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Predadores, pedófilos, estupradores e outros agressores sexuais

Predadores, pedófilos, estupradores e outros agressores sexuais

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Predadores, pedófilos, estupradores e outros agressores sexuais

notas:
2/5 (1 nota)
Duração:
396 páginas
5 horas
Editora:
Lançados:
26 de ago. de 2020
ISBN:
9786558000280
Formato:
Livro

Descrição

Crimes sexuais são mais comuns do que a maioria das pessoas jamais imaginou: pesquisas recentes mostram que uma entre quatro garotas e um entre seis garotos terão contato sexual com um adulto. Ainda mais alarmante é o fato de que menos de 5% dos agressores sexuais são presos. Um homem admitiu ter vitimado mais de 1.000 crianças antes de ir para a prisão.
Por que o abuso sexual é tão comum e como os predadores encobrem seus rastros? Após incontáveis horas de entrevistas com agressores sexuais – de líderes respeitados na comunidade a amigos da família que desfrutavam de confiança –, Anna Salter argumenta que são as nossas concepções errôneas sobre predadores que nos tornam tão vulneráveis a eles. Baseando-se nas histórias dos abusadores, contadas com as próprias palavras deles, Salter lança luz sobre os principais motivos por trás do abuso sexual.
Editora:
Lançados:
26 de ago. de 2020
ISBN:
9786558000280
Formato:
Livro

Sobre o autor


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Predadores, pedófilos, estupradores e outros agressores sexuais - Anna C. Salter

perigo.

1

O Problema

"A. Uma ordem violenta é uma desordem; e

B. Uma grande desordem é uma ordem.

Essas duas coisas são uma."¹

A mulher diante de mim tem uma voz lírica que é magnetizante. Essa voz devia estar cantando canções de ninar para uma criança insone, em idade pré-escolar, em vez de estar falando em trancar o filho em um quarto enquanto o marido dela e pai dele quebrava a porta do apartamento a golpes de facão.

Ela está sentada à minha frente porque sou conhecida como uma especialista em agressores sexuais, particularmente em sádicos. Emma² não é minha cliente; eu não sou sua terapeuta. O promotor que assegurou que seu marido fosse incriminado como um predador sexual violento tinha arranjado um encontro entre nós duas. Estamos as duas lá pela mesma razão. Ela quer saber mais sobre sádicos a fim de poder encontrar um sentido na sua vida com o ex-marido. Ela quer conversar com uma especialista. Eu quero saber mais sobre sádicos para melhorar minha capacidade de avaliá-los e de testemunhar contra eles. Também eu quero conversar com uma especialista.

Mas apenas uma de nós está conversando com uma especialista de verdade.

Com certeza, eu poderia achar que eu era a especialista na sala. Eu tenho um doutorado em psicologia em Harvard e fiz palestras sobre agressores sexuais em mais de 40 estados e em dez países. Eu dei palestras programáticas em conferências nacionais sobre esse tópico em quatro desses países. Em 1997, ganhei o Prêmio Realização Significativa da Associação de Tratamento de Abusadores Sexuais, conferido a uma pessoa no mundo a cada ano. Fiz filmes educacionais sobre o tema e escrevi dois livros acadêmicos, um deles já está com 15 reimpressões e foi chamado de a Bíblia do tratamento do agressor sexual. Eu escrevi até livros de mistério sobre agressores sexuais com base em minha experiência na área. Mas minhas credenciais se eclipsam diante das de Emma.

Você ficaria surpresa com as vezes em que ele esteve em minha cama. Eu o vejo de pé na porta, o jeito como ele estava quando tentei fugir dele. Ele sempre me achou. Ele subia pelas minhas janelas. Ele me bateu com um cabide e me feriu com uma faca quando me mudei.

Esse homem me roubou 31 anos de vida. Eu tenho 47. Desses, ele me roubou 31. Ele sempre vai estar lá amanhã. Sempre vai estar lá amanhã. O único jeito que vou ter para ficar livre dele e do que ele fez para mim é morrer. E mesmo na morte, eu sinto em algum lugar que naqueles últimos minutos, naqueles últimos segundos, ele com certeza vai estar lá.

