A PEQUENA SEREIA Autora: Athena Bastos

E, como todos os contos, o meu também deveria começar com o nosso querido “era uma vez”. Mas um “era uma vez” talvez não tão distante e talvez sem os adoráveis vestidos. Nem por isso, entretanto, ele eixa de ser um conto mais que perfeito de amor. Era uma vez, eu. Isso mesmo. Se você achar egocentrismo demais que eu fale sobre minha própria história, então fique longe daqui. Mas, o que importa, em minha opinião, não é quem conta a história, ou sobre quem se conta, mas a carga de conteúdo da mesma. E algumas histórias, para mim, devem ser guardadas e repassadas. E se a minha for uma delas, o que eu posso fazer? É por isso que a história que lhes conto talvez deva ser preservada como um verdadeiro tesouro desenterrado do fundo do mar. Pulemos, então, a parte introdutória do “era uma vez”, e passemos à história que vim lhes contar. O prólogo se encerra e o conto começa, num ambiente, sem outras palavras, molhado demais. A água. Sinto a fluidez do ambiente. Sempre tive essa fixação pela água. O silêncio é contagiante, assim como a sensação de paz e tranquilidade. Imagino meus longos cabelos vermelhos espalhando-se e parecendo chamas em meio à água. Meus olhos estão fechados, mas consigo ver tudo, sentir tudo. E nada parece poder me afetar. Nada ali dentro pelo menos. Estou salva em meu mundo, mas isso basta? Subo lentamente, emergindo à superfície da piscina. Ao meu redor somente o ondular das águas. Então ouço seus passos. Todo dia, neste mesmo horário, ele passa por aqui. Ele vai ao vestiário, se troca e passa o restante da tarde na piscina, nadando para ser um campeão. Eu apenas observo, sem nunca trocar uma palavra ou um olhar. Sempre mergulho, deixando apenas meus olhos de fora, para que possa vê-lo passar por ali, e saio antes que ele retorne. Seus cabelos negros contrastam com a alvura pele. O largo sorriso expandindo-se pela face e iluminando a rota percorrida. E de repente me vejo perdida em devaneios. Como seria falar com ele? Conversar sobre banalidades? Nossos assuntos seriam tão diferentes? Queria conhecer seus amigos, frequentar suas festas... Fazer parte do seu mundo.

Ele acabou de fechar a porta do vestiário; é hora de partir. Suspiro e dou um mergulho para ajeitar os fios desalinhados de meu cabelo. Assusto-me quando me deparo com duas caras muito próximas de mim. - Que susto! – Eu berro – O que vocês dois estão fazendo aqui? - Silêncio, Ariel! É capaz de o principezinho te ouvir e descobrir seu grande segredo! Eric, Eric. Sério, Ariel, você devia tentar falar com ele um dia! - Bem que eu queria Lio, mas fica difícil quando sua mãe lhe obriga a nadar quase vinte e quatro horas por dia para ser uma atleta de nado sincronizado quase que perfeita. – e eu saí da piscina. Já estava quase na hora de ele sair do vestiário e seria bom que não me visse. Minha mãe fora uma atleta perfeita, até se casar, ter duas filha e transferir à mais nova delas todo o seu sonho. Ela era bastante rigorosa, o que quase não dava tempo de diversão à filha. Além disso, havia toda a rivalidade existente entre as nossas escolas. Era uma antiga e sem cabimentos. Tudo por causa das disputas nas piscinas da cidade. Enquanto a minha escola se destacava pelo time de nado sincronizado, a dele se destacava pelo time de natação. E enquanto isso, as piscinas e ginásios da cidade eram disputados para treinos e competições. Posso ainda falar também, que quase sempre a escola dele saía na frente, visto que os alunos que a compunham tinham um elevado nível social. Era esse o principal motivo de minha mãe restringir minhas amizades com pessoas como Eric. Não é que as pessoas da minha escola sejam pobres. Mas o nível social e a criação eram completamente diferentes. Mesmo os que tinham dinheiro, em minha escola, eram mais humildes e simpáticos. E eu ainda era diferente: só estudava ali porque minha mãe trabalhava como professora de nado sincronizado. E ela temia que eu pudesse me machucar ao tentar atravessar os muros que nos separavam. A compreensão que a diretoria – ao permitir que eu frequentasse as aulas – e os professores tinham comigo não era a mesma dos demais alunos e, principalmente, dos alunos das demais escolas. Eram mundos distintos, com barreiras invisíveis, as quais nunca eram ultrapassadas. Minha única chance de ser alguém, segundo minha mãe, era tendo destaque no nado sincronizado. Esse era o meu legado. Eu havia nascido para bailar humildemente nas águas, e ele... Bem, ele é herdeiro de um grande império, e a única coisa que temos em comum é a paixão pela água. Uma paixão que para mim significa um futuro e para ele apenas um hobbie.

