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Confissões de um ex-libertário: Salvando o liberalismo dos liberais modernos

Confissões de um ex-libertário: Salvando o liberalismo dos liberais modernos

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Confissões de um ex-libertário: Salvando o liberalismo dos liberais modernos

Comprimento:
399 página
7 horas
Editora:
Lançado em:
Sep 3, 2018
ISBN:
9788501102003
Formato:
Livro

Descrição

Rodrigo Constantino surgiu no debate público brasileiro como um pensador libertário. O próprio autor reconhece haver flertado – radicalizando – com o anarcocapitalismo. O tempo e o estudo, no entanto, afastariam Constantino do que, a rigor, consistia em estrutura ideológica revolucionária, e sua formação em economia lhe traria a base intelectual pela qual se tornaria nacionalmente conhecido: o liberalismo. Trata-se de um liberal – dirá quem ler o conjunto de sua obra. No entanto, sobretudo a partir do clássico best-seller Esquerda caviar, e talvez sob o impacto dos valores impostos pela paternidade, Rodrigo Constantino incorpora o pensamento conservador – o princípio da prudência, especialmente – aos seus instrumentos de leitura política. O resultado do amadurecimento público deste intelectual corajoso pode ser medido na vigorosa reflexão – inclusive de natureza moral – em que este livro consiste.
Editora:
Lançado em:
Sep 3, 2018
ISBN:
9788501102003
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Livro

Sobre o autor


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Amostra do Livro

Confissões de um ex-libertário - Rodrigo Constantino

1ª edição

2018

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO

SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ

Constantino, Rodrigo

C774c

Confissões de um ex-libertário [recurso eletrônico] / Rodrigo Constantino. - 1. ed. - Rio de Janeiro : Record, 2018.

recurso digital

Formato: epub

Requisitos do sistema: adobe digital editions

Modo de acesso: world wide web

ISBN 978-85-01-10200-3 (recurso eletrônico)

1. Ensaios brasileiros. 2. Livros eletrônicos. I. Título.

18-51519

CDD: 869.4

CDU: 82-4(81)

Meri Gleice Rodrigues de Souza - Bibliotecária CRB-7/6439

Copyright © Rodrigo Constantino, 2018

Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução, armazenamento ou transmissão

de partes deste livro, através de quaisquer meios, sem prévia autorização por escrito.

Texto revisado segundo o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

Direitos exclusivos desta edição reservados pela

EDITORA RECORD LTDA.

Rua Argentina, 171 – Rio de Janeiro, RJ – 20921-380 – Tel.: (21) 2585-2000.

Produzido no Brasil

ISBN 978-85-01-10200-3

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Para Antonio

Sumário

Introdução

A trajetória das ideias liberais

A revolução silenciosa

Como a política de identidade destruiu o liberalismo

Da democracia ao populismo ou à anarquia

Do racionalismo iluminista à arrogância fatal

Do socialismo ao niilismo

Do reformismo à revolução utópica

Seita fechada

Mais Burke, menos Paine

A era do não julgamento

Hedonismo: a nova prisão

Gravidez precoce e a cultura da permissividade

Poliamor: o ataque ao casamento tradicional

O homem afeminado

Do individualismo à sociopatia

A sociologia da virtude

Globalismo × globalização

Imigração: casa da Mãe Joana?

A banalização da vida humana

O impulso prometeico

Ateísmo militante contra o legado do cristianismo

Pacifistas ingênuos

A revolta das elites

Conservador sim, reacionário não!

Conclusão

Introdução

Eu confesso: flertei com o libertarianismo. Na verdade, flertei com o anarcocapitalismo, sua versão mais radical, pois libertário eu de fato fui. Minha maior influência intelectual já foi a romancista e filósofa russa Ayn Rand, autora de A revolta de Atlas. Li todos os seus livros e me identifiquei muito com tudo aquilo. A Razão, com esse R maiúsculo, como o único e absoluto instrumento epistemológico. Nada fora dela, nada além dela. Sim, eu fui um objetivista.