Eu não discuto. Não digo a ela que amanhã vai ser um dia melhor ou que o tempo é capaz de curar qualquer coisa. Não digo a ela que ele não vai estar lá nos últimos segundos antes de ela morrer. Eu sou do sul e minha avó me ensinou a conhecer o som da verdade do evangelho quando a ouço.

Posso responder algumas de suas perguntas e posso lhe dizer que acredito nela. Estranho quão importante seja para ela, tendo em vista quanto material de corroboração que existe nos registros. Mas ela ainda não espera que acreditem nela, apesar da condenação de seu marido por assassinato em outro estado, apesar do fato de ele ter matado sua vítima em frente a filha dela de 4 anos, de ter estuprado a criança, de ter aberto o gás e deixado a criança ali para morrer (o que ela se recusou a fazer).

Emma se inclina para a frente e empina a cabeça de forma inquisitiva: O que faz as pessoas serem assim?, ela diz. É por causa dessa pergunta que ela está aqui. É esta pergunta que ela quer ver respondida.

É uma pergunta importante e merece uma resposta decente. Teorias e pesquisas voam pela minha cabeça, estudos excêntricos que mostram que psicopatas não respondem da mesma maneira que as outras pessoas a palavras emocionais. Para a maioria de nós, palavras emocionais são reconhecidas mais rápido que palavras neutras. Para os psicopatas, elas são reconhecidas mais lentamente. É como se elas fossem mais fundamentais e mais significativas para a maioria das pessoas; para psicopatas é como se elas fossem uma segunda linguagem.

O resto de nós pisca mais quando ficamos atemorizados em meio à visão de algo desagradável. Por que isso ocorre? Quem sabe? Mas talvez a aversão a algo desagradável coloque nosso sistema nervoso em um alerta vermelho. Ficando tensos antes, ele reage mais quando é atemorizado. Nada igual ao que ocorre com psicopatas. Paisagens. Queimar vítimas. Não há muita diferença do ponto de vista deles.

Há um monte de pesquisas sobre psicopatas e boa parte delas é muito preocupante: há estudos, por exemplo, que mostram que a qualidade da educação não está relacionada ao número de problemas de conduta que crianças insensíveis/não emocionais têm. Desde o início, elas parecem estar em uma trajetória estabelecida que nem mesmo uma boa criação irá mudar. As pesquisas que voam na minha cabeça prosseguem à medida que tento achar uma resposta. Penso nas teorias biológicas, sociológicas e de aprendizado. Ao final, simplesmente digo: A verdade é que realmente não sabemos.

Emma parece desapontada. Afinal de contas, ela considera que está falando com uma especialista. E agora é minha vez de fazer a pergunta que interessa para mim, aquela que, eu sei, será difícil responder:

Como foi que você conseguiu finalmente escapar?

Ela tenta responder:

Começou com aquelas duas garotas, aquelas duas últimas garotas.

Ela se refere às duas garotas Avery raptadas e mantidas em cativeiro na casa, as duas garotas que ele espancou e estuprou na companhia dela, sempre estuprando uma e fazendo a outra observar. As últimas duas garotas.

É uma pergunta difícil para ela responder, como ela finalmente caiu fora daquilo. Mas em meio às histórias que ela me conta, ouço isso: ela chegou a um ponto onde não importava mais se vivesse ou morresse, no qual as ameaças não tinham mais força e em que ela não sentia mais os espancamentos. Ela teve de chegar a um tal ponto de loucura que escapou ao controle. Chegou a um ponto em que ele teria de matá-la ou deixá-la ir embora. Teria sido de uma forma ou de outra.

Ela ainda está escapando. Ou é como se fosse assim. Ele está sempre lá, diz ela novamente, de pé ao lado da cama.

Nunca foi uma escolha de Emma casar com esse homem ou mesmo se envolver com ele. Com 15 anos de idade, ela ficou grávida de um jovem da igreja dela. Quando contou para a mãe, que nunca gostara muito dela, respondeu que Emma estava mentindo; nenhum jovem da igreja faria nada do tipo com ela. Logo depois disso, Emma estava brincando de fazer a marcação com uma bola de futebol americano na rua e correu para pegar um passe. Um homem que costumava sair com o irmão dela em corridas de carro correu até ela. Sua mãe disse que eu poderia ter você, ele lhe disse, portanto vou casar com você. Emma simplesmente continuou correndo para pegar o passe.

