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Cenas de aquilombar-se
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E-book202 páginas3 horas

Cenas de aquilombar-se

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Sobre este e-book

Cenas de aquilombar-se, é uma obra que busca refletir sobre a produção afro e suas referências na metodologia, estética preta e outras questões que contribuem para luta e resistência no cenário cultural baiano.
Ao longo dos capítulos os autores se propõem a discutir questões sobre a escrita afro, assim como a cena artística negra, observada pelos pesquisadores, considerando o combate ao extermínio de "corpos e saberes ancestrais". É um estudo aprofundado sobre as raízes afro.
IdiomaPortuguês
Data de lançamento11 de nov. de 2021
ISBN9786558403333
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    Cenas de aquilombar-se - Adalberto S. Santos

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    Copyright © 2021 by Paco Editorial

    Direitos desta edição reservados à Paco Editorial. Nenhuma parte desta obra pode ser apropriada e estocada em sistema de banco de dados ou processo similar, em qualquer forma ou meio, seja eletrônico, de fotocópia, gravação, etc., sem a permissão da editora e/ou autor.

    Revisão: Andressa Marques

    Capa: Matheus de Alexandro

    Imagem de Capa: AnnaliseArt - Pixabay

    Diagramação: Leticia Nisihara

    Edição em Versão Impressa: 2021

    Edição em Versão Digital: 2021

    Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

    Conselho Editorial

    Profa. Dra. Andrea Domingues (UNIVAS/MG) (Lattes)

    Prof. Dr. Antonio Cesar Galhardi (FATEC-SP) (Lattes)

    Profa. Dra. Benedita Cássia Sant’anna (UNESP/ASSIS/SP) (Lattes)

    Prof. Dr. Carlos Bauer (UNINOVE/SP) (Lattes)

    Profa. Dra. Cristianne Famer Rocha (UFRGS/RS) (Lattes)

    Prof. Dr. José Ricardo Caetano Costa (FURG/RS) (Lattes)

    Prof. Dr. Luiz Fernando Gomes (UNISO/SP) (Lattes)

    Profa. Dra. Milena Fernandes Oliveira (UNICAMP/SP) (Lattes)

    Prof. Dr. Ricardo André Ferreira Martins (UNICENTRO-PR) (Lattes)

    Prof. Dr. Romualdo Dias (UNESP/RIO CLARO/SP) (Lattes)

    Profa. Dra. Thelma Lessa (UFSCAR/SP) (Lattes)

    Prof. Dr. Victor Hugo Veppo Burgardt (UNIPAMPA/RS) (Lattes)

    Prof. Dr. Eraldo Leme Batista (UNIOESTE-PR) (Lattes)

    Prof. Dr. Antonio Carlos Giuliani (UNIMEP-Piracicaba-SP) (Lattes)

    Paco Editorial

    Av. Carlos Salles Bloch, 658

    Ed. Altos do Anhangabaú, 2º Andar, Salas 11, 12 e 21

    Anhangabaú - Jundiaí-SP - 13208-100

    Telefones: 55 11 4521.6315

    atendimento@editorialpaco.com.br

    www.pacoeditorial.com.br

    SUMÁRIO

    FOLHA DE ROSTO

    I - APRESENTAÇÃO

    ABRINDO OS CAMINHOS

    Adalberto S. Santos

    II - IMPRESSÕES DA CENA

    ZONA DESCONFORTÁVEL

    Ariele Souza Guimarães

    A CIDADE QUE NOS É PERMITIDA: OU DA NECESSÁRIA RESSIGNIFICAÇÃO DOS FLUXOS

    Bruna Cook

    CENA NEGRA NO CAMPO: DA SALA DE AULA À COMUNIDADE REMANESCENTE QUILOMBOLA

    Daliane Carvalho G. P. Fernandes

    AS CENAS NEGRAS DO MERCADO EDITORIAL DE SALVADOR-BA

    Joice de Oliveira Faria

    CENA NEGRA: REGISTROS, MEMÓRIAS E EXPERIÊNCIAS

    Maria Helena Guimarães Carvalho Tavares

    III – ARTES DA CENA

    COLETIVO BONECAS PRETAS: ARTE DRAG E AQUILOMBAMENTO NA LUTA ANTIRRACISTA

    Deivide Souza

    BISPO DO ROSÁRIO, ROSANA PAULINO E SÔNIA GOMES: BORDADOS EM CENA NEGRA

    Juracy Lima

    DILUINDO BRANQUITUDES CINEMATOGRÁFICAS NA DELICIOSA NEGRITUDE DE UM CAFÉ COM CANELA

    Kleber José Fonseca Simões

    PERFORMANCE E PERFORMATIVIDADE NA CENA: O REGGAE DO RECÔNCAVO

    Nara Rúbia Alves Silva

    SOBRE OS AUTORES

    PÁGINA FINAL

    I - APRESENTAÇÃO

    ABRINDO OS CAMINHOS

    Adalberto S. Santos

    Experiência e negrorreferência

    Como professor negro, ao longo de minha permanência no ensino superior, compreendi a importância de fomentar projetos de formação que estivessem abertos ao reconhecimento das subjetividades dos herdeiros de África, tecendo com os saberes/fazeres da diáspora africana um conjunto de relações flexíveis, ou melhor, de dispositivos estratégicos capazes de acionar poderes ligados aos limites destes saberes/fazeres. Compreendi também a importância de reforçar o compromisso assumido por vários pesquisadores negros e negras que buscam aportes para delinear formações comprometidas com as populações da diáspora africana.

