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O princípio da razão durante O círculo Cibernético: o observador e a subjetividade: Nova Teoria da Comunicação III - Tomo III

O princípio da razão durante O círculo Cibernético: o observador e a subjetividade: Nova Teoria da Comunicação III - Tomo III

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O princípio da razão durante O círculo Cibernético: o observador e a subjetividade: Nova Teoria da Comunicação III - Tomo III

Duração:
283 páginas
4 horas
Lançados:
25 de ago. de 2021
ISBN:
9786555623253
Formato:
Livro

Descrição

Entre 1943 e 1953, foram realizadas em Nova Iorque as conferências para desenvolvimento e expansão da cibernética, dirigidas por Norbert Wiener e Warren McCulloch, dois importantes estudiosos da área. Mas foi com Heinz Von Foerster, eminente cientista, que aconteceu o salto decisivo que inseriria o observador no processo comunicacional. Ele implode com a concepção de comunicação como "transmissão" do que quer que seja e que possua materialidade: nem comunicação, nem informação existem de fato, não passam de virtualidades. Esta obra é a penúltima de Ciro Marcondes Filho no tocante à Nova Teoria da Comunicação e continua as reflexões iniciadas nos tomos anteriores já publicados (I, II e V). Este volume contempla nomes muito importantes para o desabrochar da cibernética e contextualiza para o leitor o cenário à época do nascimento dessa ciência.
Lançados:
25 de ago. de 2021
ISBN:
9786555623253
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Sobre o autor


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Amostra do livro

O princípio da razão durante O círculo Cibernético - Ciro Marcondes Filho

Sumário

Capa

Rosto

8.

O Círculo Cibernético

8a. Do Círculo de Viena ao Círculo Cibernético

8b. Heinz von Foerster, i: a observação de segunda ordem

8c. Heinz von Foerster, II: Equívocos da percepção e equívocos da linguagem

8d. Heinz von Foerster, III: Nós inventamos o nosso ambiente

8f. Humberto Maturana, I: Autopoiese, descrição e acoplamento

8g. Humberto Maturana, II: O ressurgimento do neopositivismo nominalista

8h. Humberto Maturana, III: Os sistemas vivos e o método científico

8i. Humberto Maturana, IV: A realidade externa e o caso da salamandra

8j. Humberto Maturana, V: Comunicação e linguagem

8k. Humberto Maturana, VI: Nós criamos o mundo, mas inconscientemente!

8l. Gregory Bateson, I: A comunicação são nossos gestos

8m. Gregory Bateson, II: Comunicação e esquizofrenia

8n. A pragmática da comunicação humana

8o. Comunicação como conflito

8p. A capacidade de mudança e as formas de percepção

8q. Michel Serres, I: Os fluxos e a estática do movimento

8r. Michel Serres, II: A questão do sentido e o terceiro instruído

8s. Michel Serres, III: Existe um além da linguagem

8t. Michel Serres, IV: Uma teoria da comunicação enquanto relações e corpos

8u. Michel Serres, V: O êxodo como método

8v. Michel Serres, VI: A crítica

Excurso 7.

8w. Sobre o que está fora do campo da linguagem

8x. Sistemas abertos e sistemas fechados

8y. Tecnologias atuais: transformações da linguagem e aberturas rizomáticas

Bibliografia

Coleção

Ficha catalógrafica

Landmarks

Cover

Title Page

Chapter

Chapter

Bibliography

Copyright Page

8.

O Círculo Cibernético

8a. Do Círculo de Viena ao Círculo Cibernético

Por iniciativa de Moritz Schlick, constituiu-se, em 1924, em Viena, o círculo de positivistas lógicos que levou o nome de Círculo de Viena, que contou, além dele, com Rudolf Carnap e Otto Neurath. De certa maneira, o Círculo repercutia no Continente as proposições já desenvolvidas em Cambridge por Bertrand Russell e seu então aluno, Ludwig Wittgenstein. Russell acreditava que a lógica devesse servir de instrumento para a análise filosófica e passa a conceber o mundo como um complexo lógico, afirmando, em oposição ao idealismo, que os fatos são independentes uns dos outros e que as relações que os unem são totalmente exteriores: o complexo não passa de uma combinação de coisas simples. Funda-se aí seu atomismo lógico, aplicável também à linguagem.