Depois fui ler Murray Rothbard, ainda mais radical, e gostei muito. Desenhar um sistema de ética a partir do zero, fazer do mundo uma tábula rasa para poder deduzir regras de convívio em sociedade apenas com base no princípio da não agressão (PNA): era lindo! Como resistir? Admito que não era tão jovem assim, já tinha passado dos 20 anos, mas fiquei encantado com a descoberta da pedra filosofal. Com base no PNA eu teria todas as respostas que procurava: chega de dilemas morais angustiantes!

Mas ali, já adianto, a coisa começou a degringolar. Em seu A ética da liberdade, há até a defesa legal — mas não moral, ufa! — de que um pai pode simplesmente observar seu filho morrer de inanição, já que ninguém deve ser obrigado legalmente a sustentar uma vida alheia. Consta, ainda, a ideia de que o feto humano é um parasita no ventre da mulher, e, portanto, ela tem o direito de fazer com ele o que quiser. Nos debates em que participava, ainda nos tempos de Orkut, via ancaps defendendo até mesmo o livre mercado de órgãos — como eu também fiz — e algo pior: o livre mercado de bebês!

O radicalismo dessas ideias começou a entrar em conflito com minha essência, minha personalidade e até minha razão, meu bom senso. Até que ponto eu estava disposto a sacrificar tudo aquilo que eu sentia ser importante em nome de uma ideologia? Eu ia mesmo me transformar num revolucionário, desses que quer virar o mundo de ponta-cabeça pois nada do que existiu antes prestou e era preciso buscar a verdadeira liberdade nesse antro de escravos alienados?

Ali, aos 20 e poucos anos, já comecei a ficar bem incomodado com algumas bandeiras e, principalmente, posturas libertárias. A turma mais ativa em defesa do libertarianismo me irritava, e alguns até me chocavam. Era um perfil de seita que não batia com minhas crenças e meu estilo. Claro que em todo lugar há excessos, e é preciso tomar cuidado para não tomar a exceção como regra. Não quero bater em espantalho. Mas eis o problema: passei a notar que muitos agiam dessa forma, e não somente os mais jovens...

O primeiro fator importante que me afastou do libertarianismo foi a postura dos próprios ícones libertários. Não queria ser como eles. Não concordava com suas ideias, que soavam ora arrogantes, ora infantis. Em certos momentos de profunda tensão nacional, como quando o PT tinha boas chances de entrar ou de permanecer no poder, percebi que sequer conseguiam adotar um mínimo de pragmatismo: como eram todos inimigos do sistema, de tudo que está aí, vários não faziam muita distinção entre PT e PSDB, o que, para mim, era sinal de cegueira braba.

Nunca gostei dos tucanos, defensores da social-democracia ou, em alguns casos, até mesmo do socialismo fabiano, uma versão mais light do socialismo. Mas daí a não enxergar que o PT era muito pior, que mirava de fato no modelo cubano, que tinha um DNA totalitário e braços armados para executar todo tipo de abuso de poder em nome da causa, vai uma longa distância. Ao repetir que imposto é roubo e que qualquer Estado é inaceitável, alguns libertários passaram a não mais constatar a existência do cinza: era tudo preto ou branco.

Tal maniqueísmo me parecia perigoso, pois havia claramente um inimigo maior, mais importante, a ser derrotado. Ficar debatendo o sexo dos anjos na Venezuela não era algo que fazia sentido para mim; era preciso impedir o Brasil de virar a Venezuela antes de qualquer coisa. Vários libertários, porém, pareciam mais interessados em discutir detalhes ideológicos, disputando quem era o verdadeiro defensor da liberdade, do que em lutar para salvar o Brasil do socialismo iminente.

O segundo fator que me afastou dos libertários foi a constatação de que muitos deles queriam a revolução ou nada, sem concessões no caminho, pois estavam mais empolgados com o gozo das ideias puras do que com resultados concretos. Era a utopia ou a revolta, pois todos que não fossem libertários só podiam ser... socialistas. E aí misturavam extrema esquerda com esquerda mais moderada no mesmo saco podre, esquerda carnívora com herbívora, o que era, na prática, a complacência diante do monstro prestes a nos devorar.

