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Ser jornalista: a língua como barbárie e a notícia como mercadoria

Ser jornalista: a língua como barbárie e a notícia como mercadoria

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Ser jornalista: a língua como barbárie e a notícia como mercadoria

Duração:
357 páginas
4 horas
Lançados:
13 de out. de 2021
ISBN:
9786555623628
Formato:
Livro

Descrição

Seria a informação uma coisa séria demais para ser confiada a jornalista? Até que ponto os clichês se antepõem aos fatos, noticia-se sobre o que não ocorreu, busca-se a conformidade? Afinal, se é verdade que tudo o que conhecemos só o conhecemos depois que a TV Globo ou o jornal das 8 informou, é muito importante saber o que faz a cabeça destes que nos formam.Quem efetivamente os forma? As opiniões, os temas do momento, os modismos circulantes no contínuo mediático atmosférico que nos envolve têm contribuição expressiva da imprensa, que, enquanto sistema social de alarme, despeja fatos, noticias e opiniões. Ela observa e comenta a política, mas nós, enquanto cidadãos, observamos a imprensa. A formação de espíritos livres está dos dois lados. Do jornalista cobramos uma postura ética, mas, acima de tudo, a coragem civil. Só disso necessitamos para sobreviver à patifaria que está sempre nos espreitando.
Lançados:
13 de out. de 2021
ISBN:
9786555623628
Formato:
Livro

Sobre o autor


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Amostra do livro

Ser jornalista - Ciro Marcondes Filho

Karl Kraus, o jornalismo e os impasses do momento atual

1. Imprensa: sabotando o vapor do Esclarecimento¹

K arl Kraus foi um grande pensador e crítico da imprensa vienense da passagem do século 20, que encantava nomes como Elias Canetti, Robert Musil, Bertolt Brecht e Walter Benjamin, mas que desgostava outros como Heinrich Heine, Stephan Zweig e Hugo de Hofmannstahl. Um homem extremamente polêmico. Para alguns, um cínico egomaníaco, um louco-varrido sem humor, um sádico de nascença, um sujeito odiado, que não suportava crítica e que estava sempre indisposto. Para outros, um verdadeiro gênio da eloquência e da determinação, que convencia multidões, que formava opiniões, que se impunha por sua contundência e clareza. Uma figura, sem dúvida, jamais ignorada ou despercebida. Amado ou odiado, respeitado ou execrado, foi talvez a única grande personalidade de sua época que previu, com grande margem de tempo, o horror que estava se formando no solo germânico e o lento e sinistro avanço do fascismo, denunciando-o e culpando os jornalistas por criarem as condições psicológicas de sua expansão.

Kraus dava uma importância excepcional à língua. Através dela escrevemos e escrever é pensar por si próprio, dizia ele, é iluminar-se, imunizar-se. Quando se escreve, não se obedece cegamente, não se age movido por preconceitos; todas as palavras, entregues por escrito, são testemunhos humanos, são legado espiritual. Para ele, elas denunciam não apenas o que queremos, mas também direta e indiretamente quem somos e como somos. Por isso, continua Kraus, deve-se escrever sempre como se fosse a primeira vez, mas também como se fosse a última vez, dizer o tanto que se diria como se fosse uma despedida e tão bem como se estivesse fazendo uma estreia (Kraus, 2007a, p. 139). É por esta razão, também, que para ele a língua é fundamental e não se pode tolerar, como já dizia Confúcio, que as palavras estejam fora de ordem, pois tudo disso depende.

Daí a importância da gramática, do respeito às regras gramaticais que educa a mente para o juízo não preconceituoso; ela é o único texto que, na sua acepção, deveria ser seguido seriamente. No centro de tudo está a língua e seu uso correto é base para um pensamento correto, que, por sua vez, sustenta um agir correto. Ora, os jornalistas destruíram a língua alemã com o uso daquilo que Kraus chamava de frase: o ornamento vazio, o signo frio e desvinculado de seu sentido, o procedimento linguístico que promovia o esquecimento, a indiferença, o desinteresse.

