Never let me go (Nat Seyfried) Conto inspirado: A Branca de Neve

Alice Young encarava o retrato que marcava o momento inicial de revés de sua família. Seu pai sorria e passava o braço pelos ombros dela. A mulher fitava sem expressão a câmera quando a foto fora tirada, com a exceção de um sorriso de asco que enrugava seus lábios para cima. Havia um fato que seu pai não sabia, e Alice não seria a pessoa a contar, pois ele mesmo a ignoraria e não acreditaria em uma só palavra do que dissesse. Essa mesma mulher repugnante que ele chamava de esposa e idolatrava, se deitava na cama do detetive oficial do condado de Washoe. Encontrava-se com ele sempre no mesmo lugar, na mesma campina no interior da floresta leste de Sparks. Debaixo da mesma macieira imponente que circundava o tal prado — seus frutos tão carmins e pulsantes quanto o batom que tingia os lábios que o oficial deliciava-se em aproveitar longe dos olhos do Sr. Young. O único reconforto que talvez tivesse, era que o seu pai talvez não a amasse realmente. Ninguém se compararia a sua primeira esposa, a mãe de Alice, que era seu verdadeiro e único amor... Algumas vezes ele deixava bem claro a falta que sentia dela, mas isso não era o suficiente para que se divorciasse da víbora, uma vez que pensava ter uma dívida com ela. Isso começara com o episódio que assustara ao Sr. Young extremamente. Quando Alice tinha apenas seis anos, ela saíra para a floresta perto da casa de seu pai, como de costume, mas a tempestade de neve era tão severa que cobrira a entrada de sua caverna favorita, não muito funda, mas fácil de ser encontrada. Seu pai ficara desesperado ao saber que qualquer tentativa de sair de casa atrás de sua filha seria em vão, uma vez que as ruas e trilhas estavam bloqueadas. Acontece que Ruby Hunt, se encontrava em seu refúgio favorito com o detetive, e ouvira o choro de Alice vindo da caverna. Essa é a versão da história que ela contara para o pai da menina. É claro que

Ruby estaria lá. Era a governanta da casa de seu pai, e deveria estar tomando conta dela, mas é claro que suas prioridades eram outras. Porém a confiança que o Sr. Young possuía em Ruby, e o seu desinteresse em ser demitida, eram motivos para ela reverter toda a situação a seu favor, culpando Alice por ter fugido. Além de seu pai acreditar que a Sra. Hunt havia lhe salvado a vida, obrigou-se a pagar uma dívida imaginária para com ela, pedindo-a em casamento. Não aguentou mais. Alice pegou seu casaco preferido que sua mãe comprara para ela no seu último aniversário, calçou suas botas de caminhada e luvas, saindo pela porta da frente. Odiava o fato de ser obrigada a passar seu intervalo de inverno com o pai. Ele só acreditaria nela no dia que os planos de Ruby descem errado e ele flagrasse o caso que ela escondia com o detetive. Não foi por falta de tentativas de Alice de abrir os olhos do pai, que de nada adiantaram. A neve deixava o chão bastante escorregadio, a desatenção ou a pressa poderiam causar um severo tombo. Pinheiros cercavam a casa de Alice, e alguns flocos aterrissavam graciosamente em seu gorro, e também flutuavam ao seu redor. Sempre que vagava pela floresta por alguns minutos e seguia a mesma trilha de pedras por entre as árvores, a garota achava o mais próximo que poderia chamar de lar nesses dias de inverno em que passar o tempo na casa de sua mãe não era uma opção. O terreno se abria, os pinheiros ficavam cada vez mais rarefeitos, e a luz do sol surgia pálida, o chão refletindo sua claridade devido à tempestade do dia anterior e o aglomerado consequente de neve. Logo que encontrava o riacho, em Janeiro congelado, também divisava o mesmo garoto, agachado e apoiando-se no mesmo tronco oco e despedaçado, com uma brochura de veludo apoiada em seu colo. Uma caneta girava entre os dedos do rapaz freneticamente. Alice observava o movimento, porém jamais entendera como funcionava. Ele a estudava com olhos azuis que pareciam espelhar e combinar com as cores da paisagem. Antigamente, ele era um absoluto estranho para Alice, e sua timidez nunca deixara se dirigir ao garoto. Mas esse era o único pró de gastar esse tempo na casa de seu pai. A diferença entre o passado e o agora, era que quando se viram pela primeira vez eram crianças, e no presente, Alice completara dezessete anos mês passado, enquanto Jared fizera dezoito havia uma semana. O rapaz era a única testemunha de que Ruby realmente não prestava.

