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Agostinho para Todos

Agostinho para Todos

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Agostinho para Todos

Duração:
258 páginas
3 horas
Lançados:
23 de jul. de 2021
ISBN:
9786586173499
Formato:
Livro

Descrição

"Agostinho para Todos" apresenta, de maneira breve e lúdica, um dos maiores teólogos da igreja dos primeiros séculos: Agostinho de Hipona.

Uma verdadeira viagem pela vida e pensamento de Agostinho, apresentando não apenas a sua biografia, mas também a teologia e as controvérsias de sua época, que permanecem até os nossos dias.
Lançados:
23 de jul. de 2021
ISBN:
9786586173499
Formato:
Livro

Sobre o autor


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Agostinho para Todos - Stephen A. Cooper

CAPÍTULO 1

Começos frágeis

AURELIUS AUGUSTINUS nasceu em 354 depois de Cristo (morreu em 430) e era o filho mais velho de um pequeno proprie­tário de terras, um respeitável cidadão de Tagaste, cidade no norte da África. Tagaste estava localizada no que os romanos chamavam de Numídia proconsular (Souk-Ahras na atual Argélia) e ficava a quase setenta quilômetros da costa do Mediterrâneo. O pai de Agostinho, Patricius (Patrício, como nós o chamaríamos), não era de modo algum um homem rico, mas possuía terras suficien­tes para sustentar a família, para ter com vários escravos e ter aspirações para que seu filho fosse além de seu próprio status. A mãe de Agostinho, Mônica, teria um papel muito maior que o do pai na vida do filho. Ela vinha de uma família de posses modestas. Todavia, a família de Agostinho não era pobre. Eles não pertenciam à parcela da população que constituía a grande maioria do império romano (90% a 95% da população), que era de agricultores pobres. Historiadores estimam que menos de 10% dos habitantes do império romano tardio podiam ler, e poucos podiam escrever. O fato de a família de Agostinho lhe prover ensino é suficiente para dizer que ele estava em uma situação melhor que muitos, embora longe do conforto da elite romana.

Em termos do que chamaríamos de identidade cultural ou étnica, Agostinho e sua família eram afro-romanos: romanos por causa da língua materna, o latim; africanos por causa da localização geográfica na África romana. Contudo, quando falamos da África romana ou dos afro-romanos, precisamos nos distanciar das associações raciais e geográficas atuais. África era como os romanos se referiam à província (África proconsular) cuja capital era Cartago, a colônia fenícia estabelecida no oitavo século antes de Cristo ao longo da costa norte-africana (sudoeste) do Mediterrâneo. Cartago era uma importante potência comercial marítima no mundo antigo, que Roma finalmente destruiu após a longa série de guerras púnicas do segundo e do terceiro séculos antes de Cristo. Mais tarde, os romanos reocuparam a área com veteranos do exército, e a África se tornou apenas mais uma parte do império romano na qual povos e tradições locais foram incorporados em vários níveis da cultura do mundo romano. Para outros romanos, os afro-romanos tinham um sotaque peculiar e eram impetuosos em relação à vida emocional – ou, pelo menos, esse era o estereótipo. O nome da mãe de Agostinho, Mônica (ou melhor, Mônnica, como escrevia o filho), não é latino, mas provavelmente berbere, vindo de uma divindade local chamada Mon. Com isso, alguns estudiosos sugerem que ela talvez não seja completamente de origem romana. Em todo caso, podemos ter certeza de que Agostinho e sua família se identificavam com a cultura latina dos conquistadores há muito estabelecidos, não com os estratos da população que ainda falavam púnico (uma língua relacionada ao hebraico), ou mesmo berbere, uma língua africana falada nas regiões rurais, como ainda ocorre em algumas partes da Argélia hoje.

O início das Confissões não nos oferece o tipo de informação pessoal e concreta que esperamos na narrativa de uma vida. Em vez disso, suas primeiras linhas tratam da questão que está mais próxima do coração de Agostinho: uma oração a Deus como uma Vida cuja natureza, notoriamente diferente da nossa, não pode ser totalmente captada no pensamento. Agostinho consi­derava os fatos essenciais sobre si mesmo um tanto incidentais para a mensagem de seu livro. Quando chamamos as Confissões de autobiografia, estamos usando o termo no sentido amplo de "autoescritá, em vez do significado comum mais restritivo. O livro não é, de modo algum, um relato abrangente dos fatos de sua vida.

Grande é o Senhor e digno de ser louvado; Sua grandeza não tem limites; é impossível medir o Seu entendimento (Sl 145.3; 147.5). E Tu queres que Te louve o ser humano, mera partícula de Tua criação; o homem que carrega consigo a mortalidade, o testemunho de seu pecado, o testemunho de que Deus se opõe aos orgulhosos (Tg 4.6; 1Pe 5.5). No entanto, o ser humano, mera partícula de Tua criação, quer Te louvar. Tu nos desper­taste para o prazer de Te louvar, pois nos criaste para Ti, e o nosso coração não tem sossego enquanto não repousar em Ti. Concede-me, Senhor, que eu saiba e entenda qual vem primei­ro: invocar-Te ou louvar-Te? Conhecer-Te ou invocar-Te? Pois quem pode invocar-Te sem Te conhecer?