- Eu concordo com sua mãe, Ariel. Você deve se concentrar no seu futuro. Além do mais, ele é muito diferente de você. Você não seria bem aceita. Você se sentiria deslocada. As pessoas lá são fúteis. Só ligam para as aparências. Você acabaria se machucando, Ariel. - Sou obrigada a ouvir isso todos os dias, Sebastian. Não preciso que você repita. Eu só queria entender como ele vive e que minha mãe entendesse esse meu desejo! Como pode um mundo tão belo quanto o deles, composto por música, artes e poesia ser de todo horroroso? Eu queria apenas experimentar viver como eles, respirar o ar que eles respiram e entender! Para vocês tudo o que ele fazem é destrutivo, mas para mim... Tudo parece mais que um sonho. Quem me olhasse lá, pensaria: essa garota tem tudo. Aqui... Aqui eu sinto um pouco disso. Mas eu quero mais. Não quero viver presa nesta minha caverna. Eu queria ser parte daquele mundo – olhei em direção ao vestiário e suspirei – Vamos embora logo, antes que ele volte. Vou me trocar e encontro com vocês mais tarde. - Não se esqueça do treino, Ariel! – Sebastian avisou com um tom de voz um pouco entristecido pelo meu discurso. “Não vou” pensei, mas nem me dei o trabalho de responder; apenas segui em frente. Peguei minha bolsa e andei em direção ao vestiário. - Ora, ora. Não é a menininha sereia? Eu olhei para as duas meninas que se encontravam no vestiário do ginásio público de esportes. Os cabelos brilhantes quase grudavam no gloss. Pela beleza e pelo tom de voz pude perceber que eram competidoras de natação da escola rival. - Eu não sei quem são vocês duas, mas não quero brigar. - Nós não brigaremos com você, bobinha. Nós não interagimos com pessoas do seu tipo. – Falou a mais baixa das duas. Elas saíram, enquanto eu acompanhava-as com o olhar. Fui tomar um banho e, ao retornar, notei uma pequena abertura na porta pela qual entrei. Ela estava agora semiaberta, por causa da passagem das duas simpáticas nadadoras. Será que tudo sobre o que me alertavam estava certo? Será que eles jamais me dariam uma chance? Seria mesmo impossível? Nunca haveria uma fresta de porta para permitir a minha entrada? Apoiei-me no vão da porta e olhei para Eric nadando. Não podia ser impossível... Devia haver um modo de fazer parte do mundo deles. Eu não queria ficar para sempre presa àquele mundo em que minha mãe me colocou e onde eu parecia não me encaixar.

