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Racismo colonial: trabalho e formação profissional

Racismo colonial: trabalho e formação profissional

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Racismo colonial: trabalho e formação profissional

Duração:
357 páginas
5 horas
Lançados:
6 de jul. de 2021
ISBN:
9786586464337
Formato:
Livro

Descrição

A questão racial tem uma robusta tradição no pensamento social brasileiro, com produções teóricas que ora enfatizam o plano macro social e sua feição estruturadora da organização da sociedade, que ora destacam o desenho micro e a interface singular e identitária.

Tendo origem na tese intitulada A Máscara de Flandres: o racismo estrutural colonialista no processo de trabalho e formação profissional negra, do Programa de Pós-graduação em Serviço Social da UFRJ, este livro traz para a cena das produções o racismo como questão social.

Cibele Henriques, assistente social, mulher negra, filha, esposa e mãe de duas meninas, fez uma pesquisa potente e de fôlego, seja no levantamento e estudo de produções teóricas com presença periódica na Biblioteca Nacional, seja na pesquisa de campo com toda a complexidade que a abordagem sobre a questão racial requer.

A abordagem do racismo estrutural e dos processos de expropriação de mulheres negras diaspóricas reúne variáveis à crítica da modernidade, do colonialismo e do sexismo, o que ajuda na identificação de mecanismos de lactificação por meio do silenciamento e da invisibilização de sua ancestralidade na formação e dinâmicas de trabalho.

Este trabalho coloca em evidência a agência negra coletiva, cuja luta é antirracista, antissexista e anticapitalista.

Lilia Guimarães Pougy
Professora titular da Escola de Serviço Social da UFRJ
Lançados:
6 de jul. de 2021
ISBN:
9786586464337
Formato:
Livro

Sobre o autor


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FolhaRosto

Ao meu Orí e aos Orixás que me sustentam para as lutas cotidianas. A minha família afetiva, meu pai Celso Pestana (in memorian) e minha mãe Neide da Silva, irmãs Cinara e Simone, minhas filhas Maria Eduarda e Maria Fernanda. Ao companheiro Francisco.

Aos professores Lilia Pougy e Vantuil Pereira pelos ensinamentos e pela escrita tão generosa na construção desse livro e a todas usuárias e usuários e alunas e alunos de Serviço Social que me propiciaram reflexões sobre a realidade concreta.

SUMÁRIO

[CAPA]

[FOLHA DE ROSTO]

[DEDICATÓRIA]

Introdução

Diáspora negra, acumulação primitiva e expropriações

A modernidade e o contrato de dominação étnico-racial, sexual e de gênero

Mulheres negras e expropriações: o desterro da diáspora negra

O racismo, o sexismo e o colonialismo nas relações sociais brasileiras

Os determinantes econômicos, políticos e religiosos do racismo no Brasil: a materialização da maldição de Cam

O racismo, o sexismo e o colonialismo na constituição do mercado de trabalho no Brasil: o preterimento das/dos trabalhadoras/es de ganho

O racismo, o sexismo e as colonialidades na constituição das políticas sociais no Brasil: a alienação das/dos indigentes negras/os libertas/os

Silenciamento e invisibilidade da diáspora negra

O racismo, o patriarcado e as colonialidades: o processo de silenciamento e invisibilidade da diáspora afro-brasileira

Eu não sou mulher negra? A lactificação da diáspora trabalhadora afro-brasileira no sistema educacional

As colonialidades no processo de trabalho e formação profissional da diáspora negra trabalhadora afro-brasileira

Considerações finais

[REFERÊNCIAS]

[SOBRE A AUTORA]

[CRÉDITOS]

INTRODUÇÃO

OBSERVANDO AQUILO QUE É FAMILIAR E SENTINDO as (des)potencializações de ser uma mulher diaspórica afro-brasileira[1] na sociedade, refletimos sobre a necessidade de se construir uma narrativa sobre os lugares sociais reservados para negras/os diaspóricas/os trabalhadoras/es no processo de formação de trabalho profissional, com vistas a (re)potencializar itinerários de vida e trabalho.

A diáspora é aqui entendida como o sequestro e o cárcere sócio-racial dos povos africanos que foram violentamente desterrados e escravizados em várias partes do mundo pelos colonizadores europeus (Mortari, 2015). Nesta pesquisa focamos especificamente na diáspora brasileira, também conhecida como afro-brasileira. Apesar de polêmica, a escolha desta terminologia expressa uma crítica implícita — a construção sincrética da afro-brasilidade que contém em si aculturações, coloniadades e africanidade.