No Tratado lógico-filosófico (Tractatus), Wittgenstein discute sobre as condições segundo as quais a linguagem pode representar o mundo. O conjunto de proposições aceitáveis constitui-se de enunciados formais da lógica e de enunciados empíricos da ciência, não havendo lugar para um saber metafísico, que seria constituído de pseudoproposições (afirmações que não seriam nem verdadeiras nem falsas, logicamente impossíveis de ser verificadas). À filosofia caberia, então, a função de elucidar a linguagem e o pensamento. Wittgenstein, contudo, não compartilha inteiramente com o Círculo de Viena, que se inspirou em sua obra e que procurava desqualificar inteiramente toda e qualquer metafísica; para ele, interessava antes mostrar, de forma mística, a importância do indecidível e do impensável. De qualquer maneira, é ele quem marca mais radicalmente a virada do pensamento do ponto de vista explicativo para o ponto de vista demonstrativo: é preciso descrever, não explicar. Enquanto à ciência cabe a constatação de fatos empíricos, seria função da filosofia a análise lógica das afirmações, o oferecimento de orientações às demais disciplinas, resumindo-se sua ação num exercício de lógica científica.

O Círculo de Viena incorpora esse ponto de vista juntando-o também aos princípios da ciência unitária, que reuniria cientistas e tornaria seus trabalhos uníssonos. Limpeza e clareza são favorecidas no discurso do saber em contraposição às obscuridades e às profundezas dos saberes ditos não-científicos. Assim, o Círculo combate a metafísica a partir de sua maneira de exprimir o saber e todo o procedimento da filosofia clássica (que Russell chamava de concepção totalizante), que procurava produzir conhecimentos a partir de si mesma, sem uso da experiência, ou por meio apenas do juízo sintético. Não era bem-vindo o espírito puro, livre das mediações, descontextualizado.

Além de Russell, o Círculo apoiava-se também em Gottlob Frege, matemático alemão que atuava em Iena. Seu projeto é o de construir uma ideografia, quer dizer, uma língua simbólica desembaraçada das imprecisões das línguas naturais e construída sobre o modelo da linguagem aritmética, que permitiria a formulação do pensamento puro. Como Leibniz, que imaginava uma álgebra do pensamento, trata-se aqui de reduzir argumentos complexos a procedimentos mecânicos.

A língua é um conjunto de signos e nosso pensamento constitui-se deles, diz Frege. Mesmo assim, há imprecisões, falta um encaixe mais lógico entre as expressões e os fatos. Para isso é preciso que se institua, no âmbito da ciência e da lógica, uma linguagem ideal, a escrita conceitual. Essa linguagem não pensa substituir a língua coloquial que todos falamos no cotidiano; é, antes, uma língua sem erros, em que desaparece a multiplicidade de sentidos, e a realidade e o plano proposicional da língua estão em total acordo.

Os mal-entendidos da linguagem ocorrem porque, além do plano meramente linguístico da relação de significação (relação entre um significado e um significante), há o plano mais amplo do sentido da enunciação (que Husserl chamava de expressão) e que escapa à tradutibilidade. É o que Frege chama de tripla relação da linguagem.

Não obstante, além da procura de uma fixação mais rígida entre proposição e realidade, entre vocábulo e significação, além da cassação de qualquer contingência que a língua possa conter, Frege imagina também uma libertação do plano tipográfico da escrita, quer dizer, uma automização em relação à domesticação a que fomos todos submetidos por força da padronização gutenberguiana do texto. A cultura tipográfica estaria impedindo o desenvolvimento do discurso científico. Neste sentido, Frege antecipa McLuhan. É preciso, portanto, para ele, constituir uma nova forma de designação da linguagem para abrir espaço à pura representação das formas lógicas. Trocando em miúdos, trata-se de interferir no plano da escrita, de forma que este seja duplamente ampliado para que o significado torne-se mais claro como na aritmética, onde as igualdades não se posicionam lado a lado mas uma acima da outra, como no hábito japonês de escrever verticalmente.