A preocupação com a língua é algo que tem uma longa história na filosofia. O filósofo Kant foi quem primeiro associou a emancipação à questão da linguagem, ao vincular os pressupostos de autonomia e esclarecimento à escrita (por exemplo, a elaboração da Enciclopédia, por D’Alembert e Diderot, é um monumento à escrita e à superação do obscurantismo), tornando-se esta instrumento por excelência do pensamento, da autonomia e da maioridade. A partir da importância da língua criam-se estudos e filosofias da linguagem, especialmente em países de fala alemã, com as investigações de Hamman, Herder e Humboldt, que farão a ponte com a filosofia da linguagem do século 20, de Wittgenstein e do Círculo de Viena. Mas, se é verdade o que dizia Goethe, que onde tem muita luz, tem muita sombra, a língua poderia ser também algo perverso, que tanto esclarece quanto turva a vista. Era o que achava outro austríaco, um pouco antes de Kraus, Fritz Mauthner, para quem os homens poderiam ficar submetidos à superstição das palavras e a língua poderia cegar as pessoas, tornando-se necessário, assim, o combate à logocracia.

Também Adorno e Horkheimer, em sua Dialética do esclarecimento, recorrem a Kant para fundamentar sua concepção de autonomia. Para eles, a tarefa a ser realizada era a de superar a imaturidade da época (anos 40 do século passado) e de nos tornarmos indivíduos esclarecidos, quer dizer, realmente autônomos. Ser autônomo, para eles, não é apenas sermos livres, mas podermos escolher e fixar metas para nós mesmos e desenvolver meios apropriados para esses fins. Igual caminho trilhou Habermas para construir seus conceitos de razão, linguagem e emancipação.

Esse era o fundamento das posições de Karl Kraus, que, como os demais, apoiava-se em Kant. Batalhador incansável pela recuperação dos princípios do Iluminismo, Kraus via na imprensa o espaço mais importante para se poder iluminar as pessoas e a sociedade, trazer luz à escuridão. A razão tem poderes contra o arbítrio e a violência, e o papel da imprensa seria o de levar seus leitores à maioridade, tarefa esta da qual eles próprios eram corresponsáveis. O progresso humano, portanto, não poderia levar à ruína a não ser pela ação de um tipo de desenvolvimento perverso, erva daninha da evolução, a saber, de uma imprensa que destrói a língua e cassa as possibilidades de fantasia que esta contém. Por meio de sua revista Fackel, que ele edita sozinho e em que propõe seu próprio exemplo para demonstrar a possibilidade do indivíduo soberano, que não deve satisfações nem obrigação a ninguém senão a seu ideal, Kraus vai às bancas defender uma razão universal. Ele argumentava que a personalidade e a responsabilidade não estavam perdidas; o que degenerou foi apenas esse tipo de progresso que redundou numa obra diabólica da humanidade. Por isso, a modernidade ainda poderia ser salva – como também pensava Habermas, algumas décadas depois – no sentido de uma modernidade crítica.

E como a imprensa teria sabotado o vapor do Esclarecimento? Ora, dando preferência a uma literatura automatizada, que reduzia o mundo a sensações, estaria ela, segundo suas palavras, vendendo a individualidade a baixo preço, dourando o tempo que forma a identidade, enterrando, assim, a soberania kantiana, funções estas, obscurantistas, que antes eram adotadas pelos príncipes e pelos padres.

