o condenado ergueu a cabeça e falou com certa dificuldade:

— O homem nunca teve o poder de me absolver..., mas por conta dos meus inúmeros pecados, ele agora pode me matar.

E já enfrentando as longas escadarias que os levariam embora de ali, os membros da comitiva eclesiástica ouviram um grito que, pela força do golpe da espada de um dos soldados, foi rapidamente cessado. E no lugar de um corpo humano seccionado, apenas cinzas.

Crentes que estavam diante de algo verdadeiramente sobrenatural, aqueles homens acabaram dispensados com honras da Guarda Suíça, tendo os mesmos, dias depois, encontrado a morte em circunstâncias jamais esclarecidas.

E em tais opúsculos, um antigo segredo: neles estavam codificadas as inspirações de um filho de Deus que havia escrito a verdadeira história do homem desde antes da criação da Terra, com todos os detalhes, inclusive os mais abjetos. Eram eles os seis livros perdidos do grande escriba celeste, o Arcanjo Metatron, há muito dele rapinados por um anjo fugitivo que, naquele exato dia, perdeu a vida por mãos humanas.

Mesmo após ter sido deveras seviciado, o ente cuja luz ali se fora, conseguira ocultar que aqueles alfarrábios — incompreensíveis para os homens — já haviam sido por ele traduzidos para seita de Lay-il — a Ordem das Filhas da Noite — e, naquele mesmo instante, estavam protegidos em algum canto do mundo, bem longe da sanha dos conservadores asseclas do Papa Paollo III.

E a primeira parte da misteriosa saga neles constante, contada pela lida de um celeste que a viu nascer, será agora finalmente revelada.

O portador do diadema

De um ímpeto, aqueles tranquilos campos nebulosos tiveram o silêncio momentaneamente rompido. Dentre as nuvens claras e disformes que cobriam as extensas pradarias celestinas de Felix, surgiram dois vultos implicados em feroz combate.

Suspensos pela ação de enormes asas acinzentadas, um Arcanjo e um Serafim se movimentavam velozmente entre os cúmulos, percebendo-se que ambos — exibindo bravias espadas flamejantes — pelejavam com intenso frenesi. E a cada corte mútuo brutalmente repelido, um olhar de invasiva hostilidade surgia entre eles. Aos nossos modestos ouvidos, o choque daqueles potentes filetes de fogo seria simplesmente devastador.

De repente, o espetáculo foi interrompido por um golpe certeiro do Serafim, que com uma manobra rápida e astuta, dominou o Arcanjo e arrancou-lhe o sabre. Lançado num plano recoberto pela neve que os castigava — e mais, privado da arma —, o vencido tentou em vão reagir, mas acabou com a garganta imobilizada pelo calor do gládio firmemente seguro pelo seu invasivo opositor. Ofegando em demasia, restou a ele apenas erguer o braço esquerdo, num claro pleito de clemência.

— Então chegamos a isso... O insuperável marechal da armada celeste subjugado por um simples Serafim... — tripudiou o vitorioso, encostando ainda mais a lâmina chamejante no pescoço do Arcanjo.

Sem embargo, a aparência indefesa do ali suplantado Príncipe Miguel, não o impediu de, satiricamente, provocar o adversário que agora o dominava:

— Tu, irmão? Um simples Serafim?

E foi aí que o campeão — o qual possuía sob a armadura uma belíssima toga negra que se elevava em razão do rigor do vento — embainhou a espada e, esboçando um sorriso orgulhoso, estendeu a mão direita ao antigo companheiro de lida. Era esse o costume sagrado naqueles tempos pacíficos. O vencedor da partida — sim, nada mais era que um jogo — sempre amparava o perdedor.

E enquanto se entretinha com o desfecho daquela rusga desportiva, Miguel percebeu, por trás do ombro do oponente, a chegada de um Querubim que, sem demora, ali pousou.

Tal ente, cujas asas rajadas ainda batiam, assemelhava-se, em razão da exagerada androginia, a uma menina-moça. De pele alva, lábios espessos e olhos claros como pérolas, tinha cabelos compridos e igualmente revoltos, cujas pontas escuras eram ornadas por anéis cinzelados em ouro. Do seu tronco, floresciam duas protuberâncias tímidas, que se faziam encobrir por uma transparente e reveladora peça de seda mineral. Talvez fosse, ante a aparência física, o mais belo anjo feito por Deus: Beelzebu, o príncipe-primeiro dos Querubins.

— Eu vos interrompo? — indagou-lhes o recém-chegado.

— De certo que não! Mas ao acaso vieste desafiar-nos para uma sadia contenda? — gracejou Miguel, ainda se recompondo do avultado tombo que acabara de experimentar.

— Não... Eu não desejo ser vencido por tão nobres adversários... — reagiu o Querubim sem esconder a aparência preocupada.

Percebendo uma visível tensão pairando no ar, os dois espadachins o cercaram como se esperassem por uma nova talvez não tão agradável.

— Venho do palácio de Deus... — Os olhares de todos se cruzaram. Beelzebu, sem deixar de acariciar os seus longos cabelos, deu alguns passos e continuou: — Eu vi Gabriel lá chegar um tanto apressado... Ele transpôs rapidamente o corpo da guarda da Câmara e sequer saudou os meus arqueiros, que tanto o prezam.

