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Recomenda-se andar acompanhada

Recomenda-se andar acompanhada

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Recomenda-se andar acompanhada

Duração:
583 páginas
7 horas
Lançados:
3 de set. de 2021
ISBN:
9786589837114
Formato:
Livro

Descrição

Uma onda de jovens desaparecidas na cidade tem alarmado seus moradores. O cenário se agrava quando o corpo de uma das vítimas é encontrado. Seria um indicativo de uma cadeia de acontecimentos?

Micaela é a única que tem essa resposta. Ela conhece a verdade, a molda, a explora e a analisa ao máximo. Mas a atração que sente por Anna, uma garota insegura com seu próprio interesse nos casos, ameaça tudo que conhece sobre si mesma.

Ao mesmo tempo, antagonista e objeto de desejo, Anna está tão envolvida em questões pessoais, que não enxerga as ligações entre as mortes e os passos da pragmática figura que entrou abrupta em sua vida.

Enquanto a relação se desenvolve, mulheres seguem desaparecendo, jogando a população em uma atmosfera de alerta. Onde isso pode levá-las?

Recomenda-se andar acompanhada é um romance que se desenrola em um suspense crescente. Lida com descobertas, amadurecimento, relações pessoais e tolerância, e questiona o que estamos dispostos a aceitar por amor.
Lançados:
3 de set. de 2021
ISBN:
9786589837114
Formato:
Livro

Sobre o autor


Amostra do livro

Recomenda-se andar acompanhada - Tálita Heusi

PARTE UM

UM GRANDE SALTO NO ESCURO

Ela não consegue respirar. Estica os braços, pedindo minha ajuda. Não, não minha ajuda. Ela quer que eu pare.

Seus olhos demonstram o medo que toma conta de sua mente. Ela não vê mais saída para sua situação e sabe que vai morrer em pouco tempo. É a minha fase favorita.

Imprimo mais pressão, forçando minhas mãos contra a garganta. Seus braços desistem de tentar me alcançar e esmorecem, para logo em seguida se esticarem em direção ao meu rosto outra vez, os dedos em garras. É o início das convulsões.

Sem soltar o pescoço, prendo seus braços com meus joelhos até que os espasmos cessem. Leva mais tempo do que o de costume.

Essa é uma das lutadoras. Mas nessa hora todo mundo acaba sendo, de uma forma ou de outra.

As cartilagens da traqueia se partem, sinto os estalos. Há engasgos e uma espuma começa a se acumular no canto dos lábios. A língua surge, saindo da boca escancarada. Os olhos parecem quase sair das órbitas, e a veia na têmpora fica mais evidente, pulsante.

Ela não sabe se chora ou se luta. A maquiagem ao redor dos olhos escorre, deixando traços escuros das lágrimas. Olha para cima, para a densidade da noite, mas não há nada para ver. Não há ninguém aqui além de nós nesse horário. Nunca há.

O corpo embaixo do meu já não luta mais tanto. Não ouço mais os pés se debatendo. Ela joga a cabeça para trás, contra o chão de terra batida. Não há mais para onde ir. Surge a segunda onda de espasmos.

A roupa farfalha em atrito e há pequenos grunhidos. É quase possível ouvir os dentes colidindo entre si.

Finalmente, os olhos voltam para mim. Retiro o que disse antes, essa é a minha fase favorita, o momento em que a vida escapa do corpo. No caso, é expulsa do corpo. Dura um único segundo e eu gosto de prestar bastante atenção. É o que vai fazer tudo valer a pena.

O semblante de agonia e desespero muda de forma drástica, torna-se um de aceitação. É lugar comum dizer que uma paz toma conta de seu rosto, mas de fato é o que parece. Em um instante fugaz, a vida lhe fenece e ela alcança o que é provável que tenha buscado por todos os seus anos de existência: paz e compreensão. É sublime. Sinto honra em fazer parte disso.

Então o olhar se torna vazio e o corpo inteiro se imobiliza, exceto pelo último movimento dos braços, que caem perpendiculares no chão.

Só então solto o pescoço. Respiro fundo e me sento no abdômen macio. Passo a mão em meu rosto e visto os óculos de armação grossa que retiro do bolso de minha camisa.

Quase nove minutos de luta, de acordo com o relógio em meu pulso. Não é à toa que me sinto cansada.

No corpo, o acúmulo de saliva no canto da boca está maior agora, assim como a espuma rósea que sai lenta das narinas — o último respiro que seus pulmões produziram, agora à vista.

O maxilar se fecha quando ergo seu queixo, e os dentes batem contra a língua inchada. Um filete de sangue escorre do ouvido, decorrente da perfuração do tímpano causada pela asfixia. Há manchas avermelhadas na pele clara do pescoço, entre os cabelos da nuca. Marcas de meus dedos e escoriações causadas por mim e por ela mesma.

Fecho os olhos estáticos. É inútil deixá-los abertos. Se não chegarem a ser comidos pela fauna aquática, os globos oculares amolecerão e derreterão, mas aprecio a estética do rosto com os olhos fechados.

