Aproveite milhões de eBooks, audiolivros, revistas e muito mais

Apenas $11.99 por mês após o período de teste gratuito. Cancele quando quiser.

Lei do Depoimento Especial Anotada e Interpretada

Lei do Depoimento Especial Anotada e Interpretada

Ler a amostra

Lei do Depoimento Especial Anotada e Interpretada

Duração:
1.131 páginas
14 horas
Lançados:
31 de ago. de 2020
ISBN:
9786555260540
Formato:
Livro

Descrição

Esta obra anota e comenta, de modo pioneiro, a Lei do Depoimento Especial – Lei n. 13.431/2017 –, a qual representa um importante instrumento de defesa dos direitos e das garantias fundamentais da criança e do adolescente vítimas de violência.
A Lei normatiza e organiza o sistema de garantia de direitos da criança e do adolescente vítimas ou testemunhas de violência, criando mecanismos para prevenir e coibir a violência, estabelecendo medidas de assistência e proteção à criança e ao adolescente em situação de violência.
Dentro de uma análise ampla, o autor percorre a lei, como pelas Convenções da ONU sobre os Direitos das Crianças e dos Adolescentes, além do Estatuto da Crianças e do Adolescente, Decreto Federal n. 9.603/2018 (regulamentador da Lei 13.431/2017) e demais legislações pertinentes, incluindo os atos normativos do CNJ, CONANDA, etc.
O livro segue a estrutura dos dispositivos da Lei do Depoimento Especial para comentar um a um os artigos da lei, desenvolvendo temas por meio de uma análise doutrinária atualizada de vários autores, como a orientação que tem sido seguida pelos tribunais brasileiros, além de colacionar legislação correlata de cada dispositivo.
A consulta à lei é fácil. Cada artigo traz no corpo do texto o sumário doutrinário dos itens analisados no dispositivo, o que facilita a consulta doutrinária e jurisprudencial, servindo de subsídio aos que militam na área da escuta protegida, aos(as) Magistrados(as), aos membros do Ministério Público, da Defensoria Pública, aos(as) Advogados(as), aos(as) Delegados(as) de Polícia, aos(as) Assistentes Sociais, aos(as) Psicólogos e àqueles da rede de proteção que ainda não têm afinidade com o tema mas pretendem ter acesso à lei para escutar, de forma protegida, uma criança ou adolescente vítima ou testemunha de violência.
Os anexos trazem a parte prática da obra e legislação complementar, com modelos de decisões jurídicas, elaboradas pelo autor, com a finalidade de auxiliar os magistrados, além do Guia Prático para Implementação da Política de Atendimento de Crianças e Adolescentes elaborado pelo Conselho Nacional do Ministério Público, com inúmeros modelos de ações, formulários, fluxograma e pareceres direcionados aos membros do MP; e o Manual para Uso do Protocolo de Polícia Judiciária para Depoimento Especial de Criança e Adolescente de todos os Estados e DF, que é o roteiro elaborado pela UNB em parceria com a Polícia Civil do DF para realização da escuta protegida das crianças e dos adolescentes.
Lançados:
31 de ago. de 2020
ISBN:
9786555260540
Formato:
Livro

Sobre o autor


Relacionado a Lei do Depoimento Especial Anotada e Interpretada

Livros relacionados

Artigos relacionados

Amostra do livro

Lei do Depoimento Especial Anotada e Interpretada - Flávio Schmidt

Policial

Art. 1º

Legislação Correlata

CF, art. 226, §8.º, 227, caput, e §4.º; ECA, arts. 5.º, 18-A, 70 e 70-A; Resolução n. 113/2006, do CONANDA; Recomendação n. 33/CNJ/2010; Decreto n. 9.603/2018; e Resolução CNJ n. 299/2019.

Análise Doutrinária

1 – INTRODUÇÃO

2 – HISTÓRIA DO DEPOIMENTO ESPECIAL

2.1 – Início da Prática

2.2 – Pioneirismo do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul em Reconhecer a Prática do Depoimento Sem Dano

2.3 – Obstinações dos Conselhos Federal de Serviço Social e de Psicologia

2.4 – Instituto Childhood: Protocolo de Entrevista Forense do NCAC (National Children’s Advocacy Center)

2.5 – Conselho Nacional de Justiça (CNJ): Reconhecimento.

2.6 – Projetos Legislativos

3 – SISTEMA DE GARANTIA DE DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE VÍTIMA OU TESTEMUNHA DE VIOLÊNCIA

4 – PRINCÍPIO DA PRIORIDADE ABSOLUTA

5 – DIREITOS HUMANOS DAS CRIANÇAS E DOS ADOLESCENTES

6 – RESOLUÇÃO Nº 20/2005 DO CONSELHO ECONÔMICO E SOCIAL DAS NAÇÕES UNIDAS E OUTROS DIPLOMAS INTERNACIONAIS

7 – PROTEÇÃO DOS DIREITOS DAS CRIANÇAS E DOS ADOLESCENTES NO BRASIL

8 – MEDIDAS DE ASSISTÊNCIA E PROTEÇÃO À CRIANÇA E AO ADOLESCENTE EM SITUAÇÃO DE VIOLÊNCIA

1 – INTRODUÇÃO

Não é difícil de compreender que o direito nasceu junto com a civilização, aliado à história da sociedade, sob a forma de costumes que foram se tornando obrigatórios. Isso aconteceu em razão da necessidade de um mínimo de ordem e direção, de regras de conduta, com o objetivo de regular o convívio entre os homens e proporcionar harmonia nas relações humanas.

O surgimento do direito teve por finalidade regular justamente essas relações humanas, a fim de proporcionar paz e prosperidade no seio social, para impedir a desordem, o crime e o caos que seria proporcionado pela lei daqueles que detinham o poderio, principalmente, o econômico, ou seja, aquele que fosse mais forte, e tendo como objetivo alcançar o bem comum e obter a justiça.

Por isso é importante conhecer a história de uma norma jurídica, que em outras palavras, é própria da sociedade, estando intimamente ligada ao direito.

Com efeito, o direito surge para colocar direção, ordem, regras de conduta para regular o convívio na sociedade, a fim de conseguir que os homens vivam em harmonia

É importante esclarecer, diante de todos esses aspectos, que o direito surge com o objetivo de obter justiça e realizar o bem comum, isto é, dar a cada caso a solução merecida, adequada conforme o sentimento humanitário ponderado e calcado em interpretação conforme os princípios gerais do direito.

Como visto, a história não poderia estar dissociada do estudo do direito. É nesse sentido que vem a importância dela para o Direito, que nada mais é do que uma ciência que pesquisa e estuda o significado dos processos de alteração das estruturas jurídicas, penetrando e convivendo com as naturais modificações de ordem política, econômica e cultural de uma sociedade ao longo do tempo.

Assim, por ser ciência, a história de um direito descreve e revela, pesquisa e esclarece, coordena e explicita a vida jurídica de um povo em todos os seus aspectos, detendo-se nas fontes, nos costumes, na legislação que o rege, enfim, em todas as manifestações que resultam do conhecimento dos fatos ocorridos.

Dada a sua importância, não poderíamos deixar de contar a história do Depoimento Especial, que fez surgir a Lei 13.431/2017.

2 – HISTÓRIA DO DEPOIMENTO ESPECIAL

Na Série Justiça Pesquisa, promovida pelo Departamento de Pesquisas Judiciárias do Conselho Nacional de Justiça (DPJ/CNJ), que tem a finalidade de realizar pesquisas de interesses do Poder Judiciário brasileiro por meio de contratação de instituições sem fins lucrativos, incumbidas estatuariamente da realização de pesquisas e projetos de desenvolvimento institucional, realizou por meio da Universidade de Fortaleza – Edital de Convocação Pública e Seleção n. 02/2017 do CNJ – o Projeto de Pesquisa "A Oitiva de Crianças no Poder Judiciário brasileiro: estudo em foco na implementação da Recomendação n. 33/2010 do CNJ e da Lei 13.431/2017", que foi divulgado no dia 30/05/2019, através do portal do CNJ¹.

