Um Lugar

A. C. Lyoko A algum lugar desse mundo, ela devia pertencer. Pelo menos isso era uma certeza. Kalista cresceu na rua, desde muito nova foi criada por uma família de sem-teto, ninguém sabe o que ou quem era sua verdadeira família, pois não tinha memória. Mas isso não a desanimou, mas o oposto. Desde cedo ela tinha como objetivo estudar e se esforçar para um dia encontrar sua própria história. Agora ela era estagiária num dos grandes jornais da Espanha! Podia ser melhor? Na verdade, só se tivesse a família e um namorado. Kalista ainda estava começando, não tinha muito dinheiro e sempre economizava em “excesso”, como diziam seus colegas de trabalho, para pagar estudos suas despesas e claro, um dia pagar um grande detetive que encontrasse sua família. Aquela manhã iria mudar seu destino. Ela só não sabia disso. Kalista estava em sua mesa conferindo alguns artigos que haviam enviado à ela para colocar em seu devido lugar no layout do jornal, até que uma colega foi falar com ela, toda animada. - Kalista! Você ficou sabendo da última?! - Não, o que aconteceu, Katherine? - Parece que os LaRouff’s tem um filho perdido. - Como assim?! – Ela indagou surpresa. - Parece que há muito tempo, ela foi sequestrada e feita refém, mas algo deu errado não negociações... - Ah, eu lembro disso! Diziam que era uma garotinha, não? Ela não morreu? - Todo mundo pensou que sim! Mas agora disseram que não! Que ela está viva e por aí no mundo! - E como sabem disso? - Não me pergunte, agora a notícia está nos jornais e bem grande “Procura-se princesa perdida!”. - Nem sabem quantos anos ela tem? - Não quiseram revelar – Respondeu a colega – Parece que vão até fazer um baile com convidados especiais, na esperança que ela apareça! – A colega consultou o celular que tocava – Ah, droga. Estou atrasada, Lewis vai me matar. Até mais Kalista! - Até! – Gritou Kalista para a colega que saiu correndo. Ela pegou um exemplar do jornal que seria lançado no dia seguinte, com a grande matéria sobre a menina sumida. Ela suspirou e jogou-o na mesa. Só estavam tentando trazer atenções para si? Não basta seu dinheiro? Não basta ser famoso querem mais holofotes? Era ridículo aquilo, achavam mesmo que todos iriam acreditar numa besteira dessas? E pior, se fosse verdade, achavam mesmo que poderiam encontrar a criança, depois de anos, já crescida no meio de um baile?! Era impossível.

Não, era até absurdo. - Incrível, não? Kalista quase caiu da cadeira quando viu Dominick se esticando ali sobre ela para ver o jornal. - Não, é bizarro. - Achei que iria concordar – Ele riu. - O que quer? – Perguntou ela. Dominick era o tipo de cara que pouco se confia e muito pouco se sabe. Ele não se abria com ninguém e pouco falava. Na verdade, só Lewis sabia a verdade absoluta sobre ele. - Acabei de falar com Lewis – Ele disse – Ele quer nós dois cobrindo o baile da menina perdida. Kalista se ajeitou e rodou a cadeira para ficar de frente para Dominick, ele se afastou e continuou o olhar sem expressão para ela. - Não está falando sério! – Exclamou. - Estou – Ele suspirou – Eu também acho isso besteira, mas são ordens. Kalista suspirou, uma ordem de Lewis não era ordem, ali dentro, era um mandamento. Ela se levantou como se o corpo pesasse toneladas e pegou a bolsa, assim acompanhou Dominick ao escritório do seu chefe. - Isso não está certo! Além de não querer ir, sou estagiária! Não seria melhor uma jornalista formada? Tipo a Houston? - Houston? Ah, sim – ele pareceu lembrar quem era – bem, o Lewis disse algo como “ela é bonita, vão gostar dela lá”. Não sei de onde ele tirou isso, mas enfim. Kalista deu um soco no braço dele. - Ai! Que braço pesado! Faz o que? Compete com o Hulk? – Reclamou Dominick. - Nós éramos em oito na minha família da rua, sendo seis deles homens. Eu tinha que aprender... – Deu de ombros. Dominick fez menção de falar, mas viu pelo olhar dela que ela não responderia nada. - Por que eu?! – Bufou. - Olhe, isso é uma grande oportunidade para você, pense que está com sorte! – ele tentou anima-la. - Com você? Não é muito provável. Ele fez uma careta, então ela suspirou e fez a melhor cara que pode. Assim, entraram no escritório do chefe. Com a câmera em mãos, Dominick tirou uma foto de Kalista enquanto ela olhava pela janela do trem. O flash a fez piscar algumas vezes e olhar diretamente em seus olhos e ele fez questão de não retribuir o olhar. - O que foi isso? - Um flash. - Dã! – Fez ela – Porque tirou uma foto minha? – Indagou. - Testando a câmera – Deu de ombros. Mas não era verdade, o motivo era que ela ficou linda naquele pôr-do-sol e ele não podia desperdiçar aquela foto. E fazendo isso não mantinha só vivo aquele momento, mas talvez aquela lembrança.