Repouso as mãos em minhas coxas, ainda observando o rosto desfalecido, já sem aquele semblante que somente a vida consegue nos imprimir e que nos personaliza. Nunca vou deixar de me maravilhar com isso.

Ao me levantar, os sons de meus sapatos são os únicos nesse espaço. Jogo minha trança comprida para trás dos ombros. Uma fina mecha loira da franja se desprendeu em algum momento. Eu a coloco para trás da orelha, ainda observando o ambiente.

Enquanto abordava essa garota, acabei me distanciando do ponto de desova, alguns metros à margem do rio Itajaí-Açu. É algo novo que tento essa noite.

Puxando-a por um dos braços, levanto-a e a ajeito sobre meus ombros. Ao menos escolhi uma mais leve dessa vez. A última me deu bastante trabalho. Mas de forma geral, não faço distinções.

Equilibro o peso e ando com ela até a divisa da terra com a água. A correnteza está forte hoje. O píer de madeira me leva ao leito buliçoso do rio, que em alguns metros se dividirá com o Atlântico.

Mas não chego ao fim da estrutura. Ao invés disso, um pouco mais à frente da metade de sua extensão, deito o corpo no chão do píer. Percorro meus olhos por cada centímetro dele.

As roupas estão amarrotadas e o cabelo cai desorganizado pelo rosto. Retiro os tênis, para que os crustáceos consigam se alimentar dos pés também. Jogo-os na água, o barulho característico ecoa pela noite e pela área mal iluminada onde estou.

Um último esforço meu faz o corpo rolar até o final das ripas de madeira e cair ao rio com um espirro bem maior que o anterior.

De volta ao local da morte, ignoro os rastros de pneus e de ferraduras de cavalos espalhadas pelo chão. Amanhã, ao fim do dia, isso não vai mais fazer diferença e o corpo vai estar a centenas de metros longe daqui. É certo que ninguém terá começado a procurar por ele ainda. E mesmo que isso aconteça, não será nesse lugar.

Sigo na direção oposta. A cada passo que dou, meu coração desacelera um pouco. Depois que alcança sua frequência normal, identifico alguém vindo, ainda ao longe, no escuro. Levo as mãos aos bolsos da calça e endireito os ombros, para aparentar uma altura maior que a minha.

Caminho tranquila pela beirada do rio, rente às pedras de contenção. A pessoa enfim me alcança: um homem velho, com um boné surrado na cabeça e vestindo macacão de pesca, carregando uma tarrafa dobrada sobre um dos ombros. Anda no ritmo típico dos pescadores, balançando como em um navio.

— Boa noite, moça — diz, batendo no boné ao cruzar comigo, com o sotaque próprio dessa região ribeirinha. — Deus abençoe.

Ofereço um sorriso gentil e aceno com a cabeça.

— Boa noite. Obrigada, ao senhor também.

UMA CERTA BORBOLETA JÁ ESTÁ VOANDO

Pessoas passam por mim pelo campus. Universitários, professores, agentes de serviços gerais, seguranças e outros. Estão mais confortáveis nesta tarde com a luz solar que espanta um pouco do frio que tem feito.

Suas particularidades saltam. A forma como penteiam os cabelos, como sorriem, como conversam, como andam, como gesticulam, como movem as sobrancelhas e como seus lábios se curvam quando percebem que alguém os olha. Absorver o máximo possível de tudo isso é um de meus passatempos favoritos.

Assim que alcanço o balcão da cafeteria, na esquina de um corredor para o outro, uma jovem me cumprimenta sorridente e me atende sobre a vitrine.

— O de sempre? — Ela exala tanta alegria quanto em todas as tardes. Pergunto-me se trabalhar em uma cafeteria lhe é tão agradável assim ou se ela apenas se esforça bastante.

— Sim, por favor. Obrigada. — Realizo o pagamento e ela me entrega o tíquete para o café.

Há um cartaz atrás de sua cabeça. Nele, a foto da última moça desaparecida. Não é recente, porque ela estava com outro corte de cabelo na noite em que a encontrei.

A atendente segue a linha de meu olhar.

— É a quarta. Tá ficando feio o negócio.

Corrigindo, é a quarta notificada. Por algum motivo, algumas não são dadas como desaparecidas. Também não estão contabilizando as do ano anterior, ou as outras antes delas.

Há uma dificuldade em se observar padrões nesta cidade, ao contrário de onde vim. É certo que meu pai levou isso em consideração quando decidiu que era para cá que deveríamos nos mudar. Ele levava tudo em consideração.

Quatro desaparecimentos notificados em oito meses. Seria prudente uma pausa?

Se eu quisesse, talvez.

— Ainda bem que fim de tarde já estou em casa — continua a balconista. — Imagina quem estuda à noite. Deve dar muito medo.

— Deve.

— Você não trabalha até tarde?

— Trabalho, mas moro perto daqui. Chego em casa rápido.

Ela diz que fica aliviada em saber e eu me despeço, porque há pessoas atrás de mim que precisam ser atendidas.