Para tanto, é preciso fazer várias alterações: em lugar da relação sujeito-predicado, coloca-se a relação argumento-função, em lugar das formas fixas das letras, inicia-se a numerização, quer dizer, as tentativas com a transformação de todos os signos em relações binárias (fórmula essa já presente no ens e non ens, de Leibniz). De Leibniz a Frege pretende-se o progresso do pensamento pelo caminho do aumento da complexidade e da abstração. Certamente, Frege dá um passo importante na mecanização da linguagem humana, de forma a permitir a um Alan Turing, mais tarde, a invenção da máquina universal, que precede os computadores modernos. A formalização da lógica do pensamento, em Frege, e sua disposição da escrita conceitual sugerem algo parecido com um quadro comutacional, com a distribuição dos comandos das máquinas atuais.

Em oposição diametral a esta posição de Frege está a corrente dos céticos, como, por exemplo, o escritor e crítico da linguagem Fritz Mauthner (1849-1923), natural da Boêmia, que nega a linguagem e que se coloca extremamente cético em relação a ela. Para ele, os homens constroem sua realidade a partir do mundo conceitual e é através da língua que surgem suas ideias; nenhuma ordem, nenhum conhecimento jamais pode aparecer senão por meio do entendimento. Ora, mas as categorias de nosso entendimento da realidade são subjetivas e dependem das formas linguísticas tradicionais. Por esse motivo, acredita Mauthner ser preciso questio- nar-se seriamente a linguagem.

Os seres humanos acham que pensam, quando, na verdade, apenas falam e além das palavras não se encontra nenhum Logos. Os homens estão submersos na superstição das palavras e a língua é, para eles, um instrumento de cegueira. É preciso, portanto, que eles combatam a logocracia – o poder das palavras sobre os homens, palavras que atuam como se fossem verdadeiros corpos – e caminhem para algo além da língua.

Wittgenstein propunha uma gramática geral para destruir as superstições associadas à linguagem, gramática essa que buscava fixar as palavras, marcar os conceitos, atrelar significantes a significados, torná-las seres, quer dizer, entidades unívocas e determinadas. Mas isso não resolve, diz Mauthner. Esse ser que a gramática pretende impor não passa de um constructo metafísico, pois a língua, ao contrário, é algo móvel, incaptável, é o entre que alinhava os homens, que os une, algo que funciona como uma liga entre os povos.

A Bíblia – mas não só ela, todo pensamento antigo – dizia que no princípio era o verbo. Sim, diz Mauthner, no princípio, porque na continuação não pode continuar a ser o verbo. Se quiser evoluir, o ser humano tem que livrar-se disso e de sua superstição, ele tem que soltar-se do mundo da tirania linguística. Parafraseando Kleist, a língua não pode ser nenhuma algema, uma coisa que trava o espírito; antes, ela deve ser uma roda que caminha em paralelo com ele.

Herder achava que o homem possuía a língua; Heidegger dirá, posteriormente, que a língua possui o homem. Já Mauthner não acha nem uma coisa nem outra: o homem é um contínuo falante, ela só existe em sua plena atividade, pela palavra-atividade falar. Não obstante, é possível também um silêncio, um êxtase como lugar onde ainda é possível a observação, silêncio como uma dimensão que permite a separação, o destacar-se. Mauthner aqui não pensa em nada próximo ao nirvana comunicacional.

A linguagem não é um objeto a ser descartado, mas relativizado. Não serve para o conhecimento, apenas para a orientação. Vivemos sob uma logocracia e temos que ter consciência dela para podermos rir – no sentido libertador – do poder das palavras, para podermos compreender sem palavras ou captar as coisas pela expressão artística. É nestes casos que se sentem perfeitamente os limites da linguagem como medium.

