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Economia criativa: Como ganhar dinheiro com ideias criativas

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Economia criativa: Como ganhar dinheiro com ideias criativas

notas:
4/5 (1 nota)
Duração:
460 páginas
6 horas
Editora:
Lançados:
30 de out. de 2020
ISBN:
9786558000525
Formato:
Livro

Descrição

Economia Criativa, mostra que a criatividade é um ótimo negócio.
Mas como transformar criatividade em dinheiro, capital e lucro? Simplesmente ter uma ideia brilhante não interessa o que interessa é o que você faz com ela.
John Howkins, destacado especialista em economia criativa, nos mostra nesta edição atualizada o que realmente é criatividade, fornecendo dados concretos sobre sua representatividade na economia mundial (US$2,7trilhões por ano) e descrevendo as principais regras para o sucesso.
Este livro trata da relação entre a criatividade e a economia. A criatividade não é algo novo, tampouco a economia, mas a novidade está na natureza e na extensão da relação entre elas e como elas se combinam para criar valor e riqueza extraordinários.
Editora:
Lançados:
30 de out. de 2020
ISBN:
9786558000525
Formato:
Livro

Sobre o autor


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Amostra do livro

Economia criativa - John Howkins

livro.

1

O PRIMEIRO TALENTO

LEI nO 1: CRIAR OU MORRER

O que é criativo deve criar a si mesmo.

John Keats

Se eu tivesse que definir a vida em uma palavra, esta seria: criação.

Claude Bernard, fisiologista do século XIX

O ARTISTA GRÁFICO

Harry Kroto pede minha caneta emprestada para que possa desenhar alguma coisa em um guardanapo de papel. Como prêmio Nobel de química, imaginei, ele vai desenhar a forma da molécula C60 que ele e outros colegas descobriram. A Fundação Nobel, não dada a elogios exagerados, a descreveu como unicamente bela e satisfatória. Como a sua outra paixão é design gráfico, ele poderia estar prestes a desenhar um outro logotipo. De fato, é um outro logotipo.

Devo frisar que a maioria de seus logotipos se baseia em jogo de palavras e de letras, e não em formas abstratas. Kroto volta para o seu guardanapo para traçar a tabela periódica, onde cada elemento químico possui uma letra e circula três delas, depois quatro; retorna ao logotipo para a sua nova iniciativa, a Vega Science Trust, e, em seguida, desenha um novo logotipo para a empresa de um amigo seu, a Breakthrough.

C60 é uma molécula de carbono com o número nada comum de sessenta átomos; ela é muito maior do que qualquer molécula de carbono anteriormente conhecida. Kroto a chamou de buckminsterfulereno, em homenagem ao designer e inventor Buckminster Fuller, que usou uma estrutura similar em suas cúpulas geodésicas. A essência do C60, afora seu grande tamanho, é a combinação simétrica de pentágonos e hexágonos que dão à molécula extraordinária resistência e estabilidade.

A história da descoberta da C60 ilustra as excentricidades do espírito criativo. É uma história em todos os sentidos da palavra: uma busca, uma série de personagens, várias jornadas, uma descoberta fortuita (a fortuna favorece os bravos), celebrações, entremeadas por períodos de calmaria, um clímax, uma resolução. Tudo começou quando Kroto, que se diz interessado por quebra-cabeças e em seguir o próprio faro, teve a ideia bastante extravagante de querer testar moléculas no espaço. Ele não estava de fato buscando a C60.

Ele sugeriu um experimento, mas isso não era nenhuma prioridade e passaram-se dezoito meses antes de a equipe que acabou ganhando o Prêmio Nobel se reunir pela primeira vez: Harry Kroto, da Sussex University, e Richard Smalley e Robert Curl, ambos da Rice University de Houston. Robert Curl, especialista em espectroscopia, pegou a ideia original de Kroto e conversou com o seu colega Richard Smalley, que havia construído o aparato original. Cada um deles trabalhou junto com seus colegas pesquisadores e alunos. Eu tenho uma vívida sensação de uma comunidade aberta de pessoas que intervêm para ajudar em cada estágio. Kroto menciona David Walton, que me introduziu na minha paixão pelo carbono, alguém mais que realizou um experimento muito importante, outro que acabou gastando o piso do corredor de tanto ir e vir, mas que, no final das contas, conseguiria ajudá-lo resolvendo uma dada questão. Quando o experimento finalmente foi concluído, ele sustentou sua teoria sobre a formação de moléculas no espaço, mas também demonstrou algo mais. Isso, diz ele, foi uma completa surpresa. Fortuitamente, eles encontraram evidências de uma nova molécula de grandes proporções.