No outro balcão, me entregam o café em um copo alto de isopor. Um homem grisalho de cabelos bem aparados passa por mim. O maxilar forte, a postura ereta e a forma como carrega uma pasta de couro sob um dos braços me mantém cativa. Gosto do vinco profundo entre suas sobrancelhas, acima da ponte do nariz. Eu o sigo com o olhar. Ele não percebe, concentrado no celular em sua mão.

Eu também não percebo quando alguém se vira abrupto ao meu lado. Só sinto algo quente e molhado que atinge a frente do meu corpo com violência.

Um gritinho de espanto quebra o silêncio que se fez na cafeteria. Não é meu, apesar da minha surpresa.

Estico o braço com o copo e o café que sobrou dentro dele, em uma tentativa fútil de afastá-lo de mim, agora que o estrago já está feito.

A mancha escura se alastra por minha roupa, entre os botões da camisa, e desce pingando nos meus joelhos. Uma pequena poça está respingada no chão, entre mim e a garota que causou isso. Ela fala sem parar, se desculpando por ter nos esbarrado e me encharcado de café.

Levanto o olhar para ela e fico presa, estagnada mais do que com o impacto da colisão. Suas palavras passam por mim sem que eu as registre. Tudo o que vejo são os traços de seu rosto e as formas de seu corpo. Meu interesse imediato toma conta da situação.

Pisco e me esforço para prestar atenção ao que diz.

— Meu Deus, moça. Desculpa mesmo, viu? Eu nem sei como me desculpar, eu não te vi vindo, estava distraída… Meu Deus, meu Deus…

— Tudo bem — digo, para interromper as lamentações entre os olhares curiosos que recebemos. — Acidentes acontecem, está tudo certo.

Seu copo está no chão, vazio. Uma das jovens da cafeteria surge com um rodo e começa a limpar a sujeira. A garota pede desculpas para ela também. Não se deu conta ainda, mas seu moletom preto, apesar de disfarçar, sofreu muito mais danos do que minha camisa.

Tanto para não atrapalhar o trabalho da funcionária quanto para sairmos do foco da atenção, nos conduzo para longe da cena. Os tênis da garota, que um dia foram brancos, estão respingados e deixam pegadas de café no chão.

Ela ainda não parou de se desculpar comigo e com a menina da cafeteria.

— Fica tranquila — digo. — Não deve ser a primeira vez.

Seus olhos são lindos, grandes e castanhos, com nuances caneladas. Gostaria que ficassem quietos, para eu poder focar nos detalhes, mas ela não consegue segurar meu olhar. Está constrangida.

— Eu pago outro café pra você — diz, olhando para todos os lugares. — Não vai ficar no prejuízo.

— Não é necessário. Mesmo.

— Nossa, eu não sei nem o que te dizer.

O líquido quente quase queima minha pele. Ao me ver afastar o tecido de meu abdômen com as pontas dos dedos, a garota se desculpa mais uma vez. A repetição de palavras me irrita.

Suas sobrancelhas se franzem quando eu continuo a olhando, ininterrupta, atenta ao seu rosto. Ao me dar conta do que estou fazendo, me afasto e ergo meus óculos.

— Você se molhou mais do que eu — insiro, aproveitando a pausa na fala. — Não se preocupa tanto comigo.

— Mas sua roupa é clara. — Ela indica minha camisa azul como argumento. Via de regra opto por cores mais escuras, mas hoje isso não aconteceu. — Vai ter que andar o dia todo assim, provavelmente, e todo mundo vai notar. Eu só vou ter que esperar meu moletom secar e aguentar o cheiro de café até a noite no trabalho, mas tudo bem. — Seus ombros se encolhem, em uma posição de derrota. — Me desculpa mais uma vez, moça. Eu nem sei como… — Ela se interrompe e aponta o crachá preso no bolso de minha camisa. — Ei, você trabalha aqui? Na universidade? Sabe onde tem um micro-ondas?

— Tem um na minha sala. Precisa de alguma coisa?

Já não mais tão constrangida, ela abre um sorriso, e seus ombros se erguem. Fica ainda mais bonita quando faz isso. Soa animada:

— Ótimo! Podemos secar sua roupa nele.

Altero o peso do meu corpo entre os pés, desconfortável com a ideia

— Não sei se é aconselhável fazer isso.

— Aconselhável não, mas necessário sim.

— Melhor não.

Apesar de minha firmeza, ela me desconsidera com a mão.

— Eu insisto. Me mostra onde é sua sala, eu faço pra você.

— Os botões vão derreter. — Talvez seja inútil, mas é o que eu declaro assim que entramos na cozinha anexa em minha sala. Não havia ninguém aqui dentro e a porta estava aberta, da exata maneira como já solicitei inúmeras vezes que nem meu estagiário nem os monitores fizessem.

— Não vão, tem uma manha.

Sem se incomodar de impor sua presença em meu ambiente de trabalho, a garota passa o moletom pela cabeça e fica só com uma camiseta por baixo. Seu cabelo, que jogou para trás, é comprido quase como o meu, mas castanho e volumoso, e cai em cachos pelas costas e ombros. Tenho a impressão de que o fato de ele cobrir boa parte de seu rosto seja proposital.

