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Manual para Animadores da Justiça, Paz e Integridade da Criação

Manual para Animadores da Justiça, Paz e Integridade da Criação

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Edição virtual ad hoc do Manual da JPIC elaborado pela Comissão de Justiça, Paz e Integridade da Criação (Roma, 1997) e distribuído para uso interno no II Fórum Social Comboniano de Belém, 2009.
Edição virtual ad hoc do Manual da JPIC elaborado pela Comissão de Justiça, Paz e Integridade da Criação (Roma, 1997) e distribuído para uso interno no II Fórum Social Comboniano de Belém, 2009.

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Manual para Animadores da Justiça, da Paz e da Integridade da Criação

Edição Digital – II FC, Belém 2009

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COMISSÃO PARA A JUSTIÇA, A PAZ E A INTEGRIDADE DA CRIAÇÃO (JPIC)

NOVOS CÉUS E NOVA TERRA

Manual para animadores da justiça, da paz e da integridade da criação

Título Original: Manual for Promoters of Justice, Peace, Integrity of Creation; The JPIC Promoters Group, c/o The Executive Secretary, JPIC Commission, Rome, 1997. Tradução Portuguesa: Armando Marques da Silva Lic. em Teologia, The Catholic University of America, Washington Lic. em Filosofia, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro

FONTE: http://pt.ismico.org/content/category/7/39/45/ - Missionários da Consolata

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copyright 1999 EMI da Coop. SERMIS Via di Corticella, 181 - 40128 Bologna Tel. 051/32.60.27 - Fax 051/32.75.52 web:http://www.emi.it e-mail:sermis@emi.it N.A. 1370 ISBN 88-307-0861-5 _____________________________________________________________________ Impresso no mês de Setembro de 1999 na Gráfica PIMA por conta da GESP - Città di Castello (PG)

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ÍNDICE

0.0 INTRODUÇÃO 7 0.1 OS VÁRIOS CONCEITOS DE JUSTIÇA 8 0.2 PARA QUE SERVIRA UM MANUAL PARA ANIMADORES DE JPIC? 9 0.3 COMO SE FEZ ESTE MANUAL? 10 PRIMEIRA PARTE: LENDO OS SINAIS DOS TEMPOS 1.1 A INJUSTIÇA CONTRA A HUMANIDADE 11 1.1.1 A ordem econômica mundial de hoje 11 1.1.1.1 Para um modelo novo de desenvolvimento 14 1.1.2 A ordem política mundial atual 14 1.1.2.1 Militarismo e comércio de armas 15 1.1.2.2 Minas anti-pessoal 16 1.1.3 A realidade demográfica atual 19 1.1.4 As crianças 19 1.1.5 As mulheres 21 1.1.5.1 Exemplos de empenhamento a favor das mulheres 21 1.1.5.2 O eco-feminismo 25 1.1.6 Os refugiados 25 1.1.7 Os idosos e os incapacitados 28 1.1.8 As injustiças culturais e religiosas 28 1.1.9 O racismo 29 1.1.10 A violência 31 1.1.11 Fatores duma globalização manipulada 33 1.2 INJUSTIÇA CONTRA O AMBIENTE 1.2.1 A integridade da criação 34 1.2.2 Os oceanos dos mundo 35 1.2.3 A poluição da terra e do ar 35 1.2.4 A desertificação e a erosão do solo 35 1.2.5 A desarborização 36 1.2.6 O efeito de estufa 37 1.2.7 Esgotamento da camada de ozônio 37 1.2.8 A ligação entre a injustiças sociais e injustiças ambientais 37 1.2.9 Exemplos de compromisso com o ambiente 38 1.2.10 Comentario final 42 SEGUNDA PARTE: FUNDAMENTOS BÍBLICOS PARA A JPIC 2.1 INTRODUÇÃO 43 2.1.1 Os relacionamentos na Bíblia 44 2.1.2 O relacionamento de Deus com os seres humanos 44 2.1.2.1 Nas Escrituras Hebraicas (Antigo Testamento) 44 2.1.2.2 No Novo Testamento 45 2.1.3 Relacionamento entre os seres humanos 45 2.1.3.3 As alianças: Sinaítica e Levítica 45 2.1.3.2 O relacionamento de Jesus com as pessoas 46

4 2.1.4 O relacionamento dos seres humanos com o ambiente 47 2.1.4.1 Relacionamento com a terra 47 2.1.4.2 Relacionamento correcto com os animais 47 2.1.5 Os livros sapienciais 47 2.1.6 Os profetas 47 2.1.7 O martírio social dos nossos dias 49 2.2 O REINADO DE DEUS 57 2.3 A CONVOCAÇÃO AO JUBILEU 60 UMA CONVOCAÇÃO PARA REFAZER A IMAGEM DE JESUS E DA SUA MISSÃO 60 2.3.1 A convocação ao Jubileu tem uma dimensão sócio-espiritual 60 2.3.2 A visão de João Paulo II para o Jubileu do Ano 2000 61 2.4 REFLEXÕES TEOLÓGICAS SOBRE TEMAS ESPECÍFICOS 63 2.4.1 A incarnação 64 2.4.2 A ressurreição – pentecostes 64 2.4.3 A conversão 65 2.4.4 A libertação 68 2.4.5 Dois conceitos de salvação 69 2.4.6 Teologia da Vida 72 2.4.7 A teologia de feminino 73 2.4.7.1 Teología do eco-feminismo 74 2.4.8 Breve reflexão sobre a economia na Bíblia e no cristianismo 75 2.5 UMA ESPIRITUALIDADE DA JPIC: O ASPECTO COMTEMPLATIVO 76 2.6 A LITURGIA: JUSTIÇA E CULTO 79 2.7 REFERÊNCIAS BÍBLICAS SOBRE TEMAS DE JPIC 80 TERCEIRA PARTE: DOUTRINA SOCIAL DA IGREJA E ANÁLISE SOCIAL 3.1 A DOUTRINA SOCIAL DA IGREJA 3.1.1 Introdução e sumário histórico 85 3.1.1.1 Lista de encíclicas sociais que acentuam temas de JPIC 87 3.1.1.2 Temas: a Doutrina Social da Igreja 90 3.1.1.3 A paz e a teoria da guerra justa 97 3.1.1.4 A doutrina social das conferências episcopais e de superiores maiores 97 3.1.1.5 A dimensão social da santidade e do pecado 100 3.1.2 ANÁLISE SOCIAL 3.1.2.1 Introdução 101 3.1.2.2 O método da análise social 102 3.1.2.3 Outro modo de focalizar este método 104 3.1.2.4 Uma abordagem prática 105 QUARTA PARTE: NOVA IMAGEN DA VIDA RELIGIOSA DESDE A PERSPECTIVA DA JPIC E NOVA IMAGEM DA IGREJA 4.1 NOVA IMAGEM DA VIDA RELIGIOSA DESDE A PERSPECTIVA DA JPIC 4.1.1 Introdução 109 4.1.2 Nova imagem da vida religiosa desde a perspectiva da JPIC 110 4.1.2.1 Para uma nova teologia dos votos 110 4.1.2.2 Uma abordagem bíblica dos votos 112 4.1.2.3 A comunidade 115

5 4.1.2.4 Comentário final 118 4.1.2.5 Extractos de Documentos Capitulares de várias Congregações Religiosas 118 4.1.3 Redefinir a Igreja 120

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PRÓLOGO À EDIÇÃO ITALIANA Nestes tempos mais recentes, a caminhada da Igreja e da missão têm sido marcadas, cada vez mais, pela dimensão Justiça-e-Paz. A procura e a defesa destes valores constituem uma dimensão fundamental da história humana, do caminho da salvação de todos os povos, e da sua integração na criação e na família humana universal. A Igreja, como comunidade de fé que é, deve ser testemunha corajosa da justiça e da paz, que são valores peculiares da sua missão evangelizadora, de forma que a promoção dos mesmos deverá fazer parte do programa pastoral de cada comunidade cristã ( Cfr. Ecclesia in Africa, 106-107). “Juntamente com a mensagem evangélica, a Igreja oferece também uma força libertadora e defensora de desenvolvimento, precisamente porque leva à conversão dos corações e das mentalidades; faz com que se reconheça a dignidade de cada pessoa; predispõe para a solidariedade, para o empenho, para o serviço aos irmãos, e integra o homem no projecto de Deus” (Redemptoris Missio, 59). Mas como havemos de dar incremento a um novo modo de pensar e de agir que possa ser, ao mesmo tempo, crítico e criador no que toca à realidade individual, social, económica, política e religiosa, que precisa de ser iluminada, interpretada e até, porventura, modificada? Como havemos de promover transformações capazes de sustentar os direitos dos mais pobres e de realizar a justiça para todos? Foi precisamente para responder a estes desafios e descobrir as potencialidades deste ministério que a Comissão Justiça, Paz e Integridade da Criação (JPIC) da Associação dos Superiores e Irmãs Superioras Gerais (ASG/AISG) decidiu preparar um manual de JPIC em várias línguas. O objectivo deste manual é dar a possibilidade de reflectir seriamente sobre a ordem mundial, examinando com atenção os problemas da justiça antes de passar à acção concreta. Portanto, não se trata de um livro de biblioteca: este manual pretende ser um recurso para uso das comunidades cristãs que pretendam renovar-se, um instrumento de trabalho para grupos comprometidos com a transformação das sociedades, um meio de comunicação e de renovação para todos os que acreditam na dignidade e nos direitos de cada pessoa humana. Vem hoje à luz este manual em língua ……….italiana….para responder aos muitos pedidos de um auditório interessado e aberto a esta nova dimensão que é própria da vida de fé cristã e da evangelização. O grupo da Rede África/Europa Fé e Justiça (RAEFJ - Antena Itália (Roma) tratou da sua tradução e adaptação à nossa língua e à nossa cultura. Fazemos votos para que se possa tornar um instrumento eficaz no seio das comunidades, dos grupos e das paróquias, para que o ministério da Justiça e da Paz seja um estímulo à renovação da consciência, da vida e do serviço daqueles que têm fé, vivem e trabalham ombro a ombro com os mais pobres deste mundo. GRUPO REDE FÉ E JUSTIÇA ÁFRICA/EUROPA - ANTENA ITÁLIA (Do original inglês)

7 INTRODUÇÃO

...Para anunciar aos pobres uma mensagem de alegria; para proclamar a libertação aos prisioneiros e a vista aos cegos; para devolver a liberdade aos oprimidos…

0.0. INTRODUÇÃO  Nos “pueblos jóvenes”, na periferia de Lima, Valentino está a quebrar a dura rocha da encosta da serra para construir uma casa para a sua esposa grávida e para os filhos que já tem. Foi expulso da sua terra, primeiro pelos terroristas, depois pelos militares, acabando por se juntar à onda humana de refugiados. Desempregado e atacado pela tuberculose, mas ainda de espírito invencível, Valentino vai tratando das suas plantas em vasos de lata.  Durante a guerra da Bósnia, 80.000 raparigas e mulheres, com idades entre os 8 e os 80 anos, foram violadas.  Aninhada na esteira da sua cabana, uma jovem refugiada ruandesa está a morrer de SIDA. E, no entanto, ela é o único sustento das suas duas irmãzitas e do seu filho recém nascido.  Mais de metade das florestas tropicais do mundo desapareceu desde 1950 para cá, ao ritmo de mais de 4.000 metros quadrados por segundo. As florestas são o habitat de populações indígenas e de milhões de espécies biológicas. Regulam os climas e impedem tanto as inundações como os desabamentos. É delas que provém mais de metade dos nossos medicamentos. Para um cristão, ficar calado e passivo perante tragédias, violências e destruições desta magnitude, é o mesmo que negar o Evangelho. Logo no início do seu ministério público, Jesus quis dar a conhecer a missão do cristão: “O Espírito do Senhor está sobre mim; pelo que me ungiu e consagrou, e me mandou para anunciar aos pobres uma mensagem de alegria, para proclamar a libertação aos prisioneiros e a vista aos cegos; para devolver a liberdade aos oprimidos e pregar um ano de graça do Senhor”. (Lc 4,18-19) Jesus também disse: “Eu vim para que tenham a vida, e a tenham em abundância”. (Jo 10,10) Os seres humanos, e bem assim todo o conjunto da criação divina, estão a ser privados da vida. A paixão pela justiça; o desejo de paz e não-violência; a solicitude pela integridade da criação como um todo (JPIC), são essenciais para se poder viver segundo o Evangelho. Não são uma opção, mas, sim, um estilo de vida. O empenho em favor da justiça e a participação na transformação do mundo são uma dimensão fundamental da pregação do Evangelho e são essenciais para a missão que a Igreja tem de libertar a humanidade de toda e qualquer situação de opressão ( Giustizia nel Mondo, 5).

8 A justiça e a paz não são palavras novas no nosso vocabulário, nem tão pouco são conceitos novos na teologia e na missiologia. Mas assumiram um sentido novo na nossa procura do porquê, o quê e o como da missão e duma nova evangelização no dealbar dum novo milénio. A expressão “integridade da criação” é relativamente nova e continua a adquirir uma importância cada vez maior por causa do estado precário em que se encontra actualmente o nosso planeta. O compromisso com a JPIC difere da acção social ou do ministério social na medida em que tem a ver com um estilo de vida que envolve todas as actividades próprias do nosso ministério. Em alguns contextos e entre alguns grupos, por razões várias, sente-se a necessidade de designar o compromisso com a JPIC de outra maneira. De entre as propostas que já foram sugeridas indicamos as seguintes:  um chamamento renovado ao apostolado;  um programa bíblico renovado;  a promoção do Reino de Deus no mundo actual.

Quando se fala de JPIC, argumenta-se sobre a designação de “pobre”, ou seja, se se deva alargar àqueles que se encontram em necessidade do ponto de vista psicológico, espiritual, emotivo, etc. Neste manual, o termo “pobre” refere-se principalmente àqueles que são pobres do ponto de vista material; as outras categorias de pobres também devem ser tratadas com justiça, mas isso é assunto de reflexão e de acção a nível diferente. 0.1. Os vários conceitos de justiça À pergunta “Por que razão se deveria trabalhar em prol da justiça?” podem dar-se muitas respostas. As pessoas trabalham pela justiça:  pelos seus irmãos e irmãs que sofrem e continuarão a sofrer até que haja justiça;  porque sonham com um mundo em que todos serão iguais e verão a sua liberdade tratada com respeito;  porque estão convictas de que é do melhor interesse de todos que se faça justiça;  porque acreditam em Deus;  porque o Evangelho nos manda procurar o reino da justiça;  porque são filhos de Deus, criados à sua imagem e semelhança, ensinados pelo Salvador e formados pelo Espírito Santo. Analisemos, então algumas das maneiras de entender o que é a justiça. a) A justiça anda associada à imagem da balança. Tem por definição dar a cada um o que lhe cabe. Neste sentido, ela não é mais que recompensa e castigo. b) A justiça tem como referência as necessidades, os direitos e os deveres da pessoa na sociedade. Cada qual tem a responsabilidade de agir para com os outros de tal maneira que lhes garanta aquilo de que têm necessidade para viver, recompensando as boas acções e respeitando os direitos fundamentais. c) A justiça refere-se ao ser mais profundo da pessoa e, portanto, o objectivo visado nem é um resultado socialmente desejável, nem a obediência à lei moral, mas sim a pessoa humana. A justiça, aqui, não se identifica com um governo “ideal”, nem com a conformidade

9 com uma lei moral objectiva mas, antes, é aquilo que a pessoa justa realmente pratica; há uma capacidade moral, um primado da justiça em relação às outras virtudes. d) A justiça é uma questão de relações justas entre as pessoas, entre as pessoas e a criação, entre as pessoas e Deus. A procura da justiça implica um empenhamento em criar relações construtivas e libertadoras entre todas estas entidades. e) Por fim, a justiça pode ser entendida como o modo de ser e de agir de Deus, a ele se podendo reconduzir todos os outros modos de entender a justiça, mas com a adição do elemento gratuidade. Deus é sempre justo, mas a justiça de Deus é algo mais. É o que entrevemos na parábola do Bom Samaritano e na narrativa a respeito de Job. A justiça divina indica-nos o ideal do mais e melhor fazer, e é uma justiça que vai para além da nossa visão limitada daquilo que é correcto e justo. É uma justiça sem limites rígidos, uma justiça feita com generosidade, uma justiça que faz tudo o que é necessário e ainda um pouco mais. Onde abundar esta justiça também abundará a alegria; toda a criação é honrada e salvaguardada; e há paz. É o dom de Deus e, ao mesmo tempo, algo por que se deve lutar1. 0.2. Para que servirá um manual para animadores de JPIC? Com o decorrer do nosso intercâmbio regular de experiências, reflexões e procura de respostas cada vez mais pertinentes, o grupo de promotores da JPIC, que representava mais de 50 Congregações religiosas internacionais em Roma (veja-se a listagem em Apêndice), sentiu-se a necessidade de elaborar um manual. Além disso, as nossas irmãs e irmãos no terreno pediram-nos um “instrumento” para ajudar aqueles que estão à procura do como da missão no contexto do mundo de hoje. A proposta dum manual surgiu pela primeira vez há dois anos. No decorrer da sua elaboração fomos vendo, progressivamente, textos, documentos e recursos audiovisuais que estão disponíveis para a formação em JPIC. Este manual deseja ser mais um desses instrumentos e, por isso, não contém absolutamente todas as respostas às perguntas que se fazem hoje sobre as injustiças e sobre a violência que estão a ser impostas à humanidade e ao ambiente. Os temas mais importantes que aqui se apresentam são: I. Ler os sinais dos tempos II. Fundamentos bíblicos para a JPIC III. A doutrina social da Igreja e a análise social IV. Refazer a imagem da vida religiosa V. Refazer a imagem da missão Fazemos votos para que este manual possa servir como:  um texto útil para os promotores de JPIC;  um instrumento para formadores, agentes pastorais e animadores a nível institucional, ou até de base;  um “obreiro de confiança” para aqueles que estão a fazer uma procura sincera. Este manual para promotores de JPIC fornece-lhes as ferramentas práticas que ajudam a ultrapassar aquela sensação de impotência perante a pobreza, a injustiça e a violência; para

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Cfr. MURPHY, S.J., The many ways of Justice: Studies in the Spirituality of Jesuits, “The Month”, 26 (1994), 2.

10 que sejam testemunhas mais eficazes da Boa Nova, anunciando a libertação e a paz; para que possam entrever novos sonhos e visões na sua procura de caminhos ao serviço da vida. 0.3. Como se fez este manual? a) Uma comissão de quatro promotores de JPIC preparou um primeiro rascunho que foi distribuído num dos encontros que se fizeram para recolher comentários e sugestões. b) Com base nas sugestões que foram recebidas, a comissão preparou um segundo rascunho que foi entregue a um grupo de três promotores, para efeitos de avaliação crítica, e que foi discutido numa reunião conjunta com a própria comissão. c) Uma comissão para a redacção, constituído por membros da primeira comissão mais um membro novo, tomou conta da terceira redacção, que depois foi distribuída a um grupo de quinze promotores de JPIC (representativos de todos os continentes), que a examinaram e aperfeiçoaram tendo em mira uma versão final. d) A primeira edição em língua inglesa veio à luz em Junho de 1997. Nota  Na preparação deste manual, procurámos levar em consideração a diversidade dos contextos (político, económico, político, cultural, social e religioso) dos destinatários. Por isso, deverá cada qual sentir-se livre de deixar de lado aquilo que não tiver a ver com o seu contexto particular.  As estatísticas que aqui são apresentadas foram tiradas de vários documentos da ONU, relatórios e outras fontes oficiais. Algumas delas talvez já se encontrem desactualizadas quando o manual vos chegar às mãos, devido às rápidas mudanças que se vão verificando. No entanto, foram aqui incluídas a título de apoio àqueles que porventura não tenham a oportunidade de aceder a tais dados.  Este manual foi preparado por um grupo inter-congregacional. Todos ficam convidados a enriquecê-lo com o seu próprio carisma, com os documentos dos seus Institutos, e com narrativas/exemplos relatados por membros da vossa Congregação.  Como já foi dito, este texto não é um programa completo que trate de todos os problemas de JPIC.  Isto não é o tipo de livro que se tenha de ler do princípio ao fim: é um guia de recursos e é um “vademecum” para a vossa caminhada de JPIC. Trata-se apenas dum instrumento de trabalho que fica a contar com o contributo de cada um de vós. Podeis juntar-lhe o material que achardes útil para o vosso próprio contexto. Se tiverdes outros materiais que acheis terem importância para efeitos de partilha com outras Congregações e grupos religiosos, enviai-o ao coordenador de JPIC do vosso Instituto ou ao responsável pela JPIC do vosso Conselho Geral, pedindo-lhe que o transmita ao grupo dos promotores de JPIC em Roma. Todo e qualquer comentário ou “feedback” pode contar desde já com os nossos agradecimentos. Roma, 1997

PRIMEIRA PARTE

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LER OS SINAIS DOS TEMPOS

1.1. INJUSTIÇAS CONTRA A HUMANIDADE

Eis alguns acontecimentos-chave da nossa história mais recente que já afectaram a história de toda a humanidade:  1945: Os Estados Unidos da América e os seus Aliados vencem a Segunda Guerra Mundial.  Os Estados Unidos da América e os seus Aliados criam as instituições de Bretton Woods: o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Acordo Geral sobre o Comércio e Tarifas Internacionais (GATT) com a finalidade de controlar a realidade financeira do mundo do pós-guerra. O dólar Americano irá dominar o horizonte financeiro.  Entre os anos 40 e 70 dá-se a independência de vários países da África e da Ásia.  A independência política destes países leva, pouco a pouco, a uma maior dependência económica.  Em 1989 dá-se a queda do Muro de Berlim e, também, a repressão da Praça Tienanmen na China. Seria o fim da Guerra Fria? Mas quem venceu? Foi o fim da União Soviética? O fim da opção socialista? A partir daqui, o interesse económico centra-se na Europa de Leste e nos “Tigres” da Ásia. Os pobres do mundo são encarados como um problema.  Em 1991: a Guerra do Golfo.  Os Estados Unidos insinuam-se nas Nações Unidas como a única superpotência mundial. Desenha-se no horizonte um novo conceito de império, não já baseado no estado nacional, mas, antes, no capital, a cujo serviço aparece uma “nova ordem mundial” de natureza político-militar.  1992: “Celebração dos Quinhentos Anos”. De quê? Da presença europeia nas Américas?  1993: abolição do apartheid na África do Sul.

1.1.1 A ordem económica mundial de hoje A política neoliberal Com base em comentários recentes, é evidente que o neoliberalismo se afirmou como um esquema ortodoxo de dimensões sem precedentes históricos, em virtude da sua amplitude e da sua força a nível mundial. Na “nova ordem mundial”, existe uma única base sobre a qual se discutem os problemas do mundo: a economia neoclássica. Há um só caminho de “salvação” para todos os povos, sejam quais forem as suas tradições, valores, história ou costumes, sejam eles do Norte ou do Sul - e esse caminho chama-se mercado. A economia é a linguagem humana dominante nestes tempos; e ela determina a vida colectiva do planeta. As empresas transnacionais são hoje as instituições de controlo privilegiadas sobre este planeta. Talvez seja mais correcto dizer que o sistema de controlo dominante é o sistema financeiro, mais que as transnacionais em si. Elas são as responsáveis no que toca ao sistema financeiro

12 “global”, que se transformou, segundo modalidades importantes mas preocupantes, e se descreve, em termos bastante precisos, como um “jogo de azar global”. Todos os mercados financeiros do mundo estão interligados mediante um único sistema computadorizado. Esta nova “realidade” está a transformar a face da comunidade internacional e está a criar cada vez mais pobreza e destruição do ambiente. Em toda a parte se ouve o mesmo refrão: o único caminho para o progresso é o “mercado livre” global. Para se poder concorrer nesta nova economia global, sublinha-se que:  as empresas devem tornar-se mais eficientes através do redimensionamento e a restruturação da sua mão de obra;  os impostos e os regulamentos dos Estados criam obstáculos à iniciativa empresarial;  os programas estatais de assistência tendem a criar dependências;  o Estado deve , também ele, ser redimensionado; os bens devem ser privatizados; os orçamentos devem ser cortados; e os défices devem ser eliminados;  os custos da assistência social e os outros “subsídios” dos trabalhadores pobres são assunto de crítica;  os direitos sindicais e outra legislação interferem negativamente na flexibilidade laboral. Nos países do Sul que se encontram em vias de desenvolvimento, e são agora habitualmente designados por “mundo dos dois terços”2, esta crítica neoliberal é evidente nos programas de afinação estrutural (Structural Adjustment Programs, SAP) impostos pelo Banco Mundial e pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) (ver o Apêndice I para ulteriores explicações) como condições para o refinanciamento dos pagamentos da dívida. Em conformidade com os SAP, os governos destes países favorecem as importações e os investimentos estrangeiros e reforçam as exportações. Esta política encontra-se de tal modo difundida entre os centros do poder espalhados por todo o mundo que, até ao fim do milénio, talvez acabe por mudar radicalmente a vida de muito mais pessoas e nações que qualquer outra ideologia da história humana. Tendo sido imposto por vastos interesses financeiros e políticos, o actual sistema económico mundial cria riqueza para uma minoria e aumenta a pobreza duma maioria, em vez de estar ao serviço dos habitantes da Terra. Embora esta globalização da economia se apresente sob formas diversas consoante o país em que se viva, ela está a influenciar, cada vez mais directamente, a nossa vida quotidiana3:  De entre os 5,7 biliões4 de pessoas do mundo, 1,5 biliões são considerados muito pobres.  20% dos mais pobres do mundo recebem 1,4% do Produto Interno Bruto (PIB), ao passo que os restantes 84,7% vão parar às mãos dos 20% dos mais ricos.

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Temos que repensar, em certa medida, o nosso vocabulário, inclusive termos como “primeiro mundo”, “terceiro mundo”, etc. Com base na economia, o único mundo criado por Deus ficou dividido em quatro - e , até em cinco mundos! O termo “mundo dos dois terços” está a substituir, pouco a pouco, o termo “terceiro mundo”, visto que os pobres, neste mundo, são hoje mais ou menos dois terços da população mundial. 3 O Movimento Mundial dos Operários Cristãos lançou um Plano de Quatro Anos (1996-2000) para promover a dignidade humana, para reanimar a esperança das pessoas, e para criar novas formas de solidariedade. O Plano de Pormenor foi incluído no seu boletim «INFOR», n.º 154 ; (Bruxelles, Julho-Agosto de 1996). 4 A palavra “billion”, no Reino Unido e na Alemanha, significa um milhão de milhões ( 1.000.000.000.000 ); na França e nos Estados Unidos, significa mil milhões (1.000.000.000). A palavra “trillion”, no Reino Unido, significa um bilião de biliões ( 1.000.000.000.000.000.000); na França e nos Estados Unidos significa um milhão de milhões (1.000.000.000.000).

13  Mais de um bilião de seres humanos sobrevive com apenas um dólar por dia; 3 biliões sobrevivem com pouco mais de dois dólares por dia. Ao mesmo tempo, 358 pessoas terão já acumulado um capital pessoal no valor de quase 762 biliões de dólares, o que equivale ao rendimento de 2 biliões e 35 milhões de pobres.  Nos tempos actuais, um bilião de pobres do mundo vive em áreas rurais; mas até ao ano 2005, uma pessoa em cada duas viverá nas metrópoles ou nas cidades, causando uma crescente “urbanização da pobreza”.  Desemprego e condições precárias de vida: cerca de 30% da população activa mundial, avaliada em cerca de 2 biliões e meio de pessoas, não têm ocupação produtiva.  Custo de vida elevado: enquanto se idolatra a economia do mercado mundial, quatro pessoas em cada cinco não têm poder aquisitivo.  Fome: um quinto da população mundial padece de fome; três milhões de crianças morrem de desnutrição todos os anos.  A maioria dos pobres do mundo é constituída por mulheres. As crianças e outros grupos vulneráveis e desfavorecidos, tais como as populações indígenas, os incapacitados, os idosos, os refugiados, os emigrantes e os desempregados de longa duração, são os mais expostos à pobreza.  Violação do direito à educação: a frequência escolar reduziu-se de forma muito particular, especialmente na África.  Violação do direito à saúde: a privatização do sector da saúde e os ataques aos sistemas de previdência social estão a causar uma desigualdade intolerável no que toca ao direito à saúde.  Falta de habitação e ausência de condições de vida “normais”: um quarto da população mundial não dispõe de água potável; um terço dela vive em extrema pobreza.  A agricultura é um sector sacrificado tanto no Norte como no Sul. No Norte, as políticas agrícolas encontram a sua base em critérios como o lucro e a produtividade. Ora isto provoca a falência dos pequenos agricultores e o desemprego dos trabalhadores agrícolas. No Sul, a falta de investimentos na agricultura e a ausência de reforma agrária provocam a emigração das zonas rurais para as cidades e, portanto, a sua desertificação.  A degradação do ambiente coloca em perigo a vida das gerações presentes e futuras. Outros dados do Relatório sobre o Desenvolvimento Humano - 19965: O desenvolvimento económico transformou-se em falência para um quarto da população do globo: de facto, ele tem contribuído para aumentar o desemprego e o número de pessoas sem direitos, tendo também destruído a cultura dos povos. Em particular, nota-se que:  89 países estão em pior situação económica em relação à de oito anos atrás;  em 70 países em vias de desenvolvimento, os rendimentos são inferiores aos dos anos 60 ou 70;  em 19 países, o rendimento per capita está agora abaixo do nível que tinham em 1960.
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O Relatório sobre o Desenvolvimento Humano é uma publicação anual do UNDP (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento).

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“Nenhum cristão pode ser defensor tácito dum sistema que marginaliza os pobres. Digo “defensor tácito” porque a falta duma nossa tomada de posição equivale a uma defesa. Hoje em dia, devemos dar-nos conta de que a opção a favor dos pobres também significa, necessariamente, uma opção contra um sistema económico que continua a fazer um crescente número de vítimas. A fé não pode comunicar a vida se não tiver nada para dizer sobre os elementos primordiais que designamos por alimento, água, terra, casa, segurança, etc.”6. 1.1.1.1 Para um modelo novo de desenvolvimento As seguintes reflexões sobre a economia política foram compiladas por Catherine Mulholland, do Conselho Mundial das Igrejas. A condição prévia para a mudança de sistema económico está na adopção dum novo sistema de valores. Nos últimos vinte anos, foi-se tornando cada vez mais claro que, em relação a todos os sistemas económicos, sem excepção, é necessário verificar se, e até que ponto, eles colocam as pessoas no centro do processo e as consideram sujeitos e não objectos desse mesmo processo. Entre os valores e os critérios com maior consenso enumeram-se os seguintes:  satisfação das necessidades humanas fundamentais;  justiça e participação: estas necessidades obtêm satisfação equitativa?  sustentabilidade: o sistema económico é sustentável ecológica e socialmente durante gerações?  confiança em si mesmos: o sistema económico ajuda as pessoas a adquiri o sentido do seu próprio valor, da sua própria liberdade e capacidade ou deixa-as totalmente sujeitas a decisões alheias?  universalidade: o sistema económico e as políticas económicas centram as suas atenções sobre os elementos evidenciados em favor da família humana global, para além de toda e qualquer fronteira política, nacional ou regional?  paz: o sistema económico promove uma paz construída sobre a justiça? Desenvolvimento sustentável “O desenvolvimento, para ser sustentável, tem que dar-se a favor dos pobres, da natureza, do trabalho e da mulher. Ele deve conciliar o crescimento económico com o emprego, o respeito pelo ambiente, a possibilidade de autovalorização, a equidade»7. 1.1.2 A ordem política mundial actual  As democracias actuais não estão ao serviço do povo; antes, estão ao serviço dos interesses políticos e económicos dos vários partidos.  O partido do governo e a oposição gastam mais tempo a combater-se mutuamente para manter ou conquistar o poder do que a procurar o bem comum nacional.
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FELIX WILFRED, No Salvation Outside Globalization, (Não há salvação à margem da Globalização), in SEDOS, Roma, 1996/305 Da intervenção de Kinda Gray na Conferência Habitat e Instalações Sustentáveis, «Justice and Peace Magazine», Escócia, Outubro de 1996

15  O programa político de cada país sofre sempre a influência dos “centros do poder mundial”.  O mundo como um todo sofre a imposição de um mesmo modelo de democracia, igual para todos.  A nível político, prevalece a exclusão dos cidadãos, com base na discriminação étnica, religiosa, etc.  O capital, neste nosso mundo, beneficia duma defesa feita de alianças político-militares.  Tanto os países capitalistas como os comunistas são responsáveis por terem desenvolvido um aparelho burocrático que não dá a verdadeira liberdade aos cidadãos.  Certos países ainda continuam a praticar a tortura, por razões políticas. Estória duma vítima da tortura no Médio Oriente «Logo desde o fim da adolescência, eu estive directamente envolvido nas actividades dos meus pais, dos meus irmãos e da minha irmã, em oposição ao regime do meu país. Há seis anos, a minha irmã foi presa; um ano mais tarde foram presos os meus pais e os meus irmãos. Nunca mais tive notícias deles. Depois do seu desaparecimento, entreguei-me à causa da luta pela democracia. Mas a polícia logo começou a ter suspeitas de mim e, uma noite, ao sair da padaria onde trabalhava, fui agarrado e arrastado para um automóvel que já estava à espera. Num ponto de semáforo, tentei escapulir-me, mas deram-me um tiro numa perna. A deitar sangue e com muitas dores, foram-me vendados os olhos e fui levada para a cadeia. Lá me interrogaram e bateram durante quatro ou cinco horas, sem parar. A princípio, deram-me murros; depois, bateram-me com um cassetete que tinha a ponta de aço. Quando comecei a perder os sentidos, fui jogada para uma cela, com as mãos atadas atrás das costas. Os meus carrascos continuaram a atormentar-me com cabos eléctricos, na planta dos pés. Para acabar, deram-me uma injecção e deixaram-me ali, sozinha. No dia seguinte, fui interrogada outra vez e fui levada para uma cela contígua para convencerem algumas mulheres presas a que confessassem. Quando os guardas notaram que elas ainda não estavam a dizer a verdade, levaram-me para um quarto, ataram-me a uma cruz e regaram-me com gasolina. Fiquei lá várias horas, sob a ameaça de ser queimada e violentada por um dos guardas. Dois dias mais tarde, os meus rins deixaram de funcionar e levaram-me para o hospital. Como as minhas pernas estavam fracturadas em vários sítios, tiveram que me aplicar pregos de aço para conseguirem que os ossos ficassem juntos. Quando me recuperei um pouco, fui levada de novo para a cadeia e fiquei amarrada várias horas numa posição nada natural. Dia após dia, a tortura foi continuando. Deixaram-me suspensa do tecto por uma só mão; fui batida e fui queimada com cigarros; quase perdi a vista. Depois, fui obrigada a ficar a ver mulheres presas a serem torturadas e violadas. Muitas delas morreram. Quando me mandaram de novo para o hospital, fiquei a saber que não queriam realmente matar-me: só queriam destruir-me psíquica e fisicamente. Enquanto eu estava no hospital, um dos enfermeiros drogou os meus guardas e ajudoume a fugir. Chegámos finalmente à fronteira, viajando de noite e escondendo-nos de dia». 1.1.2.1 Militarismo e comércio de armas - Entre 1960 e 1990, a despesa militar mundial aumentou 150%, com maior crescimento nos países do Sul. Eles são agora responsáveis por 20% da despesa militar, contra os 7% do ano de 1960.

16 - Supermercado dos armamentos: os países ricos tornam-se ainda mais ricos através do comércio de armas; os países pobres tornam-se ainda mais pobres mediante a compra de armas. As despesas com armamentos tiram fundos necessários para a alimentação, para a assistência à saúde, para a educação, para o fornecimento de água, etc., dos países em vias de desenvolvimento. -Em média, há 19 soldados por cada médico, nos países pobres. -O militarismo está a destruir os povos e o ambiente. -Actualmente, a despesa global com armamentos é 2.400 vezes mais elevada que a despesa internacional a favor da faz - Meio milhão de cientistas em todo o mundo estão a fazer pesquisa e desenvolvimento tecnológico para a actividade militar. - Os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas (a China, a França, a Rússia, o Reino Unido e os Estados Unidos) são os cinco maiores exportadores de armamentos para os países em vias de desenvolvimento. - Existem armas químicas enterradas em 215 cidades dos Estados Unidos: o saneamento da situação deverá custar 16 biliões de dólares, e talvez sejam precisos 40 anos para levá-lo a termo. - Para além das causas estruturais políticas, sociais e económicas da violência neste mundo, é evidente que a proliferação dos armamentos intensifica o impacto dessa violência. Segundo o Relatório sobre o Desenvolvimento Humano de 1994, que foi publicado pelo UNDP (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), a falta de segurança para o homem, devida à violência, é hoje um fenómeno “global”. Nos países em vias de desenvolvimento, uma enorme quantidade de fundos destinados a projectos sociais são desviados para a aquisição de armamentos, embora a probabilidade de se vir a morrer por desnutrição ou doenças, que se poderiam prevenir, sejam 33 vezes maiores que a de morrer numa guerra de agressão vinda de fora. - Em 1996, houve 39 guerras locais e duas guerras regionais, muitas delas contando com a presença de mercenários estrangeiros.

1.1.2.2 Minas anti-pessoal «As minas anti-pessoal não podem ser aceites como dados de facto: elas são uma realidade de morte» (juiz Michael Kirbu, Human Rights Report on Cambodja, Nações Unidas). a) Dados sobre as minas anti-pessoal - Foram plantados 110 milhões de minas terrestres anti-pessoal; só 100.000 dos 2 a 5 milhões referentes a 1993 foram retiradas. - Em cada ano, 15.000 pessoas são mortas ou ficam feridas por minas anti-pessoal. - O preço médio duma mina anti-pessoal é de 3 a 30 dólares. - O custo da retirada duma mina anti-pessoal é 300-1000 dólares. - No Camboja, fazem-se 500 amputações por mês; uma pessoa em cada 236 sofreu a amputação de um membro superior ou inferior. - A maior parte das vítimas são civis, na maioria mulheres e crianças.

