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Da GUERRA - Carl Von Clausewitz

Da GUERRA - Carl Von Clausewitz

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Da GUERRA - Carl Von Clausewitz

Duração:
1.074 páginas
15 horas
Lançados:
8 de mar. de 2022
ISBN:
9786558940357
Formato:
Livro

Descrição

Carl von Clausewitz (1780-1831) foi um general prussiano que teve como um de seus principais legados a obra clássica: "Da guerra" que ainda hoje é uma referência obrigatória sobre as guerras e estratégias militares. Tendo lutado contra Napoleão e Frederico o Grande, dois notórios comandantes, Clausewitz utilizou suas experiências militares e políticas, combinadas com uma sólida compreensão da história europeia e uma enorme variedade de exemplos históricos de guerras, para realizar o seu grandioso trabalho. Da Guerra é formado por suas inúmeras anotações de batalhas bem como do  profundo conhecimento teórico de Clausewitz.  A obra é um dos tratados mais importantes sobre análise político militar e estratégia já escritos e até hoje exerce influência no pensamento estratégico, sendo presença constante nas escolas militares. Atualmente, a obra tem sido muito citada e utilizada por especialistas e jornalistas em análises  sobre a Guerra da Ucrania. 
Lançados:
8 de mar. de 2022
ISBN:
9786558940357
Formato:
Livro

Sobre o autor


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Amostra do livro

Da GUERRA - Carl Von Clausewitz - Carl Von Clausewitz

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Carl von Clausewitz

DA GUERRA

Título original:

Vom Kriege

1a edição

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Isbn: 9786558940357

LeBooks.com.br

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Prefácio

Prezado Leitor

Carl von Clausewitz (1780-1831) foi um general prussiano que teve como um de seus principais legados a obra clássica: Da guerra que ainda hoje é uma referência obrigatória sobre as guerras e estratégias militares.

Tendo lutado contra Napoleão e Frederico o Grande, dois notórios comandantes, Clausewitz utilizou suas experiências militares e políticas, combinadas com uma sólida compreensão da história europeia e uma enorme variedade de exemplos históricos de guerras, para realizar o seu grandioso trabalho.

Da Guerra é formado pelos três primeiros volumes de suas inúmeras anotações e representa suas explorações teóricas, mas profundamente embasadas na prática. A obra é um dos tratados mais importantes sobre análise político militar e estratégia já escritos e até hoje exerce influência no pensamento estratégico, sendo presença constante nas escolas militares.

Uma excelente leitura.

LeBooks Editora

Sumário

APRESENTAÇÃO

Sobre o autor e obra

LIVRO I - Da Natureza da Guerra

CAPÍTULO 1- O Que é a Guerra?

CAPÍTULO 2 - O Propósito e os Meios na Guerra

CAPÍTULO 3 - Do Gênio Militar

CAPÍTULO 4 - Do Perigo na Guerra

CAPÍTULO 5 - Do Esforço Físico na Guerra

CAPÍTULO 6 - A Inteligência na Guerra

CAPÍTULO 7 - A Fricção na Guerra

CAPÍTULO 8 - Observações Finais sobre o Livro Um

LIVRO II - Da Teoria da Guerra

CAPÍTULO 1 - Classificações da Arte da Guerra

CAPÍTULO 2 - Da Teoria da Guerra

CAPÍTULO 3 - Arte ou Ciência da Guerra

CAPÍTULO 4 - Método e Rotina

CAPÍTULO 5 - Análise Crítica

CAPÍTULO 6 - Dos Exemplos Históricos

LIVRO III - Da Estratégia em Geral

CAPÍTULO 1 - Estratégia

CAPÍTULO 2 - Os Elementos da Estratégia

CAPÍTULO 3 - Os Fatores Morais

CAPÍTULO 4 - Os Principais Elementos Morais

CAPÍTULO 5 - As Virtudes Militares do Exército

CAPÍTULO 6 - Coragem

CAPÍTULO 7 - Perseverança

CAPÍTULO 8 - Superioridade Numérica

CAPÍTULO 9 - Surpresa

CAPÍTULO 10 - Dissimulação

CAPÍTULO 11 - Concentração de Forças no Espaço

CAPÍTULO 12 - Unificação de Forças no Tempo

CAPÍTULO 13 - A Reserva Estratégica

CAPÍTULO 14 - Economia de Força

CAPÍTULO 15 - O Fator Geométrico

CAPÍTULO 16 - A Interrupção do Combate na Guerra

CAPÍTULO 17 - As Características da Guerra Contemporânea

CAPÍTULO 18 - Tensão e Inatividade

LIVRO IV - O Engajamento

CAPÍTULO 1 - Introdução

CAPÍTULO 2 - A Natureza da Batalha nos Dias de Hoje

CAPÍTULO 3 - O Engajamento em Geral

CAPÍTULO 4 - O Engajamento em Geral - Continuação

CAPÍTULO 5 - A Importância do Engajamento

CAPÍTULO 6 - A Duração do Engajamento

CAPÍTULO 7 - A Decisão do Engajamento

CAPÍTULO 8 - Acordo Mútuo para Lutar

CAPÍTULO 9 - A Batalha: A Sua Decisão

CAPÍTULO 10 - A Batalha: Efeitos da Vitória

CAPÍTULO 11 - A Batalha:  Sua utilização

CAPÍTULO 12 - Os Meios Estratégicos de Explorar a Vitória

CAPÍTULO 13 - A Retirada após uma Batalha Perdida

CAPÍTULO 14 - Operações Noturnas

LIVRO V - Forças Militares

CAPÍTULO 1 - Esboço Geral

CAPÍTULO 2 - O Exército, o Teatro de Operações e a Campanha

CAPÍTULO 3 - Força Relativa

CAPÍTULO 4 - A Relação Existente entre as Armas do Exército

CAPÍTULO 5 – A Formação de Batalha do Exército

CAPÍTULO 6 – A Disposição Geral do Exército

CAPÍTULO 7 - Guardas e Postos Avançados

CAPÍTULO 8 - O Emprego Operativo dos Corpos Avançados

CAPÍTULO 9 - Acampamentos

CAPÍTULO 10 - Marchas

CAPÍTULO 11 - Marchas - Continuação

CAPÍTULO 12- Marchas - Conclusão

CAPÍTULO 13 - Alojamentos

CAPÍTULO 14 - Manutenção e Abastecimento

CAPÍTULO 15 - A Base de Operações

CAPÍTULO 16 - As Linhas de Comunicação

CAPÍTULO 17 - O Terreno

CAPÍTULO 18 - O Domínio das Elevações

LIVRO VI - A Defesa

CAPÍTULO 1 - O Ataque e a Defesa

CAPÍTULO 2- A Relação Existente na Tática Entre o Ataque e a Defesa

CAPÍTULO 3 - A Relação Existente na Estratégia Entre o Ataque e a Defesa

CAPÍTULO 4 - A Convergência do Ataque e a Divergência da Defesa

CAPÍTULO 5 – As Características da Defesa Estratégica

CAPÍTULO 6 - O Âmbito dos Meios de Defesa

CAPÍTULO 7 - A Interação entre o Ataque e a Defesa

CAPÍTULO 8 - Tipos de Resistência

CAPÍTULO 9 - A Batalha Defensiva

CAPÍTULO 10 - Fortificações

CAPÍTULO 11 - Fortificações - Continuação

CAPÍTULO 12 - Posições Defensivas

CAPÍTULO 13 - Posições Fortificadas e Acampamentos Entrincheirados

CAPÍTULO 14 - Posições nos Flancos

CAPÍTULO 15 - Guerra Defensiva nas Montanhas

CAPÍTULO 16 - Guerra Defensiva nas Montanhas - Continuação

CAPÍTULO 17 - Guerra Defensiva nas Montanhas - Conclusão

CAPÍTULO 18 - A Defesa de Rios e Riachos

CAPÍTULO 19 - A Defesa de Rios e Riachos - Continuação

CAPÍTULO 20 - A. A Defesa de Pântanos

CAPÍTULO 21 - A Defesa de Florestas

CAPÍTULO 22 - A Linha de Defesa

CAPÍTULO 23 - A Chave para o País

CAPÍTULO 24 - Operações contra um Flanco

CAPÍTULO 25 - A Retirada para o Interior do País

CAPÍTULO 26 - O Povo em Armas

CAPÍTULO 27 - A Defesa de Um Teatro de Operações

CAPÍTULO 28 - A Defesa de um Teatro de Operações - Continuação

CAPÍTULO 29 - A Defesa de um Teatro de Operações - Continuação Defesa por Etapas

CAPÍTULO 30 - A Defesa de um Teatro de Operações - Conclusão Quando o Propósito Não For Obter uma Decisão

