Capítulo 6

Instrumentalidade do serviço social
Ângela Maria Pereira da Silva1
É melhor tentar e falhar, que preocupar-se e ver a vida passar. É melhor tentar, ainda que em vão que sentar-se, fazendo nada até o final. Eu prefiro na chuva caminhar, que em dias frios em casa me esconder. Prefiro ser feliz embora louco, que em conformidade viver. Martin Luther King

No Serviço Social ainda faz-se necessário superarmos a concepção de instrumentos como método, transcendendo para uma dimensão superior a da mera técnica. Isso requer para além das concepções teóricas, se valer de meios para alcançar os resultados/objetivos e utilizar os instrumentos capazes de nos possibilitar a intervenção2. Cabe ao assistente social uma contextualização da sociedade, ou seja, uma análise da conjuntura social na qual a opção por uma determinada teoria, portanto, traduz-se numa escolha política, ou seja, a dimensão ético-política não pode ser concebida separada da dimensão teórico-metodológica e essa está inter-relacionada com o processo de intervenção. Nesse sentido os instrumentos3 ou meios de trabalho são elementos fundamentais de qualquer processo de trabalho, pois potencializam a ação do trabalhador sobre seu objeto de trabalho ou matéria-prima. O ser humano é o único ser capaz de criar meios e instrumentos de trabalho. Nas palavras de Iamamoto4 (1999):
É possível identificar três tipos de instrumentos presentes no processo de trabalho dos assistentes sociais: a) as bases teórico-metodológicas, que se constituem no conjunto de conhecimentos e possibilitam a aproximação e conhecimento do objeto; b) o instrumental técnicooperativo, que realiza efetivamente a transformação do objeto e do Serviço Social, compondo-se de instrumentos como a entrevista, a observação, o estudo, o parecer social e os encaminhamentos, entre outros; e c) as condições institucionais, que dizem respeito, sobretudo,

Assistente Social, Especialista em Gestão do Capital Humano e Mestre em Serviço Social. Docente do Curso de Serviço Social – ULBRA/Educação a Distância. 2 Fonte consultada: JACOBY, Márcia. SPEROTTO, Neila. TÜRCK, Mª da Graça Maurer Gomes. Processo de Trabalho IV. Canoas: Ed. Ulbra, 2003 (Caderno Universitário). 3 Disponível: LISBOA, T., PINHEIRO, E.. A intervenção do Serviço Social junto à questão da violência contra a mulher. Revista Katálysis, América do Norte, 8, ago. 2008. Disponível em: http://www.periodicos.ufsc.br/index.php/katalysis/article/view/6111/5675. Acesso em: 21 Set. 2010. 4 Idem.

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Assim como. ou seja. pela qual o Serviço Social consolida a sua natureza e explicita-se enquanto um ramo de especialização. vemos que a instrumentalidade. no qual nunca se conhece o todo. as representações. sobretudo.. processos e práticas sociais mas. ético-política. Guerra evidencia a instrumentalidade como a dimensão mais desenvolvida da profissão à medida que: (. Na execução do processo interventivo o assistente social utiliza o grupo. os recursos financeiros. Enquanto. E tal processo de conhecimento inicia com o primeiro contato com o usuário e se mantêm até que o assistente social entenda que detêm dados suficientes para a compreensão da demanda trazida pelo usuário. sobre cada um desses instrumentos.às condições materiais de realização do trabalho. Na prática a entrevista na intervenção social segue a dinâmica abaixo: Material didático organizado pela Professora Claúdia Giongo disponibilizado na Disciplina de Processo no Curso de Serviço Social na Ulbra/Campus Canoas. objetivar essa compreensão por meio de ações competentes técnica. pág. a concepção de ser social e de mundo. ao mesmo tempo em que articula as dimensões instrumental. intelectual da profissão. intelectual e politicamente (1999. possibilita não apenas que as teorias macroestruturais sejam remetidas à análise dos fenômenos. 5 .) a centralidade da análise se direciona para a forma de inserção da profissão na divisão social e técnica do trabalho. pesquisa e a intervenção social. 2002. os significados. mas parte do todo que deve constantemente ser avaliado no contexto. Trata-se de um processo dinâmico. a entrevista psicológica. Esse processo interventivo pressupõe um plano de ação5. Discorreremos. técnicos e humanos. 198). ou seja. pedagógica. os valores. a seguir. visa compreender o universo. O que é uma Entrevista? É um instrumento de intervenção com objetivos claros e definidos para conhecer a realidade. Cabe salientar que existem diferentes tipos de entrevistas com suas respectivas características. que é realizado através de estratégias metodológicas. tais como: a entrevista jornalística. técnica. desvelar o real que se realiza através do relacionamento e do diálogo.. as entrevistas e as visitas domiciliares como instrumentos que possibilitam operacionalizar o planejamento da sua ação profissional sobre o objeto. Relacionando-a com a totalidade do contexto social.