17 Dois jovens adultos fizeram uma longa viagem até Roma. Conseguiram marcar uma audiência privada com o Santo Padre e informaram-no sobre os avanços na nova tecnologia militar; de seguida, foram ter com o Superior Geral dos Jesuítas e deram-lhe alguns conselhos sobre lugares para onde mandar os seus Jesuítas fazer missão; por fim, encontraram um grupo de jornalistas e outros representantes. Um destes jovens, Keo Sovann, é fisioterapeuta; o outro é director duma empresa comercial em desenvolvimento acelerado. Chama-se Tun Channareth; é cambojano e é gestor duma fábrica de cadeiras de rodas; tem 6 filhos e não tem pernas - ambas perdidas por causa duma mina anti-pessoal. Foi assim que ele exprimiu o desejo que o seu povo tem de viver uma vida sem minas anti-pessoal: «…o nosso povo sentir-se-ia muito feliz, porque, assim, poderia apoderar-se da terra para plantar arroz, teria a liberdade de construir uma casa, de viajar sobre estradas e caminhos de ferro, e a possibilidade de ganhar a vida e sustentar-se». Tun Channareth não parece estar a pedir demais; no entanto, como é que é possível em países tão afastados do Camboja e de outras nações “infestadas” de minas, responder a esta obscena e indiscriminada violência? Este capítulo vai descrever, a traços largos, a abordagem adoptada pelas Irmãs de Loreto (Instituto da Bem-Aventurada Virgem Maria) em resposta ao problema global das minas anti-pessoal. Foi em 1992 que começou a Campanha Internacional para a Eliminação de Minas, por obra de um escol de Agências não Governamentais (ONGs) e Organizações para os Direitos Humanos, na tentativa de alcançar um nível suficiente de consciência pública que altere o horizonte político e elimine esta arma convencional dos arsenais mundiais8. No espaço de três anos, ela tornou-se uma das mais importantes campanhas globais jamais realizadas. Mais de 100 ONGs estão agora envolvidas no projecto e um número sempre crescente de países apoia a proibição total do fabrico, armazenamento, disseminação e uso de minas anti-pessoal. As Irmãs de Loreto, que se dedicam especialmente aos marginalizados, a mulheres e crianças em particular, e com o desejo de responder de maneira não violenta à guerra e à violência, decidiram fazer parte da campanha contra as minas anti-pessoal. Eis as modalidades do processo adoptado:  A Congregação tinha uma ligação íntima com o Serviço aos Refugiados dos Jesuítas, uma das ONGs envolvidas nesta campanha, e, assim, estavam numa boa posição para colaborar com eles, receber deles informação e recursos e, através deles, fazer ligação com outros grupos envolvidos na campanha: o Mines Advisory Group (do Reino Unido); o CAFOD (também do Reino Unido; O Australian Catholic Relief, a Vietnam Veterans of America Foundation, a Mani Tese (da Itália) e a Pax Christi (da Irlanda).  Foi realizado um Seminário de estudo para cerca de 100 membros da Congregação, representantes das ONGs e de partidos políticos (a cuja abertura compareceu um ministro importante). Um conferencista do Mines Advisory Group (MAG) apresentou, em linhas gerais, os tipos, objectivos e consequências das várias minas e referiu algumas das suas experiências como “desminador”. Um conferencista da Congregação fez a ligação entre a campanha das minas e a missão central da sua Congregação.  Dedicou-se uma tarde desse Seminário ao planeamento operativo em pequenos grupos.  Fez-se a distribuição de dossiers contendo informação sobre minas e sobre a campanha, sugestões de actividades, cartas modelo e endereços de líderes mundiais, a todos os participantes - e foram também enviados a todas as províncias da Congregação.
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NICOLETTA DENTICO, “Minas Anti-pessoal: sentinelas silenciosas da morte”. Intervenção feita num Encontro sobre a Educação Pública organizado pela JPIC, Janeiro de 1995.

18  Foi enviado a todos os jornais principais (mas só um publicou) um comunicado a dar os pormenores do encontro, bem como a posição da Congregação.  Foram distribuídas cópias das intervenções feitas no Seminário a todas as comunidades da Congregação.  A administração geral fez alusão à campanha das minas nas suas cartas, em reuniões e no seu boletim informativo sobre a justiça social. Os membros da Congregação receberam estímulo a escrever ao coordenador, apresentando o esquema de qualquer actividade que realizassem.  Também enviaram materiais de actualização sobre minas anti-pessoal a todas as comunidades: informações relativas aos vários Relatórios das Nações Unidas; detalhes de medidas tomadas por vários indivíduos e grupos; um relatório de situação sobre o número de países comprometidos com a proibição total das minas; e sugestões para ulteriores medidas nesta matéria.  O coordenador estava sempre em contacto com o Serviço dos Refugiados dos Jesuítas; estabeleceu contacto com um outro apoiante da campanha; manteve informado o director da International Landmines Campaign sobre as suas actividades, e utilizou material de apoio proveniente de agências diversas. Actividades Realizadas  Fez-se um esforço unânime por escrever cartas aos líderes políticos locais, bem como aos ministros da defesa, e aos líderes de países que produziam ou distribuíam bombas antipessoal.  Alguns membros inscreveram-se na Amnesty International, na Pax Christi e em outros grupos para a paz, ou participaram em campanhas nacionais ou eclesiais: - Redigiram-se petições e recolheram-se assinaturas - Distribuiu-se informação às comunidades locais - Introduziram-se nas escolas diversas actividades criativas de conscientização - Estabeleceu-se uma rede de oração internacional entre os idosos, centrada sobre a questão das minas; deu-se a respectiva informação; e deu-se estímulo às pessoas para que escrevessem. “Houve pouca pressão directa sobre os políticos: talvez tenha havido demasiada direcção a partir de cima, sendo difícil saber quantos membros da Congregação estiveram de facto envolvidos na campanha. Mas alguns mexeram-se; foram tomadas medidas; alguns estão agora melhor informados sobre um problema global; e a Congregação, por envolvimento numa acção de colaboração, alcançou uma certa perícia em modalidades de colaboração, coordenação, comunicação e angariação de recursos… Se duma maneira ou doutra pudermos fazer com que em Angola, no Afganistão, no Rwanda, no Sudão, ou em países “em risco”, os homens possam cultivar as terras, as mulheres possam ir à fonte e as crianças possam saltar pelos arrozais em paz e com segurança, já teremos feito alguma coisa” (Do Discurso do Conselheiro Geral no Seminário). Se o Mundo se Desarmasse…9  poderíamos salvar a vida de 5 milhões de crianças que morrem de diarreia todos os anos. Preço: 700 milhões de dólares, ou seja, a quantia que o mundo gasta em armas em apenas 6 horas;
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Development and Environment Kit, (Dossier do Desenvolvimento e do Ambiente), Norway, 1991.

19  poderíamos equipar 80.000 aldeias com bombas para tirar água. Preço: 12 milhões de dólares, ou a quantia que se gasta num só teste nuclear;  poderíamos salvar as florestas tropicais. Preço: 1,4 biliões de dólares por ano por um período de cinco anos, ou seja, a quantia que o mundo gasta em armas no período de 12 horas;  poderíamos impedir a desertificação. Preço: 5,6 biliões de dólares, ou seja, a quantia que o mundo gasta em armamentos em apenas 2 dias. 1.1.3 A Realidade Demográfica Actual - Entre 1950 e 1996, a população das regiões menos desenvolvidas aumentou 168%, em comparação com um aumento de apenas 45% na das regiões economicamente mais desenvolvidas. - Entre 1950 e 1955, o aumento anual da população mundial situou-se nos 47 milhões de pessoas. Entre 1990 e 1995, o aumento anual foi de 81 milhões, 69 dos quais se referem à África e à Ásia. - A população actual do mundo é de 5,7 biliões. 1.1.4 As Crianças Fome  Nas regiões em vias de desenvolvimento, uma criança por cada três vive sub-alimentada.  Mais de 40.000 crianças morrem por dia, por causa da desnutrição, ou por causa de doenças de fácil prevenção.  A cada minuto, morrem 30 crianças por falta de alimento e remédios de preço acessível. Saúde  Por cada ano que passa, nascem 120.000 crianças mentalmente diminuídas devido à falta de iodo, uma deficiência que pode ser remediada de modo fácil e pouco dispendioso.  Por ano, 250.000 crianças perdem a vista por completo, por falta de vitamina A.  4 de entre 5 crianças no espaço rural não têm água potável ou saneamento básico.  4 de entre 5 não têm acesso a uma assistência médica moderna. Educação  90% das crianças de países em desenvolvimento matriculam-se na escola; mas só 68% terminam os primeiros quatro anos.  Em 1993, havia 130 milhões de crianças (com idade entre os 6 e os 11 anos) que não iam à escola Guerra  Em 1995, só na África, e durante os primeiros 10 meses do ano, meio milhão de crianças morreu devido a conflitos armados.  Durante esta última década, 6 milhões de crianças ficaram incapacitados por causa das guerras.

20  Também durante esta última década, 12 milhões de crianças foram desalojadas pela guerra.  Só na Libéria, há 15.000 crianças-soldados. Problemas crescentes que afectam as crianças  Trabalho infantil e exploração económica: calcula-se que 200 milhões de crianças são forçadas a trabalhar.  Prostituição infantil: um milhão de crianças é forçado a prostituir-se de ano em ano; a maior parte contrai HIV / SIDA.  Meninos da rua: são mais de 100 milhões abaixo dos 15 anos.  Tráfico de bebés.  Comércio de órgãos de crianças  Metade da população de refugiados é constituída por crianças. “Crianças em risco” : uma resposta concreta A nossa participação no House Workers’ Movement (Movimento de Trabalhadores Domésticos) em todo o território Indiano, mostrou-nos a realidade das crianças envolvidas em trabalho doméstico. Tornámo-nos cada vez mais conscientes da situação destas pequenas criadas domésticas que são forçadas ao silêncio e têm de viver às escondidas, que por vezes são empregadas com vinculação mas designadas por “nossa” filha, “filha adoptiva”… Trata-se de meninas que sonham em poder brincar e poder usar uniformes escolares, mas que são castigadas quando abrem os livros escolares dos filhos verdadeiros da família para que trabalham. Sunita era uma destas empregadas-meninas. O pai estava na cadeia e a Sunita foi mandada para Bombaim para trabalhar, tinha então 9 anos. Um dos dirigentes da Bombay House Workers’ Solidarity tirou-a daquele lugar de tortura. Sunita tinha 11 anos nessa altura, com lindo cabelo preto de corte irregular, com um olhar escuro aterrado, e com cicatrizes de queimaduras por todo o corpo. Em caso de pequenos erros ou incapacidade na realização do trabalho que lhe tinha sido ordenado, o patrão batia-lhe com um ferro em brasa. O juiz, no tribunal, deixou-nos escolher: ou ganhar a causa e entregar Sunita à Remand Home (Casa de Correcção ) a cujo cuidado ficaria até aos dezoito anos, ou então retirar a queixa e resgatá-la. Decidimos pela segunda alternativa. Recolhemos a Sunita, conseguimos a tutela, e pusemo-la na escola. Poucos dias depois, chegou Arathi, uma vítima de rapto. A Mónica escapuliu-se da casa de prostituição. A Jessie foi violentada por uma quadrilha aos sete anos. Todas elas crianças profundamente feridas e traumatizadas. A nossa resposta costuma ser mais do tipo gestão de crises. Trabalhamos em ligação com advogados, com diversas Congregações e com casas da criança para reabilitar estas pessoas. Actualmente já funcionamos como um movimento de pesquisa com um grupo alargado de pessoas e comunidades empenhadas na salvação das vítimas do sexo comercial na cidade de Bombaim.

21 A pesquisa e o compromisso já começaram, mas o caminho não está ainda desvendado…A Conferência Episcopal da Índia, tal como a Comissão Laboral, apoiam este nosso empenho. Estamos envolvidos, a vários níveis, num vasto esforço de colaboração para dar às nossas crianças “um futuro de justiça e paz”. Jeanne Devos, ICM, Índia 1.1.5 As Mulheres Eis as áreas críticas de maior preocupação, actualmente, em relação à mulher:  Pobreza: 60% entre 1 bilião de pobres em zonas rurais são mulheres.  Educação: Entre os 960 milhões de adultos analfabetos, 70% são mulheres. De entre os 130 milhões de crianças que não têm escola primária, 70% são raparigas.  Saúde: Todos os anos morrem 500.000 mulheres devido a complicações resultantes da gravidez.  500 mulheres morrem todos os dias devido a abortos de risco.  Violência: 1/3 das mulheres é vítima de maus tratos físicos. Cada 8 segundos, uma mulher é maltratada fisicamente. E cada 6 minutos, uma mulher é violada. Existem 110 milhões de raparigas e mulheres que sofreram mutilação dos seus órgãos sexuais; 2 milhões de mulheres continuam a ser mutiladas cada ano. Mais de 1 milhão de bebés morrem todos os anos devido à desnutrição, ao abandono e aos maus tratos; e não teriam morrido se não fossem raparigas.  Conflitos armados e outros: as mulheres constituem 80% dos 100 milhões de pessoas deslocadas (dentro da sua própria pátria) e dos 29 milhões de refugiados do mundo. Gastam-se 800 biliões de dólares por ano em armas; mas a comunidade internacional não tem os 6 biliões que são precisos para dar educação a cada criança do sexo feminino.  Participação económica: As mulheres recebem entre 30-40% menos que os homens por fazerem trabalho igual. As mulheres fazem 2/3 do trabalho em todo o mundo mas só recebem 10% da receita anual, e são donas de apenas 1% da terra em todo o mundo. Se fosse atribuído um valor económico ao trabalho doméstico, que não é pago, ele valeria 11 triliões de dólares e juntaria mais 70% à produção mundial.  Participação no poder e processos decisórios: a porção de lugares nos parlamentos mundiais ocupados por mulheres em 1986 era de 12% (15% em 1988).  Violência contra a mulher, em países selectos, por volta de 1990: - EUA 1 em cada 5 mulheres adultas fora violada; - Perú 70% dos crimes denunciados à polícia tiveram a ver com espancamento pelos maridos; - Noruega 25% das pacientes na área da ginecologia sofreram abuso sexual dos seus companheiros; - Tailândia No maior bairro da lata de Banguecoque, 50% das mulheres casadas eram espancadas sistematicamente. 1.1.5.1 Exemplos de empenhamento a favor das mulheres Trechos de documentos Capitulares

22 “O nosso ministério específico enquanto mulheres, que era considerado por Comboni como indispensável para a missão evangelizadora, faz da promoção da mulher a nossa prerrogativa. As mulheres deveriam tornar-se conscientes dos seus valores , da sua dignidade, e da função essencial a que são chamadas na família, na Igreja e na sociedade. Irmãs Combonianas “…Por sermos mulheres nós próprias, queremos trabalhar com as mulheres e para as mulheres, para podermos encontrar a nossa voz autêntica na sociedade e na Igreja. A nossa apreciação feminina da vida impele-nos a viver em profundo respeito para com cada pessoa humana e para com a terra que nos sustenta a todos. Nós desejamos possuir a perspectiva e a atitude íntima que leva a ver Deus em tudo, a ser solidárias com os pobres e a procurar compreender o mundo na visão que dele têm. Com compaixão e com coragem, com aquela visão que só pode advir da contemplação do Evangelho e dos sinais dos tempos, é em conjunto que nós procuramos a conversão contínua de nós próprias e dos outros, a fim de podermos promover a justiça e a paz”. Companhia da Santa Úrsula

Exemplos de participação no poder por parte das mulheres Os homens (pescadores) de Cattiparambu eram viciados do álcool. As suas magras entradas eram gastas na bebida, o que levava a rixas no seio das famílias, divisões e até assassínios. Em conjunto com as várias organizações que trabalhavam com elas, as mulheres da aldeia decidiram acabar com esta praga. Assim, organizámos uma “dharna” (manifestação) e informámos a polícia e outras autoridades sobre o plano que tínhamos. Sentávamo-nos, aos grupos, diante de todas as lojas de “arrack” (uma bebida local) da aldeia, dia e noite. E fizemolo durante três meses seguidos. Durante este período, não deixávamos nenhum homem entrar em qualquer das lojas de “arrack” nem deixávamos que mais “arrack” entrasse nelas. Uma vez, um dos homens entrou numa dessas lojas à força e saiu bêbedo. As mulheres pegaram nele, tiraram-lhe a roupa, ataram-no a um coqueiro e deram-lhe uma carga de pancada, dizendo-lhe também que já tinham sofrido que chegasse durante todos os anos passados. Deixaram-no naquela situação para os restantes homens verem. Depois deste incidente, mais ninguém entrou naquela taberna. E como as mulheres não puderam trabalhar durante todos aqueles meses, todas as suas famílias passaram fome. Claro que enfrentámos oposições, passámos por muitas dificuldades e recebemos todo o tipo de ameaças…Até nós passámos fome, passámos noites sem dormir…Mas permanecemos unidas até que os homens do governo foram obrigados a retirar as licenças de vender álcool e a fechar as lojas de arrack na aldeia… Quanto a mim, isto foi uma “experiência de Deus”…Eu tive experiência do apoio da minha comunidade; a minha vocação de FMM passou por um desafio; e a minha dedicação à justiça tornou-se mais profunda. Irmã Cecily George, FMM, Índia A consciência de ser mulher, uma fonte de transformação

23 Isto é a história dum grupo de camponesas de Culong, Guimba, Nueva Ecija (nas Filipinas). A maior parte delas faz parte da Comunidade Cristã de Base, que é animada por uma líder dinâmica deste lugar. Em certa ocasião, no mês de Setembro de 1994, a equipa do Programa Feminino do Instituto Sociopastoral foi convidado pela dirigente a fazer uma acção de formação, mas sem ser clara a respeito do tipo de formação desejada. Marcou-se um encontro inicial: seria um Seminário de Orientação Básica com um só dia de duração, utilizando um método experiencial. Participaram trinta e cinco mulheres. O Seminário acabou por ser um dia de revelação para todos. As participantes descobriram-se a si mesmas enquanto pessoas, especialmente a sua beleza, os seus talentos e o seu valor como MULHERES. Tornaram-se conscientes da situação e da condição em que sofriam as mulheres em casa, na sociedade e até na Igreja: a mulher é a pessoa subordinada, explorada, marginalizada e excluída do processo decisório. Durante o Seminário, elas aprofundaram o seu apreço pelo papel da mulher como procriadora e como protectora da vida; mas, ao mesmo tempo, descobriram que a mulher dá vida de muitas mais maneiras do que pela procriação. Mal sabíamos nós que este encontro iria marcar o início duma caminhada em conjunto até hoje, Janeiro de 1997. O Seminário foi a primeira degustação das águas vivas que elas tiraram dos seus “poços”. Elas estavam sedentas por descobrir a vida enquanto mulheres… Os encontros seguintes vieram esclarecer a diferença entre sexo e género. Elas tornaram-se conscientes dos papéis estereotipados que tinham ficado por conta das mulheres e dos homens, e que tinham sido transmitidos de geração em geração por uma injusta cultura patriarcal. Descobriram, além disso, o grande dom da FÉ da mulher - em si mesma, noutros e, sobretudo em Deus. Desenvolveram um sentido mais profundo da sua inter-relação com a natureza - ao acreditarem que uma vida sadia depende dum ambiente sadio; e que os seres humanos existem numa relação simbiótica com a terra. Rezaram e ficaram com a esperança de que os seus maridos também pudessem receber o mesmo tipo de formação que elas. RESULTADOS: Elas organizaram-se formalmente como uma associação de mulheres. Os seus maridos já tiveram o seu primeiro encontro e já pediram para repetir. A sensibilidade das mulheres ao género está a aumentar. Já eliminaram o uso de pesticidas e de adubos inorgânicos. Agora estão a promover a agricultura orgânica. Decidiram usar o “carabao” na agricultura para evitar a poluição; servem leite de “carabao” aos seus filhos e ajudam a eliminar a ameaça de extinção desta espécie pela cultivação mecânica. Elas SONHAM com o momento em que mulheres e homens, tal como toda a criação, haverão de viver em harmonia, na união, no equilíbrio e no respeito! Josefina Diaz, Irmãs Missionárias do Imaculado Coração de Maria (ICM), Filipinas Algumas histórias de sucesso vindas da Zâmbia:  As mulheres católicas participam nos funerais e efectivamente protegem a viúva dos parentes violentos do falecido, que querem levar tudo.  As mulheres procuram dar apoio às vítimas da violência doméstica para melhorarem as atitudes da polícia a seu respeito.  As mulheres usam os resultados da pesquisa científica sobre as causas da violência para poderem lutar contra ela.

24  As mulheres têm ajudado as “viúvas do desastre aéreo do Gabão” a conseguirem justiça sobre as indemnizações a que têm direito.  As mulheres marcharam até ao Palácio do Governo para protestar contra o crescente número de casos de violação; depois vieram algumas detenções 10. No primeiro MICROCREDIT WORLD SUMMIT (Cimeira Mundial do Pequeno Crédito de Fevereiro de 1997), a Rainha da Espanha partilhou das suas experiências e das suas esperanças de mudança: Ao discursar na sessão inaugural, a Rainha Sofia recordou a sua visita recente a Bangladesh, um dos países mais pobres do mundo. Antes de empreender a viagem, ela tinha levantado problemas à política de fornecer baixo crédito às mulheres em áreas rurais do mundo. Viria esta prática a criar benefícios para estas mulheres e a dar resultados práticos na luta pela erradicação da pobreza que já lhes estava a negar direitos humanos básicos? “…Durante a minha visita às aldeias e durante as minhas conversas com os capelães hospitalares e com generosas mulheres Bengalis, eu descobri a resposta a estas perguntas. Descobri-a ao experimentar a mais profunda solidariedade com as mulheres que sofreram ao passarem por acontecimentos pessoais dramáticos. Através do seu testemunho e das provas tangíveis do seu trabalho, que conseguiram principalmente em relação a objectivos práticos e a produtos, eu consegui compreender que é possível vencer a pobreza e criar uma Utopia!” 1.1.5.2 O Eco-Feminismo A violência que está a praticar-se contra as mulheres e contra o ambiente reflecte uma ligação íntima. Eco-feminismo, como a palavra indica, trata das preocupações com o ambiente e com as mulheres. O termo foi usado pela primeira vez em 1974 pela escritora francesa Françoise d’Eaubonne para descrever a capacidade que as mulheres têm no campo da mudança ambiental. A crescente consciência dos problemas das mulheres está intimamente ligada à crescente consciência da destruição do ambiente. Tanto as mulheres como o ambiente estão a sofrer violência. Em muitas culturas, nós ouvimos os “gemidos” das mulheres e os “gemidos” da própria criação. A destruição do ambiente tem um efeito especialmente grave sobre as mulheres. “As mulheres sofrem mais que todos os outros quando não há água potável, combustível ou ambiente salubre. As mulheres sabem o que quer dizer haver falta de água; sabem como a saúde das suas famílias é afectada quando o ambiente em que vivem não lhes dá segurança. Elas sabem o que significa a “ruptura” do delicado equilíbrio ambiental”11. As mulheres dos países mais pobres são duplamente afectadas pela crise ecológica, já que não têm como comprar água engarrafada, comida produzida organicamente, ou pagar pelos cuidados médicos. A injustiça que se está a fazer ao ambiente está a agravar as injustiças que se estão a fazer às mulheres, especialmente às mulheres mais pobres. O movimento eco-feminista actual tem contribuído para uma compreensão mais profunda da interligação da criação como um todo. Desta forma, o movimento eco-feminista actual
10 11

AMECEA (Documentation Service, Quénia, n.º 462, Dezembro de 1996), pág. 5. Aruna Gnanadason, “Para uma Teologia Eco-Feminista”, (CCA News, Maio-Junho de 1992).

25 procura promover relações novas entre mulheres e homens, entre seres humanos e natureza relações de respeito mútuo, relações que dão VIDA. Seguem-se alguns trechos retirados do inquérito preparatório que foi enviado aos participantes da 11.ª Assembleia Geral do Encontro Asiático de Religiosos (AMOR) que se realizou na Índia, em Junho de 1997: Fundamentos do Eco-Feminismo:  As raízes da história humana, em que a inter-relação do ecossistema na sua totalidade era experienciado na sua plenitude.  A percepção de que a terra e a mulher geram vida nova: o feminino era reverenciado como ‘Deusa-Mãe’.  A correlação que existe entre a ecologia e o feminismo e a nossa compreensão da mesma.  Os valores comuns que promovem e sustêm a ‘vida’ na comunidade humana têm sofrido os efeitos duma erosão progressiva, em virtude dos ataques levados a cabo pelos valores / ideologia patriarcais e capitalistas.  A “dominação” da mulher e da terra, sob a forma do controle ou da submissão, especialmente das mulheres e da natureza; a violência e a destruição da vida …reflectem as forças em acção no nosso contexto actual. “Rebentos” de Eco-Feminismo:  Um certo sentido de suficiência-frugalidade (Robert Muller, ex-Assistente do Secretário Geral das Nações Unidas, actualmente Chanceler da Universidade da Paz, na Costa Rica).  Uma certa maneira de encarar o “desenvolvimento” e o “progresso”, em que a comunidade dos povos e o cuidado a ter com a terra ficam no centro das atenções.  A protecção da natureza contra a exploração indiscriminada por parte de interesses capitalistas e “direitos adquiridos” é essencial para a existência humana.  Uma crescente apreciação do papel das mulheres enquanto criadoras e protectoras da vida no actual contexto da destruição da vida - humana e da natureza. 1.1.6 Os Refugiados A existência de tantos refugiados é sinal de um mundo em apuros. É impossível olhar para os refugiados e para a maneira como a comunidade internacional responde às suas necessidades, sem se ter consciência de que a sua presença é um sintoma de que algo deve estar muito avariado no sistema internacional.  Há cerca de 29 milhões de refugiados e mais 100 milhões de pessoas deslocadas (tanto dentro como fora dos seus países de origem). Só uma pequena minoria de refugiados consegue sair do próprio país em tempo de guerra; a maioria fica na “armadilha”, à mercê de consequências pavorosas.  O número de refugiados está a aumentar devido às violações dos Direitos Humanos: políticos, económicos, étnicos e do ambiente. O crescente comércio de armas, as práticas comerciais injustas, as políticas desumanas de endividamento, a exclusão política, cultural e religiosa, o racismo, a desertificação e outros desastres ambientais…continuarão a fazer aumentar o número de refugiados à medida que avançamos para o século XXI.

26  Os refugiados tornaram-se coisas “descartáveis” : os relatórios de testemunhas presenciais do tratamento dado aos refugiados do Rwanda confirmam-no. Definição de “refugiado” O direito internacional define “refugiado” como uma pessoa que: “devido a um temor bem fundamentado de ser perseguida por motivo de raça, religião, nacionalidade, participação num dado grupo social ou opinião política, vive fora do país a que pertence e não pode ou, em virtude desse temor, não está disposta a servir-se da protecção desse país ou, por não ter nacionalidade e estar fora do país da sua residência habitual em razão de tais acontecimentos, não pode ou, devido a esse temor, não está disposta a ali regressar”. Esta definição exclui aquelas pessoas que se encontram deslocadas por causa da violência ou acto de guerra e que não foram seleccionados como alvo de perseguição individual. O sistema internacional de protecção aos refugiados está a desintegrar-se. Este sistema foi constituído com base no consenso de que os refugiados tinham um direito especial perante a comunidade internacional, o de que era responsabilidade desta dar protecção e assistência aos refugiados - e não apenas a responsabilidade dos governos dos países a que arribassem. Actualmente, este consenso parece ter problemas. Todos os três componentes do sistema, quer dizer, a definição legal de “refugiado”, a própria Convenção, e o UNHCR (Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados, que é o agente principal do sistema), estão a sofrer alterações:  os governos estão a fazer uma aplicação mais restrita da definição clássica de “refugiado”, tal como se encontra integrada na Convenção da ONU de 1951 e do Protocolo de 1967;  estão a aumentar os problemas referentes à conveniência daquela definição numa época em que a maior parte dos refugiados vive afastada por questões de guerra e violência e não por perseguição individual, e em situações em que a linha divisória entre a motivação política e a motivação económica para a fuga é cada vez mais ténue;  o enfraquecimento da liderança do Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados em questões de protecção e assistência aos refugiados. Os riscos desta erosão do sistema internacional são elevados. Noventa por cento dos refugiados de todo o mundo vêm dos países do Sul; 90% deles ficam no Sul. Os governos de países muito mais pobres que os da Europa Ocidental ou os da América do Norte - países que albergam um número muito maior de refugiados - estão a perguntar por que razão se espera que eles tomem conta dos refugiados, enquanto que países mais ricos estão a fechar-lhes as portas. A falência das três soluções tradicionais para as situações do refugiado (repatriação voluntária, integração local, e recolocação num país de alternativa) trazem consequências tanto para o Norte como para o Sul. Um refugiado conta a sua estória: “Cheguei à Austrália em Julho de 1995, directamente dum país da África Central então devastado pela guerra, o Burundi. Foi uma grande mudança para mim, pois que não havia

27 nada de comum entre as vidas que se levam nestes dois países. Embora o Burundi tenha andado nos cabeçalhos dos meios de comunicação há já dois anos, e apesar dos seus famosos tamborileiros, o meu país ainda é desconhecido por muita gente. Sempre que me perguntam onde é que fica, eu só digo que é o vizinho do Rwanda, e é então que recordam as tristes fotografias do genocídio de 1994. “Aqui, na Austrália, eu tenho levado uma vida diferente, na qualidade de membro mais recente da família dos refugiados. Já disse adeus ao Verão sem fim da minha terra, especialmente ao Lago Tanganyika, que deu forma à minha vida, quando a violência estava a aumentar na minha cidade. Não pude dizer adeus aos meus amigos ou mesmo aos meus pais. Mas o que mais dói é aquela cruel sensação que vai reaparecendo: a sensação de que talvez nunca mais os volte a ver. Muitas pessoas, lá na minha terra, chamam-me o “homem da sorte”. Mas eles mal sabem quanto é difícil viver longe e, sobretudo, viver sozinho… “Mal poderão imaginar que eu sou como uma folha levada pelas águas do rio. É difícil encontrar resposta para a eterna e embaraçosa pergunta: ‘Quando é que vais voltar para casa?’ Mas quando sabemos que não temos outra alternativa para poder continuar a viver, nós fechamos os olhos e tomamos uma decisão. “O maior desafio que se possa fazer a quem está na minha situação é a adaptação ao novo ambiente. Para consegui-la, o factor mais importante é a autosuficiência económica. Isso é certamente um pré-requisito, e mais para um refugiado do que para qualquer outra pessoa, precisamente para poder ser aceite, ao menos em parte, pela comunidade. “Eu aprendi, pela pouca experiência que possuo, que tenho de ‘trabalhar como um refugiado’ para poder sobreviver. Cheguei à conclusão de que um refugiado tem de ser forte, tanto fisicamente como psicologicamente. Isso mesmo: ainda que tenha de chorar, é preciso deixar as lágrimas escorrerem para dentro do coração. Nós trazemos o orgulho e a tristeza dentro de nós próprios, mas temos que continuar a sorrir. A terra continua a dar as suas voltas e o sol continua a brilhar para todos. Ao fim do dia, nós simplesmente suspiramos e cantamos, à espera de que qualquer dia, algures, alguém se cruze com o nosso olhar e se interesse por nós”12. Mais vale prevenir que remediar… Os movimentos em prol dos refugiados não são inevitáveis, mas podem ser evitados se alguém tomar medidas para reduzir ou eliminar as ameaças que forçam as pessoas a sair do seu país para encontrar abrigo noutro lugar. Este é um princípio fundamental da nova abordagem do problema. O conceito de prevenção envolve actividades do tipo…       monitoria e pronto alarme, intervenção diplomática desenvolvimento económico e social, resolução de conflitos protecção dos direitos humanos e de minoria, difusão de informação a eventuais procuradores de asilo.

12

Resource Kit on Uprooted People (Dossier de Recursos sobre os Desenraizados), Austrália, pág. 18.

28 O que significa lançar um ataque às raízes e às causas imediatas da fuga… Está a pedir-se aos países de origem (dos refugiados) que eliminem as causas da fuga e facilitem o regresso dos refugiados ou das pessoas deslocadas. Por outras palavras, há uma tendência crescente para levar a comunidade internacional a interessar-se por situações que, até há pouco, costumavam ser tratadas como assuntos internos de cada país, como por exemplo, violação dos direitos humanos, repressão das minorias, discriminação, violência e perseguição. Dez fases de actuação Fase 1 Fase 2 Fase 3 Fase 4 Fase 5 Fase 6 Fase 7 Fase 8 Fase 9 Fase 10 aumentar o seu grau de conscientização envolver-se compreender os princípios do sistema internacional compreender os problemas de actuação do seu próprio país trabalhar pela justiça e pela paz mostrar solidariedade oferecer hospitalidade: “Benvindo, estrangeiro!” participar no debate sobre a imigração envolver-se na defesa da causa prestar serviços que respondam às necessidades materiais, sociais e espirituais

Conclusão Enquanto muita gente na nossa sociedade volta as costas ou nega atenção aos estrangeiros que vivem no meio dela, alguns Cristãos e algumas Igrejas optam por ficar do lado dos desenraizados. Algumas Igrejas têm-se identificado com os estrangeiros e os exilados durante séculos. Estão a surgir sinais de esperança nas iniciativas comunitárias e eclesiais em todo o mundo, como na criação de novos ministérios, novos meios de cooperação ecuménica, e novas maneiras de apoiar a dignidade humana e criar comunidades sustentáveis. Convidamos as Igrejas-membros a voltar a descobrir a sua identidade enquanto Igreja do 13 Estrangeiro através do testemunho e do serviço a todos os níveis da vida das Igrejas.

1.1.7 Os Idosos e os Incapacitados     Estão a ser eliminados de maneira astuta; A sociedade só dá valor aos que “produzem”; São apenas tolerados, em vez de serem tratados com amor; A sociedade e algumas famílias tendem a agir segundo um sistema de valores que os exclui.

1.1.8 Injustiças Culturais e Religiosas  Há uma distinção nítida entre o conceito de “cultura” dos povos indígenas e o
13

Ibidem, pp. 21, 24-27.

29 conceito moderno de “cultura”: o primeiro não exclui ninguém; o segundo contém uma exclusão cultural intrínseca. Só as “exclusões” culturais e religiosas já nos custaram, neste século, 120 milhões de vidas. As pessoas são consideradas “não-pessoas” por razões culturais, linguísticas e religiosas. Muitos governos têm uma agenda secreta de eliminação de grupos minoritários ou de “não-pessoas” por serem considerados “gente a mais”. Até há pouco, os 41 milhões de povos indígenas da América Latina e de outras áreas eram consideradas “não-pessoas”: mas a sua situação, em muitas regiões, não mudou de maneira significativa. Os grupos fundamentalistas e as seitas são frequentemente usados e sofrem abusos às mãos dos detentores do poder político. Por isso, são considerados como “uma ameaça” por outros grupos. Globalmente falando, está a nascer uma nova cultura, com um novo sistema de valores, que vai substituindo os valores tradicionais religiosos e culturais. Os meios de comunicação de massa são os principais factores deste fenómeno.

     

1.1.9 O racismo  As pessoas estão a ser sistematicamente roubadas da sua humanidade e da sua esperança por causa da sua raça - através de práticas tendenciosas ao nível educacional, legislativo, legal, médico e religioso.  O racismo é um mal que existe em todos os sectores da sociedade e da Igreja. - A Exclusão Até há pouco, falava-se da marginalização de grupos, mas o fenómeno realmente novo consiste na sua exclusão. É fácil identificar os excluídos, mas é mais difícil identificar aqueles que praticam a exclusão. - Trecho dum Documento de Capítulo Provincial: «A universalidade - a herança que nos deixou Maria da Paixão - é, antes de mais, uma atitude espiritual de abertura que nos leva além-fronteiras, para além da etnicidade, das castas e das nacionalidades. O ponto de partida está em encetar a caminhada da conversão e reconhecer o nosso próprio etnocentrismo para podermos ultrapassá-lo e para irmos ao encontro do outro. Na actual mistura de povos e no contexto do nacionalismo, as nossas comunidades interculturais e internacionais são chamadas a tornarem-se sinais e instrumentos de comunhão. A justiça chama-nos a reconhecer e a respeitar a igualdade de cada pessoa e de cada cultura - e a trabalhar continuamente para arrancar os nossos preconceitos pela raiz, numa atitude de conversão permanente. Por conseguinte, os membros do capítulo provincial apelam para que aprofundemos a nossa consciência dos males do racismo / etnocentrismo - dentro de nós próprios - dentro das nossas comunidades da FMM, nas áreas em que servimos, e no mundo

30 em geral, lutando pela eliminação das barreiras que nos impedem de nos juntarmos à mesa do Senhor. Dentro de cada comunidade, os membros têm a corresponsabilidade de se convocarem uns aos outros para tornar esta declaração uma realidade na vida quotidiana». Missionárias Franciscanas de Maria, E.U.A. Agir contra o racismo “Desde 1993, eu tenho trabalhado para mulheres imigrantes do Sudeste Asiático que vivem em Vancouver, no Canadá. Estas mulheres já verificaram que as organizações de serviço social são apenas um remendo em relação aos problemas mais prementes e fazem pouca obra de prevenção. Elas organizaram-se totalmente em vários e grandes grupos de protecção à mulher para educar, apoiar, trabalhar em rede e estudar estratégias conjuntamente com outras mulheres, para chegar a uma mudança na legislação e nas estruturas sociais. O principal problema é a falta de reconhecimento da educação recebida no estrangeiro e das credenciais laborais no Canadá. Os modos de discriminação que sofrem nesta área chegam a fazer com que um bacharelato, por exemplo, só dê, no máximo, para admissão ao Ensino Superior. Um diploma de pósgraduação talvez dê equivalência a primeiro grau académico. Também há discriminação no local de trabalho: Sirjit diz que “apenas reparam para a cor da pele.., agem como se a pessoa não soubesse nada, tivesse problema com a língua, ou não virá a desempenhar as suas funções cabalmente”. Têm uma ideia estranha das mulheres Indianas dão os empregos a pessoas médias e depois dizem: “você não tem experiência Canadiana”. Diz Devi: “A pessoa tem que ser número um entre os melhores para poder ter tanto sucesso como um Canadiano de origem”. E Pushpa afirma: “Está difícil para estrangeiros; eu tenho que alcançar resultados de 100% para conseguir um emprego de homem”. As observações destas mulheres estão carregadas de elementos racistas e sexistas - presumem ignorância devido à cor da pele; assumem que uma mulher Indiana não tem contributo a dar, ou que as competências adquiridas não têm valor algum; exprimem um racismo latente ao esperar melhor desempenho duma mulher imigrante com aparência diferente. Acção: Instituir programas orientados para a obtenção de equivalências de credenciais estrangeiras. Ou fazer acções de formação e manuais práticos, por exemplo, sobre “Como Chegar a Professor em British Columbia”. Ou mesmo seminários de formação anti-racista e anti-sexista preventiva, bem como projectos capazes de promover as políticas estatuídas pelo British Columbia Multiculturalism Act (Lei do Multiculturalismo de British Columbia) de 1993. Helen Ralston, RSCJ, Canadá Existe um programa de formação anti-racista na Escola Secundária do Sagrado Coração em Bona. Em Berlim, é da Congregação do Sagrado Coração de Jesus a delegada para assuntos de migração junto do Cardeal Arcebispo da Diocese. Esta função coloca-a em contacto com a imprensa e com políticos que são os criadores da lei e da opinião pública em relação aos

31 imigrantes. Ela tem sido animadora de um grupo de estudantes para agir sobre a lei dos imigrantes a apresentar no Parlamento. Congregação do Sagrado Coração, Alemanha Segue um trecho da famosa visão do Dr. Martin Luther King - a de um país unificado pelo amor e pelo espírito, sem os impedimentos das barreiras da cor ou da raça: “…Eu tenho um Sonho: o de que os meus quatro filhos haverão de viver, um dia, numa nação onde não serão julgados pela cor da sua pele mas pelo conteúdo do seu carácter. É esta a nossa esperança. É esta a fé que tenho…E com esta fé, nós conseguiremos cortar, da montanha do desespero, uma pedra de Esperança”. 1.1.10 A Violência Não estamos a exagerar quando dizemos que, actualmente, se vive numa cultura da violência. Na sua Encíclica “Evangelium Vitae”, o Papa João Paulo II enumerou alguns dos elementos daquela a que chamou “cultura da Morte”. No fundo, trata-se da mesma coisa, visto que toda e qualquer forma de violência é destruidora. A violência pode ser pessoal, social ou global. Ela pode ser sistémica e estrutural. Pode ser política, económica, cultural e religiosa. Pode até ser institucional. Ela vive-se em muitas famílias e comunidades. E nós temos consciência das suas muitas causas e expressões. Bob Kearns, um pároco da Congregação de São José, nos Estados Unidos, partilhou connosco a experiência que teve com um grupo de alunos do terceiro ano. Ao falar-lhes do quinto mandamento, perguntou: “Que tipos de violência se conhecem hoje”? Foi esta a resposta que veio dos lábios destas crianças de oito anos: “Violação em série, pancadarias, facadas, tiroteios, envenenamentos, suicídios, rapto de crianças, atirar bombas, acender fogos, torturar animais, abusar de crianças, matar pessoas idosas, aborto, SIDA”. E o Padre Kearns pergunta: “E que aconteceu àqueles tempos em que o grande problema era andar zangado com os meus irmãos e irmãs ou andar aos murros?” Michael Crosby 14, ao definir violência, afirma que ela é “qualquer uso de força causadora de ferimentos”. Nesta sua definição, ela conta com três elementos:  qualquer tipo de força  contra a vontade  causadora de ferimentos A “força” e o “ferimento” podem ser físicos ou mentais, individuais ou de grupo, psicológicos ou sociológicos, concretos ou ideológicos, religiosos ou espirituais, etc. Ao meditarmos nesta definição, deveríamos dar mais importância ao elemento “força” que causa ferimentos, do que às outras duas dimensões. Assim, centramo-nos na causa enquanto tratamos do impacto e do efeito.