Ele nadava tão livre, embora nem tudo parecesse tão certo hoje... Espere! Algo definitivamente não estava certo. Onde ele estava? Corri em desespero até a borda da piscina. O pânico começou a se espalhar pelo corpo quando visualizei aquele corpo no meio da piscina. Não pensei duas vezes e pulei para trazê-lo à superfície. Quanto mais tempo na água pior seria para ele. Ele estava inconsciente e alguém deveria fazer algo. Já com ele nos braços e nadando, meio de costas, rumo à borda, eu gritei por ajuda, mas não havia mais ninguém ali. Ajeitei o corpo no chão e não resisti ao impulso de acariciar sua face. Afastei a pulseira o máximo que pude de minhas mãos, puxando-a para um pouco mais acima do pulso, para que não lhe arranhasse, e acariciei seu rosto. Ele abriu os olhos um pouco, mas parecia confuso e tornou a fechá-los. - Calma, eu vou chamar por ajuda. Peguei meu celular e disquei para ambulância e logo depois para a diretoria da escola. “Vai dar tudo certo”, eu repetia mais para mim do que para ele. - Sei que você está inconsciente, mas já ouvi dizer que quando as pessoas cantam, costumam impedir que as outras desistissem de lutar pela vida, então vou cantar para que você continue lutando. – Cantei um pouco, um trecho qualquer de uma música que me veio à mente – Se ao menos meus treinos não me impedissem de falar com você... Eu queria tanto ficar aqui. É horrível saber que tenho que ir embora antes que minha mãe descobrir o que eu faço nas horas livres. Depois de duas semanas, Eric já estava recuperado. Ainda não tinha voltado a nadar, mas já estava de volta à escola. Toda vez que ele passava por mim, na rua, eu suspirava. Daria tudo para que pudesse, ao menos, lhe falar que havia sido eu a pular naquela piscina. Ele até havia procurado pela tal pessoa. Eu não podia, entretanto. Seria como se eu estivesse confirmado, para minha mãe, todos os meus pecados. E uma confissão sem retorno, pois ele jamais me olharia. Um dia após a aula, quando eu estava encostada nos muros da escola sonhando acordada, aquela estranha menina apareceu. Ela tinha os cabelos claros, quase brancos, e os olhos tão azuis quanto o oceano. Pelo uniforme pude saber que era da mesma escola que Eric. - Oi, prazer, meu nome é Úrsula. - Prazer, Ariel. – Minha mãe já havia comentado sobre esta garota. Era uma menina talentosa, mas problemática, que acabaria comprometendo o time de nado

sincronizado caso entrasse para ele. Ela até havia tentado, mas teve sua entrada negada. Quando mudou de escola entrou para o time de natação da escola rival. - Bom, digamos que talvez eu tenha reparado bastante em você e digamos que talvez eu tenha a solução para o seu problema. - Claro. Você faz mágica ou algo do gênero? Porque seria preciso uma para resolver meus problemas. - Se o seu problema tem relação com o meu querido companheiro de natação, Eric, então creio que há uma solução. - Claro. Além de não ter como falar com ele, pelo nível social completamente diferente, minha mãe jamais permitiria que eu me distraísse com uma pessoa como ele, principalmente agora que está chegando uma das principais competições. - Quanto ao Eric, é fácil. Minha mãe trabalha na casa dele e eu faço parte do mesmo time de natação que ele. Apesar de não nos falarmos, não é impossível que eu lhe introduza no mundo dele. Se você quer os pés certos para caminhar por ali, eu posso lhe ajudar. E quanto aos treinos, enfrente sua mãe. Eu lhe dou a certeza da introdução, mas nada posso fazer para mantê-la afastada dos treinos. - E se eu concordar, qual será o preço? - Pouca coisa, para o que se pode ganhar. O que é mais importante do que o amor verdadeiro, minha querida e inocente Ariel? Vejo essa sua linda pulseira... É uma sereia? Acho que eu adoraria tê-la em meu pulso. - Minha pulseira? Mas foi um presente de meu pai, antes de ele morrer. – Eu olhei em direção ao meu pulso. - Antes que você dê sua resposta final, devo avisá-la que existem algumas cláusulas em meu auxílio. Daqui a um mês será a competição de natação. Você terá esse tempo para encantá-lo e conseguir um beijo. Se conseguir, parabéns! Você teve sua entrada para aquele mundo garantida permanentemente. Se ele estiver apaixonado por você, certamente não se importará em saber que você é a filha da treinadora do time de nado sincronizado da sua escola e nem que estuda nessa escola somente por causa disso. Do contrário, creio que esse conhecimento lhe trará certos problemas. Portanto, recomendo que você não comente sobre isso. Eu concordei com um movimento de cabeça. - E, por fim, se não der certo, você deverá desistir do nado sincronizado e entrar para o nosso time de natação. Eu andei analisando você e seria uma ótima

