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Vinte mil léguas submarinas

Vinte mil léguas submarinas

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Vinte mil léguas submarinas

Duração:
613 páginas
5 horas
Editora:
Lançados:
May 27, 2021
ISBN:
9786589678748
Formato:
Livro

Descrição

Escrito em 1870, Vinte mil léguas submarinas é um romance clássico de ficção científica de Júlio Verne, cuja trama gira em torno de uma expedição ousada empreendida pelos protagonistas para lutar contra um monstro marinho ameaçador. Apresentando um amálgama incrível de imaginação e visão de futuro, Verne consegue dar tons e matizes inesperados ao texto, que o torna fascinante e leitura indispensável.
Editora:
Lançados:
May 27, 2021
ISBN:
9786589678748
Formato:
Livro

Sobre o autor


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Vinte mil léguas submarinas - Julio Verne

Primeira parte

Um escolho escorregadio

O ano de 1866 foi marcado por um acontecimento peculiar, um fenômeno inexplicado e inexplicável de que, sem dúvida, ninguém se esqueceu. Sem falar dos rumores que agitavam as populações dos portos e deixavam o público por demais inquieto no interior dos continentes, os que viviam no mar ficaram particularmente abalados. Os comerciantes, os armadores, os capitães dos navios, os skippers e mestres da Europa e da América, os oficiais das marinhas de todos os países e, além deles, os governos dos vários estados dos dois continentes, estavam extremamente preocupados com o fato.

Na verdade, havia algum tempo, vários navios tinham se deparado, em alto-mar, com uma coisa enorme, um objeto longo, fusiforme, às vezes fosforescente, infinitamente maior e mais rápido que uma baleia.

Os fatos relativos a essa aparição, registrados nos diferentes diários de bordo, concordavam sobre a estrutura exata do objeto ou ser em questão, a espantosa velocidade de seus movimentos, o poder surpreendente de sua locomoção, a vida particular de que parecia ser dotado. Se fosse um cetáceo, excedia em volume todos os que a ciência tinha classificado até então. Nem Cuvier, nem Lacépède, nem o senhor Dumeril, nem o senhor de Quatrefages¹ teriam admitido a existência de tal monstro – a menos que o tivessem visto, o que chamamos de ver com seus próprios olhos de cientista.

Considerando a média das observações feitas em diferentes ocasiões – rejeitando as tímidas avaliações que atribuíam a esse objeto um comprimento de 61 metros² e recusando as opi­niões exageradas que diziam que tinha 1 milha de largura e 3 de comprimento –, podia-se afirmar, no entanto, que esse ser fenomenal superava, e muito, todas as dimensões aceitas até então pelos ictiologistas – se é que ele realmente existia.

Ora, ele existia, o fato em si já era inegável, e, com a propensão que o cérebro humano tem para o maravilhoso, é possível entender a emoção produzida em todo o mundo por essa aparição sobrenatural. Quanto a classificá-lo no rol das fábulas, tal ideia tinha de ser abandonada.

No dia 20 de julho de 1866, o navio a vapor Governor Higginson, da Calcutta & Burnach Steam Navigation Company, encontrou essa massa em movimento 5 milhas a leste da costa da Austrália. De início, o capitão Baker pensou estar na presença de um escolho desconhecido; estava prestes a determinar sua posição exata, quando duas colunas de água, esguichadas pelo objeto inexplicável, projetaram-se assobiando a 45 metros de altura. Então, a menos que esse escolho estivesse sujeito às intermitentes expansões de um gêiser, o Governor Higginson estava realmente lidando com algum mamífero aquático, até então desconhecido, que esguichava por seus espiráculos uma mistura de ar e vapor.

Fato muito semelhante foi observado no dia 23 de julho do mesmo ano, nas águas do Pacífico, pelo Cristobal Colon, da West India and Pacific Steam Navigation Company. Esse extraordinário cetáceo podia, então, mover-se de um lugar para outro com uma velocidade surpreendente, uma vez que, no intervalo de três dias, o Governor Higginson e o Cristobal Colon o tinham observado em dois pontos no mapa separados por uma distância de mais de 700 léguas marítimas.

Quinze dias mais tarde, a 2 mil léguas de distância, o Helvetia, da Compagnie Nationale, e o Shannon, da Royal Mail, navegavam em sentidos contrários na porção do Atlântico entre os Estados Unidos e a Europa e, respectivamente, identificaram o monstro a 42° 15’ de latitude norte e 60° 35’ de longitude oeste do meridiano de Greenwich. Com essa observação simultânea, julgaram avaliar o comprimento mínimo do mamífero em mais de 106 metros, uma vez que o Shannon e o Helvetia tinham uma dimensão inferior a ele, ainda que medissem 100 metros da proa à popa. Ora, as maiores baleias, as que frequentam as paragens das ilhas Aleutas, Kulammak e Umgullick, nunca apresentaram dimensões superiores a 56 metros – se é que chegavam a tal medida.

Esses relatos que chegaram um após o outro, as novas observações feitas a bordo do transatlântico Le Péreire, uma colisão entre o Etna, da linha Inman, e o monstro, um relatório feito pelos oficiais da fragata francesa La Normandie, um levantamento bastante sério obtido pelo estado-maior, do comandante Fitz-James a bordo do Lord Clyde, mexeram profundamente com a opinião pública. Nos países de humor leve, foram feitas piadas sobre o fenômeno, mas os países mais austeros e práticos, como a Inglaterra, os Estados Unidos e a Alemanha, ficaram intensamente preocupados.