14

Michael Crosby, OFM Cap., “Coming to Terms with Violence” (Encarar a Violência), The CMSM Shalom Strategy, EUA, 1996, pp. 18-20

32 Ora isto leva-nos a perguntar: quais são os diversos tipos de “forças” e “ferimentos” que operam neste mundo? Eis o que Thomas Merton, no seu livro Faith and Violence (Fé e Violência) tem para dizer: “O verdadeiro problema moral da violência no século vinte está obscurecido por pressupostos arcaicos e míticos. Nós tendemos a calcular a violência em termos do que é individual, confuso, fisicamente perturbador e pessoalmente aterrador…Isso é razoável, mas tende a influenciar-nos demais. Leva-nos a pensar que o problema da violência se limita a esta muito pequena escala, e torna-nos incapazes de apreciar o problema muito maior da presença mais abstracta, mais global e mais organizada da violência a nível das massas e dos grupos. A violência de hoje é uma violência de “colarinho branco”, a da destruição sistematicamente organizada, burocrática e tecnológica do homem”. Nós ainda temos a tendência para limitar a nossa compreensão da violência ao que é físico e individual, não a igualando às formas organizadas, burocráticas e sistémicas de violência que são responsáveis pela nossa actual cultura da morte. Em concreto, a violência manifesta-se nas seguintes formas, no mundo de hoje 15:  no trato que se dá aos pobres e aos marginalizados, às mulheres e às crianças, aos idosos e aos incapacitados;  na pesada carga de dívidas dos países mais pobres;  em programas de austeridade ou Programas de Adaptação Estrutural;  na economia do lucro;  em certas formas de consumismo;  no desemprego e no subemprego;  no acesso desigual à terra arável e a outros recursos essenciais;  no sistema monetário internacional actual;  na destruição do ambiente Eis allguns exemplos de opção clara pela não violência, feita pelas Irmãs Franciscanas da Penitência e da Caridade Cristã: “As Irmãs da nossa província detiveram-se intensamente sobre o tema da “não violência” durante este ano. Por ocasião da Visita aos conventos, todas as pulsões e reflexões em comum se centraram nesse assunto”. Os debates foram em torno de problemas e aspectos diversos como estes: “Como é que o comportamento violento e o comportamento não violento se manifestam na nossa vida diária? Será o comportamento não violento para com nós próprios, e prestar ouvidos à nossa verdade interior? Será a não violência uma expressão de tolerância? Será o respeito pela dignidade e crescimento das outras pessoas? A não violência - que é uma atitude Franciscana - é o princípio da subsidiaridade, um princípio estrutural em que a não violência se manifesta”.

15

Terry Miller e Marie Dennis, no seu artigo “The Global Face of Violence” (A Face Global da Violência) em Shalom Strategy, explicam os vários tipos de violência que estão em manifestação na sociedade actual; pp. 164-172.

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Testemunho Pessoal16 Michael Crosby, OFM Cap. Para interiorizar este material , sugiro algumas estratégias que me têm ajudado no esforço contínuo que tenho vindo a fazer para me tornar mais não violento:  Respeitar-me a mim mesmo por aquilo que sou, e aos outros pelo que são, desprendendome da necessidade que eu sinta de controlar os outros e, respeitosamente, não deixar que outros me controlem a mim.  Em todos os intercâmbios que possam incluir elementos de conflito, seguir esta quádrupla via: comparecer; prestar atenção; dizer a verdade tal como se vê; renunciar à necessidade de controlar os resultados.  Acautelar-me das várias maneiras como “ me pago do perdido” sempre que o meu poder, os meus haveres e o meu prestígio estejam em perigo. Que costumo fazer para os proteger e para guardar o meu “território”? Que é que me costuma fazer entrar na defensiva?  Acautelar-me dos meus medos e daquilo que faço, tanto consciente como inconscientemente quando eles aparecem. Procurar compreender como eles me podem impedir de “arriscar”.  Perguntar-me se guardo ressentimentos no coração a respeito de alguém. Na afirmativa, procurar a reconciliação pedindo perdão ou oferecendo arrependimento. Abrir-me aos outros quando eles procuram reconciliação comigo.  Mostrar gratidão e reconhecimento pelos pequenos actos de não violência; alegrar-me e mostrar satisfação em promover a paz.  Procurar tornar-me um místico/contemplativo na oração; ela alimentará e dará autenticidade aos desafios proféticos que a resistência pede.  Sabendo que toda a reconciliação deve estar baseada na justiça, procurar maneiras inovadoras de desafiar as instituições, os “ismos” e todas as ideologias que apoiam a injustiça. Não basta simplesmente denunciar: é preciso procurar alternativas.  Desenvolver formas de pensar que me tirem da centralização em mim mesmo e me coloquem numa solidariedade maior com as vítimas da violência, incluindo a própria terra.  Procurar viver segundo os seis princípios do Voto da Não Violência da Pax Christi (cfr. Apêndice A3.3); promovê-lo em toda a pregação que fizer.  Perguntar-me “Importo-me mesmo” com aqueles de que discordo, que desafio, e que me desafiam?  Ganhar consciência das origens da minha raiva quando ela tem tendências destruidoras (por exemplo, transferência, culpar os outros, arranjar bodes expiatórios).  Alimentar e deixar-me alimentar por comunidades de não violência e de resistência.  Individuar pelo menos uma causa pela qual esteja disposto a sacrificar-me; envolver-me numa campanha digna dessa causa.
16

Ibidem, p. 36-37

34

1.1.11 Factores duma globalização manipulada  As empresas transnacionais Os agentes principais são as empresas transnacionais, também chamadas multinacionais, que não têm vínculos de lealdade para com ninguém, principalmente para nenhum estado-nação. A maior parte das nações industrializadas estão em dívida, mas as transnacionais não. Elas são os motores da globalização. Agora são os estados-nações e os políticos quem trabalha para elas.  A Tecnologia da Comunicação Os computadores são hoje a linguagem da vida moderna. A INTERNET é quem define a vida de muita gente. O capital viaja à velocidade do computador e, assim, torna-se “a única e verdadeira linguagem humana”. Nós próprios estamos obrigados a fazer parte da superautoestrada das comunicações.  Os Poderosos de Bolso Os ricos e os poderosos, na verdade não demonstram lealdade nenhuma aos seus países ou nações - só à nova comunidade global. As viagens a jacto, os telefones celulares e por satélite, os computadores e os santuários fiscais em terra alheia permitem que os ricos andem pelo mundo como por casa sua e não revelam fidelidade aos seus países de origem.  Os Meios de Comunicação Quem é dono deles? Quem é que os administra? Eles têm preconceitos e por vezes são manipulados para servir os interesses dos que controlam o poder político e económico. Os média das nações ricas aceitam o plano das transnacionais e procuram convencer o resto do mundo de que ele é a única realidade para que vale a pena trabalhar, a única e verdadeira realidade humana, o sentido real do progresso.  O Fundamentalismo Devido a uma certa insegurança subtil inerente ao individualismo e respectivos ícones, está a dar-se uma viragem à direita em termos de Religião e de Fundamentalismo. Em certos contextos, o fundamentalismo até se usa como arma contra o modernismo. Segundo Felix Wilfred, a globalização parece estar a arrastar consigo o mundo inteiro. Na realidade, porém, ela deixa para trás porções cada vez maiores deste mundo no deserto da miséria. Ela arranca pela raiz muita gente com promessas de abundância, mas, na verdade, suga-os sem piedade e deixa-os secar e morrer. Os pobres e os fracos da nossa sociedade estão cada vez mais privados da segurança que as suas ocupações simples tradicionais lhes davam, por humildes que fossem. Eles ficam incapazes de concorrer contra um sistema cuja essência assenta em deixar para trás muitas pessoas à medida que ele avança. Foi o sector agrícola que sofreu o maior choque com a globalização…A globalização significa, para eles, uma real marginalização… É fácil arrastar povos e nações para uma economia global. Pouco a pouco, isto leva à perda dos aspectos mais nobres das suas culturas. Todos eles, afinal, recebem uma pseudo-cultura global 17 que, no fundo, presta serviço aos direitos adquiridos dos poderosos . 1.2. INJUSTIÇAS CONTRA O AMBIENTE 1.2.1 A Integridade da criação
17

Felix Wilfred, “No Salvation Outside Globalisation” (Não Há Salvação Fora da Globalização), in SEDOS, Roma, 96/305.

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“A Terra é a minha mãe. Tal como uma mãe humana, ela dá-nos protecção, prazer e toma conta das nossas necessiddes - económicas, sociais e religiosas. Nós temos relações humanas com a terra: de mãe, de irmã, de filho. Quando nos tiram a terra ou quando a destróem, nós sentimo-nos feridos, porque nós pertencemos à terra e fazemos parte dela”18. Diácono Djiniyini Goudarra  Há uma inter-relação íntima entre as injustiças sociais e as injustiças ambientais.  As crescentes injustiças ambientais são consequência das injustiças sociais. Aquelas não podem ser resolvidas sem que estas o sejam também.  Os modelos actuais de produção e de consumo são as principais causas da degradação ambiental. FACTOS E DADOS SOBRE AS INJUSTIÇAS AMBIENTAIS 1.2.2 Os Oceanos do Mundo 19     regulam o clima terrestre; fornecem 100 milhões de toneladas de alimento ao ano, sob a forma de peixe; têm abundância de sal e minerais (magnésio, níquel e cobre); podem fornecer água fresca por destilação;

mas estão agora a sofrer a poluição…  dos materiais tóxicos industriais  de esgotos e lixo provenientes das áreas urbanas;  de pesticidas, adubos, estrume animal e outros, devido aos métodos modernos de agricultura e cultivação. 1.2.3 A Poluição da Terra e do Ar     deve-se à queima de combustíveis fósseis para fins industriais; deve-se às emissões de combustão automóvel; deve-se ao crescente número de máquinas de refrigeração e condicionamento de ar; deve-se ao despejo de lixos tóxicos.

1.2.4 A Desertificação e a Erosão do Solo  A desertificação tem consequências ecológicas, sociais, económicas e humanas.  É o processo pelo qual a terra arável perde as suas árvores, arbustos e erva. A camada fértil fica, então, exposta ao vento e às variações climáticas, transformando-se em areia.  Todos os anos, cerca de 60.000 quilómetros quadrados de terra fértil ficam transformados em deserto. Mais 200.000 quilómetros quadrados de terreno cultivável e de pastagens são
18

Recognition: The Way Forward, An Issues Paper from the Australian Catholic Social Justice Council, ( Reconhecimento: O Caminho à Nossa Frente; Um Estudo de Problemas pelo Conselho Católico Australiano de Justiça Social), 1993, p. 20. 19 Os dados e os valores que seguem foram tirados de Environment and Development Kit (Dossier Ambiente e Desenvolvimento); Visuell Inform, Noruega, 1991.

36 destruídos ou ficam gravemente depauperados. Com o tempo, estas áreas ficam tão expostas aos elementos que o deserto acaba por engoli-las.  A desertificação está a acontecer sobretudo nas terras ao Sul do Sahara: mas também em certas partes da Ásia e nas orlas costeiras dos Estados Unidos e da América Latina. 1.2.5 A Desarborização  A floresta é a morada de muita gente, animais, aves e insectos. Ela fornece-lhes alimento, remédios, combustível, carvão, madeira e papel.  A vegetação mantém a vida humana e animal de muitos modos que são essenciais. Proteger a cobertura floral é a maneira mais importante de impedir a desarborização.  As plantas verdes absorvem o anidrido carbónico e produzem oxigénio. Se houver menos árvores, menos anidrido carbónico será absorvido; uma maior quantidade de anidrido carbónico faz piorar o efeito de estufa.  As florestas pluviais tropicais representam ¾ das florestas existentes nos trópicos. Essas florestas contêm 60% das espécies animais e florais do mundo como um todo. As florestas pluviais estão a desaparecer devido a:      actividades de mineração indústria de madeiras construção de estradas criação de gado (para exportar carne para o Norte) posse da terra.

 Tanto os países ricos como os pobres consomem árvores em proporções basicamente idênticas: os países pobres usam-nas por uma questão de sobrevivência, enquanto que os países ricos usam-nas principalmente por razões de luxo (para construção - à razão de 75%, no caso dos países ricos); e para fabrico de papel - à razão de 87,5% também pelos países ricos).  Já mais de metade das florestas tropicais do mundo desapareceram desde 1950. Estudos feitos recentemente revelam que, por cada ano que passa, destrói-se uma área de floresta tropical do tamanho da Nova Zelândia. Consequências da destruição das florestas pluviais:  A desarborização é a causa principal da eliminação de:  povos indígenas que habitam nas florestas,  espécies naturais: animais, aves, plantas - inclusive 7000 elementos medicinais  uma espécie desaparece cada 12 minutos que passam. (Deve haver cerca de 30 milhões de espécies, das quais conhecemos apenas 1.400.000);  Graves alterações climáticas, devido à destruição das chamadas “pias de anidrido carbónico”. Consequências da Alteração Climática Acelerada:

37  Torna os padrões climáticos cada vez mais inconstantes e difíceis de prever. Secas, temporais, inundações e furacões podem tornar-se mais frequentes e mais severos do que anteriormente. O gelo, a neve e os glaciares diminuirão.  Como o aquecimento da atmosfera também leva a um aquecimento maior da temperatura do mar, a sua alteração levará ao aumento do nível das águas dos oceanos.  Os efeitos deste fenómeno sobre a agricultura serão irregulares mas substanciais. Algumas áreas importantes de cultivo desaparecerão. A desarborização aumentará.  As alterações hidrológicas causarão rupturas  As condições climáticas assim alteradas farão pressão sobre as florestas, os prados e outros ecossistemas. Os efeitos das alterações climáticas aceleradas agravarão as desigualdades sociais dentro dos vários países e dentro de cada país. 1.2.6 O Efeito de Estufa     A combustão de carvão, óleo e gasolina, A libertação de gases químicos industriais, As queimadas em florestas, A fermentação anaeróbica…

…causam o aumento do anidrido carbónico e outros gases na atmosfera. Ora isto reduz a irradiação do calor para o espaço. O calor fica, então, retido, como acontece numa estufa - e a terra aquece. 1.2.7 Esgotamento da camada de ozono  A libertação de clorofluorcarbonetos para a atmosfera está a reduzir a camada de ozono que protege a terra contra raios ultravioletas: já diminuiu entre 4 e 8% durante os últimos 10 anos. Efeitos prejudiciais:  afectação do sistema imune  aumento do cancro da pele  mais doenças dos olhos  menor produção de madeiras  menor produção de culturas  perturbações no sistema oceânico  degradação causada por tintas e plásticos

1.2.8 A Ligação entre Injustiças Sociais e Injustiças Ambientais  Um bilião de pessoas adoece e 2 milhões acabam por morrer devido ao consumo e à lavagem - com água poluída;

38  No ano 2000, dois biliões e meio de pessoas já terão passado a consumir árvores a um ritmo maior que o da regeneração das mesmas;  20% dos ricos consomem 85% das energias não renováveis;  As indústrias continuam a produzir 2 biliões e meio de toneladas de resíduos tóxicos por ano - e a desfazer-se deles nos países mais pobres;  17 das principais variedades de pesca já atingiram ou até ultrapassaram os limites da sustentabilidade: 9 já estão em declínio grave;  As emissões provindas dos combustíveis fósseis já aumentaram quase 400% desde 1950. 1.2.9 Exemplos de Compromisso com o Ambiente Uma história de êxito dum grupo ecológico Marina Silva de Souza foi eleita para o Senado Federal em 1994 e já atingiu o nível mais elevado de qualquer mulher brasileira. Mas ela nunca esqueceu as suas origens. Com mais dez irmãos duma pobre família de extractores de látex da Amazónia, ela passou os seus anos mais tenros a caçar, pescar e produzir borracha. Em 1960, juntou-se a Chico Mendes para organizar manifestações pacíficas contra a desarborização da Amazónia e contra a expulsão das famílias extractoras de látex, que dependiam da floresta pluvial para viver. Encontraram muita resistência às mãos dos ricos fazendeiros e criadores de gado que andavam a abater a floresta com grande rapidez. Dizia ela: “Nós até duvidávamos de que alguém estivesse a prestar-nos atenção”. Mas, afinal, foram mesmo ouvidos, e a cruzada dos extractores de látex tornou-se uma inspiração para grupos ecológicos de base em todo o mundo. Desde os anos 80 e depois do assassínio de Mendes Silva, ela continuou a levar por diante a sua luta, concentrando os seus esforços na formação de reservas de floresta pluvial consagradas a actividades agrícolas não destruidoras, tais como extracção de látex e recolha de noz brasileira. Actualmente, existem 7.700 quilómetros quadrados no seu Estado, o Estado do Acre, reservados para estas actividades que são dirigidas pelas comunidades da floresta. “Se eu consigo ter um golpe de vista maior que os outros, diz ela, é porque estou apoiada por ombros de gigantes - os extractores de látex, os Índios e os cientistas” 20. No seu livro The Fire in these Ashes (O Lume Nestas Cinzas), Joan Chittister escreve que a nossa maior necessidade, hoje, é ter uma ecologia de vida, justiça e paz, para que o planeta possa sobreviver e para que todos os seus habitantes possam ter uma vida digna 21. Para que o planeta possa sobreviver e as pessoas possam levar vidas dignas, é preciso haver uma transformação nos sistemas económicos, nos padrões de consumo e nos valores que estão na base do estilo de vida dos ricos. As exigências deste estilo de vida estão a empobrecer os pobres e a matar a terra. Segundo Sean McDonagh “Nós estamos a causar alterações biológicas e geológicas de grande magnitude e só agora estamos a começar a acordar para as consequências da nossa maneira de agir” 22. É exactamente a magnitude destas alterações que está a levar as pessoas à depressão, à impotência e à incerteza do que fazer. Mas o papel daqueles que se encontram
20 21

“Grass Roots Heroes”, (Heróis das Bases), (Times, 29 de Abril de 1996). Sheed and Ward, Kansas City, 1995, p.102. 22 Passion for the Earth (A Paixão pela Terra), Geoffrey Chapman, London, 1994, p.64.

39 comprometidos com a Justiça Cristã para fazerem paz e para cuidarem da terra é muito claro. Trata-se dum papel essencialmente profético. Estruturas inviáveis exigem crítica; a indústria tem que ser desafiada, e as consequências da prática consumista devem ser postas em relevo. Estes tempos não são feitos para os tíbios. São para as pessoas com imaginação: há novas teologias a caminho; as liturgias que nascem da criação estão a avançar pelas igrejas adentro; nos lugares menos esperados, aparecem respostas inovadoras para as situações presentes. Há muito a fazer. Wanagri Maathai, célebre e corajosa figura do movimento Kenyan Green Belt (Cintura Verde do Quénia) e incorrigível plantadora de árvores incita-nos à acção: “Ninguém pode chegar e logo dizer que vamos impedir a desertificação ou a desarborização sem mais nem menos. Não se trata de um só problema, que requeira uma só resposta: tratase dum cozinhado complexo de muitos tipos de problemas que jogam uns com os outros e estão entrelaçados. E quando nós procuramos resolver estes problemas, eles nunca se resolvem em comícios de políticos, escrevendo lindos documentos. A final de contas, os problemas só serão resolvidos pela acção, onde quer que nós, enquanto indivíduos, estejamos. É por isso que eu gostaria de pôr em relevo o conceito de acção local e pensamento global. Afinal, é cada um de nós que deve tomar a decisão de actuar; já a conversa, os documentos…vão e vêm. E isso tem vindo a acontecer durante muito tempo”. Os problemas relacionados com a protecção do ambiente podem ser tratados de muitas maneiras: através da análise estrutural, através da colaboração, através da actuação a nível local ou por combinação destes três. A análise estrutural pode ajudar a identificar quais os grupos de interesses que estão a tirar partido da poluição industrial. Dias de limpeza, actividades da Greenpeace, actividades do World Wildlife Fund poderão pôr-nos em contacto com uma certa rede e com informações pertinentes, perícia e solidariedade de grupos. A actuação local e em casa é precisamente aquilo que mantém as nossas vidas ambientalmente “reais” e nos leva da teoria à prática. (No Apêndice 2, há uma lista de sugestões práticas para servirem de resposta aos desafios ecológicos do dia a dia). Abaixo, segue um excerto dum testemunho dado pelas Missionárias Franciscanas de Maria, nas Filipinas: Ética Ecológica para a Transformação Pessoal e Social A. Justiça Para os Nossos Dias: Suficiência Sustentável para Todos (SAPAT)  SAPAT é um termo filipino para “suficiente”, “bastante”.  Os ricos devem viver simplesmente, para que os pobres possam simplesmente viver.  A aceitação e a adopção de SAPAT como um modo de vida, como uma maneira de viver em sociedade, exige uma maneira verdadeiramente alternativa de encarar o mundo e de nele viver, uma maneira que deve revelar-se em vivo contraste com a cultura predominante corrente. B. Princípios de SAPAT  Princípio Primeiro:  Princípio Segundo:  Princípio Terceiro :  Princípio Quarto :

Basta de destruição do ambiente. Colha da natureza apenas o suficiente. Coma e compre apenas o suficiente e o necessário. Cada um deve ter o suficiente para manter uma vida

40 sadia e digna. Ao longo dos anos, foram dados passos significativos para a protecção do ambiente nos lugares onde as nossas Irmãs têm trabalhado. No decurso do seu protesto contra a exploração ilegal de madeiras na sua zona, os Mangyans e as Irmãs foram vexadas e ameaçadas. Este estado de coisas tornou-se crítico quando um dos chefes Mangyan foi esfaqueado. As Irmãs Combonianas fizeram a seguinte opção: Dar início à campanha do “suficiente” estabelecendo limites para as nossas exigências pessoais e comunitárias, e encontrando satisfação no que é apenas necessário… Uma Parábola para Reflexão e para Debate: A MÃE23 Era uma vez…uma mãe: muito carinhosa, fecunda e providente. Na sua imensa fertilidade, ela deu à luz, alegremente, centenas, até milhares de filhos. Chamava-se Terra; e os seus filhos chamavam-se “homens” e “mulheres”. Amorosa e prodigamente, ela deliciava-os com a fresca e casta água para beber, frutas carnudas e sumarentas para comer, relva macia, verde e fresca para nela se estenderem, por dias e noites, meses e estações. Quando os homens e as mulheres, que eram os filhos da Terra Mãe, eram pequenos, eles amavam a sua mãe de todo o coração. Acariciavam-na dia e noite com mãos e pés nus. Tão agradecidos se mostravam à Terra Mãe que chegaram a organizar grandes festas para introduzir e celebrar as estações, a colheita das culturas, o princípio e o fim das chuvas, do Verão e do Inverno. Na sua simplicidade de crianças, até lhe rezavam e lhe prestavam culto nos seus campos, nas suas casas e nos seus pequenos templos. À medida que os filhos da Terra Mãe foram crescendo e recebendo saber e educação, eles foram-se tornando também cada vez mais insensíveis para com ela. Por fim, esqueceram-se de todos os favores que ela lhes fizera, e também de todo o seu amor e generosidade. Todos os festivais e celebrações acabaram. As suas orações ficaram-lhes presas na garganta. O culto da mãe também foi esquecido. Até começaram a olhar com desprezo para as suas orações anteriores, as suas adorações, festivais e celebrações. E à medida que se tornaram mais “civilizados”, aprenderam a arrancar do seu seio, com espertezas e com a força, os tesouros que ela tinha escondido com amor para os homens e as mulheres ainda por nascer! Por fim, quando se desenvolveram por completo, mudaram de atitude para com a sua benigna mãe. Foi então que a Terra Mãe apareceu a seus perversos olhos, como se fosse uma conquistadora, sua rival, um animal feroz que era preciso apanhar em armadilha e subjugar,
23

Peter Ribes, S.J., Parables and Fables for Modern Man (Parábolas e Fábulas para o Homem de Hoje), vol.4, St. Paul´s, Bombay, 1991, p.70

41 uma pobretona que era preciso depenar. E assim, os seus filhos fizeram brutal canibalismo dela, amputaram-na, arrancaram-lhe o seu manto de beleza e poluíram-na. E mesmo assim, por todo o mundo, os intelectuais, os filósofos e os grandes pensadores continuavam a repetir: “ Finalmente que conquistámos a terra. Nós agora conhecemos os segredos da natureza. Libertámos a humanidade do antigo obscurantismo, do medo dos fenómenos naturais, e das superstições. Agora, sim, que somos ricos e prósperos. Espera-nos um grande futuro. Já nem precisamos de rezar ou fazer adoração a ninguém !”. Mas a minha pergunta é: “Isso é verdade? Podemos mesmo viver sem a nossa Mãe?” PERGUNTAS: 1. Quem são os filhos deste mundo? Trata-se apenas duma figura literária ou, antes, duma realidade concreta? Explique. 2. Que sentimentos tinham os “primitivos” para com a terra e a natureza? Como é que os exprimiam? 3. Os festivais, as celebrações, os rituais e os mitos dos “primitivos” tinham valor? Que valor? 4. Agora que acabaram, ganhámos ou perdemos com isso? Porquê? 5. Que sentimentos têm os seres humanos modernos para com a terra? Que é a terra, para eles? 6. Porque é que as suas atitudes para com a terra mudaram tão radicalmente? 7. Que é que os seres humanos modernos fazem à terra, hoje em dia? 8. Poderá a terra aguentar por mais tempo este ataque, este saque, esta violação dos seus recursos? Porquê? Quais serão as consequências? 9. Como é que os seres humanos, “racionais”, deveriam usar (mas não abusar) das riquezas e dos recursos da terra para impedir essas catastróficas consequências? PARÁBOLA para reflexão pessoal Houve uma vez uma turma cujos alunos discordavam - da professora, é claro Por terem de se importar com interdependências, globais problemas, ou com o que outros pensavam, faziam e até sentiam. A professora disse então que tinha tido um sonho em que vira um dos alunos, já na casa dos 50… Zangado ele estava e dizia… “Porque tive eu de aprender do meu país o passado e o governo em pormenor mas do mundo pouco ou nada?” Zangado ele estava porque ninguém lhe dissera que agora tinha que encarar dia a dia

42 problemas de interdependência de paz, segurança, e até de vida com qualidade, alimento e inflação, falta de naturais recursos. O aluno zangado vira que vítima e cúmplice fora... “Porque não fui avisado um pouco melhor educado? E não me falaram os ‘stores dos problemas deste globo ou ajudaram a entender que interdependente sou, de raça?” Cresceu a raiva, e ele gritou… “Fizeram crescer minhas mãos com máquinas, roboterias, meus olhos com telescópios, e até com microscópios, os meus ouvidos com rádios, sonares e telefones, com computadores meus miolos… mas não me ajudaram a alargar o meu coração, o amor ou o int’resse sequer, p’la grande família humana. Obrigado, stor, então: por só me ter dado meio pão!” Rye Kinghorn, Citado por Robert Muller: The Birth of a Global Civilisation (O Nascimento duma Civilização Global) 1.1.10 Comentário Final Como Gente Consagrada e promotores da Justiça, Paz e Integridade da Criação, importa que levemos esta “nova ordem global” a sério. Como Cristãos empenhados na edificação do Reino é nosso dever procurar o Plano de Deus para o mundo. E isto remete já para a leitura da Escritura (Secção II). É preciso que os promotores/animadores da JPIC examinem problemas de justiça com acuidade antes de passarem à acção para lhes dar solução. É preciso que assim façam porque precisam de entender os problemas com que lidam. É preciso ter método para examinar e analisar os problemas de justiça porque há perigo real de tais problemas se agravarem se os operários da justiça não tiverem noção plena

43 da raiz dos seus problemas. É o que devemos fazer pela Análise Social (Secção III). SEGUNDA PARTE FUNDAMENTOS BÍBLICOS PARA A JUSTIÇA, A PAZ E A INTEGRIDADE DA CRIAÇÃO

2.1. INTRODUÇÃO A mensagem Bíblica é fundamentalmente uma mensagem de VIDA, de ESPERANÇA, de JUSTIÇA e de PAZ. É necessário fazer uma releitura ou até uma reinterpretação da Bíblia para se poder descobrir o tema bíblico da Justiça como Relacionamento Correcto, um tema que perpassa como fio condutor por toda a Bíblia. Na Bíblia, é Deus quem toma a iniciativa, continuamente, de se revelar como Amor e Compaixão em virtude do seu desejo de estabelecer relacionamentos profundos:  entre si próprio e as suas criaturas;  entre os povos;  entre o povo e o resto da criação É esta representação de Deus que deve substituir outras representações incorrectas de Deus que possamos ter adquirido numa interpretação incompleta da Bíblia. A investigação e os estudos bíblicos continuam a fazer progresso e, entretanto, estão a fazer-se novas descobertas que contribuem para uma nova noção de Deus e de Jesus. Trata-se, assim, de noções renovadas que nos ajudam a aprofundar os fundamentos bíblicos da Justiça, da Paz e da Integridade da Criação (JPIC). Vale a pena lembrar que o Papa Leão XIII, o primeiro a escrever uma encíclica de cunho social (Rerum Novarum), também foi o primeiro a escrever uma encíclica sobre a Sagrada Escritura (Providentissimus Deus). Este facto poderia permitir a confirmação duma relação íntima entre a Bíblia e a Justiça Social. Neste contexto, talvez valha a pena dizer algumas palavras sobre a reinterpretação da Bíblia na Igreja, que é título dum documento publicado pela Comissão Bíblica Pontifícia em 1993. Os quatro trechos que seguem e foram tirados desse documento respondem à pergunta: porque reinterpretar a Bíblia hoje?

44  “Este estudo nunca estará completo; cada época tem de procurar compreender os livros sagrados à sua maneira, outra vez…  “O campo metodológico do trabalho exegético tem-se expandido numa medida que ninguém poderia ter previsto há trinta anos…  “A mensagem da Bíblia tem raízes profundas na história. Daí que as escrituras sagradas não possam lograr uma interpretação correcta sem a análise das circunstâncias históricas que lhes deram forma. A compreensão ‘diacrónica’ (o desenvolvimento dos textos ou tradições com o passar do tempo) e a compreensão ‘sincrónica’ (a que tem a ver com a linguagem, a composição, a estrutura da narrativa e o poder de persuasão) são ambas necessárias…  “ Um dos resultados deste tipo de investigação foi o de ter demonstrado mais claramente que a tradição que ficou gravada no Novo Testamento teve origem, e encontrou a sua forma básica, no seio da comunidade cristã, ou Igreja nascente, tendo passado da pregação do próprio Cristo àquela que proclamou que Jesus é o Cristo”. Citações tiradas do documento “A Interpretação da Bíblia na Igreja” publicado pela Comissão Bíblica Pontifícia, 1993. Foi à luz desta evolução no estudo da Bíblia que nós evoluímos na nossa compreensão do conceito bíblico de Justiça enquanto relacionamentos correctos. De facto, a procura da justiça consiste no esforço por edificar relacionamentos construtivos e libertadores a todos os níveis…

2.1.1 Os Relacionamentos na Bíblia 2.1.2 O Relacionamento de Deus com os Seres Humanos 2.1.2.1 Nas Escrituras Hebraicas (Antigo Testamento) 24 Êx 34:5-7 Um Deus, compassivo e benévolo, vagaroso na ira e generoso no amor, na fidelidade e no perdão… Amei-te com amor eterno…a minha fidelidade perdura…

Jer 31:3:

Jer 29:11-14 Eu sei que planos tenho para ti…planos que são para o teu bem, que te darão um futuro e esperança… Is 49:14-16 Como poderia uma mulher esquecer-se do seu filho?…Eu esculpi-te na palma da minha mão. Fui eu quem ensinou Efraim a andar…eu curei-os…eu governei-os com compaixão e amor…eu dei-lhes de comer. 9, 12, 22, 35, 69, 72, 82, 103, 107, 130, etc.

Os 11:1-9

Salmos:
24

Cf. Biblia de Jerusalém

45

2.1.2.2 No Novo Testamento Há três parábolas no Novo Testamento que nos indicam claramente o relacionamento que Deus tem com o seu povo, um relacionamento que está baseado numa nova ordem global de Justiça, tal como ela foi concebida por Jesus. 1) Em Mt 18:21-35: A Parábola do Senhor Misericordioso: a misericórdia do Senhor é extraordinária, porque Ele não usa medidas humanas. Ele revela compaixão para com o servo que implora misericórdia e Ele perdoa-lhe a dívida por completo. Em Mt 20:1-16: A Parábola do Patrão Compassivo: o dono da vinha preocupa-se com os desempregados. Nela se diz que, várias vezes no mesmo dia, ele foi à procura deles, convidando-os para irem trabalhar na sua vinha. A sua preocupação não era que o trabalho fosse feito; era que os trabalhadores recebessem uma jorna suficiente para assegurar uma vida digna às suas famílias A justiça de Deus realiza-se segundo as necessidades de cada um. Em Lc 15:11-32: A Parábola do Pai Compreensivo: Ele teve uma compreensão toda especial para com o seu filho que queria fazer uma aventura. Ao concordar com isso, ele bem sabia quanto estava a arriscar, sendo pai. Quando o seu filho finalmente voltou a casa, o pai não pediu explicações; até “despejou” amor e compaixão sobre ele. Mas quando o filho mais velho reagiu mal à atitude do pai para com o irmão mais novo, o pai explicou-lhe carinhosamente que a única coisa importante era que o irmão mais novo tinha sido “encontrado” para uma nova vida.

2)

3)

As três parábolas referidas reflectem o conceito bíblico de justiça: o dos relacionamentos correctos - de misericórdia, compaixão, compreensão e perdão. Deus está do lado dos pobres porque eles são pobres e objectos de discriminação. É assim que Deus é; e é disso que trata a Sua aliança - um pacto com os pobres para que possam viver como irmãos e irmãs numa comunidade de fé igualitária. Deus não “idealiza” os pobres. Ele não está contra os ricos ou contra os poderosos: Ele só está contra as estruturas das sociedades que colocam os ricos e os poderosos em oposição aos pobres e aos desalojados deste mundo. Deus é o salvador de todos 25. 2.1.3 Relacionamento entre os Seres Humanos 2.1.3.1 As Alianças: Sinaítica e Levítica Êx 22:20-21 > Dt 10:18-19 > Dt 24:17-24 > Tratamento justo dos órfãos, das viúvas e dos forasteiros

25

John Mansford Prior, SVD, “Biblical Foundations for Justice and Peace and Integrity of Creation” (Fundamentos Bíblicos da Justiça, da Paz e da Integridade da Criação) in Verbum SVD 36:1, 1995, 25.

46 Êx 22:24-26 Êx 23: 3-11 Lev 15:4ss Dt 24: 12-15 Êx 22:24 Êx 23: 6 Lev 19:35-36 Dt 25:13-16 Êx 23: 8 Ex 23: 1 > > > > > > > > > > Tratamento justo dos pobres e dos necessitados

Não cobrar juros Justiça para com os pobres Justo juízo a respeito de outrem Não enganar os outros Não aceitar subornos Não espalhar boatos falsos

2.1.3.2 O Relacionamento de Jesus com as Pessoas Mc 1,41: Mc 2,23: Um leproso veio ter com Ele…Jesus ficou cheio de compaixão Num dia de Sábado, os seus discípulos tinham fome…Ele deixou-os “transgredir o Sábado” para que pudessem comer… Relativizou a Lei: a compaixão é mais importante.