aquisição tê-la em nosso time. Então, o que você me diz? Com o prazo de um mês você conseguiria fazer isso? Na verdade, mais do que um mês seria se enganar, minha querida Ariel. Lembrando que nesse mesmo dia ocorrerá uma competição de nado sincronizado. Portanto a corrida deve começar logo. Você aceitará? Ou será que a querida Ariel acatará as ordens da mamãe e ficará longe deste mundo tão encantador? Não pensei muito e apenas aceitei o acordo. Tinha sonhado com isso a vida inteira, e finalmente havia uma oportunidade. - Não estou com um bom pressentimento, Ariel. – alertou-me Lio quando lhe contei a respeito de minha atitude. Já era tarde, no entanto, para que eu voltasse em minha decisão. Quando uma coisa entrava em minha mente nada conseguia retirá-la de lá. Dei início ao meu plano logo no dia seguinte. Faltei ao treino daquele dia, desafiando minha mãe. Eu sabia que o time precisava de mim, mas eu precisava de um tempo sem eles. Infelizmente isso significava abdicar dos treinos. A parte dois do plano foi colocada em prática logo após. Úrsula me apresentou a Eric e a seu mundo. Tudo era fantástico. Os modos com que se sentavam à mesa, as roupas, os móveis... Tudo era encantador naquele verdadeiro palácio moderno. E Eric... Ele era mais do que eu havia sonhado. É claro que sentia saudades dos treinos e de passar um tempo com a equipe. Mas estar com ele era o que de melhor poderia me acontecer. O grande problema estava no fato de eu ter que conseguir uma prova do seu amor, e a única forma de conseguir isso seria através de um beijo. O tempo estava passando, e nós dois estávamos nos aproximando muito, mas toda vez que parecíamos estar indo para um lado, estávamos indo para o outro. Faltando apenas uma semana e meia para a competição e apenas uma semana para o aniversário de Eric, meus amigos resolveram apressar um pouco as coisas. - Lio, o que vocês aprontaram? E o que o Sebastian faz aqui? - Ele está no ajudando, Ariel. Sei que você pediu segredo, mas sua mãe pediu para que ele lhe vigiasse, e eu acabei contando tudo para ele. Relaxe e aproveite o piquenique. – Lio saiu, cantarolando “Kiss The Girl”, e me deixando sozinha. - O que é isso? – Eric apareceu. - Não sei, também. Acabei de chegar aqui. Acho que alguém quer que façamos um piquenique.

- Então façamos um piquenique! O tempo passava e toda vez que eu olhava para os seus lábios me vinha a vontade de beijá-los, embora eu não pudesse, pois a iniciativa deveria ser dele. Eu não podia forçar algo entre nós. Mas, ao mesmo tempo, queria ter a certeza da minha vitória antes da festa. Uma hora, conseguimos ouvir uma voz dizendo: “Porque ele não a beija logo?”. E eu pude identificar o timbre de Lio. - Você ouviu isso? – ele perguntou e eu neguei – Sabe, tenho passado um tempo muito divertido com você. É como seu eu te conhecesse há muito tempo. A única coisa que me entristece é o fato de você não gostar de nadar... É mágico! - Eu gosto. - Sério? Não me pareceu quando você foi comigo à piscina. Queria lhe contar o quanto eu gostava de nadar, embora não fosse tão divertido ultimamente. Queria lhe contar sobre as medalhas que eu já ganhei com o nado sincronizado ou sobre as coreografias de minha mãe. Mas, então, ele saberia de onde eu vim e o que faço. Saberia de quem sou filha. E riria de mim. Não me trataria como me trata agora. Nem ele, nem sua família. - Apenas um engano – e eu sorri. Por um minuto ficamos sem conversa. Aquela sensação constrangedora se instalou. Ninguém sabia o que fazer. Até que um olhou nos olhos do outro. Estávamos lentamente nos aproximando e eu finalmente descobriria se todo o meu esforço tinha valido. Meus olhos brilhavam, pois faltavam apenas alguns centímetros para que nossos lábios se tocassem. - Ariel! – Sebastian gritava e corria. Parou ao nosso lado, esbaforido. – Ariel, é urgente. Oi, Eric. Eu preciso da Ariel por um minuto. - Tudo bem. Já tínhamos acabado. – ele sorriu e foi embora. - O que houve Sebastian? - Sua mãe, Ariel. Alguém contou por onde você tem andado. Ela quer falar urgentemente com você. Ela vai me matar. - Desculpe-me, Eric. Eu tenho que correr. Castigo, proibição, tudo significava a mesma coisa no meu vocabulário: sem ver Eric por um tempo. Eu começava a ficar desesperada. Precisava olhar em seus olhos verdes e sentir aquele frio na barriga ao vê-lo. Precisava da atração que seus lábios

