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Prosas apátridas: Completas
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Prosas apátridas: Completas
E-book225 páginas1 hora

Prosas apátridas: Completas

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Sobre este e-book

Julio Ramón Ribeyro esteve nas antípodas do boom literário latino-americano dos anos 1960. Muito introvertido, não fez frente à expansividade de seu compatriota Vargas Llosa. Esquálido, mostrou-se incompatível com a robustez de García Márquez. Sua prosa também se caracterizou pela magreza extrema, notabilizando-se como mestre do conto e do relato inclassificável. Viveu em Paris, como alguns outros célebres autores do boom, mas nunca saiu de si mesmo: de suas obsessões tabagísticas e existenciais, e da imersão nas vidas minúsculas de seus personagens citadinos.
A respeito da má recepção de seus contos por leitores europeus e da forma que a América Latina era descrita por seus colegas, afirmou: "O Peru que represento não é o Peru que eles imaginam ou representam: não há índios ou há poucos, não ocorrem coisas maravilhosas ou insólitas, a cor local está ausente, falta o barroco e o delírio verbal". Sutil caçador de ironias e fumante de carteirinha, contista perfeito idolatrado por ninguém menos que Juan Rulfo e Julio Cortázar, foi um preciso observador da existência cotidiana.
Nestas Prosa apátridas (nas palavras do próprio Ribeyro, "textos que não se encaixam plenamente em nenhum gênero"), através de fragmentos que oscilam entre anotações em um diário, aforismos e o ensaio filosófico, o escritor peruano explora novas formas de representar uma realidade que se percebe irremediavelmente fraturada. Com elegância e amargura, cada anotação leva o leitor a refletir sobre literatura, infância e velhice, amor e sexo, memória e esquecimento, em um livro que registra a passagem de uma sensibilidade ímpar pelas encruzilhadas do mundo.
IdiomaPortuguês
Data de lançamento1 de abr. de 2016
ISBN9788581226453
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    Prosas apátridas - Julio Ramón Ribeyro

    Julio Ramón Ribeyro

    PROSAS APÁTRIDAS

    (Completas)

    Tradução

    GUSTAVO PACHECO

    Posfácio

    PAULO ROBERTO PIRES

    SUMÁRIO

    Para pular o Sumário, clique aqui.

    Nota do autor

    PROSAS APÁTRIDAS

    1 • 2 • 3 • 4 • 5 • 6 • 7 • 8 • 9 • 10 • 11 • 12 • 13 • 14 • 15 • 16 • 17 • 18 • 19 • 20 • 21 • 22 • 23 • 24 • 25 • 26 • 27 • 28 • 29 • 30 • 31 • 32 • 33 • 34 • 35 • 36 • 37 • 38 • 39 • 40 • 41 • 42 • 43 • 44 • 45 • 46 • 47 • 48 • 49 • 50 • 51 • 52 • 53 • 54 • 55 • 56 • 57 • 58 • 59 • 60 • 61 • 62 • 63 • 64 • 65 • 66 • 67 • 68 • 69 • 70 • 71 • 72 • 73 • 74 • 75 • 76 • 77 • 78 • 79 • 80 • 81 • 82 • 83 • 84 • 85 • 86 • 87 • 88 • 89 • 90 • 91 • 92 • 93 • 94 • 95 • 96 • 97 • 98 • 99 • 100 • 101 • 102 • 103 • 104 • 105 • 106 • 107 • 108 • 109 • 110 • 111 • 112 • 113 • 114 • 115 • 116 • 117 • 118 • 119 • 120 • 121 • 122 • 123 • 124 • 125 • 126 • 127 • 128 • 129 • 130 • 131 • 132 • 133 • 134 • 135 • 136 • 137 • 138 • 139 • 140 • 141 • 142 • 143 • 144 • 145 • 146 • 147 • 148 • 149 • 150 • 151 • 152 • 153 • 154 • 155 • 156 • 157 • 158 • 159 • 160 • 161 • 162 • 163 • 164 • 165 • 166 • 167 • 168 • 169 • 170 • 171 • 172 • 173 • 174 • 175 • 176 • 177 • 178 • 179 • 180 • 181 • 182 • 183 • 184 • 185 • 186 • 187 • 188 • 189 • 190 • 191 • 192 • 193 • 194 • 195 • 196 • 197 • 198 • 199 • 200

    Posfácio – 200 princípios de liberdade, por Paulo Roberto Pires

    Créditos

    O autor

    O butim dos anos inúteis, que com tanto zelo guardaste, dissipa-o agora: te restará o triunfo desesperado de ter perdido tudo.

    R. Tagore

    Nota do autor

    O título deste livro merece uma explicação. Não se trata, como alguns entenderam, das prosas de um apátrida ou de alguém que, sem sê-lo, se considera como tal. Trata-se, em primeiro lugar, de textos que não encontraram lugar em meus livros já publicados e que erravam entre meus papéis, sem destino nem função precisos. Em segundo lugar, trata-se de textos que não se encaixam plenamente em nenhum gênero, pois não são poemas em prosa, nem páginas de um diário, nem anotações destinadas a um desenvolvimento posterior, pelo menos não os escrevi com essa intenção. É por ambos os motivos que os considero apátridas, pois carecem de um território literário próprio. Ao reuni-los neste volume, quis salvá-los do isolamento, dotá-los de um espaço comum e permitir sua existência graças à contiguidade e à quantidade.