Mc 3,1ss: Mc 8,2: Mc 12,28-34

Para salvar vidas, promover a vida é mais importante que a Lei “Tenho compaixão desta multidão…” (Alimentação dos 4000) Amarás o Senhor teu Deus…amarás o teu próximo como a ti mesmo…amar o próximo vale muito mais do que todas as ofertas e sacrifícios cruentos”. Mc 2:15 Jesus não exclui ninguém. Mt 9:27-28 Compaixão para com o cego. Mt 18:21; Lc 17:4: Perdão das ofensas dos outros Lc 6: 6-11 Cura dos doentes. Lc 7:36-50; Jo 4:7-39Atitude para com as mulheres marginalizadas. Lc 7:9: Apreço pela fé dos não Judeus Jn 8:1-11 Compaixão para com os “pecadores” O relacionamento de Jesus com as pessoas ultrapassa todas as barreiras :  As barreiras de raça - os Samaritanos  As barreiras de género - vai sempre reconhecendo as mulheres como pessoas e como parceiras de missão  As barreiras da cultura - aceita a cultura mista e híbrida da Galileia e da Decápole  As barreiras da religião - oposição à estrutura religiosa formal do Templo de Jerusalém  As barreiras da idade - recebe as crianças  As barreiras dos chamados “marginais” - aceitando marginais políticos bem como cobradores profissionais de impostos, marginais sociais como os leprosos, e marginais religiosos como as prostitutas 27.
26 27

26

Ibidem, 20-21 Depois da ressurreição todo este ímpeto de inclusão foi levado ainda mais longe: a pertença ao judaismo tornou-se uma simples opção, e outras nações foram aceites juntamente com as suas próprias tradições, culturas e línguas. Este movimento inclusivo de Jesus encontra-se resumido no credo baptismal citado por São Paulo na carta aos Gálatas 3:27-28: “Todos os, que fostes baptizados em Cristo, vos revestistes de Cristo. Não há judeu nem grego; não há servo nem livre, não há

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A vida e a missão de Jesus foram uma ameaça constante ao “status quo”: Numa sociedade que tinha sido colonizada do ponto de vista político, que era patriarcal do ponto de vista social, e que era conservadora do ponto de vista religioso, Jesus acabou por introduzir um tipo de relacionamento alternativo com Deus e com as pessoas:  Jesus “quebra” o Sábado sempre que a necessidade humana o exige: vejam-se as controvérsias sobre o Sábado em Mc 2:23-28; 3:1-6; Lc 13:10-17; Jo 5:1-18; 9:1-34.  Jesus coloca as mulheres no lugar que lhes é devido: Lc 8:2; Jo 4:4-42; Lc 7:36-50; Mc 3:11; Mc 3:11; Mc 15:4-41, 47; 16:1-8.  Jesus atribuiu importância à fraternidade da mesa universal, rompendo com tabus sociais, culturais, religiosos, políticos e de género.  A comunidade de Jesus foi edificada sobre: as “duas palavras” - Mt 22:36-40; e sobre as oito bem-aventuranças - Mt 5:1-12.  O “evangelho espiritual” e o “evangelho material” eram, para Jesus, um único evangelho. 2.1..4 O Relacionamento dos Seres Humanos com o Ambiente 2.1.4.1 Relacionamento com a terra: Êx. 23:10-11 > Lev 25: 1-7 > Dar descanso à terra cada sete anos

2.1.4.2 Relacionamento correcto com os animais: Lev 25:7 Êx 23: 4-5 Êx 12:12 > > > Respeito e Compaixão para com os animais

2.1.5 Os Livros Sapienciais Em certos ambientes hebraicos floresceu o cultivo da sabedoria, uma atitude e maneira de encarar a vida que dava realce ao relacionamento entre Deus, os seres humanos e o resto da criação. A natureza é considerada muito importante nos livros sapienciais. Provérbios (445 A.C.) 6: 16-19 Job (430 A. C.) 42: 1-6 Eclesiastes (Qoheleth) (250 A.C.) 11: 5 Eclesiástico (Ben Sirach) (190 A.C.) 10: 6-7 Sabedoria (150 A. C.) 7: 22-30 Salmos: 103 (As glórias da Criação de Deus)

homem nem mulher, pois vós todos sois um só em Cristo”.

48 2.1.6 Os Profetas Os Profetas devem ser perspectivados e apreciados do ponto de vista da história judaica tal como ela é relatada nas Escrituras Hebraicas. Eles eram “chamados” e “enviados”: tinham papel central na história de Israel e no desenvolvimento do pensamento e da tradição israelitas. A justiça social era central à sua mensagem: Is 1:10-17 > O culto no Templo, a celebração litúrgica, as orações e os holocaustos não têm valor se as suas vidas não revelarem verdadeiro amor e justiça.

Jer 7:1-7 > Am 5:11-15; 21-24> Mic 6:1-8 > O papel dos Profetas poderia ficar resumido como segue:  Eles perscrutavam os Sinais dos Tempos a nível económico, político e religioso  Dirigiam a sua mensagem a todos: (1) à liderança política, uma vez que, no seu contexto, os Reis, pelo menos, professavam a sua fé em Javé; (2) à liderança religiosa; (3) ao “povo escolhido”.  Eles tanto anunciavam como denunciavam e até admoestavam: antes do exílio, a sua mensagem era principalmente de aviso; durante o exílio, ela era de esperança; depois do exílio, era de fidelidade. A mensagem dos profetas reflectia: (1) a sua preocupação com a idolatria e o sincretismo dos israelitas; (2) a sua preocupação de o “povo eleito” querer ser como os seus “vizinhos”, procurando absorver as suas formas de culto e de comportamento; (3) a sua percepção da tendência dos israelitas para considerarem a sua “eleição” mais como um privilégio do que como uma responsabilidade, levando-os a criar um espírito nacionalista que considerava os outros como “inferiores”.

Assuntos para Reflexão e Debate A ideia que as Escrituras Hebraicas nos dão dos profetas é a de uma pessoa…      Que tem vistas largas Que tem um relacionamento forte com Deus Que identificou claramente a sua Vocação e a sua Missão Que experiencia uma conversão Que age com coragem por se sentir “seduzido” por Deus.

Serias capaz de indicar os nomes de alguns profetas do contexto histórico actual que passaram por experiências semelhantes? Como te têm inspirado?

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2.1.7 O Martírio Social dos Nossos Dias O martírio voltou a fazer parte da vida da Igreja de hoje com repetições impressionantes. Se o Evangelho for vivido a sério, ele trará consigo a opressão. São Paulo avisa-nos sobre poderes e principados em actuação neste mundo e na sua história. Quem trabalha para o Reino de Deus encontrará oposição e até a morte. A nossa história recente registou exemplos de vidas que foram entregues para bem dos pobres e dos rejeitados, vidas de profetas e mártires do Reino de Deus. As estatísticas que são publicadas todos os anos pela Santa Sé indicam o número daqueles que de facto deram a vida a serviço da missão da Igreja. Muitos outros há que sofreram dificuldades extremas por amor das suas crenças. O martírio dá-nos uma indicação do grau de oposição que existe no mundo à mensagem cristã. Na verdade, ele representa o cumprimento da promessa feita por Cristo aos seus discípulos, e o cumprimento das bem-aventuranças. É claro que a natureza do martírio mudou. Já se não pode dizer que os cristãos de hoje são mortos por acreditarem nesta ou naquela verdade da fé católica. Há um maior número de mártires hoje por causa da sua fidelidade à missão de amor que lhes foi confiada. Neste sentido, eles são “mártires sociais”, mártires que morrem por causa da sua postura a favor da justiça e do amor 28. O Bispo Dien (do Vietname) é citado muitas vezes por causa da declaração profética que fez no Concílio Vaticano II, ao dizer “Nós temos muitos mártires, sim; mas teremos mártires da Justiça?” Assuntos para Reflexão e Debate Segue-se uma breve reportagem de alguns profetas contemporâneos (profetas de justiça social e de eco-justiça):  Que mensagem te trazem?  De que maneira te motivam a aprofundar o teu compromisso profético com a JPIC no contexto específico em que vives?

PROFETAS CONTEMPORÂNEOS O Arcebispo Óscar Romero 29 Óscar Romero nasceu em El Salvador em 1917 e foi ordenado sacerdote em 1942. Foi consagrado bispo em 1970 e tornou-se Arcebispo de San Salvador em 1977. Num primeiro
28

Bartolomeo Sorge, Address to the General Chapter of the Carmelite Order (Discurso perante o Capítulo Geral da Ordem Carmelita), Sassone, Set. De 1995, publicado em CITO, Out. De 1995, nº 5, p.89. 29 Ordem de São Domingos, Justice and Peace Workbooks (Manuais de Justiça e Paz), Cúria Geral, Roma, 1996, nº 4.

50 tempo, Dom Óscar Romero foi fortemente conservador, uma pessoa introvertida e pouco aberta às aspirações do seu povo. Mas esta situação viria a alterar-se radicalmente com o suceder-se de vários acontecimentos. A sua vida ficou virada ao contrário quando o seu amigo, o Padre Rutilio Grande foi assassinado, um de entre vários sacerdotes trucidados. Este acontecimento veio acordá-lo para a gravidade da situação de injustiça e violência que se vivia e foi o estopim que veio revolucionar a sua vida. A partir daquele momento, Dom Romero organizou a vida da sua diocese à volta da doutrina de João Paulo II, que ia falando da opção preferencial pelos pobres, que foi uma das prioridades da evangelização avançadas durante várias Conferências como Puebla e Medellín. Começou a prestar atenção ao tipo de experiência de fé que os pobres e os mais pequenos da sua diocese desejavam. Também se tornou um firme defensor das comunidades eclesiais de base - o único bispo daquele país a acreditar nelas. O seu apurado senso de evangelização levou-o a encontrar maneiras de inculturar o cristianismo na realidade social do seu país, um país subjugado pela pobreza, pela ditadura e pela violência dos ricos. Os seus sermões eram transmitidos por todo o país via rádio. Também tinha outro programa em que dava conta da situação à medida que ia sendo sentida pelo povo e pela Igreja local. Sempre que pregava, usava palavras duras contra a violência e as injustiças de que o seu povo era vítima. A sua postura radical estava firmemente enraizada no Evangelho e na dignidade da pessoa. “A Igreja afirma e defende a verdade eterna revelada por Deus, segundo a qual o homem e a mulher são imagens de Deus e que, por causa da obra redentora de Jesus Cristo, foram libertados da escravatura do pecado e receberam a dignidade de Filhos de Deus, ficando livres para escolher o seu destino e participar, para sempre, na glória de Deus. Esta é a verdade daqueles que defendem a Igreja, independentemente dos sistemas ou das realidades políticas” (1.1.1980). Dom Oscar Romero sempre procurou contextuar o cristianismo na realidade política por forma a poder falar contra a corrupção, a falta de democracia, as violações dos direitos humanos e para admoestar os cristãos contra o perigo de misturar Evangelho e política com demasiada facilidade, especialmente no caso de grupos que se serviam da violência. O Evangelho tem certamente uma dimensão política, mas também ordena alguns comportamentos específicos. “…É por isso que nós devemos assegurar o processo de libertação do nosso país. A Igreja não nos abandonará; ela continuará a viajar connosco mas com a voz do Evangelho, que é a da transcendência de Cristo. Ela continuará a exigir que cada uma das pessoas envolvidas na luta pela libertação ponha a sua confiança em Jesus Cristo, o maior libertador de todos e nunca O perca de vista, se houverem de ser fortes e eficazes” (1980). O Bispo foi inabalável na sua oposição à violência imposta pelos donos do poder (os políticos, os fazendeiros ricos, os militares, a polícia nacional), tal como à violência dos revolucionários militantes que diziam estar a agir em nome da justiça. Dom Oscar Romero bem sabia que estava a caminhar à beira do precipício, mas decidiu continuar, convencido como estava de que o Evangelho não era apenas a fonte da justiça social, mas também a fonte da paz. “O não à violência foi o seu único grito (e também da Igreja) sempre que alguém levantava a mão contra outro ser humano, fosse quem fosse. A violência é um pecado que conspurca o

51 mundo. Este grito de denúncia e de resistência nunca incendiou os ânimos na violência e no ódio dentro a Igreja…Pelo contrário, a voz da Igreja sempre promoveu a fraternidade fundada na fé e na verdade revelada por Deus, como fonte de inspiração da doutrina social” (1978). Acabou por receber inúmeras ameaças de morte, tendo sido assassinado a 24 de Maio de 1980, enquanto presidia à celebração da Eucaristia. Dorothy Day 30 Dorothy Day nasceu em 1897, numa família de jornalistas. Assim, juntou-se a seu pai e aos seus irmãos na mesma profissão. Antes de se converter à fé católica, já escrevera artigos de justiça social para vários periódicos seculares. Também participou no movimento anti-guerra (Primeira Grande Guerra Mundial); defendeu os direitos eleitorais das mulheres, e escreveu sobre pessoas que sofriam a pobreza. Durante os anos 30, o jornal Catholic Worker (O Operário Católico - que foi fundado por ela e por Peter Maurin) deu a muitos jovens católicos, então oprimidos pela Depressão, a oportunidade de servirem os outros. Viviam em pobreza voluntária e promoviam a justiça racial e social. Logo após o bombardeamento atómico do Japão, Dorothy condenou essa acção num artigo veemente. Durante os anos 50, o Catholic Worker continuou a avisar a humanidade do perigo nuclear que o mundo enfrentava, convidando ao jejum e ao protesto. No decurso do Concílio Vaticano II, Dorothy Day participou num jejum de dez dias dum grupo internacional de mulheres. O seu objectivo era pedir aos bispos de todo o mundo que condenassem as guerras de destruição maciça. Nos últimos anos de vida, ainda marchou com Cesar Chavez e com os United Farm Workers (Associação dos Trabalhadores Rurais). O Catholic Worker continuou a escrever sobre o sofrimento dos povos da América Central. Foi condecorada com a Laetre Medal pela Universidade de Notre Dame em 1975. A Dorothy viria a falecer em 1975; desde então, o Catholic Worker Mvement (Movimento dos Operários Católicos) tem continuado a crescer. O seu espírito e o seu zelo pela justiça social continuam presentes no meio dos Operários Católicos. Neste ano de 1997, foram programados encontros de nível nacional para comemorar o seu centésimo aniversário natalício. Mahatma Gandhi 31 Mohandas Karamchand Gandhi nasceu a 2 de Outubro de 1869, na costa ocidental da Índia. Pertencia a uma casta de comerciantes, embora alguns membros da sua família estivessem na política. Foi educado na tradição hindú. Casou-se aos doze anos e, passados cinco anos, foi estudar direito na Inglaterra. Em 1891, estabeleceu gabinete jurídico em Bombaim e, em 1893 emigrou para a África do Sul, onde viveu até 1914. Em 1894, fundou o Indian Congress of Natal (Associação Índia do Natal) no intuito de defender as pessoas Índias humilhadas e marginalizadas que viviam na África do Sul.

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Extracto de um artigo de David Buer, OFM, Califórnia, EUA. Ordem de São Domingos, Justice and Peace Workbooks, nº4

52 Foi durante este período que Mohandas se dedicou ao estudo do Bhagavad Ghita e do Evangelho (especialmente o Sermão da Montanha) e se tornou um perito no princípio da não violência enquanto processo religioso e político. Serviu-se de estratégias não violentas para defender os seus direitos já em 1906. O discernimento espiritual de Gandhi levou-o a uma vida de não violência e de serviço dos membros humildes da sociedade. Não fazia distinção entre as dimensões espiritual e social da vida; e ao actuar assim, fez um compromisso firme com o avanço da Justiça e da Paz. A não violência que ele praticou, conhecida pelo nome de “técnica do satyagraha”, não consiste no pacifismo ou num estado de resignação passiva face ao inimigo. Aquela técnica consiste em adoptar uma atitude activa de amor, de resistência às situações de injustiça, de oposição ao mal, de desobediência a leis injustas mas de modo não violento. O “satyagraha” requer grande coragem interior, porque a pessoa deve ter todo o cuidado em não cair na ratoeira da vingança e do ciclo da violência. Em 1914, ele voltou à Índia depois de ter lutado pelos seus princípios na África do Sul. Gandhi estava convencido de que tinha uma missão a cumprir: espalhar a verdade e a não violência pelo mundo todo como método do contra-ataque à violência e à mentira. Ao voltar, comprometeu-se a lutar contra o imperialismo britânico, por forma a alcançar a independência política e espiritual do seu país. Em 1915, fundou o seu primeiro “ashram” e começou a viajar pelo país para sensibilizar o povo, especialmente os pobres, sabendo que fonte de coragem eles eram para a Índia. Gandhi começou por organizar campanhas de desobediência civil a leis injustas que tinham sido promulgadas pelos ingleses, seguidas de campanhas de cooperação. Todas estas acções não violentas tiveram o mérito de desestabilizar a economia e a administração colonial. As suas campanhas mais famosas foram: a “campanha do sal” contra o monopólio inglês, e a “campanha dos têxteis” contra a importação de têxteis do estrangeiro. Nesta última, Gandhi tornou-se o apóstolo dos “khadi”, as fábricas de fiação do algodão que era produzido na Índia. Gandhi participou activamente nas negociações que haveriam de dar à Índia uma constituição mais favorável que, mais tarde, levaria à independência daquele país em 1946. Ele nunca hesitou em arriscar a vida, jejuando quase até à beira da morte. Na sua luta pela independência, ele sofreu inúmeras incompreensões por obra dos líderes políticos que não tinham a coragem de o ignorar; precisavam dele por causa da sua enorme popularidade junto dos pobres, embora tivessem recorrido à violência. A Irmã Rani Maria 32 A Irmã Rani Maria nasceu a 29 de Janeiro de 1954 em Kerala, Índia. Recebeu uma educação cristã que se tornou a base da sua vida e do seu trabalho até à hora da morte. Logo desde tenra idade manifestou grande preocupação pelos pobres e pelos oprimidos. Em 1974, entrou na congregação das Franciscanas Clarissas.
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Extractos de Sr. Rani Maria, a Martyr for Human Dignity, a Tribute by M.P. Voluntary Health Association ( A Irmã Rani Maria, Mártir pela Dignidade Humana; Homenagem da Associação Voluntária de Saúde M. P.) ; Indore, Índia, 1995.

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Onde quer que fosse enviada, ela ajudava as pessoas a reflectirem sobre os seus problemas e a reagir de forma adequada. Este método levou as comunidades das aldeias a envolverem-se em actividades de desenvolvimento: organizar escolas informais, construir casas de preço acessível, fornecer água potável, controlar os sistemas públicos de distribuição, introduzir indústrias de pequeno porte, dar aulas de alfabetização a jovens que tinham abandonado a escola, a mulheres e a pessoas idosas. Em tudo isto, a Irmã sempre fez questão que as iniciativas fossem movimentos populares de desenvolvimento, agindo sempre apenas como “humilde catalítico”. Por ter estudado sociologia, ela tinha uma noção profunda da situação social e do fundo cultural das pessoas. Desta forma, a sua dedicação, o seu zelo e o seu interesse iam de mãos dadas com uma abordagem sistemática do desenvolvimento humano. Costumava dar aulas de consciência social, e criou vários programas para levar o povo à conscientização e ao senso de pertença. A sua dedicação social foi muito para além do simples fornecimento de instalações ou de serviços de socorro. O seu objectivo era transformar as pessoas divididas e alquebradas em “imagens de Deus”. O seu amor e a sua compaixão encontrou saídas inimagináveis, na acção social e em serviços à comunidade. A Irmã Rani Maria foi depois enviada para Udainagar, diocese de Indore, em 1992. Eis alguns exemplos de como ali deu ao povo o senso de pertença:  Criou “Seva Samities” em várias aldeias - um plano de poupança para garantir aos agricultores a compra de sementes e adubos a juros muito baixos. O resultado foi a sua libertação da dependência dos agiotas.  Organizou grupos de mulheres, levando-as à consciência das suas capacidades, direitos e responsabilidades, mediante programas de educação de adultos. Hoje, estas mulheres estão envolvidas em várias actividades de desenvolvimento que compreendem pequenas indústrias de família, educação sanitária, etc.  Fortaleceu as “Panchayats” ou comissões de aldeia, alertando-as para os seus direitos e responsabilidades e assistindo-as na planificação de programas de desenvolvimento sustentado.  Criou Comissões de Protecção à Floresta, de que se serviu para conscientizar os habitantes das aldeias da importância da protecção à floresta. Tais Comissões tiveram o apoio do Departamento Florestal. A conscientização do senso de pertença dos pobres despertou a oposição dos que tinham interesses adquiridos, tais como os agiotas, as pessoas envolvidas na destruição ilegal das florestas, e líderes que queriam servir-se das Panchayats para fins pessoais. Por várias vezes fizeram protestos contra as suas actividades, mas ela continuou imperturbável perante a sua oposição e ameaças, inspirada no trecho de São Lucas 4, 18: “O Espírito do Senhor está sobre mim porque me escolheu para levar boas notícias aos pobres…e a proclamar a libertação dos oprimidos…” A 25 de Fevereiro de 1995, ela foi barbaramente assassinada em plena luz do dia, tendo sido arrancada do autocarro em que viajava. No seu funeral, a liderança local prestou-lhe honras com as seguintes palavras: “A Irmã Rani Maria não está morta: ninguém pode matá-la. Ela será sempre uma inspiração para nós no futuro”.

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Joseph Au Gi-Fu Joseph nasceu em Macau em 1941. Foi para Taiwan aos 19 anos e formou-se em Engenharia Química. Foi depois para a Suíça, onde passou 8 anos a estudar e a trabalhar, diplomando-se como Engenheiro Químico Nacional da Suíça. Por esta altura foi convidado a voltar a Taiwan para trabalhar como director do departamento de investigação numa das maiores indústrias de plástico do país. Teve grande êxito profissional; tornou-se um empresário abastado e era muito admirado pelos seus colegas. Mesmo assim, foi um católico profundamente envolvido. Depois de cerca de vinte anos de êxito na sua carreira, começou a questionar o sistema de valores deste estilo de vida. Tornou-se cada vez mais consciente das injustiças e da violência que se praticavam contra a humanidade e contra o ambiente em nome do progresso e do desenvolvimento. Em 1984, renunciou ao emprego. À procura dum significado mais profundo para a sua vida, foi estudar teologia e viajou por diversos países para falar com gente que tinha as mesmas incertezas e a mesma dedicação. Há nove anos, voltou a Taiwan e começou a viver um estilo de vida alternativo que descreve da seguinte maneira:  Uma vida simples: num ambiente rural, deixando de lado o conforto e as conveniências da vida urbana, resistindo ao desejo da riqueza e da fama, vestindo roupas simples e utilizando muito poucos utensílios eléctricos modernos. Nada de objectos descartáveis ou embalagens desnecessárias. Também nada de confecções ou enlatados - com opção feita por uma dieta vegetariana. Uso muito cuidadoso da água. Os cozinhados fazem-se a lenha.  Uma vida natural: viver em harmonia com a natureza e ser amigo de todas as criaturas de Deus. Amar a terra significa protegê-la da poluição e da destruição. Não há produção de lixo: todos os resíduos são classificados, reutilizados e reciclados. Não se usa nenhum detergente químico, nenhum pesticida, nem adubo. Evitam-se os produtos plásticos. A água vem duma nascente próxima (e não de torneiras), tudo como parte da opção feita por um estilo de vida alternativo.  A vida espiritual: combinação de modos de oração e meditação - orientais e ocidentais. Leitura da Bíblia, yoga e contemplação, todos os dias. Há partilha e faz-se oração de grupo com as visitas. É um estilo de vida que integra natureza e presença de Deus. Pratica-se o amor mútuo e a mútua assistência com todas as pessoas de boa vontade, sejam quais forem a religião, o género, a nacionalidade e a raça, com especial preferência pelos fracos e os incapacitados, por aqueles que sofrem espiritualmente e por aqueles que não têm quem os ajude. Eis um trecho tirado dos seus escritos: “Os que vêm a Yenliao (o nome da aldeia) ficam admirados por me verem aqui, a viver este tipo de vida simples. As muitas perguntas que me fazem obrigam-me a reflectir a fundo e funcionam como um verdadeiro teste à minha determinação. Eles procuram imaginar que é que me fez mudar tão radicalmente ao renunciar à vida urbana e à carreira de prestígio que eu tinha, e respectivos salários tão compensadores. Para admiração minha, são mesmo os meus amigos mais íntimos que manifestam dúvida sobre a minha forma simples de viver. Eles interrogam-me com curiosidade, tentando imaginar que é que me terá trazido a esta opção: terão sido frustrações, dificuldades, desilusões? Eles pensam que eu estou a desperdiçar os

55 meus talentos num lugar tão abandonado. Acham que eu estou a “fugir” ao mundo, alguém que se recusa a dar o seu contributo à sociedade. “Se eu tivesse continuado na minha ocupação anterior, que é que eu teria alcançado até aqui? Ao máximo, eu teria podido fazer alguma investigação para criar novos produtos ou, então, ter ajudado estudantes a adquirir conhecimentos. Produtos novos não podem mudar o coração duma pessoa, e nem sequer o pode o saber. Para mais, já há muitos peritos e cientistas no mundo que podem oferecer a sua perícia na área das suas especializações. Por outro lado, as pessoas que se querem dedicar a uma vida simples face a uma mudança de atitude são muito poucas… “O crescimento económico tem sido muito desequilibrado: as pessoas que têm enriquecido não se têm tornado mais cultas nem têm adquirido valores espirituais. Para muitos, progresso significa crescimento económico, maiores lucros, novos produtos industriais…Viver uma vida simples é sinónimo de retrocesso, atraso. Mas que é realmente o progresso? O verdadeiro progresso não se pode medir apenas em termos económicos, tecnológicos, ou de novos produtos. É mais importante olhar para o crescimento da vida espiritual das pessoas. O progresso humano precisa de ser julgado em termos da qualidade da vida: se há ou não mais harmonia, mais interesse mútuo, mais amor entre as pessoas. É o amor que é o critério autêntico do progresso. O avanço tecnológico não pode ser o critério do progresso humano; pelo contrário, ele tornou-se o factor central da nossa autodestruição. Não estou a negar o contributo da ciência e da tecnologia que nos traz benefícios a todos. Por outro lado, é preciso perguntarmo-nos se o crescimento económico traz felicidade e bem estar a todos os povos: aos ricos e aos pobres, aos países desenvolvidos e aos subdesenvolvidos, às gerações presentes e às futuras…Importa levar em consideração não apenas os seres humanos, mas também o ambiente e a natureza, incluindo as plantas, os animais, o ar, os rios, os oceanos, as montanhas e o solo. “Não é fácil libertar-se dos desejos vorazes e hedonísticos do coração humano para os substituir com o desapego e o autocontrole. Para fazer uma mudança deste tipo é precisa a ajuda da educação do coração e o cultivo dos valores religiosos. Aquilo que aprendemos da experiência da vida é que nos dá a verdadeira sabedoria… “Pela minha parte, tenho andado a viver este estilo de vida há oito anos. Cada dia que passa, eu sinto-me mais livre, mais calmo e mais feliz neste estilo de vida simples. Eu não o vou avaliar pela sua eficácia. Embora ainda não tenha ouvido Deus a falar-me, eu tenho experiência da sua presença dentro de mim. A minha esperança é que as pessoas consigam mudar a sua vida, as suas atitudes, o seu sistema de valores e visão da vida - que resultem numa mudança de relacionamento entre os seres humanos, entre os seres humanos e a natureza, entre os seres humanos e Deus. “Tudo isto deve derivar do AMOR, do amor a si mesmo, do amor ao próximo, do amor ao mundo todo. Só o AMOR pode levar as pessoas a viverem um estilo de vida simples de boamente. Quando todos viverem desta maneira, haverá PAZ no mundo. A caminhada é longa. Talvez nós não cheguemos a ver esse dia chegar; no entanto, é convicção minha de que é este o único caminho para a paz mundial. Então, vamos começar a andar...”. A Professora Wangari Maathai

56 Ser profético a valer exige uma convicção firme e uma dedicação corajosa face à oposição e às ameaças. No Quénia, chamam à Professora Wangari Matthai a leoa das mulheres por causa da sua obra corajosa em prol do ambiente e da justiça para o seu povo. Ela é a fundadora do já famoso Greenbelt Movement (Movimento da Cintura Verde), cujo nascimento remonta a 1971, e conta agora mais de 50.000 membros e vários viveiros de plantas ornamentais. Esta organização, além de ter plantado 7 milhões de árvores por todo o Quénia, tem feito campanhas de sucesso a favor dos direitos dos habitantes urbanos ao lazer, tem protestado contra a poluição química e contra a construção de habitações fracas para os pobres. Esta leoa das mulheres é uma pessoa “populista” que não tem medo dos políticos patriarcalistas do Quénia. Não tem medo de desafiar o Senhor Moi e o seu governo quando se trata de proteger a terra e melhorar a qualidade de vida para todos. Marcada com o rótulo de “subversiva” pelo governo, ela entrou para a arena política como membro do Forum para a Restauração da Democracia (FORD). Ao trabalhar pela libertação de presos; ao participar em greves de fome, marchas de protesto e grupos de pressão, ela tem sido acusada de transgressões, publicamente vexada pelos políticos e tem sido vítima das maiores calúnias. Mas a falta de bom nome nos círculos políticos não tem impedido a Professora Maathai de alcançar reconhecimento internacional pelo trabalho que faz. Sendo a primeira mulher professora universitária do Quénia, ela chefiou o Departamento de Estudos Veterinários em Nairobi e, em 1984, recebeu a maior honra da Suécia, o prémio “Direito à Subsistência”. É membro da comissão de selecção de premiados da UNEP (United Nations Environment Prize Prémio Ambiental das Nações Unidas) e recebeu o prémio de liderança em agricultura sustentável da África. Wangari Maathai, à maneira bem profética, lança invectivas contra aqueles que violentam a terra e oprimem os pobres. Só porque alguém é rico, poderoso e proprietário - isso não é título para a destruição do ambiente. Faz-nos recordar o profeta hebraico Amós quando proclamou: O leão ruge: quem não temerá? O Senhor Javé fala: quem não profetizará? …Não sabem agir rectamente - diz o Senhor Eles que amontoam nos seus palácios (o fruto) das suas violências e dos seus roubos (Amós, 3: 8,10). Irmã Helen Prejean A Irmã Helen Prejean, dos Estados Unidos, cumpre os critérios duma profetisa moderna. Pelo seu trabalho, pelo seu exemplo, pelos seus escritos, pelo seu falar cândido e pela sua convicção religiosa, ela enfrenta o governo americano, principalmente sobre a sua política da pena de morte. A Irmã Helena é membro das Irmãs de São José, em New Orleans. Ela presta serviço a famílias e a indivíduos que foram afectados pela pena de morte. É uma das vozes mais vigorosas a favor da abolição da pena capital nos Estados Unidos. O seu serviço de conselheira espiritual dos condenados à morte dá testemunho de que toda a vida é sagrada, tanto culpada como inocente. Ela tem-nos mostrado que o amor da reconciliação não conhece fronteiras, ao

57 cuidar também das famílias das vítimas dos próprios condenados à morte. A sua atitude persistente e as suas estórias cheias de sentimento têm conseguido acordar muitos corações adormecidos para a contemplação da horrorosa realidade da pena de morte. A Irmã Helena é absolutamente imparcial na sua postura profética. O seu livro Dead Man Walking (Caminhada do Homem Morto) está agora em filme, aliás de grande êxito. Os muitos prémios que ganhou atraíram um vasto auditório. Desta maneira, a sua postura profética tocou muitos que, de outra maneira, talvez não dessem pelo horror que é o assassínio legal. N.B. Estes são apenas alguns profetas contemporâneos. Sem dúvida que haverá muitos mais homens e mulheres que poderiam ter sido incluídos nestas páginas. Somos forçados a pôr limites ao seu número. No entanto, o grupo de promotores muito agradeceria poder receber uma breve descrição de pessoas que conheça e cuja vida poderia constituir uma inspiração para os demais.

2.2 O REINADO DE DEUS A pregação e a actuação de Jesus centraram-se no Reinado de Deus:  O Reino de Deus já chegou: Lc 11:20  O Reino de Deus está no meio de vós: Lc 17:21  Cumpriu-se o tempo de espera; o Reino de Deus está próximo. Mc 1:15, Mt 4:17

O Reino de Deus está “aqui” e “ainda não” (está) O anúncio do Reino é a irrupção duma nova era, duma nova ordem de vida: e é a isto que nos referimos quando dizemos “Venha a nós o vosso Reino…” A proclamação do Reino por Jesus foi uma reivindicação de que uma época especial de Jubileu tinha chegado e que n’Ele todos os mais altos ideais do Jubileu se cumpriam: Ele escolheu-me …para anunciar o ANO DE GRAÇA oferecido pelo Senhor. Lc 4:18-19 Quando Jesus proclamou o Reino de Deus…  Em primeiro lugar, estava a anunciar o juízo divino da ordem social corrente;  Em segundo lugar, fazia a afirmação de que as coisas podem mudar;  Em terceiro lugar, que a mudança já tinha começado. O modo de vida de Jesus foi, de facto, uma redefinição daquilo que significa ser humano. O seu conceito de vida humana não assentava sobre os padrões correntes mas, antes, sobre os padrões e valores do futuro Reino. Acreditar nele e praticá-lo decidia a sua existência. Ele viveu como se o seu Reino já existisse; e ao fazê-lo, tornou-o presente - no que tinha a ver com os seus relacionamentos pessoais. Mas o Reino é uma realidade comunitária e pública, além

58 de ser uma realidade pessoal. Para que se torne plenamente presente, tem que se fazer uma transformação das comunidades e da sociedade como um todo. Os sequazes de Jesus são chamados a “completar…o que falta aos sofrimentos de Cristo” (Col 1:24), continuando a viver segundo os valores do Reino e, desta forma, continuando a trazê-lo à existência. A única maneira de eu poder realmente proclamar a minha fé no Reino é vivendo-o - na esfera pessoal como na interpessoal, tal como nas esferas socioeconómica e política33. Os valores do Reino têm a sua melhor explicação nas Bem-aventuranças:  Viver segundo os valores do Reino é fazer uma conversão religiosa: é transformar as atitudes com respeito a: (1) haveres - vender e dar o rendimento aos pobres (Mt 19:21); (2) poder (Mt 5:5,11:29; 18-14; (3) prestígio social (Lc 14: 7-11) - nunca ocupando o primeiro lugar quando se é convidado para uma festa; (4) compreensão da religião (Lc 18:13) - reconhecendo humildemente a nossa condição de pecadores.  Viver segundo os valores do Reino é fazer conversão moral: é uma mudança na maneira como nos relacionamos com Deus e com os outros: (1) partilhar os haveres, ter uma bolsa comum (Jn 13:29); Actos 4:34); (2) depender da hospitalidade dos outros (Mt 8:20); (3) ser servo dos outros (Mt. 20:25-28; Jo 13:15); (4) não procurar posições de privilégio (Mt 20:21-23); (5) não se servir da religião para alcançar o poder, uma posição ou um privilégio (Mt 20:6-8).  Viver segundo os valores do Reino é fazer conversão política: é trabalhar em prol de: (1) uma ordem económica diferente (Mt 20:1-15); (2) uma ordem política diferente (Mt 20:2526); (3) uma ordem cultural diferente - atitudes para com os samaritanos e as mulheres (Jo 4:9,27); (4) uma ordem religiosa diferente (Jo 4:23-24; Mt 23:8). A proclamação do Reino feita por Jesus implicava uma nova visão de sociedade. O Reino que Ele anunciou era a realização duma comunidade alternativa que já tinha sido prevista na história bíblica por altura do Êxodo, quando o povo israelita, uma vez liberto do cativeiro no Egipto se tornou o povo de Deus (Êx 6:2-7) 34. A proclamação do Reino que Jesus fez é ao mesmo tempo uma promessa e uma convocação, um olhar para a realização final desta comunidade alternativa. Todos os seus milagres devem ser vistos em relação com a mensagem do Reino. O Reino de Deus torna-se presente onde quer que Ele supera o poder do mal. Naquele tempo, tal como hoje, o mal aparecia sob muitas formas: sofrimento, doença, morte, possessão diabólica, pecado pessoal, imoralidade, a hipocrisia sem amor daqueles que reivindicavam conhecer Deus, a defesa de privilégios de classe, a ruptura nas relações humanas, etc. É especialmente aos que vivem à margem da sociedade que Ele comunica a possibilidade duma nova vida com base na realidade do amor de Deus. O Reino de Deus é para os marginalizados,

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Donald Dorr, Spirituality and Justice (Espiritualidade e Justiça), Maryknoll, New York, Orbis Books, 1984. Esta secção foi inspirada pelo Capítulo 6 desta obra. 34 Voices from the Third World, Life Affirming Spirituality, Source od Justice and Righteousness (Vozes do Terceiro Mundo; A Espiritualidade Afirmativa da Vida como Fonte de Justiça e Rectidão), Ecumenical Association of Third World Theologians, Colombo, 1990, p. 78.

59 para os que sofrem, para os cobradores de impostos e os pecadores, para as viúvas e para a s crianças. Na pregação e na actuação de Jesus, o Reino inclui, claramente, a substância social, política e económica das relações humanas tais como Deus as queria. As maneiras típicas em que Ele exprimiu e manifestou a presença do Reino tinham todas a ver com o bem estar do povo. As curas e os exorcismos de Jesus davam indicação de que o Reino já estava presente. (Vozes do Terceiro Mundo, p.78). Ele também o entende como o fim do governo de Satanás, que representa o mal e o poderio estruturais (Mc 5:1-20). É bem claro que Ele pretendia formas de relacionamento social bastante bem definidas e específicas para o Reino-sociedade em que se entra, ou então, como requisitos para essa entrada. De facto, a velha ordem das coisas estava a ser substituída por uma nova ordem sociopolítica, ou seja, o “Reino de Deus” em que Jesus estava a convidar as pessoas a “entrar” 35 . ______________________
(34) Voices from the Third World, Life Affirming Spirituality, Source od Justice and Righteousness (Vozes do Terceiro Mundo; A Espiritualidade Afirmativa da Vida como Fonte de Justiça e Rectidão), Ecumenical Association of Third World Theologians, Colombo, 1990, p. 78. (35) Richard Horsely, The Kingdom of God and the Renewal of Israel (O Reino de Deus e a Renovação de Israel), in The Bible and Liberation, Norman Gottwald and Richard A. Horsely. Horsely explica com clareza a dimensão social do Reino: segundo pensa, o sermão de Jesus sobre o Reino centra-se nas pessoas e as suas principais metáforas têm em mira a extensão social, não a espiritualidade individualista; Maryknoll, New York, Orbis Books, 1993), 408-426.

No ministério de Jesus não há tensão entre salvar do pecado e salvar da doença física, entre o espiritual e o social. Nos evangelhos, os evangelistas usam a palavra “salvar”, pelo menos dezoito vezes, quando se referem às curas que Jesus opera nos doentes. Nos evangelhos sinópticos o arrependimento (metanoia) não é um processo psicológico; ele indica o acolhimento da realidade e presença do Reino de Deus. O chamamento a ser discípulo é um chamamento para o Reino de Deus e, como tal, é um acto de graça. Quando rezamos “Venha a nós o vosso Reino”, nós também nos comprometemos a começar, aqui e agora, a fazer aproximações e antecipações do Reino de Deus. O Reino de Deus virá, visto que já está aqui! Ele é ao mesmo tempo algo que se confere e algo que desafia, dom e promessa, presente e futuro, celebração e antecipação. Nem sequer a rejeição e a cruz são obstáculos a isso 36. Jesus fez do Reino de Deus o ponto central da sua pregação. Esta palavra convida-nos a reflectir e a imaginar como seria o mundo hoje se a vontade de Deus tivesse sido aceite e seguida por todos, se a lei do amor fosse cumprida por todos nós, se o plano da criação fosse realizado em todos os seus componentes. Este Reino é agora uma realidade, mas em tal situação que ele precisa de crescer no meio de nós. Ele é uma promessa de saúde e integridade para toda a humanidade e para toda a criação: os cegos começam a ver; os mancos começam a andar; os surdos começam a ouvir; e a Boa Nova é anunciada aos pobres.