Ela devia ter simplesmente continuado. Simplesmente ter corrido rua abaixo e nunca ter olhado para trás. Mas Emma não tinha idéia do que ia acontecer com o homem que tinha chamado por ela e, além disso, não havia para onde ir. Então ela fez o que sua mãe lhe disse para fazer. Casou-se com ele. Antes mesmo de o casamento acontecer, ele começou a bater nela. Depois do casamento, ele batia nela todos os dias, estivesse ela grávida ou não. Na mente dela, ele ainda faz isso.

A história de Emma deveria ser mais rara do que é. Você e eu deveríamos ser capazes de pegar um jornal local sem ver uma nova acusação de abuso sexual de crianças contra alguém em nossa região. Os católicos não deveriam ter medo de deixar seus filhos serem coroinhas. Os pais não deveriam ficar preocupados com acampamentos noturnos. Eu deveria encontrar muitas pessoas que não conhecem pessoalmente nenhuma criança que tenha sido estuprada ou sofrido abuso. Mas eu não consigo lembrar de ter um jornal sem uma acusação de estupro ou de abuso sexual e, quando pergunto a grupos sobre quantos conhecem pessoalmente alguém com uma história de abuso, quase sempre todos levantam a mão na sala.

As pesquisas não foram lentas em documentar quão freqüentemente os ataques sexuais ocorrem neste país. Nós é que fomos lentos em prestar atenção a isso. Pesquisadores que começaram em 1929 documentaram taxas de abuso sexual de crianças do sexo feminino que iam de 24% a 37%.³ Pesquisas sobre crianças do sexo masculino são mais raras, mas aquelas que foram feitas encontraram taxas alarmantes, algo em torno de 27% a 30%.⁴

Esses antigos estudos careciam da sofisticada metodologia das pesquisas mais modernas e suas definições de abuso sexual eram menos precisas. Sem dúvida, o que elas definiram como abuso sexual poderia ser considerado hoje em dia como jogos sexuais normais entre crianças. Ainda assim, os exemplos dados nesses estudos tornam claro que a maior parte disso, de fato, era abuso sexual. O que é mais impressionante é que esses estudos documentaram o que seguramente se pensava que fosse abuso sexual na época, ainda que ninguém tenha prestado atenção.

Pesquisas modernas confirmaram o que os primeiros pesquisadores descobriram. O Dr. Gene Abel e seus colegas realizaram estudos sobre agressores sexuais no final dos anos 80 que perguntavam a clientes agressores sexuais qual o total de agressões que haviam praticado.⁵ Os estudos garantiam confidencialidade de várias maneiras: os entrevistadores não tinham os nomes dos entrevistados, apenas seus nomes de pesquisa; eles tinham obtido um certificado federal de confidencialidade que impedia os resultados de serem submetidos a uma corte federal neste país; de qualquer forma, a lista mestra era mantida fora do país.⁶

Os resultados deixaram a comunidade profissional estupefata. Duzentos e trinta e dois abusadores de crianças admitiram ter participado de mais de 55 mil incidentes de abuso. Eles afirmaram ter sido bem-sucedido em 38 mil incidentes e relataram que tiveram mais de 17 mil vítimas. Tudo isso de apenas 232 homens. Homens que abusaram de crianças do sexo feminino fora de casa tinham em média 20 vítimas. Embora fossem a menor quantidade entre eles, os homens que abusaram de crianças do sexo masculino fora de casa eram ainda mais ativos que os abusadores de crianças do sexo feminino, com uma média de 150 vítimas cada um.

Dr. Abel também analisou os dados para todos os tipos de agressões sexuais, incluindo exibicionismo, voyeurismo e estupro adulto, assim como abuso sexual de crianças. Essa pesquisa mais ampla de 561 agressores admitiu a existência de mais de 291 mil agressões sexuais de todos os tipos e mais de 195 mil vítimas.

É difícil avaliar quão grande a cifra 195 mil é, mas pense que o Louisiana Superdome, local de cinco Super Bowls, tem uma capacidade máxima de 72.675 pessoas sentadas. Se todas as vítimas desses 561 homens quisessem se encontrar, elas teriam enchido dois Superdomes e meio.