Seguiu-se depois um frenético período de cerca de dez dias, em setembro de 1985, quando suas especulações sobre a forma da molécula se transformaram em convicção. Kroto diz que a C60 nasceu em uma quarta-feira, 4 de setembro. Eles publicaram sua descoberta na edição de 14 de novembro da Nature. As reações variaram de descrença à aceitação entusiasta.

O artigo da Nature era uma asserção de possibilidade, uma asserção corajosa e confiante de que a coisa existia. Passaram-se mais 5 anos antes de receberem uma análise espectroscópica. Kroto diz que a cor da solução magenta produzida pelo C60 naquele experimento foi uma das cores mais bonitas que já vi.

Os primeiros experimentos em 1985 sugeriam que algo maior estava presente, mas não apresentava nenhuma evidência de sua forma. Kroto considerava o que ele poderia observar de modo a visualizar aquilo que não conseguia perceber no momento. Ele se viu olhando fixamente um padrão de azulejos de banheiro, um modelo em cartolina do firmamento à noite, qualquer coisa que usasse pentágonos e hexágonos. Qual seria a forma correta? Eles se fixaram em doze hexágonos (formas de seis ângulos) e doze pentágonos (formas de cinco ângulos), com um átomo em cada ângulo que, quando colocados lado a lado podiam ser arredondados e fechados em uma esfera. A cúpula geodésica modelada por Buckminster Fuller tinha esta estrutura, assim como aquela de uma bola de futebol de uma empresa europeia (os gomos pretos são os pentágonos e os brancos os hexágonos).

Isto fica óbvio depois de ser ver. O astrônomo Fred Hoyle diz que, quando Albert Einstein expôs sua teoria da relatividade, Ele colocou uma questão de estilo antes de toda a confusão dos detalhes ... Obviamente, os físicos jamais se rendem ao estilo, pois a palavra faz lembrar Beau Brummell. Mas estilo é isto.

A descoberta do fulereno foi uma longa história, iniciada no princípio da década de 1980, publicada em 1985, confirmada em 1990 e que mereceu um Prêmio Nobel em 1996. A menção do Nobel dizia: Não foram produzidas ainda aplicações práticas e não se espera que isso aconteça antes de 6 anos depois de as primeiras quantidades macroscópicas de fulereno serem obtidas. Mas a menção diz: Foi criado um ramo totalmente novo da química, e existem grandes expectativas da sua exploração comercial em supercondutividade, astrofísica e materiais.

A quem seriam atribuídos os créditos? Esta é uma história cheia de determinação e visão, mas também plena de aventura e casualidades. Trata-se de verdadeira pesquisa, em que o insucesso é mais comum do que o sucesso. Kroto diz que a única maneira sensata de se dividir o sucesso é igualmente. Ninguém deve receber mais créditos do que outro. É a única forma moral.

Reivindicações de propriedade intelectual normalmente exigem uma avaliação mais precisa. Embora uma molécula não possa ser patenteada, as diversas técnicas através das quais ela foi descoberta e as aplicações práticas podem ser altamente rentáveis. Perguntei a Kroto se a possibilidade de receber uma patente encorajou ou afetou o seu trabalho. Ele respondeu que não. Ele não vê com bons olhos empreendedores que adquirem novos produtos, colocando os próprios interesses financeiros acima daqueles da sociedade. A propriedade intelectual é uma caixa de Pandora. É praticamente impossível dizer quem deveria se beneficiar da pesquisa, especialmente pesquisa pura como aquela realizada por Kroto. Como quantificar o valor de 10 anos de reflexão ou o valor de uma ideia brilhante tida em uma tarde na bancada de um laboratório? Como calcular o trabalho de um estudante que, como parte de sua pesquisa para Ph.D., participa com uma contribuição tão valiosa como qualquer dos demais?