Dominick nunca disse à ela e nem à ninguém que a conhecia, e muito bem até! Por um momento pensou que fosse engano, mas descobriu num belo dia que não, ele realmente a conhecia. Mais do que isso, conhecia seu passado. Ele não queria dizer à ela nem a ninguém pois sabia que isso o afastaria dela, sabia que ninguém aceitaria. E então manteve segredo. Mas agora estava tudo ali, por um triz... Bem, tudo que é bom, dura pouco. O baile seria em duas semanas, então tinha esse momento para aproveitar ao máximo. Antes de dizer adeus... Para sempre. - Dominick, o que precisamos fazer para ir duas semanas mais cedo? – Perguntou ela. - Um monte de coisa. Na maior parte, a baboseira de “temos que verificar se você é confiável e seguro” deles. - Bem, considerando o que houve anos atrás, não é tão baboseira assim. Ela estava certa, e ele sabia disso também. - E depois de tudo isso? – Ela continuou. - Depois disso teremos algumas aulas de etiqueta, além de ganhar algumas roupas bem elegantes para o baile. - Ainda querem que sejamos discretos? Com câmeras do tamanho de um tijolo?! – Ela indagou. - É profissional – defendeu sua câmera – Eles querem que os jornalistas falem com as moças e sejam discretos, para ver se descobrem algo sobre seu passado. Parece que o jornal que conseguir descobrir leva uma bolada, então está bem concorrido. - Estão dando um prêmio para quem achar?! – Disse inconformada. - Sim. - Nunca vão acha-la – Declarou – A Espanha é grande demais, é pouca gente ali e muitos que serão impostores. Além disso, se ela realmente soubesse quem era, já teria voltado, não? Estava certa, ambos sabiam. Mas Dominick sabia que não era bem assim. A sorte e o destino dela estavam jogando juntos dessa vez. - A esperança não morre nunca. - Eu sei – Disse ela vaga. Quando disse isso, de repente se deu conta que o que ela estava fazendo não era diferente da realeza. Ambos só estavam procurando um pedaço perdido e querido do passado. Nunca seriam completos sem isso, nunca seguiriam, totalmente livres, em frente para um futuro melhor. Ao perceber isso ela se calou. Não tinha direito nenhum de julgar a realeza pelas suas ações quando ela fazia o mesmo. Encostou a cabeça no vidro e ficou observando o sol se pôr na campina do lado de fora. Na manhã do dia seguinte, Dominick e Kalista foram almoçar num restaurante de esquina perto do hotel onde estavam hospedados. Kalista não se sentia confortável ao ficar perto dele, mas era melhor do que estar sozinha, ainda mais numa cidade como aquela, grande cheia de becos escuros e ainda

mais, era uma moça bonita sozinha. Qualquer companhia, até mesmo de Dominick seria melhor do que ficar sozinha lá. Assim que terminaram o almoço, ambos tinham aula de dança, com Serena, uma velha de sessenta anos, cara enrugada e chata sobre os passos. Kalista achava que a velha implicava com ela, mas Dominick achava que era com ele. - Confie no seu parceiro! Não estão confiando um no outro! – Dizia ela. - Pare de pegar no meu pé, uva passa – murmurou Kalista irritada. - Calma, é comigo – sussurrou segurando a risada. - Com você? Por que acha isso? - Por que ela diz parceiro! Você é parceira! - Inteligência, ela diz para “Confiar no parceiro”, então ela está falando para eu confiar em você! - Você não confia? – Perguntou ele. - Deveria? Ele parou imediatamente e olhou naqueles olhos verdes acusatórios. Engoliu seco, tentando fazer as palavras virem para fora... Mas nada vinha. Nem seu almoço. O que não seria nada legal, mas queria que qualquer coisa viesse para fora. Mas não havia nada ali. - Ora! Por que pararam? Continuem! Eles continuaram a dançar, mas agora Dominick se movia mais lento. Parecia triste. Kalista não fazia ideia do porque, será que ele nunca ouviu isso? Bem, que fosse, ele teria que se acostumar. Ela era sincera com as pessoas. Os dias estavam passando rápido, já era o final de semana, Kalista estava aprendendo a confiar em Dominick aos poucos, mas sempre ficava com o pé na