Detalhamentos

Karl Kraus, o maldito. Um egomaníaco: ...era claramente um cínico egomaníaco (Ganahl, p. 14). Um eterno descontente, ‘cego de vaidade, egocentrismo e mania de grandeza’, dizia Marcel Reich-Ranickl. (Ganahl, p. 14). Sádico de nascença: Hoje estou plenamente convencido, a uma longa distância de décadas, de que Karl Kraus era um sádico de nascença, dotado dos instintos mais refinados do sádico, de ferir aquele lugar que era mais dolorido. Ele era um sedutor consciente e um envenenador consciente. A posição humana, intelectual, moral de suas vítimas, em geral jovens, sem culpa, que estavam no início de uma carreira significativa – lhe era totalmente indiferente (Willy Haas, in: Alda, p. 90). Um homem que não suportava a crítica: "‘Pequeno Kraus’ era um cão que mordia a barriga da perna [ein Wadenbeisser], que não suportava nenhuma crítica (‘Se lhe davam uma bofetada, ele ficava ofendido... se não lhe davam uma bofetada, ele tomava isso como uma tentativa de suborno’)", cf. Arthur Schnitzer (Günter Baumann, in: Kraus, 2007b, p. 9). Um louco-varrido: Este homem é um louco varrido e é totalmente sem humor, Tucholsky (Kraus, 2007b, p. 10). Contra seus próprios antigos amigos: Os juízos sobre ele são frequentemente marcados por experiências decepcionantes no trato com o indivíduo Kraus, veneração inicial por ele transforma-se em ódio, como ocorreu com os escritores de Praga (Alda, p. 93).

Era polêmico, mas somente dentro de seu território. Kraus poderia muito bem polemizar porque ele, como o mais forte na polêmica, poderia criar seu próprio sistema de referência. Mas, para uma discussão num quadro de referência proposto por alguém outro, ele era incapaz, cf. Alfred Pfabigan (Ganahl, p. 69).

Kraus jamais elogiava; mesmo àqueles tidos como jornalistas exemplares. "O fato de este repórter [Max Winter] nunca ter sido elogiado expressamente na Fackel, só pode ser explicado pelo rigor na luta contra a imprensa, que, pelo bem da integridade da crítica, não se permitia nenhuma sombra (Ganahl, p. 76/77).

Karl Kraus polemiza até consigo mesmo. Logo vai fazer dez anos que eu não me volto a mim mesmo. Quando voltei-me a mim mesmo pela última vez fundei um jornal de combate. (Kraus, 2007a, p. 169). Eu e meu público nos entendemos muito bem: ele não ouve o que eu digo e eu não digo o que ele quer ouvir (Kraus, 2007a, p. 170). E ainda: Não me perturbem, estou escrevendo um artigo que não irá sair, e, diga-se de passagem, já amanhã! (Brecht, Os insuperáveis, onde Kraus aparece como chantageador do jornal. In: Kraus, 2007b, p. 10).

Sobre o ato da escrita: pensar por si próprio. Escrever significa, no sentido de Kraus, pensar por si próprio, iluminar-se e imunizar-se, especialmente porque cada pessoa que escreve precisa o tempo todo fazer julgamentos, que somente podem reivindicar, como consequência da dúvida criteriosa, não possuir preconceitos, não ficar nas frases (Ganahl, p. 16). Comparar com a citação de Confúcio, na Fackel do meio de maio de 1931, que termina com a frase: Portanto, não se tolere que nas palavras algo esteja fora de ordem. É disso que tudo depende (F 852-856, 60) (Alda, 154). Quem escreve conscientemente, tem que pensar – e quem pensa, não obedece cegamente: ‘Que estilo de vida poderia se desenvolver, se os alemães não recebessem nenhuma outra ordem a não ser a da língua!’ (Ganahl, p. 54). Edwin Hartl: "Toda palavra entregue por escrito é um testamento humano, legado espiritual e testemunha; ele diz não apenas o que queremos, ele denuncia direta ou indiretamente o que nós somos e co­-

mo nós somos. É, portanto, uma cópia e modelo e, por isso, corresponsável pelo desenvolvimento cultural da humanidade. Cf. Der Journalismus als literarisches Problem". In: Wiener literarisches Echo, Viena, ano 1, 1048-49, no. 3, abr/jun, p. 68.

Da boa gramática. Quem considera as regras historicamente desenvolvidas da gramática, quem formula suas ideias exclusivamente com a ajuda de signos linguísticos, estimula a capacidade de julgamento, liberta-se dos preconceitos (Ganahl, p. 176). A língua fornece pura e simplesmente a base normativa, o único texto de lei que deveria ser seguido estritamente, principalmente porque cada violação permanece impune (Ganahl, p. 176).

