Aproveite milhões de e-books, audiolivros, revistas e muito mais, com uma avaliação gratuita

Apenas $11.99 por mês após o período de teste gratuito. Cancele quando quiser.

Creepypastas: lendas da internet 2
Creepypastas: lendas da internet 2
Creepypastas: lendas da internet 2
E-book271 páginas4 horas

Creepypastas: lendas da internet 2

Nota: 0 de 5 estrelas

()

Sobre este e-book

Os fóruns web estão repletos de histórias sobre casos misteriosos, investigações policiais não resolvidas, fotos sem explicação, descrições de rituais e manifestações demoníacas, versões bizarras e não oficiais de jogos eletrônicos, relatos de episódios macabros de desenhos infantis.

São narrativas virais e anônimas espalhadas nos recônditos mais obscuros da internet, sem que se possa rastrear seus verdadeiros autores. Ou sua veracidade. Acabaram conhecidas como creepypastas - algo como um copypaste (de copiar e colar) de situações assustadoras.

Mas e se as lendas mais famosas da Internet não forem boatos? Nesta continuação do sucesso ""Creepypastas: lendas da internet"", reunimos mais escritores para darem suas próprias e originais versões das creepypastas mais perturbadoras de todos os tempos.

Do submundo do Reddit diretamente para sua leitura de cabeceira.
IdiomaPortuguês
EditoraLendari
Data de lançamento2 de set. de 2020
ISBN9788569243458
Creepypastas: lendas da internet 2
Ler a amostra

Leia mais de Alec Silva

Relacionado a Creepypastas

Livros relacionados

Avaliações de Creepypastas

Nota: 0 de 5 estrelas
0 notas

0 avaliação0 avaliação

O que você achou?

Toque para dar uma nota

    Pré-visualização do livro

    Creepypastas - Alec Silva

    Copyright © Lendari, 2020

    Todos os direitos reservados.

    Creepypastas: lendas da internet 2

    Todos os personagens e acontecimentos neste livro, com exceção dos claramente em domínio público, são fictícios, e qualquer semelhança com pessoas reais, vivas ou não, é mera coincidência.

    Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou transmitida por qualquer forma – meio eletrônico ou mecânico, inclusive fotocópias, gravação ou sistema de armazenagem e recuperação de informação – sem a permissão expressa, por escrito, do editor.

    O texto deste livro obedece às normas do Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

    Editor-chefe

    Mário Bentes

    Assistente editorial

    Revisão

    Barbara Parente

    Organização

    Glau Kemp

    Montagem de capa

    Marina Ávila

    Ilustração de capa

    João Henrique de Jesus

    Diagramação

    Viviane Cristina

    Diagramação de eBook

    Calil Mello Serviços Editoriais

    DADOS INTERNACIONAIS DE CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO (CIP)


    C913 Creepypastas [recurso eletrônico] : lendas da internet 2 / [Organização de Glau Kemp]. – São Paulo: Lendari, 2020. 1 ePub.

    ISBN 978-85-69243-45-8

    1. Ficção. 2. Terror. 3. Contos - coletânea. 4. Literatura brasileira. 5. Lendas. I. Kemp, Glau. II. Título.

    CDU 821.134.3(81)-344


    Bibliotecária responsável: Bruna Heller (CRB-10/2348)

    Índice para catálogo sistemático:

    1. Literatura em português 821.134.3

    2. Brasil (81)

    3. Gênero literário: contos sobre o fantástico, o sobrenatural, o macabro -344

    Grupo Lendari

    editor@grupolendari.com.br

    www.lendari.com.br

    www.grupolendari.com.br

    www.lendaristore.com.br

    Sumário

    100 cartas | Alec Silva

    A Casa de Espelhos | L.A. Tecau

    A obsessão que me alimenta | Babi Lacerda

    A passageira | Rodrigo Reis

    A sombra do disco | Mauro Plastina

    Agulhas | Rodrigo Ortiz Vinholo

    Amigo oculto | Alan de Sá

    Boneca Russa | Álex Souza

    Casa das aves | Rodrigo Reis

    Dias sombrios noites claras | Diego de Araujo Silva

    Ed, 1990 | Bruno Godoi

    ERISinninthcirclexxxiv | João Marciano Neto

    Faces da morte volume 37 | Jean Luca Vedovato

    Fax | Rodrigo Ortiz Vinholo

    Hora errada | Kelly Amorim

    Horror no bairro de Pedreira | Igor Moraes

    Insanidade? | L. J. Brunh

    Linha Direta | Lucas F. F. A.

