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América Latina na encruzilhada: Lawfare, golpes e luta de classes
América Latina na encruzilhada: Lawfare, golpes e luta de classes
América Latina na encruzilhada: Lawfare, golpes e luta de classes
E-book666 páginas10 horas

América Latina na encruzilhada: Lawfare, golpes e luta de classes

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Sobre este e-book

O livro América Latina na encruzilhada é um balanço, nem sempre otimista e alentador, das duas últimas décadas de transformações em nosso continente. Após uma euforia inicial, parecida com aquela experimentada nos primeiros anos da Unidade Popular com Salvador Allende no Chile em 1970-1973, uma série de governos populares na Argentina, Brasil, Bolívia, Equador e, ainda uma vez, no Chile, fez ressurgir a possibilidade de mudanças profundas num continente onde, desde suas origens, a colonidade parecia ser um destino inexorável.

No entanto, uma série de golpes, mesmo que com novas roupagens, primeiro em Honduras, depois no Paraguai, Brasil e Bolívia viria explicitar que mesmo os governos ditos "populares e progressistas" e suas agendas reformadoras, no âmbito do capitalismo, não tinham condições de avançar numa sociedade rigidamente classista, desigual, racista e marcada por um profundo egoísmo histórico.

Os autores reunidos neste livro, para além de um balanço histórico dos avanços e recuos dos movimentos populares, se lançam à complexa tarefa de questionar as razões históricas – e portanto, suscetíveis de transformação – que ainda hoje condenam os povos latino-americanos a viver em Estados marcados por uma "sub-soberania", sujeitos a uma condição colonial, controlados por uma elite mesquinha e desprovida de qualquer projeto nacional. Para tal, os pesquisadores fazem uma "interpelação do Estado" na América Latina, de sua natureza e limitação, de seu caráter de classe, de sua incapacidade de deslocamento em direção aos grupos subalternos, populares, às grandes maiorias étnicas historicamente exploradas, às minorias de gênero e regionais.

O livro em questão é uma reflexão sobre a perda da inocência teórica, um passo em direção à superação das utopias e da maturidade política. Trata-se de sair do sonho e adentrar no mundo real: o que representa ganhar eleições hoje na América Latina? O que representa a liberdade de expressão? Qual a importância do jogo político parlamentar? Todas estas questões são colocadas, sem sectarismos, em dimensão teórica rigorosa, sem perder de vista a relevância da educação política, da organização autônoma das classes trabalhadores e do debate político corretamente fundamentado.

A "encruzilhada" atual da América Latina implica em caminhos múltiplos e simultâneos e no entendimento do poder sempre renovado e ampliado, que as elites usam constantemente para manter seu controle sobre a sociedade. Este livro, quiçá, represente um passo na retomada do debate americanista fundamental, que havia se perdido no Brasil, sobre a tragédia que se abateu sobre o nosso continente e as possibilidades de retomada da crítica e da ação pelos povos latino-americanos.

Francisco Carlos Teixeira da Silva, professor Titular de História Moderna e Contemporânea/UFRJ e professor Emérito da ECEME. Ganhador do Prêmio Jabuti 2014.
IdiomaPortuguês
Data de lançamento15 de dez. de 2020
ISBN9786587233246
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    América Latina na encruzilhada - Atilio Borón

    © Autonomia Literária, para a presente edição.

    Coordenação Editorial

    Cauê Ameni, Hugo Albuquerque e Manuela Beloni

    Tradução

    Roberto Santana Santos e María del Carmen Villarreal Villamar

    Revisão: Tarcila Lucena

    Diagramação: Manuela Beloni

    Capa: Rodrigo Corrêa/@sobinfluencia

    Conselho editorial

    Carlos Sávio Gomes (UFF-RJ), Edemilson Paraná (UFC/UNB), Esther

    Dweck (UFRJ), Jean Tible (USP), Leda Paulani (USP), Luiz Gonzaga de Mello Belluzzo (Unicamp-Facamp), Michel Lowy (CNRS, França) e Pedro Rossi (Unicamp).