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Richard Horsely, The Kingdom of God and the Renewal of Israel (O Reino de Deus e a Renovação de Israel), in The Bible and Liberation, Norman Gottwald and Richard A. Horsely. Horsely explica com clareza a dimensão social do Reino: segundo pensa, o sermão de Jesus sobre o Reino centra-se nas pessoas e as suas principais metáforas têm em mira a extensão social, não a espiritualidade individualista; Maryknoll, New York, Orbis Books, 1993), 408-426. 36 Ibidem, 33-35

60 O Reino de Deus é um reino de justiça e de verdade, de santidade e de paz, de graça, união e amor. Como realidade que é, ele capacita-nos para compreender o que é vontade de Deus e o tipo de Deus em que acreditamos. Pelo que sabemos sobre o Reino de Deus, nós podemos discernir aquilo que é bom, aceitável e perfeito. A fé no Reino de Deus impele as pessoas para serem seus servos e para edificarem o Reino de Deus “através do amor que foi derramado nos nossos corações” (1 Jo). A igreja primitiva entendeu o seu compromisso missionário com o mundo em termos deste fim-dos-tempos que já tinham chegado e que, ao mesmo tempo, ainda está pendente. A expectativa do fim iminente era componente da missão e pressuposto para a missão; por outro lado, ela exprimia-se em missão 37. Alguns dos valores do Reino que somos chamados a promover no mundo de hoje são: a união, a segurança, a justiça, o trabalho, os relacionamentos com as pessoas e com o ambiente, a compaixão, a harmonia, a esperança, a solidariedade, a inclusão e, naturalmente, a paz. 2.3. A CONVOCAÇÃO AO JUBILEU UMA CONVOCAÇÃO PARA REFAZER A IMAGEM DE JESUS E DA SUA MISSÃO 2.3.1 A Convocação ao Jubileu tem uma dimensão sócio-espiritual “O Ano Jubilar tinha por objectivo restaurar a igualdade entre todas as pessoas; era uma ocasião para recomeçar tudo de novo…A justiça, segundo a Lei de Israel, consistia sobretudo na protecção dos fracos…O Ano Jubilar era para restaurar a justiça social, ou seja, os bens criados deveriam estar ao serviço de todos de maneira justa” (João Paulo II: Tertio Millenio Adveniente, Cidade do Vaticano, 1994, n.º 13 - doravante citado como “TMA”). Cada Ano Jubilar também é um Ano Sabático porque, segundo o Levítico, o Ano Sabático acontece cada sete anos. Assim, coincidia com o Ano Jubilar: “Sete vezes Sete anos” (Lv 25:8). A lei do “descanso da terra” era para se cumprir cada sete anos e, portanto, cada 50 anos. O Ano Sabático Êx 23:10-13: “Semearás a terra durante seis anos e colherás os seus produtos. Mas no sétimo ano, deixarás a terra em repouso e abandonarás os seus frutos, que os pobres do teu povo comerão, e os animais selvagens comerão o que sobejar…” Lv 25:1-7: “Mas no sétimo ano será concedido à terra um descanso, um sábado em honra do Senhor…O que a terra produzir durante o seu descanso servir-vos-á de alimento, a ti, ao teu escravo, à tua serva, ao teu jornaleiro e ao estrangeiro que vive contigo. O teu gado, assim como os animais selvagens da tua terra, poderão alimentar-se com todos esses frutos”. Dt 15:1-18: “ De sete em sete anos cumprirás a Lei da remissão…deverás libertar
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David J. Bosch, Transforming Mission, (Transformar a Missão), Maryknoll, New York, Orbis Books, 1991, p. 41.

61 todos os escravos…” O Ano Jubilar Veja-se Lv 25:8-55: Todas as dívidas tinham que ser perdoadas; os escravos que tinham sido acumulados durante 49 anos tinham que ser libertados; a terra que tinha sido acumulada durante 49 anos tinha que ser redistribuída… A LIBERTAÇÃO tinha que ser proclamada para todos:      libertação dos escravos; perdão de todas as dívidas; retorno de cada qual à sua propriedade e família; proclamação da liberdade por toda a terra e aos seus habitantes; inauguração de um ano de reconciliação

Como se pode ver por estes textos, proclamava-se a libertação tanto do povo como da terra. É por esta razão que o ano 2000 é importante: a sua mensagem , no contexto actual, centra-se tanto nos seres como no ambiente. O Ano Sabático e o Ano Jubilar foram estatuídos para ajudar a comunidade hebraica a rectificar as injustiças e as desigualdades. Em Lucas 4:16-19, Jesus faz uma referência clara ao Ano Jubilar, “o ano da graça do Senhor”: “…para trazer boas notícias aos pobres/aos aflitos, para proclamar a liberdade aos prisioneiros, a vista aos cegos, a liberdade aos oprimidos…”. O Jubileu, um ano de graça do Senhor, caracteriza todas as actividades de Jesus (TMA n.º11). Nesta passagem, a missão de Cristo e o tema do Jubileu estão entrelaçados (TMA n.º40). Lucas resume todo o seu evangelho na leitura dum texto de Isaías por parte de Jesus, num Sábado. Jesus retrocedeu até ao tempo anterior ao reino de David, o do Jubileu:      boas notícias para os pobres; liberdade para os presos; a visão para os cegos; a liberdade para os oprimidos; o anúncio do ano de graça do Senhor.

As palavras e as acções de Jesus representam o cumprimento da tradição dos Jubileus na sua totalidade (Lc 4:16-21; Is 61:1,58:6; Lv 25:10). “Todos os Jubileus apontam para este ‘tempo’ e se referem à missão messiânica de Cristo. Os fundamentos desta tradição eram estritamente teológicos…Se, na Sua divina providência, Deus deu a terra à humanidade, isso significa que a deu a cada um. Portanto, as riquezas da criação devem ser consideradas um bem comum a toda a humanidade. Os que possuem estes bens como propriedade pessoal são ministros encarregados de trabalhar em nome de Deus, que continua a ser o único dono em sentido pleno, uma vez que é vontade de Deus que os bens criados sirvam cada um de maneira justa. O Ano Jubilar tem como intenção restaurar esta justiça social”. (TMA n.º13).

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2.3.2 A Visão de João Paulo II para o Jubileu do Ano 2000 (TMA n.º 51) “Como poderíamos nós esquecer-nos de sublinhar ainda mais a opção preferencial da Igreja pelos pobres e os marginalizados? De facto, alguém disse que o compromisso com a justiça e a paz num mundo como o nosso, que está marcado por tantos conflitos e por intoleráveis desigualdades sociais e económicas, é uma condição necessária para a preparação e para a celebração do Jubileu”. …Os cristãos terão que levantar as suas vozes a favor de todos os pobres de todo o mundo, fazendo a proposta de que o Jubileu seja uma ocasião apropriada para dar alguma consideração, entre outras coisas, a uma redução substancial, senão ao perdão total, da dívida internacional que ameaça gravemente o futuro de tantas nações (TMA n.º 51) Eis algumas sugestões concretas apresentadas naquela Encíclica (TMA n.º 51):  comprometer-se com a justiça e a paz;  levantar a voz a favor dos pobres do mundo;  reduzir substancialmente, ou mesmo cancelar, a Dívida Internacional;  reflectir sobre as dificuldades de diálogo entre culturas;  tratar dos problemas relacionados com os direitos das mulheres;  promover a família e o casamento Assuntos de Ulterior Reflexão e Acção face ao Jubileu do Ano 2000 Em várias Igrejas locais, a preparação para o Jubileu inclui reflexões sobre a conversão, a reconciliação, o perdão, etc. 38. No Zaire, os missionários do CIAM (Centre d’Information e d’Animation Missionaire) lançaram um apelo às mulheres e aos homens de boa vontade, pedindo assinaturas para uma petição de cancelamento da dívida Africana até ao ano 2000. Na Inglaterra, algumas pessoas ligadas às várias igrejas, lançaram a Jubilee 2000 Campaign com uma petição para apresentar na Cimeira do G7 em 1999 (Cfr. Apêndice A1.4, 1.5, 1.6), uma Jubilee Charter, ou Contrato Jubilar, que apresenta um esquema prático para fazer remissão de dívidas insolúveis. Eis alguns trechos de um artigo de Ann Pettifor, Coordenadora do Contrato Jubilar: “A convocação para o Jubileu do ano 2000 é uma convocação para retirar o jugo da degradação económica daqueles que foram escravizados pelas forças económicas, especialmente pela Dívida Internacional…O atraso da dívida insolúvel dos governos dos países mais pobres nunca poderá ter remédio senão através duma remissão acordada por parte dos credores. Para acabar com a escravidão da dívida, e para dar início a novas e disciplinadas relações

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Na sua obra Transforming Mission, Bosch apresenta um significado mais amplo do termo “perdão”. Ele diz que é importante levar em consideração o conceito bíblico de “perdão”. Na Bíblia, a palavra “perdão” tem uma grande variedade de significados, que vai desde “resgate de escravos vinculados” até ao “cancelamento de dívidas monetárias”, “libertação escatológica” e “perdão de pecados”, p. 33.

63 financeiras entre os países ricos e os países pobres, a remissão destas dívidas deveria ser alcançada até ao ano da redenção, o Jubileu do Ano 2000…39. 1. Nas Escrituras Sagradas Hebraicas, a fé da comunidade hebraica em Javé exigia que a pobreza e a dívida fossem “extintas” cada 50 anos. O mundo de hoje tem necessidade urgente dum Ano Jubilar: 20% da população do mundo estão a acumular cada vez mais terra e recursos; o número dos pobres e dos marginalizados está a aumentar, tanto no Sul como no Norte. Estas pessoas pobres não têm oportunidades de educação, assistência de saúde básica, habitação condigna, emprego digno, em suma, de tudo aquilo que contribui para a dignidade humana básica. Na medida das tuas capacidades (seja qual for o teu serviço) quais são as maneiras (ou pelo menos algumas) - mesmo modestas - com que poderás marcar o Jubileu do Ano 2000? 2. O nosso planeta Terra está a ser destruído de forma sistemática em nome do progresso e do desenvolvimento, que é só para uma pequena minoria da população do mundo. Nas Escrituras hebraicas, foi pedido à comunidade hebraica que desse descanso à terra de sete em sete anos. Durante esse ano, Javé providenciava alimento suficiente tanto para os humanos como para os animais. O Ano Sabático era uma maneira de ajudar o povo a interromper a acumulação de bens, enquanto que, ao mesmo tempo, se dava à terra a oportunidade de se regenerar. O nosso planeta só poderá ser salvo se nós, humanos, deixarmos de acumular bens. Muitos indivíduos, e organizações, também, estão a fazer esforços para salvar / regenerar o planeta. Como membro duma congregação religiosa, em que categoria te encontras? Na da destruição do planeta? Na dos que ajudam a salvar o planeta? Na dos que ajudam a regenerar o planeta? Talvez nas três categorias? Na tua posição (seja ela qual for), que iniciativas poderias empreender para adaptar o conceito do Ano Sabático Bíblico à situação corrente? 3. O Papa João Paulo II, na sua Encíclica Tertio Millenio Adveniente (TMA) proclama o Ano 2000 como Ano Jubilar, ligando o conceito bíblico do Ano Jubilar à passagem de Lucas, 4,16-19. Na TMA n.º 12, ele diz que “…O Jubileu, um ano de graça do Senhor, caracteriza todas as actividades de Jesus”. Na TMA n.º 40, ele diz “Nesta passagem, a missão de Cristo e o tema do Jubileu estão entrelaçados”. Levando em consideração a realidade do mundo actual, que sugestões farias à tua congregação religiosa sobre a forma de celebrar: - os seus próprios jubileus; - os jubileus de conventos, províncias, institutos, etc; - o Jubileu do Ano 2000.
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Forum for Action (Fórum de Actuação), Número 16, Outubro-Dezembro de 1996.

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2.4. REFLEXÕES TEOLÓGICAS SOBRE TEMAS ESPECÍFICOS Segue-se uma série de reflexões sobre temas importantes que poderiam dar uma ajuda adicional no aprofundamento dos fundamentos bíblicos da JPIC. 2.4.1 A Incarnação A teologia da Incarnação está pouco a pouco a suscitar um novo significado de Solidariedade. Embora sob a forma de Deus, Jesus não esperou que a sua igualdade com Deus fosse coisa que pudéssemos compreender. Assim, esvaziou-se a si mesmo ao tomar a forma de servo, tornando-se, como nós, em tudo um ser humano (Fil. 2:6-7). A sua vinda na nossa carne, e sendo como nós em tudo excepto no pecado, revela até que ponto pode chegar a solidariedade com os outros. Foi através desta “inserção” num povo e pela plena “inculturação” que Jesus conseguiu realizar o plano do Pai para a humanidade. Durante 30 anos, no “Silêncio” de Nazaré, Jesus “lê e prescruta os Sinais dos Tempos” na Palestina do seu tempo. É durante este tempo que a sua missão se torna gradualmente mais clara. É pelo “esvaziamento” de si mesmo que lhe é possível cumprir a missão que lhe fora confiada pelo Pai, a de promover o Reino de Deus. Pela sua incarnação, Jesus revelou-nos a capacidade da pessoa humana em se esvaziar para fazer lugar para Deus e para os outros. Tudo aquilo que Jesus tinha por natureza, nós agora temos por graça. 2.4.2 A Ressurreição e o Pentecostes A escuridão da noite dá a vez ao brilho da luz do dia com a chegada da alvorada. Esta inspiração tem enchido o coração e a mente das pessoas desde o início dos tempos. Com a ressurreição, Jesus tornou-se não apenas um símbolo de vida nova mas também o portador e o garante de nova vida. Agora, já está inscrita na nossa humanidade a experiência de vida nova a aparecer na terra com a vida, a morte e a ressurreição de Jesus. O Reino do Deus não é um programa: é uma realidade apresentada pelo acontecimento da Páscoa. Intimamente ligada à ressurreição, e quase como parte do próprio acontecimento pascal, fica o dom do Espírito, que está igualmente e integralmente ligado à missão. O Espírito é o Cristo ressuscitado a actuar no mundo. O poder da ressurreição é libertado pelo Espírito. No nosso compromisso com a JPIC, a graça torna-se operante por meio do Espírito. Para a comunidade de Jesus, a ressurreição de Cristo e a vinda do Espírito são prova tangível do “já” do Reino de Deus. O “ainda não” alimenta-se do “já” (Bosch, 41). Se o Senhor não ressuscitou da morte, então a nossa fé é vã. Poderíamos dizer que, sem a ressurreição, a vida e a pregação de Jesus teriam representado um lindo sonho e nada mais; a lei do amor teria sido uma linda lei, mas demasiado difícil e pouco realista; a lei da justiça teria

65 tornado a nossa vida muito melhor, mas teria custado demasiado. Mas pela sua morte e ressurreição, Jesus conseguiu autenticar o valor e a eficácia da sua vida e da sua missão. Certa vez, Dan Berrigan estava a dar aulas sobre a morte e as várias maneiras de a encarar. Uma pessoa presente na sala, era um homem que sabia estar a morrer de cancro. Dan Berrigan fixou nele o seu olhar e, passados uns minutos, perguntou-lhe: “Qual é o problema?”. E o homem respondeu: “Eu estou a morrer de cancro”. O professor concentrou-se por alguns instantes e, depois, disse-lhe: “Isso deve ser uma coisa emocionante!”. O homem confessou mais tarde que mais nenhumas palavras fizeram tanto pela sua mudança de vida e para lhe revelar o significado da ressurreição como aquelas seis. A ressurreição é uma promessa da vida que ainda está por vir. É a certeza da vida que derrota a morte, e ela é a marca característica das comunidades cristãs. Elas acreditam na ressurreição. A cruz, a sepultura vazia, e as aparições, transformam a visão que temos da vida. A vida tem significado; e tem sentido sacrificarmo-nos pela causa da Rectidão. É essencial que se acredite no poder que a pessoa humana tem para continuar a agir apesar da miríade de dificuldades que de todos os lados a atingem. A história de como as pessoas superam dificuldades aparentemente invencíveis é aquele género de testemunho que nos convence de a base da nossa fé na vida estar na Boa Notícia da Ressurreição. Até que Ele venha… A Criação leva-nos a reconhecer a beleza e a ordem que Deus gravou nela, logo no princípio. A Incarnação ajuda-nos a ver com que intensidade Deus ama o mundo e tudo o que ele contém. A Redenção dá-nos a oportunidade de compreender que nem ninguém nem nada se perderá. Tudo foi resgatado de volta pela morte e pela ressurreição da Palavra incarnada. Tudo isto alcança realização e nos é prometido. O cristão vive em tensão, entre o que já aconteceu e o que ainda está por acontecer. O Reino de Deus já está aí e ainda tem que vir. Nós olhamos para a frente, para a realização, quando Ele vier, e dedicamo-nos ao trabalho que nos compete até Ele chegar, porque Quem está para vir já chegou. Os crentes sabem que a paz , a justiça, e a beleza da criação pelas quais eles anseiam estão nas mãos de Deus e hão-de vir, quando os tempos estiverem maduros. Em vez de fazer diminuir o nosso senso de missão, esta esperança espevita-nos a tornar real aquilo que nos foi prometido. 2.4.3 A Conversão Jesus deu início à sua pregação com as palavras: “O Reino de Deus está próximo: arrependeivos e acreditai na Boa Nova” (Mc 1:14). Pediu mudança de atitude, instigando as pessoas a mudar a orientação das suas vidas - da segurança e da insuficiência do que já sabiam e possuíam, para a fulgurante promessa do Reino de Deus que a sua vida e a sua pregação incorporavam. A conversão, a formação e a evangelização estão intimamente ligadas. Elas assentam no encontro com a vontade de Deus, na aceitação dessa vontade, e na capacidade de avaliar o que está a acontecer no mundo e na vida das pessoas a partir dessa vontade - que se exprime no plano divino do Reino de Deus. O processo de conversão consta dum encontro com uma realidade nova, que é a aceitação da verdade e do valor daquela realidade e a configuração da nossa vida com aquela verdade. Para alguns, a conversão dá-se quase instantaneamente. Os exemplos de São Paulo e de Óscar Romero são prova disso. Para outros, a conversão apresenta-se como um processo longo e

66 penoso de descoberta e de mudança. O que aconteceu às congregações religiosas nestas últimas décadas é um exemplo disso. Mesmo quando a mudança parece ser instantânea, o momento de conversão envolve um longo período de assimilação e de integração, como o indica o caso de São Paulo. O processo de conversão é muitas vezes penoso. Implica deixarmos o mundo que conhecemos, com todas as vantagens e desvantagens, e caminhar na direcção duma luz que mal começou a aparecer no horizonte. A escura noite da injustiça cede perante a fulgurante alvorada do Reino de Deus que foi prometido e oferecido àqueles que acreditam. O chamamento à conversão reconhece a presença de caminhos pecaminosos e destrutivos neste mundo, e o desejo de sair deles para um modo de vida que é construtivo. É preciso receber formação para o conseguir. A fé num novo céu e numa nova terra é resultado duma vida convertida. O novo céu e a nova terra representam o fim da opressão e uma vida que é vivida em conformidade com a liberdade dada às filhas e aos filhos de Deus desde o princípio, e que foi restaurada com a vida, a morte e a ressurreição de Jesus (Gal 4:31-5:1). Converter-se aos Brados dos Pobres O coração de Deus comove-se ao ouvir os brados dos pobres. Este Deus conhece os sofrimentos do seu povo; tem ouvido os seus gritos; e vai descer para os salvar (Êx 3). Antes de agir em prol da justiça e do amor, é preciso fazer como Ele: primeiro ouvir os brados das pessoas; conhecer o seu sofrimento; e ter um desejo firme da sua libertação. Os brados dos pobres são dom do Espírito Santo. Deus tanto dá esse grito como também lhe dá resposta. Para os crentes, este grito que está na boca daqueles que a Ele recorrem com esperança, é o ponto de encontro entre Deus e aqueles que Ele chamou. O grito das vítimas da injustiça, quer dizer, o grito dos pobres, é o teste da promessa do Reino de Deus, da verdade do Evangelho que pregamos e da profundidade do amor dos discípulos. Onde este brado não tem resposta, é mais difícil que as pessoas acreditem. É esta a pedra em que as pessoas tropeçam. Quando ouvimos e respondemos ao brado dos pobres de modo autêntico, nós passamos por uma conversão. A Opção Evangélica pelos Pobres É verdade que todas as pessoas são, de certo modo, pobres; mas é importante entender a realidade dos que são pobres do ponto de vista material nos nossos dias, ou seja, daqueles que não têm o suficiente para viver, cuja voz e contributo para a sociedade não conta para nada, e que, em muitos casos, são vítimas de discriminação positiva e de violência. Visto que o amor de Deus toca e transforma toda a criação, e o mandamento do amor se aplica a todo o homem e mulher, nós temos que descobrir o modo de exprimir esse amor. Nós somos chamados a amar toda a gente. Esse amor, nuns casos fará crescer as pessoas, noutros “arrancá-los-á aos seus tronos”. Deus fez opções. A opção a favor dos pobres é a primeira de todas as opções, tal como é apresentada em toda a Bíblia, tanto nas proclamações como nas acções de Javé e de Jesus. Deus escolheu um povo pequeno e humilde e mandou os seus profetas para defender o forasteiro, a viúva e o órfão. Os profetas, em nome de Deus, lembraram ao povo a sua aliança com Deus e proclamaram anos de jubileu em que tudo seria rectificado e os pobres seriam libertados das suas dúvidas. Jesus nasceu na cidade mais pequena; fez dos pobres e dos marginalizados seus companheiros durante a sua vida e missão.

67 A opção pelos pobres representa uma escolha entre várias maneiras de entender e de se comportar. Cada escolha pode tornar-se numa experiência de conversão. Ela representa uma escolha de amigos e de companheiros, uma escolha de maneiras de evangelizar, uma escolha de interesses, uma escolha de lugares onde investir os nossos recursos, e uma escolha de sabedoria. A opção pelos pobres e o trabalho pela justiça não são a mesma coisa, mas estão intimamente relacionados. A opção pelos pobres aparece como a opção privilegiada e a maneira evangélica de levar a justiça a todos. Para se conseguir a justiça e a paz, as pessoas precisam de viver no mundo dos pobres e partir daí para compreender o mundo, descobrir as suas possibilidades de justiça, condenar tudo o que é injusto e construir um mundo em que todos são acarinhados e bem recebidos. Todo este processo é um processo de Conversão. A Conversão dá-se no, e através do, nosso compromisso com a JPIC Um sacerdote religioso do Canadá apresenta-nos a seguinte reflexão: “…Eu estou convencido de que nós, aqui no Norte, não somos capazes de nos rever nesta conscientização. Temos de experimentar a VIDA tal como a maior parte do nosso povo a experimenta. Nós estamos demasiado afastados da vida da gente. As estruturas da Vida Consagrada mantêm-nos longe da vida real das pessoas. Nós temos de VER/OUVIR o grito dos pobres e temos de estar prontos a usar a palavra “pobre” com o sentido que o mundo de hoje lhe dá, quer dizer, os que são materialmente pobres, abandonados, não-pessoas, e os que, no fundo, estão de fora das estruturas do poder económico…Isto vai pelo nome de “perspectiva” e, para mim, isto é conversão”. Um exemplo concreto de conversão ao brado dos pobres: “Que é que ocasionou a conversão de Dom Romero? Já me fizeram esta pergunta algumas mil vezes. Mas eu não tenho resposta de tipo técnico ou psicológico. Nunca lhe falei disto. Não é fácil mexer com as coisas mais profundas da vida de outra pessoa. Até seria presunção tentar fazê-lo. Apesar disso, tenho as minhas próprias ideias a respeito da sua conversão, e de que vos poderia falar, pelo menos para registar o facto de que se deu uma mudança nele e de que o que fez a seguir não se pode explicar mediante as interpretações manipuladoras a que foi submetido. Eu estou convencido de que o momento da conversão de Dom Óscar Romero foi o do assassínio de Rutilio Grande. Dom Romero conhecia este homem muito bem. Considerava-o um padre exemplar, além de amigo. O padre Rutilio foi o mestre de cerimónias na sua ordenação episcopal. Apesar disso, Dom Romero não concordava com o tipo de trabalho que o seu amigo tinha andado a fazer em Aguilares. Achava que era demasiado político, demasiado “horizontal”, muito afastado da missão fundamental da Igreja e demasiado próximo de certas ideologias revolucionárias. Neste sentido, o padre Rutilio era um problema para Romero, além de ser também um enigma. Por um lado, ele era um bom padre: zeloso, de fé profunda; pelo outro, ele parecia ter escolhido uma missão errada. Eu creio que o enigma ficou resolvido quando Rutilio morreu. Foi quando se encontrou de pé, junto ao seu cadáver, que as escamas lhe caíram dos olhos: Rutilio tinha razão. O tipo de trabalho que fez, e o tipo de Igreja e de fé que ele abraçara estavam certos. Mas, mesmo a nível mais profundo, se era verdade que Rutilio morreu como Jesus e mostrou o maior amor possível ao morrer pelos seus irmãos e irmãs, então, por certo que também a sua vida fora como a de Jesus. Rutilio fora um seguidor muito especial de Jesus.

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Em suma, não era Rutilio que estava enganado: era o próprio Romero. Não era Rutilio que precisava de mudar: era Romero. E foi exactamente isso que ele fez”. 40 (Para mais informação sobre Óscar Romero, veja-se a secção 2.1.7) 2.4.4 A Libertação Nas Escrituras hebraicas, as palavras “Salvação” / “Salvar” usam-se em referência à salvação total da pessoa: não havia dicotomia entre corpo e alma. Sendo Jesus judeu, também Ele usou a palavra “salvar” em referência à pessoa toda, integrada. Jesus usa a palavra “salvar” dezoito vezes nos Evangelhos ao referir-se à cura dos doentes e ao perdão dos pecados. A dicotomia entre corpo e alma é um dos resultados da influência da filosofia grega sobre a teologia e a catequese cristãs da Igreja primitiva. Em história da Igreja, está a reconhecer-se, cada vez mais amplamente, que nós temos tido a tendência de sublinhar a salvação da “alma” com prejuízo da salvação da pessoa na sua totalidade. Só há pouco tempo é que, face às crescentes e descaradas injustiças a nível mundial, que resultaram na falta de dignidade humana para cerca de dois terços da população, é que nos tornámos mais conscientes do elemento “libertação” na evangelização. As teologias nascentes da libertação têm contribuído para uma compreensão mais integrada da libertação/salvação enquanto dirigidas à pessoa completa, nos níveis político, socioeconómico e espiritual. As teologias da libertação levam em consideração as estruturas pecaminosas que oprimem as pessoas em todos os níveis. As pessoas precisam de ser libertadas tanto individualmente como socialmente. Esta foi a história da salvação registada pelas Escrituras judaicas. De facto, salvação e libertação são duas palavras usadas para designarem a mesma coisa: a vinda de Deus em auxílio das mulheres e dos homens para os tirar de toda a forma de opressão e os unir a Ele. A salvação e a libertação têm acontecido desde o princípio e haverão de continuar até que Jesus Cristo esteja todo em todas as coisas. Chamados a ser arautos da salvação e da libertação, a Igreja, tal como cada um dos seus membros, trabalham no mundo para tornar a salvação conhecida e para cumprir a promessa que contém. Quando reina a justiça, as pessoas ficam livres de tudo o que é opressivo a nível espiritual, social, económico, psicológico e físico. Quando analisamos o que fazemos, é bom perguntarmo-nos, de vez em quando: “Há libertação naquilo que faço?”. Será que isto ajuda as pessoas a libertarem-se? Como membros da Igreja, nós temos sacramentos, catequese, retiros, devoções, etc. Ora, na medida em que estas práticas ajudam a libertar as pessoas daquilo que as oprime, elas fazem parte da práxis libertadora da Igreja. O termo “práxis libertadora” foi introduzido na teologia católica pela Teologia da Libertação. De acordo com o método da libertação, ou da teologia da libertação, a reflexão realiza-se depois do acontecimento, do qual se não pode separar. O acontecimento, ou série de
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J. Sobrino, Monseñor Romero (Dom Romero), San Salvador; UCA Editores, 1994, 18-19.

69 acontecimentos que interessam à teologia da libertação são aqueles em que se pode identificar uma práxis. A práxis é uma actividade cujo objectivo é transformar a história para melhor. Na abordagem práxica à teologia, a verdade é, antes de mais, algo que se deve fazer e, a seguir, entender. A teologia da práxis pergunta: “Que é que Deus faz?”, ainda antes de perguntar “Quem é Deus?” - e pergunta “Que é que a Igreja faz?”, ainda antes de perguntar “Que é a Igreja?”. Isto significa que uma pessoa chegará a conhecer quem Deus é a partir do conhecimento daquilo que Ele faz - e chegará a conhecer o que a Igreja é a partir do conhecimento daquilo que ela faz. Não basta dizer que a Igreja é a favor da libertação e da salvação: a Igreja deve mostrar que tem uma práxis de libertação. Ela tem de integrar a experiência da comunidade dos crentes como agente de libertação integral. Em consequência da reflexão sobre a práxis de libertação da Igreja, as pessoas terão uma consciência mais profunda de Quem é o seu Deus Libertador. Se a Igreja não tiver uma práxis de libertação, então a imagem de Deus que as pessoas trazem na cabeça poderá muito bem ser uma imagem distorcida. À práxis autêntica e libertadora dáse o nome de “ortopráxis”. Ela consiste na colaboração da pessoa com o amor de Deus pelo mundo, na edificação do Reino de Deus. É isto que constitui uma práxis libertadora autêntica. De igual modo, é a colaboração da Igreja com o amor de Deus pelo mundo que constitui a sua práxis libertadora. As pessoas salvam-se na medida em que são libertadas de tudo o que as oprime. Há necessidade dum discernimento e duma avaliação contínuos nesta procura duma teologia e duma missiologia que nos ajude a realizar a vontade de Deus a respeito do mundo. 2.4.5 Dois Conceitos de Salvação A reflexão seguinte, apresentada por John Fuellenbach, talvez nos possa ajudar a compreender com maior clareza os dois conceitos de salvação 41: O plano de Deus para a criação tem sido concebido de maneiras diferentes. As duas melhores de que temos conhecimento são as seguintes: a primeira entende a salvação principalmente como uma operação de socorro (deste mundo mau e pecador), de tal forma que os bons são seleccionados e levados para um Novo Céu e uma Nova Terra. Esta concepção encaixa bem na que entende o Reino como uma realidade totalmente transcendente, algo que nada tem a ver com este mundo. A segunda entende o plano de salvação divina de maneira “holística” (ou de totalidade), que inclui a criação toda. Significa uma transformação da realidade na sua totalidade, em vez de um processo de selecção. Uma visão Individualista da Salvação O plano divino da salvação, neste caso, é entendido fundamentalmente como algo totalmente “do outro mundo” e transcendente, sem ligação alguma com o mundo actual e as suas dimensões sociais. Poderíamos descrever tal concepção desta maneira: Deus criou os seres humanos com a intenção de os conduzir, neste mundo, ao seu destino final a que habitualmente designamos por “céu”. Porém, cada pessoa tem de se revelar digna de tal convocação. É por isso que ela é colocada neste mundo, que está permeado de pecado,
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Throw Fire (Lancem o Fogo), Manila, Logos, 1997, cap. 6

70 corrompido e, portanto, perigoso. Este mundo assemelha-se a um imenso campo de testes que foi criado para fornecer às pessoas uma ocasião perfeita para ganhar ou perder a sua salvação eterna. Se a pessoa passar o teste, Deus a recompensará com a vida eterna. Na perspectiva das religiões gnóstica e dos mistérios, os deuses estão empenhados em povoar o Olimpo com algumas almas selectas que foram salvas do mar tempestuoso da matéria e da história humana. A pessoa é encarada como uma unidade fechada em si mesma, uma espécie de Robinson Crusoe a quem Deus dirige a sua convocação como se estivesse numa ilha, e cuja salvação só acontece em termos duma relação com Deus. O que se deixa de lado é o facto de nenhuma pessoa ser uma ilha, viver isolada. Ora, não é possível falar de salvação sem se fazer referência ao mundo de que fazemos parte. Uma visão deste tipo tem, naturalmente, uma espiritualidade correspondente, cuja única preocupação é a salvação da própria alma. Nesta concepção, a salvação é totalmente individual e privada de qualquer ligação ao próximo, a este mundo e ao seu destino. A história, com o seu fluxo contínuo de pessoas e culturas, não tem significado algum. As realizações humanas neste mundo não têm nada a ver com o mundo que há-de vir. Elas todas haverão de desaparecer no momento em que chegarem o Novo Céu e a Nova Terra. Não ficará rasto algum delas para a nova criação. Este mundo não tem interesse. Ele não tem importância alguma, sejamos nós ricos ou pobres, doentes ou sadios, gente de estimação ou gente de casta baixa. A única coisa que importa é aguentar o teste e ir para o céu, independentemente daquilo que façamos neste mundo. Mas será esta concepção do plano de Deus a versão correcta? Uma Visão Universalista da Salvação Ao contemplarmos os Sinais dos Tempos, nós encontramos na Sagrada Escritura algumas imagens do “mundo que há-de vir” que nos permitem ter uma interpretação diferente. Neste caso, o plano de Deus para o mundo é percepcionado não em termos duma destruição total da criação mas em termos duma transformação ou transcriação42. O “Novo Céu e a Nova Terra” significam este mundo-transformado, renovado, purificado e feito novo. É este velho e corrupto mundo, permeado de pecado - um mundo tão cheio de ódio, egoismo, opressão, desespero e sofrimento - que será objecto de transformação. Tornarse-á algo totalmente novo. O nosso mundo é a arena onde o plano final de Deus para o mundo se vai desenrolar. O “Reino de Deus” acontece aqui, no meio dos negócios humanos. Tem a ver com este mundo aqui-e-agora. E já aconteceu diante dos nossos olhos, só que a sua plenitude ainda está para vir. Se aceitarmos esta concepção do plano de Deus para a criação, toda a nossa concepção da salvação mudará também. Ser salvo não significa ser retirado deste mundo e ser transferido para outro lugar. Ser salvo quer dizer continuar a fazer parte da criação como um todo, a qual foi transformada em “Novo Céu e Nova Terra”. Eu serei salvo porque a criação como um todo será salva. A minha salvação está embutida na salvação de todos os seres humanos. É porque os meus irmãos e irmãs serão salvos que eu serei salvo, visto que formo uma unidade com eles. Estritamente falando, nós não podemos falar de salvação individual por estarmos ligados por milhares de laços uns com os outros e com a totalidade da criação.

42

Cfr. Ribes, p. 122

71 Para reflectires… Thich Nhat Hanh, poeta vietnamita e monge budista, faz uma descrição da nossa pertença à realidade global total nos seguintes termos: “Eu sou a criança do Uganda, pura pele e osso, de pernas tão finas como canas de bambu, e eu sou os braços do comerciante a vender armas mortíferas ao Uganda. Eu sou a menina de 12 anos, uma refugiada numa casca de noz, que se atira para o oceano depois de ter sido violada por um pirata do mar, e eu sou o pirata, com coração ainda incapaz de ver e de amar. Eu sou um dos membros do politburo, com imenso poder à disposição, e eu sou o homem que tem de pagar a sua “dívida de sangue” ao meu povo, a morrer devagarinho num campo de trabalho forçado. A minha alegria é como a primavera, tão quentinha que faz as flores desabrochar em todos os caminhos da vida. A minha dor é como um rio de lágrimas, tão cheio que enche os quatro oceanos. Por favor, chamem-me pelos meus verdadeiros nomes, para eu poder ouvir todos os meus soluços e as minhas risadas ao mesmo tempo, para eu poder ver que a minha alegria e a minha dor são uma só e mesma coisa. Por favor, chamem-me pelos meus verdadeiros nomes, para eu poder acordar e para a porta do meu coração poder ficar aberta, a porta da compaixão”. (Thich Nhat Hanh, in E. Roberts & E. Amidon, Earth Prayers (Orações da Terra), pp.12-13

Para Reflexão Pessoal e Debate de Grupo

Parábola: O QUEBRA-CABEÇAS DO MAPA-MUNDI Disseram a uma criança para pôr em ordem as peças duma enorme “paciência” do mapa-mundi. Por mais que tentasse, não conseguia. Foi então que alguém lhe deu uma dica. Disse-lhe essa pessoa: “Olha para a parte de trás das peças do mapa quebra-cabeças. Também lá encontrarás as peças do desenho dum homem adulto completo. Primeiro, procura combinar as peças do homem quebra-cabeças”. A criança fez exactamente como lhe fora dito e, assim, conseguiu completar a figura do homem. Resultou na imagem dum homem bonito e sorridente. E… maravilha! - por detrás da imagem do homem podia ver-se o desenho do mapa do mundo em perfeita ordem. 1. Será que um mundo dividido, com tantos problemas, interesses, e facções terá hipótese de se unificar? Porquê? Qual seria o primeiro passo para a paz e a harmonia mundiais? Porquê?. Podem as estruturas mundiais - económicas, sociais, políticas, religiosas, étnicas, etc. - ser colocadas em ordem sem contar com os seres humanos? Porquê?

2.

72 3. 4. 5. 6. 7. 8. Como é que se poderia procurar resolver as divisões que existem entre as pessoas do mundo inteiro? Em primeiro lugar, que é que Cristo veio mudar: as pessoas ou as estruturas do mundo? Quem criou as estruturas do mundo? Como? Que poder têm as estruturas sobre as pessoas? Que é que tem de ser posto em ordem primeiro: o coração das pessoas ou as estruturas do mundo? Será possível? Como fazê-lo? Que é que se entende por “pecado estrutural”?

2.4.6 A Teologia da Vida 43 “Eu vim para que tenhais vida e vida em abundância” (Jo 10:10). Estas palavras de Jesus fazem-nos lembrar as palavras de Jeremias quando ele revelou o amor incondicional e misericordioso de Javé pelo seu povo: “Bem conheço os desígnios que tenho acerca de vós oráculo do Senhor - desígnios de prosperidade e não de calamidade, de vos garantir um futuro de esperança. Invocar-me-eis e vireis suplicar-me e eu vos atenderei. Buscar-me-eis e me achareis quando me buscardes de todo o coração. Deixar-me-ei achar por vós - oráculo do Senhor - farei regressar os cativos e irei buscar-vos a todas as nações e a todos os lugares por onde vos dispersei - oráculo do Senhor - a fim de vos fazer voltar ao lugar donde vos lancei fora” (Jer 29:11-14). Também nós precisamos de cumprir a nossa parte na perspectiva dum futuro novo - para nós próprios enquanto indivíduos e para o nosso mundo. Ouçamos este testemunho que veio da Índia: “Os pobres da Índia de hoje não são apenas uma turba desgraçada e passiva. Eles estão a organizar-se em grande para resistir, para afirmar e para reivindicar a sua porção de justiça. Eles estão a tornar-se conscientes da dimensão estrutural da sua pobreza, das possibilidades de mudança, dos seus direitos e do tremendo potencial da sua força colectiva. Esta erupção dos pobres ameaça desestabilizar a própria base da sociedade Indiana - o sistema de castas e o do patriarcado - e apresenta sinais novos de esperança. Portanto, este é o momento oportuno para a Igreja decidir se vai ficar do lado dos poderosos por amor à sua própria sobrevivência e segurança , ou se vai ficar do lado dos pobres na sua caminhada histórica para uma nova Índia feita de justiça e vida para todos. Precisamos de ser parceiros dos pobres no cumprimento da missão de Deus. “Ao contemplarmos os processos de marginalização e os métodos, tanto evidentes como escondidos, da marginalização na sociedade, baseada na língua, na raça, na etnicidade, na casta, na classe, no género, na idade, na religião, na regionalidade, etc., nós precisamos de garantir a ausência de todas estas realidades do seio das nossas Igrejas… “…É neste contexto que uma teologia comprometida com a vida inspira esperança à Igreja Indiana. Esta Teologia da Vida afirma a opção de Deus pelos pobres ao desafiar os valores do mundo por meio dos valores do Reino de Deus, tal como Cristo no-los ensinou. Isto equivale a mudar os nossos estilos de vida e estruturas. Mas também implica fazer uma redescoberta da
43

Retirado do artigo Theology of Life: A case study in India: God´s option for the poor” (Teologia da Vida: Estudo duma situação na Índia: a opção de Deus a favor dos pobres). Consulta em Assuntos Teológicos para Indian Church Today and Tomorrow (A Igreja Indiana Hoje e Amanhã), realizada em Vishranti Nikayam, Bangalore, 22-24 de Agosto de 1996, Echoes, 10/1996, pp.28 e ss.