O interesse de Kroto continua a ser a ciência pura. Há alguns anos ele lançou a organização sem fins lucrativos chamada Vega Science Trust para produzir programas para a TV e para a internet de modo a revelar o entusiasmo da descoberta e exprimir as ciências como atividade cultural. Isso poderia ser visto como resposta àqueles que ainda acreditam que ciência, de alguma forma, não é algo criativo. Ela certamente ilustra a verdadeira natureza do espírito criativo.

O QUE É CRIATIVIDADE?

A descoberta de Kroto, que foi despertada por uma remota possibilidade de uma nova molécula, levou ao desenvolvimento de outras novas ideias e novos produtos. Ele está interessado no primeiro, deixando este último para os outros. Existem dois tipos, ou estágios, de criatividade: o tipo de criatividade de Kroto, que está relacionada com nossa realização como indivíduos, e que é privada e pessoal, e aquela do tipo que gera um produto. O primeiro tipo é uma característica universal da humanidade e é encontrado em todas as sociedades e culturas. Ele é encontrado tanto em sociedades livres, que o encorajam, como em sociedades fechadas e totalitárias, que normalmente tentam reprimi-lo. Quando reprimido por questões políticas ou religiosas ou constrangido por razões econômicas, o resultado pode prejudicar os indivíduos e enfraquecer as comunidades. Este tipo de criatividade é encontrado igualmente em aldeias de populações autóctones e nas academias e universidades ocidentais (como a Universidade de Sussex, onde Kroto trabalha), que foram projetadas, em parte, com este propósito. O segundo tipo de criatividade, que leva à geração de produtos criativos, é mais forte nas sociedades industriais ocidentais que dão maior valor ao ineditismo, à inovação científica e tecnológica e aos direitos de propriedade (intelectual). Este tipo de criatividade também precisa de um mercado e um número exíguo de leis. O primeiro tipo de criatividade não leva, necessariamente, ao segundo, mas o segundo requer o primeiro.

Embora muitas pessoas tenham contribuído com descrições de criatividade, poucas chegaram perto de uma definição consistente de seu estado físico ou químico. Assim como o sono, outra atividade humana básica, ela permanece um mistério. Todos nós dormimos; todos sabemos o que significa estar adormecido, mas não existe um consenso médico ou fisiológico sobre o que realmente constitui o sono. A justaposição é irônica. Um dos problemas com a definição de sono é sua relação com a consciência. Existe uma crença geral de que o sono é um caso especial de inconsciência. Existe uma graduação entre os estados de estar inconsciente, dormindo, acordado e totalmente consciente? E existe uma graduação similar desde o estado de estar acordado até o de ser criativo? Em outras palavras, seria a criatividade um caso especial de consciência?

O momento da criatividade é algumas vezes acompanhado por uma sensação de um nível de consciência elevado, até mesmo uma explosão de consciência. Quando estamos sendo mais criativos normalmente nos sentimos extremamente alertas e bem mais focados, chegando ao ponto de nos tornarmos menos conscientes de tudo o mais que nos cerca. Por outro lado, há uma corrente contrária que afirma que a criatividade envolve uma perda de controle da consciência e uma mudança para um estado mais parecido com o de sonho.

O psicólogo C. J. Jung estabeleceu uma diferenciação entre estes estados, descrevendo um deles como um momento de alta tensão emocional e o outro como um estado de contemplação onde as ideias passam diante da mente como se fossem imagens de sonho. Ele descreveu a criatividade como uma liberação de energia-tensão. Ele também estava bem ciente da necessidade de árduo trabalho, enfatizando o papel da razão no processo criativo. Ele era um crítico mordaz de seus contemporâneos que tendiam a associar criatividade à neurose: As doenças até o momento jamais fomentaram o trabalho criativo; ao contrário, são um tremendo obstáculo à criação.

Antonio Damasio, Professor de Neurologia da Universidade de Iowa, seguiu Jung e outros psicólogos, dentre os quais William James, na exploração desta conexão entre criatividade e consciência. A análise por ele feita dos sentimentos, emoções e da consciência de seus pacientes o levou a sugerir um círculo de existência, consciência e criatividade. Ele sugere que a autoconsciência é um importante ingrediente do processo criativo, assim como uma habilidade de permitir que a mente consciente gere seus próprios padrões sem se tornar subserviente a percepções e conhecimentos prévios.