Tiro minha camisa de dentro da calça. A garota dobra sua peça de roupa, como se fosse guardá-la, e quando percebe que estou desfazendo os botões, é ligeira em desviar o olhar de mim.

— A ideia foi sua — digo. — Por que está com vergonha?

— Nada não… de boa — responde, e parece ainda mais constrangida. Pega a camisa quando a passo para ela. — Você trancou a porta, né?

Só de sutiã agora, abro a torneira na pia, lavando o que consigo dos resquícios de café em meu torso.

— Não, não tranquei. Não é necessário, ninguém deve entrar agora. — E mesmo que entrem, duvido que será a primeira vez que verão uma mulher sem camisa.

A água fria da torneira me provoca arrepios na pele. Seco-me rápido com um pano de pratos.

Minha resposta faz a garota hesitar antes de abrir a porta do micro-ondas. Ela tira o prato giratório, deixando-o no balcão, empilha as roupas dentro do eletrodoméstico e programa o temporizador para cinco segundos.

— Se a gente vai fazendo assim, o plástico não derrete.

Cruzo os braços em frente ao peito e me encosto no balcão, curiosa com o que vai acontecer e com o sorriso que ela exibe. Ao final dos cinco segundos, o apito soa, ela abre a porta e verifica seu conteúdo. Então assente para si mesma.

— Vai dar certo. — Fecha a porta outra vez e programa mais cinco segundos.

Fito seu perfil, quase coberto pelos cachos de seu cabelo.

— Como descobriu esse processo?

— Necessidade. Nunca teve que secar a roupa no desespero? — Seus olhos ligeiros percorrem o decote que meus braços cruzados produzem e ela desvia para meu rosto.

— Não, nunca.

O apito soa e ela repete o processo de abrir a porta e fechar.

— Sorte a sua. Quando saí da casa dos meus pais, passei bons sufocos com isso, até descobrir esse truque. A roupa sai seca e quentinha. É foda ter que escolher entre uma máquina de lavar e um micro-ondas. — Ela oferece um sorriso vazio, espera o sinal sonoro e faz tudo mais uma vez. Então se vira, para a porta da cozinha.

Sei que percebe os computadores montados sobre o balcão em L que circunda duas das quatro paredes e as várias partes de outros PCs empilhadas em uma estante comprida. Uma mesa redonda ao centro, em nossa frente, ocupa quase todo o espaço. Nela, há pilhas de papel e mais partes de computadores.

À primeira vista, parece mais um depósito do que uma sala de trabalho, mas é dificultoso manter a ordem em um ambiente usado por tantas pessoas, a maioria delas composta por rapazes que ainda moram com os pais e que mal conseguem combinar um par de meias.

— Então você trabalha com informática? — pergunta, antes de fazer mais um ciclo no micro-ondas.

— Sim.

— Tipo, monitora? Daqueles que ficam nos laboratórios desembolando as folhas da impressora?

— Quase isso.

— Técnica? Faz os consertos e instala os data shows?

— Só faço essas coisas quando tenho que substituir alguém. — Ela me olha, esperando mais. — Sou a coordenadora de informática do campus. Coordeno todas as atividades e o pessoal relacionado.

Com uma sobrancelha erguida, ela se expressa impressionada.

— Não é uma simples mortal, então — comenta, humorada. Até que seus olhos crescem e ela vira de frente para mim, apontando um dedo acusador. — Ah! Você é a responsável pelo sistema de bosta que trava a hora toda.

Descruzo os braços e coloco as mãos nos bolsos. Uma postura defensiva, admito, mas não deixo de perceber que recebo uma olhada um pouco mais aberta agora que a parte superior de meu corpo está quase toda exposta. Os olhos em mim me causam uma sensação bem agradável.

— Garanto que faço meu melhor, mas há barreiras que não consigo transpor — digo. — A aquisição de um novo sistema não depende por completo de mim.

— Perdi uma aula semana passada por causa do sistema, sabia? — conta ela, como se eu não tivesse dito nada. — Cheguei atrasada porque perdi o ônibus e era uma aula on-line. O laboratório do meu bloco estava lotado e tive que encontrar outro. Quando consegui, o sistema simplesmente não entrava e não tinha nenhum monitor pra me ajudar. Levei falta, mesmo estando na frente do computador. E eu não podia levar essa falta de jeito nenhum. Achei injusto, o professor não.

Ajeito meus óculos sobre o nariz e vejo a garota acompanhar meu movimento. Ainda parece constrangida e agora não sei se é porque estou de sutiã em sua frente ou se é porque disparou em palavras. Continua falando e eu apenas a observo, alisando a trança caída sobre meu peito.