Além desses dois fatores externos, outros dois fatores internos foram fundamentais para minhas mudanças. Um deles chama-se idade, ou, como os conservadores gostam de dizer, num ato de autoelogio, maturidade. Chegando perto dos 40 anos, com uma filha que em breve já estaria se aproximando da adolescência (fui pai jovem, aos 25 anos), comecei a pesar certas coisas, a analisar com uma ótica diferente o mundo real, sem me iludir tanto com fantasias. E, sendo pai de uma menina, fiquei mais atento ao que rolava na juventude da geração dela.

O que vi me assustou. O relativismo estético e moral tinha tomado conta de tudo. A era do não julgamento tinha chegado, e só por criticar uma moça claramente perturbada que foi capa da Folha de S.Paulo e tinha tatuado demônio em sua testa, implantado um soco-inglês de silicone em seu punho e pintado o branco dos olhos de vermelho, eu atraí inúmeros ataques de libertários.

Eu não poderia mais me dizer um libertário ou mesmo liberal se ficava julgando tanto o comportamento dos outros, diziam. O mais engraçado é que eles invadiam meu blog, ou seja, minha propriedade particular, para emitir um julgamento acerca da minha opinião e meu comportamento, mas eu não era mais um liberal porque emitia a minha opinião no meu próprio blog sobre o comportamento de uma pessoa certamente doente. Passei a me dar conta de que esses libertários tinham perdido o juízo ao nem notar a incoerência.

Falarei mais disso no decorrer do livro, inclusive mostrando textos meus antigos nos quais não mais acredito, para sustentar meu ponto de vista. Eis a tese principal: o pêndulo extrapolou. Coisas que começaram como legítimas bandeiras liberais ou libertárias saíram pela tangente, passando a minar em vez de alimentar as liberdades individuais. Ninguém tinha o direito de julgar e condenar ninguém, moralmente falando. Se não houve vítima direta, se o belo PNA não foi atacado, então ninguém tinha nada com isso. Live and let live.

Com uma filha adolescente, só podia concluir que essa postura era loucura. Como assim, não ligar para o entorno, para os valores morais disseminados pela população? Percebi que muitos libertários confundiam individualismo com sociopatia, e cheguei a escrever sobre isso. Ao agir dessa forma, esses radicais estavam sendo os inocentes úteis da esquerda em sua guerra cultural. Era tudo que os socialistas queriam: enfraquecer os valores morais, a família e a religião, em especial o cristianismo. Não é teoria conspiratória de reacionário paranoico, mas intenção confessada da turma.

O quarto e último fator relevante de minha guinada a um liberalismo menos libertário e mais conservador foi a leitura de muitos pensadores ligados ao conservadorismo. Tenho o hábito de anotar os livros que vou lendo em ordem cronológica. É uma escolha um tanto arbitrária e caótica. Mas esse padrão acaba saltando aos olhos: perto dos 20 anos, a leitura era concentrada nos libertários. Foi só depois dos 30 anos que comecei a entrar em contato com o ponto de vista mais conservador. Havia uma lacuna em minha formação intelectual, por puro preconceito.

Edmund Burke, Russell Kirk, Michael Oakeshott, G.K. Chesterton, C.S. Lewis, Theodore Dalrymple, Roger Scruton e tantos outros que só fui conhecer mais velho me mostraram o que estava errado ao adotar aquela visão libertária, mais arrogante, mais limitada, mais infantil, como vejo hoje. Esses autores, além de derrubarem de vez os resquícios libertários que restavam em mim, abriram minha mente para as vantagens e verdades da religião, enfraquecendo o preconceito que eu tinha antes. Se você lê Chesterton, como pode repetir depois que cristãos são alienados que acreditam em papai do céu por fraqueza ou ignorância?