Temos aqui semelhanças com a descrição do neurobiologista Charles Sherrington que compara o cérebro a um tear encantado que continuamente tece uma construção, uma imagem, do mundo externo. O objetivo é fazer corresponder a imagem à realidade ou pelo menos explorar as diferenças. O psicólogo Mihaly Csikszentmihalyi diz que o entusiasmo criativo do artista no seu cavalete ou do cientista no laboratório se aproxima do ideal de realização que todos nós buscamos e, tão raramente, conseguimos. Em seu livro Creativity: Flow and the Psychology of Discovery and Invention, ele descreve estados de experiência ótima como a situação em que a habilidade iguala o desafio.

Recentes pesquisas experimentais têm demonstrado que os dois diferentes estados de consciência, cada um dos quais fomenta a criatividade de sua própria maneira, correspondem a diferentes estados cerebrais. Um nível de consciência elevado e foco aumentado estão associados a ondas cerebrais na faixa beta e o estado mais próximo do sonho associado àqueles na faixa alfa.

Alguns cientistas também consideram a criatividade uma experiência espiritual. O cientista cognitivo Guy Claxton, autor de Hare Brain, Tortoise Mind: How Intelligence Increases When You Think Less, diz que a base da criatividade consiste em inserir na consciência uma ideia frutífera sem mais nem menos. Ele questiona: Por que precisamos praticar a concessão ao controle consciente do ego para que toda esta efervescência aconteça de forma mais eficaz? E seria este estado de cognição receptiva não egotista similar à experiência de ficar estático, em estado contemplativo, sabendo que eu sou Deus?.

Na minha opinião, existem três condições essenciais para todos os tipos de criatividade: personalidade, originalidade e significado. A primeira condição é a presença de um indivíduo (a característica pessoal). As pessoas, não as coisas, são criativas. A criatividade requer que uma pessoa veja algo, literal ou metaforicamente, e leve algo a cabo. Sam Mendes, diretor de Beleza Americana, filme premiado com cinco Oscars, refere-se a este momento como aquele de dirigir uma peça ou filme quando você descobre algo que somente você pode fazer, somente você pode dizer. Em termos artísticos, se a criatividade for despojada deste espírito pessoal, ela se torna kitsch.

Tem sido alvo de longo debate se uma máquina pode ou não ter consciência e se ela é capaz ou não de criar. Para os meus propósitos, as máquinas não conseguem criar. Nem mesmo o computador mais rápido e inteligente do mundo é capaz de criar. Os computadores são inúteis, disse Picasso. Eles apenas dão respostas. Quando eles efetivamente produzem algo, eles operam da mesma forma como fazemos ao descobrir algo. A coisa já existe e não precisa de nós, o descobridor, para ela se tornar concreta. Os computadores possuem apenas as informações que nós permitimos que eles tenham, direta ou indiretamente, que eles manipulam apenas de acordo com regras que nós damos a eles. O Dr. Charles Jonscher, autor de Wired Life, diz: "a manipulação, que é lógica, tem o mérito da precisão e da clareza, porém, pela sua própria natureza de raciocínio dedutivo, não pode ter nenhum traço de originalidade ... Este é um velho tema: o lógico versus o criativo".

O pré-requisito da personalidade não significa que a pessoa criativa sempre tenha de agir por conta própria ou ser autossuficiente. Certos tipos de criatividade tendem a ser realizados em circunstâncias privativas, até mesmo solitárias, ao passo que outros tipos requerem e vicejam em um grupo. Ambas as situações podem ser igualmente criativas. O fato de uma pessoa pensar e trabalhar sozinha e uma outra o fazer em grupo não tem impacto algum sobre a criatividade. As tendências no sentido de trabalho solitário ou em grupo nascem de uma mistura da inclinação de cada pessoa, dos processos e produtos relevantes e dos arranjos sociais. Para descobrir a molécula de C60, Kroto algumas vezes teve de se sentar num canto, outras vezes ficar andando pelo corredor em busca de uma pessoa para lhe fazer uma pergunta e, em outras situações, ter a colaboração de colegas que sabiam como construir máquinas complicadas. Para fazer Beleza Americana, Mendes precisou de várias pessoas, não apenas pelo fato de ser um novato na produção de filmes. Trevor Nunn, diretor do Royal National Theatre de Londres, adora o que ele chama de análise coletiva, dizendo que a opinião de terceiros é sempre mais valiosa do que apenas uma, desde que todo mundo saiba que será adjudicado.