Utilizaremos a categoria negra para descrever o conjunto de pretos e pardos, de acordo como é categorizado pelo sistema classificatório de raça e cor do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2013). Tal escolha se deu porque o sistema classificatório do IBGE é utilizado na política de cotas raciais na educação superior e no funcionalismo público federal para fins de classificação racial mista: autodeclaração e heteroatribuição[2] de pertença racial. Contudo, tal uso será realizado com ressalvas, pois a classificação não define a negritude diaspórica brasileira, que consideramos ser uma construção social de resistência e sobrevivência no Brasil.

O nosso intiuito foi trazer à tona experiências coletivas de racismo que foram silenciadas, ocultadas e não publicizadas e que são estruturais e reproduzem práticas sociais que se constituem em cargas coloniais pesadas, pois operam opressões raciais de classe, gênero, sexualidade, idade, território e religiosidade, que denominamos de colonialidades.

A pesquisa bibliográfica e empírica realizada ao longo de quatro anos (2016-2020) teve como objetivo geral identificar as estruturas colonialistas e racistas presentes no cotidiano profissional de negras/os diaspóricas/os trabalhadoras/es afro-brasileiras/os, pelas quais são produzidas as condições de apagamento, subordinação e silenciamento numa universidade pública federal.

Assim, peço licença ao leitor para fazer uma escrita coletiva do que é ser negra/o diaspórica/o trabalhadora/or afro-brasileira/o na sociedade brasileira. Portanto, não se trata de uma escrita singular com autoria e responsabilidade, mas coletiva, afrocentrada e diaspórica. É uma escrita que envolve o sujeito histórico e os saberes filosóficos pretos.

Velho aponta a necessidade do pesquisador se colocar no lugar do outro (1996, p. 127), mas fazendo uma travessia da perspectiva ocidental do olhar para uma perspectiva afrocentrada e diaspórica. Com isso pretendemos nos colocar no lugar da mulher negra diaspórica trabalhadora afro-brasileira que, como Grada Kilomba (2019) define, é o outro do outro.

Em franca travessia diaspórica, não pretendo ter a neutralidade científica ocidental, pelo contrário, preciso falar sobre a diáspora para entender as particularidades estruturais que compõem o racismo, o sexismo e o colonialismo no processo de trabalho e formação profissional. Então, é a partir da (re)ancestralização e da (re)potencialização em África e do entendimento da história do meu povo que pretendo encontrar estratégias para a luta coletiva. Não adianta uma corrente se quebrar, é preciso que todas se quebrem para que as mãos pretas e pardas possam construir novos lugares sociais e existenciais (Ribeiro, 2016).

A realização desta pesquisa pretendeu refletir como se gestam as relações sociais de raça, gênero e classe que são atravessadas pelas colonialidades e, portanto, são estruturalmente hierárquicas e desiguais. Sua validade se renova porque visa gerar potência em negras/os diaspóricas/os para que coletivamente possam construir ferramentas que as/os libertem do jugo do colonizador/opressor.

A escolha do título – Racismo colonial: trabalho e formação profissional – não foi aleatória. Objetiva anunciar ao leitor a presença do racismo e das colonialidades imprimindo embranquecimentos às/aos diaspóricas/os e, portanto, cargas coloniais pesadas que fomentam cárceres epistemológicos e institucionais. Enquanto precisarmos associar o termo negra/o a conceitos, categorias e movimentos estético-políticos da branquidade[3], ainda estamos colonizados por uma epistemologia embranquecida, a qual não serve para pensar nossa existência. Enegrecer os ismos não nos liberta e não nos reconecta com nossa filosofia útero-mítica ancestral africana.

A hipótese central do presente estudo é de que, no sistema educacional e no mercado de trabalho, o racismo é estrutural e colonial, pois mimetiza colonialidades que fazem com que negras/os diaspóricas/os trabalhadoras/es afro-brasileiras/os sejam tratadas/os como mentes e corpos de escravizados, fazendo com que a diáspora afro-brasileira rememore as cargas coloniais pesadas do racismo, do sexismo e do colonialismo sentidas pela diáspora negra africana.