Neste excelente trabalho de realização da Fundação Edson Queiroz Universidade de Fortaleza – UNIFOR – e Centro de Ciências Jurídicas Programa de Pós-graduação em Direito Constitucional, coordenado por Antônio Jorge Pereira Júnior, tendo como pesquisadores Juliana Nogueira Loiola, Juliana Rodrigues Barreto Cavalcante, Marília Bitencourt C. Calou P. Rebouças, Maryunna Laís Quirino Pereira, Nardejane Martins Cardoso, Rafaela Gomes Viana e Thiago Pessoa Colares, entre os temas apresentados está a evolução histórica do Depoimento Especial: "Como explicado anteriormente, houve relevante evolução normativa no tocante à proteção de direitos da criança e do adolescente até que se chegasse ao reconhecimento de sua importância na forma de coleta do relato de situações de violência pelos menores no ambiente judicial. Referidas normas serviram de base para implementação da prática do Depoimento Especial no Brasil. A Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos da Criança, datada de 1989, teve como precedente a Declaração dos Direitos das Crianças de 1959. Logo após sua aprovação, o Brasil fez-se signatário, sendo ela anuída pelo Congresso Nacional, mediante o Decreto Legislativo n. 28, de 14 de setembro de 1990. No dia 22 de novembro daquele ano foi promulgada pelo Decreto n. 99.710 (CONTINI, 2006, p. 4). De acordo com dados da Unicef (BRASIL, 2018): ‘A Assembleia Geral das Nações Unidas adotou a Convenção sobre os Direitos da Criança – Carta Magna para as crianças de todo o mundo – em 20 de novembro de 1989, e, no ano seguinte, o documento foi oficializado como lei internacional. A Convenção sobre os Direitos da Criança é o instrumento de direitos humanos mais aceito na história universal. Foi ratificado por 196 países.’ A importância do documento se traduz, primeiramente, por seu valor vinculante entre os Estados-Partes que o ratificaram. Tais entes comprometeram-se a partir de então a tomar medidas apropriadas de conteúdo legislativo, administrativo, social ou educacional para garantia de proteção de crianças e adolescentes contra toda forma de discriminação, violência física ou mental, abuso ou tratamento negligente, maus-tratos, exploração e abuso sexual. É pertinente ressaltar que a Convenção foi elaborada dentro de um quadro de garantia integral. Destarte, a norma internacional evidencia a necessidade de priorização na gestão estatal de forma a consolidar a perspectiva da criança como sujeito de direito. Dois dispositivos da convenção se dirigem para a ideia inicial de proteção na oitiva dos menores dentro de processos judiciais. O art. 12, primeiro artigo, composto por dois parágrafos, trata, respectivamente do direito à livre expressão e da oportunidade da criança ser ouvida nos processos judiciais e administrativos que lhe respeitem diretamente ou por meio de representante ou organismo adequado. Por sua vez, o art. 19, também constituído por dois parágrafos, trata da proteção contra todas as formas de violência e sugere programas de prevenção destinados a assegurar o apoio necessário à criança, bem como medidas sociais próprias para o acompanhamento dos casos de maus-tratos. Outros documentos, como a Declaração de Genebra sobre os Direitos da Criança (1924), (elaborada no cenário após a I Guerra Mundial), a Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948) e a Declaração dos Direitos das Crianças (1959) prestaram contribuição no sentido de enunciar a necessidade de proteção especial, ainda que não fosse feita referência à forma de inquirição de menores em âmbito judicial. No Brasil, após uma evolução social e legislativa, e sob influência de alguns dos normativos internacionais anteriormente citados, culminou-se na promulgação do art. 227 da CF/1988 e do Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA, Lei n. 8.069, de julho de 1990, estabelecendo-se o quadro-padrão com o paradigma da proteção integral em detrimento da doutrina da situação irregular, vinculada ao Código de Menores de 1979. Dentro desse contexto garantista e diante do cenário de grande número de demandas envolvendo crianças como depoentes, o Conselho Nacional de Justiça estabeleceu orientações aos tribunais brasileiros para a coleta de depoimento desses infantes por meio da Recomendação n. 33/2010. Em razão disso, foi sancionada em 2017 a Lei n. 13.431, corroborando com os direcionamentos do CNJ."

Ocorre, entretanto, que para nós chegarmos à Lei 13.431/2017, há uma longa história.

Neste contexto, o melhor relato é do próprio José Antônio Daltoé Cezar, criador do "Depoimento Sem Dano, narrado em artigo denominado Depoimento Sem Dano/Depoimento Especial – treze anos de uma prática judicial, na obra Depoimento Especial de Crianças e Adolescentes – Quando a Multidisciplinaridade Aproxima os Olhares"², a quem peço licença para transcrever, confiando a ele sua autoria³ na íntegra, inclusive utilizando os tópicos semelhantes para ser fiel ao seu texto.

2.1 – Início da Prática

O Brasil até 2003 desconhecia este método de proteção no meio jurídico.

Tudo começou com José Antônio Daltoé Cezar, Desembargador do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, Magistrado desde 1987, quando implantou no Juizado da Infância e da Juventude de Porto Alegre o Projeto Depoimento Sem Dano, utilizando meios eletrônicos e a intervenção direta de psicólogos e assistentes sociais nas inquisições judiciais de crianças e adolescentes vítimas de violência.

O histórico dessa trajetória, contado pelo próprio, teve três momentos distintos: "Fazendo uma trajetória dos problemas que enfrentei na jurisdição, os quais determinaram que procurasse uma alternativa menos danosa para ouvir jovens vítimas de violência, especialmente sexual, nas instruções dos processos, recordo que em 1988, ano do meu ingresso na magistratura, na comarca de Santa Maria, já nos primeiros dias de trabalho, tive que ouvir uma menina de aproximadamente sete anos de idade, a qual era supostamente vítima de abuso sexual por parte do padrasto, um homem com mais de vinte anos de idade. Naquele momento relembro, eu, que vinha da advocacia civilista e fui por quatro anos empregado de uma instituição financeira, que em nenhum momento dos estudos que viabilizaram meu ingresso na magistratura essa possibilidade tivesse sido aventada (ouvir crianças vítima de violência), nem na graduação, nem nos cursos de preparação para o concurso, tampouco no próprio concurso, seja nas provas escritas ou orais. Por óbvio que com tamanho despreparo a escuta judicial dessa menina quase não ocorreu, e por mais esforço que fiz para ser acolhedor, e ainda tenha o acusado sido retirado da sala de audiências durante o depoimento, pouca ou nenhuma informação foi obtida, terminando ele, que estava preso preventivamente, sido liberado na mesma solenidade. A maior recordação que tenho daquele momento era o absoluto desconforto da menina naquele ambiente. Não parava tranquila na cadeira à minha frente, olhava para o teto insistentemente, balbuciava alguns sons que não eram passíveis de serem entendidos. Os anos se passaram, e em todas as comarcas na quais exerci a jurisdição, situações como aquela relatada, algumas com maior ou menor grau de sofrimento, sempre se repetiram, e nenhum movimento, nos meios jurídicos ou acadêmicos, foi apresentado para alterar essa prática judicial. Lembro também que anos após a experiência antes relatada, desta vez na comarca de São Leopoldo, ouvi uma adolescente de 12 anos que supostamente era vítima de um estupro com violência real. O acusado, um rapaz de 19 anos de idade, dizia-se apaixonado pela adolescente, inclusive propôs a casar com ela. O depoimento foi realizado com muito sofrimento, mesmo tendo o rapaz sido retirado da sala de audiências, a menina não parava de chorar, e em momento algum referiu ter consentido o ato sexual. Disse ter sido obrigada a manter relação sexual com o acusado, que usou de violência real, e que sequer o conhecia. Porém, o pior momento daquela audiência estava por vir. Ao final do depoimento da vítima, quando chorava ela compulsivamente, o defensor do acusado perguntou se ela havia gozado, em outras palavras, se ela sentiu-se prazerosamente satisfeita com o ato sexual. Por óbvio, a pergunta foi indeferida, mas ela foi ouvida pela adolescente, que ficou revoltada com aquele tipo de indagação. Merecia uma menina de 12 anos de idade, supostamente vítima de estupro com violência real, ouvir aquele tipo de pergunta? O sistema processual penal vigente não atua, permitindo esse tipo de prática, como vitimização secundária das vítimas que são chamadas a prestar declarações? Terceira recordação que tenho de momentos desagradáveis decorrentes de depoimentos prestados por jovens vítimas de violência ocorreu em 2002 em Porto Alegre, quando então atuava como Juiz da Infância e Juventude, em procedimento para apuração de ato infracional. Segundo a representação oferecida pelo Ministério Público, um adolescente de 17 anos de idade teria praticado violência sexual com uso de força contra uma menina de 07 anos de idade. Como nas vezes relatadas anteriormente, o momento do depoimento foi muito desconfortável para a vítima. Mesmo tendo o suposto infrator sido retirado da sala de audiências, ela nada conseguiu falar, sua fisionomia era de pavor, chorou muito. Como resultado, apenas mais um momento difícil para uma suposta vítima de violência sexual, sofrimento esse não decorrente da violência que sofreu, mas de uma exposição inadequada perante o sistema de justiça (dano secundário), e a liberação, sem qualquer responsabilização, de um provável praticante de um ato infracional grave. Aqui, dois males decorrentes de uma prática vetusta e inadequada, prevista em nossa legislação penal e no ECA, quais sejam, o sofrimento da vítima, que não teve espaço adequado para falar de suas tristezas, e o sentimento de impunidade que possivelmente aflorou naquela jovem, o qual provavelmente praticou um ato infracional de natureza grave."