A questão persiste. Quando duas ou mais pessoas criativas estão trabalhando em equipe e não conseguiriam ser bem-sucedidas sem ela, mesmo tendo que perder a sua identidade para a equipe, ainda são o talento pessoal e a contribuição individual delas que geram criatividade e o produto. Isto vale nos dois sentidos. Se alguém que faz parte de uma equipe é apenas parte dela, então esta pessoa não está dando nada de si e não pode ser criativa. Este espírito pessoal de criatividade colaboradora é bem sintetizado no adágio do Talmude: Se eu não fizer por mim mesmo, quem o fará? Se eu faço apenas por mim mesmo, quem sou eu então? Se não agora, quando?.

Em segundo lugar, a criatividade é original. Isso pode significar algo completamente novo, que eu descrevo como algo que veio do nada ou então o retrabalho de algo que já existe, no sentido de dar caráter a algo. A crença moderna de que o homem poderia criar algo original foi uma marca do renascimento e do humanismo. O escritor Logan Pearsall Smith ilustrou em Words and Idioms que o cristianismo usava as palavras latinas creator (criador) e creare (criar) para se referir exclusivamente a Deus e suas ações. Apenas Deus poderia criar e seja lá o que ele criasse, seria original. Os homens poderiam apenas rearranjar aquilo que Deus havia criado. Um poema que falasse sobre Deus era original não devido à sua expressão inédita, mas sim pelo seu tema. E um poema que falasse sobre uma edificação, não importando o grau de ineditismo de sua expressão, não era original pelo mesmo motivo. Os humanistas tinham outra visão. Nos idos de 1630, John Donne viu o homem como um criador ao dizer: a poesia é uma criação falsificada e faz coisas que não são parecerem como se realmente fossem. Ele pretendia elogiá-la, mas no clima do pensamento da Igreja anglicana da época, ele estava correndo risco. A palavra original no sentido humanista não apareceu na Europa antes do apagar das luzes do século XXVII. A palavra francesa originalité surgiu em 1699. Horace Walpole e Thomas Gray foram os primeiros a usar a palavra original neste sentido, em 1742.

Em seu Dictionary de 1755, o Dr. Samuel Johnson apresentou várias acepções para criar. A primeira delas era formar a partir do nada. Isso acontece, mas é raro. Mais comumente, uma pessoa criativa pega e faz uma remixagem de ideias de uma forma nova e interessante. Muitos dicionários a partir de 1800 preferem esta última definição. O novo caráter pode se limitar a um ajuste ou dar pequenos retoques ao antigo ou pode ser algo muito mais radical. O primeiro mostra sua ligação com o que existia antes, mas o último, parece (e é) completamente novo.

A psicóloga Margaret Boden, da Universidade de Sussex, faz uma distinção entre ideias que são totalmente novas apenas para a mente do indivíduo interessado (que ela denomina criatividade-P, ou seja, criatividade psicológica) e aquelas que até onde se sabe, são totalmente novas em relação a toda a história da humanidade (que ela denomina criatividade-H, ou seja, criatividade histórica). Alguém está sendo criativo-P caso produza uma ideia que é nova para ele. Uma criança pode ser indefinidamente criativa ao fazer e realizar coisas que, para os adultos, são familiares e óbvias. Crianças que se comportam dessa maneira estão descobrindo e afirmando sua personalidade. Boden enfatiza que o H significa historical, não historic.¹ O critério não é a importância histórica, mas sim sua novidade absoluta no tempo e no espaço.

Vejo isso como a diferença entre novidade e unicidade. Novidade é ineditismo, a qualidade de ser o primeiro. Não é uma medida absoluta. Ela pode significar ser o primeiro na mente do criador, primeiro em um grupo ou primeiro em um dado período. Já a unicidade é absoluta. Significa que a coisa criada é diferente de qualquer outra coisa que existiu previamente. Obviamente, todas as coisas que são únicas uma vez já foram novas; mas todas as coisas novas não são necessariamente únicas. A diferença se reflete na lei de propriedade intelectual. A lei de direitos autorais, como mostrarei no próximo capítulo, requer que um trabalho seja novo, mas não exige que ele seja único. A lei das patentes requer que ele seja novo e único ao mesmo tempo. Por exemplo, se duas pessoas fizerem o mesmo desenho ao mesmo tempo, ambos são protegidos por direitos autorais. Mas uma pessoa que quer patentear um produto novo deve demonstrar que ninguém inventou um produto similar.

