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Revista PARQUES E VIDA SELVAGEM n.º 31, Primavera de 2010

Revista PARQUES E VIDA SELVAGEM n.º 31, Primavera de 2010

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As traves-mestras desta publicação são a educação ambiental e a conservação da natureza.
A revista PARQUES E VIDA SELVAGEM sai com o JORNAL DE NOTÍCIAS.
A revista PARQUES E VIDA SELVAGEM é produzida trimestralmente pelo Parque Biológico de Gaia.
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Ano X • N.º 31 • 22 de Março a 22 de Junho 2010

Esta Revista faz parte integrante da edição do Jornal de Notícias e não pode ser vendida separadamente • Distribuição gratuita

Report: Natural Park of Alvão Report: Dueça: Speleological Center Interview: Micromammals Reportagem PARQUE NATURAL DO ALVÃO Reportagem DUEÇA: CENTRO ESPELEOLÓGICO Entrevista MICROMAMÍFEROS

SUMÁRIO 3

Primavera 2010
João Petronilho

FICHA TÉCNICA
Revista “Parques e Vida Selvagem” · Director Nuno Gomes Oliveira · Editor Parque Biológico de Gaia · Coordenador da Redacção Jorge Gomes · Fotografias Arquivo Fotográfico do Parque Biológico de Gaia · Propriedade Parque Biológico de Gaia, E. E. M. · Pessoa colectiva 504888773 · Tiragem 120 000 exemplares · ISSN 16452607 · N.º Registo no I.C.S. 123937. Dep. Legal 170787/01 · Administração e Redacção Parque Biológico de Gaia, E.E.M. · Rua da Cunha · 4430-681 Avintes · Portugal · Telefone 227878120 · E-mail: revista@parquebiologico.pt · Página na internet http:// www.parquebiologico.pt · Conselho de Administração Nuno Gomes Oliveira, Mário Duarte, Brito da Silva · Publicidade Jornal de Notícias · Impressão Lisgráfica - Impressão e Artes Gráficas, Rua Consiglieri Pedroso, 90 · Casal de Santa Leopoldina · 2730 Barcarena, Portugal · Capa: foto de João L. Teixeira.

42 MICROMAMÍFEROS
entrevista
Tímidos, discretos, musaranhos e ratos do campo dão rosto a mais uma parcela de biodiversidade. À coca deles andam biólogos como Verónica Gomes. Para melhor percebermos esta fasquia da vida, colocamos-lhe algumas perguntas-chave.

SECÇÕES 7 Ver e falar 10 Fotografia 14 Fotonotícias 18 Portfolio 20 Quinteiro 22 Contra-relógio 24 Dunas/Espaços Verdes 38 Bloco de notas 61 Colectivismo 63 Crónica

44 PARQUE NATURAL DO ALVÃO
reportagem
Incluído na rede nacional de áreas protegidas, este parque natural fica entre dois concelhos: Mondim de Basto e Vila Real. Criado por decretolei de 1983, estende-se por aldeias e bosques. A cascata das Fisgas do Ermelo é um ex-líbris reconhecido, mas há muito mais para ver na região.

49 DUEÇA: CENTRO ESPELEOLÓGICO
reportagem
Em Penela, o Centro de Interpretação do Sistema Espeleológico do Dueça explica aos visitantes a paisagem cársica do maciço de Sicó, em que se enquadra. A ideia assenta em valorizar o território através da salvaguarda do ambiente enquanto principal riqueza social e económica.

Esta revista resulta de uma parceria entre o Parque Biológico de Gaia e o “Jornal de Notícias”

Os conteúdos editoriais da revista PARQUES E VIDA SELVAGEM são produzidos pelo Parque Biológico de Gaia, sendo contudo as opiniões nela publicadas da responsabilidade de quem as assina.

Parques e Vida Selvagem Primavera 2010 • 3

4 EDITORIAL

Por Nuno Gomes Oliveira Director da Revista “Parques e Vida Selvagem”

Ano Internacional da Biodiversidade II
Atingimos as nossas metas do Countdown 2010. Os jornais de finais de Março surpreenderam-nos com a notícia de que a Câmara Municipal de Lisboa queria aumentar a sua biodiversidade em 20% até 2020. E mais nos esclareciam que em Lisboa existem mais de 140 espécies animais e 123 vegetais, grande parte das quais no Parque Florestal de Monsanto
É caso para dizer, já que estamos a falar de biodiversidade, “aqui há gato”; em Lisboa existem muitas mais centenas de espécies de animais e plantas e aumentar essa biodiversidade em 20%, como é proposto para meta até 2020, poderá fazer-se de imediato, com um simples passeio de meia hora num qualquer jardim da capital. Mas também ficamos a saber que a Câmara Municipal de Lisboa, a Agência Municipal de Energia - Ambiente de Lisboa e o Instituto da Conservação da Natureza e da Biodiversidade assinaram, em 23 de Março, um protocolo que criou um grupo de missão que irá elaborar uma matriz de indicadores de biodiversidade urbana na capital, tendo esse protocolo como meta “aumentar o potencial de biodiversidade da cidade de Lisboa em 20% até 2020”. “É um programa muito ambicioso mas acho que está completamente ao nosso alcance”, disse o vereador Sá Fernandes, ao que o secretário de Estado do Ambiente, Humberto Rosa, ajuntou que “é um passo corajoso e creio que é inédito”. Muito mal assessorados andam os nossos dirigentes! Nem o passo é inédito, nem é corajoso! A única parte que é verdadeira é que, de facto, está completamente ao vosso alcance; basta, como disse, meia hora de passeio num jardim. Cá por Gaia, indicadores de biodiversidade já temos e objectivos para aumento da variedade de espécies também. Em 2006 o Parque Biológico decidiu participar na campanha Countdown 2010, uma rede internacional de mais de 850 parceiros, incluindo governos, que tem como objectivo travar a perda da biodiversidade até 2010. Tínhamos, nesse final de 2006, 840 espécies de animais e plantas inventariadas em Gaia. Timidamente, desenhámos algumas metas que nos pareceram possíveis de atingir: 1123 espécies de animais e plantas no estado selvagem em 31/12/2010. Pois bem, ainda estamos a 250 dias da data fixada, e já vamos em 2034 espécies, mais 911 que a meta traçada! E, entre estas, diversas espécies novas para Portugal e, outras, mesmo novas para a ciência! Mas, como se conseguiu tal? Essencialmente aumentando o esforço de inventariação e mantendo e melhorando a qualidade dos habitats naturais. A criação, e consequente trabalho de campo, na Reserva Natural Local do Estuário do Douro foi um dos elementos-chave para o aumento da quantidade de espécies de aves. O trabalho da Estação Litoral da Aguda foi essencial para juntar à lista a biodiversidade costeira de Gaia e o protocolo com o CIBIO (Universidade do Porto) permitiu conhecer melhor as espécies de invertebrados terrestres. Até ao final do ano, com o estudo mais aprofundado do Estuário do Douro e, nomeadamente, dos invertebrados aquáticos vamos, seguramente, ter muito mais informação. Esta nota não pretende manifestar uma qualquer competição com Lisboa, mas tão-só mostrar o desconhecimento que muita gente tem do que é a biodiversidade e qual a sua real dimensão. O que é grave, quando essas pessoas têm responsabilidades na gestão ambiental.

Firefly Symposium 2010 e Symposium on Tardigrada 2012
Na sequência do encontro internacional sobre Pirilampos (Fireflys) que o Parque Biológico promoveu em 2007, o grupo internacional de investigadores manteve-se e, em 2008, houve outro Simpósio Internacional na Tailândia e, este ano, em Agosto, haverá um terceiro na Malásia. Fica-nos o gosto de termos sido os facilitadores e pioneiros nas reuniões internacionais de especialistas neste grupo de animais, afinal, uma consequência “científica” das “Noites dos Pirilampos” que há anos organizamos no Parque Biológico. Esperemos que o mesmo sucesso tenha o 12.º Simpósio Internacional sobre Tardígrados, que vai de decorrer no Parque Biológico, de 17 a 20 de Junho de 2012, numa parceria com a Universidade do Porto. Os tardígrados são pequenos animais segmentados, que foram descritos em 1773. O seu nome significa “que se desloca lentamente”, e medem entre 0,05 mm e 1,5 mm de comprimento. Foi descoberto que estes pequenos animais,

4 • Parques e Vida Selvagem Primavera 2010

EDITORIAL 5

João L. Teixeira

que vivem em musgos e líquenes, são capazes de sobreviver no ambiente inóspito do Espaço, sem nenhuma protecção, e voltar à Terra como se nada houvesse acontecido. Podem ficar num estado de letargia, desidratados, durante anos, suportando extremos de calor ou frio (entre -150°C e 271°C), e mesmo altos níveis de radiação. Em 2007, a Agência Espacial Europeia levou tardígrados a bordo da cápsula espacial Foton-M3, para fazer experiências. Os animais enfrentaram o vácuo, radiação ultravioleta mil vezes maior do que na Terra e raios cósmicos. A maioria deles conseguiu voltar viva à Terra, e com capacidade reprodutiva, gerando descendentes normais. O estudo dos tardígrados é importantíssimo para a “conquista do Espaço”. Se estes bichinhos podem sobreviver no Espaço, sem qualquer protecção, porque é que não hão-de existir seres vivos semelhantes a viver nos confins do Universo?

O fim da caça com chumbo
Esta é uma boa notícia: Humberto Rosa, secretário de Estado do Ambiente, anunciou que a partir de Agosto do ano que vem deixará de ser permitido o uso de cartuxos com chumbo na caça em zonas húmidas, mas só no interior de áreas classificadas (esta é a parte má da notícia), uma decisão que foi anunciada para assinalar o Dia Mundial das Zonas Húmidas, no passado 2 de Fevereiro. O chumbo, habitualmente usado nos cartuchos e caça, será substituído por aço, tal como já acontece noutros países, visto ser um metal tóxico (é um veneno enzimático que interfere em algumas reacções químicas essenciais à vida). Um estudo feito em Portugal, em 2005, refere que em algumas espécies de aves aquáticas, como patos, pode haver cerca de 60% com saturnismo, uma doença provocada pela ingestão de chumbo. Grandes quantidades de chumbo, quer dos cartuchos de caça quer da pesca, ficam nos campos agrícolas e zonas húmidas. Ao procurarem comida, acidentalmente as aves ingerem

bagos de chumbo que é dissolvido e absorvido durante a digestão, vindo a interferir com processos bioquímicos fundamentais à vida. Uma boa parte das aves morre nas primeiras semanas. Os sintomas são a depressão, a atrofia dos músculos peitorais, a perda de peso e a debilidade geral. Surge diarreia verde e aquosa, falta de apetite, e eventualmente vómitos. Os sintomas nervosos são a paralisia das extremidades inferiores, falta de coordenação e a incapacidade de voar. A ave entra em coma e morre, ou é capturada por predadores dada a sua incapacidade de fuga. O saturnismo também afecta o homem, e foi uma das causas da decadência e queda do Império Romano, pois os romanos utilizavam abundantemente o chumbo na cerâmica, na cosmética, em utensílios de cozinha, e na construção de sistemas de recolha e abastecimento de água. Mas era, especialmente, através do consumo de vinho, que os problemas de saturnismo afectavam Roma. O vinho era fervido em recipientes de chumbo, com o objectivo de o conservar e de diminuir a sua acidez; a libertação de acetato de chumbo provocava um sabor adocicado e evitava o crescimento de microrganismos no vinho. Os romanos acreditavam que o chumbo era uma dádiva de Saturno, daí a designação saturnismo. Nero e Calígula, entre muitos outros romanos, foram vítimas de saturnismo. Mas também Beethoven: análises recentes ao seu cabelo indicam uma dose de chumbo 60 vezes superior ao normal, o que pode explicar o seu comportamento irritadiço. A ingestão de chumbo chegou até hoje, não só através do vinho mas de produtos de beleza, produtos para pintura, gasolina, etc. Quando se bebe por um copo de cristal, especialmente antigo, ingerese chumbo, embora numa quantidade ínfima.

de Gaia, pela gestão e conservação de todos os espaços verdes públicos do concelho. Não é uma tarefa nova, dado que esse sector já tinha estado sob responsabilidade do Parque Biológico até ao ano 2000. É, no entanto, um enorme acréscimo de trabalho, até porque a área de jardins públicos aumentou imenso na última década. Com a aprovação pela Câmara Municipal de Gaia de novas normas para construção de espaços verdes tudo será, no entanto, mais fácil, na medida em que se passará a privilegiar o uso de espécies vegetais autóctones, melhor adaptadas ao nosso clima e, portanto, de mais fácil manutenção. O primeiro grande espaço verde de Gaia em que se começou a trabalhar foi o Parque de S. Caetano em Vilar do Paraíso, com cuja Junta de Freguesia o Parque Biológico assinou um protocolo, no passado dia 26 de Março; este espaço verde está, já, a ser recuperado e passará a ter a conservação assegurada pelo Parque Biológico. Será mais uma peça da “Rota Verde dos Parques de Gaia” que, em breve, se alargará ao Parque da Ponte Maria Pia, Monte da Virgem e Senhora da Saúde.

As primeiras andorinhas
A 14 de Março chegaram as primeiras andorinhas ao Parque Biológico; se é bem verdade que “uma andorinha não faz a Primavera”, o certo é que, após um Inverno bem chuvoso e ventoso, a observação destes dois primeiros migradores transaarianos nos indicia o reinício de um novo ciclo de vida. Os campos enchemse de cantos das aves, os ralos e os saposparteiros já se ouvem à noite, e as rãs alegram os lameiros e presas. As árvores caducifólias mais temporãs já têm folhas novas e os carvalhos em breve estarão cobertos com o seu manto verde, sob o qual as violetas e as prímulas selvagens já estão em flor. Por todo o Parque Biológico correm láparos já nascidos este ano, os melros já tiveram a primeira ninhada e no Estuário do Douro os patos-reais já têm ninho. É o grande festival anual da natureza que começa. Bem-vindas, andorinhas!

Sector Municipal de Espaços Verdes
Desde 1 de Janeiro de 2010 que a empresa municipal Parque Biológico de Gaia voltou a ser responsável, por delegação do Município

Parques e Vida Selvagem Primavera 2010 • 5

6 OPINIÃO

Por Luís Filipe Menezes Presidente da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia

As árvores nem sempre morrem de pé
As novas orientações para os espaços verdes que estamos a desenvolver em Gaia visam conseguir jardins e parques ambientalmente mais sustentáveis e com menores custos de instalação e manutenção, aspecto muito importante num tempo em que é necessário apelar a todas as formas de economia e poupança
A escolha adequada das espécies vegetais é o primeiro passo dessa mudança: plantas bem adaptadas ao clima local significam uma enorme economia de água de rega (recurso caro, nas cidades), uma maior sobrevivência das árvores e arbustos e um menor trabalho de manutenção. Outro aspecto fundamental é a adequação das árvores dos arruamentos ao espaço aéreo disponível para a sua copa se desenvolver naturalmente, e de espaço no solo, suficiente para as raízes se consolidarem e garantirem a subsistência e a segurança da árvore. Erros do passado levaram a tentar corrigir situações com podas violentas que danificaram as árvores, sujeitaram-nas a doenças e perdas de equilíbrio que, em muitos casos, provocaram a sua queda, por vezes com consequências fatais para pessoas, como recentemente aconteceu em Paredes, na Galiza e noutros locais. Em Gaia também tivemos inúmeros casos de queda de árvores e ramos quando, em 27 de Fevereiro passado, o ciclone “Xynthia” passou por Portugal; felizmente, apenas com danos materiais. Para prevenir futuros acidentes o Município de Gaia está a fazer uma intervenção em todo o arvoredo público, removendo árvores em risco de queda para as substituir, na próxima época de plantação, por novos exemplares adequados ao local. A primeira grande intervenção ocorreu no Parque de S. Caetano, em Vilar do Paraíso, cujas árvores tinham sido violentamente afectadas pelo referido temporal. Esta acção foi publicamente mostrada no dia 26 de Março, como forma de comemorar o Dia da Árvore, ao mesmo tempo que se iniciava a recuperação deste espaço verde de lazer, que passa a ficar integrado na “Rota Verde dos Parques de Gaia”. Outras intervenções de poda e abate de árvores aconteceram já no Largo do Meiral (Canidelo), no Jardim do Candal (Santa Marinha), em Arcozelo, Gulpilhares e na Afurada e outras vão ter lugar em breve, nos jardins da Cooperativa Tripeira, em Canidelo, na Freguesia de Canelas, e noutros locais onde tal se justificar. Queremos aumentar o número de árvores nos espaços públicos de Gaia, como este ano iremos fazer junto à Câmara, mas queremos fazê-lo garantindo a segurança de pessoas e bens.

6 • Parques e Vida Selvagem Primavera 2010

VER E FALAR 7

Ano X - N.º

30 - 22 de

Dezembro

2009 a 21d e

Março 201 0

Piscos de condomínio
Por e-mail ou carta, os leitores da revista fazem-nos chegar o seu comentário...
Em Ponte da Barca, Alfredo Tomás deparou com a anterior edição da revista em 23 de Janeiro e ligou-a logo a um fenómeno que estava a ocorrer no seu prédio. Prontamente enviou uma mensagem de correio electrónico: «Saudações amigas para todos vós. Antes de mais deixem que me apresente: o meu nome é Alfredo de Sousa Tomás, tenho 67 anos e vivo em Ponte da Barca. O que me leva a contactar-vos (e esta é a terceira tentativa pois não obtive resposta de duas outras organizações) é a situação pouco vulgar (assim creio) que estou a viver. Vivo com minha esposa no último andar de um edifício de quatro pisos, de certa maneira sossegado (10 pessoas em todo o prédio). Há cerca de dois meses comecei a ouvir regularmente o canto de um passarinho que me parecia vir de dentro do prédio. Achei que talvez fosse algum pardal que tivesse entrado pela clarabóia e não conseguisse sair, mas não pude confirmar porque não vi nenhuma ave. Verifiquei há dias para espanto meu que uma pequena ave de peito alaranjado fazia o ninho em cima de uma caixa dos telefones que fica por cima da porta do elevador e junto ao tecto. Vi fugazmente o passarito que me pareceu um pisco-de-peito-ruivo. Dias depois observei o casal que me pareceu adaptado à minha presença. Infelizmente ainda não tive oportunidade de os fotografar e até filmar. No entanto sei que trabalham afincadamente porque o ninho cresce a olhos vistos e todos os dias aparecem no chão pequenos pedaços de ervas secas e musgo revelando as suas idas e vindas. Exposta a situação, apelo aos vossos conhecimentos para que me elucidem quanto aos melhores procedimentos a adoptar, a fim de lhes proporcionar as melhores condições de nidificação. Serão efectivamente piscos-de-peito-ruivo? É comum este procedimento nesta espécie de aves? Poderão informar-me se há na nossa fauna outras pequenas aves com o peito alaranjado? Ficarei aguardando as vossas prezadas notícias. Antecipadamente grato, Alfredo de Sousa Tomás». A resposta seguiu: «Caro Senhor Alfredo de Sousa Tomás, recebemos o seu e-mail, que agradecemos. O ninho de que fala, pelas suas características, poderia ser de Pisco-de-peitoruivo, ou do Pisco-rabirruivo, se se considerarem só aves que nidificam em casas e têm alaranjado na sua plumagem; caso contrário, também poderia ser de Andorinha. Mas, visto que identificou os pais como Piscos-de-peitoruivo, parece não haver dúvidas. Não temos outras aves com peito ruivo que façam ninhos com essas características (e dentro de casas). O estranho é estarem a nidificar tão cedo; ainda estamos no Inverno! Quanto aos procedimentos a ter, julgo não haver nada especial, a não ser assegurar que o local por onde entram no edifício (janela aberta, fenda?) continua a dar-lhes passagem. Disponha. Nuno Gomes Oliveira

David Attenborough
Ricardo Rocha ao ver a nova revista enviou um e-mail: «Bom dia, acabo de ler a nova edição de “Parques e Vida Selvagem” e estou a escrever-vos para vos dar os parabéns por mais um excelente número! Fiquei particularmente emocionado com a vossa entrevista a sir David Attenborough, sem dúvida uma figura mítica para qualquer amante da natureza». Sucinta, Liliana Alves escreve: «Vocês são uma entidade fantástica pelo trabalho desenvolvido até à data! Cumprimentos».

Calendário
Em 7 de Fevereiro, Ane Bartlett sugere: «Gosto imenso da revista e parece que cada vez está melhor! As fotografias são espectaculares - já pensaram fazer um calendário com elas? Mas tenho uma crítica: alguns artigos são quase impossíveis de ler por serem imprimidos em branco por cima de azul e cinzento (pág. 20, 23, 40, 41). Nem todos os leitores são jovens!».

Pisco-de-peito-ruivo

Jorge Gomes

Ninho de rabirruivo

Ninho de pisco, em 23-1-2010

Pisco-rabirruivo

Parques e Vida Selvagem Primavera 2010 • 7

Pedro Andrade

Alfredo Tomás

8 OPINIÃO

Por Marco António Costa Vice-presidente da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia

Encostas do Douro vão ser parque natural
A marginal do Douro a norte da Ponte Maria Pia, no território de Vila Nova de Gaia, até Lever, vai ser transformada no Parque Natural Local das Encostas do Douro (PNLED)
Através do reordenamento espacial com valorização paisagística e medidas de preservação ambiental daquele espaço único, bem como com a construção e reabilitação de equipamentos diversos destinados à fruição pública e ao lazer e ainda pela manutenção dos espaços de valor natural e ecológico, a Câmara Municipal vai criar uma enorme reserva para o usufruto e qualidade de vida dos gaienses. Esta iniciativa foi estudada pelo Professor Luís Ramos, da UTAD (Universidade de Trásos-Montes e Alto Douro), e tem um plano geral de execução que se concluirá num prazo máximo de uma década. Prevê-se um investimento global de cerca de 58 milhões de euros; esta é mais uma prova das preocupações ambientais de um município que tem sabido compatibilizar o crescimento e a modernização do concelho com preocupações ambientais e com uma sustentada melhoria da qualidade de vida das suas populações. O Parque Biológico, o Parque das Dunas na Aguda ou a Reserva Natural Local do Estuário do Douro, são exemplos de uma atitude reconhecidamente exemplar por parte da Câmara, nestes domínios. No caso do PNLED, o território a ser intervencionado está dividido em quatro espaços: Vale de Quebrantões, Areinho de Avintes, Vale de Arnelas e Vale do Uíma. Cada uma destas unidades tem um plano de intervenção próprio, adaptado às condições existentes e com objectivos particulares. Para o Vale de Quebrantões estão previstos equipamentos para o lazer e desporto informal. Uma ciclovia e uma via pedonal a unir o actual cais ao Areinho de Oliveira do Douro serão as primeiras obras no local. Em Avintes avançará a requalificação urbanística do cais e edificado do Lugar do Esteiro, a criação de um Parque Rio com actividades de lazer e ainda a promoção da capacidade da agricultura biológica das diversas quintas da freguesia. No Vale de Arnelas a requalificação dos espaços desportivos existentes e o projecto de um equipamento para o desporto-aventura vão completar a intervenção nesta unidade, enquanto no Vale do Uíma, irão existir percursos pedonais, de bicicleta e de automóvel que irão interligar o património natural existente e assim permitir à população usufruir de uma natureza em muitos locais praticamente intacta e de enorme riqueza. O PNLED, além de exemplar em termos ambientais, é ainda a prova de que em Vila Nova de Gaia a coesão territorial é uma preocupação permanente da Câmara e que o investimento aplicado beneficia equilibradamente todas as populações do concelho.