Com vistas a desvelar as expressões do racismo colonial utilizaremos um conjunto de instrumentos e procedimentos que visam fornecer as bases lógicas da investigação científica, bem como propiciar a construção de uma linha de raciocínio que nos forneça subsídios teórico-metodológicos para a interpretação qualitativa do cotidiano profissional da diáspora negra trabalhadora na particularidade brasileira (Gil, 1999; Lakatos e Marconi, 1993).

Para tanto, realizamos um breve levantamento empírico, respaldado pelo Certificado de Apresentação de Apreciação Ética (CAAE) 02026918.7.0000.5582. O público-alvo escolhido é negro, constituído por pretas/os e pardas/os autodeclaradas/os, composto por cotistas e não cotistas na educação superior e no funcionalismo público federal que exercem atividades laborativas numa universidade pública brasileira.

Estrategicamente optamos por um universo de 15 entrevistadas/os, para que pudéssemos tratar qualitativamente com mais afinco os dados coletados e interpretar os discursos, as situações raciais e os determinantes do racismo estrutural colonialista.

No que concerne às entrevistas, utilizamos um roteiro de entrevista aberto e flexível, que objetivou captar as situações de racismo no cotidiano profissional das/os negras/os diaspóricas/os trabalhadoras/es afro-brasileiras/os, bem como os itinerários de resistência no processo de formação e trabalho profissional.

As/os participantes consentiram previamente de forma livre e esclarecida a sua participação na presente pesquisa, por meio do Registro de Consentimento Livre e Esclarecido. Foram informados dos objetivos, riscos e benefícios e das condições da realização da pesquisa de modo claro, objetivo e conciso.

O itinerário de pesquisa previu a coleta de dados funcionais no setor de departamento pessoal de uma instituição pública de ensino superior. Apontamos como dificuldades: a procrastinação institucional no fornecimento dos dados, a falta de publicidade dos dados para pesquisa e mapeamento e a falta de um acervo público.

Convidamos um total de 25 negras/os trabalhadoras/es diaspóricas/os afro-brasileiras/os o que inclui servidores públicos, temporários, estudantes em treinamento profissional, cotistas e não cotistas. Desse total, 15 pessoas aceitaram o convite e foram entrevistadas.

Como descrito no quadro acima, a amostra foi composta por 11 participantes não cotistas e quatro cotistas. A maior parte das/os entrevistadas/os possui nível superior completo (11), contudo, nem todos estão alocados na estrutura funcional de acordo com sua escolaridade — cerca de 50% desse total exerce atividades de nível médio, não são vistos como trabalhadores intelectuais, pelo contrário, são vistos como auxiliares. Por conta disso não são identificados pelo nome nos créditos dos projetos de pesquisa e programas assistenciais desenvolvidos na instituição pública pesquisada.

No decorrer do levantamento tivemos dificuldades: três entrevistas foram recusadas por cotistas que ingressaram no funcionalismo público e expuseram que não queriam falar sobre cotas raciais. E ainda tivemos três entrevistas com docentes negras não cotistas que não foram confirmadas, portanto não foram realizadas.

As entrevistas foram gravadas com autorização dos participantes e, posteriormente, transcritas para a análise dos dados qualitativamente. Alguns entrevistados se sentiram desconfortáveis em falar das situações de racismo no ambiente de trabalho, mesmo numa sala fechada. Cerca de 40% das entrevistas foi realizada fora do ambiente de trabalho. Além disso, algumas mulheres entrevistadas choraram ao relatar as situações raciais vividas. A pesquisa empírica foi concluída no decorrer do primeiro trimestre de 2020.

Visando uma aproximação maior com o objeto estudado – as expressões de racismo colonial no processo de formação e trabalho da diáspora negra afro-brasileira –, realizamos uma ampla revisão bibliográfica que nos forneceu subsídios para a análise do conteúdo das entrevistas realizadas no campo empírico.

No primeiro capítulo, intitulado Diáspora negra, acumulação primitiva e expropriações, abordamos o processo de hierarquização das relações sociais entre homens e mulheres de diversas raças e etnias, que não foi exclusivo do sistema capitalista. Houve experiências precedentes no período feudal (Federeci, 2017), mas, sem dúvida, tal processo de organização do trabalho coletivo ganhou maior capilaridade no modo de produção capitalista, no qual passou a ser concebido a partir de uma nova determinação social — a expropriação mercantil — basilar no processo de hierarquização das desigualdades raciais de gênero e de classe que consubstanciam a chamada acumulação primitiva.