Sim: além de libertário, fui um ateu militante, impressionado com Richard Dawkins e companhia. Ou seja, abracei o pacote completo. Agora vejo como era um grito de revolta contra o abandono do Pai, ou seja, uma típica postura de denegação, como diriam os psicanalistas, pois quem vive para repetir que Deus não existe, vive com base em sua existência. É o famoso sou ateu, graças a Deus. Cheguei a preparar um esboço de livro sobre o assunto, atacando todas as superstições com fundamento em minha idolatria à Razão, e só agradeço o fato de nunca ter publicado tal obra. Hoje sei como era imatura, e teria vergonha.

O conservador é um liberal que foi assaltado na noite anterior, brinca um ditado. O liberalismo radical é lindo na teoria, mas sabemos que na prática o buraco é mais embaixo. Não vamos esquecer que o pai do conservadorismo era um liberal Whig. Burke sedimentou o caminho filosófico do conservadorismo ao perceber os riscos que a civilização corria com o radicalismo jacobino. Seu grande insight foi ter se dado conta de que nosso verdadeiro contrato social inclui aqueles que já morreram e aqueles que nem nasceram ainda — ou seja, trata-se de um pacto entre gerações.

Quem deseja botar fogo em tudo para recomeçar do zero ignora isso, como ignora os limites de nossa razão. Quem já foi mordido por cobra tem medo de linguiça. O conservador, ao contrário do libertário, teme a destruição dos principais pilares civilizacionais, justamente porque sabe melhor o que está em jogo. Prudência é a palavra-chave aqui. Cautela, humildade, respeito às tradições, ao acúmulo de sabedoria no processo lento e longo de tentativa e erro que foi moldando nossas instituições: eis o nome do jogo.

A seguir, pretendo explicar em mais detalhes essas principais questões, mostrando por que fui me afastando do libertarianismo e me aproximando do conservadorismo, ainda dentro do que considero o liberalismo clássico. Rótulos são perigosos, pois sempre simplistas. Mas se tiver que usar um para definir minha postura política, diria que hoje sou um liberal-conservador, ou seja, um liberal com um viés mais conservador nos costumes e na política.

Mantenho aquele ceticismo, até mesmo aquela revolta contra o Estado. Desconfio de tudo que vem do governo. Mas não quero mais aboli-lo, tampouco acho razoável defender um individualismo exacerbado, apesar de ser contra os diferentes tipos de coletivismo que transformam os indivíduos em meios sacrificáveis. Há nuances, como aquela que separa o nacionalismo tacanho de um patriotismo saudável. Muitos libertários não enxergam essas distinções.

Espero ser capaz de persuadir o leitor, como ocorreu comigo mesmo, de que o libertarianismo tem sua beleza, mas pode ser perigoso se mal calibrado. E a grande lição conservadora é justamente adaptar para a realidade e as circunstâncias aquilo que funciona, com o objetivo de preservar a própria liberdade. No mundo pós-moderno, o relativismo passou a ser o grande obstáculo a uma sociedade mais saudável. Os socialistas miram nas principais instituições que impedem um Estado totalitário, como a família tradicional e o cristianismo.

Vejo com espanto que muitos liberais não se dão conta da revolução cultural em curso, negam a própria existência da guerra cultural, não entendem que os socialistas se adaptaram e passaram a priorizar a cultura, não mais a economia, como instrumento de poder totalitário. Nessa revolução das vítimas, o denominador comum é demonizar o homem branco heterossexual cristão ou judeu, para destruir os pilares de nossa civilização.

Fazer coro a esses revolucionários com base num dogma — o PNA — é servir de massa de manobra para algo muito maior e mais perigoso. Espero que os libertários possam abrir os olhos a tempo e adotar um viés mais conservador, dando ênfase ao aspecto cultural, para salvar o próprio liberalismo desses liberais modernos. A civilização ocidental corre perigo, e a liberdade não sobrevive num vácuo de valores. Ou resgatamos aquilo que está sob constante ataque e quase perecendo, ou será a liberdade como a conhecemos que irá morrer. E pior: em nome da própria liberdade!