A notícia, pelo teor invulgar, soou estranha.

Gabriel era afamado pelo humor sempre agradável, e o fato de ele não ter emprestado deferência aos Querubins que guardavam a fortaleza deu margem a um mal-estar, pois se sabia que era muito comum a ele, ao pousar sobre as grandes muralhas da mansão de Deus, sentar-se junto aos pequenos e com eles brincar; aliás, estes adoravam ouvi-lo tocar canções alegres e, de certa forma, ingênuas.

— Se Gabriel lá adentrou como disseste, deve ter sido uma convocação às pressas, o que já não é usual — sugestionou Miguel.

— Foi o que achei... E embora ele também seja um Príncipe-Primeiro, assim como nós, estranhei por não termos sido igualmente chamados...

Os dez Príncipes-Primeiros eram os anjos precedentes, os titulares das castas celestes. Quando convidados, sentavam-se sempre juntos diante de Deus, raramente separados. Em razão disso, um convite pessoal não era algo comum, afinal, todos sabiam que o Altíssimo não descia ao salão de audiências com frequência e, mais ainda, sem um motivo efetivamente relevante.

Mas enquanto eles enfrentavam aquele incômodo impasse, foram surpreendidos por uma rara melodia que subitamente invadiu o Céu. E no instante em que a escutaram, foram tomados de sobressalto:

— Ouçam... — Assustou-se o líder dos querubins. — É Israfel! E ele está entoando o cântico da convocação! — completou.

Israfel era o trompetista-mor do coro musical celeste. Suas habilidades o tornaram ímpar e, no Céu, ele era o maestro dos mensageiros. Aquela inaudita canção de chamada — ao trio régio que lá estava — soou como uma sinfonia de pronto acatamento.

Fitando a cena, o desconfiado e até então silente Serafim encarou friamente os dois confrades que ali estavam, e os três, sem maiores delongas, abriram as asas e ofensivamente alçaram voo rumo à basílica de Deus, desfazendo, de uma só banda, os apáticos nimbos que descansavam sobre os montes alvacentos.

Na liderança deles estava o receado Príncipe-Primeiro dos Serafins, o mesmo que havia pouco derrotara Miguel naquela emocionante disputa com espadas. E do brilho expandido de um belíssimo diadema de diamantes posto sobre a sua cabeça, lhe surdia o nome, o título real: Lúcifer, o archote da luz primeira.

* * *

De pronto, o grande espaço celestial foi invadido por milhares de emanações aladas, que em atendimento ao chamado de Israfel começaram a chegar de todos os cantos. Em pouco tempo, as agigantadas estruturas da edificação do Onipotente estavam lotadas, tamanho o número de coros que ali pousava. Passou-se doravante a se ver um belo desfile de túnicas e armaduras metalizadas, dada a antiga tradição angélica de confeccionar adornos e vestes feitas de fibras minerais. De um modo geral, os anjos eram artífices extremamente habilidosos e, dependendo da hierarquia a que pertenciam, tinham aptidões especiais recebidas de Deus, dentre elas, a música, a costura, a construção, a metalurgia e o desporto. Em verdade, compunham uma sociedade em castas, e nela mantinham árduo trabalho e ordeira posição.

Enfim, a visão do convento sagrado se fez magnífica! O castelo, cercado por gigantescas muralhas de cristal multicolor fazia-se guardar por um brioso regimento de pequenos Querubins, que sem dificuldades organizavam as hierarquias recém-chegadas nas áreas do palatino. Esses anjos — armados de arcos e foices de fogo — ostentavam uma imagem ingênua, a qual eficazmente ocultava a fé ferrenha que possuíam na palavra do Criador, pois quanto menores, mais aguerridos e menos sujeitos a manipulações eram. Por isso eles formavam o seleto corpo real de camareiros, a elite dos guardas civis celestinos.

De repente, obstruindo a luminosidade que impactava no enorme átrio de lazúli, os três Príncipes-Primeiros vindos de Felix pousaram agressivamente no pavimento central, chamando a atenção de todos os que lá estavam.

De certa forma, Lúcifer impunha reverência aos demais: era alto, vistoso, com um olhar hipnótico, quase penetrante. Sua voz — grave e bem rouca — incomodava os que não estavam a ela acostumados. Sem envergar a aparência tipicamente andrógina e pueril dos demais irmãos, o Serafim expressava, por assim dizer, uma imagem masculinizada e amadurecida, bem mais próxima a de Deus.

Irmãos... murmurou num arremedo de saudação.

Em respeito ao Primeiro Anjo, os que estavam mais próximos lhe abriram imediato espaço e, acompanhado por Miguel e Beelzebu, ele se colocou a caminho do pontifício, numa marcha quase militarizada.

Nesse ínterim, cruzaram com uma pequena fração de milícia capitaneada pelo General Pruslas, cujos membros — todos eles Arcanjos —, saudaram o Marechal com um leve toque de mão no peitoral das armaduras. O regente da armada, sem perder o passo, respondeu com um discreto movimento vertical de cabeça, como se entre os soldados procurasse um em especial — Metatron, o seu Oficial-Escrivão.