— Eu sei como é trabalhar com essas coisas e muitas vezes elas independem da nossa vontade. Máquinas e tal, uma hora elas fazem o que querem, certo? Não somos responsáveis por elas. Se bem que, sendo coordenadora de informática você é sim responsável por elas, inclusive por como funcionam e eu não sei se isso faz com que eu me sinta melhor ou pior. De qualquer forma, queria te pedir desculpas por ter falado bosta, não era minha intenção. Quer dizer, era minha intenção. Não falar bosta, mas falar da bosta que o sistema é, mas não era pra alguém como você ter ouvido e eu não quis parecer rude.

Acho que agora ela concluiu, porque seus olhos grandes parecem esperar algo de mim. Se entendi correto, ela se desculpou por algo que havia acabado de falar. O que não faz o menor sentido, então ignoro.

— Você trabalha em quê?

Talvez não fosse isso que esperava que eu dissesse, porque recebo um olhar confuso.

— Ahn?

Ela olha para meu abdômen quando mudo de posição contra o balcão, uma expressão de minha impaciência por ter que me explicar.

— Disse que sabe como é trabalhar com máquinas. Você trabalha em quê?

— Ah, sim. — Sacode a cabeça e sorri. — Trabalho em uma loja de fotocópia. Naquela perto da secretaria, na entrada da universidade, sabe? Mas não sou coordenadora, só mais uma escrava do sistema, obrigada a ficar em pé a noite inteira, copiando documentos em papéis que poderiam facilmente ser transformados em PDF.

Em meio às palavras, ela abre a porta do micro-ondas pela última vez e tira as roupas de dentro. Desdobra o moletom preto e verifica o resultado.

— Secou certinho.

A mancha no tecido azul-claro de minha camisa salta aos olhos, embora seca. A garota tem um sobressalto quando encosto em seu braço para pegar a peça, como se houvesse sido um contato maior do que foi. Ela se afasta no mesmo instante.

— Putz, foi mal. Desculpa.

— Não se desculpe a hora toda. — Passo a me vestir, para me proteger do frio. — Você não fez nada de errado.

— Ok — murmura e quase não a ouço. Chego a pensar que pediria desculpas por ter pedido desculpas, mas felizmente isso não acontece. Coloca o prato do micro-ondas no lugar e o fecha. — Pelo menos você vai ficar seca, já é alguma coisa.

— Claro. Bem melhor assim. Obrigada, ajudou bastante. — Seguro um dos botões, intacto. — Ótimo trabalho. — Fecho a gola da camisa, envolta pelo aroma de café, e ergo o rosto. A garota me olha mais relaxada. Ajeito os óculos. — Quanto a sua aula perdida, creio que posso te ajudar.

Ela segue as sobrancelhas, animada.

— Sério? O que eu tenho que fazer?

Ouço-a me acompanhar da cozinha para a sala.

— Se registrar uma queixa sobre o sistema, com dia e horário em que ele não agiu conforme esperado, você pode solicitar um laudo de funcionamento e então provar que ele te prejudicou. Assim sua falta vai ser abonada. — Sento em minha cadeira e ligo o monitor do computador.

— Isso funciona mesmo? — pergunta, desconfiada, atrás de mim. Ela amarra o moletom ao redor dos ombros enquanto olha para a tela. Eu abro uma pasta em meu desktop.

— Claro, eu gero o laudo pra você, mas preciso da solicitação formalizada. — Envio o documento que abri para impressão e, quando ele sai da máquina ao meu lado, ela o pega antes de mim. Ainda não parece confiante. — Fazendo isso, você me ajudaria a justificar a atualização do sistema, porque mostraria o prejuízo que os alunos têm.

Ela desce o olhar para minha boca e de volta aos meus olhos, então morde o interior das bochechas e acena com a cabeça, decidida.

— Beleza. Se vai te ajudar, eu faço.

Uma covinha surge no canto do sorriso aberto e deixa seu rosto mais atraente do que já é. Só quando a vejo ficar inquieta é que percebo que alonguei meu olhar mais uma vez. Pisco, quebrando o contato visual e me levanto.

Ela enrola o formulário e o bate contra uma palma, nervosa.

— Vou indo, então. — Ela indica a saída da sala. — Minha próxima aula já deve ter começado. Vou preencher isso e te devolvo. Posso passar aqui amanhã? Pra te entregar?

Abro a boca para dizer que ela pode me enviar uma digitalização por e-mail, o que eu digo para qualquer um que queira me fazer mais uma visita desnecessária, mas as palavras mudam no caminho, quase que sozinhas:

— Se eu não estiver aqui, deixa embaixo do meu teclado. Vou ver, eventualmente.

— Que horas você sai?

— Às oito.

— Saio depois, às dez, mas passo aqui antes, quando tiver uma brecha.

Andamos em direção à porta e eu a abro.

— Obrigada por secar minha camisa — digo.

Ela revira os olhos.

— É ridículo agradecer por isso. A culpa foi minha.

Aproximo-me, interessada no tom de exaspero.

— Se você se desculpar de novo, não atendo seu pedido.

Sua garganta se movimenta ao engolir em seco. Mesmo detectando o nervosismo com minha proximidade, não me afasto. Ela nada diz por um segundo inteiro e consigo ver as pontas de seus dentes, contrastando com a cor dos lábios cheios.