— Você arrancaria muitas risadas se mais alguém visse você atravessando o riacho, além de mim — Jared sorriu quando Alice empoleirou-se ao seu lado e recostou a cabeça em seu ombro. — Jar, eu sei que é uma pergunta idiota, mas você acredita em milagres? — perguntou, absorta em pensamentos. — Acho que a fé é única de pessoa para pessoa — respondeu ele, depositando um beijo na testa da namorada. Alice levantou a cabeça para analisar sua expressão. Ele correspondia o olhar, praticamente de modo compreensível. Tanto precisavam de milagres em suas vidas. Como fariam sobreviver seu relacionamento? Em breve seguiriam para universidades... Encaminhando suas vidas... O que deveria fazer? — Não acredito em nada — Alice soltou o que a sufocava por um bom tempo. — A Natureza deveria ser justa. Todos sabem que não é bem assim. Por que aquela bruxa tem todos exatamente onde os quer posicionados? Não continha os soluços. Um atrás do outro. Sentia as lágrimas correrem por suas bochechas, Jared as capturando com os dedos. — Por favor, não me diga que vai se tornar uma princesa vingadora. Você não pode ajudar aqueles que recusarem a oferta. Isso é só uma pequena parte da sua vida, Alice. Assim como eu. Ela balançou a cabeça em negativa. Envolveu o rosto do rapaz com as mãos e encontrou seus lábios.

***

Com tanto que a bruxa mantivesse sua palavra, Alice não falharia com o combinado. Se seu pai descobrisse que se encontrava com Jared frequentemente, e desobedecia com seus deveres e obrigações injustas que lhe eram impostas dentro da casa por Ruby, nunca mais veria seu príncipe outra vez. Porém se o Sr. Young soubesse de tudo que a bruxa lhe fazia pelas costas, o divórcio seria certo com as provas que a filha poderia apresentar.

Logo que destrancou a porta, Alice descalçou as botas molhadas e as deixou na varanda, entrando em casa descalça. No sofá da sala de estar estavam o detetive e a bruxa, muito concentrados um no outro para notar sua presença ali. — Aqui em casa? Você está perdendo a criatividade — falou Alice com desgosto. A bruxa se afastou do homem e fixou seu olhar ofídico na garota. — Saia. — Com o maior prazer — subiu apressadamente os degraus, a torrente de lágrimas retornando ainda mais forte agora do que na floresta. Como seu pai podia ser tão cego? Isso que sentia pela bruxa (como sempre Alice se referia à esposa de seu pai) era realmente algo forte a ponto de relevar tudo? Pois tinha certeza que seu pai notara ao menos alguns indícios. Só não sabia se temia a sua reputação ou se simplesmente uma impotência dominava e entorpecia seu bom-senso. Se é que ele poderia ser chamado de sensato. *** No decorrer de uma semana, tudo continuava exatamente da mesma forma. Igual à outra terça-feira qualquer, Alice preparou seu café da manhã, enquanto o detetive e a bruxa estavam no quarto de hóspedes. Foi quando tudo mudou. Jared apareceu pela porta da cozinha junto do Sr. Young. Os olhos de Alice apenas se dirigiram ao teto, exatamente onde ficava o quarto de hóspedes. Largou a tigela de cereal em cima da bancada, ao que seu pai marchava escada a cima. Alice sabia que adultério era considerado crime em Sparks, Nevada, quando seu pai arrombou a porta e possuía evidências o suficiente para mandar à polícia, nas mãos de um investigador. — É meu príncipe vingador? — indagou ela, considerando que a faísca que crescia dentro de si era o que muitos chamavam de fé. — Claro — respondeu Jared, beijando seus lábios, declarando uma afirmação do futuro que teriam juntos.

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