Nos grandes centros, o monstro virou moda. Cantavam sobre ele nos cafés, vilipendiavam-no nos jornais e o representavam nos teatros. Os pasquins puderam aproveitar para divulgar notícias de todo tipo. Reapareceram nos jornais – por falta de assunto – todos os seres imaginários e gigantescos, desde a baleia branca, a terrível Moby Dick das regiões hiperbóreas, até o descomunal Kraken, cujos tentáculos podem enlaçar um prédio de 50 toneladas e arrastá-lo até os abismos do oceano. Reproduziram-se até registros de tempos antigos, como as opiniões de Aristóteles e Plínio, que admitiam a existência desses monstros, e também os relatos noruegueses do bispo Pontoppidan, as relações de Paul Heggede, e, finalmente, os relatórios do senhor Harrington, de cuja boa-fé não se pode suspeitar, quando ele afirma ter visto, a bordo do Castillan, em 1857, essa enorme serpente que, até então, só havia frequentado os mares do antigo Constitutionnel.

Foi então que eclodiu a interminável polêmica entre os crédulos e os incrédulos nos grupos acadêmicos e nas revistas científicas. A questão do monstro inflamou os ânimos. Os jornalistas que defendem a ciência, em disputa com aqueles que defendem a espirituosidade, derramaram uma maré de tinta durante essa campanha memorável; alguns chegaram a derramar duas ou três gotas de sangue, pois, partindoda serpente do mar, chegaram às personalidades mais vis.

Durante seis meses, a guerra prosseguiu com diferentes peripécias. Nos artigos do Instituto Geográfico do Brasil, da Academia Real das Ciências de Berlim, da Associação Britânica, da Smithsonian Institution de Washington, às discussões do The Indian Archipelago, do Cosmos do abade Moigno, das Mittheilungen de Petermann, às crônicas científicas dos grandes jornais da França e do exterior, a imprensa independente reagia com uma imaginação inesgotável. Seus autores espirituosos, parodiando Lineu, citado pelos adversários do monstro, argumentavam que a natureza não produzia tolos, e eles exortaram seus contemporâneos a não negar a natureza, admitindo a existência das Krakens, das serpentes do mar, das Moby Dick e de outras elucubrações de marinheiros delirantes. Finalmente, num artigo de um jornal satírico muito temido, o mais amado de seus redatores, superando os demais, jogou-se sobre o monstro, como Hipólito³, deu-lhe um último golpe e matou-o em meio a uma gargalhada universal. O espírito gozador tinha vencido a ciência.

Nos primeiros meses do ano de 1867, a questão parecia estar enterrada, e nada indicava que fosse reavivada, quando novos fatos vieram à tona. Não se tratava de um problema científico a resolver, mas de um perigo real e grave a evitar. A questão tomou um rumo completamente diferente. O monstro tornou-se de novo uma ilhota, uma rocha, um escolho, mas um escolho escorregadio, indeterminável e esquivo.

Em 5 de março de 1867, o Moravian, da Montreal Ocean Company, estando à noite a 27° 30’ de latitude e 72° 15’ de longitude, atingiu com sua alheta uma pedra a estibordo que não estava assinalada em nenhum mapa. Sob a força combinada do vento e de seus 400 cavalos-vapor de potência, navegava a uma velocidade de 13 nós por hora. Não há dúvida de que, não fosse a qualidade superior de seu casco, o Moravian, com o impacto do choque, teria sido engolido pelo mar, junto com os 237 passageiros que trazia do Canadá.

O acidente ocorreu por volta das 5 horas da manhã, quando o dia começava a raiar. Os oficiais da guarda correram para a popa do navio. Examinaram o oceano com a mais escrupulosa atenção. Mas não viram nada, exceto uma forte turbulência a uns 600 metros de distância, como se os reservatórios de líquidos tivessem sofrido violentas pancadas. As coordenadas do local foram anotadas com exatidão, e o Moravian seguiu seu curso sem danos aparentes. Teria ele colidido com uma pedra submarina ou com um enorme destroço de uma embarcação naufragada? Não era possível saber; mas, após o exame de sua carena na doca seca, descobriu-se que parte da quilha estava rachada.

Esse fato, por si só extremamente grave, talvez tivesse sido esquecido, como tantos outros se, três semanas mais tarde, não tivesse se repetido em condições idênticas. Porém, graças à nacionalidade do navio que foi vítima dessa nova colisão e à reputação da empresa a que ele pertencia, o acontecimento teve enorme repercussão.

Ninguém ignora o nome do famoso armador inglês Cunard. Esse inteligente industrial fundou um serviço postal entre Liverpool e Halifax em 1840, com três navios de madeira e com rodas de 400 cavalos de potência e uma arqueação de 1.162 toneladas. Oito anos mais tarde, o equipamento da Companhia aumentou para quatro navios de 650 cavalos e 1.820 toneladas, e, dois anos depois, ganhou outros dois navios de maior potência e tonelagem. Em 1853, a companhia Cunard, cuja prioridade para transportar telegramas tinha acabado de ser renovada, incluiu em sua frota o Arabia, o Persia, o China, o Scotia, o Java e o Russia, todos navios de primeira linha e os maiores que já tinham navegado pelos mares depois do Great Eastern. Dessa forma, em 1867, a Companhia possuía 12 navios, dos quais oito eram movidos a roda e quatro a hélice.