— Ah, esse pedido! — exclama, só agora entendendo o que eu disse. Levanta o formulário em frente ao rosto, se escondendo. É um pouco cruel extrair essa reação dela, mas também é divertido. — Não tinha entendido… — baixa o papel e deixa a frase solta no ar, então dá um passo para trás, olhando entre mim e a porta.

De repente acho muito apropriado saber como ela se chama e pergunto seu nome.

— Ahn… Anna. — Hesita um pouco, então adiciona: — Só Anna.

Estico minha mão em sua direção.

— Micaela.

Antes que eu emende pedindo que não encurte meu nome, Anna olha para nossas mãos unidas com curiosidade. Então percebe que estou prestando atenção nela e tenta se manter à altura, mas sem sucesso. É evidente o esforço que faz para segurar meu olhar.

Ainda estamos assim, com as mãos em pleno contato e nos olhando, quando alguém entra na sala e quase esbarra em Anna.

— Ops, foi mal — diz o rapaz, sem perder tempo de analisá-la de cima a baixo antes de passar por nós e circular a mesa ao centro da sala.

Acompanho Anna. Já a acho muito mais interessante do que meu estagiário, Leo.

— Então, Micaela… Obrigada por lidar com tudo isso de uma forma tranquila. — diz, no corredor, indicando minha camisa com o queixo.

De que forma ela achou que eu lidaria com algo banal assim? A que tipo de tratamento está acostumada, que a faz se desculpar com constância e agradecer pelo básico em uma interação?

Apenas assinto e ela segue em direção às escadas que a levarão para a saída do corredor.

— Amanhã passo aí, lá pelas três. — Assinto outra vez, da porta, vendo-a se afastar. Ela acena e vai embora.

De volta à sala, sinto-me bem-humorada. Não é comum que eu me divirta com alguém que mal conheço. Ou com qualquer pessoa, na verdade. E ela nem teve que se esforçar para isso.

Com seu rosto constrangido em mente, vou até meu computador. De volta ao trabalho.

— Sua camisa tá pra fora da calça, Doutora — diz meu estagiário. Havia esquecido que ele estava ali, no mesmo ambiente que eu.

Ignoro que ele apontou meu desleixo incomum e giro a cadeira, encarando o rapaz sardento, loiro e franzino. Tenho profundo desapreço por ter meu título acadêmico usado como pronome de tratamento. Ele sabe disso.

— Se me chamar de Doutora outra vez, não vou mais relevar o seu descumprimento da ordem de não deixar a sala sozinha e destrancada, e isso vai para a sua avaliação de estágio como insubordinação. No mínimo.

Ele me olha espantado ao ouvir meu tom ríspido, mas nada faz além de concordar em silêncio e oferecer um desculpa fraco, fitando a mancha escura em minha roupa.

Volto à tela. Leo não percebe que não me sinto incomodada de verdade.

— O D3 está todo quebrado. Os dois laboratórios estão sem acesso à rede.

Olho do relatório em minhas mãos para o rapaz em minha frente. Alto, robusto e com compridos dreadlocks enrolados no alto da cabeça, Roger é um dos monitores com quem mais simpatizo. Não tem a ver com sua aparência. Ele é organizado, educado e tem respeito por hierarquia, diferente de seus colegas.

Instruo o monitor sobre como proceder em relação ao sistema no bloco de Direito.

— Consegue fazer isso até o final da tarde?

Roger assente.

— Claro, deixa comigo.

Sozinha na sala, leio o relatório que ele me entregou, apreciando seu uso correto da gramática.

Ocorre uma batida atrás de mim e me viro, curiosa e irritada, para ver quem faz questão de bater em uma porta aberta.

— Oi, Anna. — Uma olhada em meu relógio de pulso e confiro que ela veio no horário exato em que disse ontem que viria. — Entra.

Ela sorri com timidez, mas faz o que eu digo e estica uma mão.

— Trouxe o formulário preenchido. Não soube ao certo como fazer de um jeito que te ajudasse mais, então acrescentei uma liberdade poética, só pra parecer que foi pior do que realmente foi. Mas eu mudo, se precisar. Se quiser ver e me dizer o que posso melhorar…

Analiso o texto, abarcando todo o parágrafo escrito em uma caligrafia pequena e inclinada. Ausência de profissionais, sistema falho e prejuízo saltam do texto.

— Está ótimo — digo. — Obrigada por fazer isso.

Anna enfia as mãos nos bolsos da calça jeans, mas com os ombros encolhidos, de uma maneira bem diferente de como eu executo o mesmo gesto. Ela é alguns centímetros mais baixa do que eu e sua figura é mais ampla que a minha, em específico no busto e nos quadris.

— Era o mínimo. E eu ainda vou ser beneficiada com o abono. Acho que isso não cobre minha dívida contigo.

Seus olhos desviam dos meus, depois voltam. Sinto a mesma tensão entre nós que senti ontem, quando nos despedimos. Gosto dessa tensão. Embora já faça muito tempo, nas poucas vezes em que a senti tive boas recompensas depois.