dois subitens: análise da situação conhecida (interpretação dos fatos. mas a contextualização da situação. objetiva e sintética. Assim como realizar uma interlocução com autores de referência e assim avançar no conhecimento. Além da narrativa dos acontecimentos. Enquanto o relatório processual descritivo compreende a descrição pormenorizada da entrevista realizada. . ordenada. elementos da subjetividade dos sujeitos atendidos. após a narrativa da entrevista. Deve conter. elencados os elementos mais representativos e necessários para a compreensão da situação. além de subsidiar o estudo de caso junto a equipe interdisciplinar. onde todos os elementos importantes para a compreensão dessa situação são descritos. em cima de uma compreensão teórica) e a análise dos sentimentos em relação à situação. Devem-se levar em conta os objetivos da entrevista. tais como os dados referentes aos processos sociais.Uma das estratégias metodológicas adotadas pelo Serviço Social para desenvolver seu processo de intervenção é a documentação. Cabe ressaltar que essas formas de documentação traduzam toda a dinâmica da situação social atendida e propõe o uso de uma linguagem clara. O relatório processual condensado não é a descrição pormenorizada da situação. No Serviço Social a documentação exerce um papel fundamental para o desenvolvimento de sua ação profissional e pode ser registrado através de relatório processual descritivo ou condensado. Na medida em que o profissional registra tem a oportunidade de voltar-se para a intervenção desenvolvida. refletir sobre a mesma. A documentação representa um elemento significativo de construção da prática do Serviço Social. descreve a forma de intervenção. questionar outras possíveis alternativas. que não é apenas um registro das observações e ações empreendidas. particulares.

estigmas. estimular a relação e investir em ganhar a confiança do usuário. ou seja. . a exemplo dos entrevistadores de IBOPE que visam como objeto à coleta de dados sobre a preferência dos eleitores na disputa eleitoral. cuidado com a ação de encaminhar. Trata-se de um instrumento. 6 Fonte: Material didático elaborado pela Profª Dra. Na prática a entrevista implica em romper com pré-conceitos.Cabe destacar que a abordagem da entrevista requer observação. não se reduz a transmissão de informação. o conhecimento mútuo.com. uma discussão ou discurso do entrevistador. utilizando os próprios recursos pessoais internos e os externos da estrutura e nos serviços. conflituosas.br/ilustracao A posição do profissional é de escuta para depois se aproximar e analisar a realidade do jeito que o usuário a vê. confissão e terapia. Gleny Guimarães – Curso Processos e Práticas em Serviço Social UCPEL: 2006. um encontro casual ou uma conversa entre amigos. a troca e pressupõe uma relação entre o profissional e o usuário (saber o que é meu e o que é do outro) respaldado pela construção de vínculos. primeiramente identifica-se o objeto e na entrevista a intencionalidade precisa ser compartilhada com o usuário. não se restringe a uma anamnese. uma prática burocratizada. não privilegia uma relação verticalizada6. para fazer uma adequada redefinição e depois junto com a pessoa estudar as possíveis soluções. busca de um diagnóstico patológico. não raro. não é para vasculhar ou fiscalizar a vida dos usuários ou colher dados e arquivá-los. não é apenas preencher uma ficha.fotosearch. Para motivá-la a resolver os seus problemas. A entrevista não é um jogo de perguntas e respostas ou interrogatório. Então. Ilustração: http://www. tais como as que envolvem a família (desorganizadas. É importante estudar. classificações. saber ouvir. da confiabilidade numa prática reflexiva. uma entrevista jornalística. É necessário saber a intencionalidade da entrevista. um dos meios de trabalho do Assistente Social que possibilita uma espécie de via de mão dupla. culpabilizadas) para tanto é preciso questionar para não fazer préjulgamentos conforme a concepção pessoal do entrevistador. saber perguntar e desenvolver uma conversação dialógica. fragilizadas.