Não tem sentido, para nossos propósitos atuais, nos aprofundarmos demais nas origens dos processos criativos. O mundo é muito vasto e muito dinâmico – repleto de ideias – para sermos capazes de dizer definitivamente em todos os casos se uma coisa é realmente original e uma outra não. Usamos o que temos armazenado em nossas memórias, normalmente de forma inconsciente, mesmo quando estamos adormecidos. Mas os princípios ainda são válidos e afetam a questão da propriedade.

Esses dois critérios (pessoal e original) são elementos necessários da criatividade. Mas eles não são suficientes. Nós hesitamos em chamar algo de criativo a menos que ele expresse nossa criatividade de uma forma significativa, mesmo que o significado seja pessoal ou banal. Atribuir um nome a uma ideia ou invenção dá a ela certo significado, mesmo que apenas para criar uma relação entre aquele que deu o nome e o nominado. Mesmo assim ainda poderemos sentir que falta alguma coisa. Portanto, a terceira condição é significado.

Existem fortes argumentos psicológicos a favor disso. Quando somos criativos, normalmente sentimos que realizamos alguma coisa, fizemos ou produzimos algo com identidade e caráter próprio. Essa emoção não depende de outras pessoas darem sinais de aprovação ou até mesmo de entendimento. Seria absurdo dizer que a criatividade de alguém depende da compreensão de uma outra pessoa, que van Gogh não estava sendo criativo quando pintou seus quadros nos anos 1880 porque ninguém os compreendia e que ele apenas se tornou criativo retroativamente, quando as pessoas começaram a comprar os seus quadros. Pelo contrário. Ele era incrivelmente criativo em termos do processo criativo e do número e escopo de seus produtos criados.

Existe amparo legal. As leis de direitos autorais fazem distinção entre uma ideia, que não pode ser protegida por direitos autorais, e sua expressão, que pode ser. Elas exigem que um autor use habilidades e esforço para pegar uma ideia e criar uma expressão ou uma obra. A lei de patentes vai mais além, exigindo que o inventor cumpra uma etapa inventiva. Sem ela, não é concedida uma patente.

À medida que passamos do pessoal para o industrial e para o âmbito das transações econômicas, o papel do significado também muda. Teresa Amabile, Vice-Reitora de Pesquisa da Harvard Business School, diz que, no mundo dos negócios, a originalidade não é suficiente: Para ser criativa, uma ideia tem de ser útil e pronta para ser usada. Para ser útil, o significado tem de ser transmitido ao cliente.

SEIS CARACTERÍSTICAS DA CRIATIVIDADE

A criatividade possui várias outras características que não são necessárias ou que nem sempre estão presentes, mas que completam o quadro. Primeiramente ela é um elemento básico da vida. Talvez as pessoas discordem sobre diversas questões – princípios morais, comportamento social, sexo, política –, mas muitas culturas e religiões reconhecem a importância primordial da criatividade como poder generativo. Elas acreditam que a criatividade dá vida e torna distinto aquilo que, de outra forma, seria rotineiro e repetitivo. Sócrates disse que não vale a pena viver uma vida sem uma observação atenta das coisas. Quando o rei Lear, na tragédia de Shakespeare, quer expressar total futilidade, ele diz: o nada virá do nada. Admiramos as pessoas criativas porque elas realmente fazem algo a partir do nada, e talvez possamos temê-las pela mesma razão. Quando as pessoas deixam de ser criativas, de certo modo elas deixam de viver. Como canta Bob Dylan: O homem que não se ocupa de viver, se ocupa de morrer. O advogado e economista egípcio Kamil Idris, que se tornou diretor-geral da World Intellectual Property Organization, disse em 1997: É uma fórmula simples: para viver, precisamos criar. Sem a criatividade, não poderíamos imaginar, descobrir ou inventar nada. Não teríamos o fogo, os idiomas ou as ciências.