8 • Parques e Vida Selvagem Primavera 2010

João L. Teixeira

CARTOON 9
Por Ernesto Brochado

NOTÍCIA

Dia da Árvore
Dia 26 de Março comemorou-se em Vila Nova de Gaia o Dia da Árvore de uma maneira diferente: iniciou-se a recuperação do Parque de S. Caetano, que engloba uma área de cinco hectares. Os trabalhos agora em curso incluem a desmontagem de árvores mortas, doentes ou que apresentam risco de queda, bem como a plantação de árvores de substituição, o ajardinamento da parte superior do Parque e a renovação do equipamento. Na ocasião celebrou-se um protocolo entre o Município de Gaia, o Parque Biológico e a Junta de Freguesia de Vilar do Paraíso, para a gestão e conservação do Parque de S. Caetano que passará a integrar a Rota Verde dos Parques de Gaia.

Parques e Vida Selvagem Primavera 2010 • 9

João L. Teixeira

10 FOTOGRAFIA

Dedaleira (Digitalis purpurea). Os filamentos da flor desta planta servem para reter o pólen transportado pelos insectos

10 • Parques e Vida Selvagem Primavera 2010

FOTOGRAFIA 11

Num outro mundo...
Macrofotografia da biodiversidade
Quando saímos para o campo somos atraídos pelos elementos mais relevantes da paisagem: árvores majestosas, borboletas que passam, aves que se dirigem ao ninho... Raramente nos detemos a observar o infinitamente pequeno. São milhões de minúsculas jóias, vegetais ou animais, que povoam o espaço por baixo dos nossos pés, o raminho ao lado do nosso rosto, ou a folha do carvalho altaneiro... Registar esse microcosmos em fotografia não é tarefa difícil se tivermos as ferramentas necessárias: uma câmara reflex digital, uma lente macro e um flash.
Texto e fotos Ernestino Maravalhas

In another world...
Macrophotography In most of our walks, we tend to see the big objects offered by the landscape: enormous trees, a large butterfly passing nearby or a bird returning to the nest... Only rarely, when we pause to stop and observe, do we see the tiny elements of the surrounding biodiversity. These are the small jewels that lie under our feet, the branches at our side, or the leaf of a tall oak... With an SLR camera, a macro lens and a good flashgun, it isn’t difficult to capture images of such small creatures.

Parques e Vida Selvagem Primavera 2010 • 11

12 FOTOGRAFIA

Dente-de-leão, Taraxacum officinale

Flores de hortelã, Mentha x pipperita

Um ano ao ar livre
Ao olharmos de perto o mundo que nos rodeia encontramos coisas inesperadas: animais minúsculos, pequenas plantas e flores apenas visíveis à lupa. Seja qual for a época do ano e o local em que nos encontramos, a diversidade biológica é imensa. Nos meses mais frios, focaremos a nossa atenção na manta-morta, composta por folhas de caducifólias, sob a qual encontraremos invertebrados em hibernação, um bom tema para fotografar. Se passearmos por um bosque, poderemos encontrar fungos nos lugares mais húmidos. Com a chegada da Primavera a paisagem enche-se de cores e sons: um mar de flores cobre os campos e o omnipresente

zumbido dos insectos é música para os nossos ouvidos... Se nos detivermos na bicharada miúda, veremos o nosso esforço compensado: milhares de pequenas lagartas, coloridas e de formas bizarras, escondemse debaixo das folhas ou no pé das plantas. A maioria delas é nocturna para evitar os predadores. As plantas em flor atraem nuvens de insectos, sempre irrequietos na sua função de polinizadores das plantas com flor. O solo fervilha de vida e abriga animais que nele vivem, numerosos e coloridos. Após os rituais de acasalamento, os insectos põem inúmeros ovos. Para os encontrar será necessária muita paciência e alguma sorte. Fique o caro leitor atento às fêmeas de borboletas, pois é relativamente fácil vê-las a pôr ovos.

O Verão
Com a subida da temperatura, o número de animais e de plantas vai aumentando. Em Junho poderá encontrar mais de 70 espécies de borboletas, em especial nas zonas montanhosas. Nos dias de calor, procure linhas de água ou lagoas, patrulhadas por dezenas de machos de libélulas. Em charcos pouco profundos pode encontrar anfíbios, que procuram fugir ao calor. Em terra firme esteja atento aos muros velhos, onde crescem líquenes e musgo e onde se escondem sardaniscas e outros répteis. Nos prados os insectos abundam. Esteja atento aos coleópteros florícolas e aos saltitantes gafanhotos. A Natureza é como uma máquina complexa em constante movimento.

Borboleta-mosquito, Pterophoridae

Laccaria amethystea

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Lagarta com 1 cm, Lasiocampa quercus

Ovos da borboleta tartaruga-grande, Nymphalis polychloros

2010: Ano Internacional da Biodiversidade
Caro leitor, este ano não fique em casa e leve a sua família à procura de temas para fotografar. Após algumas horas de passeio, poderá fazer numerosas fotos e contribuir para o conhecimento dos seres vivos que habitam o nosso país. O Tagis - Centro de Conservação das Borboletas de Portugal e o CIBIO (Universidade do Porto) recolhem informação biológica muito importante para o conhecimento da distribuição dos animais. As suas observações serão valorizadas pelas fotos que servirão de apoio à identificação das espécies encontradas e contribuirão

para a sua conservação. Recordo que em Portugal há cerca de 20 mil espécies de invertebrados. Procure-os em locais com o coberto vegetal em bom estado, onde a diversidade é maior e pode encontrar uma espécie rara. Ensine aos mais novos a importância dos organismos pequenos, que, apesar do reduzido tamanho, são um importante elo da cadeia alimentar. Quando o Inverno chegar não guarde o equipamento. Saia para o exterior, pois há muitos animais escondidos, mas, com um pouco de persistência, conseguirá encontrálos.

Equipamento
Para fotografar animais de pequeno porte ou fazer fotografia de proximidade é necessário dispor de uma câmara com capacidade para macrofotografia. Uma “bridge” seria a ideal para começar. Se pensar em dedicar mais tempo à fotografia, poderá optar por uma câmara do tipo SLR, à qual poderá adicionar uma lente e um flash macro. Um tripé e um comando ajudá-lo-ão a conseguir fotos em locais pouco iluminados ou em dias nublados. Se quiser fazer microfotografia, a lente Canon MP-E65 permite uma ampliação de imagem até 5X (8X no formato APS digital). A maioria das fotos deste artigo foi realizada com esta lente, que permite registar detalhes que dificilmente seriam percebidos pelo olho humano.

Lagarta de cauda-de-andorinha, Papilio machaon

Lagarta de borboleta-axadrezada, Melitaea deione

Parques e Vida Selvagem Primavera 2010 • 13

14 FOTONOTÍCIAS

Albano Soares

Ouriço-cacheiro em hora de ponta
Deparar com um animal noctívago que aparece sobretudo a partir da Primavera no último dia do ano passado, em pleno trânsito citadino, configura um fenómeno singular. «Acordei cedo e saí para a rua», conta-nos Albano Soares, fotógrafo da natureza: «A cidade mostrava sinais de mais uma noite de tempestade». Com o ar limpo de poeiras, apetecia caminhar um pouco. «O trânsito estava caótico como de costume», mas «quando passava diante de um supermercado, a minha namorada alerta-me para algo que corria na berma da rua». Aproximou-se e, «para minha surpresa, deparo com um ouriço-cacheiro». Com a ajuda de um saco de plástico, que serviu de luva para as mãos e as protegeu dos picos, este animal foi resgatado a uma morte certa. Mais curioso, contudo, é que, «como que por gratidão ou susto, o ouriço-cacheiro não mostrou nenhuma resistência à captura, e contrariamente ao que é normal nesta espécie quando em perigo, não se enrolou para proteger o ventre», parte em que é mais vulnerável. Deixá-lo ali, entre automóveis, não era opção. Desajustado, decidiu levá-lo para casa: «Quando chegou, comeu avidamente a ração da minha cadela, acompanhado de um pires de leite». No dia seguinte foi entregue ao Centro de Recuperação do Parque Biológico de Gaia, que avaliou a saúde deste animal selvagem, até que o libertou em local capaz de oferecer a sobrevivência a um dos pequenos mamíferos selvagens da fauna lusitana que ainda existem nos subúrbios. Por falar em ambiente urbano, começa a perfilar-se uma ideia pouco esperada: será que os ouriços-cacheiros se estão a adaptar às cidades? Terão estes deixado de hibernar face à oferta de um ambiente citadino mais tépido? Nesse caso, o nosso ouriço, omnívoro, estaria a sobreviver à base de restos de alimentos, ou partilharia um prato de cão ou gato das redondezas... Há um corolário de estudos em curso sobre questões desta ordem um pouco por todo o mundo, mas os esquemas de sobrevivência da vida selvagem que nos rodeia ainda são um segredo bem guardado. Se os humanos quiserem desvendá-los, terão ainda de palmilhar muito caminho. Num planeta em mudanças aceleradas, estes mamíferos peculiares, cujos pêlos através da evolução se transformaram em espinhos, deixam-nos a garantia de que não querem ver na sua espécie o terrível carimbo da extinção. Texto: JG

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FOTONOTÍCIAS 15

Qu Quelíceras

Macho

Fêmea

Formiga ou aranha?
Myrmarachne formicaria (De Geer, 1778)
A aranha Mymarachne formicaria pertence à família Salticidae, cujas espécies se caracterizam por possuírem quatro grandes olhos na parte frontal do cefalotórax, corpo compacto e pernas curtas. Ao contrário dos insectos, que possuem cabeça, tórax e abdómen separados, nas aranhas e restantes aracnídeos, cabeça e tórax encontram-se fundidos, formando o cefalotórax. Esta aranha saltadora é especial: mimetiza quase na perfeição uma formiga, tirando assim proveito da maioria dos animais considerarem as formigas animais perigosos e/ou pouco apetecíveis enquanto alimento. Para o conseguir, esta aranha de 6 mm de comprimento possui uma constrição no cefalotórax. Esta característica, aliada à coloração mais escura da região ocular, confere-lhe o aspecto de possuir cabeça e tórax separados. Para completar o efeito, uma constrição no abdómen torna-o semelhante ao abdómen segmentado das formigas. Desta forma a aranha parece possuir o corpo dividido em três partes, tal como uma formiga. As modificações comportamentais desta aranha são igualmente complexas e fascinantes. De forma a imitar na perfeição a locomoção das formigas a aranha M. formicaria desloca-se com o primeiro par de patas levantado, imitando assim as antenas de uma formiga. Adicionalmente esta aranha caminha nervosamente pelo substrato como qualquer formiga sempre apressada! Isto é particularmente relevante pois as outras aranhas saltadoras deslocamse dando pequenos saltos, enquanto esta espécie apenas o fará se se sentir em perigo, revelando assim a sua verdadeira natureza. Existem pelo menos cinco outras aranhas saltadoras em Portugal que também imitam formigas, dos géneros Leptorchestes e Synageles. Os machos adultos de M. formicaria distinguem-se facilmente das restantes espécies: possuem quelíceras muito longas que representam até 30% do seu comprimento! Estas estruturas, situadas à frente dos olhos e com as quais as aranhas injectam veneno nas presas, têm nos machos desta espécie o papel das armações nos veados: os machos usam-nas para medir forças entre si, abrindo-as e alinhandoas, e assim assegurando o direito a acasalar. A aranha M. formicaria pode ser encontrada em quase toda a Europa e Ásia. Em Portugal esta espécie é conhecida apenas a Norte do rio Tejo, conhecendo-se apenas três outros registos. Esta aranha foi encontrada no Parque Biológico de Gaia em 2008, tendo sido avistada nos meses de Abril e Maio de 2009 com maior abundância, altura em que foram encontrados quase 20 indivíduos. Texto: Pedro Sousa (CIBIO-UP) Fotos: J. M. Grosso-Silva (CIBIO-UP)

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16 FOTONOTÍCIAS

Vida amorosa complicada
Se visse estas moscas na areia, a primeira coisa que faria seria dar-lhes uma sapatada, não? Bem, Rui Andrade foi diferente: olhou bem para elas, focou, fotografou. Depois mostrou-as a outros peritos. Parecia-lhes uma já conhecida, de Marrocos, mas, afinal, tratava-se de uma espécie nova para a Ciência...
Quando há dois anos Rui Andrade se deslocou às dunas da Apúlia encontrou, entre outros insectos, «dois espécimes de uma pequena mosca de dois milímetros». Com um frasco, recolheu-as para estudo. Obtidas algumas fotografias, «enviei-as a um especialista, Lorenzo Munari, que suspeitou tratar-se da espécie Tethina pictipennis, uma espécie descrita em 1996, de Marrocos». Se esta hipótese fosse confirmada seria uma nova espécie para a Europa. Enviados alguns espécimes para Lorenzo, e após serem analisados, surpresa! Não se tratava da tal mosca de Marrocos mas sim de uma nova espécie ainda por descrever… Feito o trabalho de casa, «a espécie foi descrita em 2009 por Lorenzo Munari, por mim e por um colega entomólogo português, Jorge Almeida, com o nome Tethina lusitanica, em honra do país em que foi encontrada», explica Rui Andrade.* Esta mosca também se observa no Parque de Dunas da Aguda e tem um «comportamento divertido». Parecem bailar: «Os machos em competição realizam movimentos estereotipados que podem ser comparados a uma dança. Estas danças são realizadas sempre entre dois machos e consistem alternadamente por dois movimentos diferentes. Um desses movimentos consiste numa série de empurrões que cada um dos oponentes realiza com a zona lateral do corpo, enquanto ao mesmo tempo ambos entreabrem as asas pintalgadas». E salienta: «Aliás, esta última característica, as manchas nas asas, apenas está presente em Tethina lusitanica e Tethina pictipennis dentro de toda a família à qual pertencem, Canacidae, e são uma adaptação à vida na areia, ajudando a criar um mimetismo muito eficaz». Pois! Como se compreende, as moscas estão longe do topo da cadeia alimentar: «No outro movimento típico o par toca repetidamente com as extremidades das suas patas dianteiras nas do outro, numa luta em que os oponentes parecem querer mostrar ao rival que são maiores, fortes e merecedores de voos mais altos na “corrida” pela transmissão dos seus genes às gerações futuras». Com humor, Rui remata: «Pelos vistos até as moscas têm vidas amorosas complicadas: observei uma ocasião uma espécie de “ménage à trois” não consensual, em que um macho se encavalitou sobre um par de namorados segurando com a sua genitália preênsil (!) a perna posterior do rival». «Outro aspecto curioso do seu comportamento relaciona-se», refere, «com a pouca disponibilidade desta espécie para realizar voos longos, ficando-se apenas por curtas incursões aéreas quando se sente verdadeiramente ameaçada. Os ventos fortes que habitualmente se fazem sentir no litoral podem ter sido um impulso importante para a evolução deste comportamento». É mais fácil ver a espécie nos dias de sol primaveris e outonais, quando a vida frenética dos adultos pode ser seguida. Ainda «falta descobrir muita coisa acerca do ciclo de vida destas pequenas pérolas das dunas», diz e continua: «As fêmeas depositam os seus ovos na areia, mas ainda não se sabe bem de que se alimentam as larvas. É provável que se alimentem da microscópica película de microrganismos que cobre os grãos de areia». Em Abril de 2009, durante a realização de um trabalho com insectos no Parque de Dunas da Aguda, registou-se a presença desta espécie no local, enriquecendo com um endemismo português a fauna deste parque. Na internet, Youtube, estão vários vídeos desta espécie: http://www.youtube.com/user/ tethinaportugal. Fotos: Rui Andrade Texto: JG
* Lavori - Soc. Ven. Sc. Nat. - Vol. 34: 123-126, Venezia, 31 gennaio 2009

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Concurso de fotografia
Quem sabe se uma das seis fotografias com que pode concorrer é capaz de seduzir o júri e ganhar um dos prémios apontados pelo regulamento?
O concurso nacional de fotografia da natureza que leva o nome desta revista é lançado mais uma vez nesta Primavera. Se quiser saber todos os pormenores e concorrer, deve retirar o regulamento e a ficha de inscição a partir da internet, indo a www.parquebiologico.pt. Uma vez aí, há que procurar o item Actividades e, depois, Fotografia da natureza. Os prémios abrangem equipamento fotográfico no valor de mil euros, nomeadamente para o trabalho distinguido na vertente de Arte Fotográfica (artística), seguindo-se outro prémio, este na vertente de Registo Documental, a que corresponde equipamento fotográfico no valor aproximado de 250 euros. Há ainda o prémio Júnior, que se destina a jovens concorrentes, até aos 15 anos de idade, sendo estes completados até ao próximo dia 31 de Dezembro. Os trabalhos a concurso têm de entrar até 30 de Setembro no formato 20 por 30 centímetros em papel fotográfico. Sendo o júri renovado em cada edição, seleccionará alguns dos melhores trabalhos, sendo estes expostos em 6 de Novembro, sábado. Antes dessa data, os premiados serão divulgados no site do Parque Biológico de Gaia. Na edição do ano passado deste concurso, o júri analisou 639 fotografias de 126 concorrentes. Todos os anos varia a composição do júri. A fotografia da natureza é uma das formas de dar a conhecer o património natural do país, fazendo com que daí derive uma maior compreensão no sentido de o conservar.
Jorge Casais

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18 PORTFOLIO

Metamorfose
Basta-lhe o ínfimo tamanho de cinco centímetros, sendo adulto, para impressionar quem com ele depara. O que não é frequente, dado os seus hábitos crepusculares e nocturnos, mesmo que viva num parque ou num jardim perto de si... Mas quando ocorre um encontro imediato, à primeira vista, um olhar pouco experiente ergue a pergunta inevitável: será um juvenil de sapo-comum? Peremptórios, dizem que não os que estudam este sapo-parteiro, Alytes obstetricans. É apenas uma entre a dezena de espécies de sapos, rãs e relas do património natural português. Entre vários talentos, um distingue os machos deste sapo-parteiro: carregar os ovos às costas. Pode fazê-lo durante mais de um mês, período em que zela pelo seu bom desenvolvimento. Terminada essa fase, o progenitor procura um charco e aí permanece até à eclosão da postura. Este pequeno anfíbio, sem saber, desarma pontos de vista tradicionais: ora diga lá se não há pais capazes de bater o pé às mães nos cuidados que dedicam à prole?
Fotografias: Albano Soares, Texto: Jorge Gomes

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PORTFOLIO 19

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20 QUINTEIRO

Jorge Gomes

As sardaniscas são pequenos répteis que enriquecem a diversidade do seu jardim

Um casal de chapim-carvoeiro fez ninho num dos muros do Parque Biológico

Como vai a biodiversidade do seu jardim?
A Primavera é uma das melhores épocas do ano para estar atento à diversidade biológica do seu quintal, permitindo-lhe incentivar a natureza e retirar daí o prazer simples de a observar perto de si
Se tiver gosto e lhe apanhar o jeito, vai divertirse e aprender ao observar a natureza no seu quinteiro. Mas não meta na gaveta as suas notas, seja sobre comportamentos dos animais selvagens que observa seja sobre outros itens desta área. Dê-nos notícia disso, crie um blogue ou algo idêntico na internet e alinhe ali com datas o que vai vendo em matéria de flora e fauna. Se todos os jardins tivessem o cuidado de apoiar a vida selvagem, independentemente desta ser migradora ou não, dando-lhe ali abrigo e algum alimento, os corredores verdes que escasseiam e que favorecem o património que é a diversidade biológica surgiriam mais consolidados. Comida e abrigo são duas das vertentes mais eficazes para atrair a vida selvagem. É por isso que, com frequência, aquilo que consegue ver no seu quintal reflecte o ambiente que o envolve. Se mora numa área com hortas e campos, poderá encontrar um dia a rastejar pela sua garagem uma salamandra-de-pintasamarelas, um sapo ou até uma enérgica doninha à procura de presas. Se habita perto de um bosque, as aves que o adoptaram podem visitar o jardim mediante o que tiver ali capaz de as atrair. No seu alimentador para aves selvagens, será capaz de ver um pica-pau ou até um esquilo a fazer contas de como há-de encher o papo com comida fácil. Com base nisso, as plantas que escolheu para este seu espaço verde irão determinar a maior ou menor atractividade perante os animais selvagens. O princípio é este, em qualquer parte do mundo: as plantas autóctones são as melhores. Folhas, flores e bagas ou frutos, eventualmente, são motivos de grande interesse para insectos, aves e mamíferos. Agora que estamos na Primavera, se tiver um lago no seu jardim com uma abordagem propícia a anfíbios, não será difícil encontrar girinos, a não ser que tenha ali peixesvermelhos, cuja dieta omnívora inclui os seus ovos e girinos. Provavelmente são de sapo-comum, cuja distribuição e abundância é grande. Mas a verdade é que também poderão ser de sapoparteiro, e de permeio encontrar larvas de salamandras e tritões... que um novo muro de pedras empilhadas, como antigamente se fazia nos campos da aldeia, está a criar nichos num habitat rupícola para plantas espontâneas e uma fauna interessante, nomeadamente pequenos répteis, aves de nidificação cavernícola, tocas para anfíbios, invertebrados, que de outra forma ou não apareceriam ou teriam uma população bem mais escassa. Entre as plantas que se alojam nestes muros rústicos há várias muito bonitas: a avenquinha, os conchelos ou umbigos-de-vénus, as saxífragas com a sua flor branca, entre outras. Nessa multidão de equilíbrios variados entre tantos seres vivos, poderá encontrar durante o período de luz diurna inúmeras histórias, desvendar comportamentos que os animais selvagens não mostram quando sabem que estão a ser observados, ou então vir a conquistar a sua confiança e, logo na primeira fila, olhar a marcha garbosa de um macho de sardanisca dominante, das datas de surgimento das crias, e depois virar o capítulo das suas observações para outros cenários e personagens que passavam invisíveis pelo seu quotidiano.