    O canto das Baleias | Leonardo Araújo

    O disquete | Sanna Lemos

    O escultor | Leonardo Peccatu

    O esquife haitiano | Fabiano Soares

    O fim dos trotes de 1996 | Glau Kemp

    O homem sob as cicatrizes | Pedro Gonzalez

    O locutor da madrugada | Nicolás Irurzun

    O último episódio | Dennis Vinicius

    Onde está a Duda? | Alane Brito

    Pontos de pecado | Caliel Alves

    Povo das sombras | Y. M. Dias

    Residência N°13 | Thainá Christine

    Segredos Bem Casados | Francine Cândido

    Y2K | Raquel Pagno

    Landmarks

    Capa

    Folha de rosto

    Créditos

    Sumário

    Apresentação

    Agradecimentos

    APRESENTAÇÃO

    Quando pensei em lançar uma coletânea de terror pela Lendari, em dezembro de 2017, o que tinha em mente era evitar que o projeto fosse apenas mais uma obra genérica de contos de terror. Precisava ser algo temático dentro do terror, mas que ainda assim permitisse uma ampla diversidade de alternativas. Foi quando me caiu a ficha: o que poderia ser temático, datado, instigante e ao mesmo tempo explorar muitas facetas, dando muitos caminhos para os escritores criarem?

    Os anos 90 caíram perfeitamente na proposta. Para ser mais exato, as lendárias Creepypastas. Para quem nasceu uma década antes, nos anos 80, as creepypastas são mais familiares. Isso porque os oitentistas viveram os anos 90 com maior intensidade do que quem nasceu nesta época. Os adolescentes dos anos 90 viveram a transição do mundo off-line para o on-line. Presenciaram a chegada dos chamados computadores domésticos, os desktops, bem como as primeiras conexões de internet.

    Os nascidos nos anos 80 foram os primeiros a experimentar as noites em claro em conexões péssimas, mas que, na época, era o que havia de melhor — porque não havia outra opção. Vivemos o florescer das noites insones, os bate-papos, os ICQs, os IRCs, os modems de 56 kbps. O ruído característico das conexões, feitas pelo cabo RJ-11 da linha telefônica, era o sinal de que um mundo novo havia sido aberto. Uma passagem para páginas HTMLs, fotos que levavam vários minutos para baixar, gifs de qualidade duvidosa e... histórias de arrepiar.

    O nome Creepypasta vem de copy e paste (copiar e colar) de histórias assustadoras. A lógica é a seguinte: em fóruns temáticos de páginas pretas e detalhes vermelhos (a maioria das páginas do tipo tinha essa característica), algum usuário contava, de forma bem improvisada e com doses de realismo, um relato supostamente ocorrido com ele. Não importa onde. Não importa quando. Ocorreu em algum momento e em algum lugar.

    E, algum tempo depois, essa mesma história reaparecia em outro fórum. Mas com alguma diferença: era outra pessoa envolvida, em outro lugar. Talvez até outro país. O caso de uma figura sem rosto que perambulava pelas ruas de uma cidadezinha dos EUA era recontada, mas agora no interior de Minas Gerais. O contexto mudava, as características da cidade, os nomes dos personagens. Mas a essência era a mesma.

    Ninguém sabia como havia começado. Ou por quem. A certeza era que outro alguém, em outra parte, contando em outro fórum bizarro, viveria a mesma situação. Essas histórias, sem origem ou destino, deslumbravam milhares de usuários da então iniciante internet brasileira. Nós passávamos noites e noites em claro desfrutando de cada relato, foto, áudio, enfim, tudo o que já poderia ser chamado de multimídia. Podemos chamar as creepypastas de avós da deep web.