LIVRO VII - O Ataque

CAPÍTULO 1 - O Ataque em Relação à Defesa

CAPÍTULO 2 - A Natureza do Ataque Estratégico

CAPÍTULO 3 - O Propósito do Ataque Estratégico

CAPÍTULO 4 - A Força Decrescente do Ataque

CAPÍTULO 5 - O Ponto Culminante do Ataque

CAPÍTULO 6 - A Destruição das Forças do Inimigo

CAPÍTULO 7– A Batalha Ofensiva

CAPÍTULO 8 - As Travessias de Rios

CAPÍTULO 9 - Ataque a Posições Defensivas

CAPÍTULO 10 - Ataque a Acampamentos Entrincheirados

CAPÍTULO 11 - Ataque a uma Região Montanhosa

CAPÍTULO 12 - Ataque a Linhas de Defesa

CAPÍTULO 13 - Manobras

CAPÍTULO 14 - Ataque a Pântanos, Áreas Alagadas e Florestas

CAPÍTULO 15 - Ataque a um Teatro de Guerra: Procurando Obter uma Decisão

CAPÍTULO 16 - Ataque a um Teatro de Guerra: Não Procurando Obter uma Decisão

CAPÍTULO 17 - Ataque a Fortificações

CAPÍTULO 18 - Ataque a Comboios

CAPÍTULO 19 - Ataque a Um Exército Inimigo em Alojamentos

CAPÍTULO 20 - Diversões

CAPÍTULO 21 - Invasão

CAPÍTULO 22 - O Ponto Culminante da Vitória

LIVRO VIII - Planos de Guerra

CAPÍTULO 1 - Introdução

CAPÍTULO 2 - Guerra Absoluta e Guerra Real

CAPÍTULO 3 - A. A Interdependência dos Elementos da Guerra

CAPÍTULO 4 - Uma Definição mais Precisa do Propósito Militar: A Derrota do Inimigo

CAPÍTULO 5 - Uma Definição mais Precisa do Propósito Militar:

CAPÍTULO 6 - A. O Efeito do Propósito Político sobre o Propósito Militar

CAPÍTULO 7 - O Propósito Limitado: a Guerra Ofensiva

CAPÍTULO 8 - O Propósito Limitado: a Guerra Defensiva

CAPÍTULO 9 - O Plano de uma Guerra Destinada a Levar à Destruição Total do Inimigo.

APRESENTAÇÃO

Sobre o autor e obra

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A guerra nada mais é que a continuação da política por outros meios.

Carl Von Clausewitz

Carl von Clausewitz (1780-1831) foi um general prussiano que teve como um de seus principais legados uma obra clássica chamada: Da guerra, que é uma referência obrigatória sobre o fenômeno bélico.

Escrita provavelmente entre 1812 e 1831, foi publicada postumamente graças ao esforço de sua mulher Marie von Clausewitz; e é resultado da experiência e vasta quantidade de textos produzidos pelo soltado e posteriormente general prussiano. , Clausewitz foi soldado do exército prussiano desde 1792 e combateu nas guerras napoleônicas sempre contrariamente à França comandada por Napoleão Bonaparte, mesmo quando a Prússia se aliou a Napoleão após ser derrotada.

Naquele momento, Clausewitz renunciou à sua patente como oficial no exército prussiano e se alistou no exército russo; tendo desempenhado importante papel na retirada da Prússia da aliança pró-França quando o exército napoleônico bateu em retirada em sua malsucedida campanha na Rússia.

Reintegrado ao exército prussiano e à sua patente, Clausewitz participou de teatros de operações secundários nas ações decisivas até a derrota definitiva de Napoleão; suas convicções antinapoleônicas lhe custaram desconfiança e um preço muito caro: a partir de então, sua ascensão até o generalato renderam-lhe posições secundárias e administrativas sem comando de tropas, dentre elas, a direção da Academia Militar de Berlim.

Clausewitz acreditava que as forças morais na batalha tinham uma grande influência em seu resultado. Ele tinha uma excelente formação com fortes interesses em arte, história, ciência e educação. Foi um soldado profissional que passou uma parte considerável de sua vida lutando contra Napoleão. Ele lutou contra os exércitos revolucionários franceses (1792-1802) conduzidos por Napoleão e Frederico, o Grande, comandantes que se destacavam por terem feito um uso muito eficiente do terreno, das forças que estivessem à disposição e sua movimentação.

É nesse contexto que foi gerada a oi escrita sua grandiosa obra: Da guerra.

Sobre a obra

Da Guerra, é um livro sobre guerra e estratégia militar.

Clausewitz estava entre aqueles que ficaram intrigados com a maneira como os líderes da Revolução Francesa, especialmente Napoleão, mudaram a condução da guerra por meio de sua capacidade de motivar a população e obter acesso a todos os recursos do estado, desencadeando a guerra em uma escala jamais vista na Europa.

As percepções que obteve com suas experiências políticas e militares, combinadas com uma sólida compreensão da história europeia e uma enorme variedade de exemplos históricos de guerras, forneceram a base para seu grandioso trabalho.

Escrito principalmente após as guerras napoleônicas, entre 1816 e 1830, e publicado postumamente por sua esposa Marie von Bruhl em 1832, Da Guerra é na verdade uma obra inacabada; Clausewitz começou a revisar seus manuscritos acumulados em 1827, mas não viveu para terminar a tarefa. Sua esposa editou, então, seus escritos e os publicou entre 1832 e 1835. Suas obras coletadas de 10 volumes contêm a maioria de seus maiores escritos históricos e teóricos, embora não seus artigos e artigos mais curtos ou sua extensa correspondência com importantes políticos, militares, intelectuais e culturais. líderes do Estado prussiano.

Da Guerra é formado pelos três primeiros volumes e representa suas explorações teóricas. É um dos tratados mais importantes sobre análise político militar e estratégia já escritos, e permanece controverso e uma influência no pensamento estratégico.

Na obra Clausewitz; destacou os aspectos morais e políticos da guerra. Ele era realista em muitos sentidos diferentes e, embora em alguns aspectos um romântico, também se baseava fortemente nas ideias racionalistas do Iluminismo europeu. O pensamento de Clausewitz é frequentemente descrito como hegeliano por causa de seu método dialético; mas, embora ele provavelmente estivesse pessoalmente familiarizado com Hegel, permanece o debate sobre se Clausewitz foi ou não influenciado por ele.

Ele enfatizou a interação dialética de diversos fatores, observando como desenvolvimentos inesperados que se desenrolam sob a "névoa da guerra exigem decisões rápidas por comandantes alertas. Ele viu a história como um controle vital sobre abstrações eruditas que não estavam de acordo com a experiência. Também argumentou que a guerra não poderia ser quantificada ou reduzida a mapas, geometria e gráficos.

A presença de algumas das suas primeiras ideias em Da Guerra já indicavam a maneira lógica e coerente com que elas se desenvolveram, embora na obra já amadurecida elas apareçam como componentes de um processo dialético que Clausewitz havia dominado ao longo de duas décadas e adaptado aos seus fins. Um exemplo disto é o seu conceito do papel que o gênio desempenha na guerra, que está próximo da origem de todo o seu trabalho teórico.