Era fato que naqueles tempos de paz, os destacamentos militares se dedicavam apenas a policiar os altos domínios e, longe de vivenciarem batalhas reais — a última fora contra a ordem celeste das presenças, havia muito extinta, por bulir com o ocultismo —, eles apenas zelavam pela ordem entre os anjos, já que, em razão do devoluto arbítrio que tinham, inúmeras rixas, por vezes bem violentas, não raro ocorriam.

Em meio a tudo isso, no alto da escadaria de jaspe disposta próxima ao trono de audiências, um anjo de aparência inocente se encontrava prostrado e em séria contemplação. Pressentindo a aproximação dos três Príncipes-Primeiros que lá chegavam, ele levantou o rosto e abriu os olhos. Ansiosos, eles acompanharam a pausada descida daquele importante mensageiro de luz, o qual, titulando um rosto angulado e feminizado, envergava uma toga azul-cobalto sob a armadura dourada. No lado esquerdo da cabeça, adornando seus cabelos curtos e ruivos, ele ostentava um pente cravejado de topázios; na mão direita, uma vistosa trombeta de ouro; e, no cinturão, uma espada embainhada. Estava ali, bem diante deles, Gabriel, o regente dos anjos proclamadores.

— Estimados príncipes, honra-me receber-vos — disse em tom respeitoso.

— Dispenso as mesuras, Gabriel, já que te vejo um tanto preocupado. E nós, após ouvirmos o chamado do teu mestre-músico, também o ficamos.

O que houve? — indagou Lúcifer na mesma toada.

O anjo suspirou, apreensivo e receoso, e esclareceu:

— Deus chamou-me aqui, a mim e ao escriba de Miguel... — afirmou, dirigindo-se ao Arcanjo-Maior.

— Metatron? De fato, eu não o vi com Pruslas e os demais... Ele também está na companhia do Senhor?

— Correto, Marechal. E ao que soube, o nosso Pai está lhe ditando um proclama...

— Um proclama? balbuciou Beelzebu, escorando-se em Lúcifer.

— Sim, daí a urgência do cântico, pois a ordem recebida é para que todos tomem imediata ciência do teor dele.

Os olhares, tensos, agora se aliavam à dúvida.

Dito aquilo, Miguel se aproximou do primeiro degrau e olhou para o alto do trono. Ele então sacou sua espada e, virando-a para baixo, tocou-a no chão. Em seguida, ajoelhou-se diante dela e pôs-se a meditar, no que foi seguido por Gabriel. Aparentemente contrariado, Lúcifer se afastou, acompanhado pelo formoso príncipe dos Querubins.

Era curiosa a relação desses dois últimos príncipes. O primeiro, uma referência geral, personificava o primogênito de Deus; o segundo, concebido tempos depois, liderava o coro dos audazes Querubins. Masculinizado, Lúcifer aparentava ter a idade adulta, mediamente avançada. Beelzebu, ao contrário, expressava a figura de uma jovem, cuja beleza era indescritível e sem similaridade entre os anjos. Vaidoso, o seu templo era todo recoberto de lâminas forjadas com nitrato de prata, as quais refletiam raios luminosos em direções definidas, a fim de fazer com que ele, de onde estivesse, nelas visse a sua agradável imagem refletida.

Percebia-se, no mais, que uma estranha atração ligava Beelzebu a Lúcifer, o qual lhe era uma espécie de mentor. Junto dele, o Querubim buscava íntima aproximação, apesar de saber que o Serafim e Miguel, por serem contemporâneos da aferição de luz, tinham mais afinidades, pois além de amigos, eram os anjos mais velhos do Céu. Ainda assim, o belo se entregava em admiração ao archote e, em razão dessa forte ligação, preferiu seguir Lúcifer, enquanto que Miguel e Gabriel se puseram prostrados.

A morada do Eterno, cujas dimensões não podiam ser medidas, lotou. E, em meio àquele estado duvidoso de coisas, Israfel ressurgiu trazendo para si todas as atenções. Planando em círculos curtos, o celeste pousou aos pés da cadeira do Regulador e encarou o enorme salão posto à sua frente. De forma paciente, passou a procurar os pequenos orifícios do seu pistão, quase que acariciando o antigo instrumento. Feito isso, começou a soprar uma marcha firme, a qual serviu de prenúncio para a vinda de Metatron, que lá chegou com um enorme livro nas mãos. Após colocá-lo num altar fincado no início da escadaria, o escriba real o abriu e marcou uma das páginas com uma cintilante fita roxa, deixando-o pronto para a leitura.

Aos poucos, os seres iluminados começaram a ter a atenção trazida para o centro do trono, donde pequenas partículas de luz começaram a brotar, convergindo, vagarosamente, para um ponto comum que passou a ganhar volume. Então a sinfonia conduzida por Israfel passou ostentar um ritmo mais tenso, e quanto mais corpo o foco ganhava, maior era a inclinação dos anjos presentes. E estando aquele círculo de luz bem profuso, explodiram sete grandes relâmpagos que finalmente selaram o clamor no Céu.

Inação. Mistério. Inércia.