Cabe ao profissional o bom senso em perceber o melhor momento para encaminhar procedimentos de rotina. respeitando a situação em que se encontra o usuário. 7 . pergunte sobre os mesmos da família além da criança e dos pais. um vizinho por exemplo). Patrícia “Trabalhando com famílias pobres”. avós. Quem são as pessoas que residem na casa ou no mesmo terreno? O que faz cada um deles (trabalham. enquanto o assistente social faz as perguntas para compreender a situação. Algumas questões norteadoras para a entrevista inicial do Serviço Social7 A entrevista é o momento de estar com este usuário para conhecer dados da realidade social de seus integrantes.A entrevista deve favorecer que o usuário opte se deseja participar ou não desse processo. Dados elaborados a partir do material disponibilizado pela Professora Claúdia Giongo na disciplina de Processo de Trabalho III com base em MINUCHIN. que seja significativa para ele e lhe permita agir com mais êxito como pessoa. tios e tias. irmãos. O espaço. estratégias de sobrevivência). A duração. Referindo-se à vida familiar é necessário saber: Quem faz parte da família? (Se a resposta não for voluntária. A documentação. E em especial da clareza da diferença entre os participantes: o usuário fala de si e do seu contexto. São os objetivos da entrevista que determinam: • • • • As técnicas. Porto Alegre: Artes Médicas. Quanto às mudanças desejadas: é promover basicamente aquela que o entrevistado será capaz de construir. é centrada no usuário a fim de atingir o objetivo estipulado. Pergunte também sobre as pessoas que podem ser apoiadoras/significativas. estudam)? Como estão organizadas as rotinas pessoais? Relação com o processo de produção e reprodução da vida social e material (emprego. embora não sejam parentes. 1999.

E é através do relato oral realizado pelo visitado que o visitador deve observar a totalidade manifestada em suas narrativas pormenorizadas. as qualidades das quais a família se orgulha). realizada por um ou mais profissionais. assim como fatores pessoais e familiares. a entrevista e a história ou relato oral. investigativa ou de atendimento. A visita domiciliar8 como intervenção reúne pelo menos três técnicas: a observação. mecanismos de enfrentamento. Visita Domiciliar.E o motivo/a questão que os fazem buscar ajuda: Por que estão aqui? Qual a razão da procura segundo a família? Algum membro da família tem opinião diferente? Quando a situação começou a surgir? O que mais estava acontecendo na época. desabrigo. uma morte na família. Guia para uma abordagem complexa. instrução limitada. Sarita. como doença. caso não haja informações voluntárias. migração e dificuldades da linguagem. que deve ser considerada primeiro? Como os membros da família são uma parte importante do trabalho. A observação indica a atenção aos detalhes dos fatos e relatos apresentados durante a entrevista. E expectativas e papel da família: O que a família espera desse serviço? O que esperam que venha a ser realizado? O que acreditam ser a preocupação mais importante. quem acreditam deva participar das entrevistas com o Serviço Social? Visita Domiciliar É uma prática profissional. preconceito racial. sem Material consultado: AMARO. dependência de substâncias psicoativas. tensão conjugal). na vida da criança e da família? Quem mais é/foi afetado pela situação e como? Que alternativas foram tentadas? Qual foi o envolvimento da rede de assistência ou o sistema educacional. 8 . AGE Editora. quais os fatores de tensão ou conflito? (Nesse considere os fatores sociais e econômicos. junto ao indivíduo em seu próprio meio social ou familiar. nas conversas trocadas. pergunte sobre os sistemas de apoio. divórcio. médio. tais como desemprego. jurídico no trabalho com a família e/ou criança? Esse envolvimento/atendimento tem sido proveitoso? A família: suas potencialidades e tensionamentos: Quais as potencialidades da família? (Detenha algum tempo nessa área.

