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O contágio da mentira: Como sobreviver na cultura do corona
O contágio da mentira: Como sobreviver na cultura do corona
O contágio da mentira: Como sobreviver na cultura do corona
E-book85 páginas1 hora

O contágio da mentira: Como sobreviver na cultura do corona

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Sobre este e-book

Em O Contágio da Mentira - Como sobreviver na cultura do corona, Martim Vasques da Cunha explica que a crise de hierarquia surgida com a pandemia da covid-19 não ocorreu somente no mundo da natureza ou no da cultura. Ela se deu sobretudo no mundo das elites intelectuais e políticas. E aqui não sabemos se, por exemplo, a peste pode ter sido causa ou consequência de más decisões desses homens públicos. O que se
reconhece é que, nesses casos, há um flagelo ainda pior do que a catástrofe natural: a anarquia da sociedade.
No livro, conta-se como, nesse ambiente de caos, a mentira impera – e infelizmente contagia aqueles que deveriam combatê-la a todo custo: os intelectuais, os escritores, os jornalistas e os pesquisadores da ciência. Ao mesmo tempo, o autor se pergunta se esses mesmos sujeitos, ao insistirem em suas opções equivocadas, não seriam uma peste à parte. Afinal, eles mexem com o conhecimento e a memória e, quando todos esses
sábios se tornam indistintos, o próprio ato de conhecer perde a sua função e o seu propósito. Por isso, O Contágio da Mentira surge para nos ajudar a entender um pouco mais o que realmente se passa quando uma epidemia atinge não só o tecido social, mas principalmente a própria existência de um país, no âmbito do que significa se informar e saber o que de fato acontece com seu povo.
IdiomaPortuguês
Data de lançamento18 de set. de 2020
ISBN9786586683332
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    O contágio da mentira - Martim Vasques da Cunha

    O contágio da mentira

    Como sobreviver na cultura do corona?

    Martim Vasques da Cunha

    © Editora Âyiné, 2020

    Preparação: Fábio Silvestre Cardoso

    Revisão: Rosana do Amaral

    Projeto gráfico: Luísa Rabello

    Diagramação: Rita Davis

    Conversão para ePub: Cumbuca Studio

    ISBN 978-65-86683-33-2

    Editora Âyiné

    Belo Horizonte, Veneza

    Direção editorial: Pedro Fonseca

    Assistência editorial: Érika Nogueira Vieira, Luísa Rabello

    Produção editorial: André Bezamat, Rita Davis

    Conselho editorial: Simone Cristoforetti, Zuane Fabbris

    Praça Carlos Chagas, 49 – 2º andar

    30170-140 Belo Horizonte – MG

    www.ayine.com.br

    info@ayine.com.br

    Sumário

    1.

    2.

    3.

    4.

    5.

    6.

    7.

    8.

    "Tudo o que o homem podia ganhar

    no jogo da peste e da vida era o conhecimento e a memória".

    Albert Camus, A Peste.

    1.

    A cozinheira Mary Mallon foi uma imigrante irlandesa que trabalhou na cidade de Nova York entre 1900 e 1907. Ela entraria para a história com o nome de Maria Tifoide porque, durante esses anos, infectou cerca de duas dezenas de pessoas com febre tifoide – uma doença mortal causada por uma bactéria (a salmonela), que, entre outros sintomas, provoca dor de cabeça, dor abdominal e diarreia. A notoriedade desta febre se deve ao fato de que talvez ela tenha sido a responsável por dizimar metade de Atenas entre os anos de 430-29 a. C., segundo o relato de Tucídides em sua História da Guerra do Peloponeso. Geralmente, contrai-se a infecção se alguém beber água ou comer algum alimento contaminado pelo manuseio por um portador da doença.