Kraus, defensor do Iluminismo. Iluminar, trazer luz à escuridão (Ganahl, p. 53). Kraus atua como advogado do Esclarecimento kantiano, quando ele faz propaganda do indivíduo soberano, ensina através de experimento próprio, que personalidade e responsabilidade não estão perdidas (Ganahl, p. 56). "Como o promotor alemão do Esclarecimento, Immanuel Kant, Kraus exorta seus leitores a sair de sua ‘minoridade da qual são responsáveis’ (Ganahl, p. 54). (...) Com a publicação de sua revista, como livre jornalista, ‘que não é limitado por nenhuma obrigação’, Kraus converte esta divisa em realidade e pronuncia-se definitivamente como defensor de uma razão universal, cuja realização pressupõe a identificação da não razão (Ganahl, p. 54). Ele não se coloca contra a modernização, pura e simplesmente; não é o progresso em si que leva a humanidade à ruína, mas um progresso, que Kraus viveu em Viena, por volta de 1900, como ‘obra diabólica da humanidade’ (Ganahl, p. 15). Na medida em que Kraus defendia uma restauração do Esclarecimento no sentido de Kant, ele se mostrava como um defensor da modernidade crítica" (Ganahl, p. 19).

Imprensa: sabotando o vapor do Esclarecimento (cf. Ganahl, p. 12). Como motor da razão pervertida, atua uma imprensa que dá preferência à automatização da literatura, que dissolve o mundo em sensações sem critérios. A imprensa enterra a soberania da personalidade kantiana, porque ela vende a baixo preço a individualidade, porque ela doura pateticamente o tempo que cria a identidade na contradição. A imprensa sabota o Esclarecimento (Ganahl, p. 52).

2. A frase, forma jornalística de levar ao totalitarismo

Os estudiosos da linguagem antes de Kraus, com exceção de Mauthner, ocupavam-se com o campo específico da instituição língua e de seu estudo aprofundado. Esta era a tônica do fin-de-siècle europeu e a origem filosófica da chamada (e questionada) virada linguística. Mas Kraus fala muito além da linguagem propriamente dita; ele comenta toda uma época, seus modos de expressão, que denunciavam, na visão de Arntzen, a qualidade histórica do problema linguístico (p. 38-39).

O que ocorria por volta de 1900 e que o motivou inicialmente a tomar a pena por suas próprias mãos foi o fenômeno local específico da literarização do jornalismo, empreendida particularmente pelos cadernos de cultura da imprensa da época, os folhetins. Na Viena da época, era comum encontrarem-se na imprensa escritores atuando como jornalistas. Maximilian Harden e Hannes Haas apoiavam tal iniciativa acreditando que com isso prestava-se serviço à atualidade por meios literários. Karl Kraus era totalmente contrário a essa postura, pois, para ele, jornalismo deveria ser exclusivamente informativo e separar-se claramente do estilo literário. Não que ele não reconhecesse na literatura e na poesia valores linguísticos insuperáveis; muito pelo contrário, a literatura era o celeiro da cultura, possibilidade de reflexão, espaço onde se produz a partir da língua. Um escritor, diferente do jornalista, jamais consegue escrever sem personalidade. Mas no jornalismo a forma literária não tinha nada a ver com isso. As figuras e as imagens estéticas ficavam reduzidas à sua função ornamental, o caráter de mercadoria da informação ficava obscurecido pelas formas literárias mortas, pelas frases vazias.

E como se dá a mutilação da fantasia pela imprensa literarizada? Na opinião de Kraus, esse tipo de jornalismo mostra fantasias pré-elaboradas que limitam as possibilidades interpretativas do leitor, arruinando, a longo prazo, seu potencial individual de imaginação, inclusive sua capacidade de ação.

Na obra A terceira noite do baile das bruxas (Das dritte Walpurgisnacht), Kraus tenta demonstrar que a língua caminha para aquilo que ele chama de frase (as expressões vazias que atrofiam o imaginário), cujo uso intensivo provoca indiferença nos leitores, que, ao cabo de algum tempo, perdem a capacidade de reconhecer a origem da metáfora, por exemplo, pôr sal na ferida aberta, e sequer se interessam em sabê-la. Tornam-se indiferentes. A persistência do uso contínuo das frases conduz, por fim, ao ato, isto é, ao homicídio, como sua consequência natural.