os gestos realizados ou bloqueados. a queda das lágrimas. postas à exploração investigativa do profissional. não a verdade que acredita ou que quer ver. quem sabe. durante a realização da visita. as relações físicas de afago e repulsa. por mais estranhos que eles possam parecer a nossa razão. sugere-se estar atento. E o que esses atos-mensagens expressam de medo. Ao realizar uma visita domiciliar. ou seja o não dito. Metodologicamente a entrevista pode ser comparada a uma simples conversa empírica. A ética e o respeito são princípios e condições imprescindíveis à realização da visita domiciliar. Portanto. mas por ter uma intencionalidade específica são chamadas de entrevistas semi-estruturadas. ciúme. intrigantes e conflitantes. como à relação que constrói com o sujeito visitado. o que está fora do ambiente ou fora de visão. procurando com isso obter uma visão poliocular. na busca da reconstrução e resignificação de sua história. disposto a conhecer a realidade do usuário. proteção e maus-tratos. Utilizando-se de uma exploração investigativa. Implica em captar a realidade dentro do quadro social e cultural específico do usuário e exige do profissional a visão desses elementos difíceis. indiferenciados ou até confusionais. a tonalização ou silenciamento da voz. Sugerese buscar evidências também naquilo que está oculto. a qual revela o espaço íntimo do usuário. chegar a modelos de realidade. em seus aspectos organizados ou desorganizados. A verdade do real não reside exclusivamente em situações conhecidas postas à verificação. mas em um indefinido número de outras situações desconhecidas. É na relação estabelecida entre as partes que a realidade se constitui e revela sua complexidade. Deve-se observar o movimento dos corpos. orientada por uma perspectiva complexa. favorecendo de alguma forma o encontro com a realidade do outro com a sua própria. ou diálogo. provocando a redefinição de paradigmas. Podendo contribuir. O pensamento deve ser complexo e pressupõe uma atitude ética do profissional. Durante a visita deve-se estar atento para olhar o diferente. afeto.descartar sua correlação com demais situações e expressividades observadas. relativa tanto ao conhecimento que busca obter. para classificar a verdade de cada história falada ou observada nas visitas. não espere. O olhar buscará investigar o significado dinâmico da casa. o inaudito. considerando o direito a privacidade e o sigilo . o invisível. Numa visita domiciliar é importante que o observador seja capaz de encontrar a verdade daquela realidade. o que não aparece no relato ou na casa.

maus-tratos. também devemos levar em consideração o número de profissionais que realizarão a visita. o qual não deve ser superior ao das pessoas visitadas evitando a sensação de intimidação/invasão. negligência e abandono. por exemplo: observar se há ocorrência de sintomas traumáticos na família. relativa a construção do conhecimento. Também as perguntas não devem ser feitas como julgamentos ou comentários proibitivos e punitivos. abuso. com o intuito de buscar uma melhor compreensão. pois busca assim uma auto-crítica e uma crítica. Explorando a realidade o profissional buscará questioná-la e conseqüentemente se aproximará da verdade. o inacreditável. E requer do visitador a predisposição para lidar com o diferente. deve agir com cordialidade sem perder a naturalidade. perdas recentes. desemprego. Exercitando com isso a dúvida e a capacidade de se auto-interrogar. dentre outros fatores que podem estar implicados. ou seja. Vale ressaltar que vários aspectos podem motivar uma solicitação de uma visita domiciliar. abordagem e manejo da visita domiciliar.profissional. Outro detalhe importante é a duração da visita e também saber identificar se o momento em que se encontra o indivíduo ou sua família é propício à visita. adoecimento. E porque não dizer: numa elaboração do que observamos e sentimos. O profissional. enfim abre uma brecha para lidar com o inesperado. o cuidado na relação estabelecida. sem ser constrangedor ou invasivo. alcoolismo e/ou drogas. o que sugere discussão. Atenção na Visita Domiciliar: Vale lembrar que o profissional não deve mostrar se íntimo de quem está visitando. Adentrar um território desconhecido favorece inevitáveis processos de profunda reflexão quanto a execução. ao . Faz-se necessário a atenção às perguntas que irá fazer: seja crítico e observador. demonstrando uma atitude ética.