Apesar dos números surpreendentes, a maioria desses crimes nunca foi descoberta. De fato, Dr. Abel calculou as chances de alguém ser pego por agressão sexual em 3%. Ao que parece, o crime compensa, especialmente o crime sexual.

Mas como sabemos que esses homens não estão mentindo? Gabando-se de coisas que nunca aconteceram? Infelizmente, estudos de vítimas confirmam o que os agressores dizem. Em um estudo clássico de mulheres adultas na população em geral, a Dra. Diana Russel descobriu – e uma pesquisa posterior feita pelo Dr. Gail Wyatt e por outros confirmou – que as taxas de abuso sexual infantil são extraordinariamente altas.⁷ Vinte e oito por cento da amostra de mulheres de Russel tinham sofrido abuso quando crianças antes de completarem 14 anos, 38% se aquelas entre 14 e 17 anos forem incluídas. Estas eram apenas agressões de contato físico – o exibicionismo não foi computado – e excluíam contato sexual não violento entre colegas. Apesar de tudo, apenas 5% do abuso sexual infantil revelado a esses pesquisadores foi relatado às autoridades.

Os números sobre pessoas do sexo masculino mostram taxas mais baixas, porém ainda assim alarmantes. Embora pedófilos voltados para pessoas do sexo masculino sejam altamente ativos, há menos deles do que aqueles homens que abusam de crianças do sexo feminino. Apesar de tudo, entre 9% e 16% dos garotos nos Estados Unidos podem ter sofrido abuso antes de alcançarem a idade adulta.⁸

Esses são números para abuso sexual infantil, mas Dra. Russel descobriu que os dados sobre estupro adulto também não são consoladores.⁹ Quarenta e um por cento das mulheres no estudo de Russell foram vítimas de estupro ou de tentativa de estupro quando adultas. Se o estupro conjugal fosse incluído, o número subiria para 44%. Pesquisas realizadas pela Dra. Mary Ross e outras documentam que entre 15% e 27% das alunas de faculdade do sexo feminino são vítimas de estupro ou de tentativa de estupro na época em que deixam a faculdade.¹⁰

Em termos metodológicos, parece que estudos de estupro concretizado em vez de tentativa de estupro produzem dados na população geral que vão de 12,7% a 24%,¹¹ com dois estudos encontrando taxas intermediárias de 15% e 20%, respectivamente.¹² As cifras mais altas são, de fato, amedrontadoras e, infelizmente, o trabalho de Russel – que encontrou as taxas mais altas – ainda é o mais rigoroso do grupo.

Mas mesmo as taxas mais baixas são desesperadoras. Ainda que o estudo mais baixo esteja correto – o que não é provável –, isso significa que no mínimo uma em cada nove mulheres neste país será estuprada em algum momento da vida, o que em si é um dado apavorante.

Os dados de pesquisa secos só confirmam o que me cansei de ver nessa área: existe um monte de agressões sexuais por aí e as pessoas que os cometem com muita freqüência não são apanhadas. Quando um agressor é apanhado e passa por uma avaliação por meio de um exame com o detector de mentiras, ele revela dúzias, às vezes centenas, de agressões pelas quais nunca foi pego. Em um estudo não publicado da psicóloga Dra. Pamela Van Wyk, 23 agressores de seu programa de tratamento em cárcere entraram no programa admitindo uma média de três vítimas cada um. Colocados diante de um polígrafo, ou seja, de um detector de mentiras, e da necessidade de superá-lo para continuar no programa de tratamento, revelaram uma média de 175 vítimas cada um.

Um artigo recente da terapeuta Jan Hindman resumiu uma série de três estudos que ela realizou em diferentes períodos de tempo, cada um comparando polígrafo com não polígrafo em termos de quantas vítimas os agressores revelaram.¹³ Embora os números absolutos fossem menores que aqueles acima, o número de vítimas reveladas com a ameaça do detector de mentiras (e a imunidade condicional quanto a um processo por essas revelações) era de quatro a seis vezes maior que aquelas reveladas sem o detector.