Clausewitz tinha muitos aforismos, dos quais o mais famoso é A guerra é a continuação da política por outros meios. Sua obra Da Guerra é um dos tratados mais importantes sobre análise político militar e estratégia já escritos e até hoje exerce grande influência no pensamento estratégico, sendo presença constante nas escolas militares.

LIVRO I - Da Natureza da Guerra

CAPÍTULO 1- O Que é a Guerra?

INTRODUÇÃO

Proponho examinar primeiro os diversos elementos da questão, em seguida as suas diversas partes ou seções e, finalmente, o conjunto em sua estrutura interna. Em outras palavras, irei do simples para o complexo. Mas na guerra, mais do que em qualquer outra questão, devemos começar olhando para a natureza do conjunto, porque ali, mais do que em qualquer outro lugar, devemos pensar sempre na parte juntamente com o conjunto.

DEFINIÇÃO

Não devo começar apresentando uma definição pedante e literária de guerra, mas sim ir direto ao cerne da questão, ao duelo. A guerra nada mais é do que um duelo em grande escala. Inúmeros duelos fazem uma guerra, mas pode ser formada uma imagem dela como um todo, imaginando-se um par de lutadores. Cada um deles tenta, através da força física, obrigar o outro a fazer a sua vontade. O seu propósito imediato é derrubar o seu oponente de modo a tomá-lo incapaz de oferecer qualquer outra resistência. A guerra é, portanto, um ato de força para obrigar o nosso inimigo a fazer a nossa vontade.

A força, para opor-se á força oponente, mune-se de invenções da arte e da ciência. Existem certas limitações autoimpostas e imperceptíveis, vinculadas á força, que mal merecem ser mencionadas, conhecidas como legislação e costumes internacionais, mas elas pouco a enfraquecem. A força - isto é, a força física, porque a força moral não possui existência a não ser como expresso no Estado e na legislação - constitui assim o meio de que dispõe a guerra. Impor a nossa vontade ao inimigo constitui o seu propósito. Para atingir aquele propósito devemos fazer com que o inimigo fique impotente e este é, em tese, o verdadeiro intuito da guerra. Este intuito toma o lugar do propósito, descartando-o como algo que na realidade não é parte da guerra propriamente dita.

O USO MÁXIMO DA FORÇA

As pessoas de bom coração podem pensar, evidentemente, que existe alguma maneira criativa para desarmar ou derrotar o inimigo sem que haja muito derramamento de sangue, e podem imaginar que este é o verdadeiro propósito da arte da guerra. Agradável como possa soar, este é um sofisma que precisa ser desmascarado. A guerra é uma atividade tão perigosa que os erros advindos da bondade são os piores. O uso máximo da força não é de maneira alguma compatível com o emprego simultâneo da inteligência. Se um dos lados utiliza a força sem remorso, sem deter-se devido ao derramamento de sangue que ela acarreta, enquanto que o outro abstém-se de utilizá-la, o primeiro estará em vantagem. Aquele lado forçará o outro a fazer o mesmo que ele. Cada um deles levará o seu oponente ao extremo e os únicos fatores limitadores serão os contrapesos inerentes à guerra.

É assim que deve ser vista a questão. Seria inútil - e até mesmo errado - alguém tentar e fechar os olhos ao que a guerra realmente é, por pura angústia ante à sua brutalidade.

Se as guerras entre nações civilizadas são bem menos cruéis e destruidoras do que as guerras entre selvagens, a razão está nas condições sociais dos próprios Estados e nas relações entre eles. Estas são as forças que dão origem à guerra. As mesmas forças a restringem e a atenuam. Elas não fazem parte, entretanto, da guerra. Sempre existiram antes do inicio da luta. Inserir o princípio da atenuação na própria teoria da guerra levaria sempre a um absurdo lógico.

Dois motivos diferentes fazem os homens lutarem uns contra os outros: sentimentos e intenções hostis. A nossa definição baseia-se nestes últimos, uma vez que são o elemento universal. Não se pode conceber que exista nem mesmo o sentimento de ódio mais selvagem, quase instintivo, sem que haja uma intenção hostil, mas as intenções hostis muitas vezes não estão acompanhadas de qualquer tipo de sentimentos hostis - pelo menos por nenhum que predomine. Os povos selvagens são levados pela paixão, os povos civilizados pela mente. A diferença não está, entretanto, na respectiva natureza da selvageria e da civilização, mas sim nas circunstâncias, nas instituições e assim por diante, que as acompanham. A diferença não surte efeito, portanto, em todos os casos, mas sim na maioria deles. Até mesmo os povos mais civilizados, em suma, podem ser inflamados por um violento ódio uns pelos outros.

Consequentemente, seria uma ideia obviamente errônea imaginar que a guerra entre povos civilizados resultasse meramente de um ato racional por parte dos seus governos e conceber que ela se livrasse gradualmente da paixão, de modo que no fim nunca fosse preciso utilizar realmente o choque físico das forças combatentes - seria suficiente uma comparação entre os números relativos da sua força. Esta seria uma espécie de guerra através da álgebra.

Os teóricos já estavam começando a pensar ao longo destas linhas quando as guerras recentes lhes ensinaram uma lição. Se a guerra é um ato de força, as emoções não podem deixar de estar envolvidas. A guerra pode não advir delas, mesmo assim elas a afetarão até certo ponto, e o quanto elas farão isto não dependerá do nível de civilização, mas de quanto sejam importantes os interesses conflitantes, ou de quanto tempo durarem os seus conflitos.

Se, portanto, as nações civilizadas não executam os seus prisioneiros nem devastam cidades e países, é porque a inteligência desempenha um papel maior em seus métodos de guerra e ensinou-lhes maneiras mais eficazes de empregar a força do que a crua expressão do instinto.

A invenção da pólvora e o constante aperfeiçoamento das armas de fogo são por si sós suficientes para mostrar que o progresso da civilização nada fez de prático para alterar ou para desviar o impulso de destruir o inimigo, que é essencial á própria ideia de guerra.

A tese deve ser repetida, portanto: a guerra é um ato de força e não existe qualquer limite lógico para o emprego desta força. Cada lado obriga, portanto, o seu oponente a fazer o mesmo que ele. Tem início uma ação recíproca que deverá, em tese, levar a extremos. Este é o primeiro caso de interação e o primeiro extremo com que nos deparamos.

O PROPÓSITO É DESARMAR O INIMIGO

Eu já afirmei que o propósito da guerra é desarmar o inimigo e este é o momento de mostrar que, pelo menos em tese, isto fatalmente ocorrerá. Para que você coaja o inimigo, deve deixá-lo numa situação que seja ainda mais desagradável do que o sacrifício que você possa exigir que ele faça. As adversidades desta situação não devem ser, evidentemente, simplesmente temporárias - pelo menos não em sua aparência. De outro modo o inimigo não se daria por vencido e esperaria até que as coisas melhorassem. Qualquer alteração que possa ser realizada através do prosseguimento das hostilidades deve ser então, pelo menos em tese, de um tipo que traga ao inimigo desvantagens ainda maiores. A pior de todas as situações em que um beligerante pode se encontrar é ficar totalmente indefeso. Consequentemente, se você pretende forçar o inimigo travando uma guerra com ele, deve tomá-lo literalmente indefeso, ou pelo menos colocá-lo numa situação que faça com que este perigo seja provável. Ocorre, portanto, que sobrepujar o inimigo, ou desarmá-lo - dê a isto o nome que você quiser dar - deve ser sempre o propósito da guerra.

A guerra não é, entretanto, a ação de uma força viva contra uma massa inerte (a ausência total de resistência não seria de modo algum uma guerra), mas sempre o choque de duas forças vivas. O propósito final de travar uma guerra, como formulado aqui, deve ser visto como sendo válido para os dois lados. Existe uma vez mais uma interação. Enquanto eu não tiver derrotado o meu oponente, estarei fadado a temer que ele possa me derrotar. Assim, não estou no controle da situação. Ele se impõe a mim do mesmo modo que eu me imponho a ele. Este é o segundo caso de interação e leva ao segundo extremo.