Após a última audiência, Daltoé afirma que não mais ouviria nenhuma criança ou adolescente vítima de violência na forma estabelecida na legislação.

Entretanto, após tomar esta atitude, observou que havia alguns obstáculos a serem superados para que os depoimentos fossem colhidos de forma mais acolhedora e satisfatória para o sistema de justiça, "[…] incluindo nesse as próprias partes, a saber: a) escolha de uma forma alternativa que viabilizasse a retirada do depoente de dentro da sala de audiências, sem que isso determinasse a não observância dos princípios constitucionais da ampla defesa e do contraditório; b) identificação de profissionais que se dispusessem a participar desse ato processual, salientando que inexiste previsão administrativa para o pagamento de tal tipo de trabalho; c) busca de modelos de escuta judicial em outros países, já que no Brasil, então, não se tinha conhecimento de nenhuma proposta acadêmica com o mesmo escopo".

Considerando a narrativa dos fatos que o levaram a não mais ouvir infantes vítimas de violência, precisava ele de meios para colocar em prática sua ideia: "foi então que tive conhecimento do livro publicado pela Dra. Veleda Dobke⁴, Promotora de Justiça de Porto Alegre, que apresentou dois modelos de inquirição de crianças realizados em outros países: a) sistema de videoconferência, com a criação de um espaço que permitisse a escuta da vítima sem que necessitasse ela estar presente na sala de audiências; b) a escuta da vítima através do equipamento denominado Câmara Gessell (sala de vidro espelhado), na qual os operadores do direito permanecem em uma sala contígua à sala de entrevista, vendo e assistindo ao depoimento, podendo em momentos apropriados interagir com o técnico que facilita a escuta. Obtidas as primeiras informações, pela estrutura física do Foro de Porto Alegre, em 2003, foi feita a opção pela audiência com videoconferência. Outra dúvida surgiu então. Quem arcaria com os custos dos equipamentos, já que não existia nenhuma experiência anterior, conhecida no país, que justificasse um gasto administrativo nesse sentido. A opção foi eu próprio adquirir uma câmera do estilo das câmeras de segurança hoje conhecidas, tendo o Promotor de Justiça João Barcelos de Souza Júnior (hoje Desembargador do TJRS) adquirido e adaptado um gravador, não digital, que ligasse o vídeo ao áudio. Um aparelho de TV antigo foi doado e colocado na sala de audiências, para que o depoimento pudesse ser visualizado. O segundo obstáculo, a identificação de profissionais que se dispusessem a participar desse ato processual, foi superado com maior facilidade, pois o fato de ser lotado em uma vara especializada da infância e da juventude, que então possuía equipe técnica própria (hoje não possui mais), consultados, assistentes sociais e psicólogos concordaram em participar do trabalho. O terceiro obstáculo, treze anos depois dos trabalhos se iniciarem, ainda está em desenvolvimento, pois somente agora os protocolos internacionais que regulamentam a audiência forense com jovens vítimas de violência estão sendo validados no país. A primeira audiência na forma apresentada ocorreu no ano de 2003, em um processo para destituição do poder familiar de um pai acusado de abusar sexualmente de uma filha adolescente, tendo, nesses trezes anos de prática, somente em Porto Alegre, centenas de depoimentos sido tomados com as preocupações aqui apresentadas."

Este, pois, é o início do Depoimento Especial, cuja origem se dera por uma necessidade de ouvir infantes vítimas de violências sexual, que se tornavam acuadas e revitimizadas diante da formalidade das regras processuais penais, somado à impunidade dos agentes pelo silêncio muitas vezes das vítimas em não querer relatar seus sofrimentos.

2.2 – Pioneirismo do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul em Reconhecer a Prática do Depoimento Sem Dano

Alguns meses depois da primeira audiência do Projeto Depoimento Sem Dano, com inúmeros pedidos de Juízes para que o mentor do projeto realizasse na Capital gaúcha a escuta no novo método de crianças e adolescentes vítimas, surgiu a necessidade de apresentar um plano de trabalho à Corregedoria-Geral de Justiça, que à época era comandada pelo Desembargador Aristides Pedroso de Albuquerque Neto, que na companhia de dois juízes auxiliares, compareceram no Fórum Central para conhecer a iniciativa, o que resultou na autorização para que fossem instalados equipamentos modernos, como mais salas em outras 25 comarcas do Estado.

O projeto foi acolhido pela Casa Correcional, resultando a partir do trabalho realizado na Capital a expansão para o interior.

No ano de 2008, por iniciativa do Poder Judiciário do RS, o parlamento gaúcho aprovou a Lei 12.913/2008, que alterou a Lei 9.896/1993, e foi sancionada pela Governadora do Estado, a qual autorizou que o Conselho da Magistratura, excepcionalmente, transferisse para os Juizados Regionais da Infância e da Juventude a competência dos julgamentos de adultos que praticassem crimes sexuais contra crianças e adolescentes.

A Associação Nacional dos Defensores Públicos ajuizou a ADI n. 4.774, na qual postulava a declaração de ilegalidade da Lei 12.913/2008, por afrontar o ECA, que disciplina a competência das varas especializadas da infância e da juventude.

Referido feito encontra-se pronto para ser julgado desde 23/04/2014⁵, já tendo a PGR e AGU apresentado seus pareceres, ambos no sentido de que a ação seja julgada improcedente, cujo fundamento conclusivo daquele é no sentido de que "a norma atacada está não apenas de acordo com a Constituição e com o entendimento firmado por essa Suprema Corte, como também consulta os interesses de crianças e adolescentes que de alguma maneira participem dos processos a serem julgados pelos órgãos judiciários que a lei criou".

Com o advento da Lei 13.431/2017, que traz expresso em seu art. 23 que "os órgãos responsáveis pela organização judiciária poderão criar juizados ou varas especializadas em crimes contra a criança e o adolescente", acreditamos que pode ocorrer a perda do objeto da ADI.

2.3 – Obstinações dos Conselhos Federal de Serviço Social e de Psicologia

O Conselho Federal de Serviço Social, por meio da Resolução n. 554, de 15 de setembro de 2009, conhecendo que no Depoimento Sem Dano, como técnicos facilitadores da entrevista, além de psicólogos, também atuavam assistentes sociais do quadro do TJRS, dispôs que não reconhecia a inquirição dos infantes vítimas de violência nos processuais judicias como sendo atribuição ou competência do profissional assistente social.

A Resolução ainda concedeu prazo de 60 dias para que os profissionais adequassem suas atividades laborais ao que a partir de então era disciplinado, ou seja, parassem de trabalhar no projeto, sob às responsabilidades disciplinares ou éticas.

O Conselho Federal de Psicologia, no mesmo sentido do Conselho de Serviço Social, editou a Resolução n. 10, de 29 de junho de 2010, na qual também proibiu expressamente que os profissionais da psicologia trabalhassem nas inquirições de crianças e adolescentes em situação de violência, estabelecendo que o não cumprimento dessa disposição constituiria falta ética-disciplinar, passível de capitulação nos dispositivos referentes ao exercício profissional do Código de Ética, sem prejuízo de outros que pudessem ser arguidos.

O TJRS, por conta de atingir servidores técnicos do seu quadro, ajuizou ações perante a Justiça Federal postulando a suspensão das resoluções do CFESS e CFP, os quais foram julgados procedentes em todas as instâncias para o efeito de suspender permanentemente os seus efeitos, apenas no Rio Grande do Sul.