(Confissões, livro 1, 1)

Os estudiosos que analisam as motivações para esse trabalho apontam uma série de fatores. Por um lado, Agostinho precisava explicar à igreja quem ele era naquele momento, uma vez que tinha um passado maniqueísta. Pois, embora fosse agora bispo católico, muitos cristãos latinos de sua época, particularmente na África, o conheciam como um herege. Outro estímulo que levou à escrita das Confissões foi o de ser uma resposta a um erudito e asceta cristão bem conhecido (e muito próspero), Paulino de Nola. Alípio, amigo de Agostinho, havia começado a se corresponder com Paulino, que se perguntava como Alípio havia se convertido à vida ascética. Alípio parece ter passado a questão para Agostinho. Isso pode explicar por que, em sua própria narrativa de conversão, ele dá amplo espaço à biografia e à conversão de Alípio. Mas as várias circunstâncias externas que contribuíram para a obra não passam disto: circunstâncias que contribuíram. Foi a motivação da mente e do espírito de Agostinho que o levou a esse projeto. Sua própria experiência espiritual levou-o a dar expressão a uma nova e mais profunda compreensão do ensinamento de São Paulo sobre a graça divina. E sua nova compreensão foi algo que se desenvolveu durante a década que sucedeu sua conversão à igreja católica. Aqueles foram os anos em que suas tentativas de examinar seu passado permearam-lhe a mente com o crescente conhecimento da Bíblia e a experiência da vida de fé.

Em primeiro lugar, porém, o livro é a história de uma jornada espiritual. Em seu próprio tempo, não havia nada estranho no fato de faltar às Confissões uma introdução autobiográfica centrada no autor. Nesse sentido, ele nos faz lembrar do início da biografia anterior do filósofo Plotino. Esse grande pensador pagão do século anterior exerceu uma influência significativa na conversão e no pensamento de Agostinho. Plotino, fundador do neoplatonismo, era – de acordo com seu aluno e biógrafo Porfírio – extremamente reticente em relação aos dados factuais de sua vida; ao que parece, Agostinho também quis direcionar seus leitores para o aspecto espiritual de sua vida.

Essa é certamente a impressão que nos vem do Livro I das Confissões. Depois das palavras iniciais a Deus, Agostinho vai falar de seus primeiros anos e da primeira infância nas escolas. Mas ele não está, de modo algum, apenas dando-nos fatos. Os fatos de sua infância são expressos na forma de questões. Essas questões, que são de natureza espiritual, ficam latentes nos próprios fatos, exigindo que um grande pensador as coloque em palavras.

Pois que devo dizer, ó Senhor, meu Deus, senão que não sei de onde vim para esta vida que vai morrendo – ou deveria chamá-la de morte que vai vivendo? Então, imediatamente me amparou o conforto de Tua compaixão, conforme ouvi contar (pois disso não me lembro) pela boca do pai e da mãe de meu corpo, de cuja substância Tu em algum momento me formaste. Assim fui acolhido pelo conforto do leite de mulher. Pois nem minha mãe nem minha babá encheram seus próprios seios para mim; mas foste Tu quem providenciaste, por meio delas, o alimento de minha infância, de acordo com Tua ordenação, mediante a qual distribuíste Tuas riquezas pelas fontes ocultas de todas as coisas. Tu também me deste meu não querer mais do que me davas; e às minhas babás a disposição de me dar o que Tu lhes deste. Pois elas, com uma afeição inculcada pelo céu, dispuseram-me a me dar o que de Ti receberam em abundância. Pois esse bem que eu delas recebia era um bem para elas. Mas, de fato, ele não provinha delas, mas através delas; pois de Ti, ó Deus, provêm todas as coisas boas, e de Deus provém toda a minha saúde. Isto aprendi desde aquela época: Tu, por meio de Tuas dádivas, dentro e fora de mim, a mim Te manifestas. Pois naquela época eu só sabia mamar, sentindo-me satisfeito com o que me agradava e chorando diante do que me machucava, nada mais.

(Confissões, livro 1, 7)

Agostinho descreve sua infância em termos que poderiam se aplicar igualmente a todos os seres humanos. Em nosso começo, encontramo-nos em um contexto de doação: a outras pessoas é dado o desejo de dar-nos aquilo de que precisamos. Quando era bebê, Agostinho precisava de certos bens básicos que eram sim­ples; e era bom para os outros darem o que lhes havia sido dado. No entanto, provavelmente há lágrimas quando o julgamento adulto do que é bom entra em conflito com a visão limitada que os bebês têm! Agostinho também faz uma pergunta mais profunda: De onde vem a vida de um indivíduo? Não deve vir de algum lugar? Educados pela ciência moderna, podemos rejeitar auto­maticamente qualquer noção da preexistência da alma. Embora associemos corretamente a ideia de reencarnação ao hinduísmo e ao budismo, muitas pessoas hoje acreditam na reencarnação à parte de qualquer relação com essas religiões. Na igreja primitiva, alguns cristãos especulavam se a alma existia antes de entrar no corpo. Nem todos esses pensadores eram de vertentes hereges. A maioria desses teólogos teria desejado ser considerada tradicional e ortodoxa. A filosofia platônica certamente influenciou esses pensadores cristãos; mas também havia judeus antes da época de Cristo que haviam considerado essa possibilidade.