Moradas verticais
Em cada estação do ano há mudanças, existe inclusive o turno da noite e do dia. Algo tão simples como um dos muros do seu jardim pode ser adaptado e trazer um grande contributo à biodiversidade. Por questões várias, os muros são lisos, feitos de blocos de cimento. Ao longo dos anos, pouco mais consegue viver ali do que um tímido musgo ou líquen. Por outro lado, se fizer na face interior como

Jorge Gomes

Sol-posto
Quando o astro-rei se põe, enquanto os animais que está mais habituado a ver recolhem a sítio seguro para dormir, outro turno se agita.

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QUINTEIRO 21
How is the Biodiversity of your garden?
Spring is one of the best times of the year to become aware of the diversity of Nature to be found in your own backyard, allowing you to encourage Nature to develop and grow and to simply to appreciate it. Try to observe and record the details in your garden.

Um alimentador de aves selvagens pode ser assaltado pelos esquilos, caso os haja nas redondezas

João L. Teixeira

Vá registando os dados do seu jardim
Ninhos
Tome nota das caixas-ninho ocupadas esta Primavera, mas não descure outros sítios onde espontaneamente as aves do seu jardim fazem ninho. Deve recordarse também dos ninhos que as árvores despidas de folhas no Inverno revelaram. Serão reocupados?

Pequenos répteis
Uma vez por mês, anote os répteis que consegue observar no seu jardim. Como gostam de aquecer ao sol, ao início da manhã, não são dos animais que mais se escondem, mas uma vez quentes, ganham maior mobilidade.

Insectos
Jorge Sousa

As andorinhas-das-chaminés são aves migradoras insectívoras que poderão visitar o seu jardim

Restrinja de início este grande grupo a alguns itens mais acessíveis: pirilampos, libélulas, borboletas e abelhas em geral.

Há inúmeros insectos activos de noite e há outros seres que se alimentam deles. Há diversas espécies de morcegos que se adaptaram à cidade, e todas as noites lá estão eles a alimentar-se de insectos voadores nocturnos. Pelo jardim, no solo, poderá andar um ouriço-cacheiro em busca de petiscos, assim como um sapo.

Todas estas dicas, quando aplicadas, serão capazes de lhe mostrar esse seu espaço de uma forma diferente, mais rica e abrir-lhe janelas para um mundo próximo, porém, apelativo. Texto: Jorge Gomes

Anfíbios
Escolha uma noite duas vezes por mês e dê uma olhadela ao seu jardim para contar em 15 minutos as espécies e espécimes de anfíbios que consegue ver. Veja as fichas que fizemos para si em: www.parquebiologico.pt/Revista

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22 CONTRA-RELÓGIO

Jorge Casais

Uma biodiversidade sem interesse?
Uma palavra difícil, nova, que pouco tem a ver com a vida do dia-a-dia: biodiversidade. Nem isso é assim nem tão-pouco há bichos inúteis...
A diversidade biológica engloba toda a vida, na sua variedade, nas suas inter-relações e nos ecossistemas e habitat em que se sustenta. Quando come uma maçã ou saboreia um arroz de cabidela está a beneficiar da existência dessa mesma biodiversidade. Tanto dependemos todos dela a cada instante que o próprio acto de respirar, mesmo inconscientemente, é uma benesse oriunda de um elemento que se esconde por trás dessa palavra complicada: o oxigénio vem das plantas, estejam elas em terra ou no mar, sejam pequenas ou grandes. Inúmeros medicamentos são produzidos a partir de substâncias presentes noutros seres vivos. Já ouviu falar da aspirina: o ácido salicílico foi extraído inicialmente de uma árvore pela qual já passou, mas à qual não deu muita importância: o salgueiro. O teixo é uma árvore de crescimento lento capaz de produzir químicos que ajudam no combate ao cancro; como não abunda, não é uma solução para o presente. A penicilina deriva de um fungo, mais precisamente do bolor que vê numa pão impróprio para consumo e perante o qual mais não faz do que torcer o nariz. Mas a biodiversidade tem uma fronteira mais alargada ainda: dentro de uma só espécie há mais recursos se a variabilidade genética for grande, o que tende a ocorrer, é evidente, quantas mais populações houver dessa espécie. «Pronto, está bem. Até consigo perceber isso», dirá, «mas bichos há que mais valia não existirem!». Desse ponto de vista serão bastantes. Assim de repente, deve estar a pensar em moscas, que disseminam doenças; talvez em aranhas; quiçá em abelhões, que nem são abelhas melíferas; e até em minhocas...

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CONTRA-RELÓGIO 23

Biodiversity
Biodiversity is a new word to most of us and is perhaps at first, difficult to understand. Many people think it has very little to do with every-day life. This is not so! Neither are there any useless animals! The Ecosystem actively seeks out the cooperation of innumerable living creatures in order to function properly and to provide an invaluable service to human beings.
Miguel Teotónio José Alves Figueira

Os entomólogos, cientistas que estudam os insectos, não concordam nada com esse ponto de vista. E têm razão. As moscas, antes de serem como normalmente as vemos, são larvas. Várias dessas espécies prestam expressivos serviços ao ser humano. Imagine a quantidade de ratos que andam pelas cidades, assim como pombas assilvestradas, e tantos outros animais. Muitos morrem todos os dias sem nos apercebermos. As larvas de mosca funcionam como “coveiros”. Ao alimentarem-se desses cadáveres libertam os nutrientes para as plantas e evitam que inúmeras moléstias se propaguem ao ser humano. Na Grã-Bretanha há até uma associação preocupada, com toda a justiça, com o declínio das populações de abelhões no seu país: a Bumblebee Conservation Trust. Serão alienados? De certeza que não. Preocupam-se com algo importante para toda a humanidade: conservar espécies relevantes na fertilização das plantas. Árvores de fruto, colheitas e outros produtos

agrícolas, se fossem apenas polinizados pelo vento, produziriam muito menos, podendo até tornar-se desinteressantes para o rendimento do agricultor. Diz esta associação no seu site que as várias espécies de abelhão são importantes também para os prados e plantas selvagens em geral, sobretudo porque vão aparecendo ao longo do ano, à medida que as flores das várias espécies de flora também se vai sucedendo. Se não houvesse espécies polinizadoras, sector em que os insectos representam a fatia de leão, imagine o que era o Estado ou uma empresa estarem a pagar a operários, de pincel na mão, para andarem de flor em flor a misturar o pólen, afinal a mecânica básica da fertilização das plantas. Era a bancarrota! As aranhas, por sua vez, são animais que controlam outras espécies que, se não fosse a sua actividade, se tornariam pragas. É assim sempre que a uma maior disponibilidade de alimento se liga uma elevada capacidade de reprodução de alguma espécie.

E as minhocas? Raramente as vemos, imersas na terra. No entanto, são vitais para a produtividade de prados e campos. Na Escócia há quem esteja a braços com um problema titânico: a introdução involuntária, em vasos de plantas ornamentais oriundos da Oceania, de um verme exótico: um platyhelminthes carnívoro. Ao extinguir as minhocas num prado, este ressente-se e onde antes havia ricas pastagens para o gado, actualmente está um terreno incapaz de sustentar o que quer que seja. É um bom exemplo de como a introdução de espécies exóticas geralmente abate a biodiversidade. Por isso, quando seguir o habitual caminho de praguejar contra estes bichos, pense duas vezes: não é que precise de lhes agradecer, mas que eles fazem muito jeito, quanto a isso parecem não restar quaisquer dúvidas... Texto: JG

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24 DUNAS

Cordão dunar
As paliçadas e os passadiços são estruturas que existem para proteger as dunas, na verdade a primeira linha de defesa costeira face ao mar
Os passadiços suspensos permitem que o vento disponha a areia ao seu ritmo e impedem que as frágeis plantas das dunas sejam destruídas, o que acabaria mesmo por ocorrer se as pessoas passeassem por cima delas. As plantas das dunas têm em comum a característica de a maior parte da sua biomassa estar infiltrada na areia. A explicação vem da necessidade de reunirem nutrientes e humidade num meio pobre. É este facto que as torna fundamentais para a fixação das dunas. Quando estas se desestabilizam com a erosão, necessitam de apoio. As paliçadas têm a função de diminuir a velocidade dos grãos de areia transportados pelo vento, fazendo com que estes fiquem na duna. Isso facilita a colonização da duna pelas plantas. Estas paliçadas são aplicadas acima da linha das marés e imediatamente a seguir à linha de vegetação, de modo a que o mar não as destrua e que as plantas das imediações as colonizem. Salvaguardadas as distâncias, elas vivem no limite, quase como flora do deserto. Quando o mar se excede, há que o deixar acalmar e voltar a aplicar as medidas de protecção do ecossistema dunar. A estrada não está longe. Enquanto o mar enrola na areia, está a salvo, assim como as moradias. Parece ilusão, mas a realidade é que essas fímbrias de areia à beira-mar constituem uma das melhores formas — esta inventada pela natureza — de amortecer a violência das ondas quando as condições meteorológicas assim mandam. Havendo plantas nativas desses habitat, como acontece, mais estáveis ficam e quando o mar vem de lanço, a bramir, são elas que lhe neutralizam a energia e o param com eficácia. Bem vistas as coisas, se medirmos com

a mente a vastidão do mar, os seus limites nem oscilam por aí além. Até é bastante contido. O interesse de conservar as dunas não se prende unicamente com esse tipo de

Estuário do Douro
Dia 4 de Março surgiram as primeiras andorinhas-das-chaminés
Dia 6 foi observada a primeira poupa (Upupa epops) e dia 22 de Março registou-se a presença de uma nova espécie no estuário, a calhandrilha (Calandrella brachydactyla). Dia 6 de Abril apareceu a lavandisca-amarela (Motacilla flava), vinda de África. Mas é no período invernal que ocorrem no estuário as maiores concentrações de aves, ascendendo às seis mil aves, sendo de referir os grandes grupos de guinchos (Croicocephalus ridibundus), gaivota–depatas-amarelas (Larus cachinnans michahellis), gaivota-de-asa-escura (Larus fuscus graellsii/intermedius), o corvo-marinhode-faces-brancas (Phalacrocorax carbo) e a garça-real (Ardea cinerea). Entre as aves é justo destacar um grupo de espécies, as gaivotas, sem dúvida emblemáticas deste local pela sua forte presença, espectacularidade, simbolismo e importância. As gaivotas não passam despercebidas, nem aos menos atentos observadores; o plural não significa unicamente quantidade, mas acima de tudo a diversidade em espécies. Foi possível observar mais de uma dezena de espécies diferentes, representativas de todo o espectro de diversidade das gaivotas existentes na Europa, desde a maior gaivota do Mundo, o gaivotão (Larus marinus) à mais pequena, a gaivota–pequena (Hydrocoloeus minutus). Refira-se ainda a presença da gaivota-decabeça-preta (Larus melanocephalus), uma das gaivotas europeias com plumagem mais atraente, a cabeça com capuz preto, criando um contraste com o seu bico vermelho. Revela-se a ocorrência neste Inverno de bandos de maçarico-das-rochas (Actitis hypoleucos) ascendendo a cinco dezenas de indivíduos, revelando-se o estuário do Douro como uma das principais zonas de invernada desta espécie que é considerado um migrador de passagem pouco comum. Texto: Paulo Faria Foto: João L. Teixeira

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DUNAS 25

Lembrando “A Origem das Espécies”

Lavandisca-enlutada

segurança, vai bem mais além. Os vários tipos de dunas são espaços naturais defendidos pela Directiva Habitats emanada da União Europeia e vincula os países-membros.

João L. Teixeira

Alvéola-branca

o longo do mês de Fevereiro e até no início de Março foi possível observar no litoral de Gaia alguns indivíduos da lavandisca-enlutada (Motacilla alba yarrellii). Trata-se de uma subespécie que apresenta um padrão de plumagem que se distingue da alvéola-branca (Motacilla alba alba) comum no nosso país. A lavandisca-enlutada é oriunda de uma região específica do Norte de Europa, Irlanda, Reino Unido e zonas adjacentes (Noruega, Alemanha, Holanda Bélgica e Norte de França), surgindo no nosso país como invernante. Estas irrequietas lavandiscas nórdicas pouco vulgares ofereceram aos visitantes do litoral de Gaia que gostam de observar aves um interessante registo.

A

Estas observações também nos remetem para a história natural das espécies, para a sua diversidade e variabilidade que está presente no mundo que nos rodeia e se manifesta sempre que nos mantemos mais atentos. Relembremos, a propósito Charles Darwin referindo uma passagem da sua obra “A Origem das Espécies”: «Quantas aves existem (...), diferindo muito pouco entre si, que têm sido contadas, por um eminente naturalista, como espécies incontestáveis, por outros como variedades, ou então, como por vezes lhe chama, como raças geográficas» (in: “A Origem das Espécies” Capítulo II – Variação no estado selvagem). Texto: Paulo Paes de Faria Fotos: João L. Teixeira

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26 DUNAS

Parque de Dunas
O primeiro Regulamento Municipal de Parques e Áreas de Conservação da Natureza e da Biodiversidade do país foi apresentado em 11de Fevereiro no Parque de Dunas da Aguda
«Hoje, Gaia é um concelho-referência comprometido com novos patamares de exigência, virados para a sustentabilidade global», começou por afirmar Luís Filipe Menezes, presidente da Câmara Muncipal de Vila Nova de Gaia. Apesar da dificuldade de integrar políticas do ambiente em espaços urbanos, Menezes afirmou que «Gaia está na linha certa». Pelo Parque Biológico de Gaia, Nuno Gomes Oliveira definiu o presente regulamento como «um conjunto de regras que devem ser cumpridas: o Município colocou as questões ambientais no seu dia-a-dia através dos seus equipamentos», sendo exemplo disso a aposta na protecção das dunas: «Apesar da erosão ser um problema difícil, estamos preparados para o enfrentar». Constituindo parte integrante das comemorações do Ano Internacional da
Perpétua-das-areias, Helichrysum picardi

Biodiversidade, que se comemora em 2010, nesta cerimónia Menezes aplicou no Parque de Dunas da Aguda a primeira placa de sinalização destes parques municipais.

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DUNAS 27

Morrião-das-areias, Anagallis monelli

Morganheira-das-praias, Euphorbia paralias

Estorno, Ammophila arenaria

Já apreciou a flora das dunas?
As plantas das dunas dão as boas-vindas à Primavera. Dias mais longos e temperaturas mais amenas são como um clarim que faz com que as flores se perfilem. É nesta altura que quem gosta de natureza pode surpreender-se com as inúmeras espécies de flora dunar que povoam estes habitats. Inúmeros insectos alados e outros invertebrados com capacidade de voo aproveitam o maná e agradecem a sua existência ao longo das migrações. Se por um lado se alimentam do néctar produzido pelas plantas, fertilizando-as, eles próprios acabam por entrar na ementa de outras espécies de aves, répteis, anfíbios e até de pequenos mamíferos, seja no turno do dia ou da noite… Fotos: Henrique N. Alves

A Natureza e as suas surpresas
É difícil olhar para esta gaivota e pensar que é uma gaivota-de-asa-escura. Porquê? Porque é diferente e, sem dúvida, apresenta um novo “look”. Mas não se trata de maquilhagem nem intervenção cosmética de um novo estilo para este Inverno. Esta ave observada na Aguda no início de Fevereiro tem uma plumagem invulgarmente descolorida, que se designa de “esquizocroísmo” (não deve ser confundido com albinismo — o albinismo é um defeito genético que implica uma incapacidade do organismo sintetizar as melaninas, havendo uma despigmentação em todo o corpo). Normalmente este tipo de padrão cromático origina indivíduos mais ou menos “branqueados”, que contudo mantêm a pele e os olhos com a coloração normal. Esta caracteristica associa-se a uma alteração genética que se traduz na redução da concentração de melaninas sintetizadas pelo organismo na plumagem da ave (falta de eumelanina origina indivíduos de tons beges e a falta de feomelanina os tons cinzentos). Nas aves selvagens a alteração da cor, cujos padrões são estáveis a nível populacional, é normalmente pouco frequente, havendo poucos registos da ocorrência deste tipo de plumagens em animais selvagens, dado serem pouco comuns. Por Paulo Faria

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28 LITORAL

Figura 1 - Porphyra linearis

Figura 2 - Chondrus crispus

Figura 3 - Lithophyllum incrustans

Flora e fauna marinhas do Litoral
O litoral rochoso de Vila Nova de Gaia é um mundo único e fascinante. O seu espaço é minúsculo comparado com a imensidão dos oceanos mas a vida que o inunda pode ser surpreendentemente complexa
Nesta zona restrita de transição onde os limites do mar e da terra se confundem ao ritmo das marés, vivem algumas comunidades de animais e plantas muito produtivas e bem adaptadas às condições ambientais extremas. Nesta e nas próximas edições da revista Parques e Vida Selvagem vão ser apresentadas as principais espécies de flora e fauna marinhas da costa de Vila Nova de Gaia. termos de colonização, uma das algas mais características é Chondrus crispus (fig. 2). As poças-de-maré são colonizadas pelas algas calcárias Lithophyllum incrustans e Corallina elongata (fig. 3) que se estendem até ao sublitoral. Esta zona é também caracterizada pela alface-do-mar Ulva rigida, que pode formar cinturas densas (fig. 4). Na zona de barroeira (eulitoral inferior) as algas mais representativas e típicas são Mastocarpus stellatus (fig.4) e Codium tomentosum (fig. 5). A zona das laminárias (franja sublitoral) é caracterizada pela presença das grandes algas castanhas Saccorhiza polyschides e Laminaria ochroleuca, designadas por laminárias (fig. 6). Formam um autêntico bosque marinho, habitado por muitos seres vivos que, nestes abrigos da floresta, estão protegidos da luz solar e da força das ondas e do vento. Especialmente, nos órgãos de fixação, encontram-se algas de pequeno porte e pequenos animais como moluscos, caranguejos e até peixes. As microalgas bênticas do litoral rochoso são geralmente algas azuis-verdes, diatomáceas e flagelados, que formam colónias ramificadas ou um filme gelatinoso sobre o substrato ou outros organismos. Por Mike Weber e José Pedro Oliveira
Ulva lactuca

Flora
As macroalgas diferem bastante da vegetação terrestre, não apresentando raízes, caules ou folhas diferenciadas. No entanto, as formas mais desenvolvidas possuem estipes, frondes talosas e por vezes órgãos de fixação semelhantes a raízes, que prendem a alga às rochas. De acordo com os pigmentos dominantes, agrupam-se em algas verdes, vermelhas e castanhas (clorófitas, rodófitas e feófitas). No litoral rochoso, a distribuição das macroalgas é limitada pelos povoamentos de animais como cracas, mexilhões e a barroeira. Na zona das cracas (eulitoral superior) encontram-se as fitas de algas verdes do género Ulva e a rodófita Porphyra umbilicalis (fig. 1). Na zona de mexilhões (eulitoral médio) que se distingue bem da zona superior em
Figura 4 - Mastocarpus stellatus

Laminárias

João L. Teixeira

ELA - Estação Litoral da Aguda Rua Alfredo Dias, Praia da Aguda, 4410-475 Arcozelo • Vila Nova de Gaia Tel.: 227 536 360 / Fax: 227 535 155 ela.aguda@mail.telpac.pt www.fundacao-ela.pt

Figura 5 - Codium tomentosum

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João L. Teixeira

Parque da Lavandeira
A quinta da Lavandeira é uma antiga propriedade agrícola e de recreio que esteve vários anos ao abandono. Pertencendo agora ao Município de Vila Nova de Gaia, foi convertida no actual Parque da Lavandeira, que oferece diversas vertentes de lazer a quem a visita, nomeadamente um agradável percurso pedestre, zonas de merendas, jardins temáticos, mostras de artesanato e de arte. Os seus frequentadores já se habituaram a aproveitar as actividades que semanalmente se desenrolam neste parque, conforme constam da agenda. Os espaços verdes desempenham funções necessárias à qualidade de vida da população. Não é de estranhar por isso que se sucedam estudos de carácter científico capazes de assinalar resultados favoráveis à criação e manutenção dos parque públicos. Estudos realizados numa universidade holandesa concluem que visitar espaços verdes pode reduzir a incidência de doenças mentais na população, e não só: as doenças físicas mais comuns surgem menos nas pessoas que vivem perto destes equipamentos. São referidas doenças físicas mais comuns como depressão, ansiedade, problemas cardíacos ou até dores nas costas. Teles Araújo, presidente da Associação Nacional de Tuberculose e Doenças Respiratórias, disse à imprensa que os espaços verdes, se estiverem bem cuidados, contribuem para diminuir ansiedade e outros problemas, até pelo exercício físico que proporcionam, mas há outra componente a considerar na descrição dos benefícios, tais como a influência que têm no ar ambiente. As árvores retiram poluentes atmosféricos, poluentes produzidos por automóveis, por exemplo, e esses benefícios são medidos pelo menos no raio de um quilómetro à volta da zona habitacional da proximidade. O médico refere, contudo, que se está a referir apenas a espaços verdes bem tratados, que sejam factor de alegria e não de preocupação para as pessoas. Os leitores que queiram mais informações sobre o Parque da Lavandeira podem visitar o site www.parquebiologico.pt ou então simplesmente enviarem um e-mail para lavandeira@parquebiologico.pt

Agenda - Maio
Feira de Artesanato
Dia 9 de Maio, no horário de abertura do Parque da Lavandeira.

Yoga
A orientação é da responsabilidade da Dr.ª Luísa Bernardo, que proporciona a actividade em regime de voluntariado. Às quartas e sextas-feiras às 9h45.

Tai Chi
Com o Prof. Pedro Coelho, segundas e quintas-feiras, às 9h30.

Yoga aos sábados
Todos os sábados, aula de yoga entre as 10h30 e as 11h30. De Maio a Setembro.

Tai Chi ao domingo
No primeiro domingo de Maio, dia 2, realizase junto ao lago, entre as 10h30 e as 11h30, uma aula aberta a pais e filhos. Promovido de forma voluntária pela Associação Academia de Kung Fu Póvoa de Varzim - www.akfpv.pt.

As mulheres do campo vêm à vila
Aos sábados de manhã, venda de legumes sem pesticidas.