Se estou dando esses detalhes é para que todos saibam quão importante é essa companhia de transportes marítimos, conhecida em todo o mundo por sua gestão inteligente. Nenhuma empresa de navegação transoceânica foi administrada com maior habilidade; nenhum outro caso foi coroado com tamanho sucesso. Durante 26 anos, os navios Cunard atravessaram o Atlântico 2 mil vezes, e nunca uma viagem foi cancelada, nunca houve um atraso, nem uma carta, um homem ou um navio se perdeu. Por isso, os passageiros ainda preferem essa companhia, apesar da imponente concorrência imposta pela França, conforme registro feito em documentos oficiais dos últimos anos. Dito isso, ninguém poderia ficar surpreso com a repercussão que um acidente com um de seus mais belos steamers⁴ provocou.

Em 13 de abril de 1867, com o mar aprazível e o vento manejável, o Scotia estava a 15° 12’ de longitude e 45° 37’ de latitude. Ele avançava a uma velocidade de 13 nós e 43 cêntimos por hora, impulsionado por seus mil cavalos de potência. Suas rodas golpeavam o mar com uma regularidade perfeita. Seu calado media 6,7 metros e seu deslocamento era de 6.624 metros cúbicos.

Às 4h17 da tarde, enquanto os passageiros lanchavam reunidos no grande salão, um choque pouco sensível se produziu na quilha do Scotia, na alheta logo atrás da roda de bombordo.

O Scotia não tinha se chocado com algo, mas alguma coisa tinha se chocado contra ele, e era mais provável que fosse um objeto cortante ou perfurante, e não contundente. O choque tinha sido tão leve que ninguém a bordo se preocupou até ouvir o grito dos marinheiros que subiram ao convés gritando:

– Estamos afundando! Estamos afundando!

De início, os passageiros ficaram apavorados, mas o capitão Anderson rapidamente os acalmou. De fato, o perigo não era iminente. O Scotia, dividido em sete compartimentos por paredes herméticas, devia passar ileso por uma infiltração em seu casco.

O capitão Anderson dirigiu-se imediatamente ao porão e percebeu que o quinto compartimento havia sido invadido pelo mar e que a rapidez da inundação provava que o rombo tinha um tamanho considerável. Felizmente, esse compartimento não guardava as caldeiras, do contrário, as chamas teriam se apagado de súbito.

O capitão Anderson interrompeu imediatamente o funcionamento das máquinas, e um dos marujos mergulhou para avaliar a avaria. Alguns instantes mais tarde, constatava-se a existência de um rombo de 2 metros de largura na carena do steamer. Um rombo como aquele não podia ser vedado e, assim, o Scotia, com suas rodas submersas pela metade, seguiu viagem naquele estado. Ele se encontrava então a 300 milhas do Cabo Clear, e, depois de três dias de um atraso que muito inquietou Liverpool, adentrou o cais da Companhia.

Então, os engenheiros realizaram a inspeção do Scotia, que foi transferido para um estaleiro seco. Eles mal podiam acreditar no que seus olhos viam. Dois metros e meio abaixo da linha de flutuação se abria uma fenda regular em forma de triângulo isósceles. O rompimento da placa metálica era de uma precisão absoluta, e ela não teria sido cortada com maior perfeição por uma lâmina. Então, a ferramenta que produzira tal perfuração era necessariamente de uma consistência pouco comum – e, após ter sido lançada com uma força prodigiosa, a ponto de perfurar uma placa metálica de quatro centímetros, ela devia ter se retraído por si mesma por meio de um movimento retrógado e realmente inexplicável.

Esse último acontecimento foi de tal impacto que acabou por incendiar novamente a opinião pública. Desde então, todos os desastres marítimos que não tinham uma causa definida foram imputados ao monstro. Esse animal fantástico assumiu a responsabilidade por todos os naufrágios, dos quais o número, infelizmente, é considerável; a cada 3 mil navios cuja perda é registrada anualmente no Bureau Veritas, o número de navios a vapor ou a vela, supostamente perdidos devido à ausência de notícias, equivale a pelo menos 200!

Ora, o monstro, justa ou injustamente, foi acusado do desaparecimento desses navios, e, graças a ele, as comunicações entre os continentes tornaram-se cada vez mais perigosas; a opinião pública se manifestou pedindo de forma categórica que os mares fossem libertados de uma vez por todas do exótico cetáceo.


¹ Trata-se de cientistas que pesquisaram vidas submarinas. (N. T.)

² Optou-se por converter as medidas do original, a fim de deixá-las mais inteligíveis ao leitor brasileiro. A única exceção é para as léguas, mantidas como no original francês, por serem o mote da história. (N. T.)

³ Na mitologia grega, filho de Teseu e Hipólita, morreu ao ser arremessado contra um monstro marinho enquanto conduzia seu carro pelas rochas. (N. E.)

⁴ Em inglês no original, o mesmo que barcos a vapor. (N. T.)

Prós e contras

Na época em que esses acontecimentos se produziram, eu regressava de uma exploração científica nas terras áridas de Nebraska, nos Estados Unidos. Por ser eu professor suplente do Museu de História Natural de Paris, o governo francês me incluiu na expedição. Depois de seis meses em Nebraska, cheguei a Nova Iorque no final de março, trazendo comigo coleções preciosas. Minha partida para a França estava marcada para os primeiros dias de maio. Ocupava-me, então, em classificar minhas riquezas mineralógicas, botânicas e zoológicas, quando o incidente do Scotia aconteceu.

Eu estava perfeitamente a par da questão da ordem do dia – e como poderia não estar? Tinha lido e relido todos os jornais norte-americanos e europeus sem avançar muito no assunto. Aquele mistério me intrigava. Incapaz de formar uma opinião, flutuei de um extremo a outro. Que havia algo, não existia a menor dúvida, e os incrédulos foram convidados a tocar com o dedo a ferida do Scotia.