O EMPREGO MÁXIMO DA FORÇA

Se você deseja sobrepujar o seu inimigo, deve combinar os seus esforços contra o seu poder de resistência, que pode ser expresso como o produto de dois fatores inseparáveis, isto é, a totalidade de meios à sua disposição e a força da sua determinação. A quantidade de meios à sua disposição é uma questão - embora não exclusivamente - de números e deve ser mensurável. Mas a força da sua determinação é muito mais difícil de ser determinada e só pode ser medida aproximadamente através da força do estímulo que a move. Supondo que você chegue desta maneira a uma estimativa razoavelmente precisa do poder de resistência do inimigo, você pode ajustar os seus próprios esforços de acordo com ele, isto é, você pode intensificá-los até superar os do inimigo ou, se isto estiver além dos seus meios, tomar os seus esforços tão intensos quanto possível. Mas o inimigo fará o mesmo. Novamente isto resultará numa competição e, puramente em tese, ela deverá obrigar vocês dois a chegarem a extremos. Este é o terceiro caso de interação e o terceiro extremo

AS MODIFICAÇÕES NA PRÁTICA

Assim, no campo do pensamento teórico a mente indagadora nunca pode descansar até chegar ao extremo, pois ali ela lidará com um extremo: um choque de forças agindo livremente, sem obedecer a qualquer lei a não ser às suas próprias. Você poderia tentar deduzir, a partir de um conceito puro de guerra, os termos absolutos para o propósito que você deve tentar atingir e para os meios de atingi-lo, mas se você fizer isto, a contínua interação o levará a extremos que nada representam, a não ser um jogo da imaginação, resultante de uma sequência quase invisível de sutilezas lógicas. Se formos pensar puramente em termos absolutos, poderemos evitar todas as dificuldades com um golpe de caneta e proclamar com uma lógica inflexível que, uma vez que a meta deve ser sempre o extremo, sempre deverá ser exercido o maior esforço. Qualquer declaração destas seria uma abstração e em nada afetaria o mundo real.

Mesmo admitindo que este esforço extremo seja uma quantidade absoluta que possa ser facilmente calculada, devemos admitir que provavelmente a mente humana não consentiria em ser regida por tal fantasia lógica. Isto resultaria muitas vezes num desperdício de força, o que é contra outros princípios da arte de governar. Seria necessário realizar um esforço de determinação totalmente desproporcional ao propósito em vista, mas este esforço não seria de fato realizado, uma vez que sutilezas lógicas não motivam a mente humana.

Mas se passarmos do mundo abstrato para o real, tudo parecerá bem diferente. No mundo abstrato o otimismo era todo poderoso e nos obrigava a supor que os dois lados envolvidos no conflito não só buscariam a perfeição, como também a obteriam. Seria invariavelmente este o caso na prática? Sim, seria se: (a) a guerra fosse um ato totalmente isolado, ocorrendo subitamente, e não sendo produzido por fatos anteriores ocorridos no mundo político; (b) se ela consistisse num único ato decisivo, ou num conjunto de atos simultâneos; (c) se a decisão obtida fosse completa e perfeita por si mesma, não sendo influenciada por qualquer avaliação prévia da situação política que acarretaria.

A GUERRA NUNCA É UM ATO ISOLADO

Quanto à primeira destas condições, deve ser lembrado que nenhum dos oponentes é uma pessoa abstrata para o outro, nem mesmo no âmbito daquele fator existente no poder de resistência, isto é, na determinação, que depende de fatores externos. A determinação não é um fator totalmente desconhecido. Podemos prever a sua situação amanhã, com base no que ela é hoje. A guerra nunca irrompe de uma maneira totalmente inesperada, nem pode alastrar-se instantaneamente. Cada lado pode, portanto, avaliar bem o outro através do que ele é e do que ele faz, em vez de julgá-lo pelo que ele, rigorosamente falando, deveria ser ou fazer. O homem e as suas atividades, entretanto, estão sempre um pouco aquém da perfeição e nunca atingirão inteiramente o melhor absoluto. Estas imperfeições afetam da mesma maneira a ambos os lados e constituem, portanto, uma força moderadora.

A GUERRA NÃO CONSISTE NUM ÚNICO GOLPE BRUSCO

A segunda condição exige que sejam feitas as seguintes observações:

Se a guerra consistisse num único ato decisivo, ou num conjunto de decisões simultâneas, os preparativos para ela tenderiam no sentido da totalidade, porque nenhuma omissão poderia jamais ser corrigida. O único critério para estes preparativos que o mundo da realidade poderia fornecer seriam as medidas tomadas pelo adversário - até onde elas fossem conhecidas - o resto seria reduzido uma vez mais a cálculos abstratos. Mas se a decisão na guerra consiste em diversos atos sucessivos, então cada um deles, vistos dentro do contexto, proporcionará uma maneira de avaliar os que virão depois. Aqui o mundo abstrato é uma vez mais expulso pelo real e, assim, a tendência para o extremo é atenuada.

Mas, evidentemente, se todos os meios fossem, ou pudessem ser, simultaneamente empregados, todas as guerras ficariam automaticamente restritas a um único ato decisivo, ou a um conjunto de atos decisivos simultâneos - a razão disto é que qualquer decisão desfavorável deve reduzir o total dos meios disponíveis e, se todos eles tivessem sido empenhados no primeiro ato, não poderia haver realmente um segundo. Qualquer operação militar subsequente praticamente faria parte da primeira -em outras palavras, seria meramente um prolongamento dela.

Ainda assim, como mostrei acima, logo que têm início os preparativos para uma guerra, o mundo da realidade assume o controle do mundo do pensamento abstrato. Os cálculos materiais tomam o lugar dos extremos hipotéticos e, senão por qualquer outra razão, a interação entre os dois lados tende a ficar aquém do esforço máximo. A totalidade dos seus recursos não seria, portanto, mobilizada imediatamente.

Além disto, a própria natureza destes recursos e a do seu emprego significa que eles não podem ser todos postos em ação ao mesmo tempo. Os recursos em questão são as forças combatentes propriamente ditas, o país, com suas características físicas e a sua população, e os seus aliados.

O país - suas características físicas e a sua população - é mais do que simplesmente a fonte de recursos de todas as forças armadas propriamente ditas. Ele é por si só um elemento essencial entre os fatores em ação na guerra - embora apenas uma parte dele constitua o verdadeiro teatro de operações, ou exerça uma influência marcante sobre ele.

É possível, sem dúvida, empregar simultaneamente todas as forças combatentes móveis, mas com relação às fortificações, aos rios, às montanhas, aos habitantes e assim por diante, isto não pode ser feito. Não pode ser feito, em suma, com o país como um todo, a menos que ele seja tão pequeno que o combate inicial da guerra o engolfe completamente. Além do mais, os aliados não cooperam de acordo com O simples desejo daqueles que estão ativamente engajados no combate. Sendo as relações internacionais como são, muitas vezes essa cooperação só é prestada em alguma etapa posterior, ou só é ampliada quando o equilíbrio tiver sido rompido e precisar ser corrigido.

Em muitos casos, a proporção dos meios de resistência que não podem ser postos em ação imediatamente é muito maior do que se poderia imaginar inicialmente. Mesmo quando uma grande quantidade de força já tiver sido despendida na primeira decisão e o equilíbrio tiver se alterado negativamente, ele pode ser restabelecido. Esta questão será abordada mais amplamente no momento devido. Por enquanto é suficiente mostrar que a própria natureza da guerra impede a concentração simultânea de todas as forças. Na realidade, este fato por si só não pode servir de base para realizarmos nada menos do que um esforço máximo no sentido de obter a primeira decisão, porque uma derrota é sempre uma desvantagem que ninguém pode arriscar-se deliberadamente a sofrer. E mesmo se o primeiro choque não for o único, a influência que ele exercerá sobre as ações subsequentes será proporcional á sua importância. Mas fazer um esforço extremo é contrário à natureza humana e a tendência é, portanto, alegar sempre que pode ser possível obter uma decisão mais tarde. Em consequência, o esforço e a concentração de forças para a primeira decisão nunca serão tudo o que deveriam ser. Qualquer omissão de um dos lados, que resulte num enfraquecimento seu, torna-se um motivo real, objetivo, para que o outro reduza os seus esforços, e a tendência no sentido dos extremos é uma vez mais reduzida por esta interação.