No Ceará, em 2012, o MPF ajuizou Ação Civil Pública (n. 0004766-50.2012.058100) e obteve a suspensão, também permanente, só que dessa vez em todo o território nacional, das Resoluções ns. 554/2009 do CFESS e de n. 10/2010 do CFP.

A gestão – É de batalhas que se vive a vida – 2017 a 2020 – do Conselho Federal de Serviço Social (CFESS), no dia 20 de fevereiro de 2020, emitiu nota sobre a Resolução n. 299/2019 do CNJ.

Após uma análise histórica de uma década de discussões que sempre se manifestou contrário, voltou a reiterar "que assistentes sociais não possuem competência para a realização do depoimento ou oitiva de crianças e adolescentes. Assistentes sociais possuem conhecimentos que contribuem para o reconhecimento das necessidades das crianças, adolescentes e suas famílias e devem atuar para que sejam atendidas, com vistas à garantia e acesso de seus direitos".

E no final do documento recomendou: "1) Assistentes sociais dos Tribunais de Justiça não realizem oitiva e/ou inquirição de crianças e adolescentes, nem tampouco apliquem os protocolos e técnicas que fujam à formação de suas competências e atribuições profissionais; 2) Quanto aos procedimentos que antecedem e que são posteriores ao Depoimento Especial, ou que se articulam no processo de trabalho, devem-se observar os direitos fundamentais da criança e/ou adolescente, fazendo uso das garantias previstas em lei e considerando os fundamentos da Doutrina da Proteção Integral; 3) Importante destacar que, sempre que o/a profissional for requisitado/a realizar tarefa que não corresponda à situação de atendimento prioritário, por envolver proteção a situação de risco a crianças e adolescentes, realize informação por escrito em processo judicial ou protocolada no órgão adequado, indicando as implicações decorrentes do ato. E que, havendo negação do atendimento e/ou violação de direitos da criança e do/a adolescente, informe aos órgãos competentes e órgãos de controle correspondentes; 4) Profissionais que estejam sendo requisitados/as indevidamente na Rede de Proteção a realizar oitiva ou depoimento de crianças e adolescentes (inclusive sob a denominação de escuta especial) devem responder ao Judiciário, dentro do prazo estipulado na determinação, que não possuem competência profissional para realizar tal ato, estando impedido/a de fazê-lo de forma justificada, podendo, inclusive, se utilizar dos documentos produzidos pelo CFESS. Devem ainda, procurar o CRESS do seu estado e denunciar as situações de requisição indevida. Importante informar se a Comarca possui equipe interprofissional no quadro de servidores/as; 5) O CFESS recomenda que, dentre outras iniciativas, os CRESS devem protocolar as informações de queixas recebidas junto às Corregedorias dos Tribunais de Justiça ou Ministério Público (a depender da situação), bem como remeter ao CFESS as informações e mapeamento das situações no estado."

Acreditamos que, embora legítima a discussão, a tendência da recomendação é sua suspensão novamente, principalmente pelas decisões judiciais ocorridas em sede federal em 2002 (ACP n. 0004766-50.2012.058100).

No CNJ, pelo menos, já houve decisão contrária. O Plenário do Conselho Nacional de Justiça julgou improcedente, por unanimidade, o Procedimento de Controle Administrativo 0004543-46.2018.2.00.0000, apresentado pela Associação dos Assistentes Sociais e Psicólogos do TJSP que buscava a nulidade do Provimento CGTJSP n. 17/2018. De acordo com o relator, Conselheiro Valtércio de Oliveira, psicólogos e assistentes sociais são profissionais capacitados para auxiliar os magistrados a viabilizar a escuta protegida.

Deve-se ressaltar que "ao contra-argumento, psicólogos favoráveis ao depoimento especial explicitam que nas entrevistas realizadas o ritmo e o estado emocional da criança e do adolescente são respeitados, que o psicólogo, por suas competências técnicas, ao perceber limitações ou impossibilidades do entrevistado para falar sobre o ocorrido poderá, verbalmente ou por escrito, contraindicar o depoimento naquele momento. Em relação ao sigilo profissional é que não há quebra de dever de sigilo, pois no depoimento especial o psicólogo estaria ouvindo a criança em situação que lhe diz respeito, em um contexto de segredo de justiça. Sobre a autonomia profissional, é entendido que este é um espaço em que os psicólogos, com suas competências técnicas e metodológicas, podem intervir de forma interdisciplinar cada um com sua expertise, direito e psicologia". (TABAJASKI, VICTOLLA E VISNIEVSKI, 2019, p. 73⁶)

Muzambinho, comarca pioneira no Estado de Minas Gerais a implantar o Depoimento Sem Dano, em 2009, enfrentou a mesma represália dos Conselhos em face das técnicas facilitadoras que colaboravam com a realização da escuta, inclusive ameaçando instauração de processo administrativo se não cessassem os trabalhos.

As profissionais, respaldadas pelo Magistrado e pelas decisões favoráveis perante a Justiça Federal, mantiveram as escutas e não houve qualquer ingerência por parte dos órgãos às profissionais.

Neste sentido será a tendência atual, como em todo o país, até porque há uma norma de regência nacional que prevê a oitiva de crianças e adolescentes por assistentes sociais e psicólogos.

2.4 – Instituto Childhood: Protocolo de entrevista Forense do NCAC (National Children´s Advocacy Center)

Daltoé, em 2007, quando apresentava o Projeto Depoimento Sem Dano, conheceu duas pessoas – Benedito Rodrigues dos Santos e Itamar Batista Gonçalves – que se tornaram parceiros e deram publicidade ao projeto.

Benedito era professor da Universidade Católica de Brasília e Itamar gerente de advocacy, da ONG Childhood Brasil, instituição ligada ao World Childhood Foundation, organização internacional criada em 1999 pela Rainha Silvia, da Suécia, que é brasileira, para proteger a infância, e ambos demonstraram interesse em participar do desenvolvimento do projeto, oferecendo apoio, recursos humanos e financeiros.

No ano seguinte (2008) a Childhood elaborou um cronograma de viagens ao exterior para conhecimento das práticas existentes em outros países.

Os países visitados foram Argentina, Inglaterra, Lituânia e Espanha.

O resultado da viagem foi a publicação da obra Depoimento Sem Medo (?) – Culturas e Práticas Não-Revitimizantes⁷, em 2008, além de apresentar práticas adotadas por dezenas de países.

Não parou por aí. A Childhood Brasil, buscando dar profissionalismo e foco acadêmico ao projeto, trouxe ao Brasil profissionais com reconhecimento internacional na matéria, entre eles, Chris Newlin, Diretor Executivo do Centro Nacional de Proteção à Infância, Alabama, EUA; Gail Goodman, Professora de Psicologia e Diretora do Centro de Pesquisa de Políticas Públicas na Universidade da Califórnia, Davis, EUA; e Pamela Hurley, Diretora do Projeto Criança-Testemunha do Centro para Criança e Famílias no Sistema de Justiça, Ontário, Canadá. Eles foram responsáveis por trazerem experiências de seus países e contribuíram nas capacitações dos técnicos judiciários que trabalhavam nos procedimentos judiciais, inclusive vinculados ao CNJ.

O resultado foi a publicação, em 2014, do livro Escuta de Crianças e Adolescentes em Situação de Violência Sexual: Aspectos Técnicos e Metodológicos⁸.

No ano de 2015, o professor Benedito Rodrigues dos Santos, com parceria da Childhood, deu início à validação acadêmica do protocolo de escuta de crianças e adolescentes em situação de violência, denominado Protocolo de Entrevista Forense de NCAC (National Children´s Advocacy Center), que foi adaptado para a realidade brasileira como Protocolo de Entrevista Forense com Crianças e Adolescentes Vítimas ou Testemunhas de Violência Sexual.

A Childhood Brasil tem convênio com o CNJ (Conselho Nacional de Justiça) e a ENFAM (Escola Superior de Formação e Aperfeiçoamento de Magistrados) no sentido de colaborar com a capacitação de magistrados e servidores que trabalham no Depoimento Especial.

2.5 – Conselho Nacional de Justiça (CNJ): Reconhecimento.