    Autonomia Literária

    Rua Conselheiro Ramalho, 945

    CEP: 01325-001São Paulo - SP

    autonomialiteraria.com.br

    Traduzido por

    Roberto Santana Santos e

    María del Carmen Villarreal Villamar

    América Latina

    na encruzilhada

    Roberto Santana Santos
    João Claudio Platenik Pitillo
    María del Carmen Villarreal Villamar
    (Organizadores)
    2020
    Autonomia Literária

    Sumário

    Apresentação

    PARTE I: Panorama latino-americano no século XXI

    Sobre o pós-progressismo na América Latina: contribuições para o debate

    Sobre o Estado, o poder político e o Estado dependente

    Parte II: Progressismo e revolução: organização popular, novas constituições e luta anticapitalista

    Venezuela: breve história e análise da Revolução Bolivariana

    Bolívia há doze anos do processo de mudança: desafios, apostas e riscos

    A via equatoriana: luzes e sombras da Revolução Cidadã

    Cuba: a revolução buscando seu socialismo

    Parte III: Progressismo e reformismo: avanços sociais e limites estruturais

    Brasil: o fim da Nova República – Quebra do arranjo político, crise de representatividade e golpe de Estado no ocaso da república liberal brasileira

    Argentina e as lutas populares em uma perspectiva anticapitalista

    Uruguai: a continuidade do projeto do capital com legitimação social

    Paraguai: o golpe de estado de classe de 2012 e o governo entreguista antinacional

    Parte IV: nem progressismo, nem revolução: a resiliência do neoliberalismo na América Latina

    Os caminhos para uma nova esquerda chilena no século XXI: entre o neoliberalismo, os movimentos sociais e a nova institucionalidade

    Estado, luta de classes e novo contexto de paz na Colômbia

    Movimentos sociais e partidos políticos nas dinâmicas da esquerda peruana: uma leitura crítica em chave territorial

    México e seu momento: a história de um fracasso

    Este livro foi composto em Minion Pro e Paralucent

    Landmarks

    Capa

    Apresentação

    Roberto Santana Santos¹

    João Claudio Platenik Pitillo²

    María del Carmen Villarreal Villamar³

    A década de 2000 na América Latina foi marcada por um avanço de forças políticas de esquerda. O chamado giro à esquerda ou maré rosa na região incluiu as vitórias de vários partidos e coalizões tradicionalmente de esquerda ou autodenominadas de esquerda. Aos triunfos iniciais destes agrupamentos em países como Venezuela, Brasil, Argentina e Bolívia, somaram-se mais tarde Nicarágua, Paraguai, Equador e El Salvador, consolidando com isso um ciclo progressista sem precedentes na América Latina. Variando na intensidade de suas políticas e posicionamentos, a região foi palco de sucessivas vitórias eleitorais de (autodenominadas) forças progressistas que tentaram romper com as premissas centrais do Consenso de Washington e recuperar as capacidades estatais. Além do retorno do Estado e do horizonte pós-neoliberal que encarnaram, estes processos se caracterizaram também pela alta popularidade de suas lideranças, um crescimento econômico baseado no aprofundamento do capitalismo extrativista e na reprimarização exportadora, assim como em uma melhor divisão de renda, com políticas sociais e programas de combate à miséria. Novos atores políticos e até novas formas de fazer política surgiram a partir dessa conjuntura, com posicionamentos diversos, muitas vezes em contraposição ao conservadorismo e ao neoliberalismo.