tendo a priori o objetivo de intervir entre o Serviço Social de caso. propondo alternativas e parâmetros que sirvam de base para a independização. . ações e comportamentos de acordo com o sistema vigente e o poder hegemônico das sociedades. decida e que ao mesmo tempo. grupo e comunidade. grupais ou comunitários (KONOPKA. com propostas concretas. entre tantos outros.introduzir a visita.fotosearch. Sendo assim resultará numa relação baseada na confiança mútua. a exemplo dos grupos de usuários incluídos no Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (PETI). Ilustração: http://www. Na qual o grupo representa uma das alternativas para os usuários melhorarem a sua atuação social através de experiências grupais objetivas e a enfrentarem. No momento atual o que se tem por objetivo entre os profissionais é a superação desta prática tradicional que reproduz a dominação. na reciprocidade e na compreensão. facilite a participação e a tomada de decisão dos demais. Contudo. respeitando a sua historicidade. deve dizer o motivo da mesma e colocar-se a disposição para uma conversa amigável e honesta. Havia o objetivo de corrigir os comportamentos desviantes que ameaçassem o equilíbrio do sistema. Estratégias de Saúde da Família (ESF). novos princípios. autonomia. 1950). partindo de novos referenciais. de um modo mais eficaz. os profissionais atuavam no trabalho com grupos. houve um trabalho articulado do assistente social com grupos. o grupo e o problema. Significa que o Serviço Social deve favorecer que o usuário participe.com. Nessa concepção o trabalho de grupo contém a dimensão da pessoa no grupo. seus problemas pessoais. Programa de Atendimento Integrado à Família (PAIF). incentivando os usuários a mudarem suas atitudes. Destaca-se que a ação interventiva do assistente social através da articulação grupal visa conhecer o usuário e compreendê-lo em seu próprio contexto sócioeconômico-cultural.br/ilustracao Vivência grupal Desde o início do surgimento do Serviço Social como profissão. criticidade dos usuários.