NA GUERRA, O RESULTADO NUNCA É DEFINITIVO

Finalmente, nem mesmo o resultado de uma guerra deve ser sempre considerado como sendo definitivo. Muitas vezes o Estado derrotado considera o resultado meramente como um mal temporário, para o qual a solução ainda pode ser encontrada nas circunstâncias políticas, em alguma data posterior. E evidente como isto pode aliviar também as tensões e reduzir o vigor do esforço.

AS PROBABILIDADES DA VIDA REAL SUBSTITUEM O EXTREMO E O ABSOLUTO EXIGIDOS PELA TEORIA

Assim, a guerra furta-se à rigorosa exigência teórica de que devam ser empregados extremos de força. Uma vez que o extremo não é mais temido, nem se busca mais alcançá-lo, torna-se uma questão de critério estabelecer o grau de esforço que deve ser despendido, e isto só pode ser feito com base nos fenômenos do mundo real e nas leis da probabilidade. Tendo os antagonistas deixado de ser meros produtos da imaginação de uma teoria e tornando-se Estados e governos reais, quando a guerra não é mais uma questão teórica mas uma série de ações que obedecem às suas leis peculiares, a realidade fornecerá os dados a partir dos quais poderemos deduzir o desconhecido que está adiante.

A partir do caráter do inimigo, das suas instituições, da situação dos seus interesses e da sua situação geral, cada lado, utilizando as leis da probabilidade, faz uma avaliação de qual será o provável rumo do seu oponente e age de acordo com ele.

O PROPÓSITO POLÍTICO ASSUME NOVAMENTE O PRIMEIRO PLANO

Uma questão que examinamos na Seção 2 impõe-se novamente a nós, qual seja, o propósito político da guerra. Até aqui ele tem sido um tanto ofuscado pela lei dos extremos, pela determinação de derrotar o inimigo e de torná-lo impotente. Mas à medida em que aquela lei começa a perder a sua força e em que aquela determinação diminui, o propósito político reafirmar-se-á. Se tudo é uma questão de cálculo de probabilidades com base em determinados indivíduos e em determinadas condições, o propósito político, que foi a razão inicial, deve tornar-se um fator essencial da equação. Quanto menor for a punição que você desejar impor ao seu oponente, menos ele tentará e conseguirá impedir que você tenha êxito. Quanto menor for o esforço que ele fizer, menor será o que você precisará fazer. Além do mais, quanto mais modesto for o seu propósito político, menor será a importância que você atribuirá a ele e menos relutantemente o abandonará, se for preciso. Esta é uma outra razão pela qual o seu esforço será modificado.

O propósito político - a razão inicial para a guerra - determinará assim, tanto o propósito militar a ser atingido como a intensidade do esforço que ele exige. O propósito político não pode, entretanto, proporcionar por si só o padrão de medida. Como estamos lidando com realidades e não com abstrações, ele só poderá fazer isto no contexto dos dois Estados em guerra. O mesmo propósito político pode provocar reações diversas em pessoas diferentes, e até mesmo nas mesmas pessoas em momentos diferentes. Só podemos, portanto, tomar o propósito político como um padrão se pensarmos na influência que ele poderá exercer sobre as forças que pretende pôr em movimento. A natureza dessas forças exige portanto um estudo. Dependendo se as suas características aumentam ou diminuem o ímpeto em direção a uma determinada ação, o resultado será diferente. Entre duas pessoas e entre dois Estados poderá haver uma tensão tal, uma tamanha quantidade de material inflamável que a menor altercação poderá produzir um efeito totalmente desproporcional - uma verdadeira explosão.

Isto é igualmente verdadeiro com relação aos esforços que se espera que um propósito político provoque em qualquer dos Estados e aos propósitos políticos que as suas políticas exijam. Algumas vezes o propósito político é o mesmo que o militar - por exemplo, a conquista de uma província. Em outros casos o propósito político não proporcionará um propósito militar adequado. Neste caso, deverá ser adotado um outro propósito militar que atenda ao propósito político e que o simbolize nas negociações de paz. Mas aqui, também, deve ser dada atenção às características de cada Estado envolvido. Existem momentos em que, para que atinjamos o propósito político, a alternativa deve ser muito mais importante. Quanto menos envolvida estiver a população e quanto menos grave forem as tensões nos Estados e entre eles, mais as exigências políticas por si sós prevalecerão e tenderão a ser decisivas. Assim, poderá existir situações em que o propósito político seja quase que o único fator determinante.

Falando de uma maneira geral, um propósito militar que tenha a mesma dimensão que o propósito político será reduzido proporcionalmente se este último for reduzido. Isto será ainda mais verdadeiro porque o propósito político terá a sua predominância aumentada. Assim, ocorre que, sem que haja qualquer incoerência, as guerras podem ter todos os graus de importância e de intensidade, indo de uma guerra de extermínio até uma simples observação armada. Isto nos leva a uma questão diferente, que precisa ser analisada e respondida agora.

UMA INTERRUPÇÃO DA ATIVIDADE MILITAR NÃO E EXPLICADA POR QUALQUER COISA QUE JÁ TENHA SIDO DITA

Por mais modestas que possam ser as exigências políticas, por mais reduzidos que sejam os meios empregados, por mais limitado que seja o propósito militar, poderá o processo da guerra ser alguma vez interrompido, mesmo que seja por um só momento? Esta pergunta vai bem fundo ao cerne da questão.

Toda ação precisa de um determinado tempo para ser concluída. Esse período é chamado de sua duração, e a sua extensão dependerá da velocidade com que age a pessoa que a está realizando. Não precisamos nos preocupar aqui com a diferença. Cada um realiza uma tarefa à sua própria maneira. Um homem lento, entretanto, não a realiza mais lentamente porque deseja gastar mais tempo realizando-a, mas porque a sua natureza faz com que ele precise de mais tempo. Se ele fizesse mais apressadamente, não faria o trabalho tão bem. A sua velocidade é determinada, portanto, por causas subjetivas, e é um fator a ser considerado na duração real da tarefa.

Agora, se para cada ação realizada na guerra é planejada uma duração adequada, concordaríamos que, pelo menos à primeira vista, qualquer dispêndio adicional de tempo - qualquer interrupção da ação militar - parece absurda. Com relação a isto, deve ser lembrado que não estamos falando de um progresso realizado por um lado ou pelo outro, mas do progresso da interação militar como um todo.

SOMENTE UM MOTIVO PODE SUSPENDER A AÇÃO MILITAR, E PARECE QUE ELE NUNCA PODERÁ ESTAR PRESENTE EM MAIS DE UM LADO

Se os dois lados tiverem se preparado para a guerra, algum motivo de hostilidade deverá tê-los feito chegar a esse ponto. Além do mais, enquanto eles permanecerem em armas (não negociarem um acordo) o motivo daquela hostilidade ainda estará atuando. Somente um motivo poderá refreá-la: um desejo de esperar por um momento melhor antes de agir. À primeira vista alguém poderia pensar que este desejo nunca existe em mais de um lado, uma vez que o seu oposto deverá estar existindo automaticamente do outro. Se o combate puder trazer uma vantagem para um dos lados, o interesse do outro deverá ser esperar.

Mas um equilíbrio total de forças não pode provocar uma imobilização, porque se este equilíbrio existisse a iniciativa pertenceria necessariamente ao lado que possuísse um propósito ofensivo - ao atacante.