Otto Neurath (1882-1945) foi membro do Círculo de Viena e o primeiro pensador ocidental que se interessou pelo uso das imagens para a melhoria social dos desfavorecidos. Se Walter Benjamin e Vilém Flusser viram o cinema e a imagem técnica como instrumentos dotados de poder de formação de consciência crítica e de intervenção no social, Neurath antecipou-se aos dois. A situação social das classes trabalhadoras em seu tempo era opressiva e os operários, por terem suas forças físicas exauridas pelo processo de trabalho, geralmente não tinham disponibilidade nem ouvidos para os discursos da crítica social socialista. Por isso, pensava Neurath, as imagens poderiam propiciar uma rápida recepção de conteúdos esclarecedores. Se as palavras separam, as imagens, sem dúvida, ligam, dizia ele. Deveria haver uma forma de completar a escrita por meio das possibilidades técnico-culturais.

Em 1924, Neurath e sua equipe gráfica criam o Museu Social e Econômico, voltado para a educação popular e o esclarecimento social através das imagens. A meta, talvez pretensiosa, seria a de fazer passar conhecimentos através de ícones facilmente decodificáveis. Tudo, na sua opinião, poderia ser convertido em signos ópticos. Visto desta maneira, os problemas da ciência, da transmissão de conhecimentos científicos, passavam a ser vistos como problemas de comunicação.

Seu projeto político, que envolvia o uso maciço dos meios de comunicação e de seu potencial rapidamente persuasivo por meio de imagens, supunha, assim, um processo de educação popular que abrangia necessariamente a comunidade de cientistas. Tratava-se da proposta revolucionária de promover uma espécie de divulgação científica sem palavras.

Sabemos, hoje em dia, que a interface gráfica dos computadores usa-se fartamente de ícones, que progressivamente ocupam o lugar das palavras e dos textos. Sem o saber, os engenheiros da computação gráfica realizam o projeto de Neurath, sem, contudo, incorporar suas intenções políticas. Nem sempre as formas icônicas são politizantes, muito pelo contrário, quase nunca o são. Os formatos que ele propôs em seu Sistema Internacional de Educação Tipográfica pela Imagem, ou Isotype – por exemplo, uma bota, uma fábrica, a sobreposição da bota na fábrica, um homem produzindo botas; ou: um homem, uma caixa de ferramentas, a sobreposição do signo ferramentas (dois martelos cruzados) sobre o homem, um trator, um homem operando com uma pá; etc. –, sugeriam um contexto em que o operário se identificava pela justaposição de ícones que construíam uma linguagem lógica facilmente decifrável. Igualmente decifráveis são os desenhos do trabalhador, do trabalhador de braços cruzados (grevista), de mãos nos bolsos (desempregado).

Não obstante, as dificuldades de se transportar raciocínios abstratos complexos (como a alienação, a exploração, a mais-valia) para os ícones são quase intransponíveis; provocar a identificação não é o mesmo que construir um posicionamento consolidado, que exige debate, reflexão e todo um trabalho discursivo. Tampouco Benjamin e Flusser escaparam desse impasse. A ideia é extraordinária mas a realização deixa sempre muito a desejar. Não se realiza a passagem do lúdico, do curioso, do engraçado para o crítico e a mobilização. Na virada, a coisa trava. As imagens servem, mais costumeiramente, para a construção de mundos alienados, dispersivos, neutralizados, funcionam muito bem como deslocamento da realidade imediata. Trazê-las de volta para o real continua sendo o grande enigma da comunicação icônica.