Por isso e porque é agradável olhar para Anna, sigo observando todos os trejeitos de seu rosto. Ela é uma pessoa bem transparente.

— Você não me deve nada — digo por fim.

— Na verdade, te devo um café. Se tiver um tempo, podemos resolver isso agora. — Ela indica a porta. Foi um ligeiro momento de bravura, eu diria, já que logo desaparece. Dá lugar ao ar apologético que a envolve como uma aura.

Deixo o formulário sob o mouse do computador. Tiro meu casaco do encosto da cadeira e o visto ao andar de volta até Anna. Ela sorri e sai para o corredor na minha frente.

— Acho que te atrapalhei, né? — Anna pergunta enquanto disfarça que derrama a segunda porção de açúcar em sua xícara. — Na sua sala. Estava concentrada em alguma coisa e te interrompi. Desculpa, foi mal.

Não viemos à mesma cafeteria de ontem. Estamos em uma lanchonete mais reservada do campus, sentadas frente a frente, sob o televisor que exibe um filme sem som. Anna puxa as mangas do casaco sobre as mãos, para protegê-las do frio. Não parou de falar desde que saímos de minha sala, mas não sei dizer sobre o quê. Prestei atenção à sua voz, não ao conteúdo.

— Se tivesse atrapalhado, eu teria dito. Não era nada importante.

Ela me olha, mas não aborda o assunto.

— Já viu esse filme? — indica a TV. Não preciso olhar para responder. Assistir televisão nunca foi um hábito meu. — Não perdeu nada, é péssimo — diz, frente à minha negativa. Então toma um gole de seu café, baixa a xícara no pires e gesticula com uma mão. — Uma guerra contra alienígenas que se passa no velho oeste.

— E quem ganha?

— Eu que não, porque perdi duas horas da minha vida vendo essa porcaria. — Seu olhar segue uma mulher que passa por nossa mesa, depois volta para mim, baixa para a gola da minha camisa, vai para o crachá preso no meu casaco aberto, e sobe para meu rosto. — Conseguiu recuperar sua roupa? A mancha saiu?

Concordo com a cabeça, tomando meu próprio café. Pendurei a peça lavada essa manhã, antes de vir para a universidade.

— Deu tudo certo.

— Que bom — fala com alívio, relaxando os ombros.

Se ela não percebeu até agora, vai perceber logo que não sou inclinada a conversas. Não tenho interesse em iniciá-las, assim como não tenho interesse em mantê-las. Já ouvi inúmeras reclamações quanto a isso e não há muito que eu possa fazer para mudar. Falar, muitas vezes, é enfadonho.

Aproveito o silêncio vindo de Anna para estudá-la um pouco — essa sim uma atividade em que me destaco. Ela desvia o rosto. Por um momento não sabe onde manter seus olhos grandes, daquela cor canelada bem específica. Irrequietos, avaliam seus arredores como um todo antes de repousar sobre algo do outro lado da lanchonete.

Na maior parte dos breves momentos em que estivemos juntas, ela sorria. Agora que não, transparece certa fadiga no olhar. Não sei dizer para quem tenta exalar esse contentamento, se para si mesma ou para quem a vê, e me pergunto se saberia me responder isso.

Séria ou não, suas feições se fazem agradáveis. Gosto do formato de suas bochechas, e do desenho arqueado das sobrancelhas. O rosto parece macio e de onde estou não vejo marca alguma na pele marrom.

Tenho certeza de que se fosse mais clara, eu a veria ficar vermelha a cada vez que ficasse constrangida. Ela é do tipo de pessoa que tem essa reação, o que eu gosto bastante já que é algo que não me acomete.

Além de sua aparência física, ela emana algo que me atrai de forma poderosa.

Vulnerabilidade.

Nada nela, seja em sua postura, em seu olhar, ou em seu comportamento, transmite confiança. Imagino que tipo de relações já teve na vida, se elas a constituíram assim ou o quê. Seria uma presa fácil para alguém dominante ou cruel, e até mesmo para outra pessoa tão vulnerável quanto, mas com tendências a ferir seus semelhantes.

Gosto mais dela a cada segundo e é possível que tenha algo a ver com isso.

Sua atenção agora está em uma mesa próxima a nós, com três garotas de sua faixa etária. Uma delas gargalha e Anna percorre sua movimentação. Reconheço o interesse de imediato e isso explica, mais do que qualquer outra coisa, o porquê de ter ficado tão envergonhada ontem, ao me ver de sutiã na cozinha.

Jogo minha trança para trás e ela se volta a mim. Baixa os olhos para seu café e eu cruzo meus braços, ainda a assistindo.

— Foram os caubóis — diz, levando a xícara até os lábios. — Eles que ganharam a guerra, no filme.

— Presumi. Os alienígenas reconhecem a superioridade humana e voltam pra casa?

— Exatamente. — Revira os olhos.

— Típico — concluo. — Como foi passar as horas no trabalho ontem? Em pé e exalando café?

Ela ri.

