Quer dizer família - CahACC

- Minha culpa, minha culpa... É tudo minha culpa. As chamas tomavam conta da casa. E era tudo culpa minha. x.x.x - Lilo! Acorde! Você tem cinco minutos! Abri os olhos. A luminosidade que entrava pela janela me incomodava. Virei-me para o lado e vi meu relógio. 06h55. - Merda – sussurrei. Levantei-me rapidamente, vesti o uniforme e corri para o refeitório. O café começava às sete horas em ponto, e ia até 08h30. Tínhamos de estar na sala de aula às nove. No caminho, os mesmos olhares de reprovação. - Olha, a Estranhilo perdeu a hora – ouvi alguém gritar. Apenas ignorei. Se batesse nela, seria suspensa. De novo. Não que ser suspensa não fosse bom, mas seria a quarta vez naquele semestre, e o Sr. Bubbles não ficaria muito feliz. Cheguei ao refeitório faltando menos de um minuto para o início do café da manhã. Sentei-me no lugar de sempre e aguardei o rotineiro discurso matinal. - Ei, Estranhilo! Virei-me e dei de cara com Mirto. - O que foi? – perguntei. - Me disseram que você não ia na aula de ballet hoje à tarde. - Eu vou sim, por que? - Queria confirmar. Bem, não faria falta mesmo... Você deveria ter morrido junto com a sua família – falou com uma risadinha. Não aguentei e parti para cima dela. Não ligava para suspensão. Aquela garota merecia cada tapa, arranhão, mordida... - Lilo, pare! – ouvi Kumun gritar. – Ou você vai ser suspensa da apresentação. Parei no mesmo instante. A apresentação era tudo para mim. - Não! Kumun, por favor! Não faça isso! - Então, pare! Vá falar com a Nani ao invés de descontar a sua raiva nos outros. - Mas ela mereceu! Ela... - Não importa, Lilo! Se controle! Dei as costas para a bagunça e sai caminhando lentamente até o escritório de Nani. Bati na porta três vezes e entrei. - Ah, Lilo... O que foi que você fez dessa vez? x.x.x - E cinco, seis, sete, oito – falou Kumun.

Comecei a me movimentar no ritmo da música. Meus pés se mexiam por vontade própria, assim como meus braços. Girava com perfeição. Joelhos esticados, braços juntos, cabeça marcada, ponta perfeita... - Bom, Lilo! Continue assim! Sorri, era isso que eu esperava. Continuei dançando até a música acabar. Terminamos a coreografia com duas piruetas em total sincronia. - Muito bem, garotas! É isso que eu espero de vocês na apresentação! Todas começaram a conversar. Com todas eu quero dizer Mirto e seu grupo de amigas. Vadias... x.x.x - Lilo? – ouvi ao baterem na porta. - Entra! Estava deitada no chão do meu quarto vestindo apenas um camisetão e ouvindo me deus Presley quando vi um garoto entrando em meu quarto. - Wow! Que merda tá acontecendo aqui? - Lilo, esse é Steven, seu novo companheiro de quarto. - Um companheiro de quarto? Ai, obrigada Nani! – falei abraçando-a. - Expliquei já as regras para ele, mas fique à vontade para mostrar o local para ele. - Está bem, Nani – falei sorrindo. – Tchau, até outro dia! Fechei a porta na cara dela e me virei para o garoto. - Então, Steven... - Stitch – falou me encarando. – Me chame de Stitch. - Está bem, Stitch... – disse, sentando-me em minha cama. – O que você fez para vir parar aqui? Ele virou o rosto e ficou encarando a janela. Barras de ferro arruinavam minha vista. - Quer sair? – falei. – Digo, ir lá fora. Não costumamos sair do campus muito. E tem uma praia do outro lado da rua. Ele apenas assentiu. Fui até o corredor e olhei para ver se havia alguém vindo. Ninguém. - Vamos! Saímos silenciosamente e passamos pelos corredores desertos do colégio. Ao passarmos na frente da cozinha, parei. O cheiro que vinha de lá era delicioso. Entrei rapidamente e peguei uma garrafa térmica e enchi-a de café. - Quer? – perguntei a ele. Stitch apenas assentiu. Abri-a e coloquei um pouco na tampa. Entreguei a ele, que bebeu rapidamente. Comecei a observá-lo. Tinha olhos pretos e um cabelo azul bem curto. Ele me deu um sorriso. - Obrigado. - De nada. Você agora é minha O’hana. Ele me olhou com cara de quem não havia entendido nada. Eu ri e continuei andando até chegar no lado de fora do colégio.