porta, pronta para virar e fugir se fosse necessário. Naquela noite, ambos estavam esgotados para sair, foi o dia da entrevista com a família. Ainda haveriam mais duas, e só de pensar nisso já deixava ela sem motivação e cansada. Com exceção da mais nova, a Alice, ela era adorável, divertiu eles, foi gentil e brincou até. Mas os outros três eram mais rudes, grossos, secos e esnobes... Ela realmente esperava que a filha mais nova não ficasse igual aos irmãos. Não havia visto o Sr. E a Sra. LaRouff ainda, mas parece que eles só chegariam um dia antes do baile, pois estavam no Canadá a negócios. Kalista desceu e tomou um belo milk-shake de Ovomaltine. Isso sim era bom, ajudou ela a esquecer um pouco a tensão e desconforto. E assim que esvaziou o copo, subiu para seu quarto que dividia com Dominick (camas separadas, graças à Deus!). Antes de entrar, teve a impressão de ouvir Dominick falar com alguém, e ficou parada à porta ouvindo. - Eu sei, não devia ter escondido. Você pode me odiar o quanto quiser... Eu te amo. Droga! Não deveria ser assim! Kalista entrou e ficou encarando Dominick sentado na sua cama com os pés esticados falando com a câmera em mãos. Ele arqueou uma sobrancelha para ela, perguntando se ela ouviu tudo. - Com quem estava falando? – Perguntou ela curiosa enquanto tirava o casaco e jogava na cama. - Ah, com uma garota que eu gosto. - Pela câmera? – Indagou ela.

- Não. Só estava treinando para falar à ela... - Bem, partindo do ponto que sou uma garota, talvez eu possa te ajudar – se ofereceu. Ele a observou se sentar na cama dela e cruzar as pernas esperando a resposta. - Não acho uma boa ideia... – Disse. Então guardou a câmera e foi ao banheiro. Kalista estava curiosa para saber quem era a garota, podia não confiar em Dominick, mas desejava tudo de bom para ele, nos últimos dias aprendeu a ver o outro lado dele, como ele era educado, gentil e divertido. A garota com quem ele ficasse seria sortuda... E a que ele estava apaixonado, devia ser também. - Pode usar – Ele avisou saindo do banheiro enxugando o cabelo. - Obrigada. Ela pegou suas roupas e também foi tomar banho, em seguida iria cair na cama. Os outros dias foram normais, era como se ambos fossem amigos há muito tempo. Depois de uma semana já sabiam o que o outro gostava ou não. Por exemplo, Kalista gostava de comer doces que tivessem base de chocolate, não gostava de morangos porque os achava muito doces, Dominick preferia doces mais azedos como de limão ou chocolate amargo. Kalista não gostava de música alta ou berrante, coisa que Dominick adorava, mas não fazia por respeito à colega, ele não gostava de música lenta, pois o fazia dormir. E por esse mesmo motivo quando ele ficava agitado ela colocava seus fones nele para ele se acalmar. Era algo bom isso. Naquela noite Kalista e Dominick tinham um jantar marcado. Bem, foi marcado após ela perder uma aposta. Dominick apostou que ela não conseguiria comer o pote de morangos todo sozinha, e ele teria que comer um pote de sorvete de chocolate. Ele conseguiu com excelência, ela não. Kalista só percebeu que ele conseguiu por que o pote não estava cheio, quando já tinha concordado com a derrota. Dominick saiu do quarto para dar a privacidade que Kalista precisava para se arrumar. Foi no saguão, na lanchonete e visitou todos os lugares do hotel matando o tempo. Quando voltou, bateu a porta e ela ainda não estava pronta. E estavam com tempo de sobra. - Ei, Como você entrou nisso? –Perguntou ele curioso. - No que? – Ela perguntou do lado de dentro. - Na carreira de jornalista... – Ele se sentou ali do lado da porta para ouvila melhor. - Ah... Isso foi para achar minhas origens... - Seu passado? – Indagou ele. - Sim. - Teve sorte? - Bem, não me formei ainda, espero ter mais sorte com uma carreira formada. - Entendo – Disse ele. - Bem, todo mundo sabe que eu cresci e morei na rua por um bom tempo. Não sei o que seria de mim se Nana não tivesse me acolhido. - Nana era a sua mãe adotiva?