No processo histórico alemão que conduziu a Hitler, todo o povo, na visão de Kraus, foi vítima de demagogos despóticos, porque lia jornais que durante anos usavam-se das frases, cuja escrita irresponsável e instrumental o impedia de ver que a força da língua reforçava os julgamentos, construía personalidades. (Na teoria de Habermas, impressionantemente próxima a tudo isso, a linguagem cotidiana do mundo vivido é constantemente visada pelo sistema, que tenta colonizá-la. É através da linguagem que se impõe a dominação, concluirá mais tarde também Habermas.) A imprensa, segundo Kraus, teve papel decisivo tanto na eclosão da Primeira Guerra quanto na expansão e vitória do nazismo alemão. Não que ela tenha efetivamente provocado a guerra, mas a frase teria transformado a consciência das pessoas de tal forma, que estas, exaustas do falatório frasal, teriam partido para o ato.

Na visão de Kraus, a consciência individual do leitor torna-se, assim, congruente com a da imprensa, que produz, como aparelho de sincronização, massas sem sujeito, hordas, criaturas da natureza que já não podem imaginar, pensar e agir de forma autônoma (Ganahl, p. 84). Ouçamos o que fala, a esse respeito, Patrícia Alda: "O que Kraus criticava na imprensa até a Primeira Guerra Mundial e via como momento que detonou a guerra, a saber, a superficialidade de ideias e o falar baseado em ‘frases’ de seus representantes, [foi aquilo] através do qual surgiu, segundo a avaliação de Kraus, a incapacidade da humanidade de imaginar, que continua após 1918 até o domínio dos nazistas. Para Kraus, é aspecto fundamental que favoreceu o aparecimento de Hitler e de seu partido, e, até mesmo que o tornou possível, o fato de que ninguém tinha mais condição de imaginar do que era capaz o nacional-socialismo. Este não-poder-imaginar e, portanto, este deixar-tudo-acontecer são culpa, na opinião de Kraus, principalmente da imprensa, através de seu modo de noticiar, no qual ela, por exemplo, utilizava uma forma de falar, nos mais diferentes contextos, e, com isso, transmitia a seus leitores uma congruência pelo menos aparente de todas estas diferenciadas situações" (Alda, p. 164-5).

O jornalismo literalizado teria sido culpado do desenvolvimento da política radical e do totalitarismo porque apresentava todas as informações como interpretações estandardizadas, reforçando os clichês culturais. A frase, como algo que se coloca antes da coisa, impedia a informação, era o domínio da língua somente para obter seus efeitos. A repetição e a ironização neutralizavam o horror. A imprensa, para Kraus, era a própria organização da irresponsabilidade moral e espiritual: ela criava fatos, ela produzia mortos e ludibriava pelo fascínio que vem das palavras impressas, dizia ele.

Para Karl Kraus, a imprensa não publicava apenas notícias de fatos acontecidos, mas também não notícias, que a desacreditavam. Os jornalistas achavam que se utilizavam do medium língua como algo retoricamente eficaz, quando, em verdade, ignoravam que tanto a consciência dos leitores como o próprio fato tornavam-se mera frase, viravam vazio ou nada com aparência de significação. Frase, para ele, como conjunto de lugares comuns sempre iguais, não passava de metalinguagem que só servia para levar ao esquecimento, ou a algo que aumenta a confusão, como dizia Kierkegaard, referindo-se, quase na mesma época, à imprensa de seu país.