exerciam em mim a cada encontro nosso. E o desespero somente aumentou quando, um dia, conversando com ele pelo telefone, ele me contou: - Ariel, eu achei a pessoa que me salvou! - Como assim? - Eu achei! Ela é linda! E tem uma paixão incrível pela água. E eu acho que estou apaixonado. Eu sei que é repentino, mas estou muito apaixonado por ela! Não posso dizer quem é, pois ela não quer que todos saibam. Mas eu adoraria que você a conhecesse. Ela irá à minha festa. Será minha acompanhante. Ariel, você é minha única amiga, e eu queria que soubesse isso por mim. Não tive nada a fazer a não ser parabenizá-lo e aceitar. Quem quer que fosse aquela pessoa, era uma mentirosa. Eu tinha salvado Eric! Apesar de não ter como provar, já que a única prova era um culpado, eu tinha sido a pessoa a pular na água e a salvá-lo. Ele não acreditaria em mim, caso eu contasse, mas não podia deixá-lo se envolver com uma mentirosa! Eu tinha que ir à festa! A semana passou rapidamente, bem como a angústia que crescia em meu peito. Eric estava prestes a se comprometer com uma farsante e tudo porque eu jamais tivera a coragem de lhe contar a verdade. E agora eu não tinha voz para isso, pois passaria por mentirosa. - Você está pronta, Ariel? – Lio me perguntou. - Sim. Mas não tenho mais vontade de ir. Ele estará com outra. Não consegui provar para minha mãe que ele pode ser diferente. Não consegui ser a acompanhante dele e nem receber o beijo de amor por que tanto esperava. E ainda tenho que pensar em uma forma de dizer para minha mãe que assinei um contrato com o time de natação daquela escola. - Ariel, você não tinha me contado sobre essa parte! - Eu não esperava não conseguir. - Mais um motivo para irmos até aquela festa e mudar o cenário a seu favor! Não chore Ariel. Ainda não está totalmente acabado! Vamos logo! A festa era de máscaras. A casa estava toda decorada, estilo baile de máscaras veneziano. As pessoas estavam bem vestidas, com máscaras que refletiam as luzes e que chamavam a atenção. Cada uma mais bela do que a outra. Eu, quase apagada pela multidão, estava em meu vestido roxo. Diferentemente de mim, ele descia as escadas, elegante e confiante, seguido por uma menina linda de cabelos presos, mas, perceptivelmente, muito claros. A máscara lhe caía sobre os olhos, transformando-a

numa deusa mística, cujo mistério provavelmente encantava todos os homens daquela sala. - Ariel! – Eric me cumprimentou. - Olá, Eric! – Ele estava tão belo em seu traje, que quase me esqueci da menina que o acompanhava. - Venha aqui! Quero lhe mostrar a minha acompanhante! Ele me puxou para encontrá-la. Assim que a avistamos, no entanto, ela saiu correndo. Tive tempo somente para ver que por de trás daquela encantadora máscara se escondiam olhos profundamente azuis, não conseguindo reconhecer a quem pertencia a aparente bela face. - Onde está ela? Ah, Ariel, como que eu queria que você a conhecesse. - Vamos deixar para outro dia, Eric. – Estava indisposta com a situação. Eu sabia que deveria lutar, mas não queria brincar de gato e rato. Eu me virei e andei em direção à porta. Meu mundo estava desmoronando e não era uma festa que me faria esquecer isso. A competição de nado sincronizado e natação haviam chegado. A de natação seria antes da de nado sincronizado e eu tinha até aquele horário para conseguir o beijo. Eu convencera minha mãe a me deixar participar dos últimos treinos e competir. As arquibancadas começavam a lotar, e os competidores se concentravam. De longe consegui ver Eric e a tal garota. Meu espanto ao vê-lo foi tanto, que não há palavras que o expliquem. Eu jamais esperaria ver aquela pessoa ao lado dele. Uma menina de cabelos claros quase brancos e de olhos encantadoramente azuis, que um dia me fez uma proposta, agora acompanhava Eric. - Ariel? O que você faz por aqui? – Eric perguntou quando nos encontramos. – Não sabia que você gostava desse tipo de competição. - Na verdade... - Na verdade, ela faz parte do time de nado sincronizado daquela escola, Eric. – A menina respondeu por mim. – Ela provavelmente não quis lhe contar para arruinar nosso time. - Ariel, eu confiava em você... - Úrsula, como você pôde? – Lágrimas quentes escorriam por minha face. - Como você pôde, Ariel? Úrsula é a minha heroína. Ela disse que ficou com medo de me contar que era ela, mesmo quando eu lhe disse que me lembrava dos olhos azuis como os mares que cuidaram de mim. Não me lembrava de tudo a seu