    Foi assim com Mallon: apesar de ser assintomática – ela nunca exibiu os sintomas da moléstia –, provavelmente teve a febre em algum momento da sua vida e a bactéria sobreviveu em seu sistema sem causar novos dissabores; conforme explica o matemático americano John Casti em seu livro O Colapso de Tudo, quando as autoridades de saúde pública [de Nova York] avisaram-na de que poderia ser uma portadora da doença, ela negou veementemente diversos pedidos de amostras de urina e fezes. Mary alegou que um farmacêutico local a havia examinado e descobrira que não tinha sinais de bactérias causadoras de doenças, no momento em que ela fizera o seu teste. Sua insistência foi tamanha que o Departamento de Saúde da cidade de Nova York colocou-a em quarentena, isolando-a por três anos num hospital da Ilha North Brother. Ela foi liberada sob a condição de que deixaria de trabalhar preparando e servindo alimentos.

    Não foi dessa maneira que ela se comportou nos anos seguintes. Mary Mallon adotou o pseudônimo Mary Brown e retornou aos seus afazeres em outras cozinhas. Segundo Casti, em 1915, infectou 25 pessoas no Sloan Hospital, em Nova York. Foi então novamente detida pelas autoridades de saúde e devolvida à quarentena, onde passou o resto da vida. Maria Tifoide morreu em 1938 – de pneumonia, não de febre tifoide – e foi cremada.

    A história acima descreve o que parece ser o grande problema ético que acontece quando uma sociedade precisa combater uma epidemia, abordado com precisão por Casti: Qual é o limite entre o cerceamento das liberdades individuais e a saúde pública? Talvez esse seja o nosso caso agora ao lidarmos com o impasse surgido na crise do coronavírus (ou a doença que vem dele, a covid-19), que, desde dezembro de 2019, ao aparecer pela primeira vez na pequena cidade de Wuhan, na China, se espalhou por todo o globo terrestre, atingindo a Europa, os Estados Unidos e a América do Sul. Tal dilema ético está presente nas mentes de vários intelectuais, jornalistas e pesquisadores ao reagirem de variadas formas depois que a Organização Mundial de Saúde (OMS) classificou a doença como uma pandemia no dia 11 de março de 2020.

    Desde então, o que une as reações desses luminares do pensamento são dois tipos de atitude. O primeiro é a impossibilidade de chamar essa doença pelo que ela é de fato; e o segundo é a deliberada dissonância cognitiva provocada por essas pessoas, seja por motivos psicológicos, seja por motivos financeiros, ao contagiarem o tecido social com o mais nocivo dos flagelos – a mentira.

    Sobre a dificuldade de classificar o que é o coronavírus, precisamos aqui apelar para a honestidade de um Albert Camus e praticar como ele fez em sua obra-prima publicada em 1947, cujo título é a metáfora médica perfeita para o que vivemos agora. Pois, por mais que evitemos proferir o seu nome, não resta dúvidas de que estamos no meio de uma peste.

    Usar essa palavra tão antiga não significa um anacronismo, nem uma imprecisão poética. Trata-se de uma experiência humana muito concreta, baseada na mais terrível das possibilidades: a de viver em uma extrema incerteza, sem saber como ela começa e sem saber quando termina. Afinal, esta é a própria natureza de um vírus, em sua implacável invisibilidade. No livro Spillover – Animal Infections and the Next Human Pandemic, de David Quammen, publicado em 2012¹, sabe-se que a SARS-CovD (Síndrome Respiratória Aguda Grave), o primeiro tipo de coronavírus (que tem esse nome devido ao seu formato de coroa) já era estudado desde o final da década de 1990, quando pesquisadores e cientistas descobriram um vírus que causava doenças zoonóticas – ou seja, um transbordamento da infecção entre animais (em especial, gorilas e morcegos) e seres humanos. Esse longo tempo de mais de vinte anos, que manteve o vírus não só invisível, mas sobretudo mutável, não impediu que se fizesse uma previsão aterrorizante de que a próxima grande epidemia seria justamente com um novo coronavírus surgido nada mais nada menos que na China.

    É o que fez o epidemiologista americano Donald S. Burke, da Universidade de Pittsburgh, que, em uma palestra transcrita por Quammen no final do seu livro, dada em 1997, comenta os critérios usados para os próximos candidatos que seriam os prováveis responsáveis pelas pandemias do futuro. O primeiro critério seria,

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