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Humilhados e ofendidos

Humilhados e ofendidos

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Humilhados e ofendidos

Comprimento:
508 página
8 horas
Lançado em:
May 5, 2021
ISBN:
9786586189254
Formato:
Livro

Descrição

Colocado pela crítica entre os romances mais notáveis de Dostoiévski, "Humilhados e Ofendidos" é um retrato contundente e profundo da vida nas grandes cidades. Escrito para ser publicado em jornal, sua narrativa ágil atrai o leitor do começo ao fim, envolvendo-o em uma atmosfera de grande tensão psicológica. A história, que tem como principais personagens uma família empobrecida, um príncipe e um escritor, mostra como a fortuna e o poder, aliados à argúcia, podem dominar completamente as relações humanas. O amor entre o jovem Aliocha, filho de um nobre, e Natacha não deve se consumar. A menos que os interesses egoístas de seu pai possam ser alcançados. Mas o passado traz a esse cenário uma lembrança terrível na figura de uma órfã, maltratada por sua patroa e obrigada a submeter-se a todo tipo de humilhação. Fiódor Dostoiévski notabilizou-se pela incrível capacidade de desnudar os mais profundos pensamentos humanos, dando a obras como "Crime e castigo" e "Irmãos Karamázov" a condição de obras-primas de criação literária e precursoras dos personagens e narradores intimistas, como os de Saramago. Esta brilhante tradução de Klara Gourianova – que também assina as versões, diretas do russa, a Aldeia de Stiepântchikov e seus habitantes, ambas igualmente publicadas pela Nova Alexandria – possibilita ao leitor brasileiro o contato renovado com uma obra fundamental e de leitura inesgotável, situada entre as mais importantes que o gênio de Dostoiévski concebeu.
Lançado em:
May 5, 2021
ISBN:
9786586189254
Formato:
Livro

Sobre o autor


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Amostra do Livro

Humilhados e ofendidos - Fiódor Dostoiévski

Russa

Sumário

PRIMEIRA PARTE

Capítulo I

Capítulo II

Capítulo III

Capítulo IV

Capítulo V

Capítulo VI

Capítulo VII

Capítulo VIII

Capítulo IX

Capítulo X

Capítulo XI

Capítulo XII

Capítulo XIII

Capítulo XIV

Capítulo XV

SEGUNDA PARTE

Capítulo I

Capítulo II

Capítulo III

Capítulo IV

Capítulo V

Capítulo VI

Capítulo VII

Capítulo VIII

Capítulo IX

Capítulo X

Capítulo XI

TERCEIRA PARTE

Capítulo I

Capítulo II

Capítulo III

Capítulo IV

Capítulo V

Capítulo VI

Capítulo VII

Capítulo VIII

Capítulo IX

Capítulo X

QUARTA PARTE

Capítulo I

Capítulo II

Capítulo III

Capítulo IV

Capítulo V

Capítulo VI

Capítulo VII

Capítulo VIII

Capítulo IX

EPÍLOGO

As últimas recordações

PRIMEIRA

parte

Capítulo

I

No ano passado, na noite do dia vinte e dois de março, aconteceu algo estra­nhíssimo comigo. Naquele dia, andei pela cidade procurando mora­dia para alugar. A antiga era muito úmida e eu, naquela época, já tinha uma tosse ruim. Queria me mudar ainda no outono, mas protelei até a primavera. Durante o dia inteiro não consegui achar nada decente. Que­ria, em primeiro lugar, um apartamento isolado, não sublocado; em segun­do, mesmo que fosse só de um quarto, mas grande, e ainda, é claro, o mais barato possível. Reparei que, num recinto apertado, até os pensamentos sentem-se apertados. Quando eu refletia sobre meus futuros romances, sempre gostava de andar pelo quarto, de um lado para o outro. Aliás, para mim, sempre foi mais agradável pensar em minhas obras e sonhar sobre como eu as escreveria, do que escrevê-las de fato e, palavra, não era por preguiça. Mas, então, por que seria?

Desde manhã eu não estava bem e, ao cair do sol, sentia-me muito pior: parecia ser o começo de uma febre. Além disso, ficara o dia inteiro de pé e estava cansado. Ao anoitecer, pouco antes do crepúsculo, estava passando pela avenida Voznessénski. Gosto do sol de março em Petersburgo, especialmente do pôr do sol num dia claro e gelado. A rua toda brilha de repente, inundada de luz forte, e os prédios começam a cintilar. Suas cores — cinza, amarelo e um verde sujo — perdem por um instante o ar lúgubre; parece que até a alma clareia, como se estremecêssemos ou alguém nos desse uma cotovelada. Nova visão, novas ideias... É surpreendente o que um raio de sol pode fazer com a alma humana!

Mas o raio de sol apagou-se, o frio aumentou e começou a picar o nariz; lanternas a gás acenderam-se nas lojas e vendas. Passando em frente da confeitaria de Miller, parei de chofre e olhei para o outro lado da rua, como se pressentisse que algo extraordinário fosse acontecer; e naquele exato momento vi, no lado oposto, um velho com um cachorro. Lembro-me muito bem de um aperto no coração por causa de uma sensação muito desagradável; eu mesmo não conseguia definir que tipo de sensação era.

Não sou místico, não acredito em pressentimentos, nem na adivinhação; porém, na minha vida, como talvez na vida de todo mundo, houve casos quase inexplicáveis. Esse velho, por exemplo: por que, naquele encontro com ele, senti que na mesma noite aconteceria comigo algo incomum? Aliás, eu me sentia mal e as sensações doentias quase sempre são falsas.