E estes são apenas os agressores que são apanhados. Tratando vítimas desde 1978, ouvi muitas e muitas histórias de agressores que nunca foram apanhados. Uma jovem mulher me contou que, quando adolescente, ela e uma amiga eram repetidamente estupradas por um amigo de seus pais. Isso durou anos. Ele estuprava as meninas, uma diante da outra, e ameaçava a vida das duas se elas contassem. Elas não o fizeram. As duas tinham medo dele e estavam convencidas de que, de qualquer forma, ninguém acreditaria nelas, dado o status dele na comunidade e sua amizade com seus pais. Existe uma música que até hoje elas detestam, ela me contou, porque ele costumava cantá-la quando tirava a roupa delas.

Sua amiga cometeu suicídio quando se tornou adulta. Minha cliente foi atormentada com baixa auto-estima, pesadelos contínuos e depressão. Ela sempre viveu uma vida cercada de barreiras, mantendo os outros à distância emocional de um braço.

E o que aconteceu com ele, eu perguntei. Ele?, ela disse, perplexa com a pergunta. Nada. Ele ainda é o moderador nas reuniões da cidade. Lá, em uma cidade a menos de 25 quilômetros da pequena New England onde eu vivia na época, havia um predador que era arrojado o suficiente para estuprar crianças uma diante da outra. Ele estava implicado no suicídio de uma, tinha prejudicado a vida de uma outra e, mais de uma década depois, estava de pé diante de seus companheiros contando piadas. E, sem dúvida, ainda cantando sua canção.

Em todas as entrevistas que fiz, não consigo me lembrar de um agressor que, em uma conversa em particular, não tenha admitido mais vítimas do que aquelas pelas quais ele foi apanhado. Ao contrário, a maioria dos agressores foi acusada de e/ou condenada por um número de uma a três vítimas. Nas entrevistas que fiz, eles admitiram algo em torno de 10 a 1.250 vítimas. O que era realmente amedrontador era que todos os agressores tinham sido denunciados antes por crianças e as denúncias tinham sido ignoradas.

Ignorar uma revelação válida pode ter resultados desastrosos. No mínimo, isso aumenta a confiança do agressor em sua habilidade de se safar. Com freqüência, é uma licença para cometer de novo o delito contra a mesma criança. Um abusador me disse:

Eu achava que se eles contassem, suas mães ou pais não iriam acreditar neles. E quando descobria que eles não acreditavam mesmo, voltava para novamente abusar das mesmas crianças e estuprá-las.

Mas nem todas as crianças contam de imediato. Por razões tão diversas, como medo do agressor, vergonha de sua impotência, amor e proteção de um pai, ou mesmo – se o agressor for esperto o suficiente, acariciar os genitais delas – vergonha de sua própria excitação sexual durante os atos sexuais, elas não contam.

Além disso, elas com freqüência acham que seu silêncio afeta apenas a elas próprias. Um homem relatou que, quando criança, achava que havia algo errado com ele que fazia o diretor da escola escolhê-lo. Ele deveria ser gay, ele achava, ou de alguma forma tinha feito algo que levava o diretor a puni-lo com o abuso. A realidade só se mostrou diante dele 20 anos depois, quando ele retornou à cidade, já adulto, e viu o diretor dando voltas com outro garoto de 12 anos em um carro. Em todos aqueles anos, ele nunca tinha achado que o diretor poderia ser um risco para outras crianças. Esse homem se pune por não ter revelado o abuso. Ele sente agora que deveria ter protegido outras crianças de um abuso posterior. Eu gostaria de acreditar que qualquer uma dessas coisas era verdade.

2

Enganação

Eu fico pasma diante da declaração da criança à minha frente. Trata-se um relatório feito por um assistente social a respeito de um relato de uma menina de quatro anos de idade sobre abuso sexual pelo pai:

Durante minha entrevista com Julie, ela era capaz de identificar todas as partes do corpo de um ursinho de pelúcia. Ela se referia à extremidade posterior do urso como sendo seu bumbum e designava a área genital dele como bonitinha. Num momento da entrevista, Julia disse que seu pai lambia e chupava sua bonitinha. Ela afirmou que, quando chupava sua bonitinha, o pai a fazia arder.

Julie disse que o pai fazia isso no quarto, com as janelas fechadas e sob as cobertas. Ela disse que isso aconteceu quando ela tinha quatro anos e sua mãe não estava em casa. Julie falou que queria dizer ao pai para parar de chupar sua bonitinha.