73 Igreja em termos locais e, essencialmente, em termos das pessoas, e não em termos de hierarquia e estruturas. É que a Teologia da Vida é uma teologia da partilha e dos relacionamentos justos. Ela exige uma reorientação dos relacionamentos baseada no entendimento correcto da nossa fé. Ela obriga a uma reordenação radical dos nossos estilos de vida, atitudes e estruturas nas relações humanas de comunidade. Sermos justos e humanos é uma escolha moral e espiritual consciente que temos de fazer no contexto da vida em comunidade. “…A nova “ecclesia” afirma uma espiritualidade que confronta e supera todas as forças que negam a vida e que luta pela construção duma comunidade baseada no amor de Deus, na justiça, na paz e na integridade da criação”. 2.4.7 A Teologia do Feminino Reflexão tirada das Escrituras Hebraicas: Um grupo completo de mulheres foi convocado para garantir que Moisés se tornasse aquilo que Deus tinha planeado que fosse: o chefe do seu povo. Quem era esta gente que possibilitou a Moisés tornar-se o servo escolhido de Deus? Havia uma teia completa de mulheres que garantiram a vida de Moisés para que pudesse cumprir o plano de Javé. Shiprah e Puah, as parteiras hebraicas no Egipto, eram mulheres tementes a Deus e, elas próprias, mães. Desobedeceram às ordens do Faraó para que se matassem todos os bebés de sexo masculino que tivessem nascido de mulheres hebraicas, fazendo, assim, com que o número de Judeus aumentasse. Talvez tenham sido elas a salvar Moisés (Êx 1:15-22). Embora fossem escravas, elas não se deixaram intimidar pelo rei e pela sua corte. A filha do Faraó: Ela salvou Moisés da sua cesta nas margens do rio Nilo e criou-o na casa real até à idade adulta (Êx 2:2-10). Ela é símbolo duma pessoa de autoridade a tomar a iniciativa de ultrapassar uma lei injusta. A Mãe de Moisés: Ela desafia o Faraó e amamenta o seu bebé durante alguns meses. Quando ele atinge os três meses de idade, ela esconde-o na cesta e coloca-o no rio Nilo. Miriam, a irmã de Moisés, que “ficou de longe a ver o que lhe iria acontecer”. Quando a filha do Faraó deu pela cesta e encontrou o bebé, Miriam saiu do seu esconderijo e tomou posição, oferecendo-se para ir procurar uma ama para o bebé , e foi buscar a sua mãe. Ao reflectirmos sobre a nossa vocação, não deveríamos esquecer a “rede” de pessoas implicadas na sua realização. Para podermos apreciar mais a fundo a nossa chamada ao seguimento de Jesus, é útil perguntarmo-nos de vez em quando: quais foram as pessoas que Deus colocou à minha volta para garantir a minha escolha logo desde o seio de minha mãe? 44. Reflexão tirada do Evangelho de São João: Há sete ocasiões no Evangelho de São João em que uma mulher cumpre um papel importante na comunidade e na pregação da Boa Nova:
44

cfr. Fuellenbach, cap. 4.

74

1. Maria, nas bodas de Caná (2:1-11). Ela indica a lei principal do Evangelho: “Fazei tudo o que Ele vos pedir”. 2. A mulher samaritana torna-se a evangelizadora da sua terra (4:1-42). Ela é a primeira a receber de Jesus o grande segredo: o da sua identidade de ser o Messias: “Sou Eu, O que fala contigo” (4:26). 3. A mulher adúltera, na altura em que é perdoada por Jesus, torna-se juíza da sociedade patriarcal ( ou do poderio masculino) que a condenara (8:1-11). 4. Marta confessa a sua fé no Messias, o Filho de Deus. Nos outros Evangelhos, a pessoa que faz esta solene profissão de fé é Pedro (Mt 16:16). No Evangelho de João, a pessoa que faz esta profissão solene de fé é uma mulher, Marta (11:27). 5. Maria unge os pés de Jesus para o dia do seu enterro (12:7). Ela foi a única pessoa que entendeu e aceitou Jesus como Messias-Servo destinado a morrer na cruz. Uma pessoa que morresse na cruz não podia ser enterrada ou embalsamada. Por esta razão, Maria actuou antecipadamente e ungiu o corpo de Jesus. Ela é o modelo para os outros discípulos. Pedro não tinha aceitado Jesus como MessiasServo (13:87). 6. Aos pés da cruz, as palavras “Mulher, eis o teu filho”; “Eis a tua mãe” (19:25-27). A Igreja nasceu aos pés da cruz. Maria é o modelo da comunidade cristã. 7. Maria Madalena é convocada para anunciar a Boa Notícia aos seus irmãos (20:1118). Ela recebe uma ordem - uma “ordenação” - sem a qual todas as outras ordenações dadas aos apóstolos não teriam tido valor algum. Nestas sete ocasiões é sempre uma mulher que é apresentada de forma positiva. Ela ajuda Jesus na descoberta e no cumprimento da sua missão. As dores do parto são o símbolo do sofrimento que traz à luz uma nova vida (16:21) 45. 2.4.7.1 A Teologia do Eco-Feminismo O primeiro capítulo do Génesis (v. 27) afirma claramente que os seres humanos - tanto machos como fêmeas - foram criados à imagem de Deus. No mesmo capítulo também se lê que “todas as plantas de semente e todas as árvores de fruto com semente” serviriam de alimento aos seres humanos (v.29). Toda a folhagem das plantas serviria de alimento para os animais selvagens, para as aves, e para todas as criaturas vivas que se arrastam pelo chão (v.30). Se desde o princípio estes versículos da Bíblia tivessem sido interpretados de forma correcta, as mulheres e o ambiente não teriam sofrido violência e destruição. Infelizmente, o capítulo 2 do Génesis (vv. 21-24) e certas leis que se encontram no Levítico e no Deuteronómio foram interpretadas de tal maneira que deram aos homens plenos poderes sobre as mulheres e a natureza (terra e animais). Naturalmente, isto deveu-se à influência de outras sociedades patriarcais daquele tempo sobre a cultura hebraica. Importa fazer notar que, na cultura hebraica, também havia leis para proteger a terra de qualquer exploração excessiva (Lv 25:3-8).
45

cfr. Boletim Dei Verbum (A Palavra de Deus), 40/41, p.32

75

No capítulo 9 do Génesis, fala-se da Aliança feita com Noé, que inclui todas as criaturas vivas (vv. 9-17). No capítulo 23 do Êxodo, a lei manda que, no sétimo dia, todos devem descansar, incluindo “a escrava, o seu filho, o forasteiro, o boi e o burro) (v.12). No capítulo 25 do Levítico, encontramos o conceito bíblico de “Jubileu”, que determina que, cada 50 anos, todos os relacionamentos entre os seres humanos e a natureza, tal como os relacionamentos entre os próprios seres humanos devem ser “rectificados”. O conceito de Jubileu tem uma dimensão socioecológica e espiritual. O tema do Novo Testamento do “cosmos” como Corpo de Cristo pode ser encontrado em algumas das cartas de Paulo (Col 1:15-20). A crise ecológica actual acordou-nos para a urgência de se procurar uma teologia nova que trate de toda a criação e da necessidade duma espiritualidade cósmica. As religiões do mundo, incluindo as religiões tradicionais africanas e as dos povos indígenas têm um grande contributo a dar a esta nossa procura. São Francisco de Assis, o padroeiro da ecologia, continua a ser a nossa inspiração para uma visão duma comunidade cósmica que inclui seres humanos, plantas, animais, o sol, a lua, e toda a criação divina. 2.4.8 Breve Reflexão sobre a Economia na Bíblia e no Cristianismo 46: “Eu vim para que tenham a vida e a tenham em abundância” Jn 10:10 Os temas económicos perpassam por toda a Bíblia. A Torah, ao regulamentar a compra e venda de bens, o cultivo da terra e a criação de animais, colocou toda a actividade económica dentro da relação de aliança entre Deus e Israel. Isto inclui a preocupação com os pobres (Êx 23:6, Deut 15:7-11, com o forasteiro (Êx 21:21-24, com as viúvas e os órfãos (Deut 24:19-22) e com o ambiente (Lv 25:1-8). A ordenança do Ano Jubilar (Lv 25:8-55) tinha por objectivo criar um momento de libertação das dificuldades económicas da escravidão e da pobreza, e dar origem a um novo começo. Os assuntos económicos reaparecem nos Profetas. Amós alerta para o desastre, porque Israel tinha “vendido a rectidão a preço de prata e os necessitados por um par de sandálias”, e tinha “espezinhado a cabeça dos pobres no pó da terra” (Am 2:6-7). Isaías condenou aqueles “que acumulam casas, campos, até não haver mais espaço e as pessoas acabarem por viverem sozinhas no meio da terra” (Is 5:8). Também Jeremias condena “aquele que constrói a sua casa mediante a prevaricação e seus andares mediante a injustiça; que obriga o seu vizinho a servilo de graça e não lhe paga o salário” (Jer 22:13). Jesus não é menos directo: “Ninguém pode servir a dois senhores: vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro” (Mt 6:24. O jovem rico foi convidado a vender tudo o que tinha e a distribuí-lo pelos pobres, para provar que tinha real vontade de herdar a vida eterna (Lc 18:18-30).

46

“Radical Choices” (Opções Radicais), extraído de A Christian Response to Poverty (Uma Resposta Cristã à Pobreza), Austrália, 1996, 5

76 Na parábola do homem rico e Lázaro, o homem rico é condenado, não por qualquer acto de descarada crueldade, mas simplesmente por não ter ligado ao pobre que estava ao seu portão. (Lc 16:19-31). Os Padres da Igreja também mostram uma preocupação constante pelos direitos dos pobres, uma convocação firme à aceitação da responsabilidade pelos necessitados, e avisos muito fortes contra a tentação pela riqueza. Depois de Constantino, A Igreja veio a exercer um papel de liderança significativa na sociedade. Embora não tivesse ficado ilesa das tentações da riqueza e do poder, ela tentou, no entanto, desenvolver formas de serviço à comunidade: hospitais, escolas, centros de aconselhamento, frequentemente através dos mosteiros - que, em grande parte cresceram em protesto contra as condições da vida urbana, como alternativa a restabelecer a ordem na economia duma comunidade. Na Idade Média, na Europa, os cristãos já havia muito que se tinham acomodado às atitudes e hábitos dominantes. Alguns movimentos, tais como o dos Franciscanos e o dos Valdenses, acabaram por surgir entre os cristãos para fazer lembrar as prioridades de Jesus e dos profetas, apelando ao serviço e respeito pelos pobres. Tanto Lutero como Calvino lutaram para descobrir maneiras especificamente cristãs de tratar e regular o comportamento económico que estava a conquistar cada vez maiores esferas de poder nas indústrias modernas e no comércio, para além das fronteiras nacionais e geográficas. Nenhum deles teve êxito: o poderio económico (os governantes, os banqueiros, os fabricantes e os comerciantes) foram desenvolvendo cada vez mais as suas próprias “normas”, alguns deles até mesmo acreditando que a riqueza que estavam a produzir era um sinal de bênção divina, contra a mais “oficial” doutrina da Igreja. Quando a economia surgiu como ciência, a distinção clara entre o “secular” e o “sagrado” apresentou ao entendimento cristão da prioridade da vontade de Deus para a sociedade um desafio deveras crítico. Christian Faith and the World Economy,WCC (A Fé Cristã e a Economia Mundial),Conselho Mundial das Igrejas 2.5 UMA ESPIRITUALIDADE DA JPIC: O ASPECTO CONTEMPLATIVO As declarações teológicas tornam-se coisas vivas quando resultam duma reflexão sobre a experiência humana à luz da verdade revelada e, depois, levam a um certo tipo de comportamento e compromisso das pessoas. Hoje em dia, sabemos que existe uma unidade entre essas duas ideias. Elas fazem parte dum ciclo que vai desde a experiência à reflexão, ao compromisso e, de novo, à experiência e assim sucessivamente. Desde o Concílio Vaticano II, o antiquíssimo método da lectio divina fez uma reentrada na vida dos cristãos, dando-lhes uma maneira de unir a fé à vida mediante a leitura rezada e comprometida das Escrituras Sagradas. Esse método consiste em ler a palavra, reflectir nela no contexto do que está acontecendo na vida de cada um, e, depois, aceitar as implicações e as exigências dessa palavra na vida corrente. O mesmo método pode ter aplicação na maneira como encaramos a própria vida. Nós observamos com atenção, perguntamo-nos qual é o significado daquilo que vemos e aceitamos as implicações e as exigências daquilo que a nossa reflexão nos diz. Tal é o nosso

77 objectivo: olhar com fé para o que está a acontecer no mundo, de tal maneira que esse olhar nos une num entendimento e objectivo comuns e, depois nos leva ao tipo de compromisso que resultará em alegria para todos, uma alegria que é a experiência dum relacionamento correcto e que é a maneira como entendemos a justiça e a paz. Nós andamos à procura duma abordagem dinâmica da vida e dos desafios de cada dia (GS n.º5). A espiritualidade é uma questão de educação do coração. A espiritualidade implica um processo de transformação. “Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso espírito, para que possais saborear o que é a vontade de Deus, o que é bom, aceitável e perfeito”. Rom 12:1-2 A espiritualidade dá origem a um modo de vida e, por sua vez, é o resultado dum modo de vida. Um modo de vida é santo quando é criado pelo Espírito Santo e corresponde aos valores do Evangelho. Os modos de vida variam conforme o conjunto de valores sobre que assentam. Neste mundo, nenhum modo de vida consegue incluir todos os valores do Evangelho de forma plena e ao mesmo tempo. A “espiritualidade” é o nome que se dá à síntese dos valores do Evangelho que se realiza numa pessoa ou comunidade. Uma dada espiritualidade re-ordena os valores do Evangelho de acordo com o tempo e as circunstâncias em que nasce e se desenvolve. É esta a razão de as congregações religiosas serem diferentes umas das outras, embora o seu fim último seja o mesmo. A procura da justiça é a mesma para todas as formas de vida cristã. Os modos de entender a justiça e de a seguir serão diferentes de pessoa para pessoa, de lugar para lugar, e de comunidade para comunidade. Para uma Reflexão Pessoal O TESTEMUNHO DE DOM FRANÇOIS XAVIER 47 NGUYÊN VAN THUAN “Como o trabalho pela justiça e pela paz afectou a minha espiritualidade” Dom Francisco foi nomeado Bispo pelo Papa Paulo VI em 1967. Assumiu como moto o nome da Constituição Pastoral sobre a Igreja no Mundo Contemporâneo, Gaudium et Spes. Seria este o fundamento da sua planificação pastoral para os próximos oito anos. Pouco antes de a guerra no Vietnam acabar, foi nomeado Bispo de Saigão. O novo governo interpretou mal a sua nomeação - faria certamente parte duma conspiração. Por isso, foi preso. Acabaria por passar os próximos treze anos na cadeia. Ao ser libertado, em 1988, ele passou três anos no Vietnam, mas não podia voltar a Saigão como Bispo. Veio para Roma em 1991 para ocupar a posição de Vice-Pesidente do Conselho Pontifício para a Justiça e a Paz.

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Duma conferência de Dom Nguyen Van Thuan feita num encontro dos Promotores de Justiça-Paz-Integridade da Criação, Assis, Abril de 1995.

78 No meio de tais mudanças, que terá permanecido constante nele e terá dado unidade e harmonia à sua vida? Foi a inspiração que lhe vinha da Gaudium et Spes. A sua primeira parte trata da vocação humana. A segunda faz uma listagem das cinco áreas principais de maior preocupação para a Igreja. Suas foram também essas preocupações durante todos este anos. Mas houve uma coisa que, acima de todas as outras, o convenceu: aquilo que temos a oferecer aos outros é o testamento de Jesus - a Palavra, o Corpo e o Sangue, a Paz e o novo mandamento do Amor “que todos sejam um”. Foi isto que o alimentou durante todos estes anos. Durante os treze anos que passou na cadeia, houve dois longos períodos de incomunicabilidade: um que durou dois anos e outro, seis. Ele fora preso e condenado sem julgamento. Nos períodos de incomunicabilidade, esteve sempre sozinho, à excepção da companhia de dois guardas que nunca o deixavam. Não tinha livros nem jornais. Todos os dias, de manhã cedo até altas horas da noite, um altifalante lá do pátio trovejava uma infindável ladainha de propaganda. Este género de tortura mental continuou dia após dia. Ter de ir para a cadeia é sempre uma sentença horrível, mas é muito pior quando a cadeia fica num país pobre, e é péssima quando esse país pobre tem governo comunista. Ele descobriu, no entanto, que a resposta estava no amor. Na prisão, havia sempre um corre-corre de guardas. Ele conseguiu conquistá-los pelo compromisso ao amor. A certa altura, as autoridades disseram que já não iam mudar mais de guardas porque “este padre está a contaminá-los todos”. A princípio, os guardas manifestavam sempre pouca inclinação para falar com ele. Mas ele derrubou essa barreira pouco a pouco ao falar-lhes do mundo que ele conhecia, que era um mundo bem diferente do deles. Ensinou francês a alguns. Ele sabia que estes homens nunca poderiam aceitar a fé cristã. Vinham de famílias que tinham dado provas de lealdade ao governo; senão, não poderiam ter chegado a ser guardas. Apesar de tudo, Dom François Xavier que eles tinham mudado por dentro, através da força do amor. No princípio, ele pediu que lhe trouxessem um frasco de remédio para as dores de estômago. O frasco veio, mas com um rótulo que dizia “remédio para o estômago” - que era afinal vinho de missa. Todos os dias, com três gotas de vinho e uma de água na palma da mão, ele celebrava a Eucaristia. Com o tempo, a sua assembleia também aumentou. No pátio, enquanto se faziam os exercícios, ele passava sinal aos seus sequazes de que ia dirigir a oração. Nunca foi traído por ninguém do grupo. Mandaram alguns outros para espiá-lo. Até mesmo esses, na altura de apresentarem o relatório, guardaram o segredo. Num período de incomunicabilidade, foi colocado numa cela ao fim do corredor. Não havia janelas naquela cela. Entre ele e a luz do sol ficava aquele enorme corredor e duas ou três enormes portas. Na escuridão da sua cela sem ar, ele acabou por descobrir um pequeno buraco na parede. Dia a dia, ele deitava-se no chão com o nariz ao buraco só para apanhar um pouco de ar. E assim foi por meses a fio. Agora, na sua nova posição em Roma, a sua missão continua: ele sabe bem o que significa ser tratado injustamente, e ele sabe que a sua missão ainda é uma missão de amor. A princípio, só conseguia ver uma montanha de papéis em cima da sua mesa dia a dia - e começou a magicar sobre o que poderia fazer neste tipo de emprego de escritório. Depois começou a notar que cada uma daquelas folhas de papel representava a vida de gente verdadeira, gente

79 necessitada. Assim descobriu a maneira de se adaptar à sua nova missão. Agora, parece um missionário muito pacífico centro de Roma. Ele tem admiração pelas pessoas com quem trabalha no Conselho Pontifício. Com a sua idade, ele sente que talvez devesse ter-se demitido há muito tempo, consciente de ter feito o seu dever e de ter já dado o seu contributo. Mas não. A Missão nunca acaba. 2.5. A LITURGIA: A JUSTIÇA E O CULTO A Liturgia é a expressão da nossa relação com Deus e é a fonte e o fruto da nossa relação com as pessoas e o resto da criação. Os profetas, especialmente Isaías (1:11-17) e Amós (5:21-25), denunciam, com toda a clareza, as celebrações litúrgicas que não têm coerência com uma vida de justiça. Nos nossos esforços por dar significado à liturgia e por torná-la uma inspiração para a nossa vida de JPIC, nós temos uma necessidade constante de trazer à memória o facto de Jesus nos ter convidado a celebrar em sua memória: “Fazei isto em minha memória”. Mas fazer o quê em sua memória? Dizer as palavras que Ele disse, da maneira como as disse, fazer gestos de amor e compaixão da mesma maneira que Ele fez. É quando estas palavras e gestos se tornam VIDA que nós nos tornamos EUCARISTIA. Cada celebração da Eucaristia ajuda-nos a tornarmonos Eucaristia porque:  Nós pedimos perdão por não vivermos relacionamentos correctos no nosso dia a dia.  Nós agradecemos a Deus pelos momentos em que fomos capazes de viver tais relacionamentos.  Nós intercedemos por nós próprios e por todo o Cosmos a fim de podermos promover relacionamentos correctos em recordação de Jesus. Em cada celebração Eucarística, nós partilhamos, na fé, do pão Eucarístico, a fim de , também nós, e em lembrança de Jesus, podermos tornar-nos “pão partido, partilhado e oferecido” para a transformação deste mundo. As palavras e os gestos de Jesus na última ceia, vistas do ponto de vista de São Marcos (14:22), São Mateus (26:26), São Lucas (22:19), São João (13:1-15) e São Paulo (1Cor 11:17-33), são um convite a:  Celebrar as nossas liturgias numa relação íntima com as nossas realidades diárias;  Celebrar as nossas liturgias em Sua memória vivendo como Ele, revelando amor, perdão e compaixão. O cristão é uma pessoa da Eucaristia. A Eucaristia é um verbo, antes de ser um substantivo. Jesus convida-nos a “Fazer isto em memória de mim”. Que é que Jesus quis dizer quando nos pediu para celebrarmos em Sua memória? Jesus não está interessado apenas num ritual religioso. Jesus quer que VIVAMOS como Ele viveu. Importa que nós, como comunidade profética, SEJAMOS JESUS, SEJAMOS EUCARISTIA para estes nossos tempos. É assim que O lembramos.

80 Quando a Mãe de Tiago e de João queria posições para os seus dois filhos no Reino de Deus, Jesus só teve uma resposta para o desejo que ela manifestou: “Serão eles capazes de beber o cálice que eu tenho de beber?”. No jardim das oliveiras, naquela noite que antecedeu a sua morte, Jesus clamou ao Pai em alta voz: “Afasta de mim este cálice…”. O cálice é uma vida esvaziada a favor dos marginalizados e dos pobres. O cálice que temos de beber é uma vida despejada a favor do outro. Infelizmente, muitas das nossas celebrações continuam a ser rituais “domesticados”. Não foi essa a intenção de Jesus. O pão que se parte é uma vida que se parte, para que os outros possam viver. Quando Jesus tomou o pão e o abençoou, isso foi um sinal de que o que estava a acontecer a este pão iria acontecer, mais tarde, à Sua vida que se esvaiu na cruz. Portanto, a Eucaristia é, antes de mais, um modo de vida que recebe o seu sentido de pertença no ritual de partir o pão e beber o cálice. Mas o partir do pão e o beber do cálice têm de estar apoiados numa vida esvaziada e quebrada a favor do outro, especialmente do marginal e do pobre. “Se algum sacramento representa a cristandade e a Igreja na totalidade, é precisamente a Eucaristia. Porque ela é o sacramento que, por excelência, simboliza em pleno aquilo que a mensagem cristã é, e o que ela significa para o mundo. Na verdade, ela aponta para o mundo e para a criação toda. Ela é a presença de Deus no mundo. Ela é a cruz e a ressurreição. Ela é o perdão dos pecados e a reconciliação” 48. O termo “Eucaristia” também significa “Muito Obrigado!”. Nós somos convidados a agradecer pelo que temos realizado. Pedimos força e perseverança. Ela é salvação e a nova criação. Ela é “Shalom”. Ela é celebração. Celebração quer dizer saber que nem tudo depende de nós. Como cristãos, nós somos chamados a viver agora, na nossa vida, a esperança do futuro. Muitas vezes, as pessoas envolvidas no trabalho da JPIC levam a vida tão a sério como se a realização do Reino de Deus só dependesse deles. Ora nós precisamos de ser capazes de celebrar. Nós não somos chamados a ter êxito mas a ser fiéis à convocação de Jesus a sermos Eucaristia. O compromisso autêntico com a JPIC ajuda-nos a ser Eucaristia. Perguntas para ajudar a reflectir sobre a ligação entre Liturgia e JPIC   Temos a tendência para institucionalizar as nossas liturgias e, assim, evitar a flexibilidade, a criatividade e as liturgias com significado? Temos a oportunidade de preparar liturgias que são capazes de dar vida e inspiração aos participantes? Se a resposta for afirmativa, partilhamos das nossas experiências com outros? Como? Se a resposta for negativa, quais são as dificuldades para tal? Pode fazer-se algo para as superar? O nosso compromisso com a JPIC alcança profundidade nas nossas celebrações? Como? Em virtude do nosso compromisso com a JPIC, somos capazes de preparar/celebrar liturgias mais significativas?

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Vincent Donovan, The Church in the Midst of Creation (A Igreja no Meio da Criação), Maryknoll, Orbis Books, New York, 1990, p.75-76.

81 2.7. REFERÊNCIAS BÍBLICAS SOBRE TEMAS DE JPIC 49 Eis algumas referências Bíblicas sobre: Justiça, Mulheres, Libertação, Opressão, Paz, Perdão-ReconciliaçãoMisericórdia, Pobres, Partilha-Solidariedade, Fraternidade, Diálogo-Ecumenismo, Serviço-Caridade e Natureza-Criação. 1. JUSTIÇA Êx 23:6 Dt 15: 7-11; 16:20; 27:19 Lv 19: 12-18 Jb 29:14 Salmos 9:8,16; 11:7; 33:5; 72; 89:14; 103: 6; 140:12 Provérbios 21:15; 29:4,7 Jr 9:23-24;22:15-16; 23:5 Isaías 1:10-20; 5-23; 10:2; 29:21; 30:18; 32:15-20; 42:4; 61:8 Oseias 12:6 Amós 2:7; 5:12 Malaquias 2:17 Mateus 5:20; 23:23; 25: 31-46 Lucas 3: 10-14; 11:42; 18:8 Actos 4: 32-37 Romanos 3: 25-26 2. MULHERES Juízes 4:5 Judite 8:4-8; 9: 8-10 Ester 4: 12-14; 17l-17m..17m-17s; 5:1-3, 7-8 Rute 1: 16-18; 2:8-13; 4:9-17 Leitura de Mateus 16:17 e João 11:27 juntos Marcos 14:9 Lucas 7: 36-50; 10: 38-42; 21: 1-4 Actos 2: 17-18; 21:8-9 Gálatas 3:28 3. LIBERTAÇÃO Êxodo 2: 23-25; 3: 1-15 Deuteronómio 25: 5-11 Salmos 9:3-4; 10:18; 12:5; 74:14; 103-6 Miqueias 3:4 Baruc 4:21 Lucas 4:18 Gálatas 5: 1, 13
49

Franciscan Vision for Justice, Peace, Integrity of Creation (Perspectiva Franciscana para a Justiça, a Paz e a Integridade da Criação), Secretariado da JPIC, Cúria da OFM, Roma, 1997.

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4. OPRESSÃO

Êxodo 1:11 Deuteronómio: 26:6; 28:33 Neemias 6: 3-10; 17:9-12; 44: 22-25; 94: 5-6 Salmos 6: 3-10; 17:9-12; 44: 22-25; 94: 5-6 Jeremias 50:33 Miqueias 3:3 5. PAZ Levítico 19: 1, 9-18 Salmos 32; 72; 85: 9, 11; 122:6-8 Isaías 2:1-5; 9:5-6; 1-9; 32:15-20; 52:7; 53:5; 57:19 Provérbios 24:1-4, 22-31 Mateus 5:1-12, 38-48; 10:5-13, 34 Lucas 10:35; 12:51; 24:36 João 14:23-27; 19:19-23; 20:19, 21 Romanos 12:18; 14:17,19 2Coríntios 3:11 Efésios 2:11-18; 4:3,31-32 Gálatas 5:22 Filipenses 2:5-11 Tiago 3:13-18 6. PERDÃO-RECONCILIAÇÃO-COMPAIXÃO Ezequiel 11:17-21 Mateus 7:1-5; 18:21-35 Lucas 6:27-38; 15:1-10 Romanos 5:11 2Coríntios 5:14-21 Efésios 2:14-18 Colossenses 3:12-17 Filémon 1:8-21 1Pedro 3:8-12 7. POBRES Êxodo 1:8-14; 22:20-26 Deuteronómio 15:4-11; 24:10-22; 26:5-11 Levítico 19:9-18; 25:8, 10, 23-24, 35-38, 42-43 Salmos 9:13-14, 19; 12:6; 14:6; 18:28; 22:27; 25:9, 16; 35:10; 37:11;69:30 70:6; 72:1-4, 12-14; 74: 19-20; 76:10; 140:13 Isaías 1:11-17; 5:1-23; 11:1-9; 58:5-7; 61:1-2 Jeremias 22:13-18 Amós 2:6-16;3:14-4:3; 8:4-7 Miqueias 2:1-5; 3:1-4, 9-12; 4:6-7

83 Sofonias 3:11-12 Eclesiástico 34:18-22 Marcos 10:17-22; 10:23-27 Mateus 10:9-10 Lucas 1:46-56; 12:33-34 Actos 2:44-45; 4:32, 34-35; 11:27-30 1Coríntios 1:17-31 2Coríntios 8:1-15; 9:6-13 Filipenses 2:5-9 Tiago 2:1-5; 4:13-5:6 8. PARTILHA-SOLIDARIEDADE 1Reis 17:7-16 Isaías 58: 1-12 Marcos 12:38-44 Mateus 25:31-46 Lucas 1:46-55;10:25.37, 16:19-31 Actos 4:32, 34-35 Filipenses 2:4-11 Hebreus 13:12-16 Tiago 2:14-18; 5:1-6 Apocalipse 21:1-6 9. FRATERNIDADE Provérbios 3.27-33 Mateus 12:46-49 João 17:1,6-11,20,26 Hebreus 2:10-17 1Pedro 2:12; 3:8-9, 13-16 1João 4:4-21 10. DIÁLOGO-ECUMENISMO Génesis 17:1-7 Isaías 34:1-3 Mateus 10:41-45, 18:12-19; 22:1-10 João 17:18-24 Actos 2:1-11 1Coríntios 12 Efésios 1:3-14 Colossenses 3:12-17 Hebreus 2:8b-12 1Pedro 4:7-11 11. SERVIÇO-CARIDADE 1Reis 17:7-16

84 Eclesiástico 4:1-10 Mateus 10:35-45 Lucas 10:25-37 João 13:1-17, 34-35; 15:9-17 Romanos 12:9-17 1Coríntios 13:1-13 Filipenses 2:1-4 1Pedro 4:7-11 12. NATUREZA-CRIAÇÃO Génesis 1:1-2:3; 9:9-11 Êxodo 3:7-10; 15:22-27; 23:10-12 Levítico 25:1-24 Isaías 11:1-9; 40:12-31 Daniel 3:57ss Salmos 8; 19; 24; 104;:16-23; 136; 148:1-4, 7-10 Provérbios 8:22-31 Marcos 5:35-41 Mateus 6:26-30 João 9; 12:23-26 Romanos 8:18-25 Colossenses 1:15-20 Apocalipse 21:1-5; 6:16-21

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TERCEIRA PARTE

DOUTRINA SOCIAL DA IGREJA E ANÁLISE SOCIAL

3.1. A DOUTRINA SOCIAL DA IGREJA 3.1.1 Introdução e Resumo Histórico A publicação da Encíclica Rerum Novarum, em 1891, marcou o início da criação dum corpus específico de doutrina - a doutrina social da Igreja Católica. Tratou das pessoas, dos sistemas e das estruturas - as três coordenadas da promoção da justiça e da paz dos tempos modernos, e que agora se encontra organizada como elemento integrante da missão da Igreja. Durante os anos seguintes, apareceram várias encíclicas e mensagens referentes aos problemas sociais. Realizaram-se vários tipos de actividades católicas em diversas partes do globo. E a ética social passou a ser estudada nas escolas e nos seminários. Mas tivemos que esperar até ao Concílio Vaticano II e respectiva Constituição sobre a Igreja no Mundo Actual para podermos dispor duma declaração que trouxesse a mudança de atitude por parte da Igreja como um todo quanto à sua presença no mundo, bem como a ordem para a constituição dum Conselho Pontifício para a Justiça e a Paz, para ajudar a Igreja a dar uma resposta aos desafios que o mundo lhe faz 50. A Constituição Dogmática sobre a Igreja mostrou, ao mesmo tempo, que os leigos têm um papel principal na implementação universal da missão de ajudar o mundo a alcançar a sua meta na justiça, no amor e na paz (LG n.º 36). No documento sobre a missão dos leigos, foram confiados aos seus pastores a elaboração duma definição clara dos princípios referentes à finalidade da criação e ao uso dos bens deste mundo, bem como o fornecimento do apoio moral e espiritual para a renovação da ordem temporal em Cristo (AA n.º 7). Com o tempo, a organização do Conselho Pontifício a seguir à publicação da Encíclica Populorum Progressio, em 1968, levou à instituição de muitas comissões locais e ao desenvolvimento duma nova consciência da missão das ordens religiosas.

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“Constatada a imensidão das dificuldades que ainda agora afligem tão grande parte da humanidade, e com o objectivo de fomentar em toda a parte a justiça e o amor de Cristo pelos pobres, o Concílio sugere, como muito apropriada, a criação duma organização do âmbito da Igreja Universal com a função de despertar a comunidade Católica para a promoção do progresso daquelas regiões do mundo que estejam a passar necessidade, e fomentar a justiça social entre as nações” (GS, n.º 90).

86 O Sínodo dos Bispos de 1971 foi outro marco miliário na compreensão da missão da Igreja. Neste Sínodo, cuja temática foi A Justiça no Mundo, os Bispos proferiram então as palavras que agora se citam continuamente: “A obra da justiça é parte integrante da missão evangelizadora da Igreja (nº. 5). O Papa João Paulo II continua a reflectir sobre este compromisso em várias encíclicas e em declarações várias que faz durante as suas visitas pastorais. Na Centesimus Annus, o Papa João Paulo II apresenta uma síntese da doutrina que o precedeu: “Durante os últimos cem anos, a Igreja tem repetidamente exprimido o seu pensamento, ao mesmo tempo que segue o desenvolvimento contínuo da questão social. Ela certamente não o tem feito para recuperar antigos privilégios ou para impor o seu ponto de vista. O seu único objectivo tem sido o bem estar e a responsabilidade que sente pela humanidade que lhe foi confiada por Cristo…a única criatura que Deus quis neste mundo por amor de si própria…Não estamos a falar de algo abstracto mas, antes, de algo muito real, de homens e mulheres em concreto. Estamos a falar de cada indivíduo, na medida em que cada qual está incluído no mistério da Redenção, mistério pelo qual Cristo se uniu a cada um para sempre. Daqui se conclui que…esta humanidade é o itinerário principal que a Igreja deve percorrer ao cumprir a sua missão…o caminho traçado pelo próprio Cristo, o caminho que, inevitavelmente, passa pelo mistério da Incarnação e da Redenção. “Hoje, a doutrina social da Igreja centra-se sobretudo nos homens e nas mulheres enquanto que estão envolvidos numa complexa rede de relacionamentos, dentro das sociedades modernas. As ciências humanas e a filosofia ajudam a interpretar o lugar central da pessoa humana na sociedade e também ajudam a compreender o que é, afinal, um ser social. Porém, a verdadeira identidade duma pessoa só nos é revelada plenamente através da fé; e é precisamente com a fé que a doutrina social da Igreja começa. Enquanto aproveita todos os contributos das ciências e da filosofia, a sua doutrina social dirige-se para o auxílio da humanidade na sua caminhada de salvação” (Centesimus Annus, nn. 53-54). Os princípios que estão no centro da doutrina da Igreja são os seguintes: * A vida, a dignidade e os direitos da pessoa humana. O critério de justiça de toda a política está no grau com que ela protege a vida humana, favorece a dignidade humana e respeita os direitos humanos. Este princípio é o fundamento da doutrina da Igreja com respeito à guerra, à paz e à vida social. * A opção preferencial pelos pobres. Na doutrina social da Igreja, os pobres e os fracos têm o primeiro direito de reivindicação perante a nossa consciência e as nossas práticas. Embora a linguagem seja nova - proveniente da América Latina - ela foi absorvida pela Igreja na sua totalidade enquanto expressão moderna do capítulo 25 de São Mateus, ou seja, nós seremos julgados em termos da resposta que tivermos dado “ao mais pequeno entre estes”. * Solidariedade: este é um princípio definidor da formação dum mundo novo. É uma expressão moral de interdependência, um aviso de que somos uma só família, sejam quais forem as diferenças de raça, nacionalidade, ou poder económico. Os povos das terras mais distantes não são inimigos ou intrusos; os pobres não são um fardo - são irmãs e irmãos, agraciados com vida e dignidade - pessoas que somos chamados a proteger. Um dos maiores desafios com que nos defrontamos, agora que passou a Guerra Fria, é o de favorecer e fortalecer a paz. Fazer paz requer que levantemos as estruturas da paz, não apenas que proclamemos ideais pacíficos. A paz verdadeira traz consigo a possibilidade de desenvolvimento; o desenvolvimento, por sua vez, fortalece a paz.

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À medida que a Igreja continua a desenvolver a sua doutrina, os acontecimentos deste mundo continuam a exigir uma reflexão ainda mais profunda, uma espiritualidade capaz de dar força e perseverança face aos obstáculos. Nós precisamos duma espiritualidade que convença os corações das pessoas de que, afinal, é o amor gratuito de Deus que trará solução a todos os males do mundo. Entretanto, como cristãos, temos de cumprir a nossa parte em levantar o nível da consciência do plano de Deus, em avaliar tudo o que acontece no mundo em relação a esse plano, e em nos comprometermos com o trabalho da justiça até que Ele volte. 3.1.1.1 Lista das Encíclicas Sociais que acentuam temas de JPIC 1891: Leão XIII: Rerum Novarum (Sobre a Situação dos Trabalhadores) * Define os direitos e as responsabilidades do capital e do trabalho; * descreve a justa função do governo; * defende os direitos dos trabalhadores à organização de associações para tentarem conseguir salários justos e condições de trabalho justas. 1931: Pio IX: Quadragesimo Anno (Sobre a Reconstrução da Ordem Social) * Denuncia os efeitos da cobiça e da concentração do poder económico sobre os trabalhadores e sobre a sociedade; * clama pela justa distribuição da riqueza segundo as exigências do bem comum e da justiça social; * defende o direito à propriedade e alarga a oportunidade de acesso à mesma; declara a finalidade social da propriedade e o seu papel na promoção da harmonia entre as classes sociais. 1961: João XXIII: Mater et Magistra ( Cristianismo e Progresso Social) * Lamenta a crescente distância entre as nações pobres e as nações ricas, a corrida aos armamentos e os apuros dos agricultores; * defende a participação dos trabalhadores na posse, gestão e lucros das empresas; * promove o auxílio aos países menos desenvolvidos, isento de intenções dominadoras; * torna a doutrina social da Igreja parte integrante da vida cristã: convoca os cristãos a trabalharem por um mundo mais justo. 1963: João XXIII: Pacem in Terris (Paz na Terra) * Define o âmbito completo dos direitos humanos enquanto fundamentos da paz; * incita ao desarmamento; * reconhece que todas as nações têm igual dignidade e igual direito ao seu próprio desenvolvimento; * promove a revisão da distribuição de recursos e o controlo das políticas das empresas multinacionais; * promove políticas estatais que favoreçam o acolhimento dos refugiados; * propõe um conceito de sociedade baseada na subsidiariadade; * indica a ONU como autoridade pública mundial encarregada da promoção do bem comum mundial; * integra fé e acção. 1965: Concílio Vaticano II : Gaudium et Spes (A Igreja no Mundo Actual)

88 * * * * * * Deplora a pobreza mundial e a ameaça de guerra nuclear crescentes; fundamenta as decisões políticas e económicas na dignidade humana; perspectiva a paz como ordenamento da sociedade com base na justiça; estabelece o conceito duma comunidade internacional baseada na subsidiariadade; estabelece organizações para fomentar e harmonizar o comércio internacional; declara a responsabilidade dos cristãos na construção dum mundo mais justo e mais pacífico.