Detalhamentos

Sobre o Círculo de Viena. Colocando que todo conhecimento verdadeiro e mesmo todo discurso provido de significação é de tipo científico, os filósofos representantes desta corrente excluem do saber aquilo que não é redutível à lógica ou à experiência. Assim, eles declaram guerra à metafísica, acusada de ser o resultado do mau uso da linguagem. Clément et alii, 1994, p. 52. E também: "A concepção científica do mundo não se caracteriza tanto por teses próprias do que, antes, por uma postura básica, por pontos de vista, por uma direção de pesquisa. Como meta, pensa-se numa ciência unitária. O esforço seria o de pôr em contato o trabalho de cientistas isolados em diferentes áreas científicas e torná-los uníssonos. Desta proposição de meta surge o destaque ao trabalho coletivo, e neste caso, também, o reforço daquilo que é intersubjetivamente apreensível; disso emana igualmente a busca de um sistema de fórmulas neutras, de um simbolismo libertado da ganga das línguas históricas, da mesma forma que a busca de um sistema geral de conceitos. Limpeza e clareza são procuradas, distâncias obscuras e profundezas insondáveis são rejeitadas: na ciência não há nada de ‘profundo’; em toda parte só há superfície. Todo o vivido oferece uma rede complexa, nem sempre apreensível, geralmente captável apenas em casos isolados". Neurath, Otto. Wissenschaftliche Weltauffassung. Sozialismus und Logischer Empirismus. Rainer Hegselmann (org.), Frankfurt, Suhrkamp, 1979, p. 86.

Sobre a escrita conceitual. "A língua puramente lógica seria uma linguagem liberta de toda contingência, uma língua apriorística ideal. Na discussão desta proposta de uma linguagem perfeita, que facilmente seria rejeitada como um fantasma, normalmente passa despercebido que se trata da ideia de uma linguagem científica que jamais afirma que vai querer entrar no lugar da linguagem coloquial. Ludwig Wittgenstein no Tractatus e Rudolf Carnap no Der logische Aufbau der Welt (A construção lógica do mundo) retomam rapidamente este impulso após Frege, como um ideal do positivismo lógico – uma língua sem erros, da qual é expulsa a multiplicidade de sentidos da língua natural em favor de uma libertação da contradição entre os planos das proposicões e o da realidade". Cf. Wittgenstein, Tractatus, 3.325, e Hartmann, 2000, p. 139. Ver também: Por isso, Frege desenvolveu uma escrita conceitual que, utilizando-se de uma dupla dilatação do plano escrito, não apenas abre abstratamente o significado de uma expressão mas também de sua localização sobre o plano físico da expressão. Com isso, o lógico revolta-se contra uma abstração linear da ordem tipográfica dos signos. Hartmann, 2000, p. 144.

O problema dos signos: a tripla relação. Os mal-entendidos linguísticos ocorrem porque os signos não se encontram jamais numa relação logicamente dupla mas tripla. Além do significado, do signo, há o estar ligado, que é o sentido do signo. Cf. Frege, Gottlob. Über Sinn und Bedeutung (1892), In: Frege, G., Funktion, Begriff, Bedeutung. Fünf logische Studien, Gunther Patzig (org.), Göttinge, Vandenhoeck, 1994, p. 41.

A nova forma de designação da linguagem. Como ‘pura representação das formas lógicas’, ela [a nova forma de designação] usa-se da economia da superfície da escrita, segundo Frege, melhor do que a cadeia simbólica de Boole, que não pressupõe nenhuma ordenação de sentido e que surgiria através de ‘uma única linha, em geral excessivamente longa’. Frege radicaliza de certa forma aquilo que é comum em qualquer derivada aritmética, onde as igualdades, por força da clareza, não estão lado a lado mas são colocadas de cima para baixo. Para defender-se das críticas, ele remete ao ‘cultivo do hábito japonês da escrita vertical’. Hartmann, 2000, p. 140.

O equívoco de Frege. Qualquer aspiração por uma recuperação do aumento do potencial de conhecimento – desejado desde Leibniz até Frege – a partir ‘de um modo de indicação que se adapta às próprias coisas’ (Frege) deixa transparecer a noção de um ideal secreto, que imagina um aumento contínuo da complexidade e um grau progressivo de abstração como sendo progresso do pensamento e não como aquilo que isso realmente é: processos de diferenciação sociocultural fechados em si mesmos que exigem, da mesma forma como já ocorreu na introdução da linguagem fonética e do sistema numérico, uma nova organização medial. Hartmann, 2000, pp. 143-44.