    A atuação nas universidades brasileiras está marcada pelo conjunto de relações que ali se instituem, seja na formação de cientistas, de professores e dos demais profissionais e, por isso mesmo, não se pode esquecer como o conhecimento da realidade que essas relações criam e organizam e as forças por ele mobilizadas são capazes de rejeitar projetos transformadores, sobretudo quando tais ações são propostas sob a condição de atividades emanadas do imaginário de quem luta para vencer a adversidade das condições históricas que atravessam o dia a dia dos herdeiros de povos sequestrados e escravizados e que, ao adentrarem o espaço universitário, quer seja como docente, discente ou técnico, encontram um espaço altamente racializado. Também não se pode esquecer do poder de interferência do mercado sob a produção de conhecimento nas universidades, uma vez que […] o conhecimento ocidental tornou-se uma mercadoria de exportação para a modernização do mundo não ocidental (Mignolo, 2017, p. 6).

    Historicamente, há investimentos na construção de imaginário que privilegia as heranças europeias num processo inventado e mantido pelas elites brancas brasileiras. Assiste-se, diuturnamente, ao desenrolar de narrativas que geram influência direta sobre a autoestima das populações negras, alicerçadas na (re)produção de imagens negativas sobre os/as negros/negras, que solapam identidades, danificam autoestimas e, ao final, culpam-os pela discriminação que sofrem, justificando as desigualdades as quais estão submetidos.

    Sovik (2009), ao reconhecer a carga de autoridade auferida à condição de branco, ressalta que é o investimento na construção de imaginário racializado que justifica o fato de os brancos e os mestiços mais brancos estarem em evidência desproporcional nos meios de comunicação. Corrobora com essa visão o fato de que em universidades localizadas em regiões de população majoritariamente negra, como Salvador, a escassa presença de professores negros e professoras negras nas universidades, sobretudo na federal, dificulte a composição de mesas com negros e negras, sobretudo, assumidamente gays ou lésbicas.

    Nesse sentido, é preciso revisitar ou mesmo produzir rasuras na estrutura acadêmica para fazer comportar categorias de saberes/fazeres necessárias para formar profissionais capazes de pôr em evidência visões de como podem ser as relações com os outros, em especial, com os imaginários dos negros e negras que compõem o cotidiano universitário.

    Não tenho, nesse trajeto, a pretensão de produzir novos significados, e minhas memórias não me permitem o esquecimento do consagrado. O que almejo – em caminho que trilho por nascença e do qual só posso me apartar quando, enfim, emitir minha última expiração – é assumir posição auxiliar no processo de construção de bases teóricas/metodológicas que traduzam ação criadora marcada pelos signos dos herdeiros de África. Signos que, tratados como exótico, bárbaro, feio, folclórico, ocuparam pouco ou nenhum espaço no pensamento social brasileiro. Também não se trata de um discurso sobre currículo, mas de pensar como as estruturas universitárias podem dar fulcro a projetos políticos que visibilizem práticas poéticas, estéticas e epistêmicas desenvolvidas em torno da problemática que atravessa essa escrita.

    Conclamo um maior entrelaçamento das ações de pesquisa, extensão e ensino e de todo aporte que a estrutura das universidades detém para a concretização de um lócus empenhado em produzir conhecimentos que contribuam para auxiliar os projetos de justiça social que marcam os reclames de negros e negras por políticas emancipatórias. Estou empenhado na busca por bases teóricas auxiliares no processo de ruptura das fronteiras que, historicamente, definem o que somos, fazemos, pensamos e, sobretudo, como pensamos, para poder, ativamente, participar de um lócus de produção de saber/fazer que, embora veja as expressões das populações da diáspora africana como objeto para estudo, tem revelado pouca preocupação com a potência de suas estéticas, de suas poéticas e de suas epistemes.

    Imbuído da certeza de que se faz necessário a produção de conhecimentos e pedagogias que dissolvam a distinção entre teoria e prática, entre ciência e ação e de que esses conhecimentos não podem viver à margem dos processos institucionais ou participar deles de maneira acessória, reclamo protagonismo, visibilidade e reconhecimento às poéticas, estéticas e epistemes negrorreferenciadas.

    A noção de negrorreferência, adotada nesta trajetória, tem proximidade com a perspectiva afrocentrada, ou seja, partilho a compreensão do necessário desabrochar de […] um tipo de pensamento, prática e perspectiva que perceba […] negros e negras […] como sujeitos e agentes de fenômenos atuando sobre sua própria imagem cultural e de acordo com seus próprios interesses […] (Asante, 2009 apud Santos Jr., 2010, p. 2). Contudo, opto pela expressão negrorreferência, pois os saberes que dão substância aos pensamentos que germinam nessa escrita pautam-se em multiplicidades de vetores que se hibridizam no imaginário desse homem negro, os quais não se constituem, exclusivamente, das heranças dos estudos africanos e, também, por querer realçar a potência da África negra e da diáspora negra.