A criatividade é autossuficiente. Não precisamos de recursos externos para ser criativos (embora precisemos deles para fabricar produtos criativos). A segunda lei da termodinâmica diz que, em um sistema fechado, a organização se torna desorganizada e a energia diminui. Este processo é descrito como entropia. Entropia é o estado natural das coisas a menos que a energia venha de fora do sistema. Henry Margenau, professor emérito de Física e Filosofia Natural da Universidade de Yale, diz que o ato criativo, na medida em que consiste na organização de ideias em novos estados e padrões, frequentemente viola a segunda lei da termodinâmica, de que a entropia sempre aumenta. Posso começar com uma ideia e gerar outras três ou até mesmo treze dependendo do quão criativo eu seja. A criatividade existe e cresce dentro de seu próprio âmbito. Ser criativo é análogo à entropia negativa.

Em segundo lugar, a criatividade é um talento universal. Todo mundo é criativo até certo ponto. As crianças são instintiva e abertamente criativas. Todas as crianças desenham. Somente depois de as pessoas crescerem e ficarem mais velhas que algumas delas dizem não ser capazes de desenhar. Todas as crianças sonham e falam sobre seus sonhos. É mais provável que os adultos digam que não são capazes de se lembrar deles.

Os cientistas não descobriram uma sequência genética para a criatividade (e é pouco provável que um único gene ou sequência de genes seja responsável por ela), porém pesquisas recentes realizadas por psicólogos clínicos tendem a confirmar esta universalidade. Os psicólogos Allan Snyder e John Mitchell do Centro para a Mente da Australian National University, Canberra, que investigaram crianças prodígio e pessoas afetadas por idiotia, mas que eram brilhantes em alguma área específica, sugerem que todo mundo possui habilidades criativas inerentes, até mesmo as habilidades dos casos estudados, porém uma parcela muito pequena sabe como explorá-las. Os experimentos desses pesquisadores com exames de imagem mostram como nosso cérebro processa dados de sensações muito rapidamente, antes de nos tornarmos conscientemente cientes disso. Por exemplo, quando ouvimos uma música, o cérebro procura imediatamente a memória de padrões de música similares de modo a classificá-los e compará-los. Dessa forma, os processos cognitivos do cérebro sobrecarregam nossos instintos. Os prodígios e aqueles afetados por idiotia, mas que são brilhantes em alguma área específica enganam o cérebro e não fazem tal busca. Os prodígios são anormais não pelo fato de possuírem uma facilidade que é muito rara, mas porque eles não têm um bloqueio, um filtro que atue sobre um talento que é universal. Os pesquisadores concluem que a constituição fisiológica da criatividade é comum, o que é raro é a nossa capacidade ou disposição fisiológica natural de usá-la.

Essa universalidade intrínseca se aplica à criatividade, mas não à fabricação de produtos criativos. Todo mundo é capaz de sonhar e de ter uma ideia. Um número pequeno de pessoas consegue produzir um produto criativo. Isso depende de conhecimentos técnicos, de recursos físicos e, possivelmente, de fatores ambientais. O professor Michael Howe da Exeter University sugere que as realizações criativas dependem muito de fatores ambientais e comportamentais comuns. Ele concorda com o fato de todos nós termos uma aptidão básica para a criatividade, porém sugere que poucas pessoas possuem os atributos necessários para desenvolvê-la plenamente. Elas precisam de um comprometimento de longo prazo, um firme sentido de propósito, uma forte motivação para serem bem-sucedidas, uma capacidade de concentrar esforços no sentido de objetivos específicos e, normalmente, um ambiente familiar que dê apoio.

Em terceiro lugar, criatividade significa divertimento. Trata-se de brincar no sentido usado pelo historiador Johan Huizinga em seu livro, Homo Ludens. Brincar é prazeroso e agradável. Quando deixa de ser divertido, as pessoas param de brincar. A brincadeira é voluntária, ainda que opere dentro de certas regras que todo mundo obedece rigorosamente, muito embora as penalidades e sanções possam ser divertidas também. É trivial, embora os resultados possam ser altamente significativos (outras pessoas observando pessoas criativas trabalhando normalmente ficam perplexas – elas não as veem como se estivessem trabalhando). Apesar de divertida e inconsequente, ela absorve completamente. É incerta e arriscada, o contrário da rotina e da repetição. Ela gera um grande senso de espírito de equipe e aqueles que dela participam gozam de jargão próprio e de lealdade recíproca.