Quando cheguei a Nova Iorque, o assunto fervilhava. A hipótese da ilhota flutuante, do escolho escorregadio, apoiada por algumas mentes não qualificadas, foi completamente abandonada. E, de fato, a menos que esse escolho tivesse um motor na barriga, como poderia mover-se a uma velocidade tão prodigiosa?

Da mesma forma, a existência de um casco flutuante ou de um enorme destroço foi rejeitada, sempre em razão da rapidez do deslocamento.

Restavam, então, duas soluções possíveis para a questão, que criavam dois clãs distintos de apoiadores: de um lado, aqueles que acreditavam ser um monstro de uma força colossal; de outro, os que apostavam ser um barco submarino com um motor extremamente potente.

No entanto, esta última hipótese, de certa forma admissível, não resistiu às investigações que foram feitas em ambos os universos. Era improvável que um proprietário particular tivesse tal equipamento mecânico à sua disposição. Onde e quando o teria construído, e como o teria guardado em segredo?

Somente um governo poderia possuir uma máquina tão destrutiva, e nestes tempos desastrosos em que o homem está se esforçando para multiplicar o poder das armas de guerra, era impossível que um Estado testasse esse formidável dispositivo sem o conhecimento dos outros. Depois dos fuzis, os torpedos, depois dos torpedos, os foguetes submarinos, depois... a reação. Pelo menos assim espero.

Mas a hipótese de uma máquina de guerra caiu novamente diante da declaração dos governos. Como se tratava de um interesse público, já que as comunicações transoceânicas sofriam as consequências, a franqueza dos governos não podia ser questionada. Além disso, como admitir que a construção desse submarino tivesse escapado aos olhos do público? Guardar segredo nessas circunstâncias é muito difícil para um proprietário particular, e com certeza impossível para um Estado cujas ações são obstinadamente monitoradas por potências rivais.

Assim, após investigações na Inglaterra, França, Rússia, Prússia, Espanha, Itália, América e até mesmo na Turquia, a hipótese de um monitor submarino foi definitivamente rejeitada.

O monstro voltou à tona, apesar das incessantes piadas metralhadas pela imprensa independente, e, dessa forma, as imaginações logo se transformaram nos devaneios mais absurdos de uma ictiologia fantástica.

Quando cheguei a Nova Iorque, muitas pessoas deram-me a honra de me consultar sobre o fenômeno em questão. Eu tinha publicado na França uma obra in-quarto⁵, em dois volumes, intitulada Os mistérios das profundezas submarinas. Esse livro, particularmente aprovado pelo mundo acadêmico, fez de mim um especialista nessa parte bastante obscura da história natural. Pediram minha opinião. Neguei o quanto pude a realidade dos fatos fechando-me em uma recusa absoluta. Mas logo fui colocado contra a parede e tive de me explicar categoricamente. Até mesmo o honorável Pierre Aronnax, professor do Museu de Paris, foi intimado pelo New York Herald a formular alguma opinião sobre o ocorrido.

Eu me rendi. Decidi falar por não conseguir me manter calado. Discuti a questão de todos os ângulos, política e cientificamente, e cito aqui um artigo bastante detalhado que publiquei na edição de 30 de abril.

Então, dizia eu, depois de examinar as várias hipóteses uma a uma e de rejeitar qualquer outra suposição, é necessário admitir a existência de um animal marinho de uma potência descomunal.

As grandes profundezas do oceano são totalmente desconhecidas para nós. A sonda não conseguiu alcançá-las. O que acontece nesse abismo remoto? Que seres vivem e podem viver a 12 ou 15 milhas abaixo da superfície da água? Como é o organismo desses animais? Nós poderíamos apenas conjecturar.

Entretanto, a solução do problema que me foi submetido pode afetar a forma do dilema.

Ou conhecemos todas as variedades de seres que povoam nosso planeta ou não conhecemos.

Se não as conhecemos, se a natureza tem segredos para nós em ictiologia, nada mais aceitável que admitir a existência de peixes ou cetáceos, de espécies ou mesmo de novos gêneros, de uma organização essencialmente abissal, que habitam camadas inacessíveis para a sonda, e que um acontecimento qualquer, uma fantasia ou capricho traz de volta, com longos intervalos de tempo, para o nível superior do oceano.

Se, ao contrário, conhecemos todas as espécies vivas, devemos necessariamente procurar o animal em questão entre os seres marinhos já catalogados, e, nesse caso, eu estaria disposto a admitir a existência de um narval gigante.

O narval comum, ou unicórnio-do-mar, atinge muitas vezes um comprimento de 18 metros. Quintuplique ou até mesmo decuplique essa dimensão, dê a esse cetáceo uma força proporcional ao seu tamanho, amplie suas armas ofensivas e você obterá o animal desejado. Ele terá, então, as proporções determinadas pelos oficiais do Shannon, o instrumento necessário para perfurar o Scotia e a potência exigida para romper o casco de um steamer.

Com efeito, o narval está armado com uma espécie de espada de marfim, uma alabarda, de acordo com os termos empregados por alguns naturalistas. Trata-se de um dente principal duro como aço. Alguns dentes como esse foram encontrados implantados nos corpos de baleias que o narval atacou com sucesso. Outros foram arrancados, não sem dificuldade, das quilhas dos navios, perfurando de um lado a outro, como se uma broca tivesse atravessado um barril. O museu da Faculdade de Medicina de Paris possui uma dessas presas de 2,25 metros de comprimento e 48 centímetros de largura em sua base!