- Mais ou menos, ela me acolheu e cuidou de mim, mas nunca foi registrado. Era uma espécie de ONG dela, eu e mais três irmãos fomos com ela para cidade estudar e ficar na ONG. - E os outros? - As ruas não são muito seguras... Ele ficou em silêncio, já imaginando como cada um deve ter terminado. Tráfico, gangues, violência... Dava para imaginar. - E você? – Perguntou ela – Você não parece alguém que entraria nessa carreira se não quisesse algo grande. - Eu quero ser o maior jornalista do mundo! – Ele exclamou. - Tá certo, Naruto – brincou ela. - Minhas razões não são diferentes das suas. Meus pais eram criados de uma família rica, eu era como um filho para eles e os patrões eram bons me deixando brincar com seus filhos. Os dois mais velhos não gostavam, mas eu não ligava, eu não me importava enquanto brincasse com a... – Ele cortou a fala bem a tempo. - Com a...? – Indagou Kalista. - A mais nova. – Ele suspirou – Ela era a luz entre os filhos, não sei se por ser a mais nova ou o que. Se bem que os outros dois eram adotados, mas só a família, meus pais e eu sabíamos disso... - O que aconteceu? - Ela... sumiu – suspirou – Eu gostava demais dela, eu não aguentava ficar lá, repetia o tempo todo que ela ia voltar, que ela não tinha fugido e não tinha morrido. Todo o dia eu sentava na grama ou nas escadas da entrada esperando ela aparecer... Não estava comendo e nem vivendo bem. Então meus pais acharam melhor se mudarem e deixarem aquele lugar para eu seguir em frente. - Funcionou? – Ela parecia cuidadosa a fazer a pergunta. - Mais ou menos. Eu me tornei jornalista porque queria investigar e descobrir o que realmente aconteceu com ela. - Bem, acho que o certo seria virar detetive não? – Indagou ela. - Isso serve para você também – Ele se levantou, suas pernas estavam ficando dormentes. - É verdade – Ela riu. Kalista abriu a porta e saiu do quarto. Dominick teve que respirar fundo. Ela estava, brilhante, não com lantejoulas, mas tinha um brilho próprio lindo. Como uma chama de esperança naquele vestido negro com desenhos de rosas que lembravam seu cabelo vermelho. Ela sorriu ao ver Dominick. - Muito arrumada? – Perguntou. - Muito linda... – Ele falou baixo. - O que? - Muito gata! – Ele descontraiu se encanto. Ela riu e assim, ele esticou o braço e ela o acompanhou. Esta noite iriam jantar num restaurante mais refinado, não muito longe, mas tinha uma bela vista da Espanha. Durante a noite conversaram sobre tudo, desde suas infâncias até com o trabalho. Foi como colocar a conversa em dia com alguém que não se vê há muito tempo. No final da noite, voltaram ao hotel com o clima descontraído, rindo e brincando. Até que o salto de Kalista quebrou, Dominick conseguiu segura-la a tempo. Ela levantou os olhos castanhos para olhar nos dele e agradecer, mas

de repente o clima entre eles mudou. Ela viu a distância entre ele e ela, tão pequena, e seus lábios tão próximos, tudo tão perfeito... Ela se esticou aproximando seus lábios dos dele, fechou os olhos esperando. Mas Dominick não se moveu, ela abriu os olhos e depois os abaixou desviando o olhar do momento embaraçoso e espremeu os lábios. - Kalista, não... Não acho que vai ser apropriado fazermos isso, sendo colegas de trabalho – Disse ele. Ela engoliu seco, ele simplesmente não a queria. - Desculpa, foi por impulso... – Disse. - Tudo bem – Disse tentando deixar para lá – Vamos? Ele iria oferecer seu ombro de apoio até o hotel, que não estava muito longe, mas ela tirou os sapatos e foi andando descalça e olhando o concreto abaixo dos seus pés, envergonhada pelo o ocorrido. Ela estava distante, andando rápido. Exatamente como iria acontecer à alguns dias, ele queria ter dito essa noite para ela, mas quando viu sua beleza, perdeu toda a coragem. E o fato dela andar rápido se afastando e cortando seu coração só mostrava uma partícula do que realmente iria doer no dia seguinte, quando aquilo fosse definitivo. Se a tivesse beijado como ele queria, só teria piorado as coisas. Ele queria tanto dizer a ela tudo! Só vê-la o satisfazia, mas tinha que ser pessoalmente. Uma foto de jornal não era o suficiente. Nunca seria. Se ela soubesse tudo o que ele sabia, ela nunca mais olharia para