respeito, mas da cor daqueles olhos. E da sua pulseira também, a qual ornava os delicados pulsos das mãos que acariciavam minha face. E de como ela parecia amar e conhecer a água. Tenho uma vaga lembrança de comentar sobre os treinos. Então, só poderia ser Úrsula mesmo, que há tanto tempo treina comigo... - Essa pulseira! Essa pulseira é minha, Eric. Meu pai me deu quando fiz dez anos. Ela a pegou de mim. - Eric, querido, você vai acreditar nela? - Ariel, pare com isso! Eu não esperava isso de você! – Eric gritava. - Eu não mentiria para você, Eric. Você sabe disso. O que eu posso fazer para lhe convencer de que fui eu naquele dia? Devia haver algo que pudesse fazê-lo lembrar. Se ele se lembrava da minha fala, talvez lembrasse... Eles viraram as costas e começavam a andar, quando eu comecei a cantar baixinho uma música quase desconhecida. Eric parou, o que fez Úrsula se virar para ele. O olhar em resposta foi um olhar de incredulidade. A dúvida passava por sua cabeça. Então ele olhou para mim. Algo dentro dele se lembrava de mim. - A música... - Sim, Eric, foi a música que eu cantei para você naquele dia. - Por que tudo isso, Úrsula? - Você não está acreditando nela, está? - Sim, eu estou. Eu consigo me lembrar. É exatamente a mesma música, a mesma voz. Por quê? - Por quê? Por que sua mãe não me colocou no time de nado sincronizado, Ariel? Por que eu sempre fui humilhada pela sua família, Eric? Por que você só me deu atenção depois que eu fingi tê-lo salvado? Por que, por quê? São tantos porquês, não? Eu teria tudo. Eu estava treinando com a equipe de natação. Você tinha assinado um acordo, afirmando que ao final de um mês, você faria parte do time de natação, sendo que somente eu poderia cancelar o contrato. Além disso, eu ficaria com o belo, rico e arrogante Eric, que sempre me ignorou. E eu daria o troco na família mesquinha dele. Daria o troco também em sua mãe, cujo time seria prejudicado pela saída da estrelinha. Agora, se vocês me dão licença, preciso me concentrar para a competição. - Você sabe que será banida da minha casa. Não sabe, Úrsula? - Você não pode fazer isso. - Posso e vou!