No ano de 2010 o CNJ, especificamente em 09 de novembro, em Sessão Ordinária de n. 116º, através do ATO n. 00006060-67.2010.2.00.0000, aprovou, por unanimidade, a Recomendação n. 33/2010, dirigida a todos os Tribunais de Justiça dos Estados e o do DF e Territórios, para que nos processos envolvendo crianças e adolescentes vítimas de violência, quando de seus depoimentos em juízo, fossem observadas as seguintes orientações: a) implantação de sistema de depoimento videogravado para as crianças e os adolescentes, o qual deverá ser realizado em ambiente separado da sala de audiências, com a participação de profissional especializado para atuar nessa prática; b) capacitação de todos os profissionais que participam da escuta judicial, a partir de então denominada Depoimento Especial, usando os princípios básicos da entrevista cognitiva; c) o acolhimento deve contemplar o esclarecimento à criança ou adolescente a respeito do motivo e efeito de sua participação no depoimento especial, com ênfase à sua condição de sujeito em desenvolvimento e do consequente direito de proteção, preferencialmente com o emprego de cartilha previamente preparada para esta finalidade; d) os serviços técnicos do sistema de justiça devem estar aptos a promover o apoio, orientação e encaminhamento de assistência à saúde física e emocional da vítima ou testemunha e seus familiares, quando necessários, durante e após o procedimento judicial; e) implantação de medidas de controle de tramitação processual que promovam a garantia do princípio da atualidade, garantindo a diminuição do tempo entre o conhecimento do fato investigado e a audiência de depoimento especial.

Daltoé ressalta "[…] que para a edição da Recomendação 33/2010, foi o trabalho incansável da Conselheira Morgana Richa, que buscou cercar-se de todas as informações sobre a matéria, e assim obter a anuência dos demais Conselheiros do CNJ, que emprestou todo o seu apoio para que a prática judicial fosse recomendada."

O resultado do esforço dos profissionais referidos é que deu ensejo à tramitação de projetos legislativos para que se tornasse uma realidade o Depoimento Especial.

2.6 – Projetos Legislativos

A primeira tentativa de regulamentação do Depoimento Especial ocorreu no ano de 2006, na Câmara dos Deputados, por meio do Projeto de Lei que tomou o número 7.524, de autoria da Deputada Maria do Rosário (PT-RS), o qual acrescentava o Capítulo IV-A ao Código de Processo Penal de 1941, regulamentando a forma como seria feita a inquirição judicial de crianças e adolescentes, como vítimas e testemunhas.

O projeto foi aprovado na Câmara dos Deputados e encaminhado ao Senado Federal; contudo, nessa casa, após realização de audiência pública da qual participaram defensores e opositores, o entendimento foi de que o seu texto deveria ser incorporado ao projeto de lei do novo CPP que tramitava no Congresso Nacional (Disposições Especiais Relativas à Inquirição de Crianças e Adolescentes, artigos 192, 193 e 194), o qual foi posteriormente aprovado e encaminhado à Câmara dos Deputados.

Como permaneceu parado por mais de seis anos sem que houvesse previsão para seu exame, um grupo de deputados vinculados à causa da infância e juventude de diversos partidos, novamente com a coordenação da Deputada Maria do Rosário, elaboraram o Projeto n. 3.792/2015, que estabelecia o sistema de garantia de direito de crianças e adolescentes vítimas e testemunhas de violência⁹.

A justificativa do projeto teve como fundamento que o Brasil tem se ressentido da falta de legislação que proteja os direitos de crianças e adolescentes expostos ao sistema de justiça, seja como vítimas ou como testemunhas de violência física, psicológica, sexual e institucional. Frequentemente o que se vê é a falta de consideração quanto à condição de pessoas em desenvolvimento, o que resulta em violência institucional que se dá nas interações de crianças e adolescentes com os órgãos educacionais, de atenção e de proteção especial, assim como órgãos de segurança e justiça institucional. Crianças e adolescentes são expostos à vitimização secundária produzida pela ineficiência no trato da questão, e à vitimização repetida, quando ocorre mais de um incidente delitivo, ou ação ineficiente do Estado, ao longo de um período determinado. A criança e o adolescente pagam, portanto, um alto preço por entrarem em contato com o universo da violência, como vítimas ou testemunhas. Com essa preocupação estivemos em contato com magistrados, promotores de justiça, advogados e demais especialistas em direito e justiça da infância e adolescência para construir uma proposição legislativa que contemplasse as recomendações baseadas em normativas internacionais e na prática de tomada de depoimentos especiais em distintos países. O Grupo de Trabalho sobre o Marco Normativo da Escuta de Crianças e Adolescentes teve em sua composição renomados peritos na questão, entre eles, André Felipe Gomma de Azevedo, Beatriz Cruz da Silva, Benedito Rodrigues dos Santos, Casimira Benge, Daniel Issler, Eduardo Rezende Melo, Fabiana Gorenstein, Heloiza de Almeida Prado Botelho Egas, Itamar Batista Gonçalves, Ivanilda Figueiredo, João Batista Saraiva, José Antônio Daltoé Cezar, Luiziana Souto Schaefer, Robson Rui Campos de Almeida e Thiago André Pierobom de Ávila. Ao finalizar constou que o projeto de lei era essencial para o aprimoramento do sistema jurídico brasileiro e para a conformidade da legislação doméstica aos acordos internacionais de proteção dos direitos humanos das crianças e dos adolescentes.

Desse último trabalho legislativo surgiu a Lei 13.431, publicada em 04 de abril de 2017, regulamentada pelo Decreto n. 9.603, de 10 de dezembro de 2.018.

3 – SISTEMA DE GARANTIA DE DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE VÍTIMA OU TESTEMUNHA DE VIOLÊNCIA

A Lei 13.431/2017 normatiza e organiza o sistema de garantia de direitos da criança e do adolescente vítima ou testemunha de violência, e cria mecanismos para prevenir e coibir a violência.

O Decreto n. 9.603¹⁰, de 10 de dezembro de 2018, regulamentou a Lei nº 13.431, de 4 de abril de 2017, e em sua Seção I do Capítulo II, traz a estrutura do sistema de garantia de direitos.

A composição do Sistema de Garantia de Direitos e os responsáveis pela detecção dos sinais de violência são os órgãos, os programas, os serviços e os equipamentos das políticas setoriais que integram os eixos de promoção, controle e defesa dos direitos da criança e do adolescente.

O sistema trabalhará de forma integrada e coordenada, garantidos os cuidados necessários e a proteção das crianças e dos adolescentes vítimas ou testemunhas de violência, os quais deverão (a) instituir, preferencialmente no âmbito dos conselhos de direitos das crianças e dos adolescentes, o comitê de gestão colegiada da rede de cuidado e de proteção social das crianças e dos adolescentes vítimas ou testemunhas de violência, com a finalidade de articular, mobilizar, planejar, acompanhar e avaliar as ações da rede intersetorial, além de colaborar para a definição dos fluxos de atendimento e o aprimoramento da integração do referido comitê; (b) definir o fluxo de atendimento; e (c) criar grupos intersetoriais locais para discussão, acompanhamento e encaminhamento de casos de suspeita ou de confirmação de violência contra crianças e adolescentes.

O sistema tem toda uma estrutura de proteção à criança e adolescente para garantir seus direitos, que será analisado de acordo com os dispositivos na norma em comento.

4 – PRINCÍPIO DA PRIORIDADE ABSOLUTA

O primeiro dispositivo da lei traz seu objetivo específico: "normatiza e organiza o sistema de garantia de direitos da criança e do adolescente vítima ou testemunha de violência, cria mecanismos para prevenir e coibir a violência".

A aplicação e interpretação da norma veremos adiante, quando da análise do art. 3.º; contudo, desde já, podemos verificar que a lei deixou claro que ela veio para normatizar e organizar a oitiva de crianças e adolescentes.

A lei criou regras específicas de escuta, organizando os procedimentos dentro de um sistema de garantia às crianças e adolescentes, sejam elas vítimas ou testemunhas de violência pela própria norma definidas, com mecanismos de prevenção e coibição da violência.

Os infantes – crianças e adolescentes – serão ouvidos de duas formas: escuta especializada, que é o procedimento de entrevista sobre situação de violência com criança ou adolescente perante órgão da rede de proteção, limitado o relato estritamente ao necessário para o cumprimento de sua finalidade (art. 7.º); e depoimento especial, que é o procedimento de oitiva da criança ou adolescente vítima ou testemunha de violência perante autoridade policial ou judiciária (8.º).

A normatização da escuta protegida veio para atender a uma garantia constitucional: Princípio da Prioridade Absoluta (CF, art. 227, como previsto nos arts. 4.º e 100, parágrafo único, II, do Estatuto da Criança e Adolescente¹¹).