    A década de 2010, no entanto, testemunhou uma gradual mudança de cenário. A crise econômica mundial, que se apresentou com mais força a partir de 2008, golpeia fortemente a América Latina, levando à queda dos índices econômicos e a perda de fôlego por parte das chamadas experiências progressistas. Várias forças políticas foram retiradas do poder, seja por derrotas eleitorais, seja por novas formas de golpes de Estado. Outras permanecem no poder, porém tendo que enfrentar cada vez mais uma direita (muitas vezes de contornos fascistas) que se rearticula e recebe apoio estrangeiro para regressar a região ao neoliberalismo ortodoxo. É sobre essa conjuntura de refluxo e de desafios para a esquerda latino-americana que esta obra pretende refletir.

    O trabalho coletivo que aqui apresentamos parte de olhares heterogêneos que evidenciam a pluralidade de visões de esquerda presentes na região e oferece contribuições que são de inteira responsabilidade de cada um dos autores e autoras. A partir de diversas perspectivas, os capítulos aqui reunidos visam fazer um balanço dos governos progressistas latino-americanos, suas diferenças, propostas e, principalmente, seus limites e contradições dentro de uma conjuntura desfavorável como a atual. O objetivo é oferecer um panorama latino-americano dos governos revolucionários, social-liberais ou até de forças políticas de esquerda que não chegaram ao governo. Paralelamente, os capítulos que compõem esta obra apresentam os caminhos possíveis para as forças populares da região, tanto em países que resistem à onda conservadora, quanto naqueles onde as forças populares foram momentaneamente derrotadas, ou até mesmo naqueles em que a esquerda sequer chegou ao governo.

    O livro está dividido em quatro partes. A primeira parte, Panorama latino-americano no século XXI, oferece uma visão geral dos governos progressistas e está formada por dois capítulos. No primeiro capítulo Sobre o ‘pós-progressismo’ na América Latina: contribuições para o debate, Atilio Borón e Paula Klachko reconhecem a importância da crítica e da necessária autocrítica que deve ser feita pelos governos de esquerda da região, mas defendem o legado destes acerca das conquistas materiais, culturais, políticas e de direitos humanos alcançadas, assim como os avanços em relação aos processos de integração regional e de autonomia dentro do sistema capitalista. Desta forma, segundo os autores, os acertos dos processos progressistas, vistos em perspectiva histórica, superam seus desacertos e limitações.

    O capítulo 2, Sobre o Estado, o poder político e o Estado dependente, é de autoria de Jaime Osorio e nele são analisados alguns pontos fundamentais da relação existente entre Estado, poder político e revolução. Para tanto, o autor considera o Estado capitalista como a condensação das relações de poder político e de domínio, destacando, porém, as particularidades do Estado dependente que caracteriza os países latino-americanos e as limitações que isto implica na procura de horizontes emancipadores.

    A segunda parte do livro, Progressismo e revolução: organização popular, novas constituições e luta anticapitalista, está formada por diversos capítulos que analisam as experiências de Venezuela, Bolívia, Equador e Cuba. No capítulo 3, Venezuela: breve história e análise da Revolução Bolivariana, Roberto Santana Santos oferece uma síntese da história da Revolução Bolivariana e realiza uma avaliação deste processo dirigido por Hugo Chávez, analisando as características desta experiência, suas políticas, formas de organização popular, contradições e atuais desafios.

    O capítulo 4, Bolívia, há doze anos do processo de mudança: desafios, apostas e riscos, é de autoria de Rebeca Peralta Mariñelarena e nele é estudada a experiência do processo de mudança boliviano, fazendo um balanço do governo de Evo Morales desde 2006 com o objetivo de identificar quanto se avançou na concretização do programa do Movimiento al Socialismo-Instrumento Político por la Soberanía de los Pueblos, MAS-IPSP, e do sujeito indígena popular. O capítulo discute também a atual conjuntura política boliviana, ao passo que reflete sobre os desafios e as alternativas possíveis das forças populares na Bolívia.