Alguém poderia imaginar, entretanto, um estado de equilíbrio em que o lado que possui o propósito ofensivo (o lado que tem mais motivos para travar um combate) seria o que tem as forças menos poderosas. O equilíbrio seria então decorrente dos efeitos conjuntos do propósito e da força. Quando for este o caso, teríamos que dizer que, a menos que haja a previsão de alguma alteração no equilíbrio, os dois lados deveriam fazer a paz. Se, entretanto, puder ser prevista alguma alteração, somente um dos lados poderá esperar obter vantagem com ela - um fato que deve estimular o outro a agir. A falta de ação não pode ser claramente explicada através do conceito de equilíbrio. A única explicação é que os dois estão esperando por um momento melhor para agir. Suponhamos, portanto, que um dos dois Estados possua um propósito ofensivo - digamos, a conquista de uma parte do território do outro, para utilizá-la como moeda de troca numa mesa de negociações de paz. No momento em que a presa estiver em suas mãos, o propósito político terá sido atingido. Não haverá necessidade de fazer mais nada, e ele poderá dar o assunto por encerrado. Se o outro Estado estiver disposto a aceitar a situação, deverá solicitar a paz. Se não, deverá fazer alguma coisa, e se achar que em quatro semanas estará melhor organizado para o combate, evidentemente terá uma razão adequada para não agir imediatamente.

Mas a partir daquele momento, o lógico pareceria ser o outro lado forçá-lo ao combate - com o propósito de negar ao inimigo o tempo de que ele necessita para ficar pronto. Durante toda esta argumentação considerei, evidentemente, que os dois lados percebiam perfeitamente a situação.

SERIA OBTIDA ASSIM A CONTINUIDADE DAS AÇÕES MILITARES E ELA INTENSIFICARIA TUDO NOVAMENTE

Se esta continuidade realmente existisse na campanha, o seu efeito levaria uma vez mais tudo aos extremos. Esta atividade incessante não só despertaria os sentimentos dos homens e injetaria neles mais paixão e uma força poderosa, como os acontecimentos ocorreriam mais próximos uns dos outros e seriam regidos por uma sucessão de causas ainda mais rigorosa. Cada ação individual seria mais importante e, consequentemente, mais perigosa.

Mas a guerra, evidentemente, raramente apresenta esta continuidade, se é que alguma vez apresenta. Em diversos conflitos, apenas uma pequena parte do tempo é ocupada pelo combate, enquanto que o resto é gasto em inatividade. Isto não pode ser sempre uma anomalia. Deve ser possível haver a suspensão da ação na guerra. Em outras palavras, ela não pode ser considerada uma contradição. Deixem-me demonstrar este ponto e explicar as razões para que ele ocorra.

É APRESENTADO AQUI UM PRINCÍPIO DE POLARIDADE

Ao pensar que os interesses dos dois comandantes são igualmente opostos um ao outro, estamos admitindo a existência de uma verdadeira polaridade. Mais adiante será dedicado um capítulo inteiro a esta questão, mas no momento precisa ser dito o seguinte.

O princípio da polaridade só é válido em relação a um e ao mesmo propósito, no qual os interesses ofensivos e defensivos anulem-se totalmente. Numa batalha, cada lado visa a vitória. Este é um exemplo de uma verdadeira polaridade, uma vez que a vitória de um lado exclui a vitória do outro.

Quando, entretanto, estivermos lidando com duas coisas diferentes, que tenham uma relação comum externa a elas, a polaridade não estará nas coisas, mas sim na relação existente entre elas.

SENDO A DEFESA E O ATAQUE DUAS COISAS DISTINTAS QUANTO À SUA NATUREZA E DESIGUAIS QUANTO À SUA FORÇA, A POLARIDADE NÃO PODE SER APLICADA A ELES

Se a guerra assumisse apenas uma única forma, isto é, o ataque ao inimigo, e não existisse a defesa, ou para expressar de uma outra maneira, se as únicas diferenças entre o ataque e a defesa residissem no fato de que o ataque possui um propósito ofensivo, enquanto que a defesa não, e que as formas de combater fossem idênticas, então toda vantagem obtida por um dos lados constituiria precisamente uma desvantagem igual para o outro - existiria a verdadeira polaridade.

Mas na guerra existem duas formas distintas de ação: o ataque e a defesa. Como será mostrado mais tarde em detalhes, as duas são muito diferentes e desiguais quanto á força. A polaridade não está portanto no ataque ou na defesa, mas no propósito que os dois pretendem atingir: a decisão. Se um comandante desejar adiar a decisão, o outro deve querer apressá-la, considerando sempre que os dois estejam empenhados no mesmo tipo de combate. Se for do interesse de A não atacar B agora, mas quatro semanas depois, então é do interesse de B não ser atacado quatro semanas depois, mas agora. Este é um conflito de interesses direto e imediato, mas não podemos deduzir daí que seria também vantajoso para B realizar um ataque imediato contra A. Esta seria evidentemente uma outra questão bem diferente.

A SUPERIORIDADE DA DEFESA SOBRE O ATAQUE MUITAS VEZES DESTRÓI O EFEITO DA POLARIDADE E ISTO EXPLICA A SUSPENSÃO DAS AÇÕES MILITARES

Como iremos demonstrar, a defesa é uma forma de combate mais vigorosa do que o ataque. Consequentemente, devemos perguntar se a vantagem de adiar uma decisão é tão grande para um lado quanto a vantagem da defesa é para o outro. Sempre que não for, ela não poderá contrabalançar a vantagem da defesa e desta maneira influir no curso da guerra. E evidente, portanto, que o ímpeto gerado pela polaridade de interesses pode dissipar-se na diferença existente entre a força do ataque e a da defesa e, assim, tomar-se ineficaz.

Consequentemente, se o lado favorecido pelas condições atuais não for suficientemente forte para arranjar-se sem as vantagens adicionais da defesa, terá que aceitar a probabilidade de agir no futuro sob condições desfavoráveis. Travar uma batalha defensiva nestas condições menos favoráveis pode ser ainda melhor do que atacar imediatamente ou que fazer a paz. Estou convencido de que a superioridade da defesa (se corretamente compreendida) é muito grande, muito maior do que parece ser á primeira vista. E isto que explica sem qualquer incoerência a maioria dos períodos de inação que ocorrem na guerra. Quanto mais frágeis forem as razões para a ação, mais serão elas encobertas e neutralizadas por esta disparidade existente entre o ataque e a defesa, e mais frequentemente a ação será suspensa - como mostra de fato a experiência.

UM OUTRO MOTIVO É NÃO CONHECER PERFEITAMENTE A SITUAÇÃO

Existe ainda um outro fator que pode levar uma ação militar a uma paralisação: não conhecer perfeitamente a situação. A única situação que um comandante pode conhecer perfeitamente é a sua própria. A do seu oponente ele só pode conhecer através de uma inteligência não confiável. A sua avaliação, portanto, pode ser equivocada e pode levá-lo a supor que a iniciativa está com o inimigo, quando na realidade permanece com ele.

É evidente que esta avaliação equivocada provavelmente o levará a realizar uma ação no momento inoportuno e terá maior influência em reduzir o ritmo das operações do que em acelerá-las. Apesar disto, ela deve ser incluída

entre as causas naturais que, sem acarretar necessariamente uma contradição, podem levar a atividade militar a uma paralisação. Os homens estão sempre mais propensos a colocar a sua avaliação do poderio inimigo num nível muito elevado do que num nível muito baixo, pois esta é a natureza humana. Tendo isto em mente, podemos admitir que uma ignorância parcial da situação é, falando de uma maneira geral, um fator importante para retardar o avanço da ação militar e para atenuar o principio que a fundamenta.

A possibilidade de inação tem um outro fator atenuador na evolução da guerra ao diluí-la, por assim dizer, ao longo do tempo, retardando o perigo e aumentando os meios para restabelecer um equilíbrio entre os dois lados. Quanto maiores forem as tensões que levaram á guerra, e quanto maior for o esforço de guerra decorrente delas, mais curtos serão estes períodos de inação. Inversamente, quanto mais frágeis forem as causas do conflito, maiores serão os intervalos entre os combates. Isto porque o motivo mais vigoroso aumenta a força de vontade e esta, como sabemos, é sempre tanto um elemento de força como um produto seu.