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Centro de recuperação
Logo de início, quem passear pelo percurso de descoberta da natureza do Parque Biológico de Gaia vê um pequeno bando de cegonhas-brancas num espaço relvado. Se observar bem, verá que algumas têm ar de quem está a recuperar. É que o Parque recebeu durante o ano passado várias cegonhas-brancas com diferentes origens. Chegaram do Centro de Recuperação da Ria Formosa, no Algarve, do de Monsanto, em Lisboa, e do Centro de Recuperação da Universidade de Trás-os-Montes e Alto-Douro, em Vila Real. Há agora um grupo de seis indivíduos «que pretendemos ver aumentado, até porque nem todas estão irrecuperáveis», informa Vanessa Soeiro, responsável pelo Centro de Recuperação do Parque, e continua: «Esperamos então que após uma muda de pena, a capacidade de voo seja recuperada em dois dos indivíduos e que estes possam ser vistos a sobrevoar o Parque». Talvez decidam não ir embora: afinal, «aqui têm comida, companhia e condições para nidificar». Falta agora saber qual será a sua decisão...

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Oficinas de Primavera
«A minha avó tem sete cães e 21 gatos», diz Diogo, de nove anos. Com uma dúzia de compinchas inscritos nas Oficinas de Primavera, metem as mãos à obra e preparam a ementa de diversos animais numa actividade chamada «Pequenos tratadores». Nesta manhã de 30 de Março, orientados por técnicos do Parque Biológico, conversam sobre os habitat dos animais selvagens e sobre os diferentes alimentos que estas espécies encontram para sobreviver. A atenção de Diogo roda sobre os colegas que cortam carapau às tiras enquanto Paulo Costa, tratador, explica as complexas ementas da fauna do Biorama, uma exposição que reconstitui algumas das grandes comunidades ecológicas do nosso planeta: Floresta tropical húmida, Savana, Deserto, Litoral dunar atlântico... Matilde e Sofia, mais novinhas, são tímidas, mas entram na faina que não deixa ninguém de fora. Entre hortaliça, fruta, grãos variados, farinhas granuladas e outros alimentos todos colaboram para depois entrarem, eles próprios, nos vários ambientes da exposição. Em pequenos grupos, com um técnico, primeiro penetram no pavilhão da floresta

Análise da mistura de grãos

Cultivo de orquídeas

tropical, onde um lindo mainá, asiático, um tanto descarado, não revela a timidez do íbis-escarlate, centro-americano, ou do tauraco-violeta, africano... Além desta actividade outras surgiram, como «Caça cores», «Omeletas sem ovos», «Troca de mimos», entre outras. Estas oficinas decorreram nas férias da Páscoa, havendo novas edições, no Estio, em Julho e Agosto.

Sob orientação, um grupo entra no espaço da Floresta tropical húmida

Nas tardes de 9, 10 e 11 de Abril decorreu no Parque Biológico de Gaia uma demonstração prática sobre formas de cultivo de orquídeas. Nesta iniciativa sortearam-se plantas pelos participantes e visualizou-se o documentário “Orquídeas, atracção fatal”, que se debruça sobre as técnicas naturais de multiplicação das orquídeas na natureza. Houve ainda lugar à venda de plantas com instruções simples no que toca ao seu cultivo.

João L. Teixeira

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Jorge Gomes

Jorge Gomes

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Fauna

novidades do Parque
Aranha-caranguejo-dos-carvalhos Diaea dorsata (Fabricius, 1777) A aranha-caranguejo-dos-carvalhos é uma aranha da família Thomisidae. As aranhas deste grupo possuem os dois pares de patas da frente muito robustos e compridos, facto que aliado ao comportamento frequente de se deslocarem lateralmente, lhes conferiu o nome de aranhas-caranguejo. Esta aranha de tamanho médio (nos adultos as fêmeas têm cerca de 6 mm e os machos cerca de 4 mm) apresenta uma coloração muito característica. As fêmeas adultas (na foto) e juvenis possuem cefalotórax e patas de cor verde-esmeralda e um abdómen com uma “mancha” acastanhada que ocupa quase toda a superfície dorsal, sendo o restante abdómen de cor amarela-pálida. Os machos adultos possuem coloração semelhante, embora mais escura. A aranha-caranguejo-dos-carvalhos possui um ciclo de vida bianual na Península Ibérica: os ovos eclodem no fim do Verão, passam o primeiro Inverno e o ano seguinte como juvenis, apenas alcançando a maturidade sexual na Primavera subsequente. Apesar da maioria das aranhas-caranguejo viverem

ao nível do solo ou em vegetação herbácea, sendo muitas espécies encontradas em flores, a aranha-caranguejo-dos-carvalhos prefere arbustos e árvores, onde captura as presas nas folhas, embora também possa ser ocasionalmente encontrada em vegetação herbácea. Trata-se de uma espécie com distribuição

Paleárctica, embora na Europa a aranhacaranguejo-dos-carvalhos seja mais comum a sul. Em Portugal esta espécie é pouco conhecida, existindo poucos registos, todos eles a norte do rio Mondego. Na Península Ibérica existe uma segunda espécie do mesmo género, de aspecto muito semelhante, que até à data não foi encontrada

Curso de maneio de asininos
Nos dias 26, 27 e 28 de Fevereiro realizouse no Parque Biológico de Gaia a 2.ª edição do Curso de Educação e Maneio de Asininos. A sessão de abertura iniciou-se com a apresentação do Parque pela voz de Nuno Gomes Oliveira. Seguiu-se a apresentação da Associação para o Estudo e Protecção do Gado Asinino (AEPGA) com Miguel Nóvoa, médico-veterinário, passando-se a uma breve apresentação que explicou quais os cuidados básicos a ter com os animais do Parque, por Hugo Oliveira, zootécnico. Durante a tarde abordaram-se vários itens, como os cuidados básicos, introdução ao maneio da saúde dos asininos e, por fim, a reprodução e cuidados neo-natais, com Miguel Quaresma, médico-veterinário na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro. Este ano tratou-se de um curso mais prático, na vertente da Asinoterapia com a presença Brigitte Wijnen, que nos mostrou um pouco do trabalho que realiza na Holanda, na Ezelstal Hans En Grietje. Foi uma experiência fantástica, interessante, vivida por todos os participantes, visto que o nosso burro “Horácio” ajudou com a sua simpatia imensa de sempre. Houve também uma demonstração prática por parte de Miguel Nóvoa sobre os cuidados básicos a ter com os burros e quais os utensílios utilizados nos passeios de burro. No final do curso os participantes tiveram uma oportunidade única de alimentar e interagir com alguns dos animais do Parque, como por exemplo gamos, cabras-anãs e, claro, o burro “Horácio”. Texto: Daniel Morais, técnico de Gestão do Ambiente

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ESPAÇOS VERDES 33 Que será isto?
João L. Teixeira

em Portugal. Apesar ser uma espécie razoavelmente comum no Parque Biológico de Gaia, a sua observação não é fácil uma vez que os indivíduos se refugiam na face inferior das folhas das árvores. Texto: Pedro Sousa (CIBIO-UP). Foto: J. M. Grosso-Silva (CIBIO-UP).

ace à generosa participação com que os leitores nos brindam neste passatempo, na presente edição colocamos uma espécie vegetal e outra animal. As fotografias publicadas serão sempre de vida selvagem que já foi observada dentro do Parque Biológico de Gaia. As respostas mais rápidas recebem como prémio um livro editado pelo Parque, desta vez a obra “Ecoturismo e conservação da natureza”, de Nuno Gomes Oliveira. Aqui vai o desafio: as fotografias desta planta e desta ave referem-se a que espécies concretamente? As respostas devem indicar um dos nomes vulgares reconhecidos ou, melhor ainda, o nome científico. Se na sua resposta acertar numa só de ambas as espécies, é igualmente considerada no ranking das mais rápidas. Envie-nos o seu e-mail (revista@parquebiologico.pt) ou carta (Parque Biológico de Gaia - Revista PVS - 4430-681 Avintes)! O prazo para as respostas termina em 15 de Maio de 2010. Os leitores já premiados em edições anteriores só o serão se não houver outra resposta certa (este item só é válido durante um ano a partir da atribuição do prémio). Quanto às duas fotografias publicadas na edição anterior, no que toca ao cogumelo, tratava-se de um mata-moscas, Amanita muscaria.

F

O anfíbio era uma rã-ibérica, Rana iberica. A primeira pessoa a acertar, no fungo, foi Clara Andrade que, em 23 de Janeiro, às 17h51, escreveu assim por e-mail: «Os cogumelos fotografados pertencem à espécie Amanita muscaria ou Amanita Mata-moscas, cogumelo alucinogéneo que pode ser mortal se ingerido em grandes quantidades». Por sua vez, a resposta mais rápida a identificar a rã-ibérica veio de Belarmino Ferreira, em 24 de Janeiro, às 14h52. Foi entregue a ambos os concorrentes o livro “Áreas de importância natural da região do Porto: memória para o futuro”, de Nuno Gomes Oliveira. E então: já sabe o nome destas espécies?

João L. Teixeira

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Jorge Gomes

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Noites dos Pirilampos
É como um ferrinho. Assim que o sol se põe, todos os anos estes insectos atraem ao Parque Biológico uma multidão de miúdos e graúdos: ninguém quer perder o espectáculo que a natureza proporciona nessas noites de Junho
Após uma explicação inicial no auditório, formam-se grupos para a visita guiada nocturna. Pede-se silêncio e atenção para que o grupo se mantenha coeso. Quando no ar se vêem as pequeninas luzes a piscar, a que se juntam outras e outras, a curiosidade não tremelica e segue em velocidade cruzeiro. Esta espécie, a mais numerosa, está na fase adulta, de reprodução, e os entomólogos dão-lhe o nome Luciola lusitanica. Não é a única. No Parque Biológico já foram observadas quatro das cerca de oito espécies que se conhecem no país. Durante a visita, vêem-se no percurso outras espécies, aparentemente em minoria, pelo menos nesta fase do ano: a Lampyris iberica, a Lamprohiza mulsanti, e um outro, diurno, o Phosphaenus hemipterus. A maioria destas espécies alimentam-se basicamente, enquanto larvas, de caracóis e lesmas. Mas, em equilíbrio, são predados por aranhas (foto), aves, musaranhos e outros pequenos animais. Grosso modo, o bem-estar do solo depende das plantas nativas. Se os herbívoros não forem controlados arrasam a flora. Vem daí a importância dos predadores que compensam perdas e ganhos. Este ano, as visitas nocturnas distribuem-se pelos dias 11 e 12 de Junho, continuando de 14 a 19, repetindo-se nos dias 21, 22, 25 e 26 do mesmo mês. Se quiser observar estes animais, acautelese: as visitas começam às 22h00 (reserva obrigatória) e a participação está sujeita a pagamento até 10 dias úteis antes da data que reservar. Veja os pormenores em www. parquebiologico.pt. Durante estas visitas, das 23h00 às 23h30, há também observações astronómicas. O self-service do Parque serve jantares (reserva obrigatória).

Agenda
Sábado no Parque
Todos os primeiros sábados de cada mês o Parque Biológico propõe um programa diferente e contempla os seus visitantes com várias actividades. Em de 1 de Maio, das 11h00 ao meio-dia, há o atelier «Anilhagem científica de aves selvagens». Às 14h30 decorre uma conversa sobre «A biodiversidade perto de si», seguindo-se uma visita guiada por técnicos da casa e percurso ornitológico. Em 5 de Junho o programa é idêntico, mudando o atelier à mesma hora para «Viver no campo», sendo a conversa do mês sobre «Biomas da Terra».

Eis algumas das actividades do Parque Biológico de Gaia a breve
Observação de aves selvagens no Parque de Dunas da Aguda
Das dez ao meio-dia, domingo, 2 de Maio, estará um técnico no Parque de Dunas da Aguda, para lhe mostrar as espécies de aves que se encontram no litoral.

Percursos de descoberta da natureza
Sábado, 15 de Maio, com partida às 9h00 e chegada às 18h00, visita ao planalto da Freita. Para ir antes tem de se inscrever.

Oficinas de Verão Campos de Verão
Destinam-se a crianças e jovens dos 6 aos 15 anos, em regime residencial e não residencial. O 1.º campo decorre entre 3 e 10 de Julho. O 2.º é de 17 a 24 de Julho. O 3.º campo vai de 31 de Julho a 7 de Agosto. E o 4.º ocorre entre 15 e 21 de Agosto (só para veteranos, 14/18 anos). Para crianças e jovens dos 6 aos 14 anos de idade, estas oficinas ocupam as semanas de 12 a 16 de Julho, de 26 a 30 de Julho, de 9 a 13 de Agosto, e de 23 a 27 de Agosto, com entrada diária às 9h00 e saída às 17h30. Inscrição necessária.

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Salão de fotografia
Ao longo do ano, em média de três em três meses, o Parque Biológico de Gaia expõe no seu salão de fotografia da natureza temas diferentes. Os trabalhos são temas escolhidos do Arquivo Fotográfico do Parque, já que estas exposições agregam sempre diversos autores. Em 2010, Ano Internacional da Biodiversidade, abriu no passado dia 6 de Fevereiro, às 15h00, uma mostra sobre “Cogumelos: uma fatia de biodiversidade”. Dia 3 de Abril, também sábado, foi a vez de surgir outro tema: anfíbios e répteis. Em 3 de Julho segue-se a exposição”Mamíferos selvagens”, que vai trazer à luz deste salão alguns animais nocturnos, como ouriços-cacheiros, raposas e muitos outros...

Rio Febros: estudo em curso
João Luís Teixeira

prazo que lhe poderão interessar...
Exposição de Fotografia sobre “Mamíferos selvagens”
Sábado, 3 de Julho, esta exposição abre às 15h00. Substitui a anterior, alusiva a «Anfíbios e répteis». Patente todos os dias até 29 de Outubro no horário de abertura do Parque.

Receba notícias por e-mail
Para os leitores saberem das suas actividades a curto prazo, o Parque Biológico sugere uma visita semanal a www.parquebiologico.pt. A alternativa será receber os destaques, sempre que oportunos, por e-mail. Para isso, peça-os a newsletter@parquebiologico.pt

Especial férias
De 26 de Julho a 10 de Setembro, todos os os dias úteis, pelas 15h00, disponibiliza-se uma actividade diferente no Parque, incluída no preço da entrada, e sem necessidade de marcação.

Mais informações
Gabinete de Atendimento atendimento@parquebiologico.pt Telefone directo: 227 878 138 4430-757 AVINTES - Portugal www.parquebiologico.pt

Está em fase de conclusão a pesquisa sobre a capacidade de regeneração do rio Febros após o acidente rodoviário de 25 de Agosto de 2008 que derramou ácido clorídrico neste curso de água. Sob a égide da companhia de seguros Tranquilidade, que atribuiu uma indemnização de 50 mil euros, uma equipa do Departamento de Zoologia da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, chefiado por Alexandre Valente, tem feito a monitorização de vários pontos deste rio. Através da análise de colheitas periódicas, a investigação centrou-se não só nos peixes mas também nos macroinvertebrados aquáticos, cujas populações são elementos fundamentais na cadeia alimentar dos ecossistemas ribeirinhos.

José Faria Costa

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João Luís Teixeira

João Luís Teixeira

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Anilhagem científica

Encontro técnico
“Anilhagem e Biodiversidade” foi o tema que a Associação Portuguesa de Anilhadores de Aves escolheu para o 5.º Encontro Técnico da especialidade, em 27 e 28 de Março, no Parque Biológico de Gaia
«Já estou com comichão», comenta em voz baixa Paulo Mota, biólogo e anilhador credenciado de aves selvagens. A conferência é sugestiva e liga-se à memória de quem anda no campo: há sempre um momento em que uma carraça apanha boleia. Também as aves anilhadas podem levar com elas. O assunto é exposto por Ana Cláudia Norte, uma investigadora cuja pesquisa decorre sob a égide do Instituto do Mar. O seu trabalho não envolve apenas aves e este artrópode parasita: diz também respeito a uma bactéria, Borrelia burgdorferi, que se lhe associa e que transmite a doença de Lyme. Esta moléstia numa fase inicial inclui erupção cutânea e sintomas parecidos com os da gripe. Anilhar aves e constatar os seus movimentos, analisar os dados colhidos e aplicá-los à conservação das populações aborda temas de uma amplitude considerável. Terá sido por isso que os organizadores convidaram oradores como Javier Blasco Zumeta, de Espanha, um professor primário que nos seus tempos livres se envolveu com a anilhagem científica de uma forma notável. Preocupado com a acessibilidade dos manuais, está a criar* um extraordinário guia fotográfico, com textos directos: «Uma imagem vale mais que mil palavras: neste site as fotografias valem mais que tediosas descrições dos caracteres que identificam o sexo e a idade das aves». Acentua: «Ser anilhador permite-me capturar as aves e fotografá-las antes de as libertar. É ao colectivo de anilhadores que dirijo este trabalho». Ainda assim, nuestro hermano evitou a linguagem técnica até onde lhe foi possível, para que a informação chegue «a um público mais amplo, apoiando-se num glossário». Outro conferencista estrangeiro foi Tim Mackrill, do Rutland Osprey Project, que trabalha com águias-pesqueiras em Inglaterra, sendo o litoral português uma rota habitual nas deslocações migratórias: «Nos anos mais recentes os avanços na tecnologia de localização por satélite aumentaram muito os nossos conhecimentos sobre as migrações, permitindo que as viagens individuais de aves possam ser seguidas com um detalhe fora de série». À Central de Anilhagem, do Instituto de Conservação da Natureza e da Biodiversidade (ICNB) coube a palestra de abertura. Diversas conferências sintetizaram os resultados de vários anos de trabalho de algumas das estações de anilhagem de aves selvagens que laboram um pouco por todo o país, estendendo-se de Tourém, no Gerês, à ria de Alvor, no Algarve. António Teixeira, biólogo convidado, prendeu a atenção do auditório através de uma excelente conferência, com dados históricos, na qual relacionou anilhagem e biodiversidade, afinal o

Turfeiras: forma
Com o intuito de promover o conhecimento destes ecossistemas e inserido nas comemorações do Dia Mundial das Zonas Húmidas (2 de Fevereiro), decorreu na ilha Terceira um curso de formação seguido de um workshop (sob o alto patrocínio da Secretaria Regional do Ambiente) sobre ecologia e restauro de turfeiras. Foram também lançados dois livros nesta temática. Estes eventos juntaram mais de 80 pessoas, incluindo dois especialistas internacionais em

Turfeira - ilha Terceira, zona da subida para a rocha do juncal

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EVENTO 37

Chapim-real peculiar
Um dos novos visitantes frequentes nas sessões de anilhagem no Parque Biológico de Gaia é um bocado diferente do habitual. Está um pouco esbranquinçado, mas não é a idade a causa. Este Chapim-real (uma espécie bastante comum) apresenta várias penas do corpo descoloradas, mas a razão não parece clara. A explicação mais habitual nestes casos é o leucismo, uma condição genética que difere do albinismo porque, enquanto este representa uma incapacidade na síntese dos pigmentos chamados melaninas (determinam cores como castanhos, cinzentos e pretos), as aves leucistas sintetizam as melaninas mas não conseguem que estas sejam depositadas em algumas, ou todas, as penas. Esta explicação não é no entanto completamente satisfatória, porque este chapim possui algumas penas individuais parcialmente descoloradas – isto é mais nítido nas grandes penas caudais. Embora se conheçam casos de leucismo em que isto ocorre, o mais provável é que a ave tenha tido problemas alimentares no momento em que produziu este conjunto de penas (isto é comum em aves que vivem em cidades, como em Londres, onde por vezes se vêem gralhas com algumas penas brancas).
Texto e foto: Pedro Andrade

tema deste encontro. Paulo Tenreiro, presidente da APAA, disse que «as comunicações apresentadas mostraram a importância desta técnica de marcação no estudo das aves, nas suas várias vertentes». Este encontro já é o segundo organizado pela APAA, surgida há apenas dois anos: «Assumimos com honra a herança vinda do ICNB. Os diversos estudos e projectos que os anilhadores nacionais têm vindo a desenvolver reflectem a dinâmica desta associação, cujas acções e actividades se encontram já definitivamente inscritas na história quase centenária da anilhagem científica em Portugal». As comunicações apresentadas neste encontro estão disponíveis em www.apaa.pt/documentos01.html
Texto: Jorge Gomes. Foto: João L. Teixeira

* www.javierblasco.arrakis.es

ação nos Açores
técnicas de restauro. Considerando que só podemos proteger o que conhecemos este foi de facto um passo importante para a salvaguarda das turfeiras Açorianas. As zonas altas da maioria das ilhas açorianas são predominadas por turfeiras. Estas formações são de extrema importância para a região, promovendo biodiversidade e a qualidade de vida de quem cá vive. São habitats protegidos pela Directiva Habitats e local onde se desenvolvem várias espécies raras protegidas. As turfeiras são consideradas dos maiores reservatórios de carbono do planeta e a acumulação do CO2 é vista como uma das alternativas para mitigar o aquecimento global. A capacidade de acumulação de água das turfeiras manifesta-se em vários processos nas ilhas, nomeadamente em termos de regulação da infiltração, escorrência superficial e subterrânea e, consequentemente dos caudais das nascentes. Estas formações têm sido reconhecidas como de conservação prioritária. Para mais informação sobre este tema pode consultar www.angra.uac.pt/geva/ onde poderá descarregar informação diversa sobre a biodiversidade nos Açores. Texto: Eduardo Dias *1 e Cândida Mendes*2 Foto: Cândida Mendes
*1 *2

Professor da Universidade dos Açores edias@uac.pt Bolseira de Investigação da Universidade dos Açores cmendes@uac.pt