    No capítulo 5, A via equatoriana: luzes e sombras da Revolução Cidadã, María del Carmen Villarreal Villamar analisa a experiência de governo do movimento Alianza País com o propósito de destacar as esperanças que este processo alimentou desde sua vitória em 2006 e seus principais acertos, especialmente no que diz respeito à promoção de um projeto de desenvolvimento autônomo e a criação de políticas sociais para reduzir a pobreza e a desigualdade no Equador. Ao mesmo tempo, são também examinados os limites e alguns dos principais paradoxos do projeto da Revolução Cidadã.

    No capítulo 6, Cuba: a revolução buscando seu socialismo, Luiz Eduardo Mergulhão Ruas considera a Revolução Cubana como um dos acontecimentos fundamentais do século XX, tanto pelas suas implicações internas quanto pelo impacto internacional que esta tem alcançado. O autor examina o processo cubano em perspectiva histórica, destacando suas contradições, limites e desafios, especialmente após a aprovação dos Lineamientos Diretrizes da Política Econômica e Social do Partido e da Revolução de 2010.

    A terceira parte do livro, Progressismo e reformismo: avanços sociais e limites estruturais, está dedicada à análise das experiências de Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai. No capítulo 7, Brasil: o fim da Nova República – quebra do arranjo político, crise de representatividade e golpe de Estado no ocaso da República liberal brasileira, Roberto Santana e João Cláudio Platenik analisam o sistema político brasileiro e o ocaso da Nova República. Para os autores, o golpe – disfarçado de impeachment – que determinou o fim da presidência de Dilma Rousseff marcou o fim da legalidade e a ruptura com a ordem política anterior que constituía um regime da classe dominante. Para eles, o arranjo pós-ditadura chegou ao seu fim, menos por sua superação do que pela crise de representatividade e pelo esvaziamento de seu conteúdo e sentido, deixando de conter as contradições da sociedade brasileira e suas forças políticas.

    No capítulo 8, Argentina e as lutas populares numa perspectiva capitalista, Júlio Gambina analisa a experiência argentina a partir da ofensiva neoliberal imposta pela ditadura em 1976 até a crise de 2001, a posterior chegada dos governos kirchneristas e o aparente fim de ciclo com a vitória de Mauricio Macri. O caso argentino, caracterizado pela ampla presença de heterogêneos movimentos, coletivos e reivindicações (a favor dos direitos humanos, de luta pela terra, pela justiça, pelo trabalho e etc.), é estudado à luz das tendências do capitalismo contemporâneo e sua crise, que se verifica no meio de processos de luta e resistência dos povos para recriar condições na disputa anticapitalista pelo socialismo.

    No capítulo 9, Uruguai: a continuidade do projeto do capital com legitimação social, Antonio Elías estuda as especificidades e pontos de força da Frente Ampla uruguaia em relação às outras experiências progressistas da região, ao passo que analisa os desafios e limites contemporâneos desta experiência tanto em termos nacionais quanto globais. No capítulo, são também abordadas algumas das tarefas que enfrentam os trabalhadores organizados e a esquerda uruguaia dentro e fora da Frente Ampla em relação às pressões das forças neoliberais a favor do capital transnacional.

    No capítulo 10, Paraguai: o golpe de Estado de classe de 2012 e o governo entreguista antinacional, Cecilia Vuyk examina o caso paraguaio a partir de três elementos: as características da vitória popular e o governo de Fernando Lugo, os interesses nacionais e estrangeiros que levaram ao golpe de 2012 e as bases do governo liderado por Horacio Cartes e aprofundadas por Mario Abdo Benítez. A partir da análise destes três processos, o capítulo considera os desafios da classe trabalhadora paraguaia na conquista de um projeto de desenvolvimento nacional, soberano e independente.

