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A pena do espírito e o corpo de papel: narrativa e conhecimento sobre o corpo indígena no Chaco (Século XVIII)
A pena do espírito e o corpo de papel: narrativa e conhecimento sobre o corpo indígena no Chaco (Século XVIII)
A pena do espírito e o corpo de papel: narrativa e conhecimento sobre o corpo indígena no Chaco (Século XVIII)
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A pena do espírito e o corpo de papel: narrativa e conhecimento sobre o corpo indígena no Chaco (Século XVIII)

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A produção de narrativas e a produção de conhecimento no Ocidente moderno fazem parte de um processo que se desenvolveu concomitante, e de maneira indissociável, às dinâmicas de colonização do continente americano. Partindo deste pressuposto, esta investigação tem como proposta inquirir sobre as condições modernas e coloniais da produção de representações e de conhecimento sobre o corpo indígena no século XVIII, através da análise de duas obras escritas por padres da Companhia de Jesus que missionaram na região do Chaco em meados do referido século – a saber, a Historia de los Abipones (1784), do Padre Martin Dobrizhoffer SJ, e Hacia allá y para acá (1780), do Padre Florian Paucke SJ. O percurso de composição narrativa desta investigação passa por refletir teoricamente sobre a relação entre os conceitos de narrativa, conhecimento e representação, referenciando-os à conjuntura de desenvolvimento da modernidade e da colonialidade entre os séculos XVI e XVIII. Através desta reflexão, busca-se identificar quais as contribuições e as idiossincrasias das narrativas dos padres jesuítas no panorama intelectual dos setecentos, sobretudo na construção e na representação dos corpos dos distintos grupos indígenas do Chaco.
LanguagePortuguês
Release dateNov 26, 2021
ISBN9786525209654
A pena do espírito e o corpo de papel: narrativa e conhecimento sobre o corpo indígena no Chaco (Século XVIII)

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    A pena do espírito e o corpo de papel - Bruno Rodrigues

    1 PRODUÇÃO DE CONHECIMENTO SOBRE E A PARTIR DA ALTERIDADE AMERICANA

    Yo me atrevo a insinuar esta solución del antiguo problema: La biblioteca es ilimitada y periódica. Si un eterno viajero la atravesara en cualquier dirección, comprobaría al cabo de los siglos que los mismos volúmenes se repiten en el mismo desorden (que, repetido, sería un orden: el Orden). Mi soledad se alegra con esa elegante esperanza (Borges, [1944] 2004, p. 99-100).

    Em seu conto La biblioteca de Babel, publicado pela primeira vez em 1941, Jorge Luis Borges (2014) constrói uma narrativa sobre a vasta paisagem do conhecimento humano a respeito do mundo. Em sua metáfora, a biblioteca representa o espaço onde estão compilados todos os livros já escritos – e ainda os que estão por escrever – abarcando todo o conhecimento possível, num tensionamento radical entre passado, presente e futuro, "o sea, todo lo que es dable expresar: en todos los idiomas (p. 94). Retomando questões que assombram pensadores há milênios, como el origen de la biblioteca y del tiempo (Ibid., p. 95), Borges propõe uma imbricada relação entre o conhecimento e a palavra – ou talvez, mais precisamente, a palavra escrita: em algum lugar da biblioteca, em algum livro, se encontram as respostas para os mistérios mais profundos da humanidade. Conclui, por fim, que a busca por tal livro pretensioso é infrutífera: a biblioteca é infinita justamente porque suas estantes se modificam a todo instante; seus livros estão sendo constantemente reorganizados em renovadas configurações. Se hablar es incurrir en tautologías" (Ibid., p. 98), de qualquer modo é necessário continuar lendo e escrevendo livros, para que a biblioteca se mantenha aberta.

    No presente capítulo, debruçamo-nos teoricamente sobre as questões da composição de narrativas e da produção de conhecimento, traçando pontos de convergência e de divergência entre narrar e conhecer a partir das dinâmicas possíveis e efetivas de relação entre o eu e o outro. Em um primeiro momento, procuramos refletir a respeito dos conceitos de narrativa, saber, conhecimento e representação, tendo como objetivo estabelecer uma relação entre a produção de narrativas e a produção de conhecimento em uma dada sociedade, argumentando que os signos disponíveis para a elaboração de narrativas e o escopo de conhecimento legitimado e verossímil de uma sociedade se reconfiguram e se expandem mutuamente, através da relação com a diferença, com seu outro. Em um segundo momento, exploramos as condições modernas-coloniais desta produção de conhecimento, buscando desenvolver a hipótese de que toda a estrutura epistêmica – de produção e verificação de conhecimento – do mundo ocidental conhecido está arrastada por uma série de paradigmas moderno-coloniais ilustrados que remetem aos genocídios e epistemicídios ocorridos a partir do século XV, e que esboçaram as bases daquilo que pode ser considerado, ainda hoje, o conhecimento verdadeiro. Ainda, chama a atenção como estes paradigmas assinalaram as posições que as alteridades do Ocidente iriam ocupar dentro deste

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