Está previsto na Carta Magna que é dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão.

O princípio do melhor interesse da criança e do adolescente tem origem relativamente recente. No direito romano, com a separação dos pais os filhos ficavam com o pai, tendo em vista a concepção vigente à época de que o pai era o senhor e proprietário de tudo, inclusive dos filhos. No século XIV, surgiu na Inglaterra o instituto do parens patriae, que se consubstanciava em uma prerrogativa do Rei e da Coroa para proteger pessoas incapazes e suas propriedades; no século XVII, houve a diferenciação das atribuições do parens patriae para a proteção das crianças e dos loucos, impondo-se assim outros standards de conduta, ou seja, a variação do tratamento conforme a situação diferenciada.

Foi nesse período de transformações que se constatou que o sistema de tutela da criança e do adolescente passava por políticas públicas, ou seja, dada a necessidade de tutela diferenciada da criança e do adolescente, era necessária a intervenção do Estado. No âmbito dessa mudança de comportamentos teve início, já no século XIX, a presunção de que os pequenos, até os sete anos de idade, deveriam ficar com a mãe, em princípio a pessoa mais adequada para cuida da criança (tender years presumption). Embora pudesse parecer, à primeira vista, que se tratara de uma simples mudança, do ambiente paterno ao materno, foi uma alteração de grandes proporções, em virtude de sua justificativa: a presunção do ambiente materno fundava-se essencialmente nos ‘melhores interesses das crianças’.

O princípio do Best Interest foi consagrado no 7.º Princípio da Declaração dos Direitos da Criança, de 1959, segundo o qual, "os melhores interesses da criança serão a diretriz a nortear os responsáveis pela sua educação e orientação; esta responsabilidade cabe, em primeiro lugar, aos pais. Dando seguimento à Declaração de 1959, a Convenção sobre os Direitos da Criança, de 1989, fixou no art. 3.º, 1, que todas as ações relativas às crianças, levadas a efeito por instituições públicas ou privadas de bem-estar social, tribunais, autoridades administrativas ou órgãos legislativos devem considerar, primordialmente, o melhor interesse da criança".

O princípio do melhor interesse da criança é corolário da doutrina da proteção integral, que perpassou os mandamentos da Carta Magna de 1988. Tal doutrina sustenta que a criança e o adolescente têm direitos específicos a serem protegidos. O dever de proteção não se limita ao Estado, mas se estende à família e à sociedade, constituindo um dever social.

Não obstante os inquestionáveis avanços, ainda existem graves obstáculos que distanciam a tutela integral da criança da realidade. Vive-se, assim, na prática brasileira, um concreto problema de eficácia das normas que atribuem à criança e ao adolescente um extenso rol exemplificativo de direitos e garantias fundamentais; por outro lado, basta verificar a violência doméstica, abuso sexual, mortalidade infantil, trabalho infantil, trabalho escravo, prostituição infantil, descumprimento dos deveres paternais, dentre outros.

A escuta especializada e o depoimento especial vêm ao encontro desses direitos para garantir aos infantes a proteção do Estado para narrarem as violências sofridas ou que presenciaram evitando a revitimização.

5 – DIREITOS HUMANOS DAS CRIANÇAS E DOS ADOLESCENTES

O Brasil, segundo Luciano Maia¹² (2008, p. 117), é parte de quase todas as convenções e tratados de direitos humanos celebrados no âmbito das Nações Unidas. Dentre eles, os principais instrumentos internacionais de proteção e defesa dos Direitos Humanos são: Pacto Internacional dos Direitos Civil e Políticos (1966), incorporado ao Direito Brasileiro pelo Decreto n. 592, de 07/07/1992; Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (1966), incorporado ao Direito Brasileiro pelo Decreto n. 592, de 07/07/1992; Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial (1968), incorporado ao Direito Brasileiro pelo Decreto 65.810, de 09/12/1969; Convenção Internacional Sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher (1979), incorporado ao Direito Brasileiro pelo Decreto 89.460, de 20/03/1984; Convenção Sobre os Direitos da Criança (1989), incorporado ao Direito Brasileiro pelo Decreto 99.710, de 21/11/1990; e Convenção Contra a Tortura e Outras Formas de Tratamento Desumanos ou Cruéis (1984), incorporado ao Direito Brasileiro pelo Decreto n. 98.386, de 09/11/1989, e pela Lei 9.455/97.

Hoje a Convenção sobre os Direitos da Criança é um dos instrumentos mais importantes reconhecidos internacionalmente, mas no passado recente não era assim.

O início do debate internacional sobre os Direitos das Crianças e Adolescentes tem um marco: caso Marie Anne.

BASTOS¹³ retrata este caso, que teve grande repercussão no século XIX. Ocorreu na cidade de Nova York, no EUA. A menina (Maria Anne) tinha nove anos e sofria maus-tratos pelos pais, o que desencadeou uma grande repercussão no ano de 1896, fazendo com que o caso chegasse aos tribunais. No entanto, até aquele momento não existia, no sistema judiciário norte-americano, uma entidade destinada à proteção e defesa dos direitos das crianças e adolescentes, o que desencadeou um sentimento de defesa por parte da Sociedade Protetora dos Animais, que alegou que até mesmo os animais devem ser livres de uma vida de agressões, tratamentos violentos ou degradantes.

A primeira referência que se tem, em âmbito internacional, sobre a proteção específica dos direitos humanos da infância e da adolescência é a Juvenile Court Art de Illinois, que foi o primeiro Tribunal de Menores nos Estados Unidos, criado em 1899. A ideia espalhou-se pela Europa entre 1905 e 1921, quando praticamente todos os países europeus criaram seus Tribunais de Menores (SPOSATO, 2006, p. 33¹⁴).

No entanto, foi após a Primeira Guerra Mundial, quando um grande número de crianças e adolescentes tinham se tornado órfãos, que os menores começaram a ter reconhecidos seus direitos, com a criação de um Comitê de Proteção da Infância pela Liga das Nações em 1919, considerado o primeiro órgão governamental supranacional a aprimorar e focar seu trabalho nas crianças (VANNUCHI; OLIVEIRA, 2010, p. 33¹⁵).

Em 1924 incorporou-se pela Liga das Nações, reunida em Genebra, pela primeira vez a expressão Declaração dos Direitos da Criança, resultado de um trabalho do Comitê de Proteção da Infância.

Essa declaração, que foi elaborada e redigida por membros da ONG Sav the Children, representa o primeiro documento internacional sobre os Direitos da Criança, buscando garantir a proteção e motivar os Estados-Membros a estabelecerem dispositivos que garantissem a proteção dessa população em âmbito nacional.

Veio a Segunda Guerra Mundial e graves direitos dos infantes foram atingidos, milhares de crianças ficaram órfãs ou deslocadas de seus pais e famílias; atrocidades ocorreram envolvendo crianças e adolescentes. A ONU criou o fundo de ajuda internacional (Unicef – United Nations International Child Emergency Fund) com o objetivo de socorrer os menores a partir dos países devastados pela guerra, mas se exigia algo mais.

A ONU, então, em 1959, dá mais abrangência com a Declaração Universal dos Direitos da Criança, na qual reafirma a importância de se garantir a universalidade, a objetividade e a igualdade nas questões relativas aos direitos da criança. A partir dessa declaração as crianças e adolescentes passaram a ser considerados prioridade absoluta e sujeitos de direitos em sentido amplo.

ANGÉLICA BARROSO BASTOS¹⁶ afirma que apesar de se reconhecer uma proteção especial às crianças prevista em documentos internacionais como a Declaração de Genebra, de 1924, e a Declaração dos Direitos importantes, como de 1959, a doutrina da Proteção Integral somente ganhou contornos mais definidos em 1963, com o Congresso Pan-americano realizado em Mar del Plata, na Argentina, quando a Proteção Integral do Menor foi tema central. Com base nesse congresso ocorreu em 1969 a Convenção Interamericana de Direitos Humanos (conhecida como Pacto de San José da Costa Rica), na qual se estabeleceu o conceito de proteção integral, definindo no art. 19 que "toda a criança tem o direito de proteção que a sua condição de menor requer, por parte da família, da sociedade e do Estado" (COSTA, 2004, p. 01).