Dali o cenário deu mostras de um mosteiro silente, onde até o tempo parecia ter parado. E do sobranceiro assento que a todos impunha severa vigília, irrompeu um Ser grandioso fitando o átrio e todos os que nele se aglomeravam. Daquele corpo forte e vigoroso, pululavam pequenos focos brilhantes, que graciosamente se perdiam no ar. Com a perna esquerda estendida e a direita dobrada, a face da Entidade se assemelhava a de um ser humano de meia-idade e, sem qualquer esforço, inspirava concórdia e seriedade. Envolto numa majestosa cobertura reluzente e fitando toda extensão, estava o Criador dos seres e das coisas. de tudo e de todos: Deus.

A melodia, enfim, cessou.

Os anjos — ainda de joelhos — ergueram vagarosamente os rostos em direção ao Pai, como se esperassem um mandamento. Metatron olhou para Ele e, ao obter um leve e discreto aceno de mão, passou a ler o que constava na página marcada:

∷ ∷ ∷

"Meus estimados filhos, a fé no amor não pode e não deve ser contida. E o inflexível processo da vida, tal qual o conhecemos, haverá de se desdobrar para além deste espaço. Saibam todos, que a ação das minhas obras fluirá a entes outros, que por vós serão assistidos e protegidos. Diante disso, haverei de me ausentar por um breve período e, para que o espectro desse desejo receba o sopro da existência, arrebatarei, no tempo certo, um Arcanjo para me auxiliar. Essa é, em graça, a minha palavra".

∷ ∷ ∷

Os celestes, de um modo geral, ficaram desconcertados.

Ao término da nova, Lúcifer cerrou forçosamente os olhos e, visivelmente contrariado, premiu o cabo da sua já invertida espada na testa, marcando-a sem querer. Miguel e Gabriel continuaram imóveis, silentes. Pruslas, embora sendo um Arcanjo, ergueu a face devagar e, a exemplo do respeitado líder dos Serafins, demonstrou aparente desaprovação.

Deus se levantou projetando uma grande sombra diante de Si. Os anjos, destarte, se retraíram instintivamente; todos, menos Lúcifer, que mesmo de joelhos, estendeu a mão esquerda em direção ao Pai, como se pedisse especial atenção.

Licenciado pelo Senhor, o líder seráfico se levantou e percorreu rapidamente os degraus do assento, colocando-se sem demora próximo aos pés do Altíssimo. Num gesto claro de carinho, Este lhe tocou o rosto e o acolheu num paternal afago. Extasiado com o suave contato daquelas mãos, o dito Príncipe-Primeiro se manteve quieto por alguns instantes, afinal nada lhe confortava mais do que aquilo, uma demonstração clara e pura do que era o amor verdadeiro.

— Deveras ingrata será a tarefa de suportar a ausência do Teu foco...

— Tudo será muito rápido, asseguro-te, filho...

Mas sem conseguir conter a própria ansiedade, Lúcifer ousou:

— Mas, Senhor, quem serão esses entes a que fizestes referência na Vossa venerável deliberação? Será que nós, a Vossa hoste de luz, não Vos somos suficientes?

Ainda afagando o primeiro rebento, o Criador respondeu:

— Entendas que cada um de vós, numa linha de tempo apropriada, haverá de ter um papel especial nesse particular...

— Então, levai-me Convosco, Senhor! Liberai o Arcanjo de tal ônus! Dai a mim, o Vosso primogênito, a oportunidade de auxiliar-Vos nessa obra, ainda que ela me inspire certo temor...

Deus se aproximou e esclareceu:

— Peço-te que nada temas. Dá-me apenas a tua devoção, afiançando, com ela, a crença no resultado da Minha vontade.

Ao ouvir essas palavras, Lúcifer soltou vagarosamente a mão do progenitor, que na mesma velocidade, foi aos poucos se fechando. Ele ficou visivelmente abatido e insatisfeito com a resposta auferida, dali saindo sem pressa e retornando quase apático ao lugar onde estivera. Beelzebu, num claro tom de consolo, tomou-lhe as mãos e, em vão, tentou confortá-lo.

Nesse instante, a trombeta de Israfel soou novamente, colocando todos, vez mais, em passivo sentido, e o Altíssimo proferiu as suas derradeiras palavras:

— Aqui, por ora, Me despeço. E como dito, um dentre vós haverá de prestar-Me oportuna ajuda, e tal será o Arcanjo que eu inesperadamente tomar deste firmamento.

Acompanhado pelos querubins, o Etéreo retornou ao trono e nele se sentou. E os pequenos canais de luz que ainda expandiam do Seu corpo foram paulatinamente aumentando, de modo a formar uma resplandecente carapaça que, ao atingir o ápice, desfez-se brutalmente, dando lugar a partículas luminosas que foram aos poucos se apagando, sumindo no ar.

Tão logo se viram privados da presença de Deus, os anjos começaram a se erguer no salão. Miguel fez o mesmo e, seguido por Metatron, foi ter com os demais Arcanjos, afinal, um deles haveria de ser convocado para auxiliar o Senhor na obra que se avizinhava. No caminho, cruzaram olhares com Lúcifer, e ao Marechal coube romper o silêncio:

— Algo te incomodou?