1967: Paulo VI: Populorum Progressio (Sobre o Desenvolvimento dos Povos) * Afirma os direitos das nações pobres ao desenvolvimento humano pleno; * denuncia as estruturas económicas que promovem a desigualdade; * reconhece que o desenvolvimento autêntico não fica limitado ao crescimento económico; * ensina que os recursos devem ser partilhados mediante subsídios, assistência técnica, relações comerciais justas - e propõe a constituição dum Fundo Mundial que encaminhe os capitais agora gastos em armamentos, para os pobres; * ensina que a propriedade privada não é direito absoluto de ninguém; * indica obrigações recíprocas para as multinacionais: estas empresas deveriam ser pioneiras da justiça social; * incita ao bom acolhimento dos jovens e dos trabalhadores emigrantes de nações pobres. 1971: Paulo VI: Octogesima Adveniens ( Convocação à Acção) * Incita à acção política em prol da justiça económica; * Pede uma análise objectiva da situação da sociedade de cada um para individuar medidas em prol da justiça; * Pede uma resposta aos cristãos individualmente, e às Igrejas locais em geral, para situações de injustiça; * Solicita acção política orientada para a mudança. 1971: Sínodo dos Bispos: A Justiça no Mundo * Apoia a adesão à Declaração dos Direitos Humanos da ONU; * defende o direito ao desenvolvimento que inclua, tanto o crescimento económico como a participação económica e política do povo; * pede comedimento na corrida aos armamentos e ao comércio; * reconhece pecado individual e pecado social; * exige que as práticas e modo de vida da Igreja incarnem um modelo de justiça que a torne credível na pregação da justiça; * determina que a acção em prol da justiça é elemento constitutivo de se ser cristão. 1975: Paulo VI: Evangelii Nuntiandi (A Evangelização no Mundo Actual) * Que se proclame o Evangelho como libertação da opressão, se assistam as pessoas nessa libertação, se dê testemunho dela e se garanta a sua realização; * que se perspective a justiça social como parte integrante da fé; e que se passe da doutrina social à sua actuação; * que se faça a integração da transformação pessoal e da transformação da sociedade. 1979: João Paulo II: Redemptor Hominis (O Redentor da Humanidade)

89 * Que os direitos humanos sejam adoptados como princípios básicos de todos os programas, sistemas e regimes; * que os investimentos em armamentos se transformem em investimentos em alimentação ao serviço da vida; * que se evite a exploração da terra; * que todos trabalhem em conjunto na transformação das estruturas económicas. 1981: João Paulo II: Laborem Exercens (Sobre o Trabalho Humano) * Afirma a dignidade do trabalho, com base na dignidade do trabalhador; * estabelece uma ligação entre a dedicação à justiça e a procura da paz; * pede que se fomente a prática de salários justos, posse conjunta, tal como participação na gestão e nos lucros, por parte dos trabalhadores; * afirma o direito de todos os trabalhadores a formarem associações e a defenderem os seus interesses vitais; * pede que os trabalhadores imigrantes sejam tratados segundo os padrões aplicáveis aos cidadãos; * incita à justiça no emprego enquanto responsabilidade da sociedade, do patrão e do trabalhador. 1987: João Paulo II: Sollicitudo Rei Socialis (A Solicitude Social da Igreja) * Que se divulgue a doutrina da Igreja, especialmente a opção pelos pobres; * Que se crie a vontade política de instituir mecanismos justos para o bem comum da humanidade; * Que se dediquem os recursos para armas ao alívio da miséria humana; * Que se reconheça a injustiça de alguns poucos terem tanto e de tantos não terem quase nada; * Que o desenvolvimento seja planificado no respeito pela natureza; * Que se convoquem as pessoas para a conversão à solidariedade - à luz da interdependência; * Que se identifiquem as estruturas que impedem o desenvolvimento pleno dos povos; * Que se reformem tanto o comércio internacional como os sistemas financeiros; * Que se denunciem as estruturas pecaminosas. 1991: João Paulo II: Centesimus Annus (O Ano Centenário) * Que se identifiquem as falhas das economias, tanto socialista como de mercado; * Que se aliviem ou perdoem as dívidas dos países pobres; * Que se avance com o desarmamento; * Que se simplifiquem os estilos de vida e se elimine o desperdício nas nações ricas; * Que se implementem práticas públicas a favor do emprego pleno e da segurança laboral; * Que se estabeleçam instituições para tratar do controle das armas; * Que se apele aos países ricos para sacrificarem seus lucros e poderio. 1994: João Paulo II: Tertio Millenio Adveniente (O Ano Jubilar 2000) O compromisso com… * a justiça e a paz * o levantar das nossas vozes a favor dos pobres de todo o mundo * a redução substancial ou o cancelamento total da Dívida Internacional

90 * a reflexão sobre as dificuldades de diálogo entre as várias culturas; e sobre os problemas relacionados com os direitos das mulheres. 1995: João Paulo II: Evangelium Vitae (O Evangelho da Vida) Reconhecimento do valor sagrado da vida humana do princípio ao fim. Aponta como forças negativas: * a violência contra a vida de milhões de seres humanos, especialmente crianças, que são forçados a viver na pobreza, na desnutrição e na fome devido à distribuição injusta dos recursos; * as guerras e o comércio de armas; * a destruição ecológica; * a difusão criminosa das drogas; * a promoção de certos tipos de actividade sexual que, além de ser moralmente inaceitável, também cria enormes riscos para a vida; * o aborto provocado, designado por “uma estrutura pecaminosa”; * o infanticídio de bebés nascidos com graves incapacidades ou doenças; * a eutanásia e sua legalização; * o controle da natalidade usado como meio de controle do aumento da população das nações mais pobres; * o suicídio assistido 3.1.1.2 Temas da Doutrina Social da Igreja 51 ANTROPOLOGIA CRISTÃ a) Dignidade do Homem, Imagem de Deus * Divini Redemptoris, 30 e 32-33 * Mater et Magistra, 219-220 * Pacem in Terris, 31; 28-34 e, especialmente, 44 * Gaudium et Spes, 31 * Ecclesiam Suam, 19 * A Liberdade e a Libertação Cristãs, 20, 34 * Laborem Exercens, 4-9 * Orientações, n.º 31 * Catecismo, 355-379; 1700-1709 b) O Homem, Caminho da Missão da Igreja * Gaudium et Spes, 1 e 3 * Evangelii Nuntiandi, 29, 31, 33, 35, 36, 38 * Redemptor Hominis, 13-14 c) A Aspiração Humana à Liberdade * Gaudium et Spes, 24 e 29 d) O Homem e a Mulher como Pessoas Solidárias * Mater et Magistra, 218-219; 59-67
51

Franciscan Vision for Justice, Peace, Integrity of Creation (Perspectiva Franciscana para a Justiça, a Paz e a Integridade da Criação), JPIC Office, Cúria da OFM, Roma, 1997.

91 * Pacem in Terris, 31 * Gaudium et Spes, 24-25 * A Liberdade a Libertação Cristãs, 73 e) Igualdade Fundamental de Todas as Pessoas * Gaudium et Spes, 24 e 29 f) Primado das Pessoas sobre as Estruturas * Instruções sobre a Liberdade e a Libertação Cristãs, 73, 75 * Gaudium et Spes, 31 * Redemptor Hominis, 14 * Reconciliatio et Poenitentia, 16 g) Estruturas Pecaminosas * Gaudium et Spes, 13, 25 * Instrução sobre a Liberdade e a Libertação Cristãs, 75 * Sollicitudo Rei Socialis, 36 a 37 * Centesimus Annus, 38 * Catecismo, 1878 a 1889 DIREITOS HUMANOS a) Violação dos Direitos Humanos * Gaudium et Spes, 27 * Octogesima Adveniens, 23; cfr. Redemptor Hominis, 17 * Sollicitudo Rei Socialis, 15, 26, 33 b) Panorâmica dos Direitos Fundamentais * Pacem in Terris, 143 a 144, 11 a 34; 75 a 79 * Gaudium et Spes, 27, 79, 29, 60, 52, 75, 71, 67, 68, 65, 69, 59 * Octogesima Adveniens, 23 * Puebla, 3890 a 3893 * Redemptor Hominis, 17 * Sollicitudo Rei Socialis, 26, 33 a 34 c) Direitos Humanos como Exigência Evangélica * Puebla: Discurso de Abertura * Instrução sobre a Liberdade e a Libertação Cristãs, 65 O BEM COMUM * * * * * * * * Mater et Magistra, 65, 71, 78 a 81 Pacem in Terris, 53 a 66, 136 Gaudium et Spes, 26, 74 Populorum Progressio, 54 Octogesima Adveniens, 46 Redemptor Hominis, 17 Sollicitudo Rei Socialis, 26, 33 a 34 Centesimus Annus, 9, 37 a 38, 47

92 * Catecismo, 1897 a 1912 SOLIDARIEDADE E SUBSIDIARIDADE a) Definição, Correlação e Fundamentação * Gaudium et Spes, 32, 80 * Instrução sobre a Liberdade e a Libertação Cristãs, 73 * Orientações, 38 * Catecismo, 1883 a 1884, 1939 a 1942, 2437 a 2440 b) Solidariedade * Pio XII, Radiomensagem de Natal de 1952, 26 a 27 * Pacem in Terris, 98 * Sollicitudo Rei Socialis, 38 a 40 * Centesimus Annus, 10c, 33, 41d, 51 c) Subsidiaridade * Quadragesimo Anno, 79 a 80 * Mater et Magistra, 51 a 52, 54 a 55, 57 a 58 * Pacem in Terris, 140 a 141 * Laborem Exercens, 17 d) Participação Social * Mater et Magistra, 91 a 92 * Gaudium et Spes, 31, 55, 59, 63, 63, 68 * Octogesima Adveniens, 22, 24, 46 a 47 * Instrução sobre a Liberdade e a Libertação Cristãs, 86, 95 * Orientações, 40 * Sollicitudo Rei Socialis, 45 * Centesimus Annus, 33 * Catecismo 1913 a 1917 DESTINO UNIVERSAL DOS BENS * Gaudium et Spes, 69-71 * Populorum Progressio, 22 a 23 * Libertas Christiana, 90 * Centesimus Annus, 30 a 32 PROPRIEDADE PRIVADA * Rerum Novarum, 3, 12 a 16 * Quadragesimo Anno, 44 a 52 * Mater et Magistra, 104 a 121 * Gaudium et Spes, 69 a 71 * Populorum Progressio, 19, 22 a 24 * Laborem Exercens, 14 * Sollicitudo Rei Socialis, 15 PROPRIEDADE PÚBLICA * Rerum Novarum, 23 a 25

93 * * * * * * Quadragesimo Anno, 105 a 110 Mater et Magistra, 51 a 67 Gaudium et Spes, 70 a 71 Populorum Progressio, 23 a 24, 33 a 34 Laborem Exercens, 14 Sollicitudo Rei Socialis, 15

TRABALHO E SALÁRIO a) Reflexão sobre o Trabalho Humano * Rerum Novarum, 32 * Mater et Magistra, 82-103 * Gaudium et Spes, 67 * Laborem Exercens, 1, 3, 4 a 10, 18 a 19, 22 a 27 * Sollicitudo Rei Socialis, 18 b) Salário de Família ou Salário Individual? * Rerum Novarum, 32 a 33 * Quadragesimo Anno, 71 * Laborem Exercens, 19 c) O Sistema Salarial Reduzirá as Pessoas a uma Categoria Comercial? * Quadragesimo Anno, 64 a 68 * Mater et Magistra, 75 a 77 * Laborem Exercens, 19 d) O Problema Prático: Nível Salarial * Rerum Novarum, 32 * Quadragesimo Anno, 70 a 75 * Mater et Magistra, 68, 71 GREVES * * * * * Rerum Novarum, 29 Quadragesimo Anno, 94 Gaudium et Spes, 68 Octogesima Adveniens, 14 Laborem Exercens, 20

SINDICATOS * * * * * * * Rerum Novarum, 34 a 40 Quadragesimo Anno, 34 a 38, 81 a 97 Mater et Magistra, 97 a 103 Gaudium et Spes, 68 Populorum Progressio, 38 a 39 e Octogesima Adveniens, 14 Laborem Exercens, 20 Sollicitudo Rei Socialis, 15

94 POLÍTICA E POLÍTICOS * Gaudium et Spes, 73, 76 * Octogesima Adveniens, 3 a 4, 48 a 51 * Sollicitudo Rei Socialis, 47 a 48 COMUNIDADE CIVIL E COMUNIDADE POLÍTICA a) Caracterização * Gaudium et Spes, 74a b) Autoridade * Pacem in Terris, 46 a 52 * Gaudium et Spes, 74b-e c) O Bem Comum * (Ver atrás) PODER POLÍTICO a) O Estado, uma Organização Política * Mater et Magistra, 20 a 21, 44, 52 a 53, 104, 201 a 202 * Pacem in Terris, 68 a 69, 72, 75-79, 130 a 131 * Gaudium et Spes, 73 a 75 * Ocotgesima Adveniens, 46 b) Regimes Políticos * Pacem in Terris, 52, 68, 73 * Gaudium et Spes, 73, 74, 75 * Redemptor Hominis, 17 * Sollicitudo Rei Socialis, 41 COMPROMISSO SOCIOPOLÍTICO DO CRISTÃO a) Antes da Populorum Progressio (Deveres dos Patrões e dos Trabalhadores) * Rerum Novarum, 14 a 16 * Quadragesimo Anno, 50 a 51, 63 a 64, 78, 141 a 142 * Mater et Magistra, 51, 82 a 84, 91, 122 * Gaudium et Spes, 65 a 70 b) Depois da Populorum Progressio - Sobre o subdesenvolvimento e o desenvolvimento: * Populorum Progressio, 14, 19 a 21, 43 a 51, 56 a 59 * Octogesima Adveniens, 24 a 25, 37, 46 a 51 * RS, 27 a 39 - Sobre a acção na sociedade: * Pacem in Terris, 146 a 152 * Gaudium et Spes, 36, 75 a 76 * Octogesima Adveniens, 3 a 4, 48 a 51 * Sollicitudo Rei Socialis, 47 a 48

95 - Sobre o pluralismo político dos cristãos: * Octogesima Adveniens, 50 a 51 c) Princípios Animadores duma política Humanista - Verdade, Justiça, Amor e Liberdade: * Pacem in Terris, 35 * Gaudium et Spes, 26c, 27 a 28 * Octogesima Adveniens, 23, 45 - Igualdade e Participação: * Pacem in Terris, 73 * Gaudium et Spes, 75 * Octogesima Adveniens, 24 a 25, 47 - Libertação: * Discurso de João Paulo II na Abertura do CELAM, III, 5 e 6 * Sínodo dos Bispos: A Justiça no Mundo, 50 a 51 d) Ideologias e Utopias * Octogesima Adveniens, 25 a 37 A COMUNIDADE INTERNACIONAL a) Princípios Básicos * Gaudium et Spes, 84 b) Relações Internacionais * Pacem in Terris, 86 a 108, 120 a 125 * Gaudium et Spes, 85 a 90 * Populorum Progressio, 78 * Centesimus Annus, 21, 27 * Sollicitudo Rei Socialis, 14, 16, 43, 45 VIOLÊNCIA SOCIAL a) Tipologia da violência social - Violência estrutural - Violência Revolucionária * Pacem in Terris, 161 a 162 * Populorum Progressio, 30 a 31 * Laborem Exercens, 11 a 13 - Violência de guerra * Pacem in Terris, 109 a 116 * Gaudium et Spes, 77 a 82 * Populorum Progressio, 53, 78 * Sollicitudo Rei Socialis, 10, 20, 23 a 24; 39 b) Não Violência Activa * Gaudium et Spes, 79 * Instrução sobre a Liberdade e a Libertação Cristãs, 77 a 79

96 * Catecismo, 2306 PAZ a) A Realidade da Guerra * Pacem in Terris, 109-117 * Gaudium et Spes, 79 a 80, 82 * Centesimus Annus, 14b, 17a, b; 19a * Catecismo 2307 a 2317 b) O Escândalo dos Armamentos e o Desarmamento * Pacem in Terris, 109 a 112 * Gaudium et Spes, 81 * Populorum Progressio, 53 * Sollicitudo Rei Socialis, 23 a 24 * Centesimus Annus, 28c c) A Ética da Paz - A Paz acima de tudo * Pacem in Terris - O trabalho de cada um em prol da paz * Gaudium et Spes, 78 a 82 * Catecismo, 2302 a 2305 - Desenvolvimento, o novo nome da paz * Populorum Progressio, 76 - A paz, fruto da justiça e da solidariedade * Gaudium et Spes, 78 * Sollicitudo Rei Socialis, 26, 39 * Centesimus Annus, 5c, 23c, 28c, 29a A FÉ CRISTÃ E A CULTURA * Gaudium et Spes, 53 a 62 * Populorum Progressio, 12 e ss, 40, 41, 42 * Centesimus Annus, 32 e ss, 38 a 41, 50 a 52 OS MEIOS DE COMUNICAÇÃO SOCIAL a) A Atitude Cristã perante os MCS * Octogesima Adveniens, 20 - Valores a seguir * Communio et Progressio, 14 a 17 - Riscos a evitar * Communio et Progressio, 33 a 47; 75 a 76 - Propaganda * Communio et Progressio, 23, 30, 59 a 62 - Opinião Pública

97 * Communio et Progressio, 26 a 32, 114 a 125 ECOLOGIA * * * * * * * Mater et Magistra, 196 a 199 Octogesima Adveniens, 21 Redemptor Hominis, 8 e 15 Laborem Exercens, 4 Sollicitudo Rei Socialis, 26, 29, 34 Centesimus Annus, 37 a 38 Mensagem de João Paulo II no Dia Mundial da Paz (1-1-1990): Paz com Deus Criador, paz com toda a Criação * Catecismo, 299 a 301, 307, 339 a 341, 344, 2415 a 2418 3.1.1.3 A Paz e a Teoria da “Guerra Justa” A Constituição Pastoral sobre a Igreja no Mundo Actual (GS) utiliza linguagem muito forte sobre a obrigação de se evitar a guerra, tal como sobre a imoralidade da corrida aos armamentos, que priva os pobres da sua justa participação na riqueza nacional e dá um poder enorme aos detentores do poder nesses países (GS, 79 a 82). Além disso, ela afirma que é necessária uma autoridade internacional eficaz que proteja as pessoas inocentes das devastações da guerra.. Entretanto, deram-se duas mudanças de relevo, depois do Concílio Vaticano II: (1) o grande desenvolvimento de armas de destruição maciça, além da sua acessibilidade através dos fornecedores internacionais de armas; (2) a mudança no modo de fazer guerra, que faz dos combatentes o alvo primário das estratégias. Paulo VI, na histórica visita que fez às Nações Unidas, pediu o fim de todo o tipo de guerra. A doutrina papal mais recente tem pedido que se evite a guerra a todo o custo, e os moralistas têm questionado o princípio subjacente á teoria da “guerra justa”. Pelo contrário, o que é necessário é que se faça reconciliação entre os parceiros de guerra, não pela força das armas mas, antes, através de mediadores de mútua confiança 52. 3.1.1.4 A Doutrina Social dos Bispos e das Conferências dos Superiores Gerais As Conferências Episcopais de todo o mundo, nas suas Cartas Pastorais, têm condenado as injustiças, a guerra e a violência e têm falado corajosamente a favor da justiça e da paz no nome do Evangelho: Vários Bispos, em onze países industriais do ocidente (Europa Ocidental, Canadá e Estados Unidos), conseguiram formular, durante os últimos trinta anos, um programa de justiça socioeconómica orientado para a criação duma sociedade reveladora de solidariedade e responsabilidade, onde todos possam participar proporcionalmente. Os enormes problemas sociais, tais como o desemprego, a pobreza e a migração, apresentam enormes exigências à comunidade dos crentes, e os Bispos pedem uma resposta adequada e forte/poderosa à luz da
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Para um historial do desenvolvimento da doutrina da Igreja sobre a “Guerra Justa”, veja-se o Catecismo da Igreja Católica, Vaticano, 1994, n.º 2317.

98 mensagem bíblica. Os Bispos usam uma variedade de expressões para influenciar a opinião pública e para dar orientação para as soluções que desejam ver. Isto tem resultado em cartas pastorais, conselhos, relatórios, entrevistas, homilias, comunicados à imprensa e manifestações de protesto. A Assembleia Especial para a África, do Sínodo dos Bispos que se reuniu em Roma em 1994, foi muito directa na sua condenação da injustiça em solo africano. Os Padres do Sínodo falaram de tribalismo, nepotismo, sede de poder, intolerância religiosa e da existência de “celas de tortura”. Apelaram à criação de comissões de Justiça e Paz na África. Pediram aos governos africanos que se deixassem de despesas militares e dessem maior atenção à educação, à saúde e ao bem estar da sua gente. Os Padres do Sínodo também criticaram os poderes estrangeiros pela sua manipulação e apoio que dão a líderes africanos corruptos, a descarada venda de armas pelo lucro e as condições quase impossíveis que impõem às pessoas em seus empréstimos. Pediram ao Fundo Monetário Internacional (FMI) e ao Banco Mundial (BM) para “aliviarem as oprimentes dívidas” das nações africanas e pediram às Conferências Episcopais de todo o mundo e a todas as pessoas de boa vontade para promoverem “uma opinião pública favorável” a estes e outros assuntos (cfr. Mensagem do Sínodo, 41 a 42). O Sínodo Africano chamou a atenção para a situação das mulheres, que estão a ser privadas dos seus direitos e do respeito em alguns países africanos, “por vezes até mesmo dentro da própria Igreja”. As Conferências Episcopais Africanas devem ser defensoras dos direitos das mulheres na sociedade e, além disso, assegurar a inclusão das mulheres “nos apropriados níveis decisórios da Igreja” 53 . A Conferência Episcopal dos Estados Unidos A Conferência Episcopal dos Estados Unidos da América, em Sowing Weapons of War: A Pastoral Reflection on the Arms Trade and Land Mines (“Semear Armas de Guerra: Reflexão Pastoral sobre o Comércio de Armas e Minas Anti-Pessoal”), declara: “Renovamos o nosso apelo à nossa nação e à comunidade internacional para que façam um esforço mais sério por controlar e reduzir radicalmente o comércio de armas. O comércio de armas é parte integrante da cultura da violência que deplorámos há apenas um ano. Tal como procuramos parar a proliferação de armas pelo mundo afora, restringir o comércio de armas é agora parte essencial da vocação de pacificação que esquematizámos em Challenge for Peace (“Desafio em prol da Paz”) há mais de uma década”. Mensagem dos Bispos da Região dos Grandes Lagos, África

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JPEC Charter, (Contrato para a Justiça, a Paz e a Integridade da Criação), Society of African Missions, (Sociedade para as Missões Africanas), 1995.

99 “Nós, os Bispos de Burundi, Rwanda, Zaire, Uganda e Tanzânia, reunimo-nos em Nairobi de 18 a 21 de Dezembro de 1996 sob a presidência do Eminentíssimo Senhor Cardeal Roger Etchegaray, Presidente do Conselho Pontifício para a Justiça e a Paz. Durante essa reunião, nós partilhámos informação e preocupações relativos às dificuldades que desabaram sobre as gentes da nossa terra… A situação dramática de centenas de milhares de refugiados e pessoas deslocadas, bem como as consequências da guerra sobre a vida das nossas igrejas estiveram no centro das nossas atenções. Neste contexto de grave crise, nós procurámos descobrir algumas prioridades pastorais com relevância para as nossas igrejas: * * * * O Evangelho, enquanto confronto com a ideologia do etnocentrismo; A missão da Igreja na reconciliação; A Igreja enquanto voz dos que sofrem dificuldade; A solidariedade entre as igrejas.

A diversidade dos seus grupos étnicos é a riqueza dum país. Todavia, a etnicidade torna-se a pior ameaça quando os interesses, quer políticos quer individuais, a transformam numa ideologia e num instrumento de conquista e de poder. Esta ideologia, por meio de alianças internas e externas, em conjunto com o sórdido comércio de armas, cria conflitos e alimenta uma espiral de discriminação , exclusão e violência que levam aos massacres e até ao genocídio. Os efeitos desastrosos de tal ideologia estão bem patentes; de maneira muito subtil, ela penetra nos indivíduos, nas culturas e nas instituições. Até mesmo os membros das nossas igrejas estão infectados com esta peste… …Havia um padre católico entre os refugiados: era o padre Jean-Claude Buthendwa, de 26 anos de idade, apenas ordenado no ano transacto. Os rebeldes disseram-lhe que estava libertado. Mas o Padre Buthendwa pressentia o que estava para acontecer. Sem hesitar sequer um momento, voltou para o grupo, ergueu a sua mão para abençoar e dar a absolvição àquele grupo aterrorizado de homens, mulheres e crianças, e ficou com eles. A seguir, as balas das metralhadoras atravessaram aquele campo todo… Um novo século sem refugiados…Oxalá a dinâmica do Grande Jubileu do Ano 2000 inspire nas nossas igrejas energias novas para uma evangelização renovada, de forma que o muro de ódio e divisão que se levantaram entre os nossos vários grupos étnicos sejam para sempre demolidos. Que Cristo seja a nossa Paz, para sempre!” 54. A Conferência dos Religiosos Canadianos “Nós, membros da Conferência dos Religiosos Canadianos, aqui reunidos em oração e em debate, reconhecemos a necessidade de sermos perdoados. Nós descobrimos que a questão ambiental é principalmente uma questão de justiça e um apelo a uma nova espiritualidade. Estamos a ouvir a convocação urgente para a conversão pessoal e comunitária à justiça, à paz e
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AMECEA Documentation Service, n.º 465, 15 de Fevereiro de 1997.

100 à mordomia. Assim, lançamos um desafio a nós próprios e uns aos outros para uma nova aliança com toda a criação para que o sonho de Deus para esta terra alcance realização. Por conseguinte, comprometemo-nos… * a fazer um esforço permanente pela conversão pessoal e comunitária contínua, pela formação e pela conscientização em matéria de problemas ambientais; em matéria de relacionamentos justos com, e apoio a, os povos aborígenes; em matéria de apreço e respeito pela diversidade cultural; em matéria de problemas de pobreza criados pelas nossas práticas de consumo exagerado. Recomendamos a inserção de preocupações ecológicas nos nosso programas de formação e critérios internos para o discernimento. Precisamos de aprofundar a nossa compreensão pessoal dos problemas ecológicos perspectivando as nossas tradições judaico-cristãs de outra maneira. * a um plano de actividades individuais e comunitárias que nos impele a: (1) trabalhar em rede e participar com grupos e programas já existentes e envolvidos em assuntos ambientais; (2) ser solidários com as pessoas marginalizadas - mulheres, povos aborígenes, imigrantes, pobres - participando em esforços em curso, como os da Aliança para os Direitos dos Aborígenes e várias iniciativas conciliadoras; (3) estabelecer prioridades para os investimentos tanto humanos como financeiros por forma a reflectirem as preocupações ambientais; (4) baixar o ritmo das nossas vidas na acção e no consumo, e procurar o equilíbrio que reflicta uma nova compreensão da ligação entre a pobreza e o ambiente; (5) procurar praticar o Sábado nas nossas vidas; (6) renovar as liturgias, inserindo nelas rituais que reflictam a interrelação de toda a criação”. 3.1.1.5 A Dimensão Social da Santidade e do Pecado Ao esforçarmo-nos por compreender a presença da injustiça e das estruturas e sistemas injustos do mundo de hoje, a perspectiva cristã aponta para a realidade do pecado e para a tendência pecaminosa como a raiz-causa dos mesmos. A nossa fé ensina-nos o caminho da justiça, enquanto que outros interesses, a que chamamos “ídolos”, nos desviam da justiça e da integridade da criação. O pecado e a tendência pecaminosa causam a morte no pecador e naqueles cujas vidas o pecador toca. Hoje, nós somos testemunhas de muitas formas de morte em todas as sociedades. Como ficou explicado na Primeira Parte, a própria criação morre pouco a pouco por causa da poluição e pelo abuso ou desprezo por recursos insubstituíveis: os seres humanos morrem prematuramente - de fome, de doença e de todo o tipo de violência. Estas são as grandes e evidentes mortes que testemunhamos. Mas também se dá a morte diária de quem vive em condições de pobreza, recebe pouca instrução, não tem casa, não tem nome, não tem amigos - a morte de ser excluído da sociedade e a morte de ter de receber aquilo que é um direito humano sob a forma de privilégio ou favor, simplesmente porque convinha ao detentor do poder conceder esse favor. A união com Deus, na mente, no coração, no corpo e no espírito, é a isso que se chama santidade (LG n.º 41). A santidade encontra-se onde quer que o povo de Deus actue sob a influência do Espírito de Deus e segue Jesus Cristo, pobre, humilde e carregando com a cruz. Devido à relação de Deus com o “povo escolhido”, aquele povo tornou-se santo. A Lei foi dada a Moisés, não para ele pessoalmente, mas para o povo, para que a observassem juntos. O povo, em conjunto, jurou obediência. O povo ofereceu sacrifícios em conjunto; e quando chegou o tempo de serem libertados, Deus tirou o seu povo do cativeiro para a liberdade e,

101 pelo deserto, trouxe-os para a terra prometida. O povo ajudava-se mutuamente a conhecer a lei de Deus e ensinou-a aos seus filhos e aos seus descendentes. Mas também se deu o contrário: por vezes os comportamentos pecaminosos prevaleceram; as pessoas ensinaram tais comportamentos umas às outras e, sempre que podiam tirar proveito deles, mantiveram-nos, muito embora trouxessem a opressão aos pobres. Ensinaram estes comportamentos pecaminosos aos seus filhos e aos filhos dos seus filhos. Os Padres do Vaticano II reconheceram que todos são chamados à santidade (LG n.º 41), não apenas algumas almas selectas. Também reconheceram aquilo a que se chama “os males do pecado social”. Aqueles que tiram proveito desses males continuam a manter comportamentos pecaminosos e estruturas pecaminosas na sociedade. Atraem outros a eles, por vezes até sem o saberem. Esse processo continua porque a sociedade encontrou modos de transmitir formas de opressão de geração em geração mediante a propaganda, a publicidade e a manipulação. Até mesmo os nossos sistemas de educação nos Institutos Católicos são, por vezes, culpados de ensinarem formas de opressão, de individualismo e de concorrência, ou, então, de se omitirem no ensinamento dos caminhos da justiça. Face a esta morte contínua e serpentina, as palavras de Jesus soam a boas notícias: “Eu vim para que pudésseis ter a vida, e tê-la em abundância” (Jn 10:10). Onde quer que prevaleçam os sinais de morte, a mensagem cristã terá que substituí-los com sinais de vida. 3.1.2 ANÁLISE SOCIAL 3.1.2.1 Introdução Lutar pela transformação do mundo não é tarefa nem para sonhadores ingénuos nem para entusiastas exaltados. Transformar o mundo implica conhecer algo sobre o mundo e que é que nele precisa de transformação. Qualquer envolvimento na acção em prol da justiça deve reconhecer a injustiça sistémica que é responsável por grande parte da fome a nível mundial, da falta de casa, da violência e da destruição do ambiente. Uma porção significativa de qualquer programa de formação para a justiça deverá preocupar-se com sistemas e estruturas de injustiça - como e porque funcionam. Aquilo de que precisamos é de um MÉTODO, ou processo, de análise dos sistemas sociais e dos sintomas do seu mau funcionamento que levam à injustiça. Há uma série de manuais úteis para fazer análise social/estrutural; alguns aparecem na Bibliografia que encerra este manual, mas o mais completo talvez seja o de Holland and Henriot’s - Social Analysis: Linking Faith and Justice (A Análise Social: Ligação entre a Fé e a Justiça). É necessário que os animadores/promotores da JPIC analisem os problemas de justiça muito cuidadosamente antes de se lançarem para actividades resolutivas destes problemas. Esta preparação cuidadosa é necessária se houverem de compreender os problemas com que estão a lidar. Requer-se que haja um método para examinar e analisar problemas de justiça por causa do perigo real de tais problemas virem a piorar se os operários da justiça não tiverem plena consciência das raízes-causa desses problemas. A análise social é um instrumento comum e eficaz que nos ajuda a examinar as estruturas da sociedade: políticas, económicas, culturais, sociais e religiosas - e a descobrir as raízes-causa da injustiça social. Ela ajuda-nos a passar daquilo a que Donald Dorr chama de “compaixão cara-a-

102 cara” para a inevitável pergunta sobre o como e o porquê - como é que esta gente ficou pobre? Porque é que o desemprego está a subir? A análise social identifica quem está no poder, quem toma as decisões, quem se beneficia ou não com estas decisões sociais. A análise social permite-nos ver as interligações e as influências que operam em qualquer sistema social. Este método foi aprofundado por grupos cristãos que tanto usam a reflexão teológica como a análise social para desenhar um plano de acção para a promoção da justiça, da paz e da integridade da criação. A análise social é uma convocação a “abrirmos os nossos olhos, os nossos ouvidos e a nossa boca”. São Marcos apresenta-nos três milagres simbólicos desse convite a que abramos os nossos ouvidos, os nossos olhos e a nossa boca na nossa procura de compreensão para o quê e o como da Missão. Jesus repreende os seus discípulos dizendo: “Ainda não percebeis nem compreendeis? Tendes corações endurecidos? Tendo olhos não vedes, e tendo ouvidos não ouvis? E também não recordais?…(Mc 8:18) * cura do surdo, Mc 7:31-37. * cura do cego, Mc 8:22-26. * cura do mudo, Mc 9:17-27. A análise social convida-nos a PRESTAR ATENÇÃO, a VER, a OUVIR o clamor do mundo em que vivemos. 3.1.2.2 O Método da Análise Social O método da análise social não é difícil de usar. Serve-se da técnica VER, JULGAR, ACTUAR, utilizada pelos Young Christian Workers (Jovens Trabalhadores Cristãos) e pelos Young Christian Students (Jovens Estudantes Cristãos) que, mais tarde, foi retomada pelos teólogos da América Latina ao trabalharem com as Comunidades Cristãs de Base, e que se reflecte em grande parte da Teologia da Libertação. Há quatro fases no processo da análise social 55. (Mas antes de se entrar no processo de análise social propriamente dito, seria útil fazer um debate sobre valores). Primeira Fase: Ponto de Partida - os membros do grupo elaboram uma lista de problemas para análise ou clarificação. * Ver se há relação ou ligação entre as injustiças em questão. * Decidir quais são as mais graves e fazer uma lista delas. * Ver se existe um termo comum que possa designá-las a todas. * Escolher um problema específico que o grupo vai examinar com este método. Importa lembrar que é quase impossível analisar dois problemas ao mesmo tempo. Segunda Fase: Análise Estrutural * Descrever o problema em pormenor; * Saber quando o problema começou; * Saber porque começou; * Saber quando tomámos consciência de que o problema era grave;
55

Grande parte dos conteúdos destas quatro fases foram extraídos da obra Working for Justice and Peace (Trabalhar pela Justiça e pela Paz) de Tony Byrne CSSp. , Mission Press, Zâmbia, 1988, pp. 57-63

103 * Que é que o trouxe à nossa atenção? * Começar com um debate sobre as estruturas ou as organizações da sociedade; * Examinar o problema identificado na sua relação com as estruturas da sociedade: económicas, políticas, de classe, culturais, religiosas. As Estruturas Económicas: * Quem é o causador do problema? * Há multinacionais ou companhias locais que gostariam de ver o problema continuar, ou até gostariam que piorasse precisamente porque estão a fazer dinheiro com ele? * Há nesta sociedade indivíduos ou grupos que ajudam a manter ou a apoiar este problema por estarem a tirar dele vantagens económicas? As Estruturas Políticas: * Quem está a conquistar poder em consequência deste problema? * Há políticos ou partidos políticos que estão a usar este problema para ganhar ou manter o poder? * Quais as pessoas no poder (ou com autoridade) que permitiram o aparecimento deste problema? * Há líderes na comunidade local que querem a continuação deste problema para que possam conquistar o poder? As Estruturas de Classe: * Este problema ajuda a criar, manter ou sustentar divisões sociais no grupo? * Existem pessoas que estão a ganhar importância ou “posição” social por causa deste problema? Quem são? * Há pessoas ou grupos que estão a perder importância ou “posição” social por causa deste problema? Quem são eles? As Estruturas Culturais: * A nossa cultura e as nossas tradições ajudam a criar, manter e apoiar este problema? * Que valores culturais e que tradições ajudam a tornar este problema mais grave? * Analise-se o problema na relação que possa ter com as atitudes ou estruturas mentais. As Estruturas Religiosas: * Quais são as estruturas religiosas ou as organizações eclesiásticas que poderão estar envolvidas neste problema? * Como é que estas estruturas religiosas ou organizações eclesiásticas ajudam a criar, apoiar ou manter este problema? * Há alguma organização eclesiástica ou religiosa que tem a ganhar com este problema? * Servem-se do problema para manter a sua importância ou aumentar o número dos seus sequazes? * As Estruturas Mentais ou Atitudes: A injustiça surge, muitas vezes, em virtude das estruturas injustas duma sociedade. Mas, ainda que estas estruturas se alterem, o problema da injustiça permanece devido às atitudes das pessoas ou mentalidade. Estas atitudes , que também vão pelo nome de “estruturas mentais”, são por

104 vezes difíceis de alterar. Para se poder mudar de estrutura mental ou atitude causadora de situações injustas, é necessária a conversão. Esta conversão exige que as pessoas tenham consciências e corações com “fome e sede de justiça”. * Que atitudes temos nós que possam ajudar a criar, manter ou sustentar este problema? * Somos capazes de reconhecer ou nomear algumas atitudes, pessoais ou comunitárias, que ajudam este problema a agravar-se? No final da Segunda Fase, seria útil investir alguns momentos na resposta às perguntas seguintes: * Em consequência destas considerações e debates, estamos realmente a conseguir uma melhor compreensão das causas deste problema? * Quais foram as percepções e ideias novas mais importantes que vieram à tona ou vieram à luz em virtude desta análise? Terceira Fase: Reflexão cristã sobre o problema, à luz das Escrituras Sagradas e da Doutrina da Igreja. Para descobrir se a Bíblia e a Doutrina da Igreja nos podem ajudar a iluminar o problema… * Que diz a Bíblia sobre este problema? * É possível identificar algumas declarações da Igreja, feitas por um Papa, um Concílio ou um grupo de Bispos, que se possam aplicar a este problema?