ele, nem como desprezo, irritação ou raiva... Estariam longe demais do olhar do outro. - Eu te amo... – ele suspirou enquanto via ela se afastar andando, longe o suficiente para que ela não ouvisse. Depois a alcançou e pegou seus sapatos, seguindo para o hotel. No dia seguinte os dois foram cuidados e preparados diferentes. A primeira coisa que fizeram no dia seguinte foi a ultima aula de dança. Naquela aula só houve a dança, os corpos se movendo, sem mais nada ali. Nem dele nem ela. Ela envergonhada pelo o que percebera, e ele sabendo que o ultimo dia perto dela também seria o dia em que mais passaria longe dela. Só se viram novamente a noite. As repórteres desceram as escadas juntas, para encontrar os parceiros e descer o segundo lance, o tempo suficiente para apresentações. Dominick prendeu a respiração e teve que pensar e fazer o ato de inspirar e expirar lentamente até que seu corpo voltasse a fazer por vontade própria. Kalista provavelmente era a única ruiva nesse mundo que conseguiu ficar linda num vestido lilás. Do outro lado Kalista não estava diferente, há duas semanas, nunca pensaria numa imagem daquelas, mas agora seu coração batia forte no peito e tudo o que ela queria era estar perto dele. Dominick começou a descer o lance de escadas, percebendo que seria seu ultimo momento com ela. Aquela noite, ela o odiaria para sempre, nunca mais se veriam. Na verdade, um pouco mais cedo já tinha aceito ser o fotógrafo de um casamento no dia seguinte, já tinha colocado sua carta de demissão no correio, não podia voltar ao escritório, seria torturador ver a mesa dela vazia a depois ocupado por outro... De frente um com outro, Kalista lhe deu um belo sorriso e ele retribuiu o melhor que pode. - Você está lindo – Ela elogiou.

- Não mais do que você... - O que foi? Você parece triste. - Nada, só cansaço de ir de um lado pro outro hoje. - Bem, meu tratamento foi aqui, não andei muito sorriu. - Melhor descermos logo, estamos atrasando os outros. Ele lhe estendeu o braço e passou por ele, descendo as escadas juntos. A primeira música eles dançaram ainda sem olhar nos olhos do outro, olhando para seus pés. Até que Alice – a mais nova dos LaRouff’s – apareceu. - Não, não! Tá errado! – Disse ela. - Ah, oi, Alice. – Disse alista se abaixando na altura dela. - O que está errado? – Indagou Dominick. - Vocês tem que se olhar nos olhos! Vocês só desviam para qualquer direção! - Mas Alice! - Vamos! Dancem! – Disse ela rindo e saindo. - Ela tem razão - Suspirou Kalista, então olhando para o peito de Dominick enquanto voltava a dançar – estamos apenas nos esquivando. - Desculpa. Eu devia ter explicado isso há muito tempo. - Dominick, você não é obrigada a gostar de mim... - Não é isso, é só... - Senhor Um homem, alto, grande e muito elegante apareceu ao lado deles. Dando um susto em ambos. Ele estendeu a mão e fez reverencia. - Posso pedir sua dama emprestada? Ele deu o sorriso mais educado que pode e deixou que Kalista decidisse se iria ou não. Ela queria suspirar, mas não podia, seria falta de educação. Então ela foi. Enquanto a dança corria solta e todos bailavam, a troca de parceiros começou, Kalista estendia sua mão para Dominick, mas sempre que ele estava para aceita-la, outro a segurava antes e uma moça lhe puxava na outra direção. Kalista apenas ficava frustrada, mas em Dominick era uma facada pois sabia que o resto de sua vida seria assim, não importava o quanto ele se esforçasse para chegar à ela, nunca seria o bastante. Não para ela, não para a sociedade, para ninguém. A distância entre eles não era apenas sentimental ou social, era um abismo e não havia uma passagem para o outro ali. Durante uma das trocas, ele se virou e pegou a mão da primeira moça que veio puxando junto para si para a dança. Ele ficou surpreso ao ver que era Kalista. Ela riu e ele também, era uma ironia do destino joga-la assim na frente dele só para depois ele dizer adeus para sempre. - O que você ia dizer? – Dessa vez, ambos bailavam com graça e vontade, olhando nos olhos como devia ser. - Eu ia dizer que... – Ele suspirou – Kalista, você sabe qual é a diferença entre mim e você? - Além de eu ser uma pessoa legal e você não? – Ela riu. - Estou falando sério. Vendo a feição séria do rosto do amado, Kalista se calou. - O que é? – Perguntou ela. - A diferença é que você merece e vai ter uma vida totalmente diferente da minha a partir de hoje. A distância entre nós é um abismo onde nunca