Visivelmente nervoso, ele respondeu:

— Suspeitas quem serão esses tais entes, Miguel?

— Não faço ideia, irmão..., mas para que não sofras antecipadamente, sugiro que te prives de quaisquer maquinações.

— Maquinações? Mas quem haveremos de assistir e proteger? Ou não ouviste o que o teu escriba em alta voz disse?

O miliciano abaixou a cabeça e, após suspirar e reerguê-la, asseverou:

— Lúcifer, tu bem sabes que a nossa existência se expressa unicamente em servi-Lo.

— Sim, eu sei... E é por isso que não podemos ter outra devoção! — exclamou.

Preocupado com o irmão, o príncipe dos Arcanjos abraçou-lhe os ombros e disse:

— Ninguém conhece os desígnios Dele tão bem quanto tu, afinal tu és a luz primeira. Por isso, ouve o meu conselho: acata e obedece!

Enquanto escutava a ladainha do irmão, Lúcifer mantinha os olhos fechados. Mas ao ouvir as expressões acata, obedece, ele os abriu rapidamente e, mesmo cabisbaixo, passou a fitar o horizonte posto por trás do Arcanjo, deixando com que a leve aragem que por ali pairava passeasse pelo seu rosto, constrangendo-o a premir ainda mais o seu agora entristecido olhar.

— Desculpa-me, Miguel. Eu acho que a possibilidade da distância de nosso Pai retirou-me momentaneamente o foco da graça... — tentou se justificar.

O marechal sorriu e, tomando-o pelos braços, arrematou:

Aguardemos os propósitos do Senhor. Fé, velho amigo!

Ainda mirando a perspectiva, Lúcifer se limitou a responder com um sorriso tímido. Mas quando o armígero-mor se afastou, ele amargurou a face e revelou a sua tempestuosa natureza, a qual, em verdade, muito poucos conheciam.

Fazendo-se acompanhar por Beelzebu e outros anjos que lhe eram partidários, o Serafim da Aurora deixou o palácio rumo à magnífica esplanada onde tinha assento junto aos seus. Vendo-os de lá sair, Miguel pressentiu algo ruim e, receoso, encarou Gabriel. Este, compartilhando do seu temor, o seguiu até as muralhas de cristal a fim de aguardarem a ordem divina que, conforme havia sido sentenciado, em breve chegaria.

* * *

Num plenário fincado na última das seis magistrais pirâmides de Vidiam, Lúcifer e os que o tinham seguido se reuniram extraordinariamente. Era lá a tradicional morada dos Serafins, cujo coro, depois dos Querubins, era o mais próximo do Senhor.

No final do grande salão, havia um enorme poleiro de ouro que circundava todo aquele ambiente. Nele estavam cunhados temas um tanto agressivos, os quais lembravam serpentes aladas em chamas. Aliás, os próprios maciços daquele espaço constituíam-se em labaredas vivas, cujas línguas expandiam excessiva iluminação a todos os cantos. E no meio daquela grande estrutura, equilibrava-se o filho mais velho de Deus, que dada à importância do tema, fazia-se o centro das atenções. Com a autoridade imposta pela sua voz áspera, conteve o desconcerto lá instalado:

— Irmãos, vários dos que compartilharam o meu temor, para cá vieram. Vejo a meu lado, alguns titulares de ordens. Saúdo-vos, em nome dos quatro confrades que me estão mais próximos: Beelzebu, líder dos Querubins; Lucífago, mestre dos tronos e das cítaras; Belphegor, chefe dos principados; e Zophael, regente das potências. Agora, indago-vos: estou errado em me preocupar com o édito?

Todos se mediram de uma forma estranha, mas nenhum teve ousadia suficiente para dizer o que de fato achavam sobre tudo aquilo. Porém, o silêncio ali momentaneamente imposto foi rompido com a inesperada chegada de um alto guerreiro que de maneira repentina lá pousou:

— Pruslas?! O que faz um Arcanjo aqui em Vidiam? — desdenhou o Serafim.

— Ao acaso te sou inoportuno, Príncipe? — desafiou o oficial.

Lúcifer não respondeu de pronto e, desconfiado, apenas o fitou.

No afã de pôr termo àquele aparente mal-estar, Zophael abriu as suas longas asas negras e foi ao encontro do general que descera bem no centro do círculo.

— Vem, irmão, acomoda-te conosco... — afirmou, sob o intrigado olhar do anfitrião, ainda incomodado com a inusitada escolha de um Arcanjo, e não ele, para auxiliar na misteriosa obra divina que se achegava.

Pruslas então tomou um lugar naquela elevação e, com a cabeça, acenou discretamente aos demais que lá estavam. O Portador da Luz, sem deixar de encará-lo, retomou o raciocínio interrompido:

— Pois bem, todos ouviram Metatron e a fala do nosso Pai... Lucífago, eu gostaria que externasses a tua criteriosa opinião... — disse ele, ao chefe dos tronos.