Julie afirmou que o pai queria tirar sua camisola e lamber sua bonitinha. Ela disse que era agradável durante um tempo e depois começava a arder.

Examino cuidadosamente o relatório. Ele está preenchido com detalhes. As palavras são as palavras de uma criança, a descrição é exata. Está claro que a criança sabe o que é sexo oral. Ele não mostra sinais de que ela foi orientada. Mas por que esse relatório foi enviado para mim com todas as informações identificadoras removidas por um operador de polígrafo que eu mal conheço? Eu continuo a leitura procurando um rodapé ou informações anexas no arquivo.

Esse relatório, fico sabendo, emergiu em meio a uma briga pela guarda da filha. O pai era um próspero homem de negócios, bem-sucedido, respeitado e de quem as pessoas gostavam. A mãe era uma paciente internada em uma unidade de tratamento de drogados. Meu coração se aperta. Não importa quão realista esse relatório seja, quantos sinais de credibilidade, quantos sinais de instrução. Em nosso sistema de justiça, os advogados estão à venda. De fato, o dinheiro do pai vai comprar alguns advogados muito bons. Não está claro se a mãe tem o dinheiro ou a vontade para se opor a ele. E a criança – ela terá sorte de conseguir alguma representação legal que seja. Por muitas vezes, pensei que se eu fosse acusada de um crime, preferiria ter o melhor advogado a ser inocente.

Mas ao que parece, não é tão simples. O tribunal responde de maneira apropriada e aponta dois psicólogos independentes para fazer uma recomendação. Duas chances independentes de fazer as coisas certas. Duas pessoas que não são subordinadas a nenhum dos lados e que podem solicitar qualquer teste, até mesmo um detector de mentiras, como parte de sua tomada de decisão. Duas pessoas cujo trabalho é saber alguma coisa sobre enganação e separar o verdadeiro do falso.

Mas em vez disso, ambos os psicólogos optam pelo que se chama de avaliação interativa. Eles simplesmente observam o pai interagir com a filha, buscando sinais de intimidade ou, inversamente, de medo. Eles acreditam que, se ele abusou dela, ela vai ficar com medo dele; se ela gosta dele, ele é inocente.

É claro que não há nenhuma pesquisa nem nenhuma boa teoria que ratifique essa abordagem. Eu me pus de pé em uma palestra uma vez em que uma pessoa estava discutindo esse tipo de avaliação e chamei a atenção para a falta de pesquisas para apoiar isso. Mencionei que agressores sexuais são famosos por terem uma ligação íntima com a criança e usarem o relacionamento para manipulá-la no sentido de fazer sexo com eles. Eu afirmei que, além disso, uma criança pode sentir medo de um homem por razões completamente diferentes. Talvez ele espanque sua mãe, mas nunca tenha encostado um dedo nela. Que justificativa tiveram os apresentadores para acreditar que alguém pudesse falar a partir da interação entre a criança e o suposto criminoso se o abuso ocorreu ou não? O palestrante se virou para um colega na platéia e disse: Você poderia me dar uma ajuda?.

No caso desta criança, o alegado criminoso é o pai dela. Com certeza ela o ama, mesmo que ele tenha feito o que ela denunciou. Ele não usou violência. Não necessariamente ela acha que houve algo errado com o que ele vem fazendo. Ela tem quatro anos de idade. Um dos avaliadores escreve: Observações do pai e da filha indicam um relacionamento muito feliz, espontâneo e positivo. Eu suspiro. Como se uma coisa tivesse algo a ver com a outra. O fato de ela gostar dele não significa que ele seja inocente ou culpado. Então encontro algo que me faz ficar ereta na cadeira.

De interesse são as admissões por parte do Sr. Jones que, em uma época remotamente anterior, ele tinha se envolvido em comportamento sexual inapropriado com três crianças. (...) Da mulher com quem ele estava vivendo na ocasião.

Eu observo admirada a anotação. Esse psicólogo sabia o que ele tinha feito antes – em circunstâncias idênticas. Trata-se de uma admissão condenável e seguramente significa que o psicólogo deveria atentar seriamente para essa última revelação. Mas ele não faz isso. O Sr. Jones, ao que parece, é muito charmoso, muito rico, muito respeitado. Apesar de saberem que ele é um abusador de crianças declarado, ambos os psicólogos recomendam que a custódia integral vá para o pai.