A trajetória das ideias liberais

Antes de falar em mudança de rótulos dentro do liberalismo, é preciso saber o que se entende aqui por liberalismo e o que aconteceu com ele mais recentemente. Resgatar a trajetória das ideias liberais é um exercício que julgo importante para a minha confissão. Muitos libertários passaram a fazer a acusação de que não sou mais um liberal verdadeiro, legítimo, algo de que discordo — e pretendo apresentar meus argumentos de defesa. Acredito, no fundo, que é a própria concepção de liberalismo que sofreu muitas mudanças, e a defesa infantil da libertinagem ou intransigente de dogmas passou a ser confundida com liberalismo.

Em Uma luz na escuridão, compilei mais de cem resenhas de 75 autores diferentes, em ordem cronológica, desde John Milton e John Locke até os mais contemporâneos, passando por vários nomes clássicos. Ali consta de tudo em termos de espectro ideológico, desde os mais libertários até os mais conservadores, ateus militantes e cristãos ortodoxos. O que extrair disso? Escrevi no epílogo:

Se não falhei em minhas interpretações, considero o grande ponto de interseção desses pensadores a defesa de um máximo possível de liberdade individual. Ou seja, o ponto de partida deles era sempre o indivíduo. Em outras palavras ainda, esses autores combatiam as diferentes formas de coletivismo, que colocam o indivíduo como um simples meio sacrificável para o bem geral.

Claro que o método defendido para tal finalidade, isto é, a garantia da liberdade individual, varia bastante. Uns confiam menos numa ordem espontânea e pregam mais autoridade centralizada, enquanto outros chegam a condenar a própria existência do Estado. Não há — nem pode haver — uma unanimidade sobre esta questão complicada. Até que ponto o convívio social exige o sacrifício de parte das liberdades individuais? Quanto cada um deve ceder de seus interesses egoístas para tornar a vida em sociedade possível? Não são questões fáceis, mas esses diferentes pensadores buscaram, ao menos, defender o máximo possível da individualidade de cada um.

O maior inimigo dessa liberdade individual parece ser consensual: a concentração de poder, basicamente no Estado. O coletivismo trata o indivíduo como membro de um rebanho, como súdito da autoridade, em vez de olhar a autoridade como serva dos indivíduos. A resposta para a melhor organização política desejável não foi encontrada de forma definitiva. Talvez nunca seja. Por isso mesmo é fundamental o eterno debate de ideias, com foco nos argumentos e respeito à lógica. As ideias iluminam o obscurantismo da crença dogmática. Questionar é necessário. Buscar conhecimento com honestidade intelectual, ou seja, confrontando as convicções com contra-argumentos, deve ser um objetivo de todos que desejam mais na vida do que seguir cegamente um curso, de forma irrefletida. O mercado de ideias é concorrido. O consumidor precisa estar preparado para não cair nas mãos de charlatões. Ele precisa estar atento contra as falsas ideias que vendem falso conforto. A angústia do saber é melhor que a certeza na ignorância.

Os indivíduos nascem livres. Até certo ponto, precisam contemporizar para que a vida em comunidade seja tolerável. Qual é este ponto? Este livro, ainda que tenha abordado vários temas distintos, tenta esboçar uma resposta para essa complexa pergunta. Diferentes pensadores, com diferentes formações e em diferentes épocas, buscaram respostas para este tipo de questão. Fazendo resenhas de vários livros deles, espero ter colaborado de alguma forma para o debate. Entretanto, gostaria de repetir que tais resumos não substituem, de maneira alguma, os trabalhos originais. Beber direto da fonte é sempre melhor.

Portanto, se o resultado da leitura deste livro for o estímulo despertado para que o leitor vá ler alguns desses autores, eu já estarei satisfeito. Os argumentos em defesa da liberdade individual são mais sólidos do que qualquer apelo coletivista. Basta querer refletir de verdade sobre as questões. E a leitura desses autores, com diversos argumentos por focos distintos, é extremamente poderosa para derrubar de vez os mitos coletivistas. Suas ideias são como uma luz na escuridão.