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38 BLOCO DE NOTAS

Estuário do rio Cávado

Avifauna do Estuário do Cávado
A faixa litoral portuguesa é uma autêntica auto-estrada para inúmeras espécies de aves migratórias nas suas longas viagens entre o continente africano e as zonas mais setentrionais da Europa que lhes servem de berço
Dispõe de uma importante rede de zonas húmidas, alegoricamente apelidadas de “áreas de serviço”, entre as quais se destacam os estuários, considerados entre os ecossistemas de maior produtividade biológica do planeta. Coincidindo com as duas regiões biogeográficas de Portugal Continental, os nossos estuários distinguem-se entre mediterrânicos, do Mondego para sul, e atlânticos que se situam no Norte do país desde o internacional rio Minho até ao caudaloso rio Douro. Estes, apesar de se caracterizarem pelas dimensões mais reduzidas, encerram biótopos variados e de importância tão relevante para a fauna como os lodaçais sujeitos às marés, os sapais ou ainda os prados salgados, muito bem representados no extenso juncal do estuário do Cávado. Integrado no Parque Natural do Litoral Norte e num Sítio de Importância Comunitária, este interessante habitat natural que se estende
Negrinha

ao longo da zona ribeirinha de Esposende, além de ser constituído por comunidades vegetais muito particulares, bem adaptadas à submersão bidiária e a altos índices de salinidade, está envolvido por um diversificado conjunto de biótopos como a restinga e os sistemas dunares de Ofir, a mata dunar de pinheiro e folhosas que se desenvolve para sul até ao Caniçal da Apúlia, os terrenos de uso agrícola a nascente, algumas pequenas florestas aluviais residuais que pontuam nas suas margens e ainda as águas marinhas com os seus míticos recifes. As elevadas cargas de nutrientes trazidas a este meio pela via fluvial e pelas constantes “invasões” do mar proporcionam as condições vitais necessárias à sobrevivência de uma multiplicidade de organismos que estão na base de uma extensa cadeia alimentar, que vão desde pequenos invertebrados como poliquetas, moluscos e crustáceos, passando pelos peixes que fazem do estuário um local
Pato-ferrugíneo

de desova e maternidade. A par disto, o grande dinamismo dos processos ecológicos que se verifica neste sistema natural e a amplitude de espaços de difícil acesso garantem à vida selvagem a necessária protecção contra alguns factores de perturbação, nomeadamente os de origem antrópica. Não será, pois, de surpreender que em todas as épocas do ano, e não apenas durante as migrações, as aves se sintam particularmente atraídas pelas grandes quantidades de alimento disponível e pelas circunstâncias favoráveis de refúgio, abrigo e até de nidificação que o Cávado lhes assegura no seu troço terminal. Feitas as apresentações, vejamos, então, o que nos trouxe o último Inverno que, apesar dos rigores, ainda permitiu que no nosso território se acolhessem, mais uma vez, muitas aves à procuram da típica amenidade do clima.
Coruja-do-nabal

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BLOCO DE NOTAS 39

Colhereiro

Falcão-peregrino

Entre as hordas de patos-bravos mais habituais, como os marrequinhos (Anas crecca), frisadas (Anas strepera), piadeiras (Anas penelope), patos-reais (Anas platyrhynchos) e patos-trombeteiros (Anas clypeata), ainda foi possível registar outras espécies menos comuns ou acidentais, como um zarro-castanho (Aythya ferina) logo em Outubro e dois arrábios (Anas acuta), uma negrinha (Aythya fuligula) e um merganso-depoupa (Mergus serrator), todos em Dezembro. Ainda durante estes meses mais frios, repetiuse a ocorrência sempre esperada de outros anatídeos ferais e exóticos que se instalaram nas águas serenas do Cávado como se de um qualquer lago de jardim se tratasse, destacando-se, entre todos, um elegante cisne-mudo (Cygnus olor) que fez as delícias dos visitantes da marginal em Fão e ainda um colorido pato-ferrugíneo (Tadorna ferruginea) que este ano preferiu “hospedar-se” junto ao Forte de S. João Baptista. Mais despercebidos no meio aquático passaram os mergulhões-de-pescoço-preto (Podiceps nigricolis) em oposição à miríade dos omnipresentes corvos-marinhos-de-facesbrancas (Phalacrocorax carbo). Quanto às aves pernaltas, confirmou-se a tendência de crescimento no número de garças, em particular as garças-boieiras (Bubulcus ibis), cujo estatuto regional de raridade deixou de fazer qualquer sentido. O mesmo não poderá ser dito relativamente
Águia-pesqueira

a indivíduos isolados de espécies como o colhereiro (Platalea leucorodia), registado unicamente nas passagens de Outubro, o íbis-preto (Plegadis falcinellus), que apenas aqui se manteve durante os primeiros dias de Dezembro, e a cegonha-branca (Ciconia ciconia), chegada no final de Janeiro, mas que, não muito longe daqui, conta já com um casal a ocupar um ninho. Às narcejas (Gallinago gallinago), às tarambolas-cinzentas (Pluvialis squatarola), aos maçaricos-das-rochas (Actitis hypoleucos) e aos abibes (Vanellus vanellus), assíduos símbolos do frio, juntou-se em Fevereiro um pequeno bando precoce de maçaricos-reais (Numenius arquata) que passaram os dias a repousar e a banquetear-se nos campos de Gandra. As constantes tempestades, favoráveis aos amantes das raridades oceânicas e que obrigaram os garajaus-comuns (Sterna sandvicensis) a “estacionarem” em segurança pelos rochedos, além de terem permitido vislumbres de alguns alcídeos lá para os lados da linha do horizonte poente, alteraram a monotonia entre as fileiras de gaivotas onde pôde ser detectada a presença da rara gaivota-de-cabeça-preta (Larus melanocephalus). Também as temperaturas baixas avolumaram os bandos de estrelinhas-reais (Regulus ignicapillus), felosas-comuns (Phylloscopus collybita) e tentilhões (Fringilla coelebs), que

vieram juntar-se aos anfitriões chapins-pretos (Parus ater). Ainda entre os passeriformes não deixaram de ser notadas as laboriosas petinhas-dos-prados (Anthus pratensis) que são, por excelência, as aves que marcam o calendário desde o início do Outono até à chegada da Primavera. Para as objectivas dos fotógrafos da natureza, este Inverno também ficou marcado pela mudança de protagonista, pois as nossas “jóias”, os guarda-rios (Alcedo atthis), foram relegados para segundo plano com a chegada, logo no início de Dezembro, de uma coruja-do-nabal (Asio flammeus). Para lá das comuns águias-de-asa-redonda (Buteo buteo) e dos peneireiros-vulgares (Falco tinnunculus), registou-se nas comunidades de rapinas uma maior regularidade nas visitas do gavião (Accipiter nisus) ao juncal, bem como o facto de, pela primeira vez, se ter juntado um macho à fêmea de tartaranhão-dos-pauis (Circus aeruginosus). Muito saudado foi o regresso, desde Setembro até 16 de Dezembro, da águia-pesqueira (Pandion haliaetus) e, por fim, a confirmação de que também o falcão-peregrino (Falcus peregrinus) faz deste estuário a sua mesa de pequeno-almoço. Nas próxima edição, traremos mais novidades. Até breve! Por Jorge Silva www.verdes-ecos.blogspot.com
Marrequinho

Parques e Vida Selvagem Primavera 2010 • 39

40 ENTREVISTA

á fui serralheiro quando era novito, fui moleiro até aos 30 anos, depois fui trabalhar para um armazém. Trabalhei lá 36 anos», acentua Manuel Neves. Está sentado no campo e as mãos seguem a faina de cortar a raiz às nabiças, apoiado na bengala, na companhia da esposa, Margarida. Numa conversa solta vem a lume uma família mais alargada sobre a qual quer falar, com orgulho, nesta tarde fria de Dezembro, precisamente a um mês de celebrar 84 anos de idade: «Plantei-as todas, não havia aqui uma macieira! Só passados sete ou oito anos é que começam a dar». Copa redonda, sem folhas ao toque do Inverno, está à vista: «Aquela macieira ali se não der 200 quilos de maçã…». Um pormenor é obrigatório: «Nascem às três e quatro juntas. Têm o pé pequenino, ao crescer caem». Próxima está a macieira, mais longe as nespereiras floridas. «Moro aqui há 40 e tal anos», diz. O olhar já anda longe no tempo. Entreabre as paisagens antigas de campos cultivados que ali se sucediam, antes de serem abandonados e entretanto reutilizados para educação ambiental. «Isto aqui era só campos de milho e feijão, de um lado e de outro», recorda e lança a deixa ao seu antigo ofício de moleiro. «A vida de moleiro era trabalhar no moinho e ir para Gaia, para o Candal, para Coimbrões, para a beira-rio, para Valadares, corríamos tudo», lembra. Era assim «há 60 anos ou mais!». Umas vezes carregava milho nos padeiros para moer com a força do rio, outras vezes levava a farinha: «Havia 11 padarias de cozer broa, só no bocado que ia do alto de Santo Ovídio à Avenida dos Aviadores. Todas coziam. Não eram cinco arrobas nem dez, eram mais». Os moinhos «estavam todos a trabalhar. Todos os moleiros moíam». E desabafa: «Agora é energia que passa e não se utiliza para nada». Padeiros a cozerem broa são poucos. Vulgarizou-se «o molete, feito de trigo», conclui. Mas sendo tudo movido com a água do rio, em Verões secos, como faziam os moleiros da região para não cruzarem os braços? «Quando faltava água entrava o gasóleo». Nem sempre a culpa era dos dias quentes:

«

J

Memórias com um pé

Manuel Neves sabe trabalhar a terra e retira do campo, de produtos agrícolas. Não longe das margens do rio Febro mãos ocupadas na lida, lembra episódios de outros anos, s
«Os lavradores tiravam água e o regato acabava às vezes por secar. Mas há muitas nascentes por aí». descalço», caminhos fora. Usava-se muito o burro: «Uns levavam dois, outros três, outros quatro». Atrelados, lá iam eles, estrada adiante: «Os moleiros agora acabaram. Dantes havia muitos. Havia sempre por aí fora, até à nascente do regato, em Seixezelo». Se é certo que havia muitos moinhos-deágua, nem por isso era uma ofício fácil: «A arte de moleiro tem muito que se lhe diga!» Sublinha: «Montar um moinho de cá de baixo até lá cima…». É altura de Manuel Neves falar da sobrelha, dos rodízios, da importância do pau de

Uma fartura de moinhos
As azenhas sucediam-se pelas margens do rio Febros: «Só daqui do Parque Biológico ao esteiro de Avintes, mós a moer devia haver para aí umas 60, ou a passar. Agora está tudo parado». O rosto abre-se em sorrisos, quem sabe se a recordar umas pernas que não regateavam genica: «Moía-se muito milho cá e ia-se a pé,

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ENTREVISTA 41

no regato

* Picão-bravo, Galinsoga parviflora Cav. Família: Compositae (Asteraceae). Originária do continente americano, é subespontânea na Europa. Habitat: Campos de cultivo e terrenos de regadio, também em sítios ruderalizados. Mais uma planta exótica infestante, mais um problema difícil de resolver.

, ano a ano, uma mão-cheia os, a que chama regato, sob a asa do pisco-ribeiro
amieiro, do lobete... Sente-se o impasse da linguagem visto com frequência entre o neto e o avô quando este lhe fala de jogos electrónicos. Durante a faina, por vezes aparecia «o pisco-ribeiro», que agora conhecemos como guarda-rios: «Ia sempre por cima do regato a voar». Nesses anos, «quando pertencia às hidráulicas, havia o fiscal que vinha ver se os pescadores tinham licença». Nessa época, «pescavam trutas de um quilo». Vinha o Verão e a água do rio diminuía, «ficava a água nas poças, onde nunca seca.

Chegavam lá com uma giga, era só meter o peixe para o saco».

Alfobre
Manuel Neves é também um dos derradeiros agricultores da região. Manipula a ciência do cultivo com a experiência de muitos anos. O que cultiva de Janeiro a Dezembro? Como se lhe tivesse feito uma pergunta desconexa fala do que para ele é óbvio: «Em Janeiro ou Fevereiro é o cebolo». Tem de explicar o que é o cebolo: «Serve

para dar cebolas». É a semente. Em Março, há que «semear feijão-verde, abóboras, batatas...». Ah, mas impõe-se um pormenor, em abono da verdade: «Esta batata dá para semear duas vezes no ano — se semear em Agosto, em Novembro já está boa para tirar da terra». Como gosta de saber o que cultiva, guarda «sempre de um ano para o outro aquela batata redondinha. Guardo-a e ponho-a lá aberta. Quando chega a Março tem uns olhos pequeninos, gordinhos». Aprendeu cedo que «se ela», a batatasemente, «ficar muito abrigada, no escuro, começa a crescer». Neste mês também «já se pode meter abóboras» na terra. Também guarda as sementes dos tomates de um ano para o outro: «Quando estão maduros, vermelhos, em casa tiro as pevides, ponho ao sol e guardo-as». Mas a tarefa não se esgota aqui: «Tem de se guardar dos ratos». Explica: «Os ratos não me levam nada. Naqueles frascos do café, faço quatro furitos na tampa e boto sementes de pepino, de abóbora, de tomate. Eles ali nunca entram». Não bastava pendurar as sementes? Nem pensar: «Senão, mesmo que se ponha alta, eles», os ratos, «vão lá buscá-la. Até as da penca guardo!». Tendo semente de casa não precisa de comprar fora e, sem dar por esse facto, está a favorecer a biodiversidade regional da sua cultura: «Já botei aqui num ano dois mil pés de tomate. Apanhava uma média de 400 quilos por semana». Ainda refere o alfobre, na prática, a maternidade de muitas plantas de cultivo. No campo de nabiças domina o verde, mas a junça, uma erva daninha, é pedra no sapato. E não é a única: há «outra erva pior*». Olha em volta e descobre um pé, que arranca: «É isto! Não havia um pé aqui, não sei de onde isto veio». Está em flor: «Ganha muita raiz. Estão os campos todos contaminados com isto». Trata-se de uma planta exótica, americana. Mais este aborrecimento não intimida Manuel Neves. O gosto dele é num dia de sol ver os campos cultivados. Depois, é como se agarrasse a idade debaixo do braço e seguisse adiante.

Texto e fotos: Jorge Gomes

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42 ENTREVISTA

Rato-cego, Microtus lusitanicus

Rato-das-hortas, Mus spretus

Tímidos e omnipresentes
Os micromamiferos, discretos, dão rosto a mais uma parcela de biodiversidade. À coca deles andam biólogos como Verónica Gomes, do CIBIO/UP*. Para melhor percebermos esta fasquia da vida, colocamos-lhe algumas perguntas-chave
O que são micromamíferos? Verónica Gomes – Os micromamíferos representam um grupo bastante heterogéneo de pequenos mamíferos, podendo ser roedores ou insectívoros. O termo micromamífero não inclui, como seria de prever, todos os pequenos mamíferos, isto porque os morcegos são um grupo que não está incluído. Alguns animais com peso e dimensões consideráveis incluem-se neste grupo, como o ouriço-cacheiro e o esquilo. Nesta região que espécies ocorrem normalmente? Verónica Gomes – Na Área Metropolitana do Porto, que corresponde à minha área de estudo, podem encontrar-se dez espécies de roedores das 14 que ocorrem em Portugal; quanto aos insectívoros ocorrem oito das nove espécies presentes em Portugal. Dos roedores podemos encontrar o leirão (Eliomys quercinus), o ratinho-do-campo (Apodemus sylvaticus), a ratazana-castanha (Rattus norvegicus), a ratazana-preta (Rattus rattus), o ratinho-caseiro (Mus musculus), rato-das-hortas (Mus spretus), rata-deágua (Arvicola sapidus), rato-cego (Microtus lusitanicus), ratinho-do-campo-de-rabocurto (Microtus agrestis) e o esquilo (Sciurus vulgaris). Nesta área ocorrem os seguintes insectívoros: o ouriço-cacheiro (Erinaceus europaeus), musaranho-anão (Sorex minutus), musaranho42 • Parques e Vida Selvagem Primavera 2010 de-dentes-vermelho (Sorex granarius), musaranho-de-água (Neomys anomalus), musaranho-de-dentes-brancos (Crocidura russula), musaranho-pequeno-de-dentesbrancos (Crocidura suaveolens), toupeira (Talpa occidentalis) e toupeira-de-água (Galemys pyrenaicus). Qual a importância dos micromamíferos? Verónica Gomes – Estes pequenos animais são bastante importantes pois são a base alimentar da maioria dos predadores. Também desempenham um importante papel na dispersão de sementes. Os micromamíferos embora importantes também podem causar danos na agricultura, na florestação e na pecuária. Estes prejuízos são fundamentalmente causados pelos roedores e pela toupeira, que é um insectívoro mas as suas galerias podem causar problemas nas plantações. De que se alimentam? Verónica Gomes – A dieta deste grupo de animais pode ser muito variada, isto porque engloba espécies de roedores e espécies de insectívoros. Os roedores, como é de esperar, normalmente alimentam-se de sementes e grãos mas também podem alimentar-se de alguns insectos, pequenos animais aquáticos, frutos silvestres e até algumas folhas e caules. Os insectívoros, para além dos insectos que constituem preferencialmente a sua dieta, podem ainda ingerir anelídeos e alguns moluscos. Quais as principais ameaças no quadro de conservação destas espécies? Verónica Gomes – As principais ameaças que incidem nestas espécies são a perda e/ou fragmentação de habitat. Embora para o grupo dos insectívoros também os pesticidas sejam bastante prejudiciais, uma vez que provocam diminuição na abundância dos invertebrados que são a base da sua alimentação. Por exemplo, a toupeira-deágua, que possui o estatuto de Vulnerável em Portugal, tem como principais ameaças a alteração do habitat que muitas vezes é reduzido, destruído ou fragmentado e a alteração da disponibilidade de alimento que pode ser provocada pela alteração da vegetação ripícola natural e também pela poluição dos cursos de água. Propagam doenças transmissíveis ao ser humano? Verónica Gomes – Os micromamíferos são um reservatório de várias doenças. Estes pequenos mamíferos podem transmitir viroses, micoses, bactérias e parasitas. Um exemplo de uma doença é a peste bubónica ou peste negra que é causada pela bactéria Yersinia pestis. Esta bactéria é transmitida ao Homem por uma pulga que pode existir na ratazana-preta (Rattus rattus). Portugal foi afectado por esta doença e cerca de um terço da população morreu. Outra doença associada a micromamíferos é a leptospirose causada por Leptospira

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Rato-do-campo, Apodemus sylvaticus

Musaranho-de-dentes-brancos, Crocidura russula

Micromammals
Shrews and field mice are very shy and discreet. When closely observed by an expert, they give insight to another side of the world’s biodiversity. Investigators, such as Veronica Gomes, search for these creatures with the view to learning more about the species. To better understand their role in the map of wild life, we asked her a few questions.
Rata-de-água, Arvicola sapidus
Luís Gonçalves

Verónica Gomes, bióloga

intenogans. O Homem é infectado pelos excrementos frescos de ratazana-castanha ou por águas contaminadas. Esta doença causa arrepios e febres altas repentinamente, embora depois os efeitos mais visíveis desapareçam, e até pode causar a morte se não for diagnosticada a tempo pois, depois dos efeitos visíveis, causa hemorragias internas. Os micromamíferos endémicos da Península Ibérica são mais importantes do que os outros? Verónica Gomes – As espécies endémicas da Península Ibérica não são mais importantes que as restantes. Todas as espécies são importantes. Contudo, existem espécies endémicas que merecem atenção pois estão ameaçadas, como é o caso do Microtus cabrerae. Há casos de introdução de espécies exóticas? Verónica Gomes – Existem algumas espécies que foram introduzidas, como a ratazanacastanha e a ratazana-preta mas estas espécies já se encontram naturalizadas há vários séculos no território português. A introdução destas espécies foi acidental em consequência do transporte em navios.

Aparentemente estas espécies introduzidas apresentam equilíbrio com as espécies nativas, não demonstrando efeitos invasivos directos. Por vezes as introduções de espécies podem levar à competição directa com espécies nativas, o que pode culminar com a extinção da espécie nativa e a prevalência da espécie introduzida. Qual o contexto do trabalho de campo que tem desenvolvido no Parque Biológico de Gaia? Verónica Gomes – O estudo realizado no Parque está no âmbito do meu mestrado e visa estudar quais os factores que propiciam a extinção de comunidades de micromamíferos em áreas urbanas. A minha área de estudo é a Área Metropolitana do Porto (AMP) que apresenta uma grande fragmentação do habitat devido ao crescimento populacional acentuado nos perímetros urbanos, bem como ao aumento da rede viária. Isto faz com que a riqueza faunística e florística contida nos espaços naturais contribua para a valorização do património natural desta área. Da AMP foram seleccionadas 15 parcelas com vegetação

natural ou seminatural para amostrar a comunidade de micromamíferos. Dentro destas 15 parcelas está incluído o Parque Biológico de Gaia. Que resultados obteve? Verónica Gomes – Na minha área de estudo potencialmente estão presentes dez espécies de roedores e oito espécies de insectívoros. No âmbito do estudo, o método de amostragem utilizado consiste na captura dos indivíduos através da utilização de armadilhas do tipo Sherman; sendo assim, apenas nove das dez espécies de roedores e cinco das oito espécies de insectívoros são potencialmente capturadas. No Parque Biológico de Gaia foram realizadas duas sessões de captura, uma no Inverno e outra na Primavera. Nestas duas sessões foram capturados 85 indivíduos pertencentes a três espécies: Apodemus sylvaticus, Crocidura russula, Mus spretus. Texto: Jorge Gomes Fotos: João L. Teixeira
(*) Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos da Universidade do Porto

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44 REPORTAGEM

Arnal

Parque Natural do Alvão
Inserido na rede nacional de áreas protegidas, o Parque Natural do Alvão estende-se por Mondim de Basto e Vila Real ao longo de 7220 hectares. Criado em 1983, junta aldeias e bosques, tece mosaicos de biodiversidade. Nesta visita, as margens do rio Olo desenham um ponto de partida...

Natural Park of Alvão
The Natural Park of Alvão was created in 1983 and is located in the national network of Protected Areas. It extends through the villages and forests between Mondim de Basto and Vila Real. There is so much to see in this region, for example, the Fisgas of Ermelo waterfall, which is a recognized in-libris.