Lucífago Rofocale era o Príncipe-Primeiro dos Tronos, o titular da linhagem dos artífices de Deus. Tinha o rosto bem feminizado e, na parte superior do lábio direito, ostentava uma mancha de forja na forma de uma pequena pinta, que lhe emprestava um certo charme. Em sua cabeça, via-se posto um coque alto que prendia os seus longos cabelos negros, o que não impedia que parte deles, sob a forma de uma comprida franja rebelde, lhe caísse no rosto e cobrisse um dos olhos. Beelzebu tinha a beleza de uma jovem; já Rofocale, em termos meramente comparativos, a de uma mulher sedutora, já em idade adulta.

Além de músicos, os Tronos eram arquitetos e engenheiros extremamente hábeis, sendo eles os responsáveis pelos projetos e construções de todas as edificações celestes. Ao contrário dos anjos de Gabriel, que geralmente usavam as trombetas como meio de comunicação, os Tronos utilizavam as harpas e cítaras apenas para o entretenimento. E naquele conselho, apoiando-se sobre a sua, Rofocale disse a Lúcifer:

— Como todos os que aqui estão, também tenho as minhas incertezas... E fazendo voz a ti, irmão, eu me pergunto: quem afinal serão esses entes referidos por Deus?

— E que fique claro que caberá a nós protegê-los... — interferiu Belphegor.

Ainda passeando os dedos por entre os brilhantes cachos que lhe caíam nos ombros, Beelzebu interveio:

— Enquanto não soubermos o que em verdade se aproxima, fica muito difícil adotarmos um discurso unificado. Voto pela espera, eu creio ser mais prudente aguardarmos os propósitos do Senhor...

Os propósitos do Senhor... — arremedou Lúcifer. — Pois saibas que eu rogo para que esses tais propósitos não nos ponham numa posição de subserviência, afinal nós somos filhos do fogo! — finalizou o archote, saltando da estrutura.

O ambiente se tornou inquieto, pondo Pruslas em desconforto. De forma inesperada, ele se levantou e envolveu o ombro de Zophael, tomando a liberdade de expor a sua tese aos demais:

— Meus caros irmãos, sou um militar, um alto oficial do Exército de Deus! E embora seja meu dever obedecê-Lo piamente, não deixo de partilhar desse medo que é geral, pois desde há muito apenas nós ocupamos estes domínios. E mais, se o Criador disse que nós os protegeremos, é certo que perigos eles vivenciarão... Mas quais serão esses riscos? E quem afinal os causará?

As dúvidas, então, tornaram-se ostensivas. O Serafim-Mor, entretanto, passou a observar aquele atrevido Arcanjo com outros olhos:

— Percebo que finalmente partilhas de minhas incertezas, Pruslas... — Satisfez-se Lúcifer, cercando-o no centro do círculo.

— Melhor seria ficar como estamos, já que desde a batalha contra as presenças, os combates nos são apenas jogos, não necessidades... — pontuou o oficial, um tanto arisco com a excessiva proximidade do archote.

— Creio que Miguel não partilha dessa tua tese, General... — ponderou, ainda com aparente sarcasmo, o regente seráfico.

— Acredito que não, Príncipe... — lamentou o desiludido legionário.

— Parece-me que chegamos a um perigoso impasse, irmãos... Pressinto, com extremo pesar, que o nosso modo de vida está ameaçado... — desabafou Lúcifer.

E sob o tenso olhar de todos que lá estavam, o Príncipe-Primeiro dos Serafins baixou a cabeça e, amparado pela luz que o cercava, quedou-se num receoso, enigmático e perigoso silêncio.

◈ ◈ ◈

O sopro de vida

O espaço nu abaixo do céu aludia à perdição e à não existência; ao nada. Tudo era nulo, sem valor e totalmente escuro.

Vindo do alto, Deus ali passeava sem chão, movendo-Se sem que existissem quaisquer espectadores que não Ele próprio. De pronto, o Criador sentiu que um firmamento se fazia necessário.

O Supremo então cerrou os olhos naquele breu, cujo único brilho expandido era o Dele próprio. Suas mãos, com as palmas ainda voltadas para baixo, começaram a se erguer vagarosamente, e a cada movimento feito, o que havia sido nada passava a tomar forma. Num repente de surpresa, o Senhor abriu os olhos e levantou os braços, fazendo emergir da escuridão uma explosão de fogo que produziu uma crosta rochosa que foi aos poucos se dissipando, até formar um círculo gigantesco: o globo. E o que antes não se via, graças ao invulgar clarão imposto, passou a ser visto. E para onde se olhasse, as rochas e as labaredas se confundiam.

O Regulador que a tudo mirava, decidiu que aquele fenômeno precisava ser medido e compassado, e para que houvesse uma divisão entre o claro e o escuro, colocou duas frações distintas entre ambos. A primeira, titular do níveo, foi chamada dia; a segunda, domadora da sombra, noite. Cada uma, por um lapso certo e cíclico, haveria de reinar sobre parte daquele colossal monte petrificado.

Percebendo que as rochas ainda flamejavam, o Altíssimo baixou os braços e os lançou para frente, fazendo surgir, por trás de Si, uma agressiva fonte de água que tomou dois terços do que havia sido criado. E tão logo os golfos líquidos impactaram no chão ainda abrasado, dele emergiu um excessivo campo de vapor que se elevou acima do Etéreo, dando margem, assim, às primeiras nuvens da nova dimensão.

