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Expressões da pobreza no Brasil: Análise a partir das desigualdades regionais

Expressões da pobreza no Brasil: Análise a partir das desigualdades regionais

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Expressões da pobreza no Brasil: Análise a partir das desigualdades regionais

notas:
5/5 (1 nota)
Duração:
250 páginas
3 horas
Lançados:
20 de jun. de 2016
ISBN:
9788524922640
Formato:
Livro

Descrição

Em razão do acentuado destaque obtido pelo gênero feminino na pesquisa de campo, maioria dentre provedores dos lares e respondentes dos questionários, a autora antes de escrever este livro, tomou a decisão de realizar uma série de entrevistas com mulheres provenientes dos bairros pesquisados. A eleição destas seguiu aproximadamente os critérios de amostragem da pesquisa global. Dentre as aludidas entrevistas, a autora selecionou duas para constar deste texto, por retratarem de maneira mais viva e contundente a problemática das classes trabalhadoras e por representarem lições de autenticidade, de coragem e de clamor por justiça social.
Lançados:
20 de jun. de 2016
ISBN:
9788524922640
Formato:
Livro

Sobre o autor


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Expressões da pobreza no Brasil - Safira Bezerra Ammann

coração.

Parte I

CONSIDERAÇÕES

TEÓRICAS

1.1 Mutações no mundo do trabalho

A segunda metade do século XX assiste à metamorfose do processo de produção e à geração de nova dinâmica na organização e nas relações dos sujeitos responsáveis pelo trabalho. Até os anos 1950 o modelo vigente na indústria vinha sendo pautado pelos padrões tayloristas, balizados pela produção em série, com atos parciais e fragmentados. Ingredientes do fordismo são posteriormente introduzidos, com a produção em massa e mercadorias homogêneas, pela linha de montagem. Os rigores desse tipo de produção impõem aos operários a execução de tarefas parcelares e repetitivas, sem acesso à visão de totalidade do processo produtivo: cada operário conhece apenas parte do objeto que fabrica, jamais o produto final, seja ele um automóvel, uma geladeira, ou simplesmente uma peça do vestuário.

Tais mudanças, que afetaram em profundidade o coração das relações sociais de produção, haviam sido preparadas pelo processo de alteração da composição orgânica do capital. Marx já sinalizava que, à medida que progride a acumulação e a concentração do capital, ocorre a diminuição relativa do capital variável, e isso provoca a alteração da composição orgânica do capital, pois

Uma massa menor de trabalho basta para pôr em movimento uma massa maior de maquinaria e matérias-primas […] O capital adicional constituído no decurso da acumulação atrai, portanto, em proporção a seu tamanho, menos e menos trabalhadores (Marx, 1988, p. 189).

O ideário que rege o processo produtivo sofre profundas transformações no último quartel do século XX, fato que vem imprimir nova dinâmica à organização e às relações dos sujeitos responsáveis pela instância do trabalho.

A metamorfose do processo produtivo avança a passos de gigante, devido sobretudo à adoção de novas tecnologias, tais como a informática, a robotização, a microeletrônica. Elas afetam a composição orgânica do capital, a produção de bens e serviços, a organização, a gestão e as relações de trabalho.

Tal quadro pôde ser observado com nitidez quando a informatização e as múltiplas formas das novas tecnologias dominaram os processos produtivos. Esta foi, inclusive, uma das razões por que foi cada vez mais privilegiado o capital constante — contínua e frequentemente renovado, nos dias atuais — e reduzido de forma acelerada o capital variável, de vez que o trabalho humano tornou-se menos necessário.

Como nos informam estudiosos das citadas mutações na órbita do trabalho, novas modalidades de desconcentração industrial e de gestão da força de trabalho passaram a ser adotadas.

Pesquisa de Harvey (1992) dá conta de que o fordismo vigorou no âmbito do trabalho até a recessão dos anos 1970, quando o capital passou a buscar um modelo de acumulação que lhe conferisse a flexibilidade conveniente à nova fase capitalista.

No referido contexto, convém apontar a exploração da mão de obra barata mediante novo estratagema do capital internacional. A partir da década de 1970, grandes indústrias dos países centrais vêm transferindo sua produção para países não industrializados, neles contratando a mão de obra local, via de regra com salários abaixo do nível de subsistência (cf., por ex., Huws, 2007). Como não poderia deixar de acontecer, e como há muito se supunha, os impactos passaram a ser dramáticos para ambos os polos internacionais: aumento acentuado do desemprego nas regiões exportadoras de produção; trabalho subumano e instável, migrações desordenadas, falta de infraestrutura, moradias insalubres, droga, prostituição, criminalidade etc. nos países importadores da produção.