Ou seja, naquele esforço, na fase em que ainda flertava com o libertarianismo, já demonstrava algo que prezo muito, cada vez mais: a humildade epistemológica. O coletivismo é condenado de forma dura e direta, mas o dogmatismo também, assim como a ideia de uma seita fechada e a crença em uma pedra filosofal. Foram essas convicções que me afastaram dos radicais libertários.

O que não quer dizer que eu não seja mais um liberal. No fundo, existem diferentes liberalismos e nenhum deles monopoliza a defesa da verdadeira liberdade. Isso não significa, contudo, que qualquer coisa possa ser encaixada dentro do liberalismo. Não é tão elástico, nem tão fechado assim.

O liberalismo, desde o seu nascimento, foi uma busca tanto por liberdade como por ordem. Essa é a tese de Edmund Fawcett em Liberalism: The Life of an Idea, em que sugere quatro pilares básicos do liberalismo: aceitação dos conflitos inevitáveis na vida em sociedade; resistência ao poder estabelecido; progresso material; e respeito ao indivíduo. Falar de um movimento liberal único é complicado, uma vez que ele não possui doutrinadores, uma Internacional monolítica ou profetas como são Marx e Engels para os comunistas. Não adota postura de seita fanática. O liberalismo, pela ótica de Fawcett, seria uma busca constante por uma ordem eticamente aceita do progresso humano entre pessoas civicamente iguais sem o apelo ao poder arbitrário.

Num mundo em grandes convulsões e mudanças, o liberalismo teria surgido para tentar estabelecer uma ordem, mas dinâmica em vez de estática. Essa ordem deveria ser buscada sem a necessidade de uma autoridade divina. O comércio internacional prevaleceria frente à guerra, e acordos substituiriam o uso da força. A educação e o ganho material ajudariam na obtenção dessa ordem ética. Indivíduos passariam a ser mais responsáveis por seus atos e decisões, escolhendo de forma mais sábia seu destino.

O liberalismo era e é, portanto, um ato de esperança na humanidade, um grito de otimismo que, para alguns conservadores, cheira a utopia. Mas avanços conquistados são inegáveis. Direitos civis, tolerância, governo constitucional, império das leis e liberdades individuais, tudo isso devemos em boa parte ao liberalismo. A crença otimista de que a sociedade e o caráter humano podem melhorar, progredir, está no cerne do movimento liberal. Mas, ao contrário do socialismo, o liberalismo não deseja criar uma nova sociedade, e sim gradualmente melhorar a existente. Os conflitos atuais, para os liberais, não podem ser solucionados, apenas mitigados. Isaiah Berlin, com seu conceito de valores incomensuráveis, captura bem essa postura liberal. No que liberais modernos já não acreditam mais, em contrapartida a alguns economistas liberais do passado, é que o progresso material por si só levará aos demais objetivos nobres do liberalismo. A esperança é mais comedida hoje, mais realista.

Democracia e liberalismo não são sinônimos, como François Guizot e Friedrich Hayek atestaram. O liberalismo valoriza a liberdade política, mas não acredita que o direito ao voto seja uma garantia disso. O ceticismo liberal em relação ao poder serviu, ao longo do tempo, para se criarem mecanismos de pesos e contrapesos que pudessem limitar o poder estatal, mesmo quando o governo fosse eleito. O liberalismo é mais um fim; a democracia, um meio.

O mundo está uma vez mais diante de impasses importantes, dilemas profundos, ameaças totalitárias relevantes. Sempre que isso acontece, a confiança no liberalismo esvanece. Críticos alertam, com alguma razão, que as democracias liberais se tornaram covardes demais, excessivamente materialistas e hedonistas, e que sem a disposição ao sacrifício em nome de algo maior elas não têm chance contra seus inimigos.