conseguiríamos atravessar para o outro lado. Eu não pertenço ao seu mundo e não posso ir para ele... - Do que está falando, Dominick? Ele parou de dançar e a puxou com delicadeza até os donos da casa, o Senhor e a Senhora LaRouff. Kalista pensou que era para cumprimenta-los, eles não haviam feito isso ainda. - Senhor e senhora LaRouff – Ela reverenciou junto com Dominick. - Ora, vocês devem ser... Kalista e Dominick, certo? – Indagou sra. La Rouff. - Certo. – Ela respondeu contente. - Vejo algo familiar em você – Observou O senhor LaRouff. - não é impressão sua senhor. – Disse Dominick – E desculpe, mas estão errados. - Dominick! Que história é essa?! – Kalista sussurrou para ele, mas ele ignorou. - Como disse, meu jovem? - Senhor, acho que nenhum dos dois se lembram de mim, sou Dominick Silveira. O filho de Suelen e Eduardo Silveira. - Ah meu Deus! Dominick! Você cresceu! Como está grande! – Disse senhora LaRouff indo lhe dar um abraço – Como estão seus pais? - Mamãe morreu há três anos, papai morreu pouco tempo depois. - Oh, Sinto muito. - Não estou aqui para isso – Disse ele – Você chamou minha colega de Kalista, mas esse não é seu nome. - Dominick, que história é essa? – Indagou ela perdida. - Quando eu a encontrei, não tinha certeza de ser ela mesma, mas nos últimos dias eu tive a certeza absoluta. Ela tem a mesma cicatriz que ficou com forma de libélula da queimadura de quando eu e ela brincamos com as faíscas de velas de aniversário. No pulso esquerdo, entre o dedão e indicador. Ela tem as feições dela e... Nos últimos dias meu coração bateu por ela do mesmo modo como batia por sua filha. - Dominick... – Ecoou Kalista. - Você... Você é... – Indagou senhor LaRouff. - Você e todos nós a chamamos de kalista, mas seu nome verdadeiro não é esse. - Pode tirar sua luva? – Pediu Senhora LaRouff. Kalista ficou paralisada, então Dominick pegou sua mão esquerda e retirou com cuidado, observando a pele branca dela ser descoberta pelo pano e revelando a cicatriz com formato de libélula. Ele passou os dedos pela cicatriz, enquanto senhor e senhora LaRouff tentavam absorver aquela informação. - Você sabia... Dominick levantou os olhos e fitou os dela, o que viu fez seu coração se partir ainda mais, a lágrima que caiu de seus olhos e fez uma risca naquele rosto angelical que ele tanto amou. - Você sabia... Esse tempo todo... E não me contou... - Eu não conseguia dizer – Ele sussurrou. - E você achou que assim era a melhor maneira?! Ele tentou enxugar aquela lágrima mas ela bateu sua mão e o afastou dela num empurrão, deixando outras lágrimas caírem. Dominick não se moveu,

aquele ato já mostrava o desprezo que ela teria por ele o resto de sua vida, e que ela não o queria mais perto dela. Ele já esperava por isso. - Você é... – Tentou dizer a Sra. LaRouff. - O nome dela de verdade é... - Anastácia! – Disse ela puxando a filha numa braço. Kalista abraçou, ainda fora do ar, aquela que dizia e pelo jeito era sua mãe. Alice e os outros dois irmãos logo apareceram. Alice ficou muito feliz em saber que Kalista era sua irmã, mas disse que ficou triste ao ver Dominick ir embora chorando. Chorar? Aquele homem não devia estar chorando! Kalista ignorou o comentário e abraçou a irmã mais nova, e o barulho em sua volta só dizia que agora aquele era seu mundo. Olhando atrás da multidão ela viu Dominick olhando para ela uma ultima vez e assim que os olhares se cruzaram ele sumiu pelo corredor. No dia seguinte aquela era a manchete em todos os jornais da Espanha, A “princesa” encontrada! No baile que todos acreditavam ser besteira. Na verdade, sua mãe lhe revelara que o próprio Dominick havia avisado mais cedo que iriam encontrar a filha perdida. Mas Kalista não tinha ideia do porque ele fizera aquilo. Ela estava sentada nos degraus do saguão de entrada da... Sua casa. Era estranho pensar assim, aquele mundo era totalmente diferente do que estava acostumado, cheio de