    Foi justamente para fazer esse resgate nostálgico e apresentar as creepypastas a novas gerações que lançamos, em 2018, aquele que viria a ser um dos maiores sucessos da Lendari: Creepypastas: lendas da internet reuniu um grande time de autores, muitos dos quais, posteriormente admitiram, tiveram de pesquisar o termo, seu contexto, a época. Meu conto da primeira edição, A Umbra, é uma homenagem aos anos 90 e a todo aquele clima de conexão discada de computadores desktop. Um dos leitores chegou a elogiar o conto pela pesquisa bem-feita sobre os anos 90. Bem, não chegou a ser uma pesquisa, mas um misto de (ótimas) lembranças dentro de um contexto do projeto.

    Naquele mesmo ano de 2018, o primeiro Creepypastas foi eleito entre as melhores leituras pela Biblioteca do Terror, o que aumentou ainda mais o interesse pelo livro. Até hoje, trata-se de um dos títulos mais vendidos pela Lendari na Amazon e em todas as lojas digitais com as quais mantemos acordos de distribuição. O edital para novos volumes fatalmente ocorreria, mas só veio de fato no segundo semestre de 2019. Havia tanta expectativa por parte dos autores em fazer parte que, quando finalmente lançamos edital para Creepypastas: lendas da internet 2, a procura foi alta. Tão alta que o número de bons contos e ótimas histórias resultou na ampliação da base de selecionados, o suficiente para anunciarmos, na mesma seletiva, Creepypastas: lendas da internet 3.

    Ao contrário do primeiro volume, Creepypastas 2 e 3 foram bem datados: todas as histórias deveriam se passar nos anos 90. Não apenas como forma de fazer uma justa homenagem à época em que as creepypastas surgiram, mas para haver uma identificação com os leitores, por mais jovens que fossem, ao projeto. O resultado foram dois grandes livros que, assim como seu predecessor, devem fazer o mesmo sucesso. Até porque, como sabemos, uma creepypasta jamais morre. Ela se reinventa, pelas mãos de outros, e reaparece em outro lugar.

    Mário Bentes

    Editor-Chefe

    Se está na internet,

    então é verdade.

    (Anônimo)

    100 cartas

    Alec Silva

    Nunca acreditei muito no Flávio, pois era um cara todo cheio de manias estranhas, como ficar horas nos fóruns de internet, obcecado por imagens de cadáveres, extraterrestres dissecados e aparições de fantasmas em hospitais. Nunca entendi essa obsessão toda. Não até aquela tarde, quando eu estava tentando convencer a sofrida internet discada a colaborar com minha vontade de pesquisar maneiras de vencer determinadas fases em Starcraft. Como era um jogo lançado no ano anterior, ainda não havia tanta gente comentando, então era uma busca demorada, paciente e quase sempre improdutiva. O telefone tocou. Era Flávio. Ele parecia nervoso, e isso já era esquisito por si só, afinal nunca o vi nem o ouvi naquele estado. Tentei acalmá-lo e, entre perguntas e pedidos para ele não fazer nenhuma besteira, tive acesso à parte da história.

    Era um dia com algumas aulas vagas, e ele acabara de sair do fliperama. Estava irritado por ter perdido fichas num jogo idiota e tinha planos de, mais tarde, enfiar-se na frente do computador e buscar cenas bizarras de corpos acidentados ou pornografia. Ainda se decidia entre uma coisa ou outra quando esbarrou numa velha muito, muito feia e malvestida. Quando lhe pedi a descrição, tudo que conseguiu me falar foi o quanto ela era repugnante, com um nariz aquilino e olhos de abutre. Mas fora simpática; aceitou as desculpas sinceras e atrapalhadas de Flávio; perguntou onde ficava algum lugar e, como agradecimento, estendeu um surrado envelope de carta. Meu amigo ainda tentou recusar, mas aqueles olhos de abutre pareciam agora ser de víbora e ele, coitado, um ratinho indefeso. Nem percebeu quando a velha se afastou, mas ali ficou, na esquina, segurando um envelope e ainda confuso.