A quase mil metros de altitude as folhas do carvalho-negral ainda estão castanhas, presas aos ramos. Hão-de acabar por cair, esvaídas dos nutrientes que regressaram ao metabolismo da árvore. Os rebentos, apesar de discretos, são visíveis. Isto é normal: a Primavera chega mais tarde à região, apesar do céu azul e do sol que satura de cor a paisagem nesta manhã de Março. Vê-se um prenúncio primaveril na terra coberta de ervas. Com pétalas arroxeadas, eis o açafrão-bravo. A flor tem tanta pressa que parece dispensar folhas e caule, ao erguer-se do bolbo soterrado, sem timidez... Indicador de um carvalhal antigo, pertence a um grupo de plantas com pressa de florir antes que o arvoredo do bosque cubra a terra de sombra. Nesse tempo escasso têm de botar flor, de ser polinizadas, para depois produzirem as sementes. Ao sabor da brisa ouvem-se os chocalhos das vacas maronesas num prado próximo. O rio Olo segue caminho. Olhá-lo é um privilégio. O leito pouco profundo cobre-se de plantas aquáticas diversas, com espaços preenchidos por seixos esverdeados. Mais a montante, um açude gera o barulho

da água a jorrar, enquanto os ramos de salgueiros e amieiros se alinham na margem, apaixonados pelo precioso líquido. Atravessada a velha ponte de granito, há uma pequena turfeira. Nada comparável às do Norte da Europa, em plena tundra, infindáveis, que elevam este habitat prioritário à categoria do de maior extensão no planeta. Apesar do contraste, bem vistas as coisas, estas turfeiras têm um valor acrescido por se encontrarem no Sul da Europa, no limite difuso da influência climática atlântica. Numa visita, escuta-se o comentário de Henrique Nepomuceno Alves, botânico: «Quando chove ou neva, a turfeira funciona como uma esponja. Retém milhares de litros de água que depois liberta ao longo do ano, purificados, para ribeiros e rios a partir do topo da serra». Os poucos nutrientes que viajam na água são absorvidos pela flora adaptada a este habitat. A saber: «A principal planta das turfeiras é um musgo: o Sphagnum». Este musgo «antigamente usava-se para fraldas e pensos. Possui propriedades medicinais, é antisséptico, e tem uma capacidade brutal de absorção». Além disso, «esta planta revela uma

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Bosque de vidoeiros, relíquia de um período glaciar na região

Rio Olo

Turfeira: visita temática

característica fantástica: se a meterem no meio de um livro, seca, passado um ou dois anos hidratam-na e, adivinhem, ela ressuscita!». Nesta altura do ano «ainda não conseguimos ver a orvalhinha, uma planta insectívora» que, contudo, «não se alimenta exclusivamente de insectos». Avermelhada, esta pequena planta «tem uma espécie de mão com umas gotículas e, quando um mosquito pousa, fica ali colado». Depois dissolve-se e a planta frui desse complemento alimentar: «Aqui existem duas espécies — a Drosera rotundifolia e a Drosera intermedia — mas ainda é cedo para as ver». Há mais plantas para mostrar. Observação cuidada, no tapete vegetal, eis uma folha em forma de ponta de lança: «Estão a ver? A minha mão ficou acastanhada. Chama-se Potamogeton. Em grego potamós quer dizer rio». Não são as únicas, mas só lá para Maio é que a maior parte das plantas se mostram: «Aqui há outra, que já usaram se calhar no champô, a Arnica, mas aparece aqui ao lado, nos campos». Em breve, estes irão ganhar cores variadas, como o branco de uma das plantas

endémicas espontâneas nos lameiros, a Paradisea lusitanica. Uma turfeira também pode dizer muito sobre os séculos e milénios da sua vida: «Se fizéssemos aqui um furo para análise – há turfeiras na serra da Estrela de onde conseguiram extrair materiais até 12 metros de profundidade – poder-se-ia descobrir inúmeros factos, sobre a vida vegetal e animal deste sítio». Ano a ano o pólen vai pelo ar e depositase, «o que permite ao longo de muitos anos reconstituir o clima face à vegetação presente». Não é só o pólen que descreve o passado: «Como a água é bastante fria e ácida, caindo aqui um bicho, ele degrada-se muito lentamente». O solo parece um tapete mole, uma autêntica alcatifa vegetal: «Nalgumas turfeiras, se fizerem isto — flecte as pernas — parece uma esponja, é como se estivéssemos em cima de um colchão de água».

Arnal
Pelo caminho vêem-se e ouvem-se os rebanhos de ovelhas e de cabras. Pastam nas

encostas, sob o zelo do pastor e do seu cão. Enquanto uma ave de rapina paira no céu, vão-se vendo de onde em onde pequenas cruzes de granito, por vezes em pleno vale: possivelmente sinal de que alguém ali terá morrido, quem sabe se fulminado por uma trovoada... Pé na estrada, a água flui por todo o lado. Ora fala alto, em cascata, ora sussurra segredos na borda dos campos. Numa placa, rumo a Arnal algum brincalhão apagou o r. Certo é que aponta na mesma para a direita! Um insecto preto, um meloídeo, atravessa com passo a condizer a estrada de asfalto. Fica adiante um castanheiro centenário, com formas tão retorcidas que desafiam qualquer esforço de imaginação. Sob a guarda de quem nelas manda, cinco vacas maronesas estão na encosta vertida sobre a estrada, inquietas. Daniel, rosto prazenteiro a rondar os 70 anos, cobre a retirada cá em baixo. O filho tapa a escapatória mais acima. Bem-disposto, explica o ancião: «Elas têm os bezerros na corte, mas estão lá há dias e têm de comer». Sem pasto o leite mirra. Mas o instinto maternal das vacas, superprotector, com tanta

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46 REPORTAGEM

Nos vales passa a água, um dos elementos essenciais dos prados-de-lima

gente estranha em trânsito, não esconde: é imperioso desconfiar! Uma conversa puxa outra: «Nunca fui ao Porto! Um conhecido meu já foi. Não gostou. São casas altas sobre casas. É feio!», diz. Olho em volta, as cristas rochosas, os vales verdes, com prados-de-lima... cada um tem o que merece, diz-se.

Lameiros
Um caminho de terra batida desce para o vale. Em baixo, entre muros rústicos, estendem-se pastagens verdes penteadas pela água rasa que desliza, empurrada pela gravidade. Na terra escura do caminho, húmida, os cascos das vacas deixaram marcas. Nariz apontado por cima do portão de madeira, também ele rústico, percebe-se a água a fluir nas ervas verdes. Se não fosse o corte de feno do aldeão, a sucessão ecológica instalaria ali amieiros e outras árvores, refazendo o bosque. Estas pastagens, conhecidas como pradosde-lima ou lameiros, dependem do ser humano. Através de uma antiga técnica, a rega faz-se de forma a que nenhuma geada traiçoeira queime o pasto, fundamental para o gado. São espaços verdes para onde cai o olhar, clareiras que unem os carvalhais e os cumes pedregosos em mosaicos ecológicos. A presença de comunidades vegetais ricas é ali importante para a conservação de espécies

raras e ameaçadas. Estes prados-de-lima assemelham-se a jardins botânicos cuidados por mão sábia. Destes lameiros constam espécies como a búgula-piramidal, Ajuga piramidalis ssp. meonantha, a genciana, Gentiana pneumonanthe, ou a espadana-dos-montes, Gladiolus illyricus. Com uma ecologia particular de reconhecido valor botânico, aponta-se a rorela, Drosera rotundifolia, e um narciso silvestre, o Narcissus asturiensis. Ao todo, foram recenseadas cerca de 400 espécies de plantas, sendo 25 delas endemismos ibéricos, seis endemismos lusitanos e 23 com estatuto de ameaçadas. Outra vegetação do parque reflecte diferentes condicionantes. Nas zonas mais baixas e de feição atlântica domina o carvalho-alvarinho. Forma belos bosques onde aparecem azevinhos, cerejeiras-bravas, castanheiros, pilriteiros, aveleiras, pereiras-bravas... Quando os vales repousam entre vertentes nos sítios mais quentes e secos, bafejados por influência submediterrânica, aparece o sobreiro, o medronheiro, a gilbardeira, e até o lentisco, Phyllirea angustifolia. Dadas as diferentes altitudes em que se dispõe o Parque Natural do Alvão, a partir dos 500 metros aparecem as espécies mais características das montanhas, onde predomina o carvalho-negral. Nas zonas de maior altitude, as culturas sucedem-se, cíclicas. Passam pelo centeio,

Jorge Gomes

Açafrão-bravo, Crocus sp.

pelo milho, pela batata e convergem para a necessidade de consumo da família.

Fauna
A neve cobriu a paisagem repetidas vezes neste Inverno. Na região, a vida silvestre habituou-se ao ritmo das estações, com a naturalidade com que os vários líquenes marcam as pedras pelo caminho. Os números levantam-se: são 199 espécies de vertebrados já observados neste parque. Destas, 60% têm o nome escrito no Anexo II da Convenção de Berna e 22% constam

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REPORTAGEM 47

Os socalcos travam a erosão e viabilizam pasto e cultura agricola

Rio Olo: plantas aquáticas

da lista de espécies ameaçadas do «Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal». O grande carnívoro que não se vê com facilidade, mas anda por ali, é o lobo-ibérico. O mesmo se passa nos ribeiros de montanha com a toupeira-de-água e a lontra. Entre mamíferos alados, destacam-se o morcego-rabudo,Tadarida teniotis, e o morcego-de-bigodes, Myotis mystacinus. No que toca às aves, aponta-se entre outras o bufo-real, o melro-das-rochas, a gralha-debico-vermelho... Aliás, a gralha-de-bico-vermelho, Pyrrhocorax pyrrhocorax, é um dos objectos de estudo: «O Laboratório de Ecologia da Universidade

de Trás-os-Montes e Alto Douro deu início em 2006 a um projecto de estudo da biologia e comportamento desta ave», afirma Paulo Travassos, investigador. Este núcleo é um dos oito existentes e um dos mais pequenos do nosso país. A ideia consiste em «monitorizar o núcleo populacional do Alvão, atribuindo especial atenção à dinâmica sazonal do grupo, ao sucesso reprodutor, determinação do habitat potencial de suporte para a espécie e principais ameaças». Estas aves utilizam cavidades em substrato rochoso como dormitório e local de nidificação, normalmente situados acima dos

900 metros de altitude. A paparoca baseiase «em formigas, aranhas, escaravelhos, mediante escavação das camadas superficiais do solo, com as patas». No Alvão, estas gralhas dependem do pastoreio, em particular do gado bovino maronês. Logo, importa «manter o pastoreio tradicional de Inverno e conservar os locais de dormitório e de nidificação da espécie». Entre répteis e anfíbios, o lagarto-de-água e a salamandra-lusitânica são endemismos ibéricos de costela atlântica. Apesar disso, em qualquer visita o mais certo é que espécies mais habituais lhe surjam pelo caminho e deixem impressões vivas. Isso ocorre quando, pela fresta do muro de granito, vê empoleirado num pau erecto no meio do prado um cartaxo, penas eriçadas com o cio, enquanto se meneia para a fêmea, menos colorida. Papo amarelo, face branca, coroa preta, canta outra ave num ramo de carvalho a poucos metros: é um chapim-real, iluminado pelo sol...

Carro-de-bois
Pelo ar desliza o som do sossego. Fala o vento e traz mensagens da Primavera. Ouve-se agora um rodado... aparece na curva um carro-de-bois, apinhado de lenha. Duas maronesas à frente guiadas por um camponês. «Posso tirar-lhe um fotografia?», pergunto. Simpático, acena que sim com a cabeça.

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48 REPORTAGEM

Sr. Daniel: “Nunca fui ao Porto”

Jorge Gomes

Fisgas do Ermelo

Jorge Gomes

Atrás vêm os pais, na esteira na idade. Desci o ângulo, de cócoras e vejo as vacas guinarem vertente abaixo. O vozerio alerta. Receio que o carro vá por cima das vacas: se passasse caladinho... À minha beira está a senhora: «Se soubesse que ia dar nisto nem falava!», disse-lhe. Não demorou a zanga. Explica, afável: «Estas vacas são bravas, não o conhecem, assustaram-se». Minutos depois seguem caminho estrada fora. O conjunto montanhoso das serras do Alvão e do Marão definem o património natural deste parque. Na cabeceira da bacia do rio Olo, que desagua no Tâmega, e na aldeia de Arnal, dominam ora paisagens graníticas de montanha com planalto ora áreas
Raça regional de bovino: maronesa

quartzíticas e vales encaixados. A presença do ser humano tem sido útil à biodiversidade, já que mantém o equilíbrio entre as diferentes formas de vida selvagem. Graças a esta interacção, estabelecem-se novas unidades ecológicas, para o que contribuem nomeadamente os campos cultivados, as sebes que vestem os muros, os lameiros, constituindo parte de um grande puzzle natural. A grande diversidade biológica — vegetação, fauna — e paisagística resulta de variados factores, nomeadamente do jogo de influências dividido entre o litoral húmido e o interior gradativamente mais seco, a que se juntam os patamares de altitude onde o clima de alta montanha dita as suas regras sob a mão humana que modela a paisagem.

O Alvão denota aspectos geomorfológicos, paisagísticos, arquitectónicos e sociais muito significativos, sendo os mais falados as quedas de água das Fisgas de ErmeIo, o caos granítico de Muas-Arnal, o sistema silvoagropastoril, as construções tradicionais, as tradições vivas e o artesanato. Texto: Jorge Gomes Fotos: João L. Teixeira

Bibliografia «Parque Natural do Alvão», edição ICNB, Operação Norte. «Turismo de natureza, enquadramento estratégico: Parque Natural do Alvão», 2000-2006, ICN.

Parque Natural do Alvão
Centro de Informação e Interpretação Largo dos Freitas 5000-528 Vila Real Telef. 259 302830 Fax. 259 302831 E-mail:pnal@icnb.pt www.icnb.pt

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REPORTAGEM 49

À luz do Dueça
Em Penela, o Centro de Interpretação do Sistema Espeleológico do Dueça explica aos visitantes a paisagem cársica do maciço de Sicó, em que se enquadra: a ideia assenta em valorizar o território através da salvaguarda do ambiente enquanto principal riqueza social e económica
São mais que muitas as viagens que esta água faz, em plena escuridão. Apenas homens e mulheres de cariz estranho — os espeleólogos — penetram ali em busca de segredos, como num templo afundado terra dentro. Vindo de túneis ocultos, num sobe e desce que de igual apenas tem a treva, a água do rio Dueça esgueira-se por baixo de estalactites tecidas na paciência dos milénios. Em demorado afago, vai polindo à força de água o âmago do maciço calcário. Revira-se, serpenteia, até que... ei-lo à gargalhada em pleno sol. Ao irromper das cavernas, o rio Dueça sai a jorro, alegre, em correria, sem que o mundo da luz o encandeie. Canta agora em subido volume o precioso líquido, como se chamasse para mais perto de si o verde intenso da vegetação que se aperta à procura do melhor piso. Antes tímido, sob a rocha branca afundada no solo ao longo de quilómetros, revela-se agora um rio descarado, ao sair de supetão da rocha, descendo-a em cavalgada. Sem olhar a quem, fala alto e assim que se estende em baixo, corre, já tranquilo, rio feito de uma água que parece não acabar. Surge a corola branca de ranúnculos à flor da água, suportados pelo caule sem esforço, à superfície. Afluente do rio Ceira, da bacia do Mondego, torna-se o cerne de percursos de natureza fluidos, cheios de contrastes, onde o bosque mediterrânico e a relíquia atlântica coexistem, cada qual no seu lugar, com raízes ora no

Francisco Pedro

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50 REPORTAGEM

calcário, ora no xisto, ora nos arenitos. Acompanha-nos Mário José, o responsável pelo Centro de Interpretação do Sistema Espeleológico do Dueça (CISED), propriedade do Município de Penela: «As nossas instalações foram pensadas para permitir a pernoita de investigadores que precisem de permanecer alguns dias», diz. Quanto a percursos de natureza, explica que «isso é conforme o visitante preferir». Um contacto prévio faz os ajustes necessários à optimização da visita. Mais longos, mais curtos, com predomínio de um tema, inclusive da rica história da região, criam-se as condições para um dia cheio de novidades. A proposta coloca basicamente quatro alternativas, com carga horária mínima e máxima, contemplando a mais demorada «uma visita ao CISED, seguida de um percurso pedestre interpretativo e, sendo possível, a visita a uma das cavidades do sistema espeleológico. Mas não nos interessa o turismo de massas», sublinha. Estas actividades destinam-se a grupos de seis a 16 pessoas, de idades que vão dos dez aos 60 anos, contudo, previna-se com roupa e calçado adequado, pois este programa é capaz de durar sete horas. E se espreitássemos rapidamente o bosque mediterrânico? Em trilho de terra batida, os líquenes abundam, suspensos do tronco dos sobreiros. A estas árvores com marcas de exploração de cortiça juntam-se outras como o carvalho-cerquinho e as azinheiras. Em Março os pilriteiros mostram rebentos e as eufórbias saltam ao caminho em flor. No chão vêem-se vestígios recentes de esquilo: «Há aqui também javalis e veados». Passará ali o peneireiro-de-dorso-malhado... Neste instante, sobre o bosque paira uma águia-de-asa-redonda! Findo este trilho, que pode também ser circular ao longo de dois quilómetros, surge uma pedreira, onde se explora o calcário. Sobranceiro, o castro do Sobral não quer fazer parte do negócio! Subido o morro, lá no alto há quercíneas que se erguem à maneira de um jardim de buxo sobre o solo calcário, branco, onde a chuva abriu fendas. Uma orquídea selvagem floresce com esplendor e há fetos retidos na pedra: «O afloramento rochoso está à superfície», não há muitos vestígios arqueológicos. Isto é lapiás, plantações de pedra, não tem nada. A água infiltra-se pelas fendas». Dali de cima vê-se o limite da serra da Estrela

Eis que o rio Dueça aflora à superfície

Castro do Sobral: muralha em ruína Bosque mediterrânico

Orquídea selvagem: Barlia robertiana

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CONGRESSO 51

Início do percurso da Pedra da Ferida

Ribeira da Azenha

e, mais perto, a serra da Lousã. Outro dos percursos é bem diferente e tem um nome pitoresco: Pedra da Ferida. Ultrapassados terrenos privados votados à produção de eucaliptos onde não apetece permanecer, a dada altura a paisagem muda. Não são novas molduras mediterrânicas que surgem, mas sim atlânticas. A alteração das espécies vegetais impõese: enquanto a ribeira da Azenha se exibe e desfila pelo leito abaixo, passa-se nas suas margens por loureiros, ainda em botão, por salgueiros-negros, amieiros, vidoeiros... Quase nos tocam à passagem as violetasbravas em flor, os umbigos-de-vénus nas rochas, os fetos-reais e, na placa de início, falava-se até do hipericão-do-gerês: «Estamos paredes-meias com o castro do Sobral, não longe daqui. Os seus habitantes vinham buscar água ao rio onde desagua esta ribeira». Custa a crer, dada a diferença das plantas.

«Ficou este “fóssil” no maciço antigo», diz Mário José, e acentua sobre o nome peculiar: «Pedra da Ferida por causa da cascata. É como se a terra tivesse uma ferida de onde sai água». Tem andado um biólogo por ali à procura da salamandra-lusitânica, endémica do Noroeste da península Ibérica: «O habitat está lá, ela também estará», comenta, até porque na serra da Lousã existe esta espécie. Há-de também haver rã-ibérica... Para vermos numa só tarde ainda o Germanelo, não chegámos a subir à cascata. Uma pena, mas o tempo é exigente. O castelo do Germanelo atrai um percurso dado também às várias espécies de orquídeas selvagens que aparecem na Primavera. Como estas plantas singulares, também uma lenda se impõe, à vista de dois montes elevados na paisagem: «São dois irmãos, dois gigantes. Ferreiros, um tem uma forja deste lado, e o outro do outro. Como só têm um

martelo, atiram o martelo um ao outro. O que é que acontece? Um dia um estava de mau humor e atirou o martelo com muita força. Separou-se no ar. A maça caiu, bateu no chão e abriu uma fonte férrea. Por acaso é curioso, existe uma vila que se chamou Ferratosa, hoje chama-se Fartosa. E o cabo que era de zambujo, soltou-se, era mais leve, e voou, resultando na população que é o Zambujal». O percurso anda no sopé do monte e depois sobe. Ao todo demora cerca de duas horas. Do Germanelo tem-se uma vista de 360º. Dali vê-se a velha estrada romana no vale do Rabaçal, que vinha de Tomar rumo a Braga, passando antes em Conímbriga, a poucos quilómetros. Esta região produz mel certificado, mas não será só por isso que, ontem como hoje, terá prazer em visitá-la... Texto: Jorge Gomes Fotos: João L. Teixeira

Centro de Interpretação do Sistema Espeleológico do Dueça
Câmara Municipal de Penela Praça do Município 3230 - 253 Penela Tel. 239 560 120 cised@cm-penela.pt

Vista do Castelo de Penela

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52 INTERNACIONAL

Conservação da biodiversidade: do global à prática
Um dos princípios de ouro da conservação da natureza é a impossibilidade de proteger tudo o que é natural. Assim, torna-se crítico identificar quais as áreas que devem ser protegidas, de modo a minimizar as perdas de biodiversidade, tarefa na qual a ciência pode prestar um contributo importante.
Actualmente muitos cientistas limitam-se a fazer investigação segundo os seus interesses ou que permita publicar nos jornais científicos de maior impacto, negligenciando as instituições que trabalham no terreno. Desta forma muita da ciência feita em redor da selecção de áreas a proteger tem procurado uma abordagem o mais global possível, o que é apenas parcialmente relevante para a implementação de medidas no terreno. Um bom exemplo desta situação foi o debate académico que se seguiu à publicação do mapa dos “hotspots” (em português pontos quentes) de biodiversidade. Em 2000, a organização não governamental (ONG) americana Conservation International (CI) apresentou este mapa que identificava os locais do planeta onde a biodiversidade estaria simultaneamente mais concentrada e mais ameaçada e onde portanto iria focar os seus esforços conservacionistas. Neste processo a organização tentou legitimar o estudo através da publicação num dos jornais científicos de maior proeminência e ao mesmo tempo escamotear as três falhas principais do esquema. A primeira é o facto do referido mapa ter sido obtido a partir de dados com muitas lacunas, por pura e simplesmente existirem muitas áreas do mundo onde a informação não está disponível. A segunda é o facto, de não incluir dados socioeconómicos como o custo de implementação ou a densidade populacional, o que afecta seriamente a aplicabilidade do esquema. A terceira é que, sendo uma análise global, cada um dos já referidos “pontos quentes” é demasiado grande para ser completamente protegido e por isso o mapa é apenas o primeiro passo para identificar unidades espaciais a uma escala em que pudessem, efectivamente, ser alvo de medidas de conservação. É verdade que estas limitações não tiveram impacto na missão principal, mas nunca assumida, do esquema dos “hotspots”, a angariação de fundos usando como imagem de marca uma análise espacial de larga escala que identificava as áreas que a CI ia privilegiar. Em conclusão, o mapa dos “hotspots” foi responsável pela angariação de mais de 750 milhões de dólares. Contudo, a grande publicidade gerada à volta do mapa levou a que muitos académicos, esquecendo a verdadeira missão do esquema, questionassem esta abordagem e se dedicassem a expor as suas falhas técnicas. Este facto teve como consequência uma profusão de estudos que, na realidade, em nada contribuíram para a implementação de medidas de conservação no terreno mas que se limitaram a tentar refutar cientificamente um esquema que era na sua essência um exercício de marketing. está concentrada a maioria da biodiversidade, as entidades no terreno, usualmente de cariz governamental, serem na generalidade fracas, pouco capacitadas e permeáveis à corrupção. Esta conjuntura torna as referidas agências aliados pouco credíveis quando se trata de implementar medidas no terreno. Por estas razões muitos dos projectos de conservação em países em vias de desenvolvimento são liderados por estrangeiros. Esta situação distancia os esforços de conservação da realidade política e social no terreno e faz com que a conservação da biodiversidade seja tratada como um assunto de menor importância. Assim, é necessária uma mudança radical do actual sistema que rege a ciência e o financiamento que suporta a conservação da biodiversidade. Em termos de formação será essencial contar com o conhecimento técnico de cientistas e académicos e assegurar uma interacção construtiva com as agências locais. Isto permitirá não só que a ciência produzida seja relevante ao nível da implementação no terreno, mas também uma adequada formação aos técnicos responsáveis por implementar essa mesma ciência. Este processo permitirá, às agências locais desenvolver, a longo prazo, a sua própria visão acerca da melhor maneira de implementar planos para a conservação da biodiversidade. Aliado a isto, e de forma a incentivar a comunidade científica, terá de haver uma mudança dos critérios usados pelos jornais científicos para a publicação de manuscritos, de forma a equiparar artigos com uma dimensão aplicada a artigos de âmbito global. Em termos de financiamento, os patrocinadores deverão considerar financiar

Abordagem local
A identificação de áreas prioritárias para a conservação tem sido liderada por ONG como a Birdlife International, World Wide Fund for Nature (WWF) e a já mencionada Conservation International. Contudo é importante ter em conta que cada uma destas organizações, dado a sua constante necessidade de angariar fundos, tem de responder aos seus membros e patrocinadores. Por isso as suas prioridades raramente coincidem entre si ou com as dos conservacionistas no terreno. Esta situação é exacerbada pelo facto de, nos países em vias de desenvolvimento onde

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INTERNACIONAL 53

directamente agências locais, tendo em conta as suas necessidades mais específicas como o treino e formação do “staff”. Actualmente o financiamento para os projectos de conservação tende a ser preferencialmente canalizado através das grandes ONG internacionais e nessa condição muitos países continuam a ter instituições locais fracas e sem capacidade de implementação. É no entanto importante ressalvar que esta mudança terá de ser feita de forma gradual e assistida, tendo em conta as fragilidades que existem actualmente em algumas agências locais e regionais. Neste sentido, seria de extrema importância a criação de um corpo independente para a coordenação da investigação e financiamento para projectos de protecção da biodiversidade a nível global de forma a maximizar o uso do conhecimento disponível e a garantir um correcto uso dos fundos, considerando uma fusão entre os actuais Painel Intergovernamental para as Mudanças Climáticas (IPCC em inglês) e Banco Mundial. É crucial aproveitar o corrente “Ano Internacional para a Biodiversidade” para pôr os vários agentes envolvidos na conservação da biodiversidade a “remar para o mesmo lado”. Só assim poderemos continuar esperançados em salvar para as futuras gerações o que de mais belo tem o nosso planeta. Por Diogo Veríssimo

Gansos-patola

Este artigo foi escrito com base em Smith, R., Veríssimo, D., Leader-Williams, N., Cowling, R., & Knight, A. (2009). Let the locals lead Nature, 462 (7271), 280-281. As opiniões expressas são apenas do autor.