O velho, a passo lento e fraco, movendo-se sem dobrar os joelhos, como se tivesse pernas de pau, encurvando-se e batendo de leve nas lajes da calçada com a bengala, aproximava-se da confeitaria. Em toda minha vida não tinha visto uma figura tão estranha, tão absurda. Mesmo antes desse encontro, quando nos cruzávamos na loja de Miller, ele me causava uma impressão mór­bida. A estatura grande, as costas arqueadas, o rosto cadavérico de um octoge­nário, o casaco velho rasgado nas costuras, o chapéu de vinte anos, redondo e deformado, que cobria sua calvície, deixando à vista apenas um tufo de cabe­los não brancos, mas branco-amarelados, bem na nuca; os movi­mentos dispa­ratados, como se produzidos por uma mola — tudo isso não podia, natural­mente, deixar de chocar quem o encontrasse pela primeira vez. Era mesmo um tanto estranho ver um velho no fim da vida sozinho, sem cui­dados de nin­guém, tanto mais porque parecia um demente que fugira dos enfermeiros. Impres­sio­nava-me também sua extraordinária magreza: quase não tinha carne, a pele parecia estar colada diretamente nos ossos. Os olhos grandes, mas turvos, com círculos azuis em volta, sempre olhavam para a frente, nunca para o lado e nunca viam nada, tenho certeza disso. Mesmo que olhasse para alguém, ele cami­nhava ao seu encontro como se diante dele houvesse um espaço vazio. Reparei nisso várias vezes. Havia pouco tempo que ele começara a aparecer na loja de Miller, não se sabe de onde e sempre com o cachorro. Nenhum dos fregueses de Miller atrevia-se a conversar com ele, ele tampouco se dirigia a alguém.

Para que ele vem à loja de Miller, o que tem a fazer nela?, pensava eu do outro lado da rua, sem conseguir tirar os olhos dele. Uma irritação, resul­tado do mal-estar e do cansaço, apoderava-se de mim. Em que estará pen­sando? O que tem na cabeça?,­ eu continuava refletindo. Será que ainda pensa alguma coisa? Seu rosto é tão morto que não expressa absolutamente nada. E onde ele arranjou esse cachorro nojento que não se afasta dele, como se fosse uma parte inseparável dele e que tanto se parece com ele?

Aquele cachorro infeliz também parecia ter uns oitenta anos; sim, sem dúvida, devia ter isso mesmo. Em primeiro lugar, pelo aspecto, ele era tão velho como nenhum cachorro costuma ser, e em segundo, porque logo no primeiro momento em que o vi, pensei que aquele cão não podia ser como todos os outros. Ele era fora do comum e devia haver nele algo de fantástico, de mágico, embruxado, talvez um Mefistófeles com aparência de cão, cujo destino, por vias desconhecidas, misteriosas, fora ligado ao destino de seu dono. Olhando para ele, logo se via que seguramente uns vinte anos haviam se pas­sado desde que o cachorro comera pela última vez. Era magro como um esqueleto ou (seria melhor?) como seu dono. Quase todo o pelo havia caído, mesmo o do rabo, sempre entre as pernas, firme como um bastão. Tinha ore­lhas com­pridas, andava cabisbaixo e sombrio. Jamais tinha visto um ca­chor­ro tão nojento. Quando ambos iam pela rua — o dono na frente e o cachorro atrás, seguindo-o —, seu nariz tocava a barra do casaco dele como se estivesse colado a ela. A maneira de andar e o aspecto dos dois pareciam dizer a cada passo:

Somos velhos, Senhor, como somos velhos!

Lembro-me de que, uma vez, me passou pela cabeça que o velho e o cachorro deviam ter saído das páginas de um livro de Hoffman,¹ ilustrado por Gavarni,² e que andavam pelo mundo como propaganda ambulante da edição. Atravessei a rua e, seguindo o velho, entrei na confeitaria.

Sua conduta na confeitaria era muito estranha, e Miller, por detrás do balcão, ultimamente já fazia caretas de aborrecimento ao ver entrar o visitante indesejável. O estranho freguês jamais pedia alguma coisa. Ia diretamente para o canto onde ficava a lareira e sentava-se. Se esse lugar estivesse ocupado, ele, por algum tempo, parecia atônito diante da pessoa que ocupava seu lugar e, desconcertado, ia para um outro canto perto da janela. Lá, escolhia uma ca­dei­ra, acomodava-se nela devagar, tirava o chapéu, colocava-o no chão perto de si, ao seu lado deitava a bengala e depois, recostado na cadeira, permanecia imóvel durante três ou quatro horas. Nunca pegava um jornal, não pronun­ciava uma palavra ou um som, apenas ficava sentado, olhando fixamente para a frente, mas com um olhar tão inexpressivo e sem vida que se podia apostar que ele não via nada daquilo que o cercava e nada ouvia. O cachorro dava duas ou três voltas no mesmo lugar e deitava-se tristemente aos pés do dono, enfiando o focinho entre suas botas; suspirava profundamente, esticava-se e também permanecia imóvel a noite toda, como se morresse por aquele tempo. Parecia que o dia inteiro as duas criaturas passavam deitadas, mortas e, após o pôr do sol, ressuscitavam unicamente para ir à confeitaria de Miller e, com isso, cumprir uma obrigação misteriosa, desconhecida de todos. Depois de passar três ou quatro horas sentado, o velho, por fim, levantava-se, pegava o chapéu e ia para casa, não se sabe onde. O cachorro também se levantava e, encolhendo nova­mente o rabo, abaixava a cabeça e o seguia automaticamente, com o mesmo passo lento. Os fregueses da confeitaria começaram a evitar o velho de todos os modos. Nem se sentavam ao seu lado, como se ele lhes provocasse repug­nância. O velho não percebia nada disso.