    Dentro do envelope, havia uma carta de poucos parágrafos, numa caligrafia tremida e borrada. Flávio recusou dar detalhes, mas me informou que nela havia um conteúdo que, de início, fizera-o rir. Ignorando-a por uma semana, largada entre os cadernos, ele recebeu, pelos Correios, a segunda carta. Agora, estava num tom mais ríspido, quase uma ameaça. Confuso, meu amigo tentou ignorar aquilo, acreditando ser alguma brincadeira. Só poderia ser. Afinal, não tinha como as coisas descritas na carta serem verdadeiras.

    Mas as cartas não pararam de chegar. Ele as recebia de todos os lugares e elas apareciam onde menos se esperava. A cada novo envelope lacrado e endereçado a Flávio, porém sem remetente, mais o conteúdo dos parágrafos adquiria um tom assustador e de ameaça. Na quinquagésima, o medo já havia tomado conta dele completamente. Intrigado com a repetição dos nomes de quem não deu atenção aos avisos recebidos, ele começou uma busca desesperada pelos fóruns. Não foi uma tarefa fácil chegar onde queria, e as cartas não lhe deram trégua, sendo entregues em intervalos irregulares e surgindo até mesmo embaixo do teclado do computador. Apavorado, pesquisou os nomes mencionados na horrenda caligrafia e, para seu horror, encontrou a confirmação dos fatos que tanto persistiam nas linhas das cartas.

    Uma garota no México recebeu de uma velha uma estranha boneca de pano, cujos braços eram bastante longos. Dentro, uma carta lhe pedia para assassinar o irmão recém-nascido antes de passados cem dias desde o momento que ganhou o brinquedo. Ela ignorou o aviso. No centésimo dia, foi achada morta num aterro sanitário; os braços da boneca serviram para enforcá-la.

    Num pacato vilarejo de indeterminado país europeu, uma senhora foi presa por esquartejar e cozinhar seus dois netos, um menino de dois anos e uma menina de três, e tentar servi-los numa festividade da igreja. Ao ser questionada sobre os motivos do crime bárbaro, respondeu, desesperada, que estava apenas salvando a vida de seu gato, pois uma velha com olhos de abutre pretendia levá-lo consigo se ela não cumprisse a tarefa exigida em cem horas.

    Nos Estados Unidos, pululavam casos estranhos, crimes hediondos enchendo páginas e páginas de jornais sensacionalistas. Um repórter, após reunir diversas dessas notícias, notou similaridades perturbadoras: todos os criminosos relatavam ter recebido algum objeto de uma mulher muito velha e feia; pouco depois, eles descobriam um bilhete ou uma carta contendo o que deveria ser feito, qual o prazo e alguns breves relatos de vítimas anteriores. O repórter nunca conseguiu encontrar as tais cartas e nenhum bilhete, mas ganhou sua própria sentença, num dia qualquer, ao esbarrar numa catadora de latinhas, enquanto se debruçava sobre o mistério. Foi achado morto, a cem quadras de onde morava, quando tentou invadir aos gritos um banco. Testemunhas contaram que ele gritava sobre a necessidade de ter uma cédula de cem dólares ou a esposa, grávida, perderia a criança.

    Eu quis rir de tudo aquilo, conforme ouvia, entediado, o falatório ora apressado, ora arrastado. Se antes ele parecia hesitante, agora me contava coisas esquisitas e me pedia atenção, pois ainda não tínhamos passado pelo pior. Quando lhe indaguei o que seria o pior, Flávio prosseguiu sua narrativa delirante. Nos fóruns onde deixou questionamentos, as respostas demoraram a surgir. Mas quando surgiram, eram quase todas confusas e muito desanimadoras. Muita gente confirmava a existência de uma entidade, uma velha medonha, talvez uma bruxa, cujo apreço em rituais e feitiços envolvia o número 100: cem horas, cem dias, cem semanas, cem meses, cem moedas, cem chibatadas... O vizinho de um foi morto por cem gatos após se encontrar com a velha numa esquina. O pai do amigo de outro relatou escapar de um câncer após caçar cem ratos numa casa, assá-los e comê-los. Os casos mais sinistros envolviam canibalismos, assassinatos e mutilações. E todos se resumiam a escolhas que levavam a vítima ao mais completo desespero e às beiradas do abismo da loucura. Não havia como fugir: ou a vítima cumpria a tarefa imposta ou perdia alguma coisa importante.