- Eu nasci no Havaí, sabia? Antes de eu vir para cá, eu morava com a minha O’hana. O’hana quer dizer família. Família quer dizer nunca mais abandonar ou esquecer. Você é minha família agora. Dizendo isso, atravessei a rua e entrei correndo no mar, de roupa e tudo. Como era boa aquela sensação de estar na água! Quando voltei para cima, ele estava lá, sentado na areia, observando o horizonte. E foi aí que eu notei a enorme cicatriz que cortava seu rosto. Como não havia notado aquilo antes? Fiquei mais algum tempo sonhando acordada, até perceber que ele não dava sinal de que iria entrar no mar. - Você não vem? – perguntei. Ele fez que não com a cabeça. Saí da água rapidamente e peguei minha toalha no chão. - Vamos voltar para a escola então. Dei uma mão para ele e ajudei-0 a se levantar. Voltamos para o colégio e fui tomar um banho. Cheguei de volta no quarto e encontrei-o mexendo em minhas coisas. Na minha foto. - Hey! – gritei pela porta. – Não mexe nisso aí! Não mexe nunca mais! Arranquei a foto da mão dele e coloquei-a novamente em baixo do meu travesseiro. Aquela era a minha única lembrança... - Desculpe – sussurrei. - É a minha família. Era a minha O’hana. Sabe por que eu estou aqui? – uma lágrima escorreu pelo meu rosto. – Eu os matei. Eu coloquei fogo na minha casa num acesso de fúria e fui a única que conseguiu sair. O Sr. Bubbles me mandou para cá para me dar uma “correção de rumo”, mas eu não preciso de nada disso – meu rosto já estava encharcado. – Eu só preciso de uma família... A Nani me leva para sair com ela e com o namorado dela às vezes, mas não é a mesma coisa. Eu preciso de alguém que me entenda, alguém que me faça companhia... Eu preciso de um amigo, só isso, E então, ele me abraçou. Não estava esperando por aquilo. Durante essas poucas horas que passei com ele, não achei que era do tipo dele. - Sei como se sente – falou. – Eu também não tenho família. Eu sou o patinho feio, sabe? Preciso achar alguém. Ele me soltou, foi até sua cama e apagou a luz. - Boa noite, Lilo – falou deitando-se. x.x.x - Olha, a Estranhilo ganhou um amiguinho! – ouvi Mirto falar no café da manhã. Olhei para Stitch. Ele ignorava. Estava com seu iPod ligado e eu conseguia ouvir a voz de Elvis no último volume saindo dos fones. Sentei-me na mesa de sempre e ele sentou-se ao meu lado. Era a primeira vez que alguém se sentava comigo. x.x.x

Acordei naquele domingo por volta das 10h00. Virei-me e não vi Stitch em sua cama. Ela estava impecável, como se ninguém tivesse dormido lá. Havia apenas um pedaço de papel.

“Lilo, não fui 100% honesto com você. Quando você estiver lendo essa, carta, provavelmente estarei longe. Sei que fazem apenas três dias que nos conhecemos, mas você é especial para mim. Você foi a única amiga que eu já tive, e eu quero te proteger. Mas, tenho que te contar algumas coisas. Para começar, meu nome é 626. Nunca tive família, fui abandonado logo depois de nascer e fui criado num programa do governo para desenvolver „super-jovens‟ por dois cientistas: Jumba e Pleakley. E eu fugi. Fugi porque estava cansado de ser usado. Mas, ontem, vi os dois. E estou com medo que te peguem, que te façam mal. Por isso, fugi. Não quero que te machuquem. Você é minha O‟hana agora. E O‟hana quer dizer família. Família quer dizer nunca mais aban...”
Nunca terminei de ler aquela carta. Senti apenas uma forte dor em minha cabeça, e depois, nada. x.x.x - Lilo, acorde, por favor! Abri os olhos lentamente. A luminosidade me incomodava. - Stitch? Ele assentiu, abrindo um sorriso. - Ah, graças a Deus que você está bem. Se tivessem te feito mal, juro que acabaria com eles... - O-o que aconteceu? - Te pegaram. Você chegou a ler a carta? Assenti. A carta. Naquela que ele dizia que eu era a O’hana dele... Abracei-o com força. - Por favor, prometa que nunca vai me abandonar. Por favor... – implorei com lágrimas nos olhos. - E-eu prometo – ele respondeu.

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