Para Agostinho, qualquer conversa sobre o começo da vida – a vida humana – também deve incluir a menção do fim da vida. Para ele, o começo da vida mortal na carne era um começo com a morte, porque a vida na carne sempre envolve a morte da carne. Nossa existência – pergunta ele com um sério jogo de palavras – é uma vida que vai morrendo ou uma morte que vai vivendo? Nosso corpo mortal, ao contrário do futuro corpo da ressurreição, é um sinal da morte que nos acompanha passo a passo nesta vida.

Por causa da ligação entre a morte e o pecado na história de Adão e Eva, Agostinho diz que estamos envolvidos no testemunho de nosso pecado. Portanto, somos incapazes de ocultar nosso estado mortal (apenas a juventude é poupada deswa visão). A visão pode parecer sombria, mas não é, pelo menos para Agostinho. Ele está certo e nos assegura que os seres humanos serão revestidos por Deus com um corpo imortal – isto é, aqueles de nós que estiverem sob a graça de Deus. O reino da vida, então, se triunfar sobre a morte – considerada por muitos como a mais terrível de todas as coisas –, também pode se estender de forma regressiva. Não poderia haver também vida antes da vida terrena? Alguém pode pelo menos perguntar se Deus está continuamente criando novas almas ou se há um reservatório de almas já criadas.

Antecedendo Agostinho, e talvez exercendo uma influência sobre ele, estavam vários cristãos de pensamento neoplatônico que especulavam sobre a preexistência da alma. Eles pensavam que a alma existia como um espírito incorpóreo antes da encarnação – ou encarceramento – em um corpo físico, o qual surgiu como consequência da queda. Nessa linha de pensamento, o mundo físico e o corpo humano foram criados como um castigo pelos pecados, um campo de treinamento para o exercício da virtude, a fim de permitir às almas retornar a um estado espiritual puro. Castigados desse modo, elas seriam mais sábias em virtude de sua experiência. Encontramos a defesa desse entendimento em Mário Vitorino, filósofo e professor de retórica, cuja conversão Agostinho narra nas Confissões. Vitorino escreveu os primeiros comentários latinos sobre São Paulo, os quais Agostinho pode ter lido. Em seus comentários sobre Efésios 1.4 (Porque Deus nos escolheu nele antes da criação do mundo [...]), Vitorino sugere que todas as almas preexistiam em Cristo antes que o mundo fosse criado. Portanto, não está fora de cogitação o fato de que Agostinho pode ter tido a mesma opinião ou, pelo menos, pode tê-la considerado como uma sugestão séria. De fato, várias passagens nas Confissões sugerem especulações nesse sentido.

Dize-me: minha infância sucedeu outra idade minha que morreu antes dela? Foi a que passei no ventre de minha mãe? Pois sobre isso ouvi alguma coisa, e eu mesmo vi mulheres grávidas. E de novo pergunto o que aconteceu antes disso, ó Deus de minha alegria; eu estava nalgum lugar, eu era alguém? Sobre isso não tenho ninguém que possa me falar, nem meu pai, nem minha mãe, nem a experiência de outros, nem minha memória. Tu Te ris de mim por eu perguntar [...] De onde poderia provir esse estado de ser, exceto de Ti, Senhor?

(Confissões, livro 1, 9-10)

Mesmo que isso nos pareça uma noção estranha e nova para um cristão, há algo profundo em levantar a questão de onde estávamos antes desta vida. Não sabendo de onde viemos, no sentido mais amplo do termo, somos obrigados a reconhecer que nossa existência está fundamentada em um mistério. Esse mistério é, por fim, insondável, por mais que a ciência desvende os processos de nosso existir. Reduza-nos a um óvulo e a um espermatozoide, se quiser, e ao DNA neles, mas o que vem antes disso? E antes? E assim por diante, até o infinito. Além disso, o modo como trabalhamos no nível biológico não nos diz por que existimos ou qual é nosso propósito. Essa questão é de uma ordem diferente e requer seu particular modo de discurso.

Agostinho argumenta aqui que nossa própria existência é algo que nos foi dado de tal maneira que é preciso pressupor um doador além de nossos pais físicos. Ele mostra que até mesmo os meios pelos quais somos nutridos – e o fato de instintivamente sabermos como ingerir esse alimento – são dados. Chame de natureza, chame de instinto, chame do que quiser, mas observe-o à luz do mistério que Agostinho vê revelado nessas coisas coti­dianas. Essas coisas cotidianas escondem as riquezas do Doador – Deus – em sua base. Esse tipo de visão é para aqueles cujos olhos foram abertos espiritualmente. Só então podemos ver o que não é aparente a olho nu, que vê apenas o exterior das coisas. Para vermos de fato, diz Agostinho, precisamos de

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