    Não escondo que, ao tomar esta decisão, tive em mente Le Spleen de Paris, de Baudelaire. Não por emulação pretensiosa, e sim pelo caráter relativamente disparatado do conjunto e por se tratar de um livro, como diz o poeta em sua dedicatória, que é "à la fois tête et queue, alternativement et réciproquement" e que, por consequência, pode ser lido pelo começo, pelo meio ou pelo fim. Além disso, a maior parte dos textos foi escrita em Paris e, como na obra do autor de Les Fleurs du mal, essa cidade aparece nominalmente ou como pano de fundo em muitos destes fragmentos.

    Paris, 1982

    1

    Quantos livros, meu Deus, e quão pouco tempo e às vezes quão pouca vontade de lê-los! Minha própria biblioteca, onde antes cada livro que entrava era previamente lido e digerido, vai ficando infestada de livros parasitas, que chegam lá muitas vezes não se sabe como, e que por um fenômeno de imantação e de aglutinação contribuem para cimentar a montanha do ilegível e, entre estes livros, perdidos, estão os que escrevi. Não digo em cem anos, mas em dez, em vinte, o que ficará de tudo isto! Talvez só os autores que vêm muito lá de trás, a dúzia de clássicos que atravessam os séculos, frequentemente sem serem muito lidos, mas garbosos e robustos, por uma espécie de impulso elementar ou de direito adquirido. Os livros de Camus, de Gide, que há apenas duas décadas eram lidos com tanta paixão, que interesse têm agora, apesar de terem sido escritos com tanto amor e tanto esforço? Por que dentro de cem anos as pessoas continuarão lendo Quevedo, e não Jean-Paul Sartre? Por que François Villon e não Carlos Fuentes? O que é preciso pôr em uma obra para que ela dure? Ao que parece, a glória literária é uma loteria, e a perenidade artística um enigma. E, apesar disso, continuamos escrevendo, publicando, lendo, comentando. Entrar em uma livraria é pavoroso e paralisante para qualquer escritor, é como a antessala do esquecimento: em seus nichos de madeira, os livros já estão se preparando para dormir seu sono definitivo, muitas vezes antes mesmo de ter vivido. Qual foi o imperador chinês que destruiu o alfabeto e todos os vestígios da escrita? Não foi Eróstrato quem incendiou a biblioteca de Alexandria? O que talvez pudesse nos devolver o gosto pela leitura seria a destruição de tudo que já foi escrito e o fato de partir inocente, alegremente, do zero.

    2

    Vivemos em um mundo ambíguo, as palavras não querem dizer nada, as ideias são cheques sem fundos, os valores carecem de valor, as pessoas são impenetráveis, os fatos, uma massa disforme de contradições, a verdade, uma quimera, e a realidade, um fenômeno tão difuso que é difícil distingui-la do sonho, da fantasia, da alucinação. A dúvida, que é a marca da inteligência, é também a tara mais execrável do meu caráter. Ela me fez ver e não ver, agir e não agir, impediu em mim a formação de convicções duradouras, matou até mesmo a paixão e, no fim das contas, me deu do mundo a imagem de um redemoinho onde se afogam os fantasmas dos dias, sem deixar outra coisa além de fragmentos de acontecimentos loucos e gesticulações sem causa nem finalidade.

    3

    O sentimento da idade é relativo: somos sempre jovens ou velhos em relação a alguém. César Vallejo diz em um poema em prosa que, por mais que passem os anos, nunca alcançará a idade de sua mãe, o que de resto é verdade. É compreensível que os homens de quarenta ou cinquenta anos continuem sentindo-se jovens, pois sabem que ainda há homens de setenta ou oitenta. Só quando se chega a essa última idade é que começam a escassear os pontos de referência por cima. Os octogenários se sentem poucos, ou seja, sozinhos, velhos.

    4

    Teoria do erro inicial: em toda vida há um erro preliminar, aparentemente trivial, como um ato de negligência, um raciocínio falso, a aquisição de um tique ou de um vício, que engendra por sua vez outros erros. Caráter acumulativo destes erros. Sobre este tema: imagem do trem que, por um erro do sinaleiro, toma o caminho errado. Seria mais justo dizer por um descuido do maquinista da locomotiva. Mais justo ainda imputar o erro ao passageiro que entrou no vagão errado. O certo é que acabam os mantimentos do passageiro, ninguém o espera na estação, ele é expulso do trem, não chega ao seu destino.

    5

    Conhecer o corpo de uma mulher é uma tarefa tão lenta e tão louvável como aprender uma língua morta. A cada noite é acrescentada uma nova comarca a nosso prazer e um novo símbolo a nosso já abundante vocabulário. Mas sempre restarão mistérios por revelar. O corpo de uma mulher, todo corpo humano, é por definição infinito. Começamos tendo acesso à mão, esse apêndice utilitário, instrumental do corpo, sempre à mostra, sempre disposto a entregar-se a não importa quem, que trafica com toda sorte de objetos e adquiriu, com tanta sociabilidade, um caráter quase impessoal e anódino, como se fosse o empregado ou porteiro do palácio humano. Mas é a primeira coisa que conhecemos: cada dedo vai se individualizando, adquire um sobrenome, e depois cada unha, cada veia, cada ruga, cada sinal imperceptível. Além disso, não é só a mão que conhece a mão: os lábios também conhecem a mão, e então é acrescentado um sabor, um cheiro, uma

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