    Na quarta parte desta obra coletiva, Nem progressismo, nem revolução: a resiliência do neoliberalismo na América Latina, são analisadas as experiências de Chile, Colômbia, Peru e México. No capítulo 11, Os caminhos para uma ‘nova esquerda’ chilena do século XXI: entre o neoliberalismo, os movimentos sociais e a nova institucionalidade, Matías Ortíz Figueroa, a partir de um olhar histórico, analisa a experiência da esquerda chilena que, no contexto do protagonismo de movimentos sociais e lutas contra o neoliberalismo, tem permitido a emergência da Frente Ampla. Entendida como uma nova esquerda, considera-se que a Frente Ampla vincula o social e o político contra a velha ordem e, neste sentido, tem o potencial de refundar a tradição de luta e emancipação em prol de soberanias populares e democracias radicais que a ditadura militar de Augusto Pinochet tentou apagar.

    No capítulo 12, Estado, luta de classes e novo contexto de paz na Colômbia, Sergio Quintero Londoño examina a experiência colombiana, considerando o capitalismo periférico e o caráter repressor que distingue historicamente o Estado colombiano. No contexto da assinatura dos Acordos de Paz de Havana, o autor evidencia que este processo oferece amplas possibilidades de transformação capazes de fortalecer as alternativas contra-hegemônicas ao capitalismo e ao predomínio das forças conservadoras em prol da construção da emancipação humana.

    No capítulo 13, Movimentos sociais e partidos políticos nas dinâmicas da esquerda peruana: uma leitura crítica em chave territorial, Ricardo Jiménez Palacios aborda a experiência peruana no marco da teoria das ondas de integração. A este respeito, o autor estuda a institucionalização do neoliberalismo no Peru desde a ditadura de Alberto Fujimori até os recentes avanços e contradições da esquerda nacional, considerando que os diversos processos de mobilização e seu correlato nos processos eleitorais estabelecem uma dicotomia territorial entre o centro, constituído pela capital limenha, e os territórios periféricos, com particular ênfase no Sul do país.

    No capítulo 14, México e ‘seu momento’: a história de um fracasso, Antonio Palazuelos Manso examina a experiência mexicana sob um olhar crítico, argumentando que o país constitui um exemplo emblemático de ortodoxia neoliberal e uma estratégia de desenvolvimento fracassada, tanto a partir do ponto de vista econômico, como político e social. No capítulo, são analisados também o otimismo e as esperanças suscitadas pela chegada à Presidência da República de Andrés Manuel López Obrador, assim como algumas das principais contradições que emergem das decisões de seu governo.

    A partir de múltiplas perspectivas de esquerda, desejamos que a leitura deste livro permita refletir criticamente sobre os processos de transformação econômica, política e social que aconteceram na América Latina desde princípios do século XXI. Em um momento crucial para o nosso continente, queremos contribuir para analisar as opções oferecidas pelos projetos progressistas em prol da construção de sociedades que possam combater a dominação dos mercados e priorizem a justiça social, os direitos e o desenvolvimento das pessoas.


    ¹ Doutor em Políticas Públicas e mestre em História Política pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Secretário-executivo da Rede de Economia Global e Desenvolvimento Sustentável da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (REGGEN-Unesco). Contato: robertossrj@gmail.com.

    ² Doutorando em História Social pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio). Mestre em História Comparada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Contato: jcpitillo@hotmail.com.

    ³ Doutora em Ciência Política pela Universidade Complutense de Madrid. Professora Permanente e Pós-doutoranda Nota 10 da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj) no Programa de Pós-graduação em Ciência Política (PPGC) da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio). Pesquisadora do Grupo de Relações Internacionais e Sul Global (Grisul) e da Plataforma Latitude Sul. Contato: mariavillarreal85@gmail.com.