Marx (2005) aponta que a expropriação — apropriação da terra, do capital e da renda — arregimentou o processo de assalariamento e a formação de duas classes: a classe de proprietários (provida de riquezas) e a classe de trabalhadores (desprovida de propriedade e riqueza). No entanto, o estudioso alemão não analisou tal processo a partir das categorias de raça e gênero, por isso se faz importante a releitura ampla desse processo que fixou as mulheres na divisão social do trabalho como meras responsáveis pelo processo de produção e reprodução social dos trabalhadores.

Partindo da crítica a essa conceituação, denominamos a chamada acumulação primitiva como o amplo processo de despojo capitalista que englobou a expropriação da terra; a usurpação dos meios de produção; a apartação dos trabalhadores do produto final do trabalho coletivo; a apropriação do corpo das mulheres e de seus saberes milenares; e o genocídio das bruxas, curandeiras e mulheres africanas, que em diáspora continuaram a sofrer expropriações permanentes cuja capilaridade está nas relações sociais de raça, gênero e classe que se alicerçaram sob o trabalho escravo.

Enfim, objetivamos compreender como se forjou o contrato de dominação étnico-racial, sexual e de gênero que fomentou as bases da modernidade, a qual constituiu para a diáspora negra o seu encarceramento no conceito político da raça, justificativa usada para a escravidão e as expropriações permanentes dos corpos negros diaspóricos no mundo e na sociedade diaspórica brasileira.

A partir deste pressuposto fundante, no segundo capítulo, O racismo, o sexismo e o colonialismo nas relações sociais brasileiras, pretendemos entender as bases sócio-históricas, ideo-políticas e mítico-religiosas do processo de construção da diáspora afro-brasileira, bem como seus processos viscerais de resistência que possibilitaram a sobrevivência coletiva do povo africano e de seus descendentes, a partir da construção de códigos culturais e religiosos de luta que ainda sustentam a diáspora negra trabalhadora afro-brasileira no Brasil.

Neste capítulo visamos compreender como o racismo — relação econômica, social e política — se constituiu como estruturante das relações sociais de raça, gênero e classe. É sabido que o racismo foi experimentado em outros modos de organização social, como o feudalismo e o escravismo, mas se intensificou de modo mais violento e estrutural no capitalismo, pois condenou milhões de africanos, indígenas e árabes à escravidão física e cultural, enfim, a morte em vida.

No Brasil, o racismo é estrutural e estruturante das relações sociais porque está associado ao contrato de dominação étnico-racial e de gênero que foi transplantado através do colonialismo europeu e edificado pelo sequestro de africanas/os e pela escravidão da diáspora, com vistas a promover a acumulação de capitais.

Tal processo de escravização se estruturou por meio de práticas sociais racistas, sexistas e colonialistas que asseguraram a manutenção da acumulação de capitais em nível global. A pilhagem e a extração de riquezas do solo foram sustentadas pelo sangue e suor negro, ou seja, por meio do trabalho compulsório forçado da diáspora negra afro-brasileira, principalmente das mulheres negras africanas que foram exploradas física e sexualmente, sendo o útero-motor do processo de reprodução do trabalho escravo.

O processo de aniquilação subjetiva e física da diáspora negra foi contrarrestado por quilombos e irmandades que se constituíram em estratégias de circulação/territorialização negra nas cidades brasileiras, ao mesmo tempo que se constituíram em transgressão ao modelo liberal conservador das elites lusitanas e nacionais. O projeto de embranquecimento foi materializado por migração incentivada, miscigenação e progressivo extermínio geracional da diáspora, que resistiu com a instituição de trabalhos de ganho de base comunitária, construídos a partir da (re)ancestralização da filosofia africana no Brasil.

Ainda neste capítulo, discorremos sobre o processo de constituição do mercado de trabalho e das políticas sociais a partir da compreensão da estrutura racista, sexista e colonialista do Estado Brasileiro que destinou para negras/os diaspóricas/os, na condição de forras/os ou libertas/os, um mercado de trabalho racializado e, por conseguinte, a edificação de um aparato educacional racializado, no qual sua entrada foi refreada e sua cidadania foi preterida em função da construção de políticas sócio-raciais embranquecidas, na qual as/os pretas/os e pardas/os foram lidas como não sujeitas/os, como incivilizadas/os, para os quais coube a indigência e a repressão militar e policial desumanizante.