6 – RESOLUÇÃO Nº 20/2005 DO CONSELHO ECONÔMICO E SOCIAL DAS NAÇÕES UNIDAS E OUTROS DIPLOMAS INTERNACIONAIS

As Nações Unidas, por meio do Conselho Econômico e Social das Nações Unidas – ECOSOC –, elaboraram a Resolução n. 20/2005, que estabelece diretrizes internacionais para que os órgãos jurisdicionais dos estados participantes adotem com a finalidade de garantir a integridade e os direitos das crianças e adolescentes vítimas ou testemunhas de crimes.

O anexo¹⁷ da Resolução prevê a estrutura no Ato Administrativo.

O escopo da Resolução são os procedimentos adotados em face dos infantes, que também garantem o direito à ampla defesa do autor da violência, equilibrando, assim, os direitos, as garantias e a eficácia do processo, protegendo a criança e o adolescente.

O Relatório Analítico Propositivo – JUSTIÇA PESQUISA – A Oitiva de Crianças no Poder Judiciário Brasileiro, com foco na implementação da Recomendação n. 33/2010 do CNJ e da Lei 13.431/2017¹⁸, aborda em síntese as diretrizes, os princípios, direitos e as boas práticas para oitiva de crianças e adolescentes: "As diretrizes que devem ser adotadas pelos países inseridos nas Nações Unidas estão anexadas ao relatório. Nela estão estabelecidos objetivos que devem ser perseguidos pelos estados, quais sejam: (a) revisão de leis e procedimento internos, com finalidade de garantir-se a compatibilidade principiológica; (b) auxílio aos governos, organizações não governamentais na formulação e aplicação da legislação, políticas e programas; (c) orientação de profissionais e voluntários; (d) orientação e ajuda aos que lidam diretamente com as crianças em processo, para que confiram a estas tratamento sensível e compatível à vulnerabilidade. Por conseguinte, são estabelecidos na resolução em comento princípios que devem nortear os operacionalizadores dos processos que envolvam crianças. São eles: (1) dignidade relacionada diretamente ao respeito da criança; (2) não discriminação, enquanto postulado da isonomia, que indica que o tratamento deve ser o mesmo para toda e qualquer criança; (3) melhor interesse da criança, evidenciado na proteção integral e preocupação com o desenvolvimento harmonioso; e, por fim, (4) participação, na perspectiva de que a criança e o adolescente são, sobretudo, sujeitos de direito com direito à voz e de serem ouvidos em processo, precipuamente aos que lhe digam respeito. A Resolução n. 20/2005 ainda elenca direitos que devem ser observados no âmbito dos países, quais sejam: (1) direito a tratamento digno e com compaixão; (2) direito à proteção de qualquer discriminação; (3) direito à informação de forma abrangente; (4) direito a ser ouvido e a expressar opiniões e preocupações; (5) direito à assistência eficaz; (6) direito à privacidade; (7) direito à proteção quanto às eventuais adversidades processuais; (8) direito à segurança; (9) direito à reparação; (10) direito a medidas preventivas especiais. Por fim, na resolução há preocupação com a implementação das denominadas boas práticas para oitiva de crianças e adolescentes vítimas e testemunhas em processos criminais. Enfatiza-se que o principal aspecto para se garantir a realização da prova eficientemente no processo penal com a preservação dos direitos da criança depende da qualificação dos profissionais. Portanto, um dos esforços na implementação é a formação, educação, informação e treinamento continuados dos profissionais que realizam procedimentos de oitiva de crianças e adolescentes. Há que se focar no desenvolvimento de competências para implementação do DE, conforme expõe Marleci V. Hoffmeister (2019, p. 116): […] ao se falar em processo de capacitação, não podemos perder de vista a estreita relação que há com o termo competência, pois não basta ter recebido capacitação se o profissional não desenvolveu as competências para planejar, executar, desenvolver".

Diretrizes sobre Justiça para as crianças vítimas ou testemunhas de crimes, portanto, estabelecem boas práticas baseadas no consenso do conhecimento contemporâneo e das normas, padrões e princípios internacionais e regionais relevantes e devem ser aplicadas em conformidade com a legislação nacional e os procedimentos judiciais pertinentes, bem como ter em conta as condições jurídicas, sociais, econômicas, culturais e geográficas.

No entanto, os Estados devem esforçar-se constantemente para superar dificuldades práticas na aplicação das Diretrizes.

7 – PROTEÇÃO DOS DIREITOS DAS CRIANÇAS E DOS ADOLESCENTES NO BRASIL

A Lei 8.069/90 (ECA) operou uma verdadeira revolução no ordenamento jurídico nacional, introduzindo novos paradigmas na proteção e garantia dos direitos das crianças e dos adolescentes.

A norma estatutária regulamentou a doutrina da proteção integral, recepcionada pelo art. 227 da CF, apresentando um diploma inovador, verdadeiro instrumento da democracia participativa, retirando dos infantes a condição de mero objeto de medidas policiais e judiciais, conferindo-lhes a posição de sujeitos de direitos fundamentais.

Deu-se a condição de prioridade nacional, fornecendo meios necessários à efetivação de seus interesses, direitos e garantias.

O Estatuto da Criança e do Adolescente é considerado mundialmente um dos melhores textos legais sobre a matéria relacionada a proteção de crianças.

A doutrina de proteção integral adotada pelo ECA decorre da Convenção dos Direitos da Criança.

O art. 2.º, item 2, da Convenção dos Direitos da Criança, dispões sobre o termo proteção. O art. 19 obriga todos os Estados a adotar medidas legislativas, administrativas, sociais e educacionais apropriadas a proteger as crianças contra todas as formas de violência. Daí a origem da referida norma-base do ECA: o art. 19 da convenção.

O ECA perfilha a doutrina da proteção integral, baseada no reconhecimento de direitos especiais e específicos de todas as crianças e adolescentes (v. art. 3.º). Embora a Convenção não faça expressa menção ao termo proteção integral, esse novo paradigma fica evidenciado diante da grande quantidade de direitos reconhecidos. Foi anteriormente prevista no texto constitucional, no art. 227, instituindo a chamada prioridade absoluta. A palavra informa a precedência, a prima facie dos direitos da criança e do adolescente em confronto com os outros. Isso em razão da fragilidade e da vulnerabilidade, devendo existir um regime especial de proteção (Luís Carlos Barroso, voto proferido no RExt 777889).

Assim, a doutrina da proteção integral e o princípio do melhor interesse são duas regras basilares do direito da infância e da juventude que devem permear todo tipo de interpretação dos casos envolvendo crianças e adolescentes.

Trata-se da admissão da prioridade absoluta dos direitos da criança e do adolescente.

8 – MEDIDAS DE ASSISTÊNCIA E PROTEÇÃO À CRIANÇA E AO ADOLESCENTE EM SITUAÇÃO DE VIOLÊNCIA

Ao final do disposto, observa-se que o legislador frisou a observação da norma às medidas de assistência e proteção.

A norma garante a proteção integral, o que já estava previsto em outros ordenamentos jurídicos, mas acresceu regras de assistência diante da violência, que são medidas que podem ser adotadas contra o agressor ou usadas pelos infantes, a saber: a) receber assistência jurídica qualificada e psicossocial especializada, e facilite a sua participação e o resguarde contra comportamento inadequado adotado pelos demais órgãos atuantes no processo; b) ser assistido por profissional capacitado e conhecer os profissionais que participam dos procedimentos de escuta especializada e depoimento especial; e c) direito a pleitear medidas protetivas contra o autor da violência; etc.

O importante dentro de todo o ordenamento da novel legislação é que está garantida a proteção dos infantes para relatar seus sofrimentos sem revitimização, embora encontremos alguns poucos doutrinadores que ainda acham tempo para criticar essa iniciativa afirmando que esse tipo de legislação serve apenas como lei que promete garantias contraditórias, quando o real não atinge o ideal (triste assim!).

Art. 2º

Legislação Correlata

CF, arts. 1.º, III, 3.º, IV, 5.º, caput, I, 226, §8.º, parte final, e 227, caput, parte final, e §4.º; Lei 13.431/2017, arts. 4.º, §4.º, 14, 16, parágrafo único, e 25; ECA, arts. 3.º, 4.º, caput e parágrafo único, 5.º, 17, 18, 70-A, 86 e 100, parágrafo único, I, II e III, e 208, XI; e Decreto n. 9.603/2018.