OS FREQUENTES PERÍODOS DE INATIVIDADE LEVAM A GUERRA PARA MAIS LONGE AINDA DO DOMÍNIO DO ABSOLUTO E A TORNAM AINDA MAIS UMA QUESTÃO DE AVALIAR AS PROBABILIDADES

Quanto mais lenta for a progressão da guerra e quanto mais frequentes forem as interrupções das ações militares, mais fácil será corrigir um erro. Quanto mais ousadas forem as avaliações do General, mais provavelmente ele evitará os extremos teóricos e baseará os seus planos nas probabilidades e nas suas deduções. Qualquer situação determinada exige que sejam calculadas as probabilidades á luz das circunstâncias, e o tempo disponível para estes cálculos dependerá do ritmo em que estão se realizando as operações.

20. SÓ É PRECISO, PORTANTO, QUE O ELEMENTO ACASO ENTRE EM AÇÃO, PARA FAZER DA GUERRA UM JOGO DE AZAR E ESTE ELEMENTO NUNCA ESTÁ AUSENTE

Fica agora perfeitamente claro quão intensamente a natureza objetiva da guerra a torna uma questão de avaliar probabilidades. Só é preciso que haja mais um elemento para tomar a guerra um jogo de azar - o acaso: exatamente a última coisa que falta na guerra. Nenhuma outra atividade humana está tão continua ou universalmente vinculada ao acaso. E através do elemento acaso, a adivinhação e a sorte vêm a desempenhar um importante papel na guerra.

NÃO SÓ A SUA NATUREZA OBJETIVA, MAS TAMBÉM A SUA NATUREZA SUBJETIVA, FAZEM DA GUERRA UM JOGO DE AZAR

Se examinarmos agora brevemente a natureza subjetiva da guerra - os meios através dos quais ela terá que ser travada - ela parecerá ainda mais com um jogo de azar. O elemento no qual a guerra existe é o perigo. A maior de todas as qualidades morais em momentos de perigo é certamente a coragem. Ora, a coragem é perfeitamente compatível com um cálculo prudente, mas apesar disto os dois diferem e pertencem a forças psicológicas diferentes. O arrojo, por outro lado, a ousadia, o arrebatamento, a confiança na sorte, são apenas variações da coragem e todos estes traços do caráter buscam o seu elemento adequado - o acaso.

Em resumo, os fatores absolutos, chamados de matemáticos, nunca encontram uma base firme nos cálculos militares. Existe desde o inicio uma interação de possibilidades, probabilidades, sorte e azar, que avançam através do comprimento e da largura da tapeçaria. Em toda a gama de atividades humanas, a guerra é a que mais se parece com um jogo de cartas.

COMO, DE UMA MANEIRA GERAL, ISTO ADEQUA-SE MELHOR À NATUREZA HUMANA

Embora a nossa inteligência anseie sempre por clareza e por certeza, muitas vezes a nossa natureza acha a incerteza fascinante. Ela prefere fantasiar nos reinos do acaso e da sorte, em vez de acompanhar a inteligência em sua estreita e tortuosa trajetória de investigação filosófica e de dedução lógica, somente para chegar - mal sabendo como - a arredores não familiares, onde todos os pontos de referência parecem ter desaparecido. Sem estar confinada por necessidades tacanhas, ela pode deleitar-se com uma fartura de possibilidades que incentivam a coragem a voar e a mergulhar no elemento da ousadia e do medo, como um nadador destemido na correnteza.

Deveria a teoria deixar-nos aqui e continuar alegremente elaborando conclusões e ditames absolutos? Isto não teria então qualquer utilidade na vida real. Não, ela deve levar em conta também o fator humano e achar espaço para a coragem, para a ousadia e até mesmo para a temeridade. A arte da guerra trata de forças vivas e morais. Consequentemente, não pode chegar ao absoluto, nem á certeza. Deve deixar sempre uma margem para a incerteza, nas maiores e nas menores coisas. Com a incerteza num dos pratos da balança, a coragem e a autoconfiança devem ser jogados no outro para corrigir o equilíbrio. Quanto maiores forem elas, maior será a margem que poderá ser deixada para o acaso. Assim, a coragem e a autoconfiança são essenciais na guerra, e a teoria só deveria propor regras que dessem uma ampla liberdade de ação a estas, que são as melhores e menos dispensáveis das virtudes militares em todos os seus graus e variedades. Pode haver método e cautela até mesmo na ousadia, mas aqui eles são medidos por um padrão diferente.

MAS, APESAR DISTO, A GUERRA E UM MEIO SÉRIO PARA ATINGIR UM FIM SÉRIO: UMA DEFINIÇÃO MAIS PRECISA DE GUERRA

Assim é a guerra, assim é o comandante que a dirige e assim é a teoria que a rege. A guerra não é um passatempo. Não é uma mera alegria de ousar e vencer, não há lugar para entusiastas irresponsáveis. É um meio sério para atingir um fim sério e toda a sua semelhança pitoresca com um jogo de azar, todas as vicissitudes da paixão, da coragem, da imaginação e do entusiasmo que ela contém, são simplesmente as suas características especiais.

Quando comunidades inteiras vão á guerra - nações inteiras e, principalmente, nações civilizadas - o motivo é sempre alguma situação política, e o acontecimento sempre se deve a algum propósito político. A guerra é, portanto, um ato de política. Fosse ela uma manifestação de violência total, livre de restrições e absoluta (como exigiria o seu conceito puro), usurparia por sua própria e independente vontade o lugar da política no momento em que esta fosse posta em vigor. Ela expulsaria a política das suas funções e dominaria de acordo com as leis da sua própria natureza, de maneira bem semelhante a uma mina que só pode explodir da maneira ou na direção predeterminada pela sua ajustagem. Esta é, na realidade, a ideia que se tem tido da questão, sempre que alguma divergência entre a política e a condução da guerra tem incentivado distinções teóricas deste tipo.

Mas na realidade as coisas são diferentes e esta ideia está completamente equivocada. Na realidade, a guerra, como tem sido demonstrado, não é assim. A sua violência não é do tipo que explode numa única descarga, mas é o efeito de forças que nem sempre evoluem exatamente da mesma maneira, ou com a mesma intensidade. Algumas vezes elas expandem-se suficientemente para superar a resistência da inércia ou do atrito. Outras, são frágeis demais para exercer algum efeito. A guerra é uma pulsação de violência, variável em sua intensidade e, portanto, variável na velocidade com que explode e com que descarrega as suas energias. A guerra movimenta-se em direção ao seu propósito com velocidades variáveis, mas dura sempre o suficiente para que a sua influência seja exercida sobre o propósito e para que o seu próprio rumo seja alterado, de uma maneira ou de outra - dura o tempo suficiente, em outras palavras, para permanecer submetida à ação de uma inteligência superior. Se mantivermos em mente que a guerra resulta de algum propósito político, é natural que a principal causa da sua existência continue sendo a maior preocupação com relação à sua condução. Isto não significa, entretanto, que o propósito político seja um tirano. Ele deve adaptar-se aos meios escolhidos, um processo que pode alterá-lo radicalmente, embora permaneça sendo a principal preocupação. A política impregnará portanto todas as operações militares e, até onde a sua natureza violenta admitir, exercerá uma contínua influência sobre elas.

A GUERRA É MERAMENTE A CONTINUAÇÃO DA POLÍTICA POR OUTROS MEIOS

Vemos, portanto, que a guerra não é meramente um ato de política, mas um verdadeiro instrumento político, uma continuação das relações políticas realizada com outros meios. O que continua sendo peculiar na guerra é simplesmente a natureza peculiar dos seus meios. A guerra de uma maneira geral, e o comandante em qualquer ocasião específica, tem o direito de exigir que o rumo e os desígnios da política não sejam incompatíveis com esses meios. Esta não é, evidentemente, uma pequena exigência, mas por mais que possa afetar os propósitos políticos num determinado caso, nunca fará mais do que modificá-los. O propósito político é a meta, a guerra é o meio de atingi-lo, e o meio nunca deve ser considerado isoladamente do seu propósito.