No início, por volta de 1920, as violentas críticas de Kraus ao monarquismo haviam provocado acirradas polêmicas na sociedade vienense. O culto aos afilhados do imperador, a seus soldados moribundos, que levou à Primeira Guerra, teria sido culpa da imprensa, segundo ele. Mas a imprensa era indiferente às críticas. O número 404 da revista Fackel, de Kraus, já previa um futuro funesto para aquela sociedade: "(...) nesta época, (...) aconteceu exatamente aquilo que não se poderia imaginar, e (...) vai acontecer aquilo que as pessoas não podem imaginar, e se pudessem, não aconteceria" (F 404, 1). E não só isso. Em 1930, Kraus vê sua tese confirmada: através da imprensa, diz ele, haviam sido construídas ligações entre a Primeira Guerra, o Exército e o movimento nacional-socialista, que os valoravam positivamente.

O próprio hitlerismo seria uma "montagem a partir das frases. No nacional-socialismo, a imprensa, segundo Kraus, teria levado ao triunfo do movimento pela provocação política, pela utilização de seus próprios meios e por causa do crescimento imbatível de sua multiplicidade de manifestações. Sempre houve, contudo, leitores que, como Kraus, se revoltavam contra essa deturpação linguística levada a efeito pelos jornalistas da época. Mas eram minoria e impotentes diante da ação mediática conjunta da imprensa, como foi o caso de Robert Musil, que denunciava a frase e seu efeito sensacionalizante como forma de fala-ação. Com o tempo e a recrudescência do movimento, os jornais já ridicularizavam os pacifistas (equivocados, sentimentais), e apoiavam tacitamente os belicistas (pessoas razoáveis, ideais" do Estado), fazendo inclusive escárnio da vitimização de dez milhões na guerra mundial anterior.

Detalhamentos

Sobre a literarização do jornalismo. Kraus repudia colaboração de escritores nos folhetins (Alda, p. 94). Kraus contra Hannes Haas (Ganahl, p. 84). Kraus contra Maximiliam Harden (idem, p. 67-68). Sobre a destruição do pensamento e da fantasia, ver Arntzen, p. 39. Sobre a mutilação da fantasia dos receptores, ver Alda, p. 168. Considere-se também a citação de Ganahl: A imprensa, pelo fato de apresentar os fatos com fantasias pré-elaboradas, limita as possibilidades interpretativas do leitor e arruína, a longo prazo, sua potencialidade individual para a imaginação, o que, dito de forma kantiana, tiraria as bases da formação do julgamento e, com isso, a capacidade de ação (Ganahl, p. 74).

Sobre o fascínio da palavra impressa, ver revista Fackel, 800-805. Sobre o domínio da língua para obter seus efeitos, sobre a frase como algo que faz esquecer, ver Arntzen, p. 41. Sobre as não notícias, o algo vazio com aparência de sentido, ver Alda, p. 168.

Da língua para a frase e desta para o ato violento. Este caminho da língua para a ‘frase’ e da ‘frase’ para o ato, que é homicídio, foi de tal forma tornado reconhecível neste livro, que nele o conhecimento do verdadeiro contexto serve incomparavelmente mais do que a análise sociológica e de biografias de sucesso (Arntzen, p. 49).

Jogar sal na ferida aberta ou o enfraquecimento da metáfora. Kraus diz que a ‘reivindicação do conteúdo da frase’ é consequência necessária do falar jornalístico. Esta perda da capacidade imaginativa é, na opinião de Kraus, culpa da imprensa, que, por meio da utilização arbitrária de uma e da mesma forma de falar em contextos mais variados, produz uma indiferença nos receptores, que, por fim, não mais conhecem a origem da metáfora e, além disso, já nem querem saber – a utilização funciona também assim (Alda, p. 159).

Kierkegaard e a imprensa que aumenta a confusão: Uma comunicação que crê, assim, na quarta potência só contribui para aumentar a confusão, pois, mais se comunica em termos vagos, mais a confusão torna-se cruel, mais inumana e sobre-humana a tarefa colocada ao indivíduo (Kierkegaard, p. 43).

Imprensa e a destruição. "Nesta [frase], o editor da Fackel apresenta a imprensa como principal culpado pela eclosão da guerra, que ‘pelo exercício de décadas levou a humanidade àquele patamar da carência de fantasia que permitiu uma guerra de destruição contra si mesma’ " (F 404,9) (Alda, p. 163).