Na grande maioria, os clientes da confeitaria eram alemães. Reuniam-se ali, vindos da rua Voznessénski, donos de diferentes oficinas — serralheiros, padeiros, tintureiros, chapeleiros, seleiros, todos patriarcais, no sentido ale­mão da palavra. Em geral, na loja de Miller, o clima era patriarcal. Frequen­temente, o dono aproximava-se de seus clientes conhecidos, sentava-se com eles à mesa e, então, esvaziavam uma certa quantidade de ponche. Os cachor­ros e as crianças do dono também apareciam na loja, e os fregueses os tratavam com carinho. Todos se conheciam e se respeitavam. E, enquanto os visitantes concentravam-se na leitura de jornais alemães, no apartamento do dono, atrás da porta, ouviam-se as notas rachadas da melodia de Augustin,³ tocada ao piano pela filha mais velha de Miller, uma alemãzinha de cachos louros, muito parecida com um ratinho branco. A valsa era recebida com muito prazer. Eu ia à loja de Miller nos primeiros dias de cada mês para ler as revistas russas que ele recebia.

Ao entrar na confeitaria, vi o velho já sentado perto da janela, e o cachor­ro, como de costume, estendido aos seus pés. Sentei-me em silêncio num canto e perguntei-me: Por que eu entrei aqui se não tenho definitivamente nada a fazer neste lugar, se não me sinto bem e se devia voltar depressa para casa, tomar chá e me deitar? Será que estou aqui apenas para examinar esse velho? Fiquei aborrecido. O que eu tenho a ver com ele?, pensava eu, lembrando-me daquela sensação estranha e doentia com a qual olhava para ele ainda na rua. E o que eu tenho a ver com todos esses alemães tediosos? Por que este estado de espírito fantasioso? De onde vem essa inquietação por toli­ces que noto em mim ultimamente, que atrapalha meu viver e meu olhar claro para a vida? Um crítico perspicaz já tinha chamado minha atenção para isso, quando analisava com indignação meu último romance. Porém, mesmo refletindo e recriminando-me, não saí do lugar. A doença, nesse meio tempo, consumia-me cada vez mais, e acabei ficando com pena de deixar o lugar quente. Peguei um jornal de Frankfurt, li duas linhas e cochilei. Os alemães não me incomodavam. Eles liam, fumavam e, só de vez em quando, uma vez a cada meia hora, comunicavam-se, com voz entrecortada, contando alguma novidade de Frankfurt ou alguma vits ou charfzin⁴ do famoso humorista alemão Safir;⁵ depois disso, com o orgulho nacional redobrado, mergulhavam novamente na leitura.

Cochilei por uma meia hora e um forte calafrio acordou-me. Precisava voltar para casa. Mas, naquele momento, uma cena muda que acontecia na sala deteve- -me mais uma vez. Eu já disse que o velho, após acomodar-se na cadeira, fixava o olhar em algum ponto e dele não se desviava durante a noite toda. Ocorria-me também ser o alvo desse olhar tenaz e sem sentido, que nada distinguia: era uma sensação mais que desagradável, até insuportável, e eu costumava mudar de lugar o quanto antes. Desta vez, a vítima do velho era um alemão pequenino, rechonchudo, muito limpinho, com colarinhos fechados e bem engomados, e com o rosto muito vermelho, negociante vindo de Riga, hóspede e amigo íntimo de Miller, Adam Ivánovitch Schultz. Como soube mais tarde, ainda não conhecia o velho e muitos dos clientes dali. Lendo com prazer Dorfbarbier⁶ e tomando ponche, ele, ao levantar a cabeça, reparou no olhar imóvel do velho fixado nele. Isso o incomodou. Adam Ivánovitch era uma pessoa muito suscetível, melindrosa, como todos os alemães nobres, em geral. Pareceu-lhe estranho e ofensivo ser examinado sem ceri­mô­nia e tão diretamente. Com indignação contida, tirou os olhos do cliente indelicado, balbuciou qualquer coisa para si mesmo, calou-se e tapou o rosto com o jornal. Porém, não aguentou e, dois minutos depois, espiou por trás do jornal: o mesmo olhar tenaz, o mesmo exame absurdo. Também desta vez, Adam Ivánovitch nada disse. Mas quando a mesma circunstância repetiu- -se pela terceira vez, ele se inflamou, sentiu-se obrigado a defender sua nobreza e não comprometer diante do nobre público a bela cidade de Riga, da qual, prova­velmente, considerava-se representante. Com um gesto impaciente, jogou o jornal sobre a mesa, batendo energicamente a régua na qual o jornal estava preso e, ardendo de amor-próprio, vermelho de ponche e de ambição, fixou, por sua vez, os pequenos olhos inflamados no velho inconveniente. Parecia que o alemão e seu adversário queriam vencer um ao outro pela força do olhar, para ver quem não aguentaria e baixaria os olhos primeiro. A batida da régua e a postura excêntrica de Adam Ivánovitch chamavam a atenção de todos. Os presentes, em seguida, largaram suas ocupações e, com curiosidade silenciosa e solene, ficaram observando os dois homens. A cena era muito cômica. Mas o magnetismo dos pequenos olhos provocantes do vermelho Adam Ivánovitch não surtiu efeito. Impassível, o velho continuou olhando diretamente para o enfurecido senhor Schultz sem reparar, em absoluto, que se tornara objeto da curiosidade geral, como se sua cabeça estivesse na Lua e não na Terra. A paciência de Adam Ivánovitch finalmente esgotou-se e ele explodiu:

— Por que está olhando para mim tão atentamente? — gritou em ale­mão com voz áspera, estridente e ar ameaçador.

Mas o adversário continuou calado, como se não entendesse e nem tivesse ouvido a pergunta. Adam Ivánovitch resolveu falar em russo:

— Eu pergunto! Para que vós em mim olhar com tanto esmero? — gritou ele, com fúria dobrada. — Eu da casa conhecido! E vós da casa des­conhecido — acrescentou, pulando da cadeira.

Mas o velho nem se mexeu. Entre os alemães ouviu-se um murmúrio de indignação. O próprio Miller, atraído pelo barulho, adentrou a sala. Ao se inteirar do assunto, ele, achando que o velho era surdo, inclinou-se para lhe falar no ouvido:

— Zenhor Schultz vos pediu esmeradamente não olhar para ele — pronunciou ele o mais alto possível, olhando atentamente para o estranho visitante.

O velho levantou os olhos para Miller e, de repente, em seu rosto, até então imóvel, revelaram-se sinais de um pensamento, uma emoção de inquie­tude. Ele agitou-se e abaixou-se gemendo até seu chapéu, pegou-o depressa, juntamente com a bengala, levantou-se da cadeira e, com um sorriso lasti­mável — sorriso de um pobre e humilhado que é mandado embora de um lugar ocupado por engano —, pretendia sair da sala. Nessa pressa submissa e resignada de um velho pobre e caduco, havia tanto daquilo que causa pena, tanto daquilo que corta o coração, que todas as pessoas, a começar por Adam Ivánovitch, em seguida mudaram de opinião sobre o caso. Estava claro que o velho não só era incapaz de ofender alguém, como também sabia que a qual­quer minuto poderia ser enxotado como um mendigo.

Miller era uma pessoa bondosa e compassiva.

— Não, não — disse ele, passando a mão no ombro do velho com apro­vação. — Sentar. AberguerSchultz muito pediu vós não olhar com esmero para ele. Ele conhecido da casa.

Mas o coitado nem isso entendeu. Agitou-se mais ainda, inclinou-se para apanhar o lenço, um velho e furado lenço azul que tinha caído do chapéu, e começou a chamar o cachorro, que permanecia imóvel no chão e, pelo visto, dormia profundamente, cobrindo o focinho com as patas.

— Azorka, Azorka! — mastigou ele com sua voz trêmula de velho. — Azorka!

Azorka não se mexeu.

— Azorka, Azorka! — repetiu o velho, aflito, mas o cachorro continuou na mesma posição.

A bengala caiu de sua mão. Ele se ajoelhou e com as duas mãos levantou o focinho de Azorka. Pobre Azorka! Estava morto. Morreu silenciosamente aos pés de seu dono, talvez de velhice, talvez de fome. Por um minuto, o velho olhou para ele, perplexo, como se não entendesse que Azorka já havia morrido. Depois, quieto, inclinou-se para seu antigo criado e amigo e apertou o rosto pálido contra o focinho morto. Houve um minuto de silêncio. Todos nós ficamos comovidos... Finalmente, o pobre levantou-se. Estava pálido e tremia como se estivesse com calafrios.

— Pode-se fazer uma bom espantalha — disse o piedoso Miller, queren­do consolar o velho de alguma maneira (espantalha significava empalhado). — Fiódor Kárlovitch Kriger fazer excelente espantalha. Fiódor Kárlovitch Kriger fazer espantalha — confirmou Miller, levantando a bengala do chão e entregando-a ao velho.

— Sim. Eu faz excelente espantalha — modestamente repetiu o próprio Herr Kriger, destacando-se da multidão.

Era um alemão comprido, magro, bondoso, com o cabelo ruivo em tufos e óculos no nariz adunco.

— Fiódor Kárlovitch Kriger tem grande talento para fazer qualquer excelente espantalha — acrescentou Miller, começando a ficar eufórico com sua ideia.

— Sim, eu ter grande talento para fazer qualquer espantalha — confir­mou Herr Kriger. — Eu faz de graça a espantalha de sua cachorrinha — acrescentou ele, num ataque de generosidade abnegada.

— Não. Eu pago porque você fazer espantalha — exaltado exclamou Adam Ivánovitch Schultz, duas vezes mais vermelho e, por sua vez, ardendo de magnanimidade, ingenuamente considerando-se a causa de todas as desgraças.

O velho a tudo ouvia sem entender, provavelmente, como antes, tremendo de corpo inteiro.

— Esperar. Tomar um cálice de bom conhaque! — exclamou Miller ao ver que o misterioso hóspede demonstrava vontade de sair.

Serviram o conhaque. O velho pegou o cálice automaticamente, mas, como suas mãos tremiam, antes de levá-lo aos lábios, derramou a metade e, sem tomar uma gota, colocou-o de volta na bandeja. Depois, com um sorriso estranho, absolutamente impróprio para a ocasião, com passo acelerado e irregular, saiu da confeitaria deixando Azorka onde estava. Todos ficaram pasmos; ouviram-se exclamações:

Schvernot! Vas-fiur-eine-Geschihte!⁹ — falavam os alemães, esbugalhando os olhos um para o outro.

Eu corri atrás do velho. A alguns passos da confeitaria, indo para a direita, há uma travessa estreita e escura, com prédios enormes. Algo me disse que o velho virara exatamente ali. O segundo prédio à direita estava em construção, todo coberto de andaimes. A cerca do prédio chegava quase até a metade da travessa. Em volta dela, havia uma passarela feita de tábuas para os transeuntes. Num canto escuro, entre a cerca e o prédio, achei o velho. Ele estava sentado na guia da passarela e segurava a cabeça com as duas mãos, apoiando os cotovelos nos joelhos. Sentei-me ao seu lado.

— Escute — disse eu, sem saber ao certo por onde começar —, não se aflija por Azorka. Vamos, eu levo o senhor para casa. Acalme-se. Vou chamar o cocheiro. Onde o senhor mora?

O velho não respondia. Eu não sabia o que fazer. Ninguém passava por ali. De repente, ele agarrou a minha mão.

— Falta-me ar — pronunciou ele com voz rouca, quase inaudível. — Falta- -me ar!

— Vamos para sua casa! — exclamei eu, levantando-me e a ele também, à força. — O senhor vai tomar chá e se deitar... vou buscar o cocheiro. Vou chamar o médico... conheço um médico...

Não me lembro o que mais falei a ele. O velho quis se levantar, mas, ao se levantar um pouco, caiu de novo no chão e começou a balbuciar algo com a mesma voz rouca e sufocada. Eu me inclinei mais para perto dele para poder ouvir:

— Na ilha Vassílievski, Sexta Linha... Sex-ta Li-nha...

Calou-se.

— Mora na ilha Vassílievski? Mas o senhor não ia para lá. Isso fica à esquerda e não à direita. Vou levá-lo já...

O velho não se mexia. Peguei-o pelo braço. Ele caiu como se não tivesse vida. Olhei para seu rosto, toquei nele — já estava morto. Pareceu-me que tudo isso se passava num sonho.

Essa história me deu muito trabalho e, nesse meio-tempo, minha febre desapareceu. O apartamento do velho foi encontrado. Porém, ele não morava na ilha Vassílievski, mas a dois passos do lugar onde morreu, no quinto andar do prédio de Klugen,¹⁰ logo abaixo do próprio telhado. Era um apartamento isolado: uma pequena antessala e um quarto grande, com o teto muito baixo, com três frestas servindo de janelas. Ele vivia numa terrível pobreza. De mobília, havia apenas uma mesa, duas cadeiras e um sofá muito, muito velho, duro como pedra, com o enchimento saindo por todos os lados. E mesmo isso, como se verificou, pertencia ao dono do apartamento. A lareira, pelo visto, não era acesa havia muito tempo, e não encontrei velas. Agora realmente sei que o velho inventou de frequentar o Miller unicamente para se aquecer e ficar à luz de velas. Na mesa, estava uma caneca de barro vazia e uma casquinha de pão velho e duro. De dinheiro, não se achou nem um tostão. Nem havia uma muda de roupa para enterrá-lo. A camisa que usava já lhe havia sido dada por alguém. Era evidente que ele não podia viver comple­tamente só e, talvez, alguém o visitasse, mesmo que raramente. Também na mesa foi encontrado seu passaporte. O falecido era estrangeiro, mas de cidadania russa. Ieremias Smith, maquinista, setenta e o oito anos. Sobre a mesa, havia dois livros: um de geografia e o Novo Testamento em tradução russa, riscado a lápis nas margens e marcado a unha. Esses livros, peguei para mim. Foram indagados os moradores e o dono do prédio, mas ninguém sabia quase nada sobre ele. Moradores havia em grande quantidade, quase todos artesãos e mulheres alemãs, donas de pensões com refeições e criadagem. O gerente do prédio, um nobre, pouco pôde dizer sobre seu antigo inquilino além de que o apartamento custava seis rublos por mês, que o falecido morou nele durante quatro meses, mas que não havia pago um tostão pelos últimos dois, e que teve de despejá-lo. Perguntaram se alguém o visitava, mas ninguém soube dar uma resposta satisfatória. O prédio é grande: tanta gente entrando nessa arca de Noé que não se podia lembrar de todo mundo. O faxineiro, que servia há cinco anos nesse prédio e que poderia esclarecer alguma coisa, duas semanas antes disso tinha ido passar férias em sua terra natal, deixando no seu lugar o sobrinho, um rapaz que não conhecia pessoalmente nem a metade dos moradores. Não sei ao certo como terminou todo esse levantamento, mas, finalmente, o velho foi enterrado. Nesses dias, entre outros afazeres, fui à ilha Vassílievski, Sexta Linha, e, somente chegando lá, ri de mim mesmo: o que poderia eu encontrar na Sexta Linha além de uma fileira de prédios comuns? Mas por quê, então, o velho, antes de morrer, falava da Sexta Linha e da ilha Vassílievski? Não estaria delirando?

Examinei o apartamento vazio de Smith, gostei e fiquei com ele. O principal é que o quarto era grande, apesar do teto muito baixo, tanto que nos primeiros tempos parecia-me que o tocaria com a cabeça. Mas acostumei-me rapidamente. Por seis rublos ao mês não se encontrava coisa melhor. O fato de ele ser isolado seduzia-me. Faltava apenas procurar um criado, porque viver absolutamente sem criadagem seria impossível. O faxineiro prometeu vir uma vez por dia, no começo, para me ajudar em algum caso específico. Quem sabe, pensava eu, alguém venha visitar o velho. Porém, já haviam se passado cinco dias de sua morte e ninguém tinha vindo ainda.

Capítulo

II

Naquela época, um ano antes exatamente, eu ainda colaborava em alguns jornais com pequenos artigos e acreditava firmemente que conseguiria escrever uma obra boa e grande. Trabalhava então num romance grande. Mas resultou que agora estou no hospital e parece que vou morrer logo. E se vou morrer logo, para que escreveria memórias?

Sem querer, me vem constantemente à memória todo esse penoso último ano de minha vida. Quero agora anotar tudo e, se não tivesse inven­tado para mim essa ocupação, parece-me que morreria de tédio. Todas essas impressões passadas me emocionam até causar dor, tortura. No papel, sob minha pena, elas tomarão caráter mais tranquilo, mais coerente. Vão ter menos semelhança com delírio, com pesadelo, assim me parece. Só o processo de escrever já vale muito. Ele me acalma, me esfria, e desperta em mim o antigo costume de criar, transforma minhas lembranças e sonhos doentios em trabalho, em ocupação. Sim, foi uma boa invenção. Além do mais, servirá como herança para o enfermeiro. Pelo menos ele poderá calafetar as janelas com minhas memórias, quando chegar o inverno.

Aliás, comecei o meu relato do meio, não sei por quê. Já que é para escrever tudo, deve ser desde o começo. Então, comecemos desde o começo. Porém, minha autobiografia não será grande.

Não nasci aqui, mas longe daqui, na província de ***skaia. Suponho que meus pais fossem boa gente, mas fiquei órfão ainda na infância, e cresci na casa de Nikolai Serguiêitch Ikhmiéniev, um terratenente que me adotou por caridade. Tinha apenas uma filha, Natacha, três anos mais nova que eu. Éramos como irmãos. Oh, minha doce infância! Que tolice ter saudades e pena de si mesmo no vigésimo quinto ano de vida e, morrendo, lembrar-se apenas de si com admiração e gratidão. Naquele tempo, o sol era tão forte no céu, tão diferente do sol de Petersburgo, e nossos pequenos corações batiam com tanta vivacidade e alegria. Havia então, por toda parte, campos e florestas, e não o monte de pedras mortas, como agora. Que lindo jardim e que parque tinha a ilha Vassílievski, onde Nikolai Serguiêitch era administrador. E atrás do jardim ficava uma enorme floresta úmida, onde nós, duas crianças, nos perdemos... Tempos dourados, maravilhosos! A vida manifestava-se pela primeira vez, misteriosa e sedutora, e foi tão delicioso conhecê-la. Então, atrás de cada arbusto, de cada árvore, parecia viver alguém desconhecido e mis­terioso para nós; o mundo fantástico unia-se ao real. E quando, nos vales profundos, a neblina noturna tornava-se densa e em melenas grisalhas e sinuosas agarrava-se à moita aglomerada nas encostas pedregosas de nosso grande barranco, eu e Natacha, de mãos dadas, olhávamos da beira para o fundo com curiosidade temerosa, e esperávamos que alguém logo saísse ao nosso encontro ou respondesse da neblina no fundo do barranco, e assim confirmasse que os contos da babá eram verdade verdadeira e legítima. Certa vez, anos depois, lembrei Natacha que um dia deram-nos a um exemplar de Leitura infantil, e que nós, imediatamente, corremos para o jardim, onde, na beira do açude, debaixo da densa folhagem do velho bordo, estava nosso predileto banquinho verde; sentamo-nos nele e começamos a ler a linda história Alfonso e Dalinda.¹¹ Ainda agora não posso me lembrar dessa novela sem sentir um estranho bater do coração. E como eu, um ano atrás, citei para Natacha as primeiras duas linhas: Alfonso, herói da minha história, nasceu em Portugal. Dom Ramiro, seu pai... e quase chorei. Isso deve ter parecido terrivelmente tolo, e por isso, provavelmente, Natacha recebeu minha euforia com um sorriso muito estranho. Aliás, percebeu em seguida (lembro-me disso) e, para me consolar, começou a relembrar o passado ela mesma. Palavra após palavra e ficou comovida também. Foi gloriosa aquela noite. Lembramo-nos de tudo. Quando fui mandado para a cidade da província, a um colégio interno — meu Deus, como ela chorou! —, e nossa última separação, quando eu já me despedia para sempre de Vassílievskoie. Já tinha saído do colégio e dirigia-me a Petersburgo, para ingressar na universidade. Tinha dezessete anos e ela, catorze. Natacha disse que, naquela época, eu era tão desajeitado e varapau que era impossível olhar para mim sem rir. No momento da des­pedida, chamei-a de lado para dizer algo de terrivelmente importante, mas de repente, minha língua ficou muda, travou. Ela se lembra que eu estava muito emocionado. Assim, nossa conversa deu em nada. Eu não sabia o que dizer, e ela, talvez, nem me entendesse. Só chorei amargamente e acabei indo embora sem dizer nada. Vimo-nos já muito tempo depois, em Petersburgo. Isso aconteceu há dois anos. O velho Ikhmiéniev veio para cá tratar de um litígio e eu tinha começado minha carreira literária.

Capítulo

III

Nikolai Serguiêitch Ikhmiéniev descendia de uma boa família, mas empobrecida havia muito tempo. Apesar disso, ele herdou dos pais uma boa propriedade com cento e cinquenta almas.

Com vinte anos de idade, resolveu se alistar como hussardo. Tudo ia bem, mas no sexto ano de serviço, numa noite infortunada, perdeu no jogo todos os seus bens. Ficou sem dormir a noite inteira. No dia seguinte, apare­ceu à mesa de jogo e apostou seu cavalo — a última coisa que lhe restava. A carta venceu, depois a outra, a terceira e, em meia hora, desforrou uma de suas aldeias, a de Ikhmiénievka, na qual havia cinquenta almas, segundo a últi­ma inspeção. Revoltou-se e pediu demissão. Cem almas ficaram perdidas para sempre. Dois meses depois, foi demitido como tenente e voltou à sua aldeia. Nunca mais tocou no assunto de sua perda e, apesar de sua conhecida bon­dade, com certeza brigaria com quem quer que se atrevesse a lembrar-lhe disso. Na aldeia, dedicou-se à sua propriedade com todo afinco e, aos trinta e cinco anos, casou-se com Anna Andrêievna Chumílina, uma perfeita fidalga sem dote que fora educada num internato provinciano para nobres, dirigido pela imigrada Mon-Revèch, do que Anna Andrêievna se orgulhou a vida toda, embora nunca ninguém tenha conseguido entender em que exatamente consistia essa educação. Nikolai Serguiêitch tornou-se um excelente administrador. Os terratenentes vizinhos aprendiam a dirigir a economia rural com ele. Passaram-se alguns anos quando, de repente, vindo de Peters­burgo, apareceu na propriedade vizinha da aldeia de Vassílievskoie, que tinha novecentas almas, o terratenente príncipe Piotr Aleksándrovitch Valkóvski. Sua chegada causou forte impressão em todos os arredores. O príncipe era jovem ainda, embora de certa idade, de uma patente nada baixa, tinha relações importantes, bonito, abastado e, finalmente, viúvo, o que era de interesse especial para as damas e senhoritas de toda a comarca. Falava-se de uma suntuosa recepção oferecida a ele na cidade pelo governador, com quem ele tinha um certo parentesco; de como todas as damas da província endoide­ceram com suas amabilidades etc. etc. Em uma palavra, era um dos brilhantes representantes da alta sociedade de Petersburgo, que raramente aparecem nas províncias, mas, aparecendo, causam um efeito extraordinário. Porém, não era o mais gentil dos príncipes, principalmente com pessoas das quais não precisava ou considerava inferiores a ele. Não se dignou a conhecer os vizinhos de sua propriedade e, com isso, logo fez muitos inimigos. E foi uma grande surpresa para todos quando, subitamente, ele teve a ideia de visitar Nikolai Serguiêitch. Se bem que Nikolai Serguiêitch fosse o seu vizinho mais próximo. Na casa dos Ikhmiéniev, o príncipe causou grande impressão. E logo encantou o casal. Quem se entusiasmou especialmente com ele foi Anna Andrêievna. Pouco tempo depois, ele já ia vê-los sem cerimônia, aparecendo todo dia, convidava-os para sua casa, gracejava, contava piadas, tocava o desafinado piano deles, cantava. Os Ikhmiéniev não cansavam de admirá-lo: como é que se pode falar que um homem tão amável e simpaticíssimo como ele fosse orgulhoso, arrogante, um egoísta seco, segundo apregoavam unanimemente os vizinhos. É de supor que o príncipe realmente tenha gostado de Nikolai Serguiêitch, pessoa simples, direta, desinteressada, digna. Mas em pouco tempo, tudo ficou esclarecido. O príncipe Valkóvski foi a Vassílievskoe para despedir seu administrador, um malandro alemão, homem ambicioso, agrônomo, privilegiado com respeitável cabelo grisalho, óculos e nariz aqui­lino, mas que, com todos esses dons, roubava sem pudor nem censura e, além disso, torturou até a morte alguns camponeses. Finalmente, Ivan Kárlovitch foi pego em flagrante, ofendeu-se muito, discursou bastante sobre a hones­tidade alemã, mas, apesar disso, foi despedido e até com infâmia, pode-se dizer. O príncipe precisava de um administrador e sua escolha foi Nikolai Serguiêitch, excelente administrador, pessoa honestíssima, do que não poderia haver, é claro, a menor dúvida. O príncipe queria muito que o próprio Nikolai Serguiêitch se oferecesse para a função, o que não aconteceu e, num belo dia, o próprio príncipe fez-lhe a proposta de forma amigável, como se fosse um pedido. Ikhmiéniev recusou-se no começo, mas a remuneração considerável seduzia Anna Andrêievna, e as amabilidades dobradas dissiparam todas as dúvidas. O príncipe alcançou seu objetivo. Pode-se dizer que era um grande conhecedor de pessoas. No curto tempo de seu relacionamento com Ikhmiéniev, ele compreendeu bem com quem estava tratando e que era necessário conquistar Ikhmiéniev com amizade e cordialidade, atrair seu coração, porque sem isso, o dinheiro não faria muita coisa. O príncipe pre­cisava de um administrador em quem pudesse confiar sempre e cegamente para nunca mais voltar a Vassílievskoie, como pretendia fazer. O efeito do seu fascínio foi tão forte que Ikhmiéniev acreditou piamente em sua amizade. Nikolai Serguiêitch era uma daquelas pessoas boníssimas e ingenuamente românticas, que são tão belas aqui na Rússia; pode-se falar o que quiser delas, mas quando se apaixonam por alguém (às vezes, Deus sabe por que), entre­gam-lhe a alma, levando essa afeição até o cômico.

Passaram-se muitos anos. A propriedade do príncipe prosperava. O contato entre o proprietário de Vassílievskoie e seu administrador realizava-se sem o menor aborrecimento de ambos os lados e limitava-se à correspon­dência seca de negócios. O príncipe, sem se intrometer nem um pouco nas ordens de Nikolai Serguiêitch, dava-lhe, às vezes, conselhos que surpreendiam Ikhmiéniev com sua incomum praticidade e tino comercial. Percebia-se que ele não somente não gostava de fazer despesas excessivas, como até sabia lucrar. Uns cinco anos depois de sua visita a Vassílievskoie, ele mandou para Nikolai Serguiêitch uma procuração para a compra de uma exce­lente pro­priedade, na mesma província, com quatrocentas almas. Nikolai Serguiêitch estava eufórico; alegrava-se muito com os sucessos do príncipe, os boatos sobre seus êxitos e promoções, como se tratasse de seu irmão de sangue. Mas sua admiração chegou ao ponto máximo quando o príncipe demons­trou-lhe um dia sua extraordinária confiança. Eis como isso aconte­ceu... Entretanto, acho necessário mencionar aqui alguns pormenores espe­ciais sobre a vida desse príncipe Valkóvski, em parte, um dos principais perso­nagens da minha narrativa.

Capítulo

IV

Mencionei antes que ele era viúvo. Foi casado em sua primeira juventude e casou-se por dinheiro. De seus pais, em Moscou, completamente arruina­dos, ele não recebeu quase nada. A aldeia de Vassílievskoie foi empenhada mais de uma vez e suas dívidas eram enormes. Na época, o príncipe, com vinte anos de idade, foi obrigado a trabalhar num escritório de Moscou, não tinha um tostão e estava começando a vida como um pobretão, do ramo antigo descendente.¹² O casamento com uma moça passada da idade, filha de um mercador-agiota, salvou-o. O sogro enganou-o na herança, mas mesmo assim, com o dinheiro da esposa, podia resgatar o patrimônio e ganhar posição. A filha de mercador que tocou ao príncipe mal sabia escrever, nem sabia dizer duas palavras seguidas, era feia e tinha apenas um mérito importante: era bondosa e submissa. O príncipe apro­veitou-se disso plenamente: um ano depois do casamento, deixou nas mãos do pai-agiota a esposa que, nesse meio tempo, dera-lhe um filho, e partiu para uma província onde, com a proteção de um ilustre parente de Peters­burgo, obteve um lugar de destaque. Sua alma ansiava por condecorações e promoções, e, entendendo que com sua mulher ele não podia viver nem em Petersburgo nem em Moscou, resolveu, na espera de coisa melhor, começar sua carreira no interior. Dizem que, ainda no primeiro ano de sua convivência com a esposa, ele por pouco não a matou com seu tratamento grosseiro. Esse boato sempre indignava Nikolai Serguiêitch e ele defendia o príncipe com ardor, afirmando que este não seria capaz de cometer um ato ignóbil. Após uns sete anos, a princesa morreu, finalmente, e o viúvo mudou-se imediatamente para Petersburgo. Aí, causou até uma certa impressão. Jovem e bonito ainda, possuidor de bens e dotado de muitas qualidades brilhantes — graça indiscutível, bom gosto, jovialidade inesgotável —, apareceu por lá não como caçador de fortunas e pistolões, mas como pessoa bastante independente. Contava-se que havia realmente nele algo encantador, algo forte e cativante. As mulheres gostavam demais dele e a ligação com uma das beldades proporcionou-lhe uma fama escandalosa. Esbanjava dinheiro sem pena, apesar de sua parcimônia inata que chegava à sovinice, perdia no jogo a quem convinha e nem fazia careta em caso de perdas muito grandes. Mas não foi atrás de diversão que ele tinha ido a Petersburgo: precisava tomar um rumo e consolidar sua carreira. E conseguiu isso. O conde Naínski, seu ilustre parente, que não repararia no príncipe se ele lhe aparecesse como simples solicitante, mas, surpreso com seus êxitos na sociedade, achou possível e conveniente dar-lhe atenção especial, e até dignou-se a aceitar o filho dele de sete anos para ser educado em sua casa. Justamente a essa época refere-se a estada do príncipe em Vassílievskoie e seu encontro com Ikhmiéniev. Finalmente, ao receber por inter­médio do conde uma nomeação significativa numa das embaixadas mais importantes, viajou para o exterior. As notícias posteriores já eram um tanto obscuras: falou-se de um acontecimento desagradável que houve com ele no exterior, mas ninguém pôde explicar em que consistia. Sabe-se apenas que conseguiu adquirir mais quatrocentas almas, o que eu já havia comentado. Regressou do exterior muitos anos depois com um cargo im­portante e ocupou em Petersburgo uma posição bastante elevada. Na pro­priedade de Ikhmiénievka, corriam boatos de que o príncipe estava para contrair segundas núpcias e ia se tornar parente de uma família eminente, rica e de grande influência. Pretende ser um grão-senhor! — dizia Nikolai Serguiêitch, esfregando as mãos de contentamento. Naquela época, eu estudava na Universidade de Petersburgo e lembro-me que Ikhmiéniev escre­veu-me especialmente para perguntar: seriam verídicos os boatos sobre o casamento? Escreveu também para o príncipe, pedindo proteção para mim, mas o príncipe deixou sua carta sem resposta. Eu sabia que seu filho, criado primeiro na casa do conde e depois num liceu, havia terminado o curso científico com dezenove anos. Comuniquei isso aos Ikhmiéniev e disse também que o príncipe amava muito seu filho, mimava-o e já estava plane­jando seu futuro. Tudo isso eu soube por meus companheiros de estudos, conhecidos do jovem príncipe. Foi exatamente nesse tempo que Nikolai Serguiêitch recebeu uma carta do príncipe que o surpreendeu muitíssimo...

O príncipe, que até então, como eu já tinha comentado, limitara seu relacionamento com Ikhmiéniev à correspondência seca de negócios, es­crevia-lhe agora detalhada, franca e amigavelmente sobre seus assuntos familia­res: queixava-se do filho, dizendo que ele o magoava com sua má conduta; que, é claro, não se pode levar muito a sério as travessuras do jovem, tão menino ainda (tentando justificá- -lo, aparentemente), mas que resolveu pôr o filho de castigo e meter-lhe medo, enviando-o por algum tempo ao campo sob os cuidados de Ikhmiéniev. O príncipe escreveu que confiava plenamente em seu "nobre e boníssimo Nikolai Serguiêitch e em Anna Andrêievna particularmente, pediu aos dois para aceitarem seu cabeça- -de-vento na família deles e ali, no retiro, ajuizá-lo, amá-lo, se possível, mas que o principal era corrigir seu temperamento frívolo e incutir nele regras salutares e

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