A NATUREZA DISTINTA DA GUERRA

Quanto mais poderosos e estimulantes forem os motivos para a guerra, mais eles afetarão as nações beligerantes, e quanto mais violentas forem as tensões que antecedem a sua deflagração, quanto mais a guerra aproximar-se do seu conceito abstrato, mais importante será a destruição do inimigo, mais os propósitos militares e políticos coincidirão e mais militar e menos política parecerá ser a guerra. Por outro lado, quanto menos intensos forem os motivos, menos a tendência natural dos elementos militares para a violência coincidirá com as diretrizes políticas. Em decorrência disto, a guerra será desviada ainda mais da sua trajetória normal, o propósito político divergirá cada vez mais do propósito da guerra ideal e o conflito parecerá ter um caráter cada vez mais político.

Neste ponto, para evitar que o leitor se engane, deve ser observado que a expressão a tendência natural da guerra só é empregada no seu sentido filosófico, rigorosamente lógico, e não se refere às tendências das forças que estão realmente empenhadas no combate - inclusive, por exemplo, o moral e as emoções dos combatentes. Algumas vezes, é verdade, elas podem estar tão exaltadas que será difícil para o fator político controlá-las. Ainda assim, um conflito destes não ocorre com muita frequência, porque se as motivações forem tão poderosas deverá haver uma política de uma importância proporcional. Por outro lado, se a política só estiver voltada para propósitos secundários, as emoções das massas serão pouco incitadas e terão que ser estimuladas, ao invés de contidas.

TODAS AS GUERRAS PODEM SER CONSIDERADAS COMO ATOS DE POLÍTICA

Está na hora de voltar ao tema principal e observar que enquanto a política é aparentemente ofuscada num determinado tipo de guerra, e apesar disto fortemente evidenciada em outro, os dois tipos são igualmente políticos. Se pensarmos no Estado como se fosse uma pessoa, e na política como sendo o produto do seu cérebro, entre as contingências para as quais o Estado deve estar preparado está a guerra, na qual todos os elementos exigem que a política seja ofuscada pela violência. Somente se a política for vista, não como o resultado de uma correta avaliação dos acontecimentos, mas - como convencionalmente o é - como sendo cautelosa, tortuosa, até mesmo desonesta, afastando-se assustada da força, poderia o segundo tipo de guerra parecer ser mais político do que o primeiro.

OS EFEITOS DESTE PONTO DE VISTA SOBRE A COMPREENSÃO DA HISTÓRIA MILITAR E DOS FUNDAMENTOS DA TEORIA

Em primeiro lugar, é evidente que a guerra nunca deve ser imaginada como sendo algo autônomo, mas sempre como sendo um instrumento da política. De outro modo toda a história da guerra iria nos contradizer. Somente esta abordagem nos permitirá compreender inteligentemente o problema. Em segundo lugar, esta maneira de encará-lo nos mostra como as guerras podem variar quanto à natureza das suas causas e às situações que lhes dão origem.

O primeiro ato de avaliação, o maior deles, o de maior alcance que o político e o comandante têm que fazer é estabelecer, através daquele exame, em que tipo de guerra estão se envolvendo, não se enganando com relação a ela, nem tentando transformá-la em algo que seja alheio à sua natureza. Esta é a primeira de todas as questões estratégicas e a mais abrangente. Ela será examinada detalhadamente no capítulo relativo aos planos de guerra.

Por ora é suficiente ter chegado a este estágio e haver estabelecido o ponto de vista fundamental a partir do qual terá que ser examinada a guerra e a teoria de guerra.

AS CONSEQUÊNCIAS PARA A TEORIA

A guerra é mais do que um verdadeiro camaleão, que adapta um pouco as suas características a uma determinada situação. Como um fenômeno total, as suas tendências predominantes sempre tomam a guerra uma trindade paradoxal - composta da violência, do ódio e da inimizade primordiais, que devem ser vistos como uma força natural cega, do jogo do acaso e da probabilidade, no qual o espírito criativo está livre para vagar; e dos seus elementos de subordinação, como um instrumento da política, que a torna sujeita apenas à razão.

O primeiro destes três aspectos diz respeito principal mente às pessoas; o segundo ao comandante e ao seu exército; o terceiro ao governo. As paixões que serão inflamadas na guerra já devem ser inerentes às pessoas. A liberdade de ação que o jogo de coragem e talento desfrutará na esfera da probabilidade e do acaso dependerá do caráter específico do comandante e do exército, mas os propósitos políticos são apenas um assunto do governo.

Estas três tendências são como três códigos de leis diferentes, profundamente enraizados em seu tema e, contudo, variáveis em sua relação uns com os outros. Uma teoria que ignore qualquer um deles, ou que procure estabelecer uma relação arbitrária entre eles, estaria a tal ponto em conflito com a realidade que somente por esta razão seria totalmente inútil.

A nossa tarefa é, portanto, elaborar uma teoria que mantenha um equilíbrio entre estas três tendências, como um objeto suspenso entre três ímãs.

No livro sobre a teoria de guerra [Livro Dois] será verificado quais são os melhores caminhos a seguir para realizar essa difícil tarefa. De qualquer maneira, o conceito preliminar de guerra que formulei lança um primeiro raio de luz sobre a estrutura básica da teoria e permite que estabeleçamos uma diferenciação e uma identificação iniciais dos seus principais componentes.

CAPÍTULO 2 - O Propósito e os Meios na Guerra

O capítulo anterior mostrou que a natureza da guerra é complexa e mutável. Pretendo verificar agora como a sua natureza influencia o seu propósito e os seus meios.

Se para começar examinarmos o propósito de qualquer guerra específica, que deve orientar a ação militar para que atenda devidamente ao propósito político, veremos que o propósito de qualquer guerra pode variar tanto quanto o seu propósito político e as suas reais circunstâncias.

Se considerarmos por enquanto o puro conceito de guerra, teremos que dizer que o propósito político da guerra não possui qualquer ligação com a guerra propriamente dita, pois se a guerra é um ato de violência destinado a obrigar o inimigo a fazer a nossa vontade, o seu propósito teria que ser sempre e somente derrotar o inimigo e desarmá-lo. Este propósito é extraído do conceito teórico de guerra, mas como muitas guerras chegaram realmente muito perto de atingi-lo, examinemos antes de mais nada este tipo de guerra.

Mais tarde, quando estivermos tratando do tema planos de guerra, iremos examinar com maiores detalhes o que significa desarmar um país. Mas devemos fazer logo uma distinção entre três coisas, três objetivos amplos, que juntos abrangem tudo: as forças armadas, o país e a determinação do inimigo.

As forças combatentes devem ser destruídas: isto é, devem ser colocadas numa situação tal que não possam continuar lutando. Sempre que empregamos a expressão destruição das forças inimigas é somente isto que queremos dizer.

O país deve ser ocupado, senão o inimigo pode organizar novas forças militares.

Embora estas duas coisas possam ser feitas, a guerra, que é a animosidade e os efeitos recíprocos de elementos hostis, não pode ser considerada terminada enquanto não tiver sido quebrada a determinação do inimigo: em outras palavras, enquanto o governo inimigo e os seus aliados não forem levados a pedir a paz, ou enquanto a população não for levada a se render.

Podemos ocupar totalmente um país, mas as hostilidades podem recomeçar novamente no interior, ou talvez com o auxílio de um aliado. Isto evidentemente pode ocorrer também após o tratado de paz, mas isto apenas demonstra que nem todas as guerras levam a uma decisão e a um acordo definitivos. Mas mesmo que as hostilidades ocorram novamente, um tratado de paz sempre apagará uma grande quantidade de centelhas que possam ter calmamente permanecido latentes.

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