    PARTE I: Panorama latino-americano no século XXI

    Sobre o pós-progressismo na América Latina: contribuições para o debate

    Atilio A. Borón e Paula Klachko

    Nos últimos dias, chegou às nossas mãos um artigo de Massimo Modonesi e Maristella Svampa no qual propõem pensar o pós-progressismo na América Latina.⁶ Segundo estes autores, a tarefa tem se tornado urgente e imperativa à luz da súbita aceleração do fim do ciclo que vem acontecendo desde 2015. Sintomas claros deste caso seriam a impossibilidade de dois dos principais líderes desta nova etapa serem reeleitos como presidentes (Evo Morales, na Bolívia, e Rafael Correa, no Equador), a derrota do oficialismo kirchnerista na Argentina para uma heteróclita coalizão de direita, enquanto no Brasil Dilma Rousseff foi tirada de seu cargo – de forma legal, mas ilegitimamente, segundo estes autores⁷ –, e o cerco a Nicolás Maduro por uma Assembleia Nacional controlada pela oposição, somado ao desgaste de seu governo graças à grave crise econômica – cuja gênesis deveria ser explicada aos leitores, coisa que os autores não fazem.

    Chama muito a atenção que, ao analisar um tema como este, se passe por alto, como se fosse um detalhe sem importância, a vigência dos três governos dos países que conformam o núcleo duro da mudança de época progressista em nossa América – Venezuela, Bolívia e Equador –, governos que têm realizado profundas reformas sociais, econômicas e políticas e, além disso, têm planejado um horizonte pós-capitalista em longo prazo. Apesar de todos os obstáculos e dificuldades que atravessam – em boa medida atribuíveis ao permanente assédio do imperialismo –, essas coalizões de esquerda ainda mantêm os governos. O mesmo acontece nos casos de El Salvador e Nicarágua, razão pela qual é necessário um estudo mais minucioso desta problemática.

    A partir de sua caracterização inicial, os autores advertem sobre a necessidade de evitar cair na armadilha maniqueísta que obriga a optar entre a continuidade do progressismo ou a restauração neoliberal; armadilha que, segundo eles, oculta uma chantagem orientada a propiciar um artificial cerramento de fileiras por trás dos líderes e partidos do progressismo. Para evitar esta situação, Modonesi e Svampa propõem recuperar a história e o protagonismo dos movimentos sociais na gestação da fase progressista como chaves para desentranhar as características da nova etapa pós-progressista que começa, fora da camisa de força da política partidária, dos cronogramas eleitorais e das alternâncias governamentais.

    Os movimentos sociais e as expressões sociais

    e políticas da luta de classes

    Depois de dito o anterior, os autores começam afirmando o evidente: que o ciclo progressista, em ascensão desde meados dos anos 1990, teve como protagonista das lutas e resistências ao neoliberalismo um vasto conjunto de movimentos sociais. Isto é verdade, mas no seu desejo por sublinhar a importância deste elemento, com a qual coincidimos, subestimam o papel dos partidos políticos e das expressões da luta de classes no terreno da política institucional. É um erro minimizar a importância destas organizações tradicionais em contextos democráticos, sempre produtos da luta de massas ou fortemente modificados por ela. Em numerosos enfrentamentos sociais realizados nos anos 1990 e princípios dos 2000, sindicatos e organizações tradicionais dos diversos estratos e frações do povo (como os sindicatos cocaleiros na Bolívia, as organizações indígenas e camponesas no Equador, os sindicatos industriais ou de trabalhadores estatais no Brasil e na Argentina, entre muitas outras), e até setores das forças armadas (especialmente no caso da Venezuela), tiveram um papel muito relevante nessas lutas. Não todo o protagonismo foi sempre, e de maneira exclusiva, dos movimentos sociais.

    O inquestionável ativismo de diversas camadas populares mobilizadas e suas organizações – novas⁸ ou tradicionais – nas fases preliminares do ciclo progressista tem sido reconhecido e reafirmado permanentemente pelos líderes e pelas forças políticas dos governos progressistas, que, ao contrário do que afirmam nossos autores, não descrevem sua ascensão política como uma prístina conquista do palácio. Mesmo governos que se esforçaram por construir um relato épico sobre seu acesso ao poder – por exemplo, o kirchnerismo argentino – têm explicitamente reconhecido que seu sucesso eleitoral está baseado nas grandes jornadas de luta de finais do século XX e começo do XXI. Para não falar da permanente referência de Evo Morales e Álvaro García Linera às guerras da água e do gás, entre outras; ou às de Nicolás Maduro, e antes Hugo Chávez, ao caracazo e às insurreições de militares bolivarianos. Além disso, é evidente que estes desenlaces eleitorais que mudaram o mapa sociopolítico da América Latina são reflexos – mediatizados, mas reflexos ao fim – da turbulenta irrupção do universo plebeu na política nacional.