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54 MIGRAÇÕES

Milhões de bela-dama
m Marrocos, nas montanhas do Atlas, o Inverno chuvoso do ano passado ofereceu recursos excepcionais à vegetação de que depende esta migradora. As urtigas, uma das mais típicas plantas hospedeiras da bela-dama, Vanessa cardui, ofereceram folhas sem fim. Sem falta de alimento, as lagartas cresceram, formaram crisálida e o insecto adulto, a borboleta, terá eclodido por altura de Abril e Maio. Com o tempo a aquecer, as fronteiras flutuantes das temperaturas alargaram-se para Norte, passaram o mar Mediterrâneo e a península Ibérica. Nesses dias de Maio, durante semanas, viram-se as bela-dama por todo o lado: nos parques e jardins com flores, estes insectos alimentavam-se, descansavam e seguiam o impulso migratório. Até na rua passam em voo rápido, direccionado. Sem bússola, subiram para Norte. Chegadas a França, poderão ter posto ovos nas plantas adequadas e morrido. Ou não. Aparentemente frágeis, são senhoras de um voo espartano, fluido, potente... Certo é que, numa primeira ou segunda geração, chegam à Grã-Bretanha, onde a explosão de milhões de borboletas desta espécie também não passou despercebida. Este surto migratório acontece todos os anos, mas não é habitual em números tão fantásticos. Os comentários são ostensivos no mundo virtual da internet. Martin Warren, da associação Butterfly Conservation, disse que «tudo indica que esta foi a maior migração conhecida de beladama no Reino Unido». E explica: «Ficámos boquiabertos com a rapidez com que elas apareceram. Estávamos à espera que dessem um ar de sua graça e, de repente, com a chegada do bom tempo, ei-las em tão grande quantidade». Há quem defenda que não foram só as generosas chuvas no Atlas, mas que também resultam do aquecimento global do planeta. A grande migração anterior para o Norte da Europa está marcada pelos ingleses em 1996, quando as bela-dama atingiram o Norte da Escócia, e até a Islândia.

E

Millions of Painted Ladies
For several weeks, in May 2009, Painted Ladies Butterflies were everywhere. In Parks and Gardens with flowers, you could see these insects feeding, resting and following their migratory instincts. Martin Warren, of the Butterfly Conservation Association, said that everything indicates that this was the largest migration of Painted Ladies ever recorded in the United Kingdom. He also explains that the speed at which they appeared was amazing. “We were expecting them to arrive, but with the coming of the good weather, they suddenly appeared in abundance”.

Texto foto: Jorge Gomes

Fontes
http://www.bbc.co.uk/blogs/springwatch/2009/06/the_painted_lady_butterfly_phe.html http://www.bbc.co.uk/blogs/thereporters/markeaston/2009/05/map_of_the_week_north_african.html

Atl

as

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MIGRAÇÕES 55

Rui Andrade

Rui Andrade

Vanessa cardui
(Linnaeus, 1758)
Plantas hospedeiras Urtica spp., Carduus spp., Arctium spp., Malva spp.

Lagarta

Crisálida

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56 ACTUALIDADE

Viana do Castelo: Campanha da resina
O Centro de Monitorização e Interpretação Ambiental (CMIA) de Viana do Castelo abriu uma exposição intitulada “A Campanha da Resina”. A mostra, patente até 1 de Maio, é da autoria do professor Paulo Santiago, em parceria com o Centro de Ciência Viva da Floresta de Proença-a-Nova. O objectivo desta exposição consiste em explicar de que forma a extracção da resina foi uma actividade económica importante em Portugal. Tópicos como a partida para a resinagem, a medição (ver se as árvores têm o diâmetro suficiente para serem resinadas), a picagem (colocação da bica e caneco) com os utensílios apropriados, a abertura da primeira “ferida”, a renova (abertura de uma ferida nova), a colheita da resina (recolha da gema), a raspa da resina (cristalizada) e o fabrico de estacas e bicas são os processos e fases de extracção da resina exemplificadas ao longo da exposição. Patentes estão também diversos utensílios usados na resinagem, desde as enchós, latas, bidões, balanças, usados na pesagem, malgas e também recipientes com resina e amostras de produtos obtidos, desde a gema de pinheiro, o pez louro e a aguarrás.

Projecto Rios expande-se para os Açores
O Projecto Rios é um projecto que visa a participação social na conservação dos espaços fluviais, procurando acompanhar os objectivos apresentados na Década da Educação das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável e contribuir para a implementação da Carta da Terra e da Directiva-quadro da Água. O Projecto Rios está a crescer: «Desde 2006 até agora já 156 grupos, distribuídos por 55 municípios, adoptaram troços de rios ou ribeiras, de Norte a Sul de Portugal. Setenta e oito quilómetros de linhas de água merecem hoje uma atenção especial, protagonizada por mais de 3500 participantes e mais de 8 mil pessoas envolvidas». Mais: www.projectorios.org

Direitos reservados

Tornada: peixes do paul
Nos dias 20 e 21 de Fevereiro decorreu na Reserva Natural Local do Paul de Tornada um workshop intitulado “Os peixes do Paul”. Carla Santos, sócia da PATO, investigadora no Centro de Biociências do ISPA, leccionou esta formação. Este workshop teve como objectivo a introdução à ecologia das várias espécies de peixes de água doce que ocorrem em Portugal. Contou com uma parte prática de demonstração de pesca eléctrica e técnicas de amostragem de populações. Os participantes tiveram oportunidade de ver algumas estruturas da anatomia dos peixes com recurso a lupas binoculares.

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Direitos reservados

ACTUALIDADE 57

O vaivém do lince-ibérico
Em início de Fevereiro confirmou-se a entrada em Portugal de um lince-ibérico, vindo de Huelva, em Espanha. Não é que estes animais leiam a Parques e Vida Selvagem, mas a hipótese até vinha escrita na reportagem publicada em 23 de Janeiro sobre o Parque de Natureza de Noudar (pág. 48). Independentemente desse detalhe, o felino terá permanecido durante três dias na região de Moura-Barrancos, Rede Natura 2000, segundo as entidades espanholas. Sandra Moutinho, do Instituto de Conservação da Natureza e da Biodiversidade, declarou à imprensa que surgiu um pedido de autorização de Espanha para a captura deste animal, cujas deslocações são seguidas por satélite. Com o sinal cada vez mais fraco, urgia substituir a bateria do transmissor, mas este lince, entretanto, regressou a Espanha: em 2 de Fevereiro apurouse que foi capturado por técnicos da Consejería de Medio Ambiente da Junta de Andalucía no Cerro del Andévalo, em Huelva. Feitos exames veterinários e colocada uma nova bateria no transmissor, Caribu ficou durante cerca de uma semana na Laguna de Santa Olalla, em observação, sendo depois libertado no Parque Natural de Donaña uma segunda vez. Caribu, oriundo da serra Morena, foi libertado pela primeira vez em Doñana, no Sul de Espanha, em fins de 2008. Três meses depois já tinha viajado cerca de 200 quilómetros na província de Huelva. Os dados colhidos dão informações úteis sobre as ocorrências de dispersão dos linces reintroduzidos. Pensa-se que haja hoje só 150 lincesibéricos, Lynx pardinus, quando em meados do século XIX seriam 100 mil espalhados pela Península Ibérica. A escassez de coelho-bravo, a sua presa de eleição, a caça indiscriminada e a perda de habitat explicam uma tão acentuada regressão da espécie, que se complica com outros detalhes: actualmente, 25 dos 72 animais deste programa de recuperação padecem de insuficiência renal crónica. Especialistas de vários países investigam a moléstia para que surja a respectiva cura.

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58 ACTUALIDADE

Invasão de amêijoas exóticas
Chamam-lhe Corbicula fluminea, mas não é pelo nome terrível que levanta sérias preocupações ambientais. Esta amêijoa de origem asiática é prolixa quanto baste e até pode revelar uma densidade populacional na ordem dos mil indivíduos por metro quadrado. Com tal expansão, as espécies nativas que deveriam ocupar esses espaços no ecossistema e desempanhar ali funções adequadas começam a ser aniquiladas e esse mesmo ecossistema, ferido, cambaleia. Os rios do Minho são o palco deste desequilíbrio, ficando por definir o processo exacto dessa invasão. Um estudo recente considerou que a comunidade mundial não tem conseguido salvaguardar a biodiversidade inclusive no que respeita ao conflito com as espécies invasoras. Exemplo desse facto é esta amêijoa asiática, detectada pela primeira vez no rio Minho em 1989. Antes disso já tinha chegado ao Tejo, talvez à boleia em navios de transporte, a forma mais comum de as espécies marinhas emigrarem para paragens distantes dos seus habitats de origem. Ainda não se vislumbra uma forma de resolver este problema.

Congresso Português de Malacologia
O Instituto Português de Malacologia (IPM) e o Centro de Ciências do Mar organizaram o Congresso Português de Malacologia 2010. O certame decorreu na Universidade do Algarve, Campus de Gambelas em Faro, nos dias 13 e 14 de Março, e esteve aberto «a todos os interessados em Malacologia, desde investigadores, estudantes, amadores, coleccionadores, etc., e constituiu uma oportunidade única no panorama nacional para apresentar e discutir trabalhos nesta área das ciências biológicas, bem como para rever amigos e colegas e projectar futuras colaborações».

Prateada conquista o Sul da Grã-Bretanha
Considerada rara para os ingleses, a borboleta migradora conhecida por alguns como prateada, Issoria lathonia, está a conseguir radicar-se no Sul da Grã-Bretanha, afirmam observadores do Fundo para a Conservação das Borboletas (Butterfly Conservation). Ao expandir a distribuição da sua área de reprodução, evoca-se um assunto largamente comentado: o aquecimento global. Outonos mais quentes e invernos menos demorados poderão na opinião dos especialistas favorecer a implantação de uma colónia reprodutora no Sussex, no Sul da Inglaterra. O cariz de raridade não se aplica à orte Península Ibérica nem tão-pouco ao Norte de França. Mesmo assim, raramente se via esta espécie em terras de Sua Majestade entre 1950 e 1989. Tom Brereton, coordenador do programa implementado pelo Butterfly Conservation, afirmou que «as borboletas desta espécie que chegam à Grã-Bretanha por altura de Julho deverão ser indivíduos migradores e dispersão a partir em po exemplo do Norte de por França. Se esta es espécie de borboleta diurna efe efectivamente adoptar terras inglesas, será a terceira a fazê-lo nas últimas duas décadas, a exemplo das borboletas almirante-vermelho, Vanessa atalanta, e maravilha, Colias croceus. As plantas hospedeiras das lagartas da primeira espécie são, por exemplo, as violetas, da segunda as urtigas e da última os trevos.

Quer fazer parte deste projecto? Quer divulgar os seus produtos a mais de um milhão de leitores?

Garanta a sua presença na próxima revista!

Parques e Vida Selvagem
Parque Biológico de Gaia | 4430 - 757 Avintes Telemóvel: 916 319 197 | e-mail: pub@parquebiologico.pt

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BIBLIOTECA 59

João L. Teixeira

Raízes Bibliográficas da História Natural de Portugal
Está em curso um projecto que reúne publicações antigas sobre a história natural portuguesa
necessidade de consultar dados para investigação neste sector desenhou a ideia. A partir daí não demorou a surgir uma proposta do Parque, que foi aprovada pelo Município em 5 de Dezembro de 2008, ficando garantida a conservação integral do espólio que está a ser reunido. Estando esta iniciativa enquadrada na Biblioteca do Parque, o conceito de história natural utilizado nesta recolha de obras antigas é amplo: engloba publicações de flora, fauna, geologia, geografia e estende-se à etnografia

A

ou até a relatos de viagem e cartografia antiga. Além de Portugal Continental, o projecto Raízes Bibliográficas estende-se às ex-colónias, tendo esta empresa municipal estabelecido protocolos de cooperação com algumas delas. Uma das raridades bibliográficas adquiridas é a “Flore Portugaise ou description de toutes les plantes qui croissent naturellement en Portugal”, de Hoffmannsegg e de Johann Link, começada a publicar em Berlim em 1809. No formato 54 por 36 centímetros, esta obra

tem 504 páginas de texto e conta com 114 gravuras de plantas do património natural português, impressas em calcografia e acabadas de colorir manualmente por alguns dos mais reputados pintores da época. Este e outros títulos podem ser consultados no site www. parquebiologico.pt clicando no botão Biblioteca. Concretamente, a Biblioteca fica no edifício principal do Parque e conta com duas salas de trabalho e leitura, estando aberta ao público de segunda a sexta-feira entre as 9h00 e as 17h00.

Aquário e Museu das Pescas

Aberto todos os dias das 9h às 18h

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60 SEQUESTRO DE CARBONO

Cada dia que passa há mais empresas e cidadãos a confiarem ao Parque Biológico de Gaia
Agrupamento de Escolas Ovar Sul - Curso EFA B3 Alice Branco e Manuel Silva Ana Filipa Afonso Mira Ana Luis Alves Sousa Ana Luis e Pedro Miguel Teixeira Morais Ana Miguel Padilha de Oliveira Martins Ana Rita Alves Sousa Ana Sofia Magalhães Rocha António Miguel da Silva Santos Arnaldo José Reis Pinto Nunes Artur Mário Pereira Lemos Bárbara Sofia e Duarte Manuel Carvalho Pereira Bernadete Silveira Carolina de Oliveira Figueiredo Martins Carolina Sarobe Machado Caroline Birch Catarina Parente Colaboradores da Costa & Garcia Cónego Dr. Francisco C. Zanger Deolinda da Silva Fernandes Rodrigues Dinah Ferreira Dinis Nicola Eduarda e Delfim Brito Eduarda Silva Giroto Escola EB 2,3 de Valadares Escola EB 2,3 Dr. Manuel Pinto Vasconcelos Pegada Rodoviária Segura - Ambiente e Inovação Escola Secundária Almeida Garrett - Projecto Europeu - Aprender a Viver de Forma Sustentável Família Carvalho Araújo Família Lourenço Fernando Ribeiro Francisco Gonçalves Fernandes Francisco Saraiva Francisco Soares Magalhães Graça Cardoso e Pedro Cardoso Hélder, Ângela e João Manuel Cardoso Inês, Ricardo e Galileu Padilha Joana Fernandes da Silva Joana Garcia João Guilherme Stüve Joaquim Pombal e Marisa Alves Jorge e Dina Felício José Afonso e Luís António Pinto Pereira José António da Silva Cardoso José António Teixeira Gomes José Carlos Correia Presas José Carlos Loureiro José da Rocha Alves José, Fátima e Helena Martins Lina Sousa, Lucília Sousa e Fernanda Gonçalves Luana e Solange Cruz Manuel Mesquita Maria Helena Santos Silva e Eduardo Silva Maria Manuela Esteves Martins Maria Violante Paulinos Rosmaninho Pombo Mariana Diales da Rocha Mário Garcia Mário Leal e Tiago Leal Marisa Soares e Pedro Rocha Miguel Parente Miguel, Cláudia e André Barbosa Nuno Topa Paula Falcão Pedro Manuel Lima Ramos Pedro Miguel Santos e Paula Sousa Regina Oliveira e Abel Oliveira Ricardo Parente Rita Nicola Sara Pereira Serafim Armando Rodrigues de Oliveira Sérgio Fernando Fangueiro Tiago José Magalhães Rocha Turma A do 8.º ano (2008/09) da Escola EB 2, 3 de Argoncilhe Turma E do 10.º ano (2008/09) da Escola Secundária de Ermesinde Turma B do 12.º ano (09/10) da Escola Secundária Dr. Joaquim Gomes Ferreira Alves - Grupo Ciência e Saúde no século XXI Vânia Rocha

Para aderir a este projecto recorte o seguinte rectângulo e remeta para:
Parque Biológico de Gaia, EEM • Projecto Sequestro do Carbono • 4430 681 Avintes – V. N. de Gaia 1 m2 = € 50 = menos 4 kg/ano de CO2
apoiando a aquisição de Junto se envia cheque para pagamento Nome do Mecenas Recibo emitido à ordem de Endereço euros. Procedeu-se à transferência para NIB 0033 0000 4536 7338 053 05

CON

Ajude em Vila N e de

N.º de Identificação Fiscal Email

Telefone

O Parque Biológico pode divulgar o nosso contributo

Sim

Não

O regulamento encontra-se disponível em www.parquebiologico.pt/sequestrodocarbono

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COLECTIVISMO 61

o sequestro de carbono

No Dia da Árvore não plantem árvores!
Representação da Comissão Europeia em Portugal lançou a campanha “Plante uma Árvore”, mas os moldes em que o fez não são os melhores. Há décadas que se promovem comemorações do Dia da Árvore, porém, desde sempre apelámos para que, nesse dia, não fossem plantadas árvores, uma vez que está terminada a época normal de plantações e iniciada a Primavera. Pode-se plantar árvores todo o ano, desde que cultivadas em contentor, mas isso é trabalho para profissionais. As dezenas ou centenas de milhar de árvores plantadas ao longo das últimas décadas, por escolas e outras entidades, no Dia da Árvore, morreram breves dias depois, por errada plantação, falta de rega, etc. Tem-se plantado árvores onde, simplesmente, não haveria espaço para elas, se crescessem. Tem-se plantado exóticas, contrariando as boas práticas ambientais e a lei. Tem-se plantado mal! As árvores devem plantar-se em locais apropriados, usando as espécies apropriadas, na época certa e sob orientação de quem sabe o que faz. Poder-se-ia, mesmo, falar de um “ciclo da árvore” em Portugal: no Dia da Árvore pedem-se árvores para plantar... no Verão pedem para as podar, “porque fazem sombra”... no Outono pedem, de novo, para as podar, “porque caem folhas” e os “pássaros sujam os carros”; no Inverno pedem para as cortar, “porque estão em iminente risco de queda”; e, alegremente, no seguinte Dia da Árvore, chegam os pedidos para plantar... O grande agrónomo e silvicultor Joaquim Vieira Natividade (1899-1968), no seu artigo “A Árvore e a Cidade” (“Diário Popular”, 1959), chamou a isto a “dendrofobia nacional”. No Dia da Árvore (impropriamente fixado, em Portugal, a 21 de Março) há muitas outras coisas que se podem fazer para celebrar a árvore e a floresta, e muitas das actividades que constam do site da Representação da Comissão Europeia em Portugal são disso exemplo. Mas, por favor, no Dia da Árvore não plantem árvores! Promovam a plantação – adequada – nos meses de Inverno.

A

NFIE AO PARQUE BIOLÓGICO DE GAIA O SEQUESTRO DE CARBONO

a neutralizar os efeitos das emissões de CO2, adquirindo área de floresta Nova de Gaia com a garantia dada pelo Município de a manter e conservar e haver em cada parcela a referência ao seu gesto em favor do Planeta.