Assim, a não participação das diversas frações raciais da classe trabalhadora na política brasileira — a qual predominantemente foi composta de famílias brancas oriundas da oligarquia rural brasileira que ocupavam cargos nos poderes legislativo, executivo e judiciário — foi fulcral para a constituição de um modelo peculiar de cidadania, uma cidadania racializada e regulada pelo mercado, a qual apartou os trabalhadores informais negros da mísera rede de proteção social da Era Vargas (1930-1945).

Santos, ao estudar as relações de trabalho no Brasil a partir da Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT) que foi sancionada pelo Governo Vargas por meio do decreto 5.452/43, denominou essa concepção restrita de civilidade de Cidadania Regulada (1979 apud Carvalho, 2008), pois apenas destinou proteção social para os trabalhadores que possuíam contrato de trabalho regulamentado pelo poder público e, por conseguinte, que tinham escolaridade maior e eram sindicalizados. Enfim, a branquidade brasileira que historicamente obteve acesso ao ensino regular nas escolas municipais, estaduais e federais (Ware, 2004).

A partir das lutas sociais, proletárias e insurgências negras no Brasil, que culminaram na Revolução de 1930 e na reestruturação do poder oligárquico, o Estado se travestiu de senhor benevolente e, em associação com a Igreja e o empresariado, passou a gestar formas sofisticadas de controle social dos desterrados – negras/os diaspóricas/os pobres — ao mesmo tempo que instilou seguranças sociais mínimas para as/os trabalhadoras/es nacionais brancas/os imigrantes, entre as quais o letramento obrigatório e continuado e o acesso aos melhores postos de trabalho.

Associou-se a esse cenário a constituição de leis infraconstitucionais que institucionalizaram práticas sociais e assistenciais pelas quais os agentes sociais passaram a classificar e rotular a diáspora negra brasileira em capazes e não capazes, aptos e não aptos, merecedores e não merecedores, perigosas/os e não perigosas/os, criando nichos de inferioridade e periculosidade para a diáspora negra afro-brasileira.

No terceiro capítulo, Silenciamento e invisibilidade da diáspora negra, buscamos verificar como se constituíram os processos coletivos de silenciamento e invisibilidade da diáspora negra no Brasil. Tendo como pressuposto que o colonialismo, o patriarcado e o racismo no Brasil continuam a promover epistemicídios cotidianos da diáspora negra trabalhadora afro-brasileira por meio da necro-colonial[4] política do Estado Brasileiro que ainda trata negras/os diaspóricas/os como mentes e corpos de escravizadas/os.

Destacamos a denúncia de Lélia Gonzalez (1984) do racismo linguístico existente que calou a voz do povo negro, matou suas possibilidades reais e concretas de existir em diáspora, matou sua subjetividade, sua linguagem, seu pretuguês, e aniquilou sua expressão corporal. Por isso buscamos pesquisar quais processos de lactificação se constituíram como transversais à socialização e ao letramento educacional da diáspora negra afro-brasileira.

Procuramos compreender o processo sócio-histórico desse silenciamento linguístico coletivo que fez com que o povo preto e pardo não conseguisse constituir uma autonomia linguística, alimentar, territorial, religiosa e educacional frente à branquidade. E, por conseguinte, entender os processos racistas e colonialistas que são estruturais na reprodução social e formação profissional negra – expressões vivas do racismo colonial.

Portanto, buscamos refletir as dificuldades existentes para a construção de uma identidade coletiva e linguística de resistência, em especial para as mulheres negras diaspóricas que sofrem duplamente com o racismo e o sexismo, ademais do classismo. Por fim, que fique claro que não queremos apontar erros e/ou acertos, mas suscitar reflexões que possam ajudar na construção de decolonialidades. Enfim, entender como se forja a alienação de negras/os letradas/os em relação às/aos negras/os plebeus (Moura, 1994) para pensar a construção de uma agência negra de lutas contra a necrocolonial política estatal brasileira, bem como promover deslocamentos epistemológicos e institucionais que possibilitem (re)ancestralizar a diáspora.

Cabe esclarecer que a presente pesquisa não objetiva questionar a construção institucional nem as decisões institucionais ao norte, inclusive a seleção étnico-racial embranquecida realizada para ingresso de negras/os nas instituições educacionais. Pelo contrário, objetivamos refletir os usos e os sentidos da raça, com vistas a pensar o que é ser negra/o letrada/o diaspórica/o afro-brasileira/o dentro da estrutura embranquecida e de matriz epistemológica ocidental e promover deslocamentos ao Sul Global negro.