Na prática o profissional através do grupo pode promover a construção da autonomia cidadã. Canoas: Ed. Ulbra. manter e fomentar a comunicação entre os membros do grupo trabalhando o processo grupal na sua totalidade. conhecer com profundidade as teorias que abordam o funcionamento e desenvolvimento de grupo e linká-los com a realidade do grupo. planejamento. ter capacidade de comunicação.Cabe explicitar as diferentes concepções teóricas relacionadas ao grupo evidenciadas por TÜRCK9: As técnicas grupais centradas no indivíduo trazem como indicativo a teoria psicanalítica (. Para Tatagiba e Filártiga. estar motivado. Por tudo isso que a atuação do assistente social em grupos é de suma importância. principalmente para que não se reproduza no interior dos grupos uma relação de dominação. é um processo inacabado. na qual o grupo justifica-se pela percepção de que. no mundo atual. a coordenação deve criar. Márcia. ter presença instrumentalizadora/facilitadora. Em contrapartida. o profissional tem que possuir capacidade de análise e compreensão crítica da realidade social e da dinâmica do próprio grupo. Para Pichon.. o controle social. sensibilidade.. Processo de Trabalho IV. Daí a importância do Serviço Social no grupo privilegiando a dimensão pedagógica da profissão. o coordenador deve propiciar a identificação da realidade do grupo.). Neila. Portanto. à participação política dos usuários/participantes. ser continente.. Portanto faz-se necessário ao profissional: determinação. Enfim. a forma de conduzir o grupo está intimamente inter-relacionada com a concepção teórica com que vamos utilizar o grupo.). não discriminar. desenvolver a percepção. exercitar a flexibilidade. criatividade. SPEROTTO. que utiliza os pressupostos do materialismo histórico dialético e a teoria psicanalítica. possuir pensamento sistemático (. TÜRCK. a coordenação deve gostar e acreditar em grupos. 9 . ser verdadeiro. ter senso de humor e ter capacidade de integração e síntese das mensagens pelos diversos componentes do grupo integrá-las em um todo coerente e unificado. conhecer e desenvolver sua potencialidade para lidar com pessoas. a intervenção de grupo é centrada no grupo e realiza a análise da sua própria dinâmica é inspirada nas idéias de Kurt Lewin. Para Zimermann. 2003 (Caderno Universitário). Mª da Graça Maurer Gomes. saber relacionar-se é fundamental. teoria construtivista. sem artificialismos forçados. na qual considera o grupo como totalidade. Fonte consultada: JACOBY. assumir uma presença motivadora e menos impositiva.. instrumento de avaliação. ter empatia. sendo que este é dinâmico e se constrói permanentemente. ser um novo modelo de identificação.

Então. de forma descentralizada a partir do território. pois todo o material é valioso. numa nova pergunta. O grupo para além do trabalho frente às carências/vulnerabilidades sociais. segundo a teoria pichoneana. também contempla o caráter preventivo e as demandas pela própria comunidade. reivindicações. ao conseguir dar respostas a novas situações é que o usuário se desenvolve e se percebe. na qual cada resposta obtida se transforma. onde está a força política dos usuários participantes. onde eles mesmos desenvolvem suas conclusões. Também há quem defenda outra posição que acredita que a coordenação interage e participa junto ao grupo. Sabe-se que ao enfrentar as exigências do mundo. em conjunto. No interior desses grupos os indivíduos expõem os seus interesses. O grupo representa uma perspectiva de intervenção junto à comunidade. exercendo sua autonomia e do grupo. . pois é um(a) técnica no exercício profissional fazendo uma intervenção. A questão central é se conseguimos notar o movimento que algumas ações requerem a nossa participação e em outras há a necessidade de observação.articulação para transformar as necessidades da demanda que chega em alternativas de ação. imediatamente. a fim de não deixar escapar nada. produzindo assim uma nova forma de reflexão. Grupo Operativo: pressupostos de Enrique Pichon-Rivière Existem entendimentos distintos acerca do papel da coordenação sobre a participação no grupo em relação ao cuidado que deve se ter. tão esquecidos em uma relação coletiva. aprender em grupo significa uma atitude investigadora. onde o “aprender é sinônimo de mudança”. objetivos.