Ora, suponha a existência de uma arma dez vezes mais forte, e de um animal dez vezes mais poderoso. Faça-o nadar a uma velocidade de 20 milhas por hora, multiplique sua massa por sua velocidade, e você obterá como resultado um choque capaz de produzir a catástrofe em questão.

Portanto, até que haja mais informações disponíveis, eu diria que se trata de um unicórnio marinho de dimensões colossais, armado não mais com uma alabarda, mas com uma verdadeira espora, como os navios de guerra ou aríetes de guerra, e que tem a mesma massa e o mesmo poder de condução deles.

Isso explicaria de alguma forma esse fenômeno inexplicável – a menos que não haja nada, apesar do que vimos, revimos, sentimos e ressentimos, o que também é possível!

Essas últimas palavras foram covardia da minha parte, mas eu queria de alguma maneira salvar minha dignidade como professor e não ser motivo de piada para os norte-americanos, que riem bem, quando riem. Eu ainda tinha uma escapatória de reserva. No fundo, eu admitia a existência do monstro.

Meu artigo foi calorosamente discutido, o que lhe valeu grande sucesso e, com isso, pude reunir um número considerável de apoiadores. A solução que eu propunha nele, inclusive, deixava uma grande margem para a imaginação. A mente humana se deleita com essas concepções grandiosas de seres sobrenaturais. Ora, o mar é precisamente seu melhor meio, o único ambiente onde esses gigantes – perto dos quais os animais terrestres, como elefantes ou rinocerontes, parecem simples anões – podem se produzir e se desenvolver. Os mares transportam as maiores espécies conhecidas de mamíferos, e talvez escondam moluscos de tamanho incomparável e crustáceos assustadores de se contemplar, como lagostas de 100 metros ou caranguejos de 200 toneladas! Por que não? Antigamente, os animais terrestres, contemporâneos das eras geológicas, como quadrúpedes, qua­drúmanos, répteis e aves, eram reproduzidos em moldes gigantescos. O Criador os tinha preparado em um molde colossal que o tempo gradualmente reduziu. Por que o mar, em suas profundezas desconhecidas, não guardaria essas vastas amostras da vida de outra era, ele que nunca muda, enquanto o núcleo da Terra se modifica quase incessantemente? Por que ele não esconderia em seu interior as últimas variedades dessas espécies titânicas, para as quais os anos são séculos, e os séculos, milênios?

Mas eu me permito ser levado por devaneios que já não cabe a mim alimentar! Chega dessas fantasias que o tempo transformou em realidades terríveis. Repito, a opinião foi construída sobre a natureza do fenômeno e o público admitiu incontestavelmente a existência de um ser prodigioso que não tinha nada em comum com as fabulosas serpentes marinhas.

Mas enquanto alguns viam apenas um problema puramente científico a ser resolvido, outros, mais pragmáticos, sobretudo na América e na Inglaterra, acreditavam que era necessário purgar o oceano desse monstro temível, a fim de normalizar as ligações transoceânicas. Os jornais industriais e comerciais tratavam a questão principalmente desse ponto de vista. A Shipping and Mercantile Gazette, o Lloyd, o Paquebot, a Revue Maritime et Coloniale, todas as publicações dedicadas às companhias de seguros que ameaçavam aumentar o valor de seus prêmios, foram unânimes nesse ponto.

Depois de a opinião pública ter se pronunciado, os Estados da União foram os primeiros a se manifestar. Em Nova Iorque, começaram os preparativos de uma expedição para caçar o narval. Uma fragata de longo alcance, o Abraham Lincoln, zarpou em direção ao mar o mais rápido possível. Os arsenais foram disponibilizados para o comandante Farragut, que acelerou ativamente o abastecimento de sua fragata com os armamentos.

Precisamente, e como sempre acontece, a partir do momento em que se decidiu perseguir o monstro, este não reapareceu. Durante dois meses, ninguém ouviu falar dele. Nenhum navio o encontrou. Parecia que o unicórnio sabia das conspirações que estavam sendo tramadas contra ele. Tinha-se falado tanto sobre isso, até mesmo pelo cabo transatlântico! Os brincalhões alegavam que o espertalhão havia interceptado um telegrama no meio do caminho e que agora tirava proveito disso.

Então, a fragata, armada para uma expedição longa e equipada com maravilhosas engenhocas de pesca, não sabia mais para onde rumar. E havia uma impaciên­cia crescente quando, em 2 de julho, soube-se que um steamer que fazia a linha de São Francisco, na Califórnia, a Xangai, tinha visto o animal três semanas antes nos mares do Pacífico norte.

Essa notícia causou uma enorme comoção. O comandante Farragut não teve nem 24 horas de descanso. Foram-lhe enviados mantimentos. Seu estoque estava cheio de carvão. Nenhum homem da tripulação ficou sem função. Restava-lhe apenas acender as fornalhas, aquecê-las e partir! Não lhe teriam per­doado nem meio dia de atraso! Ademais, o comandante Farragut estava ansioso para partir.

Três horas antes de o Abraham Lincoln deixar o cais do Brooklyn, recebi uma carta manuscrita que dizia:

Sr. Aronnax,

Professor do Museu de Paris,

Fifth Avenue Hotel.

Nova Iorque.

Senhor,

Se quiser se juntar à expedição do Abraham Lincoln, o governo da União fará, de bom grado, com que a França seja representada por sua pessoa nessa missão. O comandante Farragut tem uma cabine à sua disposição.