    Meu amigo estava correndo contra o tempo. Muitas cartas chegaram. Quase cem, ele me disse. E precisava fazer a tarefa que a bruxa queria. Não havia escapatória, contudo ele estava apavorado e precisava de minha ajuda. Senti um calafrio incômodo diante daquele pedido. Temi pela sanidade dele acima de tudo e, por segundos, cogitei procurar auxílio da polícia.

    — Confio só em você para isso, mano — disse-me, como se adivinhasse minhas intenções. — Minha vida está em jogo.

    Arfei, derrotado, e prometi ir ao seu socorro.

    Morávamos próximos, então não tardei a chegar ao prédio em que ele vivia com a mãe e o padrasto. Contemplei o edifício, tomado por sensações arrepiantes que me deixaram inquieto. Algo ali não parecia normal. Na entrada, o porteiro me cumprimentou educado e, com um sorriso, perguntou se eu achava que choveria mais tarde. Nada sabia sobre o tempo, respondi, contudo, julgando pelas nuvens negras que se formavam pela cidade, deveria chover em algum momento entre o fim de tarde e a metade da noite.

    — Você é um garoto esperto — falou ele, carismático.

    Agradeci o elogio e continuei, ansioso para saber no que se metera meu amigo. Acionei o elevador e aguardei, vez ou outra olhando, desconfiado, para o porteiro, que voltara a ler seu surrado jornal. Cogitei se não seria ele um disfarce da velha que distribuía sorte e azar a tantas pessoas. Ri dessa bobagem quase no mesmo instante. Não havia bruxas, era tudo uma lenda urbana idiota que pessoas desocupadas adoravam espalhar nos fóruns e nas salas de bate-papo. Flávio sempre foi inclinado a acreditar em sensacionalismos, então acabara presa de uma brincadeira de péssimo gosto. Meu plano era visitá-lo, observar seu estado e, se fosse o caso, convencê-lo a buscar ajuda médica.

    A porta do elevador abriu. Uma maçã rolou de dentro para fora. Por instinto, peguei-a com rapidez e entreguei para uma linda mulher; estava de óculos escuros, mas tive a ligeira impressão de enxergar olhos castanhos por detrás das lentes negras.

    — Obrigada, meu jovem — disse-me.

    Limitei-me a sorrir e adentrar o elevador. Eu tinha pressa. Temia que qualquer mínimo atraso significasse abrir margem para Flávio cometer alguma besteira. Que tipo de besteira? Bem, suicídio era a que mais vinha à mente. Ou outra coisa, afinal ele me pareceu, ao telefone, bastante obcecado com a insanidade toda que havia lido nos fóruns de internet.

    Um garoto entrou correndo, antes que as portas se fechassem. Não devia ter mais do que dez anos e vestia-se muito mal, o que me fez, por instinto, olhá-lo com curiosidade e certo preconceito — estávamos num prédio de classe média, então era de se estranhar a presença de alguém tão malvestido. O menino, contudo, pareceu não se importar com meus julgamentos, pois continuou parado à minha frente, cantarolando alguma coisa que me soou como uma contagem regressiva, iniciada a partir do cem. Resistindo ao calafrio, apenas desejei que aquela loucura terminasse o quanto antes. Quando cheguei ao andar em que morava meu amigo, apressei-me a sair do elevador e de perto daquele garoto, como se sua presença fosse a coisa mais abominável do mundo. Após alguns passos, olhei para trás e me deparei com uma visão que me encheu de horror: agora não era mais um menino quem estava lá dentro, e sim uma velha cujos olhos de abutre me encaravam com malícia. De seus lábios murchos e rachados saía a terrível contagem regressiva que me assombraria para o resto da vida:

    — 10, 9, 8, 7...

