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PERNAMBUCO JARDIM DE BAOBAS

PERNAMBUCO JARDIM DE BAOBAS

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PERNAMBUCO JARDIM DE BAOBAS

Duração:
109 páginas
1 hora
Editora:
Lançados:
1 de set. de 2020
ISBN:
9786586249781
Formato:
Livro

Descrição

O livro traz um levantamento em fotos de Marcus Prado e textos de Antônio Campos sobre os baobás em Pernambuco.
Uma homenagem a vida e a natureza, com Foto da Capa de Marcus Prado a partir de uma pintura de Francisco Brennand.
Editora:
Lançados:
1 de set. de 2020
ISBN:
9786586249781
Formato:
Livro

Sobre o autor


Amostra do livro

PERNAMBUCO JARDIM DE BAOBAS - Antônio Campos

AUTORES

PALAVRAS INICIAIS

Na rua recifense que é minha residência mais permanente, no Poço da Panela, há um belo baobá intimamente ligado à paisagem tranquila e suburbana do bairro de Casa Forte, que, no passado, orgulhava-se do seu secular casario, hoje misturado aos edifícios de coberturas altíssimas, os novos invasores arquitetônicos do lugar. A árvore, também chamada de embondeiro, imbondeiro ou calabaceira, tem sido ligada à paisagem, para os meus olhos, como a cana sacarina é ligada ao caldo de mel. Como as nuvens aos ventos. Como as conchas do mar às areias da praia. Para falar a verdade, não consigo ver a rua onde moro sem esse baobá. Faz parte do meu íntimo belvedere.

Com ele tenho o prazer de me deparar, toda manhã, sempre que vou à varanda do meu apartamento. É um ornamento arbóreo que enche os olhos de alegria. Símbolo de uma tradição, de uma oralidade que não encontra em si qualquer limite, altamente perdurável e reincidente na evocação dos direitos ancestrais.

Mircea Eliade vai chamá-la de Árvore do Mundo, cuja função é a de elidir as diversas regiões do cosmo. No começo dos tempos, a primeira árvore plantada foi o baobá, depois nasceu o Iroco. Baobá foi a primeira de todas as árvores, mais antiga que o mogno, o pé de obi e o algodoeiro. Na mais velha das árvores de baobá, morava seu espírito. E o espírito arbóreo era capaz de muitas mágicas e magias. (…).

Pernambuco é um verdadeiro jardim de baobás, uma das manifestações genuinamente africanas, a árvore da vida e da esperança, como seria no tempo da escravidão negra, a árvore dos abraços. Atualmente, é a árvore-símbolo do município de Ipojuca, que, entre todos os municípios do Estado, é o que possui a maior quantidade desses gigantes arbóreos concentrada em um só local. No âmbito nacional, possuímos muito além da metade dos baobás catalogados no país inteiro.

Espécie nativa da África, os baobás chegam a viver cerca de três mil anos, mas há exemplares que ultrapassam os cinco mil. Desenvolve-se bem nas savanas e aclimatou-se no Brasil, sendo cultivado predominantemente no Nordeste, destacadamente em Pernambuco, mas há exemplares até mesmo em São Paulo e no Rio de Janeiro. É árvore de raiz central profunda e raízes laterais grossas. Os que completam cem anos atingem, apenas, uma auspiciosa promessa de vida pela frente. Além de grande beleza, fornecem alimento, água e matéria-prima para roupas, medicamentos, enfeites e doces.

Durante a quarta edição da Festa Literária Internacional de Pernambuco (Fliporto), em 2008, na praia de Porto de Galinhas - edição da qual fui presidente - cujo tema foi a África, fiz uma homenagem a essa espécie da flora africana, uma ação ecológica e cultural em memória daqueles muitos milhares de negros escravizados, trazidos para o Brasil, destacadamente para o Nordeste. O baobá era a árvore venerada pelos escravos, tal como a gameleira representa, simbolicamente, para os cultos de origem africana. Não toque com maldade no baobá, pois seria o mesmo que tocar na alma da gente negra da África continental.

Para Afonso D`Escragnole Tauney, nos seus Subsídios para a história do tráfico no Brasil Colonial seria impossível estabelecer uma cifra (…) com o cômputo do total de africanos arrebatados ao seu continente e violentamente transmigrados às terras americanas. Laurentino Gomes, na sua magistral obra Escravidão, uma das mais representativas nesse campo de investigação histórica, nos diz, baseado em estatística, que, em 1800, ou seja, há apenas dois séculos, havia, aproximadamente, 45 milhões de escravos em todo o mundo. Segundo ele, quase dois milhões de cativos morreram na travessia do Atlântico ao longo de três séculos e meio, entre 1776 e l830.

Esta é a navegação mais dolorosa que existe em todo o mundo - assim falava Diosio Carli, frade Capuchinho, citado por Laurentino Gomes.

Outra referência histórica de um tempo marcado pela dor e sofrimento, durante a escravidão negra, é-nos dada ainda pelo historiador Laurentino Gomes, ao citar palavras de outro capuchinho, Gilseppe Monnari, que partiu de Luanda rumo à Bahia, em maio de 1720, em um navio com 789 cativos.

É impossível descrever os choros, a confusão, o fedor, a quantidade de piolhos que devoravam aqueles pobres negros. Naquele barco havia um pedaço do inferno.

Chego a pensar, ficando um pouco em silêncio, que não se escreve essa história, tratada com os devidos detalhes, sem dizer que, nesse ambiente de tantas crueldades, havia entre eles, em segredo, trazidas secretamente, porções de sementes de baobás, a árvore da esperança.

O Brasil não é apenas o ocidente, é também a áfrica e o oriente.

Lina Bo Bardi

Na sétima edição da Fliporto, de 11 a 15 de novembro de 2011, em Olinda, lançamos um movimento cultural que resultou no projeto Pernambuco, Jardim de Baobás, do qual nasceu a ideia deste livro. Uma exposição de fotos sobre os nossos mais de 130 baobás, do jornalista e fotógrafo Marcus Prado, esteve aberta, durante dois anos, na Casa Fliporto, em Olinda, além de um mapeamento dos exemplares encontrados no Estado, com o intuito de estimular a preservação da espécie e homenagear a árvore como reconhecimento de sua importância histórica a partir das primeiras levas de escravos negros trazidos na mais humilhante e sofredora condição,

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