— Você é tão aleatória pra conversar quanto eu. — Eu protestaria, mas tem razão. — Foi péssimo, na verdade. Fiquei morta de vontade de tomar mais café, exagerei na dose e tive uma crise de enxaqueca antes de dormir. Sabia que ia dar nisso, mas não resisti.

Então além de sermos aleatórias, como ela diz, também não conseguimos resistir às coisas que nos agradam e que podem nos trazer prejuízos.

A garota na mesa próxima gargalha outra vez, alto, e o grupo se inclina de forma conspiratória entre si, ainda rindo. Volto para Anna, mas ela não volta a mim.

Termino meu café com calma, interessada pelo que se passa em minha frente.

— Quer ir até lá falar com ela?

— O quê? — O alarme em sua voz não poderia ser mais evidente.

— Prefere que eu a chame aqui?

Seus olhos se arregalam e quase vejo o rubor se espalhar pelo rosto. Ela move o maxilar para um lado e mantém a boca entreaberta. Sua postura muda tanto, agora escorregando pela cadeira, que uma risada me escapa. Não tinha a intenção de ofendê-la, mas seu rosto quase oculto pelo cabelo provocou essa reação em mim.

Isso tudo por causa da pergunta que fiz?

Paro de rir assim que seus olhos se levantam até os meus. Não o rosto, apenas os olhos. Sinto que devo desculpas pela forma como agi, com a risada, mas não pelo o que eu havia dito em relação à garota.

— Não quis que você se sentisse mal, achei que poderia te oferecer alguma ajuda.

Anna grunhe, cobre o rosto inteiro com as mãos e fala com uma voz fraca:

— Não preciso de ajuda. Podemos esquecer que isso aconteceu?

— Não aconteceu nada de errado. — Pelo menos, não que eu tenha compreendido dessa forma. — Está interessada em alguém e ofereci para ajudar a se aproximar. O que há de errado nisso? Ou de tão embaraçoso?

— Mica, não — diz ela. — Por favor, deixa isso pra lá.

— Tudo bem, já deixei.

Com as mãos ainda no rosto, ela me espia, testando se realmente larguei o assunto.

— Você é bem atraente quando envergonhada — acrescento, sem resistir à vontade de revê-la se contorcendo em minha frente.

— Mica…!

Escondida outra vez atrás das mãos, ela não vê como me divirto ao fazer isso. Mas dessa vez se recompõe mais rápido e logo ajeita a postura, respirando fundo. Lamento.

— Se gosta de alguém por que não vai lá e diz? Não é um crime.

— Eu não gosto dela! — Olha ao redor para ver se ninguém a ouviu falar tão alto. Então adiciona, mais baixo. — Eu nem a conheço. — Rodopia a xícara, desviando o olhar do meu. — Além do mais, é bem fácil para você dizer isso.

— Elabore.

— Você não é eu — constata, após me encarar por um segundo.

Franzo a testa, ainda sem entender o ponto levantado.

— É claro que não.

— Deixa pra lá — pede ao suspirar. — Vamos mudar de assunto, ok?

Concordo e apoio o queixo em minhas mãos sobre a mesa. Aguardo ela iniciar um novo rumo, mas em vez disso só continua me fitando, seguindo meus olhos com os seus.

— Tá pensando em mais alguma maneira de me constranger, Mica?

— Não, só estou prestando atenção em você.

Ela balança a cabeça.

— Você é tão estranha.

Sorrio.

— Não é a primeira vez que me dizem isso. — Ajeito meus óculos. — Você tem enxaquecas com frequência?

— Pelo menos uma vez por semana, se tenho sorte.

Ouço atenta aos relatos de como reage às crises e quais seus sintomas, apreciando os gestos e a movimentação dos lábios. Quando percebo, estou inclinada em direção a ela, meu casaco quase tocando a xícara de café sobre a mesa.

Recosto-me na cadeira e Anna aproveita a pausa para pegar o celular em seu bolso.

— Ahn, tenho aula daqui a pouco. Preciso ir. — Bebe o último gole do café e se levanta. Faço o mesmo. As garotas da outra mesa já não estão mais ali. Nem as notei sair. — Obrigada por ter topado vir comigo. Não me sinto mais em desvantagem agora.

Lamento que ela considere isso apenas um pagamento de dívida, porque eu adoraria fazer isso outras vezes.

— Agradeço o convite. E a oportunidade de te deixar sem graça — digo, só para provocá-la, e funciona por um momento.

Até que o sorriso de Anna se abre. Abre bastante, na realidade. Ela me encontra do lado da mesa e a proximidade repentina me deixa em alerta.

Por puro reflexo, coloco a mão no bolso esquerdo de minha calça. Um resquício de racionalidade faz com que eu a mantenha lá, parada. Anna, é claro, não percebe nada. Nesse milésimo de segundo, estica um braço e alcança meu pescoço, em um gesto rápido.

Não entendo o que fez até que toco a gola de minha camisa. Ela abriu o último botão, exposto entre o zíper do casaco.

A ação me assusta pelo simples fato de ter sido um toque não solicitado, mas também pelo raio de energia que causou em todo o meu corpo, não só onde seus dedos encostaram.

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