    Se minha mente lutava para negar a existência da tal bruxa que castigava pessoas pelo mundo, meu corpo corria, em desespero, para o apartamento mais adiante. Bati na porta e chamei por Flávio, sempre olhando na direção de onde acabara de vir, mas não havia mais sinal da criatura maligna que me encheu de temores.

    — Carlos? — a voz de meu amigo soou no outro lado.

    — Sim.

    — Graças a Deus!

    Diante de mim, assim que a porta foi aberta, estava algo mais deplorável e assustador do que a velha hedionda deixada no elevador: não foi o rapaz antes alegre e musculoso quem me recebeu, e sim uma criatura magra, como se não se alimentasse há dias, e muito pálida. Estava calvo e os poucos cabelos restantes adquiriram um tom acinzentado, como se ele tivesse envelhecido décadas em poucos dias. Vestia roupas folgadas e imundas, e o cheiro forte da mistura de suor, urina, fezes e vômito me causou náuseas, fazendo-me hesitar adentrar o apartamento — e ele percebeu minha incerteza, pois esboçou um sorriso desdentado e, com um gesto trêmulo e senil, estendeu-me um pequeno caderno.

    — O que é isso? — perguntei, sem tocar no objeto.

    — Toma! Pegue! — insistiu ele, avançando alguns passos em minha direção.

    Recuei, tendo um mau pressentimento. Num vislumbre, enxerguei o interior da sala. Dois corpos estavam sobre o tapete. Mortos, eram a mãe e o padrasto de Flávio.

    — O que você fez, cara?

    — Pegue! — rosnou ele, num estado de insanidade que causava horror e compaixão.

    — Não! Eu não quero me envolver nessa merda, não!

    — Você deve! — vociferou, mas, a seguir, continuou num sussurro: — Eu fiz o que pediram as noventa e nove cartas. Eu contatei cem pessoas e falei sobre a bruxa. Todas acreditaram. A centésima deve pegar meu diário e me libertar da maldição.

    E me encarou como um predador encara a presa. Reparei nos dentes quebrados, na gengiva ferida, na saliva rósea escorrendo pelos lábios feridos. Os olhos eram de uma bestialidade sobrenatural. Incapaz de qualquer ação, apenas recuei e me distanciei de tudo aquilo, negando qualquer que fosse o legado. O fardo de enlouquecer sob a maldita corrente iniciada por Flávio não valia a pena, mesmo se isso o libertasse do tormento em que se encontrava. Ele não reagiu. Não teve tempo. E também não olhei para trás, porém posso deduzir o desenrolar dos acontecimentos, enquanto concluo a escrita deste relato: dentro do diário estava a última carta, a que meu amigo temia receber. Sei disso porque seu grito ecoou pelo corredor e pela escada, conforme eu galgava para baixo, disposto a esquecer toda aquela loucura. E não foi um grito humano, ainda que saída da garganta de um rapaz que mal tinha dezessete anos.

    Você com certeza deve ter lido a respeito.

    Noventa e nove pessoas contaram sobre o adolescente que não conseguiu completar sua missão e teve seu castigo. Para os céticos, ele é o filho viciado em crack que assassinou os pais e depois se matou pulando do décimo andar. Eu estava já no térreo, ainda me acalmando e pensando se deveria contar ao porteiro alguma coisa, quando o corpo caiu, dezenas de metros adiante, manchando a calçada de vermelho. Outra visão para minha coleção de pesadelos e traumas para meu terapeuta lidar.

    A bruxa ainda está aí fora, insaciável.

    Embora eu tenha recusado o diário e o legado da corrente amaldiçoada, não escapei de sua influência. Os noventa e nove alegam a mesmíssima coisa: Flávio precisava impedir o fim do mundo convencendo cem pessoas de que a lenda da bruxa é verdadeira.

    Está gostando da amostra?
    Página 1 de 1