Então Deus, para vedar aquelas rochas que ainda esfriavam, passou as mãos sobre elas e fez surgir uma matéria árida que começou a cobrir toda a extensão ainda seca. E para que existisse um equilíbrio entre os climas, os extremos da criação foram postos frios como o lar dos anjos, onde a água existia apenas na forma sólida: gelo.

O chão ainda era insensível e sem demonstração de vida, pois tudo se mostrava um tanto amorfo. E andando pelos alicerces levantados, o Eterno decidiu lhes dar a beleza que faltava. Ajoelhou-se e tocou no chão, forçosamente fincando nele a Sua mão esquerda. De imediato, pulularam vegetações de todas as formas e tamanhos, e quanto mais aquela sustentação era tomada, mais a beleza se impunha, pois o excessivo marrom do barro começava a ganhar o contraste das matas, das plantas e das flores.

E mesmo já estando o tempo dividido, o brilho do dia ainda era disforme, e o da noite, inexistente. Por isso, o Senhor abriu a mão direita e fez nela brotar um pequeno pomo de fogo e, na esquerda, um de luz. Na fração mais clara, Ele arremessou o primeiro, e na escura, o segundo. Aquele, ao ganhar volume, deu intensa claridade ao firmamento. Foi chamado Sol. O segundo, jogado no breu da noite, aclarou a negritude e a embelezou. Recebeu, então, o nome de Lua. E os primeiros reflexos por eles expandidos começaram a dar vida a um sem número de corpos celestes, os quais passaram a magistralmente a gravitar em seus entornos.

O tempo também haveria de ser compassado. E a cada contorno completo da lua ao redor do novo mundo, formar-se-ia o ciclo de um chamado mês e, ao totalizarem doze os circuitos, o de um nominado ano.

As águas correntes, cristalinas por demais, ainda nada envergavam. Diante disso, o Pai achegou-Se delas e tomou uma porção de pedras brilhantes que se encontravam a ribeirinha. Feito isso, as arremessou de uma só vez para cima, fazendo com que a maioria se firmasse no alto do canto escuro, surgindo, assim, os chamados astros menores, as primeiras estrelas locais.

A beleza, enfim, pululava. Urgia, agora, a vida. Deus, em seguida, fez despencar várias daquelas esferas de plasma que acabara de firmar, as quais, ao impactarem nas águas, começaram a povoá-las com milhares de espécies aquáticas.

Sob o ar — agora contrastado pela luz espectral — despontaram inúmeras criaturas aladas; umas maiores, outras menores. Tinham todas, entretanto, grandes asas aguçadas, similares às dos anjos, como se o Altíssimo quisesse, com aquilo tudo, legitimar uma ligação entre os celestes e o novo espaço.

Tudo se multiplicava em esplendor e, na base já firmada, o Senhor finalmente impôs a vida andante:

— Vida de pé, vinde a mim! — bradou.

E foi aí que, do alto de uma rocha, emergiu um grande felino de pelagem flava, cuja juba era agressivamente erguida pela ação do vento que lá pairava. Imponente, o animal emitiu um estrondoso rugido que ecoou nos mais longínquos pontos da criação e, como um chamado, fez com que outros tantos seres irracionais também se levantassem, ocupando cada qual o espaço que lhe cabia. Via-se então, em todas as partes, várias criaturas passeando pelos cenários; e o que era silente, passou a ser assoberbado graças à excessiva musicalidade da natureza. E vendo tudo aquilo, Deus se felicitou.

Seguro, Ele passou a caminhar sobre um campo fincado ao norte de onde iniciara a obra, chegando numa confortável clareira cujo chão ainda suava. E das Suas mãos. fez surgir uma mancheia de sementes que, ao serem arremessadas, tocaram no solo e deram base a duas grandes árvores. A primeira, de menores dimensões, fazia-se cobrir por flores brancas e frutos vermelhos: foi chamada macieira. A segunda, bem maior, tinha galhos extensos e folhas alargadas, seus frutos eram esverdeados e de base arroxeada. Foi batizada de figueira. Naquela, o Senhor depositou o segredo da vida infinita; nesta, pôs a essência do bem e do mal, do que era certo e do que era errado. Jamais haveriam de existir árvores mais belas, elas seriam únicas e reinariam sobre todas as outras.

E aquele recanto admirável, situado no médio oriente da criação, foi finalmente recompensado com um extenso rio cristalino, onde um lindo horto foi plantado. O campo, rico em rochas de ouro, recebeu o nome de Evilate. Os quatro braços d’água, puros e límpidos, foram chamados de Fison, Giom, Frat e Tígris. E o majestoso jardim, Éden. A beleza era extrema, tamanha que não se podia sequer ser compassada.

E viu Deus que isso era bom

(Gênesis, 1:25)

Mas a lida final ainda urgia, e um espaço de seis sóis e de seis luas se passou desde que Deus deixara o Céu para trabalhar. A luz do grande astro amarelo ainda se alastrava, e a recém-nascida vegetação recebia uma leve brisa que lhe dava vida própria. Os pássaros das mais diversas espécies infestavam o ar, e muitos dos animais ainda exploravam os grandes espaços havia pouco conquistados. Faltava, entretanto, um último labor. Aproximava-se, dessa maneira, o profetizado momento no qual um bravo Arcanjo haveria de emprestar auxílio direto ao Eterno.