Mas, em favor dos liberais, todos os profetas pessimistas do passado erraram, e o modelo liberal se mostrou mais resistente do que o previsto. Nem Hitler nem a União Soviética conseguiram derrubar a ordem liberal nos países civilizados. Não será o fanatismo islâmico que será capaz disso — desde que as democracias liberais não sucumbam diante da tentação de se fechar, de matar nelas justamente aquilo que faz a diferença.

Só que certamente não é apenas uma questão econômica, como pensam aqueles que aderem à máxima do marqueteiro de Bill Clinton: É a economia, estúpido! Não é. A liberdade não sobrevive num vácuo de valores morais. Essa é a grande sacada que levou tantos liberais clássicos à defesa de convergência com conservadores, especialmente em épocas de degeneração da sociedade.

O liberalismo se mostrou capaz de adaptações políticas, de concessões, quando necessário para sobreviver. Pode não ser o ideal para os mais puristas, mas se a alternativa concreta é se transformar num regime fechado e totalitário, então as adaptações dentro do sistema democrático e da economia de mercado relativamente preservada parecem aceitáveis. Resta saber se os liberais terão capacidade para tanto.

Não existe apenas um liberalismo, e sim vários, com diferentes enfoques, numa longa trajetória de luta pela liberdade individual. Um bom livro para quem quiser mergulhar mais nessa cronologia é O liberalismo antigo e moderno, de José Guilherme Merquior, um dos pensadores mais eruditos que o Brasil já teve.

Sua própria postura era a de um liberal-social, ou seja, aquele liberal moderno que dá mais ênfase à igualdade e aos direitos positivos (liberdade para, não apenas de), muito parecido com o liberal no sentido americano, quase um social-democrata (infelizmente, nos Estados Unidos ocorreu uma radicalização de esquerda no meio liberal e hoje há até socialistas assumidos no Partido Democrata).

Diferentes contextos, assim como diferentes obstáculos às liberdades individuais, também ajudam a explicar o surgimento dos variados pontos de vista liberais. O inimigo nem sempre foi o mesmo.

Ir limitando o poder arbitrário do Estado, por exemplo, foi o foco principal da luta liberal no período que Merquior chama de protoliberalismo. A busca pela autonomia do indivíduo, mantendo-o livre de coerção, sempre foi uma das bandeiras liberais. Claro, os conceitos podem variar e fazer toda a diferença. Mas, na essência, a defesa do indivíduo autônomo contra forças arbitrárias fez parte da trajetória liberal desde o começo. Independência, autonomia e poder de realização pessoal, sempre com foco no indivíduo, foram as marcas das primeiras batalhas liberais.

A partir da virada do século XIX para o XX, alguns pensadores começaram a escrever sobre os limites do individualismo e destacar a importância do social, ainda assim rejeitando o socialismo. Admito que me incomoda incluir no rol dos liberais figuras como Kelsen, Bobbio, Keynes, Dewey e Rawls, a menos que façamos essa importante distinção entre liberalismo e liberalismo de esquerda, ou social-liberalismo. Ainda assim, essa bandeira de maior igualdade dentro do modelo liberal faz parte, para Merquior, de sua pluralidade essencial e também de sua eterna tensão entre igualdade e liberdade.

Não é preciso concordar com a conclusão para apreciar o livro. De minha parte, um liberal mais conservador que desconfia do democratismo exacerbado, apelos à igualdade (justiça social), revoluções utópicas e tudo mais, creio que a capacidade de se reformar é uma das vantagens do liberalismo, mas que atualmente o pêndulo pesou demais para o lado de lá.

Precisamos do resgate de certos valores liberais mais clássicos, até mesmo com viés conservador, pois o lado igualitário moderno acabou prevalecendo, e, por mais que não fosse esse o intuito de muitos liberais-sociais, como o próprio Merquior, esses modelos se tornaram muito semelhantes ao socialismo, ainda que numa forma mais light.