E a história termina assim – na maioria dos casos como este. Mas o advogado do pai, convencido de que seu homem era inocente, mandou-o para um operador de polígrafo. Sei que pensou que ele era inocente porque o mandou para um operador de polígrafo muito competente – o tipo de homem a quem ninguém enviaria conscientemente um cliente culpado. Esse operador de polígrafo é um interrogador incrivelmente bom e tem uma taxa de confissão de 98% para pessoas que passam pelo teste de fraude em seu polígrafo. Eu o vi na conferência anual da Associação Americana de Polígrafo e conheço suas técnicas. Eu o ouvi descrever o que diz a seus clientes:

O problema com o polígrafo é que ele não pode apontar a diferença entre uma grande mentira e uma pequena, e eu detestaria, sim, de fato eu detestaria que você estragasse seu teste com o detector com algo pequeno que fosse insignificante. Portanto, se existe algo, qualquer coisa que você queira me contar antes do polígrafo, agora é o momento de nós o tirarmos do caminho.

A partir dessas instruções, o operador de polígrafo descobriu que o Sr. Jones tinha algumas coisas a dizer:

Ela segura seu pênis enquanto ele lhe dá banho no chuveiro e ele tinha explicado a ela o que um homem faz com ele. Quando questionado depois sobre com que freqüência isso acontecia, ele disse que era três a quatro vezes por semana. Quando solicitado a fornecer um número alto em relação à quantidade de vezes em que Julie tocou seu pênis, ele falou em algo em torno de 20 vezes.

O relatório do operador de polígrafo prossegue:

Ele também admite ereções e masturbações no chuveiro enquanto Julie está tomando banho com ele e reconhece que, em cerca de cinco ocasiões que ele consegue lembrar, ela brincou com seu pênis enquanto ele estava ereto, afirmando que isso era parte da educação dela.

Deixar Julie acariciá-lo é uma admissão direta de abuso sexual infantil. Mas isso não é tudo. O relatório prossegue:

O pai dela afirmou que dorme nu e que Julie gosta de se aconchegar a ele. Ele disse que ela gosta de esfregar seu pé para cima e para baixo no pênis dele até ele conseguir uma ereção e, por vezes, coisas acontecem.

Quando começa, o Sr. Jones parece mais que feliz em falar. Ele conta ao operador de polígrafo sobre seu uso de vibradores na criança:

Ele afirmou que ela gosta do orgasmo. Vou arrumar um vibrador para ela. Ela vai segurar o cabo de encontro a sua bonitinha e dar risinhos até atingir o clímax.

Todas essas afirmações ocorreram antes mesmo de o Sr. Jones ser submetido ao detector de mentiras. Ele admitiu abertamente o abuso sexual infantil. Adicionalmente a tudo que admitiu de antemão, ele falhou no polígrafo. O que ele não admite – pelo menos até ser pego pelo detector de mentiras – é o sexo oral. Na linguagem seca do relatório, o Sr. Jones finalmente fala claro:

Ela lambeu e chupou seu pênis não mais de cinco vezes, fez dois boquetes completos nele. Ele fez 69 com ela. Ele lambeu sua vagina e praticou sexo oral nela não mais do que dez vezes.

Em uma nota, o operador de polígrafo menciona que o Sr. Jones se queixou de que Julie era tão pequena que ele ficou com dor nas costas quando fez 69 com ela. Quem sabe eu possa ser perdoada por pensar que a prisão faria maravilhas com a dor nas costas do Sr. Jones.

Mas não é isso que ocorre. E eu sei disso mesmo antes de virar as páginas buscando o resultado do caso. Eu estive nessa área por tempo suficiente para achar que só porque um homem é culpado e só porque alguém extraiu a verdade dele, isso automaticamente significa que ele foi considerado responsável.

Eu encontrei um bilhete escrito do operador de polígrafo no arquivo. Ele passou um fax do relatório para o advogado do pai. Afinal, ele era um operador de polígrafo privado, requisitado pelo advogado do pai e não um operador solicitado por algum dos avaliadores independentes. Cinco minutos depois que ele passou o fax do relatório, o telefone tocou: Eu trabalhei vinte anos com você, disse a ele o advogado. "Espero não ter de te lembrar o que significa comunicação

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