frescuras, mimos, ouro, regras, etiquetas... Era um mundo completamente diferente! Como ela pode se acostumar? Ela não fazia ideia, nem se iria se acostumar. A porta à sua frente se abriu e ela pode ver a sombra dele se aproximando dela. - O que você está fazendo aqui?! – Exclamou se levantando ao ver Dominick. - Só vim lhe entregar isso. Dominique esticou a mão e ela abriu as suas em forma de concha, e assim ele deixou cair um medalhão dourado nelas. - Isso é... - Você mandou que pegassem suas coisas, mas você esqueceu isso no meu lado do quarto, então eles não pegaram. Achei que fosse importante para você. - Obrigada. Pode ir agora. Ele assentiu e se virou para ir. Mas então ela foi atrás dele. - Eu não acredito que escondeu de mim por tanto tempo! – Reclamou – Eu posso ter uma explicação?! Eu acho que mereço! - Você merece – Respondeu parando dois degraus abaixo dela, ela ainda no alto da escada. Então ele elevou os olhos e olhou profundamente nos olhos verdes dela, seria a ultima vez que os veria pessoalmente – Eu realmente preciso te dizer que não consegui te dizer por que te amo? Sem reação, ele pegou sua mão e colocou uma caixinha de veludo ali. - Dominick... – ela ecoou. - Seus irmãos não gostavam de mim quando éramos pequenos, e quando cresci eu entendi o porque. Não existe lugar para alguém como eu no seu mundo, não posso simplesmente te amar e ficar o quanto puder ao seu lado,

não posso ir ao seu mundo, não é assim. Ninguém iria aceitar algo assim... Nunca. – Suspirou ele. - Dominick... – Ele repetiu. Queria dizer algo, mas isso era tudo o que ela conseguia dizer. - Kalista... Não, Anastácia. Eu realmente espero que seja feliz, pois nada nesse mundo me faria mais feliz do saber que você levanta e sorri todos os dias sabendo que está no lugar onde pertence e encontrou sua família. Seja feliz. – Ele sorriu triste. - Mas Dominick... - Não – cortou ele – Não podemos dar um jeito... Isso é um adeus. Dominick desceu mais um degrau e deixou sua mão escorregar da dela, sabia que nunca mais a tocaria. E assim que deixou sua mão cair, viu os olhos dela e os lábios como se procurassem palavras para pedir que ficasse. Mas não adiantava, a sociedade é preconceituosa, sempre inventariam que ele só a queria por seu dinheiro, que ele tinha amantes... Como ele poderia ter amantes e querer outras tendo ela? A mulher mais linda do mundo aos seus olhos. Ele não conseguiria vier assim, e ela sofreria por isso, não podia ser do modo como deveria. Era apenas um sonho infantil esse conto de fadas, era hora de crescer. Por isso ele tinha que partir e nunca mais lhe falar. Era por ela. Acordar e dormir ao lado dela era seu maior sonho... Mas era uma ilusão que nunca sairia disso: um sonho. Ela o viu se virar e partir sem olhar para trás, entrar no seu carro alugado e sair da residência. E assim que viu aquele homem sair, deixou suas lágrimas caírem silenciosamente, não ligava para o que havia na caixinha, nem para o que lhe cercava, ela não queria nada daquilo. Ela havia achado o lugar onde pertencia, mas não era onde ela queria estar. Ela não queria nada que tivesse naquela caixinha ou na mansão. Queria ele. Mesmo assim, abriu a caixinha de veludo, parte de si esperava um anel, mas quando abriu viu um pingente no formato de sol escrito “Sorria Sempre”, ela percebeu que aquela seria sua única e ultima lembrança dele e dos poucos dias que tiveram juntos. Era incrível como em menos de uma semana haviam descoberto um sentimento tão profundo e forte pelo outro. Ela não queria uma lembrança, queria ele. Mas ao olhar ao redor, percebeu que o que ele dizia era verdade. Não havia lugar no mundo dela para ele. O flash bateu e a noiva sorriu feliz ao lado do seu novo marido. Dominick mostrou a ela a foto e voltou a tirar fotos dos outros na festa. Tinha sido uma péssima ideia ser fotografo de casamentos, toda vez que olhava para o casal feliz, o bolo e alguma moça bonita na festa – inclusive a noiva – Ele imaginava como seria se ela estivesse ali. Ele sentia falta dela, seu coração se apertava em meio a angústia de nunca mais vê-la e a saudade de ver seu rosto, ouvir sua voz. - Dominick! – Chamou a noiva – Você parece cansado, descanse um pouco. - Obrigado.