    Por outro lado, os marcadores sociais da diferença estabelecem lugares distintos para os agentes dentro da estrutura social, dessa forma, entendendo que a identidade é construída por meio da diferença; busquei compreender os meios pelos quais negros e negras instituem significados, não como um racismo ao inverso, mas como – utilizando-se de marcadores sociais, ou melhor, das marcas produtoras de diferenciação social – ampliam os limites de espaço e tempo atribuídos aos herdeiros de África e, assim, posicionam-se e estabelecem referências de pertencimento e reconhecimento mútuos que lhes são favoráveis.

    Negrorreferenciar-se é revalorizar os rastros herdados da África Negra, tornando-os alicerces para descontruir dentro e fora de nós mesmos os estereótipos e julgamentos prévios […] internalizados na consciência pela ideologia do recalque das diferenças e utilizados para construção da percepção social do negro (Silva, 2011, p. 29). Tomar a negrorreferência como ponto de partida para um projeto político nas universidades brasileiras é assumir as africanidades brasileiras […] os modos de ser, viver, de organizar […] lutas, próprios dos negros brasileiros, mas também as marcas da cultura africana que, independente da origem étnica de cada brasileiro, fazem parte do seu dia-a-dia (Silva, 2000, p. 151).

    Nesse sentido, o projeto que resultou na escrita desse livro buscou visitar as estratégias desenvolvidas por negros e negras para o estabelecimento de sentido de pertencimento a seu grupo de referência (Gomes, 2003). Esse caminho me levou a fluxos de identificação que se manifestam na performance e performatividade de cenas negras que conferem sentimento de pertença a uma herança racial.

    Como educador, sei que preciso provocar rasuras nos projetos teóricos/metodológicos da universidade em que atuo para me afastar de processos formativos marcados por esquemas referenciais rígidos, para então incorporar processos multirreferenciados que incluam a negrorreferência e permitam abarcar a pluralidade de movimentos que atravessam nosso tempo, tomando como pressuposto a necessidade de descentramento da autoridade disciplinar para dedicar escuta sensível às necessidades e interesses de negros e negras.

    A leitura de Larrosa Bondía (2002) foi fundamental para pensar as bases epistêmicas que desembocou na organização deste livro. Foi ele quem me alertou sobre a necessidade de ultrapassar o pensamento dual sobre a educação que ora leva a entendê-la do […] ponto de vista da relação entre a ciência e a técnica ou, às vezes, do ponto de vista da relação entre teoria e prática (Larrosa Bondía, 2002, p. 20). Sua leitura me permitiu pensar as práticas que desenvolvo para além de um mero instrumento da aplicação de tecnologias pedagógicas ou de uma práxis política.

    Aceitei seu convite para explorar "outra possibilidade, […] mais existencial (sem ser existencialista) e mais estética (sem ser esteticista), […] pensar a educação a partir do par experiência/sentido. (Larrosa Bondía, 2002, p. 20, grifo do autor). E assim, compreendi que apontar a experiência que se leva a cabo nas cenas negrorreferenciadas como espaço de conhecer e dar a conhecer não é somente uma questão terminológica, pois, sendo a experiência o que nos passa, o que nos acontece, o que nos toca, o sujeito da experiência é […] ‘ex-posto’ […] o importante não é nem a posição (nossa maneira de pormos), nem a ‘o-posição’ (nossa maneira de opormos), nem a ‘im-posição’ (nossa maneira de impormos), nem a ‘pro-posição’ (nossa maneira de propormos), mas a ‘ex-posição’, nossa maneira de ‘ex-pormos’ […]" (Larrosa Bondía, 2002, p. 24).

    Da mesma forma que Larrosa Bondía, Brah (2011, p. 360) enfatiza a […] noção de experiência não como diretriz imediata para a ‘verdade’, mas como uma prática de atribuir sentido, tanto simbólica como narrativamente, como reclames sobre condições materiais que fundam ordem epistemológica e ordem ética. A partir deles pude compreender que a cena negrorreferenciada, configurada como o lugar da formação e informação, instaura o ato de conhecer e de dar a conhecer.

    Por isso mesmo, o saber que dela advém é saber encarnado e, desse forma, ao trilhar as experiências de negros e negras fez-se necessário evidenciar os meios pelos quais a negrorreferência assegura a continuidade de ações atreladas às experiências estéticas, poéticas e epistêmicas encarnadas por negros e negras.

    Isto implica, de algum modo, alicerçar fundamentos que, vislumbrando múltiplas referências, iluminem os caminhos que levem a modos de produção e transmissão de saber/fazer que fortalecem identidades e combatem os racismos e as discriminações, em consonância com os sistemas de valores epistêmicos, estéticos e poéticos, com diálogos que criam as bases para pensamento negrorreferenciado.

    Não proponho, simplesmente, a construção de pensamento em oposição

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