Da imprensa para Hitler. Em realidade, Kraus forneceu com esta Fackel uma demonstração de sua teoria linguística, sua prova de por que se chegou a Hitler. O público foi vítima de demagogos despóticos, porque através da leitura de jornais durante anos já estava sintonizado na mesma linha (gleichgeschaltet), porque a escrita irresponsável, instrumental, dos jornalistas, impedia que a vista visse a força da língua que reforçava julgamentos, que construía personalidades. Sem feuilleton, portanto, nada de Hitler (Ganahl, 177-8). "Não que a imprensa, por meio de informações determinadas ou pela omissão de informações ou pelo que se chamou de ‘campanha de guerra’ (Kriegshetze) tenha provocado a eclosão da violência como guerra mundial, como nazismo, como totalitarismo, pura e simplesmente; antes, a ‘frase’, da forma como era dita, como opinião e notícia, ocupou e transformou a consciência das pessoas de tal forma que estas, cansadas do falatório ‘frasal’, entregaram e entregam a ‘frase’ ao ato" (Arntzen, p. 46-47).

Da língua para a frase e da frase para o ato. "A terceira noite do baile das bruxas mostra o hitlerismo como uma montagem a partir das ‘frases’, que já estava sendo preparada há tanto tempo, como uma mistura explosiva de metáforas, na qual a identidade da ‘frase’ e da coisa confirmava-se da forma mais cruel. Tudo foi há muito preparado como palavra de ordem por cidadãos e pelos medos dos cidadãos e apenas aguardava àquele que começasse a golpear. Este caminho da língua para a ‘frase’ e da ‘frase’ para o ato, que é homicídio, foi de tal forma tornado reconhecível neste livro, que nele o conhecimento do verdadeiro contexto serve incomparavelmente mais do que a análise sociológica e de biografias de sucesso" (Arntzen, p. 49).

Hitlerismo é uma montagem a partir das ‘frases’ (Alda, 158). Nas falas de Hitler (...) poder-se-ia mostrar como o mais longínquo permanece ligado à ‘frase’ e como esta tem sua intenção de contínua ameaça de violência. Mas dever-se-ia mostrar aos jornais, aos jornalistas e aos seus textos como a perda da linguagem torna-se inofensiva diante da ‘frase’: a transformação de uma ‘frase’ em outra foi, em 1933, tão tranquila porque significou a constância no fraseológico (Arntzen, p. 50).

Sobre os incidentes de 1920. Kraus havia dado a palestra Guilherme e os generais, em 4 de fevereiro de 1920, em Innsbruck, a partir de relatos do contra-almirante Persius e do almirante Foss, mostrando o imperador no conjunto de sua crise. Nesse momento, um importante e antigo orador alemão deixa a sala sinalizando o clima. A porta da sala de reuniões

é batida sucessivamente. Houve vaias, apupos e reações às vaias. Mas também uma tempestade de aplausos a Karl Kraus. Este chama os insastifeitos de ninhada do imperador e seu abandono da sala de fuga dos soldados moribundos; os jornais atacaram duramente Kraus. Os incidentes em Innsbruck são, para Kraus, no ano de 1920, a revelação de uma postura de espírito derivada da tradição do monarquismo, que ele vê como culpa da imprensa, e que foi, também, causa para a eclosão da Primeira Guerra (Alda, p. 133).

Sobre Robert Musil. Na Primeira Guerra e muitas vezes depois, aqueles que buscaram salvar-se da ‘frase’ como língua totalmente formalizada, totalmente automatizada, foram ficando cada vez pior no mutismo do agir, da ação salva da ‘frase’. Robert Musil, um dos escritores que, sem confessá-lo, aprendeu tanto de Karl Kraus, inventou para este processo o vocábulo fala-ação" (Tatparole). Especialmente a exigência de que, em vez de palavras, fatos deveriam finalmente acontecer, obviamente recorrendo à citação de Goethe, surge da fala que se tornou ‘frase’ e de seu efeito sensacionalizante" (Arntzen, p. 46). Sobre a multiplicidade de opiniões, ver Alda, p. 18.

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