Modalidade de exploração clássica é aquela que consiste na convocação da mão de obra para atuarem em indústrias de países centrais. Não raro as tarefas que lhe são atribuídas são menos qualificadas e relegadas pelos trabalhadores locais. Frequentemente os migrantes recebem baixos salários, quando não trabalham no mercado negro ou atuam numa zona obscura, sem proteção social e sem o direito de trazer os familiares para a região onde habitam. Por outro lado, os que têm visto de estudantes são proibidos de trabalhar, mas frequentemente burlam a lei e trabalham ilegalmente, de vez que suas bolsas de estudos nem sempre cobrem todas as despesas. Em tais condições, o mercado negro instala-se e passa a beneficiar as empresas que acolhem esses estudantes.

Eis o que nos conta um universitário brasileiro com bolsa de estudos na Suíça:

os obstáculos que a gente tem de enfrentar como estrangeiro para conseguir um trabalho e um visto de residência… isso é duro. Nesses 10 anos que moro neste país, já fui de entregador de pão, a motorista de táxi. Não importa, o que vale é sobreviver. Tendo um visto oficial de estudante, eu não podia assumir um trabalho […] porque a legislação suíça proíbe. Então, trabalhava no que aparecia, inclusive como operário não qualificado, durante os fins de semana, numa indústria de reciclagem de baterias. Eu ficava mais engraxado do que mecânico de automóveis… Sem contar que o trabalho ficava a várias horas da cidade em que morava (Ammann, S. e Ammann, P.; 2006, p. 126).

Sob o novo paradigma pós-1970, conforme ainda a pesquisa de Harvey (idem), registram-se a flutuação da demanda do mercado, a desregulação e a divisão vertical do trabalho, a flexibilização e a produção em equipe, o monopólio da organização.

Diverso perfil de trabalhador passa a ser exigido, como por exemplo: alta qualificação, polivalência e destreza em múltiplas tarefas formação contínua. A propósito, se a identidade desse profissional era no passado fundamentalmente construída com base em sua formação e sua prática, na contemporaneidade esses valores deixaram de ser prioritários. A Divisão Internacional do Trabalho vigente distribui e aloca a mão de obra em empregos errantes e trabalhos fragmentados, sem conceder grande relevância aos antigos critérios, porém acrescentando uma multiplicidade de fatores que incluem conveniências geográficas, exigências de lucratividade, e atendimento a acordos firmados entre os representantes do capital multinacional.

Disso decorre que maiores exigências são postas ao sujeito do trabalho, dentre as quais deve constar sua disponibilidade quase absoluta em relação ao espaço, pois, como vem sendo comprovado, a mobilidade da oferta geográfica ultrapassa desde muito as fronteiras locais e nacionais, com graves problemas para os trabalhadores. Submetidas às exigências da mundialização da economia, as empresas impõem a seu quadro de pessoal transferências, não só inter-regionais, mas entre países e continentes em redor do mundo. Qualquer um de seus membros pode ser subitamente informado de tal deslocamento, tendo diante de si uma de três cruciais opções:

a) aceitar a transferência, levando consigo a família, que deve enfrentar o desafio do desenraizamento de seu país e a adaptação a uma outra cultura, sem contar com todos os contratempos decorrentes de uma migração internacional;

b) migrar, deixando a família no país de origem, sob o risco de desagregação da estrutura familiar;

c) recusar a transferência e assim cair no desemprego, mesmo que esteja numa faixa etária desfavorável a um novo contrato de trabalho.

Além das mutações relativas ao espaço, somam-se aquelas ocorrentes no âmbito do tempo, isto porque a jornada de trabalho passou praticamente a inexistir. Via de regra ela se prolonga pelo restante do dia, por telefone ou por internet, em salas e filas de espera, nos ônibus, nos trens, nos aviões, em casa, ou caminhando pelas ruas… Como se não bastasse, o trabalhador deve permanecer disponível inclusive durante os domingos e os feriados para atender convocações do empregador, além de realizar tarefas durante o tempo que deveria ser dedicado ao descanso, ao lazer e ao convívio com os familiares. Incontáveis chefes de família — inclusive mães que desempenham funções administrativas — reclamam que não têm mais tempo para os filhos, pois, mesmo durante o tempo dedicado aos mesmos, são continuamente interrompidos por chamadas telefônicas, quando não convocados a se apresentarem ao

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