O autor sintetiza a noção de vetor como um conjunto de forças representativas de tendências que se manifestam no campo grupal: afiliação (o início. cooperação (quando o movimento grupal aponta para a realização da tarefa). Isso requer a intervenção do coordenador para suporte para trabalhar as sensações. ou seja. o marco abstrato que é dado no início do trabalho e será complementado pelo acontecer grupal. ou seja. o movimento oriundo da relação interpessoal que ocorre no espaço grupal. quando emerge fantasias parentais com a figura da coordenação). tarefa. líder da resistência ou sabotador (aquele que dificulta/impede a realização da tarefa). bode expiatório (aquele que assume os aspectos negativos depositados pelo grupo referente a tarefa e aos obstáculos). líder da tarefa (aquele que mantêm o grupo em tarefa). Rol é um termo que significa a função que assumem os integrantes do grupo diante de uma situação. obstáculos. um grupo é operativo quando em termos gerais entende o porquê e o para quê de sua resistência e se modifica e o modifica para uma nova síntese. aprendizagem (fenômeno cooperante com a comunicação. as mesmas devem estar integradas e elaboradas no processo grupal em co-existência uma com a outra. além de outros indicadores que o grupo vai acrescentando no seu funcionamento. a aprendizagem e a síntese. Para Pichon-Riviére a análise grupal utiliza como indicadores (roles10). pertinência (refere-se a coerência do comunicado com a tarefa). comunicação (por onde circula a mensagem. o texto que é individual (vertical) passa a ser grupal (horizontal). téle (conceito utilizado por Moreno quanto a empatia/afinidade). dando aos integrantes melhores condições de definição dos roles). área dois (corpo) e área três (mundo externo). Rol expressa a dinamicidade. a restituição e a abstinência. PichonRivière destaca três áreas no trabalho com grupo: área um (mente). mas também de integração entre a aprendizagem que está por vir com aquela que já temos. Simbolizam a confiabilidade.Cabe ao Coordenador dar o enquadre. tal vetor se relaciona a tarefa grupal apontando a construção de um texto comum para resolver os conflitos intragrupo como extragrupo). o contexto social. enfim são as regras que assumem tanto a coordenação quanto o grupo. 10 . vetores do cone invertido. resistências com a mudança. Rol pode ser o porta-voz (aquele que expressa as tensões e ansiedades grupais). então. quando o grupo começa a se relacionar. obstáculos e necessidade grupal. pertinência (grupo começa adquirir autonomia. Essa possibilidade de mudança salienta que o processo é dialético que traduz a ruptura. obstáculo ou momento do processo de agrupamento e grupal.

nas visitas domiciliares e no grupo na medida em que é: ( ) a. .A ética e o respeito como princípios e condições imprescindíveis à realização da intervenção com o usuário. as adaptações. logística (conjunto de conceitos. para depois junto com a pessoa estudar as possíveis soluções. não só dar visibilidade aos acontecimentos.A escuta para depois se aproximar e analisar a realidade do jeito que o usuário a vê. introjetar entre si dos integrantes do grupo reportando o vetor da pertinência e se produz a partir da afiliação num determinado espaço e tempo grupal. as entrevistas e as visitas domiciliares como instrumentos que possibilitam operacionalizar o planejamento da sua ação profissional sobre o objeto.Um instrumento que favorece o controle. ou seja.A transmissão de informação. conceituais e corporais registradas. jogos e defesas. bem como vasculhar ou fiscalizar a vida dos usuários a fim de colher dados para proceder na intervenção. ( ) c. recursos que conta o coordenador de grupos para a realização da tarefa/ação). ( ) b. Destaque a(s) alternativa(s) que diz (dizem) respeito ao assistente social no seu processo interventivo: ( ) a. ( ) d. tática (é o meio elegido dentro daquele marco idealizado na estratégia. pois formam parte da matriz de aprendizagem que é todo conjunto de vivências emocionais. a técnica (é o método de execução da tática que atuará na realidade como seu modificador. ( ) d. ( ) e. mas principalmente a subjetividade que emerge. Nesse sentido o conteúdo da documentação é essencial tanto na entrevista.Utilizado para desenvolvimento da ação social para que o grupo se efetive. a exemplo do grupo operativo). Isso tudo somado aos vetores fará operativo ao grupo.Na sua prática profissional favorecer que se reproduza a relação de dominação. 2-) É correto afirmar o assistente social utiliza o grupo. Auto Estudo: 1-) Documentar é um ato importante para construir a história de um determinado momento. limites e possibilidades na proposta/estrutura do grupo.Um instrumento que favorece o processo de trabalho e principalmente para planejar a continuidade do processo interventivo. ( ) b. ( ) c. a exemplo do dispositivo grupal). com um êxito seguro baseado na planificação prévia.Elaborado pelo Serviço Social pelo relatório processual descritivo. Já a operatividade do grupo requer um processo integrado entre: estratégia (criação de um modelo referencial.Também é enfatizado o estabelecimento do vínculo.Elaborado pelo Serviço Social pelo relatório processual condensado. a recompensa. onde possam produzir-se situações inter-relacionais e possam construir hipóteses e ações). E na construção de identidade grupal o autor evidencia o conceito de mútua representação interna.