Análise Doutrinária

1 – DESCRIÇÕES DE UMA HISTÓRIA SEM DIREITOS

2 – A CRIANÇA E O ADOLESCENTE COMO SUJEITOS DE DIREITOS FUNDAMENTAIS

3 – DIREITOS FUNDAMENTAIS INERENTES À PESSOA HUMANA

4 – APLICAÇÃO DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS

5 – ATENDIMENTO PELO PODER PÚBLICO

1 – DESCRIÇÕES DE UMA HISTÓRIA SEM DIREITOS

Os infantes, crianças e adolescentes, até há pouco tempo não gozavam de qualquer direito.

A história nos conta isso. NUCCI¹⁹, utilizando a lição de André Karst Kaminski, conta-nos esta história: "na época medieval, sob os olhos europeus, os menores não tinham quase nenhum valor, pois não produziam com a mesma capacidade do adulto e ainda tinham de ser alimentados, cuidados, vestidos… Enfim, eram indivíduos dependentes, motivo pelo qual muitos acabavam morrendo pelo abandono, pela negligência ou pela exploração quando vendidos para servir de escravos, ou embarcados para servir de mão de obra nas navegações, empreendendo esforços sobre-humanos, consumindo alimentação estragada e convivendo em um ambiente desprovido das mínimas condições de saúde e higiene. Além disso, e em decorrência da proibição da presença de mulheres nos navios, o que envolvia também um certo misticismo de que atraíam o azar à expedição, o menor era também seviciado, servindo de ‘mulher’ nas embarcações, que às vezes lotavam mais de 80 homens e ficavam no mar por quase um ano. (…) Essa, então, foi a primeira criança – portuguesa – que aqui chegou: abandonada, vendida, explorada, seviciada. Depois, sabemos, a mesma forma de tratamento dos conquistadores continuou com a criança indígena – brasileira – que aqui foi encontrada, ludibriada, dominada, reduzida em sua liberdade e escravizada, mesmo contra a vontade dos jesuítas católicos, que depois para cá vieram a fim de catequizá-las (em 1570, D. Sebastião redige a Carta Régia, garantindo liberdade aos índios, cuja escravidão só seria definitivamente proibida em 1595). E isso também se seguiu por um longo período com a criança africana, já nascida filha da escravidão (em 1538 começam a chegar os primeiros escravos africanos: no Período Colonial, mais de quatro milhões foram trazidos, a grande maioria jovens do sexo masculino)" – O Conselho Tutelar, a Criança e o ato infracional: proteção ou punição?, p. 15.

Na sequência, citando Lidia Natalia Dobrianskyj Weber, Laços de Ternura, Pesquisas e Histórias de Adoção, p. 28, traz outro trecho desta história sem direitos: "[…] desde a Antiguidade, em praticamente todas as sociedades, o abandono ou exposição de crianças e, mesmo o infanticídio, eram práticas comuns. Nesta época a família estava sob a autoridade do pai, o qual tinha direito à vida e à morte sobre seus filhos. Para os romanos, o direito à vida era outorgado em um ritual, geralmente pelo pai, que tinha direitos ilimitados sobre seus filhos. O recém-nascido era depositado aos pés de seu pai e, se ele desejasse reconhece-lo, tomava-o em seus braços; se o pai saía da sala, a criança era levada para fora da casa e exposta na rua. Se a criança não morria de fome ou de frio, pertencia a qualquer pessoa que desejasse criá-la e transformá-la em escrava. Legalmente, esse direito durou até o século IV d. C., mas informalmente, o infanticídio e o abandono eram práticas comuns até o final da Idade Média. É possível perceber o clima reinante por um pensamento do famoso filósofo Aristóteles, que dizia: ‘um filho e um escravo são propriedade dos pais e nada do que se faça com sua propriedade é injusto, pois não pode haver injustiça com a propriedade de alguém’ (Roig e Ochotorena, 1993)".

Somente em época recente passamos a valorar nossas crianças e adolescentes, conferindo a eles direitos com proteção integral.

2 – A CRIANÇA E O ADOLESCENTE COMO SUJEITOS DE DIREITOS FUNDAMENTAIS

Segundo J. J. Gomes Canotilho²⁰, direitos fundamentais "são os direitos do homem, jurídico-institucionalmente garantidos e limitados espacio-temporalmente […] direitos fundamentais seriam os direitos objetctivamente vigentes numa ordem jurídica concreta".

Esses direitos são considerados inatos ao ser humanos e estão previstos na Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão e presentes nos Estados Democráticos de Direito.

A Constituição de 1988 previu e assegurou em seu art. 5.º os direitos fundamentais.

No que tange à criança e ao adolescente, o legislador constituinte particularizou dentre os direitos fundamentais aqueles que se mostram indispensáveis à formação do indivíduo ainda em desenvolvimento, elencando-os no caput do art. 227: direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar.

O Estatuto da Criança e do Adolescente consagrou em seu artigo 3.º a criança e o adolescente como sujeitos de direitos, e não como objetos.

Está previsto no ECA que a criança e o adolescente gozam de todos os direitos fundamentais inerentes à pessoa humana, sem prejuízo da proteção integral de que trata o estatuto, assegurando-se, por lei ou por outros meios, todas as oportunidades e facilidades a fim de lhes facultar o desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual e social, em condições de liberdade e de dignidade.

O dispositivo em análise é quase uma reprodução do que já prevê o art. 3.º do ECA, sendo decorrência natural do contido no art. 5.º, caput, e inciso I, da CF, que confere a todas as crianças e adolescentes igualdade de direitos em relação a todos os demais cidadãos brasileiros e estrangeiros residentes no país.

A garantia prevista na ordem jurídica é que, apesar da ausência da plena capacidade civil, as pessoas em desenvolvimento têm o poder de ostentarem, como titulares, prerrogativas inerentes ao exercício de direitos fundamentais. Poderão, pois, exercer livremente os direitos humanos reconhecimentos internamente que, positivados, passam a ostentar o status de fundamentais.

3 – DIREITOS FUNDAMENTAIS INERENTES À PESSOA HUMANA

A Constituição Federal de 1988, no caput do art. 5.º, reconhece como titular de direitos fundamentais, orientada pelo princípio da dignidade humana (inciso III do art. 1.º) e pelos conexos princípios da isonomia e da universalidade, toda e qualquer pessoa, seja ela brasileira ou estrangeira residente no País.

O conjunto institucionalizado de direitos e garantias do ser humano, que tem por finalidade básica o respeito à sua dignidade, por meio de sua proteção contra o arbítrio do poder estatal e o estabelecimento de condições mínimas de vida e desenvolvimento da personalidade humana, pode ser definido como direitos fundamentais.

Esses direitos têm elevada posição hermenêutica em relação aos demais direitos previstos no ordenamento jurídico, diante das diversas características presentes²¹: imprescritibilidade (os direitos humanos fundamentais não se perdem pelo decurso do prazo), inalienabilidade (não há possibilidade de transferência dos direitos humanos fundamentais), inviolabilidade (impossibilidade de desrespeito por determinações infraconstitucionais ou por atos das autoridades públicas, sob pena de responsabilidade civil, administrativa e criminal), universalidade (a abrangência desses direitos engloba todos os indivíduos, independentemente de sua nacionalidade, sexo, raça, credo ou convicção político-filosófica), efetividade (a atuação do Poder Público deve ser no sentido de garantir a efetivação dos direitos e garantias previstos, com mecanismo coercitivos para tanto, uma vez que a Constituição Federal não se satisfaz com o simples reconhecimento abstrato), interdependência (as várias previsões constitucionais, apenas de autônomas, possuem diversas intersecções para atingir suas finalidades) e complementaridade (os direitos humanos fundamentais não devem ser interpretados isoladamente, mas na forma conjunta, com a finalidade de alcance dos objetivos previstos pelo legislador constituinte).

A Carta Magna, em seu Título II, classificou os direitos fundamentais em cinco capítulos: Direitos Individuais e Coletivos (correspondem aos direitos diretamente ligados ao conceito de pessoa humana e de sua própria personalidade, v.g., vida, dignidade, honra e liberdade, estando previstos no art. 5.º), Direitos Sociais (tem por finalidade a melhoria das condições de vida aos hipossuficientes, visando à concretização da igualdade social, que configura um dos fundamentos de nosso Estado Democrático, estando consagrado no art. 6.º), Direitos de

Você chegou ao final dessa amostra. Cadastre-se para ler mais!
Página 1 de 1

Análises

O que as pessoas acham de Lei do Depoimento Especial Anotada e Interpretada

0
0 notas / 0 Análises
O que você achou?
Nota: 0 de 5 estrelas

Avaliações do leitor