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1 m2 = € 50 = menos 4 kg/ano de CO2
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Para mais informações pode contactar pelo n.º (+351) 227 878 120 ou em carbono@parquebiologico.pt Parque Biológico de Gaia, EEM Projecto Sequestro do Carbono 4430-681 Avintes • Vila Nova de Gaia

e Protecção da Vida Selvagem Parque Biológico de Gaia 4430 - 757 Avintes Tel. + Fax: 227 878 120 geral@vidaselvagem.pt www.vidaselvagem.pt

Parques e Vida Selvagem Primavera 2010 • 61

62 COLECTIVISMO

Um projecto dedicado à formação em turismo ornitológico
A observação de aves é uma actividade em pleno crescimento em Portugal e no mundo, atraindo cada vez mais turistas e outros visitantes. Nas últimas décadas o número de observadores de aves aumentou significativamente, devendo continuar a aumentar no futuro próximo. Apesar da observação, em determinadas circunstâncias, poder ser uma ameaça para as aves, esse risco pode ser minimizado através do ordenamento da actividade, da criação de infra-estruturas adequadas e da melhoria do conhecimento e da preparação das pessoas e entidades envolvidas nesta actividade. Para a SPEA é importante que a observação de aves seja uma mais-valia económica em regiões ricas em biodiversidade, contribuindo de forma sustentada para a conservação das aves e dos seus habitats. Neste contexto, a SPEA, em parceria com a Sociedad Española de Ornitologia (SEO) e a BirdLife International, iniciou em 2009 um projecto que irá contribuir para o desenvolvimento de um turismo ornitológico de qualidade. O projecto IberAves é um projecto-piloto para elaborar módulos e conteúdos formativos em matéria de turismo ornitológico na Rede Natura 2000. Com este projecto pretende-se criar manuais on-line que ajudem a capacitar o sector turístico, de modo a ampliar a sua oferta de serviços aos “birdwatchers”, sem perder de vista a importância da conservação das aves e dos seus habitats. Serão desenvolvidos módulos de formação para guias de natureza, hotéis e empresas de animação. Neste momento, a SPEA está já a aplicar e a divulgar um inquérito sobre o Turismo Ornitológico. É um inquérito dirigido aos potenciais clientes deste tipo de serviços de animação turística e também às empresas que os prestam. Pretendemos conhecer as expectativas dos cidadãos que adquirem ou vão adquirir estes serviços no nosso país e quais as necessidades das empresas em termos de formação e capacitação. Se é empresário ou turista, convidamo-lo a retirar 5 minutos do seu tempo e a preencher este breve inquérito, disponível em www.spea.pt. O projecto é co-financiado pelo Programa Leonardo da Vinci da União Europeia, um mecanismo financeiro dedicado à educação e formação profissional.
SPEA – Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves Avenida da Liberdade, n.º 105 - 2.º - esq. 1250 - 140 Lisboa Tel.: 21 322 0430 / Fax: 21 322 04 39 spea@spea.pt • www.spea.pt

Parque de Natureza de Noudar
A energia do Parque de Natureza de Noudar é sem dúvida renovada com a chegada de cada Primavera. Prova disso são os próximos eventos que se prepara para receber. De 14 a 16 de Maio decorre “Ao encontro da Biodiversidade, em Noudar”, iniciativa organizada em conjunto com a Universidade de Évora, e com o alto patrocínio da UNESCO. Em 22 de Maio, no Palácio Condes da Calheta, em Lisboa, abre uma exposição fotográfica “Tierra de Linces - Portugal”, com trabalhos de Andoni Canela. Mais tarde, em Julho, dias 4 e 10, Noudar lança o seu campo de férias, que compreende idades dos 12 aos 16 anos. Mais informações: www.parquenoudar.com Por Débora Moraes

62 • Parques e Vida Selvagem Primavera 2010

CRÓNICA 63

Por Jorge Paiva Biólogo, Centro de Ecologia Funcional da Universidade de Coimbra jaropa@bot.uc.pt

O Ano da Biodiversidade e a farsa das datas comemorativas
stamos ainda no início do “Ano Comemorativo da Biodiversidade” e já se assiste a imenso oportunismo, como gente a escrever ou conferenciar sobre a Biodiversidade sem nunca ter feito absolutamente nada em defesa ou para a preservação do Património Biológico (Biodiversidade). Como foram já anunciados “prémios” para obras de divulgação científica sobre Biodiversidade, já há gente a dar esse tema para mestrandos ou alunos finalistas tratarem e arranjarem bibliografia, para, depois, eles (“orientadores”) concorrerem como autores. Sabemos disso, porque já começaram a surgir alunos desses a pediremnos determinados dados que facilmente se depreende serem destinados para uma publicação sobre o referido tema. O mesmo se diz de muitos políticos, governantes e outros oportunistas. As datas comemorativas (dias, semanas, anos, centenários) são, actualmente, uma autêntica fraude, servindo, quase exclusivamente, para protagonismos pessoais ou políticos, para encobrir erros pessoais, governamentais, políticos, religiosos ou, ainda, como fonte de lucro nesta sociedade de consumo que nos consome a todos. A sociedade de consumo em que se transformou a designada “civilização ocidental” tornou-se opressiva, violenta e demolidora. Este tipo de sociedade exige imenso das pessoas, a tal ponto que os actuais jovens casais, ambos a terem de trabalhar para conseguirem sobreviver, mal têm tempo de estar com os filhos. De manhã, apressadamente, preparam-nos para os levar às escolas ou às creches. À tarde vão buscá-los, também apressadamente, ou estão com eles, depois de saírem dos empregos,

E

normalmente depois das 19 horas. A seguir preparam, apressadamente, um jantar para os deitarem não muito tarde, pois no dia seguinte os garotos têm de se levantar cedo. Uma sociedade assim é destruidora da família e é, também, demolidora da pessoa, que também acaba por não ter tempo para estar com os amigos ou para se descontrair. Além disso, é também uma sociedade que está a concentrar a espécie humana em agregados populacionais, com a consequente desumanização do campo. As pessoas passaram, assim, a viver concentradas em agregados populacionais que não são mais do que “gaiolas” de betão armado, sem convívio humano, com ar poluído, etc. Desta maneira, tem vindo a aumentar o número de pessoas com problemas do foro psiquiátrico. Numa sociedade assim, as pessoas não só não têm tempo para se aperceberem como estamos a poluir e como estamos a destruir a Natureza, fazendo desaparecer diariamente espécies, muitas das quais, sem sequer terem sido estudadas ou referenciadas; como também estão de tal modo ocupadas durante a semana, que só pensam no fim-de-semana para desanuviarem um pouco.

C

omo se isto não bastasse, somos “bombardeados” por todo o lado e a toda a hora com publicidade, que não olha a meios para atingir os seus fins. É uma publicidade sem escrúpulos. Explora as pessoas sem elas darem por isso. Um exemplo é a compra de determinados produtos, como algumas publicações, produtos alimentares ou outras compras que nos são fornecidos dentro de um invólucro ou saco, geralmente, de plástico, repleto

de anúncios. Ao transportarmos o referido invólucro ou saco, ou outro produto qualquer, em sacos com anúncios, estamos a ser agentes publicitários grátis ao serviço de outros (a empresa publicitária e a empresa produtora ou vendedora do produto) que auferem lucros dessa publicidade e, simultaneamente, agentes poluidores, pois o plástico dos sacos é um dos graves problemas dos resíduos sólidos com que estamos a emporcalhar a “gaiola” global (Planeta Terra) em que vivemos. O mesmo se passa com as “Datas Comemorativas”. Assim, por exemplo, os “Dia da Mãe”, “Dia do Pai”, “Dia dos Namorados”, “Dia dos Avós” e quejandos são datas muito importantes para o comércio, pois para muitos comerciantes é mais relevante o volume de negócio que poderão efectuar nesses dias, do que dedicarem algum afecto ou cuidados aos respectivos familiares. Basta um pouco de atenção para se verificar que assim é, pois muito antes das datas comemorativas, tais como do “Dia da Mãe”, “Dia do Pai”, “Dia dos Namorados”, “Dia dos Avós” e outros congéneres, o comércio tem o cuidado de lembrar, com muita antecedência, os consumidores “bombardeando-os” diariamente com intensa propaganda. Para eles, nesses dias o que é mais importante não é que o consumidor se lembre da Mãe ou do Pai; o que é necessário é que o freguês compre qualquer bugiganga para oferecer a esses familiares. Este “vício” foi de tal modo incutido que há pessoas que se melindram se, nesses dias, recebem como recordação apenas afecto e carinho, em vez de uma lembrança material. Dos exemplos mais hipócritas são o “Dia da Criança” e o “Dia da Mulher”. Com o primeiro vemos, por exemplo,

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64 CRÓNICA

O verme Diopatra micrura

Exemplar feminino da aranha Tegenaria incognita

Exemplar masculino da aranha Tegenaria barrientosi

governantes e políticos clamarem que é necessário acabar-se com o trabalho infantil e, nesse mesmo dia, testemunharem isso, impávidos e serenos, sentados num sofá. Basta ver televisão. Está repleta de anúncios com utilização de crianças “escravizadas” pelas empresas publicitárias ou pelos respectivos familiares. É trabalho infantil, no geral gratuito ou mal remunerado. Ainda por cima, grande parte das crianças utilizadas não vê sequer o dinheiro que aufere. Isto é diário e público, pois a maioria dos portugueses vê diariamente televisão. E afirmam os nossos governantes que penalizam os utilizadores de trabalho infantil em Portugal!... Eles próprios são testemunhas desta exploração diária das crianças, pois são habituais espectadores dos nossos programas televisivos. Essas crianças, no geral, nunca recebem a respectiva remuneração. No geral usufruem-na os respectivos familiares. Mas não é só na televisão; é por todo o lado esta abusiva exploração do trabalho infantil. Infelizmente, não é só na publicidade que a criança é explorada. Também é frequente ver-se a utilização de crianças em peditórios supostamente altruísticos, num trabalho, muitas vezes penoso, ou em manifestações de actos religiosos (ex.: procissões), etc. Com a mulher passa-se o mesmo. É evidente que não podemos considerar exploração da mulher um anúncio de uma qualquer marca de automóvel com uma mulher praticamente desnudada ao lado. Aí ela tem o respectivo

lucro e participou no anúncio porque quis ganhar dinheiro, não se importando de “vender” a sua figura. Um recém-nascido utilizado num anúncio para produtos para crianças (vemos isso, frequentemente em anúncios de produtos farmacêuticos e de cosmética) não tem possibilidades de proibir que utilizem o seu corpo para lucros de outros. Infelizmente, a mulher, muitas vezes por culpa própria, continua a ser marginalizada e explorada em todo o mundo, mesmo no considerado “civilizado”. As religiões são um bom exemplo disso, pois não há nenhuma mulher sacerdotisa católica, ortodoxa, islâmica, budista, etc. Com as datas comemorativas relacionadas com a Natureza e Ambiente passa-se o mesmo oportunismo desta sociedade de consumo em que vivemos. No “Dia da Árvore”, o comércio faz o mesmo que nos “Dia da Mãe”, “Dia do Pai”, “Dia dos Namorados”, “Dia dos Avós”, “Dia da Criança”, “Dia da Mulher”, anunciando, com a devida antecedência, as espécies de árvores que têm à venda (a maioria delas exóticas), lembrando as pessoas que nesse dia devem plantar uma árvore. O que muitos políticos aproveitam para também plantarem árvores. Esse dia comemorativo até costumava ser na Primavera (não sei se ainda é), altura em que não se devem plantar árvores. Por outro lado muitos políticos das autarquias que aproveitam o “Dia da Árvore” para esse acto de propaganda (plantar uma árvore) são os responsáveis pela drástica

poda das árvores (não são podas são derrotas) das artérias urbanas das respectivas autarquias. No “Dia do Ambiente”, “Dia da Árvore” e outros que tais “Ambientalistas” é ver os políticos aproveitarem-se do facto, para discursarem, plantarem árvores, visitarem Reservas Naturais, etc., quando nunca fizeram nada para a preservação do Ambiente, da Natureza ou da Biodiversidade, antes pelo contrário, autorizam autênticos atentados contra a Natureza. maioria dos podadores das árvores das artérias urbanas e das estradas não sabem podar e quase todos os mandantes dessas podas não só não fazem a mínima ideia do que é podar, como também não sabem quais as utilidades das árvores do meio urbano. O mesmo acontece com grande parte dos munícipes. Por isso, muitas vezes são os próprios munícipes a solicitarem as ditas podas, porque as ramadas das árvores os “incomodam”. Uma árvore é não só uma extraordinária fonte natural de oxigénio (O2), como é, também, um poderoso despoluente atmosférico pelo volume de gás carbónico (CO2) que retira da atmosfera, como ainda é uma grande fábrica de matéria orgânica viva (biomassa). Entre as árvores, as maiores produtoras são as árvores da floresta tropical de chuva (pluvisilva), pois, por se encontrarem nas zonas equatoriais, têm o Sol não só praticamente na vertical, como tiram proveito de maior luminosidade, por os dias serem praticamente iguais durante todo ano. É, por isso, que é nestas florestas que não só se encontram os maiores seres vivos terrestres [árvores que atingem 6000 toneladas de biomassa, produzindo milhares de m3 de oxigénio (O2) e absorvendo também milhares de m3 de gás carbónico (CO2)],

Luís Crespo

Luís Crespo

A

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Vitor Quintino

CRÓNICA 65

como também são as florestas de maior biomassa vegetal. Essas florestas são, pois, o maior “pulmão” do Globo Terrestre, pelo incomensurável volume de oxigénio (O2) que libertam para a atmosfera. Neste Ano dedicado à Biodiversidade, seria óptimo que os políticos mundiais se capacitassem disso, estabelecendo normas internacionais de modo a controlar o drástico e acelerado derrube da pluvisilva. Infelizmente, o fracasso da Cimeira de Copenhaga mostrou bem que os políticos não só são incultos e inconscientes, como também não têm quaisquer preocupações com a qualidade de vida. Estão é mais preocupados com interesses económicos imediatos, como é norma nesta sociedade economicista em que vivemos na actualidade. stamos em pleno “Ano Comemorativo da Biodiversidade”. Em primeiro lugar, a grande maioria das pessoas nem sabe bem o que significa este “palavrão” relativamente recente (não existia quando eu era estudante). Em segundo lugar, não sabe porque razões é necessário preservá-la e, principalmente, não deixar que ela continue a diminuir, como tem vindo a acontecer drasticamente. Então é preciso, primeiramente, explicar que o prefixo Bio, quer dizer vida e que, portanto, Biodiversidade é a diversidade de vida, isto é, todos os seres vivos que habitam o Planeta Terra, que a nossa espécie se tem esquecido que é a grande “Gaiola” onde também vivemos e que é fundamental que não continuemos a emporcalhá-la e a fazer desaparecer espécies, como temos vindo a fazer há milénios, mais intensamente depois da designada “Revolução Industrial”. Em segundo lugar, chamar à atenção que o nosso corpo tem vários “motores”. O coração é um desses “motores” que está sempre a “bater” (trabalhar) e que não pode parar. Quando pára, morre-se. Ora se o coração é um motor, tem de haver um combustível para que este motor funcione. Esse combustível é a comida, que não é de plástico, nem são pedras, mas sim produtos vegetais e animais, isto é, os outros seres vivos. Essa comida que ingerimos é transformada no nosso organismo em energia (calor), através de reacções exotérmicas (digestão) semelhantes à combustão que faz mover os motores mecânicos. Na comida estão as substâncias combustíveis com Carbono (C), Hidrogénio (H2) e Oxigénio

E

A macroalga Undaria pinnatifida

(O2), como são os hidratos de carbono (açucares, farinhas, etc.), lípidos (gorduras, como o azeite, a manteiga, etc.) e proteínas (na carne, no peixe, nas leguminosas, como o feijão, a fava, a ervilha, etc.). Estas últimas têm mais um elemento, o Azoto (N2), que, apesar de nos ser muito útil em reduzida quantidade (é um elemento fundamental do ADN, o nosso património genético), é muito tóxico. Assim, tal como acontece com os veículos automóveis, da comida que ingerimos, o que não é transformado em energia é expelido do nosso corpo sob a forma de fezes. Mas nós temos de ter outro escape para o azoto, que é a urina. Assim, qualquer pessoa entende que os outros seres vivos são a nossa “gasolina” (combustível) e que se não os protegermos e eles desaparecerem do Globo Terrestre, também nós vamos desaparecer, por

ficarmos sem carburante. Depois, mostrar que os outros seres vivos não são apenas as nossas fontes alimentares, fornecem-nos muito mais do que isso, como, por exemplo, substâncias medicamentosas (mais de 70% dos medicamentos são extraídos de plantas e cerca de 90% são de origem biológica), vestuário (praticamente tudo que vestimos é de origem animal ou vegetal), energia (lenha, petróleo, ceras, resinas, etc.), materiais de construção e mobiliário (madeiras), etc. Até grande parte da energia eléctrica que consumimos não seria possível sem a contribuição dos outros seres vivos pois, embora a energia eléctrica possa estar a ser produzida pela água de uma albufeira, esta tem de passar pelas turbinas da barragem e as turbinas precisam de óleos lubrificantes. Estes óleos são extraídos do

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Leonel Pereira

66 CRÓNICA

“crude” (petróleo bruto), que é de origem biológica. Enfim, sem o Património Biológico (Biodiversidade) não comíamos, não nos vestíamos, não tínhamos medicamentos, luz eléctrica, energia, etc. É isto que é fundamental realçar e explicar neste ano dedicado à Biodiversidade, particularmente nas Escolas e nas Estações de Rádio e Televisão públicas e não “aturarmos” enfadonhos discursos de políticos oportunistas. É também importante chamar a atenção dos nossos políticos e governantes, que Portugal, vergonhosamente, não só não conhece a Biodiversidade que tem, como também os nossos governos não têm conferido apoios à investigação científica nessa área. No enorme grupo dos insectos, o desconhecimento do que temos no nosso país é impressionante. O entomologista e Professor da Universidade de Lisboa, José Alberto Quartau, que estuda, há mais de três décadas, cigarras (Cicadidae) e cigarrinhas (Cicadellidae), considera que ainda nos encontramos em considerável atraso no que toca ao conhecimento da nossa Biodiversidade animal. Segundo este especialista, das cerca de 30 mil espécies de insectos que, provavelmente, existem em Portugal, só se devem conhecer cerca de metade, o que mostra um grande desconhecimento da nossa Biodiversidade, pois os insectos constituem cerca de 80% de toda a nossa fauna. Para Portugal Continental, há exemplos recentes da descrição de espécies novas para a Ciência em vários grupos de seres vivos, ocorrendo algumas dessas espécies em locais públicos urbanos, como, por exemplo, no Jardim Botânico da Universidade de Coimbra e no Parque Florestal de Monsanto em Lisboa. Parece incrível, mas é verdade. Citamos alguns exemplos elucidativos. Só em 2009 foram publicadas por vários investigadores, entre os quais dois portugueses (Luís Crespo e Pedro Cardoso), 9 espécies de aranhas (Tegenaria barrientosi, Tegenaria incognita, Trachelas ibericus, Parapelicopsis conimbricensis, Pelecopsis monsantensis, Sintula iberica, Maso douro, Diplocephalus machadoi e Diplocephalus marijae) que não eram conhecidas na fauna do nosso país. Duas dessas espécies (Tegenaria barrientosi e Tegenaria incognita) são novas para a Ciência, tendo sido colhida uma delas (Tegenaria barrientosi) no Jardim Botânico da Universidade de Coimbra e a

O narciso Narcissus x caramulensis

outra (Tegenaria incognita) no Parque Florestal de Monsanto em Lisboa. Isto é um grande testemunho de que não conhecemos a Biodiversidade que existe no nosso país. ntre muitas novidades, o Professor José Alberto Quartau, da Universidade de Lisboa, descobriu recentemente, no nosso país, cinco espécies novas para a ciência de cigarrinhas (Cicaellidae), Lusitanocephalus sacarraoi, Goldeus dlabolai, Brachypterona vieirai, Jassargus remanei, Asianidia melliferae; uma de cigarras (Cicadidae), Tettigetta mariae e uma de borboletas (Lepidoptera), Ommatissopyrops lusitanicus. Em 2009, dois portugueses (Jorge Almeida e Rui Andrade) e um italiano (Lorenzo Munari) descobriram, nas praias do Norte de Portugal, e descreveram uma espécie de mosca (Diptera) nova para a Ciência (Tethina lusitanica) e uma outra espécie ainda não assinalada para a Península Ibérica (Tethina illota). Em 2006, a Professora Isabel Abrantes, da Universidade de Coimbra, em colaboração com George Japoshvili, ampliaram a fauna entomológica de Portugal com mais 3 espécies novas para a Ciência de insectos (Hymnoptera) parasitas (Aphelinus lusitanicus, Pseudaphycus portugalensis e Tetrachnemoidea conimbrensis). Realmente, sabemos muitíssimo pouco da Biodiversidade entomológica que temos no nosso país. Este ano (2010), foi descrita, por investigadores da Universidade de Aveiro (Ana Rodrigues, Vítor Quintino e Adília Pires), uma nova espécie de um verme marinho (Diopatra micrura) na região costeira portuguesa (de Aveiro a Vila Real de Santo António). Estes mesmos investigadores encontraram ainda na costa portuguesa, uma outra espécie do género (Diopatra marocensis), que apenas era conhecida na costa de Marrocos. Ainda, no que genericamente se consideram

E

como vermes, a referida Professora Isabel Abrantes, com a colaboração de outros investigadores portugueses e estrangeiros, descreveu, recentemente, para Portugal, várias espécies de nemátodes (Nematoda) parasitas, novos para a Ciência, como, por exemplo, Meloidogyne lusitanica, um nemátode das galhas radiculares da oliveira (1991) e Paratrichododrus divergens, um potencial vector de vírus do tabaco (2005). Recordo, como foi espectacular a descoberta em Portugal (bacia do rio Nabão) da lampreiapequena ou lampreia-de-riacho (Lampetra planeri), por Pedro Cortes (1989), uma lampreia estritamente dulciaquícola da Europa Ocidental, mas que não tinha sido assinalada para Portugal até aquela data. Em 2008 foi assinalada, por Leonel Pereira da Universidade de Coimbra, uma nova macroalga castanha (Undaria pinnatifida) na costa de Portugal (Norte e Centro). Esta alga, com 2-3 metros de comprimento, é a alga mais utilizada na alimentação (vulgarmente conhecida por wakame) pelas populações asiáticas. No Reino das Plantas (Plantae), apesar de estar relativamente bem estudado em Portugal Continental, também têm sido assinaladas muitas novidades e espécies novas para a Ciência em Portugal. Assim, em 2006, foi descrita uma espécie nova de musgo (Zygodon catarinoi), por 3 briologistas portugueses (César Garcia, Cecília Sérgio e Manuela Sim-Sim) e um espanhol (Francisco Lara). Entre as plantas vasculares ainda se assinalam espécies novas para Ciência em Portugal Continental. Por exemplo, nós próprios, em colaboração com Pedro Ribeiro, descrevemos, em 2007, um novo híbrido de narciso (Narcissus x caramulensis), endémico da Serra do Caramulo, e em colaboração com Paulo Silveira e Nieves Samaniego, em 2001, a Arabis beirana da região Centro de Portugal, uma crucífera (família das couves, nabos, rabanetes, mostarda, etc.), também endémica. Estes são alguns exemplos elucidativos da falta de conhecimento e da falta de investimento na inventariação e estudo da nossa Biodiversidade. É penoso saber que Portugal (incl. Regiões Autónomas), pela sua situação geográfica e condições climáticas, é dos países europeus de maior Biodiversidade e, infelizmente, é também dos países europeus com menor conhecimento da Biodiversidade que possui. É quase inacreditável.

66 • Parques e Vida Selvagem Primavera 2010

Pedro Ribeiro

2000

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