além de uma atuação de caráter preventivo. é centrada no usuário a fim de atingir o objetivo estipulado. uma prática burocratizada. ( ) c – O profissional. ao introduzir-se na visita. d) .( ) e .Alternativas c . e)). 4-) A entrevista deve favorecer que o usuário opte se deseja participar ou não desse processo. em seus aspectos organizados ou desorganizados. Gabarito Questão 1 . ( ) d. deve dizer o motivo da mesma e colocar-se a disposição para uma conversa honesta.d Questão 3 . de forma descentralizada a partir do território. (alternativa 2 – c. Seguindo essa linha de raciocínio elabore um texto de no mínimo 5 e no máximo 10 linhas sobre as questões norteadoras para a entrevista inicial do Serviço Social: 5-) Evidencie em no mínimo 5 e no máximo em 10 linhas os pressupostos teóricometodológicos de Enrique Pichon-Rivière acerca do grupo operativo como um dos instrumentos do Serviço Social. 3-) Relacione a coluna a resposta que representa a respectiva perspectiva na intervenção social de forma que evidencia as opções abaixo: (1) Entrevista (2) Visita Domiciliar (3) Grupo ( ) a – Representa uma perspectiva de intervenção junto à comunidade.(alternativas (3. ( ) e – No seu interior o “aprender é sinônimo de mudança”. a qual revela o espaço íntimo do usuário. enquanto o assistente social fala de si. não é apenas preencher uma ficha e arquivá-la. ( ) b – Não é um jogo de perguntas e respostas ou interrogatório.Alternativa a Questão 2 . onde está a força política dos usuários.a. indiferenciados ou até confusionais. (alternativa (1 – b)).Investigar o significado dinâmico da casa.Da clareza da diferença entre os participantes: o usuário faz as perguntas.

Mª da Graça Maurer Gomes. Revista Katálysis. 8. Cortez Editora. 2010. Tradução: Marco Aurélio de Velloso. PICHON-RIVIÉRE.. Sarita..br/index. Processo de Trabalho IV. 6. A Intenção-ação no Trabalho Social. Canoas: Ed. A Instrumentalidade do Serviço Social. A intervenção do Serviço Social junto à questão da violência contra a mulher. Enrique. São Paulo: Cortez. Como Trabalhamos com Grupos. Artes Médicas.. São Paulo: Martins Fontes. Ulbra. Gleny Guimarães – Curso Processos e Práticas em Serviço Social UCPEL: 2006. Luiz Carlos. LISBOA. Revisão: Mônica Stahel. JACOBY. Márcia. Neila.ufsc. América do Norte. 2ª Ed. Material didático organizado pela Professora Claúdia Giongo disponibilizado na Disciplina de Processo de Trabalho no Curso de Serviço Social na Ulbra/Campus Canoas. TÜRCK. 2ª Ed. 1985. 1997. A autora busca compreender a posição que a dimensão instrumental da intervenção ocupa na prática profissional. 2008. ago. 2002. David E. 1999. PINHEIRO. São Paulo. AGE Editora.periodicos. GUERRA. Disponível em: http://www. Patrícia “Trabalhando com famílias pobres”. São Paulo. 1999. Material didático elaborado pela Profª Dra. Acesso em: 21 Set. ed. São Paulo: Cortez. 1999. Visita Domiciliar. Ana Maria. A Instrumentalidade do Serviço Social.php/katalysis/article/view/6111/5675. Bibliografia Recomendada GUERRA. VASCONCELOS. Material didático organizado pela Professora Claúdia Giongo na disciplina de Processo de Trabalho III com base em MINUCHIN.Bibliografias Consultadas AMARO. E. 1998. Yolanda. Yolanda. 2003 (Caderno Universitário). T. . Porto Alegre: Artes Médicas. O Processo Grupal. SPEROTTO. OSÓRIO. ZIMERMAN. Guia para uma abordagem complexa.

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