Ele foi até a proa do navio, deixando a câmera pendurada no pescoço e os cotovelos apoiados nas barras de metal. Então ele pegou a câmera e foi na foto que tirou no inicio da viagem, suspirando com a imagem dela ali. - Eu te amo tanto... – Suspirou ele. Então uma mão muito rápida e habilidosa, soltou as faixas que deixavam sua câmera pendurada no pescoço e a puxou para si. Antes que ele pudesse pegar de volta, estava paralisado ao ver a figura esbelta e linda à sua frente. Se ela não estivesse falando ele teria pensado que já tinha enlouquecido. - Ah, eu sabia que não era teste... Há! Sabia que você tinha tirado mais fotos! - Anastácia... – Ele ecoou. - Oi! Sim, sou eu. E aí, Dominick? – Ela sorriu. - O que você está fazendo aqui? - O que parece? Vim atrás de você! - Como me achou?! - Bobo, achou mesmo que não tinha visto você escrever a carta de demissão? Ou ouvido você aceitando o novo emprego? Estávamos no mesmo quarto! - Mas... - O que? - Porque veio aqui?! – Indagou ele. - Vim atrás de você - Ela sorriu – Do que mais? - Eu não entendo... - Dominick... Você disse que não tinha lugar para você no meu mundo, não tinha como você passar para lá porque havia um abismo que nos separava. Bem, talvez você não possa ir para meu mundo... – Ela tocou sua face e o fez olhar em seus olhos – Mas eu posso ir para o seu. - Anastácia... - Eu vivi nesse mundo desde sempre, eu não pertenço a lugar nenhum... Que eu não queria estar. - Mas ainda sim... - O Abismo – Disse ela – Talvez não dê para contornar... Então eu simplesmente construí uma ponte para ir até você. E não diga que foi em vão que eu me jogo desse barco! - Não! – Ele exclamou e ela riu. Então ele a puxou para seus braços – Você está fugindo... Não está? - Estou – Respondeu ela – Quer ser meu comparsa nessa fuga? – Ela perguntou. Ele se afastou o bastante para ver o rosto dela e seu sorriso repleto de felicidade que ele sempre quis ver. - Quero – Ele sorriu. Então ele a abraçou e rodou no ar fazendo-a rir feliz como nunca. Quando seus pés tocaram o chão novamente, ela passou seus braços pelo pescoço dele e ele se inclinou em sua direção, assim que ela também se aproximou dele, os lábios se tocaram formando seu primeiro beijo com quem ela amava. Quando se afastaram ambos respirando juntos, nos braços do outro, finalmente declararam os sentimentos que eram tão claros. - Eu te amo tanto... – Sussurrou ele. - Eu também te amo. – respondeu ela.

Então ela enterrou se rosto em seu peito largo e aquecido, seus braços à sua volta, ambos esquecendo completamente do casamento onde estavam, só o que importava era que o outro também estava ali. Ela havia finalmente achado o lugar a onde ela pertencia e esse lugar era ali. Qualquer lugar com tanto que os braços dele estivessem à sua volta.

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful