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Gestão De Metas E Serviço Público

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Gestão De Metas E Serviço Público

Duração:
153 páginas
1 hora
Lançados:
9 de mai. de 2022
Formato:
Livro

Descrição

Este é um livro de ensaios sobre a nova precariedade salarial, o novo modo de explorar a força de trabalho na era do capitalismo global. Muitas pessoas falam em “uberização” do trabalho. Mas a “uberização” (ou plataformização) do trabalho é apenas a forma tecnológica mais avançada da nova precariedade salarial com impactos não apenas nas organizaçõ
Lançados:
9 de mai. de 2022
Formato:
Livro

Sobre o autor


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Gestão De Metas E Serviço Público - Giovanni Alves

Apresentação

Este é um livro de ensaios sobre a nova precariedade salarial, o novo modo de explorar a força de trabalho na era do capitalismo global. Muitas pessoas falam em uberização do trabalho. Mas a uberização (ou plataformização) do trabalho é apenas a forma tecnológica mais avançada da nova precariedade salarial com impactos não apenas nas organizações privadas e públicas, mas no mercado de trabalho. Como modo de exploração do capital, a nova precariedade salarial diz respeito à organização privada ou organização pública. Ela atinge empresas privadas e a administração pública. É o Estado neoliberal que opera a instituição da nova precariedade salarial na administração pública. Por exemplo, a gestão de metas é um elemento da nova precariedade salarial. É apenas a ponta saliente do iceberg. No caso das organizações públicas, a nova precariedade salarial tende a degradar o trabalho público e os serviços oferecidos aos cidadãos. Foi a partir da década de 1990 que o Estado neoliberal no Brasil instalou a nova precariedade salarial sob o título de Reforma do Estado (modernização da administração pública e choque de gestão). Há trinta anos a nova precariedade salarial avança no Brasil.

No capítulo 1 fizemos uma abordagem teórica da problemática da nova precariedade salarial no Brasil. A teoria é muito importante para esclarecer a reflexão crítica que pretende ir além dos dados imediatos. Além do estudo teórico, o livro reúne resultados de pesquisa que abordam a precarização do trabalho público no Judiciário brasileiro. O trabalho no Judiciário brasileiro expõe as múltiplas formas de ofensiva do capital no trabalho público no Brasil nas condições históricas do Estado neoliberal. A lógica da gestão toyotista se disseminou por vários locais da administração pública brasileira. Não se trata de um problema localizado num setor (ou categoria) da administração pública brasileira, mas de um movimento de reestruturação tecnológico-organizacional amplo que impregna a totalidade do serviço público no Brasil. Elaboramos neste livro, a crítica da gestão de metas de produtividade e desempenho. A adoção de metas não é um mal por si só, pois pode-se utilizá-las a partir, por exemplo, de outra lógica de controle social do trabalho público. Mas a forma produtivista de adoção de gestão de metas é espúria, pois degrada o trabalho público por meio da desprofissionalização. É importante ver a gestão de metas como sendo um elemento compositivo da nova precariedade salarial. 

No caso das organizações privadas, a nova precariedade salarial significando o aumento da taxa de exploração visando recompor a taxa de lucro das corporações industriais. O capitalismo global se desenvolveu historicamente como sendo expressão da crise capitalista, caraterizada pela queda tendencial da taxa de lucro. Mas no caso das organizações públicas, locis do trabalho improdutivo exterior à produção do capital, não se trata de aumentar a taxa de exploração da força de trabalho produtiva. A adoção da nova precariedade salarial visa degradar o trabalho dos servidores públicos para que se reduza o gasto público do Estado com funcionários públicos.

O Estado neoliberal é o Estado capitalista capturado pela lógica do capital financeiro. O orçamento púbico está blindado pelos interesses dos investidores do mercado financeiro. Eles querem o orçamento apenas para garantir o pagamento de dividendos da dívida pública. Eles espoliaram o Estado alienando-o dos interesses dos cidadãos. O cerne do neoliberalismo é degradar o serviço público visando abrir espaço para os interesses da valorização privada do capital. Por isso, o Estado neoliberal reproduz na organização pública, a lógica gerencialista oriunda das organizações privadas capitalistas. Ao serem utilizadas na produção do serviço público, a lógica gerencialista perverte o sentido do trabalho público enquanto trabalho que permite – por exemplo, no caso da saúde, educação, previdência social, justiça - o acesso dos cidadãos a seus direitos sociais. Ao degradar a qualidade do serviço pública, a lógica gerencialista do capital faz adoecer o trabalhador e a trabalhadora da organização pública.

A ofensiva neoliberal dos governos Michel Temer (2016-2018) e Jair Bolsonaro (2019-...); e a disrupção da pandemia no Brasil a partir de 2020, colocaram novas determinações da miséria do trabalho público no Brasil. Por exemplo, no capítulo 3 discutimos os vários elementos de precarização do trabalho público, tratando com destaque, do teletrabalho (home-office) na administração pública. Utilizamos como exemplo, a pesquisa feita com psicólogos e assistentes sociais do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo. A degradação do trabalho público implica um complexo de problemas que articula organização do trabalho e inovações tecnológicas. Trata-se de um conjunto (todo concreto) de determinações de ordem organizacional-tecnológica sob o espírito do toyotismo, que degradam o trabalho público no Brasil (para entender o que é o espírito do toyotismo, indico meu livro Trabalho e Subjetividade: o espírito do toyotismo na era do capitalismo manipulatório (Boitempo editorial, 2011). 

Mas não se trata de mera questão técnica da administração pública, mas sim, de uma questão política:  a disseminação da nova lógica gerencialista e produtivista na administração pública no Brasil diz respeito à vigência do Estado neoliberal no Brasil. Mesmo durante a era neodesenvolvimentista, de 2003-2014 com os governos de Luís Inácio Lula da Silva (PT) e Dilma Rousseff  (PT), o Estado brasileiro se modernizou, adotando o choque de gestão inspirado na lógica toyotista. Os governos do PT não fizeram a disputa ideológica da gestão – pelo contrário, reforçaram os elementos da nova precariedade salarial. A modernização do judiciário brasileiro é o exemplo-mor que utilizaremos aqui para demonstrar isso.

Reafirmamos: não se trata de questão da técnica de gestão. A modernização do Estado brasileira é uma questão política. A esquerda social-liberal desprezou a disputa ideológica e política para mudar o Estado brasileiro historicamente de conteúdo oligárquico-patrimonialista. O movimento sindical  dos servidores públicos de qualquer instância (União, estados e municípios) teve, do mesmo modo, imensa dificuldade de fazer a discussão política da gestão pública. No final, incorporaram o discurso dominante. A ideologia gerencialista despolitiza o debate, tornando-o questão técnica e não questão de política de classe. A esquerda sindical e política não fez o debate ideológico da gestão pública.

Enfim, a gestão de metas no serviço público expõe apenas o caráter do Estado oligárquico-burguês brasileiro, afirmado desde 1990 – pelo menos - como Estado neoliberal.  Mesmo a Constituição de 1988 não democratizou a organização pública do Estado brasileiro. A gestão pública do Estado é uma caixa-preta. Não se discute forma de gestão, mas apenas salários, cargos e carreira. A modernização neoliberal apenas reproduziu aquilo que caracteriza a miséria brasileira (ALVES, 2021) como sendo uma modernização conservadora.

Interpretamos o golpe de 2016 como sendo a vingança das elites brasileiras contra a política redistributivista dos governos do PT. Na medida em que os governos do projeto neodesenvolvimentista do PT não ousaram reformar o Estado brasileiro dando-lhe um conteúdo público no que diz respeito à organização do trabalho, mas, pelo contrário, importaram pacotes de gestão com a ótica privatista, apenas reforçaram o Estado neoliberal no Brasil. Com o acirramento da luta de classe devido a crise capitalista a partir de 2008, o Estado neoliberal no Brasil cuspiu o governo petista reeleito em 2014. A elite brasileira não queria mais um governo petista administrando a ordem caduca do capitalismo brasileiro.

A classe dominante brasileira articulou o golpe de 2016 para aprofundar reformas neoliberais e blindar o orçamento público no interesse do capital financeiro. Esta foi a função da EMENDA CONSTITUCIONAL Nº 95, DE 15 DE DEZEMBRO DE 2016, que contém em si, um nítido caráter de degradar os serviços públicos alienando direitos sociais, além de aprofundar a precarização do trabalho público. A situação de pandemia em 2020 aprofundou mais ainda, o que estava posto nas políticas neoliberais dos governos Michel Temer e Jair Bolsonaro. A Reforma Trabalhista (de 2017) e a Reforma da Previdência (de 2019), tiveram a mesma função: degradar o trabalho no Brasil. A Reforma Administrativa do governo Bolsonaro, caso seja aprovada, vai aprofundar o caráter neoliberal do Estado brasileiro, inimigo do serviço público com qualidade; e máquina de adoecer servidores públicos. Tempos difíceis devem vir tendo em vista a hegemonia liberal no Brasil. Mas, conhecer de forma crítica, o que está ocorrendo pode contribuir para preservarmos a lucidez diante da barbárie social; e contribuir par uma ação política estratégica que impeço a demolição por completo, do Estado social no Brasil.

Este pequeno livro é uma colaboração ao debate de idéias que explicam as formas de degradação do trabalho público no Brasil. Não temos o objetivo de fechar questão. O conjunto de ensaios que compõem os capítulos do livro foram elaborados no calor da ofensiva neoliberal a partir de 2016 e da pandemia de 2020. Mais do que nunca, é preciso elaborar pesquisas para subsidiar a ação sindical e política em defesa do trabalho público. Não se transforma uma realidade social sem conhece-la a partir do mundo do trabalho. É importante investigar – fazer pesquisas empíricas - como a precarização do trabalho público se manifesta em cada particularidade da complexa máquina estatal brasileira, principalmente nos setores da saúde, educação, previdência social, justiça e segurança pública, etc; abordando não apenas o trabalho das camadas técnico-administrativas, mas de profissionais que operam o trabalho público no Brasil.

Capítulo 1

A Nova Precariedade Salarial

Explorar a si mesmo é mais eficaz do que ser explorado por outras pessoas, porque carrega a sensação de liberdade

BYUNG CHUL-HAN

A precarização do trabalho no século XXI adquiriu dimensões qualitativamente nova com a constituição daquilo que denominamos nova precariedade salarial a forma da exploração da força de trabalho por meio do dito trabalho flexível. A partir da década de 2010, o trabalho flexível ganhou novas configurações com o capitalismo de plataformas. A nova precariedade salarial alterou o modo de organização do trabalho, não apenas nas organizações privadas, mas nas organizações públicas. Estado e capital fazem parte do mesmo sistema de controle estranhado do trabalho vivo. Por exemplo, a partir de 1990, com as Reformas do Estado e a flexibilização do direito trabalhista feitas não apenas nos governos Collor e FHC, mas Lula e Dilma, o Estado neoliberal no Brasil foi adaptando a organização pública à

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