Samuel Johnson disse que muito raramente a atividade profissional que se exerce coincide com algo com o qual temos prazer. Porém muitas pessoas criativas fazem de seu prazer a sua profissão. Elas concordariam com Noël Coward que o trabalho é muito mais divertido do que a própria diversão. Para muitas delas o seu trabalho é a sua vida e o fazem de forma natural e como se este fosse inevitável. Idealmente, as pessoas criativas possuem um trabalho de alta qualidade e um alto padrão de vida e essas duas qualidades se entremeiam e apoiam uma à outra.

Richard Feynman, prêmio Nobel e provavelmente o maior físico do final do século XX, decidiu precocemente enquanto ainda estudava na Cornell University que

faria as coisas pelo simples prazer de fazê-lo. Naquela tarde, enquanto almoçava, um engraçadinho jogou um prato para o alto no refeitório. Havia um medalhão azul impresso sobre o prato: o símbolo da Cornell. Quando o prato caiu, ele ficou girando em torno de si bamboleando. Dava-me a impressão de que a parte azul do símbolo rodava mais rápido do que o movimento de oscilação e fiquei pensando que relação poderia haver entre os dois. Eu estava apenas me divertindo; o fato não tinha importância alguma em si. Daí comecei a brincar com a equação do movimento de rotação e descobri que se a oscilação fosse pequena, a parte azul rodaria duas vezes mais rápido do que o movimento de oscilação. Tentei descobrir por que acontecia isso, pelo simples prazer de fazê-lo e isso me levou a problemas similares no spin de um elétron que, por sua vez, me levou de volta à eletrodinâmica do quantum que é o problema no qual vinha trabalhando. Continuei a me divertir com essa versão relaxante da coisa e foi como abrir uma garrafa de champanhe. Tudo simplesmente extravasou e, em um breve espaço de tempo, consegui resolver coisas pelas quais ganhei um prêmio Nobel.

A partir dessa história, com reminiscências de Arquimedes, depreendemos três coisas. Primeiro: divirta-se. Segundo: sempre tenha um problema em mente, mesmo que em um nível semiconsciente. Terceiro: não deixe de almoçar.

A quarta característica da criatividade é um senso de competição. As pessoas criativas podem ser extremamente competitivas: algumas consigo mesmas, outras pelo próprio trabalho e outras ainda em ambas as situações. Algumas pessoas criativas estabelecem para si próprias padrões altos. Muitas vezes estes são pessoais e elas guardam para si. O psicólogo Erving Goffman dedicou toda uma vida pesquisando sobre aqueles momentos existenciais da hora da verdade quando se coloca em jogo a própria reputação. O seu livro Where the Action Is descreve situações em que as pessoas assumem riscos completamente injustificáveis para provarem para si próprias que estão certas e, de forma mais profunda, para terem uma prova do próprio valor.

Se quiserem fazer um produto criativo, as pessoas criativas também têm de concorrer comercialmente no mercado. Aqui, o único objetivo é produzir algo que seja novo e que funcione. James Dyson, inventor da solução detersiva para pisos de marca Dyson, diz que teve de criar 5.127 protótipos antes de poder comercializar o seu primeiro produto ao público.

Em quinto lugar, as pessoas criativas, à medida que aplicam seus talentos, tendem a exibir vários traços de personalidade reconhecíveis. Anthony Storr, um dos mais articulados analistas do espírito criativo, acredita que as pessoas criativas são caracterizadas por uma divisão maior de opostos do que as demais pessoas e, igualmente importante, são mais atentas a esses opostos. As pessoas criativas não descartam possibilidades. O físico Nils Bohr disse que uma das máximas favoritas de seu pai era: As verdades profundas são reconhecidas pelo fato de que seu contrário também é uma verdade profunda, e o escritor F. Scott Fitzgerald disse em The Crack-Up que para confirmarmos que o grau de inteligência de uma pessoa é de primeira ordem, esta deve ter a capacidade de armazenar na mente duas ideias opostas ao mesmo tempo e, ainda assim, mantê-la em funcionamento. As pessoas criativas, diz Storr, são mais determinadas e possuem a capacidade de explorar ou reconciliar esses opostos e tensões. Elas têm um ego forte, tendem a ser mais criativas em seus afazeres domésticos e, se estiverem dispostas a tal, se circundam de belas casas e jardins. Comparadas às pessoas medianas, elas tendem a ser mais independentes, a terem uma grande preocupação com o aspecto e a forma, e uma maior preferência pela complexidade e assimetria, além de, conforme as palavras

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O que as pessoas acham de Economia criativa

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