* * *

No Céu, a inquietude entre os celestes passou a ser visível.

Deus os havia deixado sob a promessa de um chamado que ainda não tinha ocorrido, sendo que os costumeiros folguedos cessaram, pois nem mesmo os Querubins brincavam. E a cada momento que se passava, Lúcifer influenciava centenas de anjos, neles plantando a dúvida, a incerteza e, por via de consequência, o medo. Mas algo em seu íntimo o atormentava ainda mais do que o desconhecido: a misteriosa e demorada ausência de Deus. De longe, ele se fazia pacientemente observar por dois Príncipes-Primeiros:

— Eu estou preocupado, Miguel. Tenho percebido que os temores de Lúcifer estão se espalhando, já que até um oficial da tua ordem tem mostrado certa insatisfação. Vê Pruslas, sempre o acompanhando nos seus apelativos parlamentos... — confidenciou Gabriel ao Arcanjo-Chefe.

— Pruslas, um soldado astuto... Espero que ele saiba o próprio lugar, pois, caso contrário, eu serei obrigado a lembrá-lo... — acentuou o Marechal, pressionando a espada embainhada.

— Talvez ele esteja insatisfeito por não conseguir galgar maiores posições no Exército, se é que me entendes... — sugestionou Gabriel.

— Que seja! Mas isso não lhe empresta o direito de imiscuir-se na política, principalmente na de Lúcifer, que ao contrário dele, não é e nunca foi um militar — respondeu o Arcanjo.

Convicto, o guerreiro-mor decidiu ir ter com o irmão mais velho, afinal, eles ainda eram bem próximos, e ele era um dos nove Príncipes-Primeiros do Senhor. Talvez isso pesasse num eventual convencimento de que aquela manobra, aparentemente inofensiva, poderia, no futuro, ser perigosa. Ao se aproximar do Serafim, os demais celestes que o circundavam os deixaram a sós, o que também fez Pruslas, não sem antes tentar se justificar ao superior:

— Marechal, não me tenhas como um inconfidente... Eu apenas prezo pelo nosso espaço perante a luz de Deus.

— Antes de prezar pelo teu espaço, lembra-te da devoção que tens ao Eterno e à tua tropa, General! — advertiu-o Miguel num tom severo.

Sem esconder o desconforto pela admoestação, Pruslas abaixou a cabeça e os deixou a passos lentos. A sua tez clara combinava com os cabelos de corte médio, cujas cores passeavam entre o castanho e o loiro. De rosto bronco, ele contrastava com o feminizado — mas ao mesmo tempo rude — aspecto facial do seu comandante. Pôde-se perceber, ali, que ele não apreciou o tom de voz que fora usado para consigo.

— Não julgues mal o teu oficial, Miguel. Ele, assim como muitos de nós, está apenas temeroso com o que foi anunciado — asseverou Lúcifer, encostando-se sobre uma gigantesca varanda que os cercava.

— Irmão, tu és o melhor dos meus amigos. Sempre mirei em ti uma superfície de contemplação e exemplo. Por isso, peço-te encarecidamente que recomponhas a tua razão.

— Bem sabes do respeito que também te empresto; afinal, por Deus nós dois já lutamos juntos por diversas vezes. E em razão disso, rogo para que não abandones os teus iguais em detrimento de outros que talvez nem anjos sejam.

— Lúcifer, eu sempre fui muito justo com todos, mesmo com os que burlam as leis divinas. Aliás, são esses infratores que dão cabo da própria vida, e não eu, que normalmente sou tido como o carrasco deles — desabafou o armígero, em alusão aos anjos criminosos que, por ordem direta do Senhor, eram vez ou outra punidos com a morte.

— Sim, bem sei... Aliás, tens sido um abnegado guardião das severas e nem sempre compreendidas deliberações do nosso Pai.

— Então também sabes que fui consagrado para preservar a ordem entre nós. E saibas, farei isso a qualquer custo, e sob a espada de quem quer que seja.

— Até da minha, irmão? — retrucou, de pronto, o archote.

Miguel se pôs momentaneamente cabisbaixo, mas, sem hesitar, respondeu:

— Eu espero, sinceramente, que não.

Lúcifer ficou intrigado com a resposta, e logo continuou:

— Sabes que não sou um militar como tu, Miguel. E caso invistas verdadeiramente contra mim, talvez venha mesmo a me vencer.

— Não quero pensar nesta hipótese...

O Serafim esboçou um sorriso seco e, sem encarar diretamente o interlocutor, disse:

— Ser privado da presença de quem tanto amo talvez seja a pior das dores para mim. Sim, amo a Deus, afinal, sou o seu primeiro filho, e talvez seja por isso que eu não me conforme em saber que outros surjam em meu detrimento, ou melhor, em nosso... — afirmou, tentando se corrigir.

Miguel nada disse. O Serafim, ainda disposto sobre aquele grandioso balcão, perdeu por

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