- E eu não vou cancelar o contrato da sua querida Ariel. Oh, e se me recordo, o tempo acabou Ariel. - Ariel! – minha mãe me chamava. – todos estão à sua procura. Está quase na hora. Eu olhei para eles e olhei para o meu time. Eu não podia abandonar minha família outra vez. Eu me dirigi ao local de concentração da equipe e combinei com eles os últimos detalhes. Nós éramos os próximos e o nervosismo começava a crescer. Se algo desse errado seria culpa minha. Mas não havia mais volta. Já estavam chamando nossos nomes. Era tarde demais para tudo. Enquanto eu me dirigia à piscina, eu vi Eric na arquibancada. Era tarde demais para nós dois. Minha mãe jamais permitiria que eu me afastasse novamente dos treinos, ainda mais por alguém como ele. E era tarde demais para desistir de tudo. A música começou a tocar e meus sentidos perderam-se. A concentração estava toda voltada para aquela água. Bailávamos como se estivéssemos em um balé clássico, dançando “O Lago dos Cisnes” ou uma peça parecida. Meus braços moviam-se automaticamente, bem como meus pés. Aquele era o meu lar. Meu corpo entrava em sintonia com o ambiente e nos tornávamos apenas um. A última nota, então, soou, e eu soube que a música tinha acabado. Era o fim da apresentação. E o fim da minha participação naquele grupo Os resultados saíram, as pessoas deixaram o local de provas, mas eu continuei ali, hipnotizada pela piscina. Já sem a touca, mas ainda com o maiô, respirei profundamente e mergulhei. Deixei meus olhos bem abertos absorvendo todas as variações de sombras na piscina. Via meus cabelos ondulando e se espalhando por toda área. Quando senti que o ar estava indo embora, retornei à superfície. E ele estava lá. - Não sei como pude me deixar enganar pela Úrsula. Não tem como não se lembrar dos cabelos que se espalham feito chamas na água. Eu sorri. Era um sorriso triste, somente para confortá-lo e agradecer o comentário. Mas nada de bom poderia vir ainda. - Parabéns pela vitória! Vocês mereceram. Você estava perfeita. Realmente eu não tinha como tê-la confundido. A sua graciosidade, a forma como consegue se mover delicadamente na água é inigualável. – continuei apenas sorrindo. - Uma pena eu ter de me separar deles. - Separar, por quê?

- Por causa daquele estúpido acordo que eu fiz com a Úrsula. - Eu sei. Seus amigos, Lio e Sebastian me contaram. Mas eu creio que o prazo do acordo foi estendido em algumas horas. Eu olhei-o duvidosa, enquanto ele sorri para mim. E então ele fez o inesperado: inclinou-se sobre a piscina e me deu um beijo. - Agora você não tem que largar o seu time. - Mas... Embora fosse estúpido o contrato, Úrsula era a única intermediária que poderia cancelá-lo. - Há muitas coisas em jogo. Úrsula iria perder a bolsa na escola e a vaga no time de natação se não esquecesse tudo isso. Afinal, meus pais é que conseguiram tudo para ela. Por fim, ela tinha muito mais coisas escondidas do que um simples acordo. - Então, eu não tenho que fazer parte do time de natação. - Exatamente. Não que eu fosse achar ruim isso. Já que seria uma desculpa para vê-la. Agora você terá que dividir seu tempo entre mim e o time. - Certo. Mas há outro problema. Minha mãe, quando descobrir não gostará nada. Ela acha que pessoas como você só atrapalham. Ela pensa que eu não posso desperdiçar energias com outra coisa que não os treinos e, ainda mais, com alguém do seu mundo. Nós somos muito diferentes. Eu tenho muitas competições para participar e eu não posso abandonar minha família. Eu queria muito ficar com você, mas eu não posso... - Por que não, Ariel? – minha mãe apareceu – Porque eu lhe prendo nos treinos? Não sou tão má assim, Ariel. Você pode escolher. Se você não gosta mais de treinar profissionalmente, então não treine. Eu só quero a sua felicidade, filha. E ele não me parece tão mal. Cancelar uma inscrição é muito fácil. Sem falar que o time está preparado sem você, já que você ficou tanto tempo sem treinar. - Você faria isso por mim, mãe? - Eu só quero que você seja feliz. E você, Eric? Não me decepcione. Agora saiam da minha piscina! - Eu sentirei saudades de treinar com vocês, mãe. Muito obrigada! - Para onde vamos agora? – Eric perguntou e me deu um longo beijo. - Bom, tem algo que eu sempre quis fazer... Sabe, eu nunca disse que não gosto de nadar e nadar com você seria legal! - Eu tenho uma piscina em casa, mas acho que você já sabe disso.

- É, eu já visitei o palácio do meu príncipe alguma vezes. Mas nunca fui à piscina dele. - Então vamos correr! - Não precisamos ter pressa! Eu não tenho um prazo para o meu final feliz, dessa vez! Ele me beijou novamente, e fomos em direção a um possível “felizes para sempre”. Um final feliz que, como eu disse anteriormente, era como um tesouro achado no fundo do mar. O meu tesouro, agora compartilhado com vocês.

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