Muito cordialmente,

J.-B. Hobson,

Secretário da Marinha.


⁵ Maneira pela qual o papel de certos materiais impressos é dobrado. Nesse caso específico, eles são dobrados em quatro folhas. (N. T.)

Como o cavalheiro desejar

Três segundos antes da chegada da carta de J. B. Hobson, eu cogitava perseguir o unicórnio ou tanto quanto buscar a passagem do Noroeste. Três segundos depois de ler a carta do ilustre secretário da Marinha, finalmente percebi que minha verdadeira vocação, o único propósito da minha vida, era caçar esse monstro temeroso e purgar o mundo de sua presença.

Contudo, eu acabava de regressar de uma difícil viagem, estava cansado e ansioso por repousar. Tudo que queria era voltar a ver meu país, meus amigos, minha casinha no Jardin des Plantes e minhas preciosas coleções! Mas nada poderia me deter. Esqueci-me de tudo, cansaço, amigos e coleções e aceitei sem pensar a oferta do governo norte-americano.

Além do mais – pensei –, todos os caminhos levam à Europa, e o unicórnio será gentil o suficiente para me conduzir em direção às costas da França! Esse digno animal será capturado nos mares europeus – para minha conveniência pessoal – e não aceito trazer menos de meio metro da sua alabarda de marfim para o Museu de História Natural.

Mas, para isso, eu tinha de procurar esse narval no norte do Oceano Pacífico; o que significava, para retornar à França, tomar o caminho dos antípodas.

– Conseil! – gritei, impaciente.

Conseil era meu criado. Um rapaz dedicado que me acompanhava em todas as minhas viagens; um corajoso flamengo de quem eu gostava muito e que gostava muito de mim; um ser fleumático por natureza, regrado por princípio, zeloso por hábito, pouco afeito a se surpreender com as surpresas da vida, muito habilidoso com as mãos, apto para qualquer serviço, e, apesar do seu nome, alguém que nunca dava conselhos, mesmo quando lhe eram solicitados⁶.

Por manter contato com os cientistas de nosso pequeno mundo do Jardin des Plantes, Conseil acabou obtendo acesso a algumas informações. Eu tinha nele um especialista, profundo conhecedor da classificação em história natural. Ele percorria com agilidade acrobática todas as escalas de ramificações, grupos, classes, subclasses, ordens, famílias, gêneros, subgêneros, espécies e variedades. Mas seu conhecimento acabava aí. Classificar era sua vida, e ele não sabia nada além disso. Bastante versado na teoria da classificação, pouco na prática, ele não seria capaz de distinguir, creio eu, um cachalote de uma baleia! E, no entanto, que rapaz corajoso e digno!

Conseil seguia-me para onde quer que a ciência me levasse havia já dez anos. Nunca fez comentário algum sobre a longa duração ou o cansaço de uma viagem. Nenhuma objeção em fazer as malas para qualquer país – China ou Congo –, por mais remoto que fosse. Ele tanto ia para perto quanto para longe, sem pedir nada a mais por isso. Além disso, dispunha de uma bela saúde que desafiava todas as doenças; músculos fortes, mas sem nervos, sem a aparência de nervos – no sentido moral, entenda-se.

Esse rapaz tinha 30 anos, e sua idade estava para a do seu mestre, como 15 está para 20. Perdoe-me por usar essa forma para dizer que eu estava então com 40 anos.

Conseil tinha um único defeito. Formalista convicto, só se dirigia a mim na terceira pessoa – a ponto de isso ser irritante.

– Conseil! – repeti, enquanto começava os preparativos para a partida com minhas mãos febris.

Eu estava seguro de ter a companhia desse rapaz tão dedicado. Habitualmente, nunca perguntava se lhe convinha ou não me acompanhar em minhas viagens; mas, dessa vez, tratava-se de uma expedição que poderia se prolongar indefinidamente, uma empreitada perigosa, a perseguição de um animal que poderia afundar uma fragata como uma casca de noz! Havia nisso, então, motivo para refletir, mesmo se tratando do homem mais impassível do mundo! Qual seria a resposta de Conseil?

– Conseil! – gritei pela terceira vez. Enfim, ele apareceu.

– O senhor me chamou? – disse enquanto entrava.

– Sim, meu rapaz. Prepare-me, prepare-se. Partiremos daqui a duas horas.

– Como o cavalheiro desejar – Conseil respondeu calmamente.

– Nem um momento a perder. Coloque em minha mala todos os meus utensílios de viagem, roupas, camisas e meias, o máximo que puder, e se apresse!

– E as coleções do cavalheiro? – observou Conseil.

– Trataremos disso mais tarde.

– O quê! Os archaeotherium, os hyracotherium, os oreodontes, os queropótamos e as outras carcaças do cavalheiro?

– Vamos guardá-los no hotel.

– E a babirrussa viva do cavalheiro?

– Darei ordens para que seja alimentada enquanto estivermos fora. Aliás, vou dar ordem para enviarem nossa coleção para a França.

– Então não retornaremos a Paris? – perguntou Conseil.

– Sim... certamente... – respondi de forma evasiva –, mas com um pequeno desvio.

– O desvio que o cavalheiro achar necessário.

– Oh! não será muita coisa! Um caminho um pouco menos direto, só isso. Vamos embarcar no Abraham Lincoln.

– Como convier ao cavalheiro – respondeu calmamente Conseil.

– Sabe, meu amigo, trata-se de um monstro... o famoso narval... E nós vamos purgar os mares!... O autor de um livro in-quatro de dois volumes sobre Os mistérios das profundezas submarinas não pode se abster de embarcar com o comandante Farragut. Missão gloriosa, mas... perigosa também! Não sabemos para onde vamos! Esses animais podem ser muito temperamentais! Mas iremos mesmo assim! Temos um comandante extremamente corajoso!…

– Farei o que o cavalheiro fizer – respondeu Conseil.

– Pense bem nisso! Porque não quero esconder nada de você. Essa é uma daquelas viagens que fazemos sem saber se vamos voltar!

– Como o cavalheiro quiser.

Quinze minutos depois, nossas malas estavam prontas. Conseil as havia preparado rapidamente, e eu tinha certeza de que não faltava nada, pois o rapaz classificava camisas e roupas tão bem quanto o fazia com as aves ou os mamíferos.

O elevador do hotel nos deixou no hall de entrada do mezanino. Desci os poucos degraus que levavam ao térreo. Encerrei minha conta no vasto balcão, sempre cercado por uma considerável multidão. Deixei a ordem para despachar para Paris (França) minhas urnas de animais empalhados e minhas plantas desidratadas. Solicitei uma abertura de crédito suficiente para a babirrussa e, seguido por Conseil, entrei em um carro.

O veículo a 20 francos a corrida desceu pela Broadway até a Union Square, seguiu pela Quarta Avenida até o cruzamento com a Bowery Street, entrou na Katrin Street e parou no cais 34. Lá, o ferryboat Katrin nos transportou, homens, cavalos e carro, ao Brooklyn, o grande anexo de Nova Iorque, localizado na margem esquerda do East River, e, em poucos minutos, chegamos à doca perto da qual o Abraham Lincoln vomitava por suas duas chaminés torrentes de fumaça negra.

Nossa bagagem foi imediatamente transferida para o convés da fragata. Subi a bordo. Perguntei pelo comandante Farragut. Um dos marujos levou-me ao tombadilho, onde estava um oficial de boa aparência que me estendeu a mão.

– Senhor Pierre Aronnax? – ele disse.

– Ele mesmo – respondi. – Comandante Farragut?

– Em pessoa. Seja muito bem-vindo, professor. Sua cabine o aguarda.

Eu o saudei e deixei-o cuidando de seu equipamento. Em seguida, fui conduzido à cabine que me havia sido reservada.

O Abraham Lincoln tinha sido perfeitamente escolhido e preparado para seu novo destino. Era uma fragata de longo alcance, equipada com superaquecedores, o que tornou possível aumentar a pressão do vapor para 7 atmosferas. Sob essa pressão, o Abraham Lincoln atingia uma velocidade média de 18 milhas por hora, algo considerável, mas ainda assim insuficiente para lutar com o gigantesco cetáceo.

As instalações interiores da fragata correspondiam a suas qualidades náuticas. Fiquei muito satisfeito com minha cabine, localizada na traseira da embarcação e com acesso à sala dos oficiais.

– Ficaremos bem aqui – disse a Conseil.

– Tão bem quanto um caranguejo-ermitão abrigado na concha de um molusco, se o cavalheiro me permite a comparação.

Deixei Conseil guardando nossas malas, e fui até o convés acompanhar os preparativos para a partida.

Naquele momento, o comandante Farragut soltava as últimas amarrações que prendiam o Abraham Lincoln ao cais do Brooklyn. Ou seja, 15 minutos de atraso, ou um pouco menos, fariam a fragata partir sem mim, e eu perderia essa expedição extraordinária, sobrenatural, implausível, cujo relato verdadeiro, no entanto, poderá muito bem encontrar alguns descrentes.

Mas o comandante Farragut não queria desperdiçar nem um dia nem uma hora para alcançar os mares em que o animal tinha acabado de ser avistado. Mandou chamar o engenheiro.

– Estamos com boa pressão? – perguntou.

– Sim senhor – respondeu o engenheiro.

Go ahead ⁷ – gritou o comandante Farragut.

Com essa ordem, transmitida à máquina por meio de dispositivos de ar comprimido, os mecânicos acionaram a roda do arranque. O vapor assobiava enquanto corria pelas gavetas entreabertas. Os longos pistões horizontais gemeram e empurraram as bielas. As pás da hélice batiam nas ondas com uma rapidez cada vez maior, e o Abraham Lincoln avançou majestosamente no meio de uma centena de ferryboats e tenders⁸ lotados de espectadores, que o seguiam em cortejo.

Os cais do Brooklyn e toda a parte de Nova Iorque ao longo do East River estavam cobertos de curiosos. Três urras! saíram dos pulmões de 500 mil pessoas e eclodiram sucessivamente. Milhares de lenços acenaram sobre a massa compacta e saudaram o Abraham Lincoln até sua chegada às águas do Rio Hudson, na ponta dessa quase ilha alongada que forma a cidade de Nova Iorque.

Seguindo pela costa de Nova Jersey, em sua admirável margem direita do rio, cheio de pequenas vilas, passou entre os fortes que o saudaram com seus enormes canhões. O Abraham Lincoln respondeu arriando e hasteando três vezes a bandeira norte-americana, cujas 39 estrelas brilhavam em seu mastro; em seguida, mudando sua marcha para tomar o canal sinalizado, que contorna a baía interior formada pela ponta de Sandy Hook, deslizou por essa língua arenosa onde alguns milhares de espectadores o aplaudiram mais uma vez.

O cortejo dos boats e dos tenders continuava seguindo a fragata, deixando-a apenas na altura do light-boat⁹, cujas luzes marcam sua entrada nos canais de Nova Iorque.

Eram então 3 horas da tarde. O piloto desceu em sua canoa, e chegou à pequena escuna que o esperava sob o vento. Aumentaram as chamas; a hélice batia nas águas com maior velocidade; a fragata acompanhava a costa amarelada e plana de Long Island; e, às 8 da noite, depois de se afastar dos fogos da Fire Island, seguiu a todo vapor pelas águas escuras do Atlântico.


⁶ A palavra conseil, em francês, pode ser traduzida por conselho, em português. Por isso a anedota feita pelo personagem ao se referir ao nome de Conseil. (N. T.)

Vamos em frente, em inglês também no original. (N. T.)

⁸ Pequenos barcos a vapor que prestam serviço aos grandes steamers. (N. T.)

⁹ Barco pequeno com luzes potentes ou sinais de alerta que ficam ancorados em águas perigosas para alertar outras embarcações. (N. T.)

Ned Land

O comandante Farragut era um bom marinheiro, digno da fragata que comandava. Ele e seu navio eram um só. Ele era a alma dessa embarcação. Não tinha a menor dúvida a respeito do cetáceo e, por isso, não permitia que a existência do animal fosse discutida a bordo. Acreditava nisso como algumas mulheres acreditam no Leviatã – pela fé, não pela razão. O monstro existia, e ele tinha jurado livrar os mares de sua presença. Era uma espécie de Cavaleiro de Rodes, um Dieudonné de Gozon, indo ao encontro da serpente que desolava sua ilha. Ou o comandante Farragut mataria o narval, ou o narval mataria o comandante Farragut. Não havia meio-termo.

Os oficiais a bordo compartilhavam a opinião de seu líder. Bastava ouvi-los falar, conversar, discutir, calcular as diversas chances de um encontro, e observar a vasta extensão do ocea­no. Diversos homens se voluntariavam para permanecer nos mastros, tarefa que teria sido amaldiçoada em qualquer outra circunstância. Enquanto o sol descrevia seu arco diurno, a cabeça do mastro ficava cheia de marujos, cujos pés queimavam nas pranchas do convés, e eles não conseguiam ficar parados no lugar! No entanto, o Abraham Lincoln ainda não havia cortado com sua popa as águas suspeitas do Pacífico.

Quanto à tripulação, seu único objetivo era encontrar o unicórnio, arpoá-lo, içá-lo a bordo e esquartejá-lo. O mar era observado com muita atenção. Além disso, o comandante Farragut falava de certa recompensa de 2 mil dólares que estava reservada a quem avistasse o animal, fosse grumete ou marujo, mestre ou oficial. Deixo o leitor imaginar se os olhos se exercitavam a bordo do Abraham Lincoln.

No que se refere a mim, eu não ficava devendo nada para o restante da tripulação e não abria mão de minhas observações cotidianas. A fragata teria mil razões para se chamar Argus. Sozinho na multidão, Conseil protestava por meio de sua indiferença em relação à questão que tanto nos animava, e destoava do entusiasmo geral a bordo.

Como já disse, o comandante Farragut tinha cuidadosamente providenciado para seu navio aparelhos próprios à pesca do gigante cetáceo. Nenhum baleeiro esteve tão bem equipado. Tínhamos a bordo todos os engenhos conhecidos, desde arpões lançados manualmente até flechas farpadas com bacamartes e fardos explosivos. Sobre o castelo da proa, havia um canhão que era carregado pela culatra, com a parede espessa e o diâmetro estreito, e cujo protótipo deve figurar na Exposição Universal de 1867. Esse precioso instrumento, de origem norte-americana, lançava, sem cerimônia, um projétil cônico de 4 quilos a uma distância média de 16 quilômetros.

Então, o Abraham Lincoln dispunha de todos os meios de destruição. E tinha mais. Ele contava com Ned Land, o rei dos arpoadores.

Ned Land era um canadense de rara habilidade manual, e não se conhecia outro como ele em sua perigosa profissão. Destreza e sangue-frio, audácia e astúcia, ele tinha todas essas qualidades em um nível superior, e precisava ser uma baleia muito maligna ou um cachalote particularmente astucioso para escapar de seu golpe de arpão.

Ned Land tinha por volta de 40 anos. Era um homem alto – mais de 1,90 metro –, vigoroso, sério, pouco comunicativo, algumas vezes violento e bastante nervoso quando contrariado. Sua presença chamava a atenção, sobretudo a potência de seu olhar, que acentuava singularmente sua fisionomia.

Acho que o comandante Farragut fez uma boa escolha ao convidá-lo a bordo. Ele valia por toda a tripulação, sobretudo por seus olhos e pelos braços. A melhor comparação a ser feita é com um telescópio potente que fosse, ao mesmo tempo, um canhão sempre a postos para atirar.

Quem diz canadense diz francês e, ainda que pouco comunicativo, devo admitir que ele tinha certa afeição por mim. Certamente, minha nacionalidade o atraía. Era, para ele, uma ocasião de falar, e, para mim, a oportunidade de escutar a velha língua de Rabelais, que ainda é adotada em algumas províncias canadenses. A família do arpoador era de Quebec e já formava uma tribo de ousados pescadores na época em que essa cidade ainda pertencia à França.

Pouco a pouco, Ned pegou gosto em conversar, e eu gostava de ouvir suas narrativas e aventuras pelos mares polares. Ele contava sobre suas pescas e seus combates com uma poética natural. Sua narrativa tinha uma forma épica e eu ficava com a impressão de ouvir um Homero canadense cantando a Ilíada

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