    A partir destas premissas, Modonesi e Svampa formulam a seguinte conclusão:

    [...] ainda com suas apostas defensivas, suas formas heterogêneas e suas práticas contraditórias, na América Latina, foram os movimentos populares que abriram novos horizontes a partir dos quais pensam-se a política e as relações sociais, instalando outros temas na agenda política: desde o reclamo frente à desapropriação dos direitos mais elementares e o questionamento às formas representativas vigentes, até a proposta de construção da autonomia como projeto político, a exigência de desconcentração e socialização do poder (político e econômico) e a ressignificação dos bens naturais.

    Não obstante, o protagonismo na luta dos movimentos sociais não foi igual em todos os contextos nacionais. Não foi o mesmo na Bolívia ou no Uruguai e na Venezuela, por exemplo. Que muitos dos temas mencionados acima foram impulsionados com força por esses movimentos também é verdade, mas nos parece que atribuir-lhes exclusividade como impulsores da crítica à ordem neoliberal vigente não é completamente correto. Em primeiro lugar, subestima-se o papel das organizações políticas, mesmo das criadas pelos movimentos sociais ou sindicais como instrumentos eleitorais. Todavia, a esta altura, já sabemos por experiência histórica que, se a arma da crítica não substitui a crítica das armas, aquela constitui um insumo indispensável na constituição de um novo clima de época. Neste sentido, nossos autores passam por alto pelo papel que numerosos intelectuais críticos tiveram no combate contra o neoliberalismo desde finais dos anos 1980, com antecedência – ou pelo menos paralelamente – à irrupção dos movimentos sociais, assim como pelo papel que muitos intelectuais e dirigentes orgânicos desempenharam na criação de renovadas organizações populares. Por exemplo: a crítica à decidadanização provocada pelas políticas neoliberais e as insanáveis deficiências da democracia liberal eram parte do discurso contra-hegemônico que o marxismo – o latino-americano, mas também em certos países da Europa e nos Estados Unidos – vinha colocando com força desde aqueles anos. O tema da desconcentração e da socialização do poder, econômico e político, foi cultivado com esforço pelas e pelos pensadores críticos da América Latina, ao passo que estes deviam enfrentar aqueles que, ainda aduzindo a um discurso de suposta esquerda, somavam-se ao coro de vozes que exaltavam o advento de uma democracia política supostamente depurada de seus conteúdos classistas, proclamavam o fim da história, celebravam as visões burguesas de um presuntuoso pós-capitalismo, ou a irresistível ascensão de uma pós-modernidade que teria posto fim à luta de classes e eliminado do horizonte histórico as perspectivas do socialismo. Tudo isto de forma alguma equivale a menosprezar a essencial e protagonista contribuição dos movimentos sociais na produção destes acontecimentos históricos, mas serve apenas para lembrar que sua situação estava muito longe de ser a de Adão no primeiro dia da criação do mundo.