Seguindo, pretendemos compreender a associação dos sistemas de educação, direito e justiça no processo de reestruturação do sistema de cotas numa sociedade racista e autoritária como a brasileira, que pune, encarcera e extermina negras/os diaspóricas/os afro-brasileiras/os pobres diariamente em nome da justiça.

Queremos compreender o porquê de negras/os letradas/os diaspóricas/os trabalhadoras/es afro-brasileiras/os apoiarem acriticamente aqueles que nos matam subjetivamente e fisicamente por meio de leis racializadas e racistas que não ampliam o acesso ao fundo público, que compreende a riqueza social produzida pelos trabalhadores e é negro, haja vista que a maioria da população brasileira (56%) se autodeclara negra, como aponta o informativo Desigualdades sociais por cor e raça do IBGE (2018).

Nossa crítica se sustenta na aposta da construção de negritudes diaspóricas pluriversais que sejam potência de construção para uma práxis diaspórica de ruptura com a filosofia eurocêntrica, a qual perpassa pela apreensão sistemática da filosofia africana nas práticas sociais e institucionais e, inclusive, nos currículos educacionais para a construção de ressignificação da experiência dessa negritude estético-política que tem promovido leituras estéticas e políticas importantes, mas fenotipicamente idealizadas e esvaziadas do conteúdo africanista.

Tal aposta deriva da vontade de enfrentar o racismo estrutural e colonial, que rememora e planta visceralmente dores coloniais em corpos negros para que se tornem palatáveis para a exploração mercantil (Kilomba, 2019).

De tal modo, intencionamos com a análise do levantamento empírico abordar as expressões do racismo colonial por meio do vivido, que tem um viés economicista, mas também um viés coercitivo-educativo, mediatizado pela escola do colonizador — a universidade pública. Apresentamos situações racistas vivenciadas pela diáspora negra trabalhadora afro-brasileira no cotidiano profissional universitário, as quais circunscrevem corpos negros e mentes negras em lugares escravizados para a construção de uma excelência universitária que remete os créditos apenas para os representantes da branquidade.

Nossas irmãs e irmãos negras/os diaspóricas/os varrem, limpam, abrem unidades acadêmicas e portões, abastecem materiais, promovem cuidados assistenciais aos usuários, mas nem sequer são colocados seus nomes nas laudas dos projetos de pesquisa e assistenciais e quiçá recebem os emolumentos das patentes registradas.

Esperamos que essa pesquisa seja um rito de passagem que nos possibilite dar um grito: Existimos, não somos invisíveis!. Bem como colaborar com a construção de diálogos mulheristas nos campos profissional e acadêmico, pautados na afrocentricidade (Assante, 2014, p. 94), que é a conscientização sobre a agência dos povos africanos de seu lugar de produção de conhecimento no mundo, bem como reivindicar a construção de um sistema de educação que esteja a serviço do povo preto. Enfim, que seja potência geradora de lutas de libertação do jugo colonial e racista do Estado Brasileiro.

NOTAS

1 Denominamos de mulheres diaspóricas trabalhadoras afro-brasileiras as mulheres que se autodeclaram pardas e pretas, que necessitam vender sua força de trabalho para sobreviver e sustentar sua família e que possuem ancestralidade diaspórica. Assim sendo, tal caracterização consiste numa percepção interseccional de raça, gênero, classe e de geração que objetiva compreender o que é ser mulher negra trabalhadora herdeira do legado da escravidão no Brasil.

2 A heteroatribuição ou heteroidentificação é quando outra pessoa atribui/define o grupo racial ao qual a/o sujeita/o pertence (IBGE, 2013).

3 O termo branquidade expressa a relação de poder e dominação dos brancos sobre os negros. Para fins elucidativos, o termo branquitude está associado ao termo negritude, que surge como um movimento de reparação aos valores culturais e individuais do negro, além de um forte propulsionador da descolonização da África (Senghor, 1945; Césaire, 1978; Munanga, 1988). Portanto, não seria lógico utilizarmos o termo branquitude, pois despotencializa o movimento revolucionário da negritude que buscou fissurar o poder branco. Assim, optamos por utilizar o termo branquidade para expressar o poder branco, que apenas aceita a negridade (cultura e valores negros embranquecidos) como única

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