A desconstrução da logocracia: "Entendo sob logocracia o fato, não suficientemente conhecido, de que o poder que os homens mais respeitam do que qualquer outro poder é o poder das palavras. Mauthner, Fritz. Logokratie". In: Wörterbuch der Philosophie. Neue Beiträge zu einer Kritik der Sprache, 1910, Vol. 1, Viena: Böhlau, 1997, p. LXXXIXss.

Palavras não são corpos. "‘A língua não é nenhum organismo’, investe ele contra os humboldtianos, para, totalmente sob o signo de um relativismo semiótico, destacar a convenção e a manipulabilidade: ‘A língua é um movimento que produz signos com a função de comunicação. As partes da língua, as palavras, pertencem apenas à realidade psicológica, não à realidade corpórea. (...) Palavras não são corpos, mas como as palavras devem ser signos para coisas ou impressões dos sentidos, por esse motivo os homens são sempre repetidamente obrigados, apesar de sua relutância contra os movimentos estranhos, que se chamam de purismo, a enriquecer sua linguagem com citações. Como a língua surgiu e existe apenas entre os homens, assim surgiram as línguas entre os povos. Não há nenhuma linguagem autóctone’". Mauthner Franz, op. cit., 1910, p. LXXIX ss.

Contra a crítica linguística. A crítica linguística pretende destruir a superstição das palavras, que consiste em marcar as palavras com um ‘ser’, que de fato não existe, mas que, enquanto fixação linguística, constrói falsas ideias, que levam a consequências problemáticas da ação. Hartmann, 2000, p. 110. E também: Quando nós percebermos a atividade que, como atividade linguística, faz madurar efeitos reais, então não precisaremos mais perguntar pelo ‘ser’ da língua, mas os veremos como o construto metafísico, que ela de fato é. Hartmann, 2000, p. 100.

No princípio era o Verbo. Com essas palavras estão os homens no início do conhecimento do mundo e eles ficam lá, se permanecerem nas palavras. Mas quem quiser andar mais para frente, dar um mínimo passinho adiante, pelo qual o trabalho mental de toda uma vida pode seguir adiante, esta pessoa deve se livrar da língua e da superstição linguística, ele tem que tentar soltar seu mundo da tirania da língua. Mauthner, F. op. cit., 1923, p. 1.

Língua como algema. A língua não é nenhuma alge- ma, algo assim como uma trava na roda do espírito, mas é como uma segunda roda que corre em paralelo com ele, uma roda em seu eixo. Kleist, citado por Hartmann, 2000, p. 99.

Homem: um contínuo falante. "O homem não tem a língua, como dizia Herder, nem a língua possui o homem, como irá dizer Heidegger – diferente disso, o homem é um falante ativo [ein tätig Sprechender]. Este é o ponto que torna Mauthner tão interessante, ao propor a substituição do abstrato língua pela sua atividade, ‘pela palavra-atividade falar’. Se o homem só possuísse a língua, então ele seria muito só e, possivelmente, pobre, pois ‘não há dois seres humanos que falem a mesma língua’". Mauthner, Frizt. op. cit., 1923, p. 18.

Sobre o êxtase e o silêncio: Pelo fato de nem para Mauthner, nem para Wittgenstein, nem, mais tarde, para Heidegger, o além da língua ou o silêncio serem pensados como um nirvana comunicacional, o homem não pode ficar limitado à sua língua. Hartmann, 2000, p. 109.

Limites da linguagem. "A linguagem não é útil como instrumento de conhecimento mas apenas de orientação e de comunicação; nós não nos acertaríamos no mundo se não fixássemos as coisas com meios linguísticos. Com as palavras de sua língua e os conceitos de sua respectiva filosofia (como um falar teórico sobre as ideias), os homens jamais conseguiriam passar de uma representação mais ou menos casual, historicamente contingente de seu mundo. (...) Teríamos que poder romper com a logocracia que nos domina. No riso libertador, que se ri das palavras [im befreienden Lachen über die Worte], no compreender sem palavras ou na expressão artística, Mauthner esboça os limites da linguagem como medium, sem, contudo, dar o passo decisivo para além da diferença ontológica entre realidade e sua representação". Hartmann, 2000, p. 110.

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