    Retomando o fio de nossa argumentação, Modonesi e Svampa acertam quando asseguram que os movimentos sociais deram vida a uma pluralidade organizativa e temática poucas vezes vista. Isto aconteceu em um contexto ideológico em que o repúdio aos partidos políticos e aos sindicatos, sobretudo aos primeiros, e a prédica a favor de uma renúncia à tomada do poder marcavam com força o espírito da época. Tal como afirmam nossos autores, estes movimentos estabeleceram complexas e voláteis relações com os governos progressistas, mesmo no caso daqueles, como na Bolívia, que tinham surgido de seu avassalador protagonismo. Três teriam sido os eixos dessa mudança de época: a irrupção popular, as demandas de autonomia e a defensa da terra e do território. Curiosamente, componentes cruciais dessa época – ainda inconclusa –, como o anti-imperialismo, o latino-americanismo, a soberania nacional, a recuperação dos bens comuns e as políticas de combate à pobreza e redistribuição da riqueza, não parecem ter jogado nenhum papel para Modonesi e Svampa, apesar de terem sido estes e não as exigências de autonomia popular que desencadearam a furiosa reação das oligarquias locais e o imperialismo.

    As resistências aos estragos do neoliberalismo permitiram a emergência de novas lideranças e formações políticas entre os distintos estratos populares, que vinham protagonizando intensas lutas nos terrenos econômico e político, inclusive no militar, como nos casos do Partido dos Trabalhadores (PT) brasileiro, o chavismo, a Frente Ampla (FA) do Uruguai, o Movimento ao Socialismo (MAS) boliviano, Alianza País no Equador, ou o reforço do protagonismo de organizações revolucionárias como a Frente Sandinista para la Liberación Nacional na Nicarágua (FSLN) e a Frente Farabundo Martí para la Liberación Nacional (FMLN) em El Salvador. Na Argentina, a oposição às consequências das políticas neoliberais, primeiro, e ao neoliberalismo no seu conjunto depois, expressou-se em um crescente movimento de protesto em nível nacional, marcado por impactantes enfrentamentos sociais protagonizados por diversas frações popular e mediante variados instrumentos de luta (fechamento de estradas, marchas, greves e etc.) dos quais brotaram novas organizações sociais, em um marco de fortes disputas no interior da classe dominante. Não obstante, posteriormente, foi uma combinação de distintas forças políticas tradicionais que chegou ao governo recolhendo essas demandas, e a partir daí se colocaram em discussão algumas das premissas do neoliberalismo. Essa é a história do kirchnerismo, surgido do interior do Partido Justicialista e enfrentando a linha neoliberal dura do mesmo partido: o menemismo. Também em outros países surgiram expressões divergentes dentro dos partidos tradicionais, ou se formaram alianças com setores desses partidos políticos que expressaram oposição às políticas neoliberais e chegaram aos governos, como é o caso da curta experiência da presidência de Manuel Mel Zelaya do Partido Liberal em Honduras e da Frente Guasú no Paraguai, que estabeleceu alianças com o Partido Liberal.

    Desta forma, não escutando uma perniciosa moda intelectual que percorreu o continente de ponta a ponta há alguns anos e que exortava a não tomar o poder, porque tal coisa contaminaria irremissivelmente com o vírus estadista os movimentos sociais e seus projetos emancipatórios, numerosas organizações sociais e forças políticas começaram a desenhar instrumentos, alianças e estratégias tendentes, precisamente, a conquistar o poder – ou pelo menos o governo –, apelando aos dispositivos institucionais do Estado burguês. Esta opção e o convencimento de que a derrota sofrida pelas tentativas insurrecionais das décadas anteriores, com exceção do ocorrido na Nicarágua e em El Salvador, teriam fechado esse ciclo (pelo menos no momento), e o único caminho aberto naquele momento até o poder transitava pelo emaranhado institucional da democracia capitalista.¹⁰

    Modonesi e Svampa estão certos quando afirmam que nas suas versões extremas, este raciocínio desafiou o pensamento de esquerda mais ancorado nas visões clássicas sobre o poder. Porém, erram quando ignoram que este desafio foi, mais que nada, a suicida negação da problemática do poder, e não a criação de uma nova concepção deste, de sua composição e, seguindo Maquiavel, de qualquer elaboração encaminhada para responder às cruciais perguntas de como se conquista, como se mantém e como se pode perder o poder. Em outras pal