Do mesmo modo, os libertários acabaram flertando bastante com ideias esquerdistas, e, ao endossarem uma visão excessivamente relativista e subjetivista do ponto de vista moral, e também material, colaboraram com o inimigo, muitas vezes sem se dar conta disso.

Este livro é justamente uma tentativa de provocar o debate e a reflexão sobre esses exageros, sobre os excessos cometidos em nome do liberalismo e que, na prática, acabam minando a liberdade individual. O toque pessoal mostra como eu mesmo fui mudando ao longo do tempo, para me adaptar à realidade. Veremos vários casos em que os liberais ou os libertários acabaram fazendo coro aos antiliberais, colocando em risco as próprias conquistas do liberalismo.

Conhecer essa trajetória das ideias tidas como liberais, portanto, serve para mostrar que os liberais clássicos não precisam abrir mão do rótulo só porque libertários ou liberais de esquerda resolveram usurpá-lo. Quem é liberal, mas entende a importância de certos valores morais que devem ser conservados, pode muito bem continuar se dizendo um liberal sem medo da patrulha. Estamos em ótima companhia histórica.

A revolução silenciosa

Fundamental para a tese deste livro é compreender como a esquerda usurpou o conceito do liberalismo, deturpando-o completamente. E pior: fez isso de forma silenciosa, por baixo dos panos, sem que muitos notassem o que estava acontecendo.

A esquerda radical tomou conta da cultura, chegou ao poder, e muita gente não só não notou como a chama de moderada. Isso aconteceu inclusive nos Estados Unidos, outrora a nação tida como o bastião da liberdade individual.

O processo deu-se em quatro estágios: o radicalismo tomou de assalto o liberalismo; o novo liberalismo elegeu como único oponente o conservadorismo reacionário; o radicalismo passa a representar tudo que há de bom no mundo e a correção de tudo que havia de ruim; os radicais têm o monopólio da verdade para fundamentalmente mudar o mundo.

Essa é a tese de Barry Rubin em Silent Revolution, em que explica como a esquerda dominou a cultura e a política na América. O exercício retórico foi um malabarismo bem contraditório: os progressistas clamam para si o mérito de tudo que há de positivo nas conquistas ocidentais, ao mesmo tempo que afirmam que o Ocidente é basicamente malvado.

Escravidão, exploração, miséria, injustiças e preconceitos: assim é descrita a trajetória ocidental, ignorando-se que tais coisas sempre existiram no mundo e que foi o próprio Ocidente, com suas democracias liberais, que mitigou boa parte desses problemas. Howard Zinn é o grande nome por trás da depreciação contida no revisionismo histórico da esquerda.

Enquanto o impulso liberal original era o de melhorar o mundo com reformas, o radicalismo adotou uma ideologia anticapitalista, que pretende suplantar os valores mais básicos do Ocidente, revolucionar a coisa toda. O ex-presidente americano Barack Obama é um ícone desse radicalismo. Falava em transformar essencialmente a América e não reconhecia o caráter excepcional do país na defesa histórica da liberdade, como o farol que foi para o resto do mundo. Obama é um radical, julgava-se acima da própria Constituição, adotava tom messiânico e medidas extremamente intervencionistas, mas ainda assim é visto pela grande imprensa como um moderado. É a maior prova de que os radicais tiveram sucesso em sua estratégia.

A maior força do movimento foi justamente sua invisibilidade, a negação geral do que estava acontecendo. Quem espera que o diabo ande pelo mundo com chifres será facilmente sua presa, alertou Schopenhauer. Os marxistas que explodiam bombas na década de 1960 se tornaram professores influentes, gurus do presidente, sem reconhecer seus equívocos do passado ou mudar a sua essência. Mas quem acusasse tais intelectuais de radicalismo seria visto como o verdadeiro radical, uma inversão absurda que acabou dando certo. Quem quer que apontasse os elos radicais de Obama era desqualificado como paranoico ou extremista. Defender os valores básicos que fizeram dos Estados Unidos essa grande nação já passava a ser coisa

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