Quarta Fase: Planificar a acção, pensando em termos globais mas agindo no âmbito local: Plano da Actuação: * * * * * * Qual é a solução para este problema? Como grupo e como indivíduos, que podemos fazer para resolver este problema? Que recursos temos para nos ajudar a cumprir este plano de actuação? É possível arranjar mais recursos que nos possam ajudar? Existe algum aspecto deste problema que possamos resolver já? Qual deve ser o primeiro passo a dar nessa direcção? * Partilha das responsabilidades entre os membros do grupo; * Marcação dum limite de tempo para cada fase do plano e para a implementação do plano como um todo; * Reflexão sobre os recursos financeiros e outros, seguida de cuidadoso cálculo. Avaliação: * Qual era o nosso projecto inicial? * Até que ponto chegámos nós? * Que nos ajudou a avançar com ele?

105 * Quais foram os obstáculos? * Que temos de fazer agora? Vamos mudar de objectivos? Vamos mudar de método? Vamos renovar os nossos recursos? Nota: * As avaliações devem ser feitas ns várias fases de implementação do Plano; * É preciso inserir celebrações (inclusive litúrgicas) em todo o processo de análise social.

3.1.2.3 Modo Alternativo para a Utilização deste Método VER Que vemos à nossa volta? JULGAR Ao julgarmos uma situação, que preconceitos trazemos connosco? Que óptica utilizamos? Qual será o nosso senso inconsciente do problema? Que sabedoria e experiência de vida trazemos para a análise do problema? A que sabedoria respondemos melhor - à dos ricos ou à dos pobres? Ao analisar a situação, já fizemos, de verdade, a opção pelos pobres? Para fazermos sentido da realidade em causa, damos ouvidos mais à elite que à experiência dos pobres? De que lado está a sabedoria do Evangelho? Trabalhar pela justiça exige uma espiritualidade profundamente radicada nas Escrituras, porque, senão, o nosso trabalho será esmagador e impossível. Uma vez que fomos chamados a ser tanto evangelizadores como transformadores sociais, nós rezamos, reflectimos e procuramos o plano de Deus para implantar o seu Reino. Nós julgamos a situação à luz do plano de Deus. ACTUAR Uma vez que já temos maior consciência do que está a acontecer no mundo e já julgámos a situação do ponto de vista do Evangelho, agora é necessário actuar. É extremamente importante, e tem maiores probabilidades de eficácia, conseguir a colaboração de outros na comunidade, por exemplo, ONGs (Organizações não Governativas), outras denominações religiosas, grupos locais. 3.1.2.4 Uma Abordagem Prática O compromisso actuante a favor dos pobres e dos marginalizados, a participação em análise social contínua, e a reflexão constante sobre as nossas atitudes e acções ajudar-nos-ão a desenvolver aquela consciência crítica que é necessária para dar um contributo à transformação do mundo. Eu sou uma mulher negra da altura dum cipreste forte acima de todas as definições

106 ainda a desafiar lugares tempos circunstâncias atacada inacessível indestrutível. Olha para mim e renovar-te-ás. Mary Evans56 “Eles arrancaram-me da estrada. Eu lutei contra a polícia de segurança, mas eles espancaramme a cabeça. A cara do meu pai e também a da minha mãe perseguiam-me. Um dos métodos que as cadeias iraquianas usam resume toda a sua barbaridade. Chama-se violação…Por muito que tivesse ouvido falar disso, nada me tinha preparado para a realidade. Agora, essa experiência vive dentro de mim. Eu ainda tenho bastantes hemorragias. Não foi só um homem, foi uma caterva deles. Eles abafaram os meus gritos e os meus protestos. Tive de desistir. E foi um espectáculo de feira; havia magotes de gente a ver”. Uma Mulher Curda 57 Como foi dito na Primeira Parte, a violência é, para muitas mulheres, um facto horrível da vida quotidiana - violência de guerra, violência política, violência sexual e violência doméstica. A violência foi o tema da Conferência de Pequim sobre a Mulher, que ultrapassou as fronteiras culturais e geográficas. Ayesha Khanam, do Conselho das Mulheres do Bangladesh, declarou: “A violência contra as mulheres é um problema que clama por medidas globais…”. De entre os problemas da violência que foram apontados em Pequim contam-se: a mutilação genital de raparigas, “mortes por dotação” na Índia, onde milhares de jovens noivas são assassinadas de ano a ano por causa de as suas famílias pagarem dotes considerados insuficientes, assédio corporal em casa sendo que nos Estados Unidos cerca de um terço das mulheres assassinadas morrem às mãos do marido ou do namorado - e o uso da violação e da prostituição forçada como armas de guerra. Como pôr um ponto final a este tipo de violência, é o desafio que todos nós temos de encarar - quer sejamos mulheres, homens, leigos, religiosos, cristãos, ou crentes de outras religiões. Segue um esquema de abordagem do tipo “análise social” ao problema “As Mulheres e a Violência”: Cenário: Um grupo de paroquianos está a debater uma sondagem nacional recentemente publicada sobre “Violência Doméstica”. A sondagem revela que uma de entre cinco mulheres já padeceu
56 “I Am a Black Woman” (Eu sou Uma Mulher Negra) in Margaret Busby, ed. Daughters of Africa (Filhas da África), New York, Pantheon Books, 1992, p. 300.
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citado em Amnesty International (Amnistia Internacional), “Human Rights are Women´s Rights” (Os Direitos Humanos São Direitos das Mulheres”, 1995, p. 85.

107 violência às mãos dum parceiro. 59% dos inquiridos sabia de outras mulheres que tinham sido vítimas de violência; 13% fizeram queixa de “crueldade mental” - mas tinham sido trancadas nos seus quartos, impedidas de se encontrar com amigos, maltratadas verbalmente e privadas de dinheiro; 10% tinham sofrido grave violência física - pontapés, empurrões pelas escadas abaixo, espancamentos, agredidas à facada, tentativa de estrangulação. Outras tinham sofrido abuso sexual e tinham sido ameaçadas com facas e armas de fogo. O editorial do jornal local conclui a reportagem desta forma: Assim, enquanto o governo consegue proclamar melhores leis para proteger as mulheres, não consegue, no entanto, instituir um programa capaz de reduzir a violência doméstica até que venha a saber qual é a causa desta violência. Ele deveria comprometer-se com esta tarefa e, entretanto, fazer de tudo por dar apoio aos centros de crise, tanto de refúgio como de violação. Temos capacidade para responder a este problema? Que nos é possível fazer? Quem padece violência - de nós desconhecida - nesta paróquia? Estas e outra dezena de perguntas surgem rapidamente. Como poderia um grupo destes responder, utilizando o método da análise social? É importante notar que a análise de tal problema exigiria, pelo menos, duas sessões de duas horas cada. Primeira Fase: Esclarecer o Assunto Procurar e distribuir informação sobre a violência doméstica. Comprar uma cópia do relatório da sondagem e, talvez, convidar um conferencista. Fazer um esquema da história da violência doméstica no país. Que acontecimentos políticos, económicos, culturais, sociais e religiosos desta sociedade têm contribuído para a violência contra as mulheres? Procurar ligações e interligações. Que valores estão em questão neste caso? Segunda Fase: Análise das Estruturas * Há estruturas económicas que levam à violência contra as mulheres, por exemplo, o sistema da dotação, falta de direitos legais e de propriedade, uso das mulheres como bens móveis, o homem como ganha-pão, o desemprego? Há forças sociais que beneficiam da dependência económica das mulheres? * Nas estruturas políticas, quem detém o poder? Há partidos políticos ou grupos que apoiam tacitamente o uso da violência física contra as mulheres? Quem está a beneficiar da situação de “manter as mulheres no seu lugar”? Se for o caso, que funções têm as mulheres no governo? Há grupos que encaram o aparecimento do feminismo como uma ameaça? As mulheres têm alguns direitos? * Existe algum apoio cultural para a violência contra as mulheres, por exemplo, uma tradição machista? Como se dá a interacção social - mulheres com mulheres e homens com homens? O álcool é um ritual masculino importante? Espera-se a castidade das mulheres mas não dos homens? Quanta educação recebem as mulheres? Como é que os media apresentam as mulheres - como objectos sexuais, dissolutas, volúveis, estúpidas? * As estruturas sociais facilitam a violência - por exemplo, os patrões são donos dos seus trabalhadores e controlam-nos como tais; habitação fraca; assistência médica e apoio social inadequados? Quem toma as decisões? * Que funções têm as mulheres nas estruturas religiosas? Há doutrinas, tradições e práticas que atribuem à mulher uma função específica? Como é que as mulheres são apresentadas na mitologia? E na Bíblia? E na Igreja? * Há ligação entre as estruturas económicas, políticas, sociais, culturais e religiosas que contribuem para a violência contra as mulheres?

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Terceira Fase: Reflexão e Oração Usar uma passagem bíblica, tal como a da mulher samaritana (Jo 4:1-42). Que é que esta passagem e a Bíblia em geral nos dizem sobre esta questão? Qual é a resposta de Jesus? Há doutrinas da Igreja, declarações dos Papas, dos Bispos e das lideranças religiosas que possam ajudar a esclarecer esta questão? Quarta Fase: Planificação de Medidas Qual é a solução? Em concreto, que precisamos de mudar? Que recursos temos neste grupo para nos ajudar a responder ao problema da violência doméstica? Que parte do problema já podemos resolver? Como vamos comunicar com a paróquia toda? Qual deve ser o primeiro passo a dar? Quem é responsável pelos vários aspectos deste plano? Qual é o prazo para a aplicação das várias medidas? Avaliação É muitíssimo importante estabelecer um processo para rever e avaliar o plano de actuação e a actuação propriamente dita.

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QUARTA PARTE REDEFINIR A VIDA RELIGIOSA NA PERSPECTIVA DA JPIC E REDEFINIR A IGREJA

4.1. REDEFINIR A VIDA RELIGIOSA 58 NA PERSPECTIVA DA JPIC 4.1.1 Introdução Neste Manual, tem-se falado da JPIC como um modo de vida e não apenas como um ministério - um entre vários. Também se tem procurado redefinir a justiça enquanto relacionamento correcto, a partir da perspectiva bíblica. A Vida Religiosa poderá ser objecto de melhor compreensão e maior apreço a partir duma perspectiva de seguimento radical do Mestre em ordem ao Reino de Deus. Ser discípulo significa ser, agir, e dizer o que Jesus foi, fez e disse, com as mesmas atitudes. Um discípulo é, no fundo, uma testemunha da ressurreição. Seguir Jesus e participar na sua missão são inseparáveis. A convocação ao seguimento é um alistamento do discípulo no serviço do Reino de Deus. A essência de ser discípulo encontra a sua expressão bíblica nos termos “estar com Ele”. O discipulado, ou “estado de (ser) discípulo”, era bem conhecido em Israel. Os Rabinos tinham discípulos, que treinavam, mas o esquema que segue mostra as principais diferenças entre o discipulado de Jesus e o discipulado tradicional. John Fuellenbach faz as seguintes distinções 59: Jesus - Discípulos
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Rabinos - Discípulos

A nossa procura tem que começar com um vocabulário apropriado: os termos “vida religiosa”, “vida consagrada”, “vida evangélica”, etc. não satisfazem e têm limitações. Visto que todos sabemos de que estamos a falar, e por razões de expediência, nós vamos, por enquanto, referirnos a este tipo de vida como “vida religiosa”, embora o Sínodo mais recente se lhe tenha referido em termos de “vida consagrada”. Algumas pessoas têm dificuldade em usar a expressão “vida consagrada”, posto que todos os cristãos baptizados são consagrados; o mesmo se pode dizer da expressão “vida religiosa”, visto que em todas as religiões há pessoas que são profundamente religiosas. A originalidade e a especificidade da vida religiosa devem ficar bem claras, seja qual for a designação que lhe apliquemos. 59 Throw Fire (Lancem o Fogo), Logos, Manila, 1997, cap. 4.

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1. O próprio Jesus escolhe os seus (Jo 15:16; Mc 3:13; Lc 9:59, etc. 2. Jesus liga os discípulos à sua própria pessoa (Mc 3:14) 3. A comunidade de vida com Jesus é fim em si mesma (Mc 10:24-25) 4. Jesus envia os seus discípulos a proclamar o Reino (Lc 9:60; Mc 3:14).

1. Os discípulos escolhem os respectivos Rabinos 2. Os discípulos estão comprometidos com a Torah. 3. O discipulado é apenas uma fase da ordenação ao rabinado (“semikah”).

4. O dever do discípulo é aprender a Lei e as Tradições e tornar-se um perito na sua interpretação. 5. Jesus chama qualquer um e cada um 5. A escolha dos discípulos baseia-se a tornar-se seu discípulo (Mc 1:167-20 em diferenças de grau e posição. 2:14). 6. Jesus não precisa de ordenação para ser 6. O título de rabino advém por rabino; apenas lhe chamam rabino ordenação. (Mc 9:5; 14:45). 7. Jesus não estudou com nenhum rabino 7. Os rabinos tornam-se tais aprendendo (Jo 7:15). de outros rabinos 8. Jesus exorta os seus discípulos à humil- 8. Os rabinos ensinam os seus discípulos dade e ao serviço (Mt 23:5-12). a conquistar posição e excelência. 9. Por seu lado, os discípulos não formam 9. No final da sua formação,os discípudiscípulos próprios (Mt 5:19; MC 6:30). los formam outros discípulos (ex. (Escola do Rabino fulano e sicrano) Se aceitarmos a vida religiosa como um discipulado radical, as questões inevitáveis serão: os nossos votos, a vida comunitária, a vida de oração, etc. Mais concretamente: como viver o discipulado de maneira relevante, no contexto actual, do ponto de vista da JPIC? Seguem algumas reflexões sobre este tema. 4.1.2 Redefinir a Vida Religiosa do Ponto de Vista da JPIC 4.1.2.1 Para uma Nova Teologia dos Votos Breve Historial  A vida religiosa sempre existiu. No hinduismo e no budismo, houve formas de vida consagrada, antes do cristianismo. No cristianismo, as formas de vida consagrada apareceram no Oriente (os eremitas); foi mais tarde que ela apareceu no Ocidente (formas monásticas de vida consagrada).  Os votos são uma expressão de vida religiosa: os votos, tais como existem agora, foram inicialmente formulados na Idade Média: a sua teologia (dos votos de pobreza, castidade e

111 obediência) procurava responder ao contexto específico, religioso e sociocultural, do XI e do XII séculos.  No Concílio Vaticano II, fez-se um esforço por redefinir a vida religiosa, ao adaptá-la para a condução duma forma apostólica de vida no mundo contemporâneo. A mensagem do Vaticano II, no que tem a ver com a vida religiosa, foi dupla: (1) renovação: o retorno às origens; (2) adaptação: adaptar-se ao mundo de hoje. Têm sido grandes os esforços levados a cabo por todas as congregações religiosas no sentido de responder à convocação do Vaticano II. Mas, na prática, a adaptação (mudanças exteriores) foi muito mais fácil e rápida que a renovação (interior). Apesar de todos os esforços que se fizeram e ainda se continuam a fazer, ainda persistem restos da forma monástica de vida religiosa nas nossas comunidades, e mais numas que noutras. O que é compreensível, se levarmos em consideração o enraizamento que a forma monástica de vida religiosa conseguira alcançar.

Uma Olhada ao Presente e ao Futuro  O mundo mudou muito desde o século XII - em todos os níveis. Há necessidade urgente duma nova teologia da vida religiosa, para a vida religiosa de hoje poder fazer sentido, ou seja, para que ela seja um SINAL visível do Reino de Deus. Mudanças exteriores apenas, não cumprem o objectivo.  Através dos tempos, a vida religiosa tornou-se fortemente institucionalizada e legalista, como aliás todos os aspectos do cristianismo. Infelizmente, até os votos tiveram a mesma sorte. Há aspectos desta institucionalização e desta legalização que roubaram certas dimensões daquilo que é um discipulado radical no seguimento de Cristo. Naturalmente, a vida religiosa acabou por sofrer as respectivas consequências.  Por isso, a vida comunitária e os votos precisam de ser repensados à luz da missão. O paradigma monástico da vida religiosa foi elaborado a partir da perspectiva litúrgica e comunitária, mais que a partir da perspectiva da missão. A teologia da vida comunitária e dos votos baseou-se num modelo monástico ou semi-monástico da vida religiosa, quando a maior parte das nossas congregações foram fundadas. As mudanças levadas a cabo pelo Vaticano II não levaram em consideração as mudanças radicais de que havia necessidade face a esta viragem completa nos paradigmas, quer dizer, dum estilo semi-monástico para um estilo monástico de vida religiosa. Desde o Concílio Vaticano II para cá, grande parte das congregações fizeram adaptações da sua vida em função da Missão, mas muito poucas deram igual importância a uma mudança nas estruturas comunitárias que corresponda às mudanças introduzidas no conceito de Missão. Estas mudanças são vagarosas, se levarmos em consideração a rapidez das mudanças que estão a acontecer neste nosso mundo de hoje. Mesmo assim, devemos reconhecer e apreciar todos os esforços que estão a decorrer a nível das Conferências dos Superiores Maiores e dentro das próprias congregações. Visto que, no nosso nível, não é possível mudar a teologia da vida religiosa, há mudanças em curso nos níveis que estão ao nosso alcance. Mas isto não impede que reflictamos segundo uma nova teologia. Todas as mudanças começam ao nível das bases…  O desafio que enfrentamos hoje situa-se, afinal, no nível da redefinição do discipulado. Como poderemos responder à maneira de Jesus - num mundo onde abundam as injustiças e a violência? Neste nosso planeta, em que as pessoas e o ambiente estão a ser destruídos, nós, seguidores de Cristo, estamos a ser chamados a dar testemunho de relacionamentos de qualidade com Deus, com as pessoas e com a criação.

112  Segundo a tradição, os votos de pobreza, castidade e obediência são a expressão do nosso discipulado. Neste momento específico da história humana, a Igreja oficial ainda identifica “vida consagrada” com “vida votiva” e, em geral, com os três votos acima mencionados.  Como primeiro passo, tratemos dos três votos que são a expressão do nosso modelo corrente de vida religiosa.  Como se disse acima, os votos são uma expressão da vida religiosa. Os votos dão vida à missão, e a missão dá vida aos votos. A vida religiosa precisa de ser inculturada nos vários contextos, para poderem ser SINAIS. Portanto, os votos também precisam de encontrar várias formas de expressão segundo os contextos culturais. Inculturação do carisma significa que nós devemos enriquecer o nosso carisma com os valores que se encontram na nossa cultura, e enriquecer a nossa cultura com os valores do nosso carisma. Um tal encontro traduz a inculturação dos votos.  Os votos precisam de ser vistos sob a perspectiva das relações distorcidas que caracterizam este nosso mundo, relações que são marcadas pelo poder, pelo dinheiro, pelo sexo.  A vida religiosa precisa de ser visível, tal como os carismas. Tornar a vida religiosa visível significa tornar Jesus - que se encontra em nós - visível. Mas, no meio disto tudo, forçoso é reconhecermos que o chamamento à vida religiosa contém um certo elemento de mistério. 4.1.2.2 Uma Nova Abordagem Bíblica dos Votos As Escrituras Hebraicas (O Antigo Testamento) estão cheias de exemplos, por um lado, da infidelidade, injustiças e violências do povo; pelo outro, revelam o amor perseverante e infalível, a compaixão e a justiça salvadora, de Deus. Estas escrituras contêm textos que falam do convite contínuo de Deus e da sua convocação à mudança de atitude. Um dos mais fortes encontra-se no capítulo 6 de Miqueias. Esse capítulo representa uma cena de tribunal: Javé convoca o seu povo a tribunal para ser julgado pelas suas infidelidades: (1) injustiças, medições falsas, alqueires mal cheios, balanças manobradas, pesos falsos: cap. 6, vv.10,11; no cap. 2, Miqueias enumera outras injustiças: ocupação de terrenos cobiçados, tomada de casas: no cap 7, Miqueias fala do oficial que faz exigências, do juiz que julga por suborno, do governante que faz proclamações arbitrárias; (2) violência (Miq. 6:12 e 7:2). Tendo dado ouvidos a Javé, o povo quer agora aplacar a Sua “ira”, e está pronto a oferecer vários tipos de sacrifício: holocaustos, bezerros de um ano, milhares de carneiros, dez mil torrentes de azeite, e até estão dispostos a oferecer os seus primogénitos! O que querem oferecer é, naturalmente, “exterior”. Javé diz claramente o que quer: é uma mudança completa do coração e das atitudes; o que o Senhor quer receber deles vai ter que tocar cada uma das fibras do seu próprio ser. É uma vida totalmente nova: Já te foi dito, ó homem, o que te convém, O que o Senhor requer de ti: Que pratiques a justiça Que ames a bondade, E que andes com humildade diante de Deus. Miq. 6:8

113 É possível comparar as injustiças e a violência do tempo de Miqueias com as do nosso tempo. Como vimos na Primeira Parte, o mundo está cheio de injustiças e violência, que são mais numerosas, mais variadas, mais horrorosas e muito mais sofisticadas que as do século VII antes de Cristo (a época de Miqueias). Com o passar dos anos, as múltiplas normas e práticas que se foram acumulando para nos ajudar a viver os votos foram interpretadas como remédio e prevenção contra as limitações e fraquezas humanas. O que certamente trouxe as suas vantagens. Mas, durante esse processo, os votos tornaram-se fortemente estruturados e institucionalizados. Nas Escrituras hebraicas, descobrimos um processo semelhante: os líderes religiosos, com o objectivo de ajudar o povo a viver a sua religião de maneira mais completa, foram, pouco a pouco, acrescentando leis e práticas que, com o tempo, se transformaram em norma e estilo de vida. As pessoas começaram a manifestar o seu relacionamento com Deus por meio de oferendas exteriores, sacrifícios e holocaustos. A dimensão da fé, que deve ser reflexo dum relacionamento verdadeiro com Deus, deixou de transparecer. No cap. 6 de Miqueias, Deus lembra-lhes claramente que não está interessado em práticas externas, celebrações ou sacrifícios: Ele quer um relacionamento correcto com Deus (caminhar humildemente com Deus) e relacionamentos correctos com o próximo (ternura e justiça). Se aplicarmos este texto ao contexto actual, (“a actualização da Bíblia”), aí vemos um convite à redefinição da nossa vida e dos nossos votos. Nós estamos a ser chamados a viver radicalmente a nossa vida religiosa com base na convocação a viver com ternura (castidade), a agir com justiça (pobreza) e a caminhar humildemente com o nosso Deus (obediência). Não é o número de normas e práticas que nos ajudarão a ser um SINAL relevante no dia de hoje, mas (1) a qualidade dos relacionamentos que manifestem a mesma ternura e não-violência dum Pai amoroso e de Jesus; (2) a qualidade dos relacionamentos que manifestem o conceito bíblico de justiça; e (3) a fraqueza evangélica. O Evangelho de São Marcos já foi chamado de “Evangelho do discipulado”. Portanto, no nosso esforço por redefinir os votos, esse evangelho servir-nos-á de referência. Amar ternamente: (castidade = relacionamentos rectos) Os relacionamentos de Jesus manifestaram compaixão:  Mc 2:41: “um leproso veio ter com Ele…deixou-se mover pela compaixão…”  Mc 2:23-28: num Sábado, os seus discípulos estavam com fome…Ele deixou-os “violar o Sábado” para que pudessem comer…Relativizou a Lei: a compaixão é mais importante que a Lei.  Mc 3:1-6: salvar a vida, promover a vida é mais importante que a Lei…  Mc 8:2: “Tenho compaixão desta multidão…” (alimentação dos 4000).  Mc 12:28-34: “Amarás o Senhor teu Deus…amarás o teu próximo como a ti mesmo…”. Amar o próximo vale muito mais que todos os holocaustos e sacrifícios”. No contexto actual, eis as implicações para o nosso voto de Castidade:  Rever os nossos relacionamentos com todos, sem exclusões  Promover a igualdade em todos os relacionamentos  Amar ternamente significa que devemos deixar que a compaixão “domine” todos os relacionamentos  Manifestar a fraqueza de Deus

114  Sentir diariamente a alegria de perdoar e a alegria de ser perdoado  Dar a vida aos outros através de tudo o que somos e fazemos  Discernir, em cada momento, a diferença entre aquilo que promove “a vida de Jesus em abundância” e aquilo que tira esta mesma vida.  Ser coerente e autêntico na nossa prática do voto do celibato. Agir justamente: (Pobreza = Opção pelos pobres e viver com o mínimo) Jesus viveu justa e santamente:  Mc 2:15-17: Faz uma opção pelos pobres e pelos marginalizados: come com pecadores e colectores de impostos…  Mc 6:34-44: os apóstolos são ensinados a partilhar o pouco que têm para que outros também possam ter alguma coisa para comer.  Mc 10:17-31: Ele pede aos discípulos que mostrem verdadeiro amor para com os pobres, com atitudes e com acções concretas.  Mc 11:15-19: A sua ira no Templo deveu-se à trafulhice, à injustiça e à opressão do povo por parte das autoridades religiosas, que tinham transformado aquele lugar de oração num “covil de ladrões”. Num lugar onde não havia relacionamentos rectos com o povo, como poderia haver um relacionamento recto com Deus?  Mc 12:41-44: Louva a pobre viúva que dá generosamente a partir da sua pobreza. No mundo de hoje, eis as implicações para o nosso voto de pobreza nos dias de hoje:  Relacionar-se com todos sem exclusões e principalmente com os pobres e os marginalizados, tal como Jesus fez. No cap. 25 de São Mateus, Ele diz que nós encontramos Deus nas figuras crucificadas de Cristo, quer dizer, os famintos, os sequiosos, os sem-abrigo, os nus, os doentes e os presos.  Tratar todos com equidade.  Lembrar-se constantemente de que estamos a viver um voto de pobreza num mundo que já declarou uma década internacional a favor da “Eliminação da Pobreza”.  Viver com o mínimo; contentar-se com o que se tem; viver com o mínimo garantirá que haverá alguma coisa para os que são mais pobres que nós, e também garantirá recursos da terra para as gerações futuras.  Viver a espiritualidade da “Suficiência” (ser capaz de dizer “chega”).  Repartir o pouco que temos, de forma que outros que têm menos também possam ter algo.  Passar dum conceito de progresso baseado na posse e na acumulação para um conceito de progresso baseado na promoção da qualidade de vida.  Trabalhar pela mudança estrutural e sistémica com o olhar na justiça, na igualdade e na libertação dos oprimidos.  Fazer uma opção por uma vida centrada em Cristo e nos seus valores e não no dinheiro, nos haveres e respectivo valor.  Dar de boamente, a partir da nossa pobreza.  Viver pobremente é viver justamente. Em suma, a relevância do nosso voto de pobreza para o mundo actual, consiste na convocação para uma maneira nova de nos relacionarmos com as pessoas e com os haveres, os bens. Onde existir a pobreza de coração (humildade), haverá pobreza material.

115

Caminhai humildemente com o vosso Deus: (Obediência = relacionamentos rectos com Deus e com as pessoas ajudam a fazer discernimento) A preocupação principal de Jesus era a realização do Plano de Amor do Pai:  Mc 3:35: quemquer que faça a vontade do Pai é considerado membro da sua família mais íntima  Mc 4:11: “A vós foi-vos concedido o segredo do Reino de Deus…” . Quando procuramos a vontade de Deus com toda a sinceridade, Ele no-la revela….  Mc 7:24-30: Jesus deixa-se desafiar por uma mulher grega, uma siro-fenícia de origem: a sua coragem e a sua humildade ajuda-o a redefinir a sua missão, quer dizer: uma vez desafiado por ela, Ele estabelece relações com os não-Judeus!  Mc 9:33-37: Nós somos chamados a ser humildes: os Apóstolos tinham andado a discutir qual deles era o mais importante…  Mc 9:38-41: Aceitar todos os que trabalham pela mesma causa: precisamos de os apreciar e não de os criticar. Jesus pede claramente aos seus discípulos para não pararem nem impedirem os outros de fazerem o bem em Seu nome.  Mc 9:34: Renunciar a si mesmo (egocentrismo) é uma condição para o verdadeiro discipulado.  Mc 10:43-44: a verdadeira liderança consiste em servir, não em ser servido… No contexto actual, eis as implicações para o nosso voto de obediência:         Descobrir os vários aspectos da fraqueza do Evangelho, que inclui os humildes. Procurar a Vontade de Deus em união com os outros. Fazer discernimento da vontade de Deus garante o Reinado de Deus sobre este mundo. Deixarmo-nos desafiar pelos acontecimentos. Ser capaz de trabalhar em equipa e colaborar com os outros. Largar as nossas tendências de dominação e controle. Adquirir/aprofundar atitudes rectas de liderança. Fazer do discernimento um estilo de vida.

4.1.2.3 A Comunidade Na passagem 3:13 de São Marcos lê-se “Ele nomeou Doze para andarem com Ele…”. A Comunidade é um sinal profético no mundo de hoje. Num contexto em que o individualismo, o egocentrismo e uma forte tendência para a independência estão a formatar a VIDA que Jesus trouxe ao nosso mundo, nós estamos a ser convidados a aprofundar o conceito de comunidade que se refere exactamente a relacionamentos rectos, baseados num relacionamento recto com Deus, com os outros e consigo próprio. No conceito dos votos anterior ao Vaticano II, sublinhavam-se: (1) a dependência, (2) o legalismo. Isto também envolvia uma conotação de certo modo negativa: castidade é não casar; pobreza é não poder possuir nada enquanto indivíduos; obediência é não poder fazer o que se quer, etc. Tudo isso ainda é válido, mas a abordagem tem que mudar para que os votos tenham um significado relevante nos dias de hoje. A ênfase tem que ser na interdependência, e os votos, tais como os

116 explicámos acima, só podem ser vividos em comunidade, enquanto comunidade, na interdependência. É logo e principalmente na comunidade que nós aprendemos progressivamente a amar ternamente “as irmãs e os irmãos que Deus nos dá”, sem exclusão. Há hoje em dia, em certas culturas, uma tendência para escolher aqueles com quem se quer viver. Por outras palavras, acabamos por excluir alguém durante o processo de escolher alguém. Esta tendência para a exclusão é muito forte na nossa sociedade, e assume várias formas. Enquanto discípulos de Jesus comprometidos com Ele, esta é uma de entre as relevantes convocações de hoje - a convocação para a inclusão, seja ou não difícil e exigente ter de viver com certas pessoas, nacionalidades, culturas, mentalidades, grupos etários, etc. É na comunidade que aprendemos - e lutamos dia a dia por sentir a alegria de perdoarmos e sermos perdoados. É na comunidade que descobrimos progressivamente o dar e o receber, ser enriquecidos pelo sistema de valores de várias culturas e regiões (quando as comunidades são multiculturais. Na comunidade, nós crescemos na fé; na comunidade, a revelação continua; na comunidade, as nossas imagens de Deus e de Jesus são redefinidas pouco a pouco, ao reconhecermos a imagem de Deus e de Jesus nos outros. É na comunidade, através de relacionamentos de ternura e compaixão que o nosso voto de celibato assume um significado mais profundo. Foi exactamente a interdependência manipulada ao nível económico, político e ecológico, que fez aumentar as injustiças económicas e ecológicas, resultando no pior índice de pobreza de dois terços da humanidade. Por isso, as Nações Unidas declararam os próximos dez anos (1997-2006) como a Década Internacional para a Eliminação da Pobreza. É num mundo como este que a opção dos religiosos por uma actuação justa inclui tudo aquilo que o voto de “pobreza” implica. No fundo, trata-se duma convocação para viver com o mínimo, inspirada por uma espiritualidade da “suficiência”. No contexto actual, este voto precisa de incluir a dimensão da justiça social: a vida toda de Jesus reflectiu simplicidade e justiça. Optou por um estilo de vida simples e queria que os seus apóstolos fizessem a mesma opção (Mc 6:8-9). É principalmente na comunidade que nós podemos crescer progressivamente na nossa procura da justiça: no nosso relacionamento com os outros, na maneira como partilhamos do que temos, recebendo humildemente da comunidade e dando de boamente aquele pouco que já temos, num espírito de interdependência. É só quando vivemos como comunidade com as pessoas que participam da mesma visão e do mesmo carisma, que vivem certas atitudes e fazem gestos como, por exemplo, pôr tudo em comum, partilhando, administrando segundo um orçamento, etc…que a vida em comum atinge o seu significado. Num mundo em que a independência e o individualismo estão a fazer progresso e a enxugar a seiva da VIDA, opções deste tipo têm o poder de dar a VIDA a todos. O mundo tem necessidade urgente de comunidades que possam dar testemunho do conceito bíblico de justiça. A vida religiosa fornece a oportunidade de o fazer. Dez por cento da população mundial com poder económico e político estão a privar os outros 90% da população mundial da sua dignidade humana. A história está cheia de casos de gente que usou mal e abusou do poder. A tendência para dominar os outros sempre fez parte da história humana. Mulheres e crianças têm sofrido imensamente nesse processo. É por causa dessa história que as pessoas estão hoje a resistir à humildade e a humilhações de qualquer tipo. O voto de obediência na vida religiosa também tem as suas estórias, tanto positivas como negativas. A convocação a caminhar humildemente com o nosso Deus é dirigida a todos - aos que receberam autoridade e aos que fazem parte das bases. Caminhar humildemente com o nosso Deus inclui a convocação para o discernimento, para procurar a Sua Vontade - na

117 companhia do povo e através dos vários acontecimentos. É antes de mais e principalmente na comunidade, em conjunto com as pessoas que têm o mesmo carisma e a mesma visão, que nós temos a oportunidade de discernir, diariamente, nas coisas pequenas como nas grandes, a Vontade do Senhor. É na comunidade que participamos nas decisões e colaboramos. É na comunidade que cumprimos as decisões em conjunto, mesmo quando às vezes é difícil aceitálas. É na comunidade que nós crescemos na arte do diálogo, através dos esforços e dos desentendimentos diários. É na comunidade que temos a oportunidade de aprender o caminho da humildade, caminho esse que antes foi traçado por Jesus na sua experiência de comunidade. É na comunidade que crescemos nos nossos esforços por fazer do discernimento um modo de vida. Quando se conseguir isto, a humildade e o discernimento tornam-se uma atitude de vida, e isto contribui para uma salutar interdependência em comunidade. As comunidades religiosas podem ajudar a redefinir a autoridade e o poder no cenário deste mundo.

A Oração enquanto Comunidade e na Comunidade Tudo o que foi dito acima sobre os votos e a comunidade é um processo de devir…e este processo recebe energia na oração e da oração. A oração pessoal é indispensável (Mc 1:12,35), mas também o é a oração comunitária: ela dá raízes ao relacionamento de uns com os outros e ajuda a discernir as actividades da JPIC. Nós não conseguimos viver como comunidade se não tivermos uma vida de fé, que assenta numa relação íntima com Deus e com Jesus, por meio da oração. A oração comunitária ajuda-nos a crescer enquanto comunidade na fé, na esperança e no amor. Uma comunidade que adora, louva, dá graças e intercede em conjunto, também recebe abundância de graças enquanto comunidade. A PALAVRA que é partilhada e repartida na comunidade e enquanto comunidade, é uma fonte de revelação do Pai e do Filho. O PÃO que é partilhado e partido na comunidade e enquanto comunidade é a fonte da VIDA prometida por Jesus. Quando rezamos enquanto comunidade com as pessoas que participam do mesmo carisma e da mesma visão, nós crescemos como Comunidade Eucarística, ou seja, enquanto comunidade nós tornamo-nos pão partido, condividido e dado mutuamente e ao mundo. Transformados em Cristo, nós vamos até outras comunidades e até à comunidade planetária com o olhar fito na transformação do cosmo todo, continuando a missão de Jesus enquanto comunidade. A Interligação Comunidade-Oração-Missão Jesus precisou de outros para colaborarem com Ele na sua missão. A era dos profetas individuais está a ser substituída pela força do testemunho duma comunidade profética. Nós, enquanto religiosos, estamos a ser chamados à colaboração em dois níveis: dentro da comunidade (local, provincial, congregacional), e com a comunidade alargada. Esta ênfase sobre “comunidade” não é um fim em si mesmo: ela está em função da missão. A convocação a amar ternamente, agir justamente e caminhar humildemente com o nosso Deus é feita em função da missão. Os valores do Evangelho que vivemos em comunidade e enquanto comunidade evangelizam-nos gradualmente e, entretanto, nós evangelizamos os outros, ou seja, promovemos o reinado de Deus. A nova evangelização é, de certo modo, o contrário do que anteriormente fizemos: anteriormente, quando falávamos de evangelização, nós logo pensávamos em evangelizar os outros; hoje nós precisamos de começar por nos interrogarmos sobre como estamos a ser evangelizados, ou seja sobre que valores evangélicos nós manifestamos na minha/nossa vida e na vida de comunidade. A comunidade não existe para a

118 santificação pessoal, mas sim para a transformação do cosmo. É enquanto comunidade que nós podemos começar a redefinir a Igreja e a Vida Religiosa. A comunidade é o lugar privilegiado por onde começar a redefinir a Missão. Se não estivermos dispostos a aceitar o desafio de viver os valores do Evangelho em comunidade, na companhia de outras pessoas que partilham do mesmo carisma e da mesma visão, como é que poderemos professar que vivemos estes valores com pessoas que não têm a mesma visão e, assim, como poderemos promover o Reinado/Reino de Deus? A comunidade é o resultado e o alfobre da vida de amor. A comunidade existe onde há justiça, onde a justiça é entendida como relacionamentos rectos. A comunidade fornece o espaço para o discernimento e o desenvolvimento de carismas, para as pessoas participarem e contribuírem com os dons que receberam. Os religiosos tanto oferecem um exemplo de comunidade como trabalham com os outros para criar comunidade enquanto lugar de justiça e da revelação de Deus. Hoje, devido à quebra nos relacionamentos, a comunidade é expressão de justiça - que, por sua vez é expressão do amor, que faz sentido porque é tão concreto. A oração, a comunidade e a missão estão relacionadas de maneira integrada. A oração e a comunidade sem missão no mundo tenderão a olhar para dentro e a ser egoístas. A comunidade e a missão sem oração tenderão a ter vistas curtas e a ser superficiais. A oração e a missão sem comunidade tenderão a ser ideológicas e de visão estreita. O segredo está em construir e cultivar a oração, a comunidade e a missão em conjunto, com um olhar perspicaz sobre a situação e as esperanças dos pobres no mundo de hoje. 4.1.2.4 Comentário Final Uma nova teologia da vida religiosa requer um vocabulário novo. O redefinir dos votos requer que os votos sejam designados de outra maneira. Precisamos de proclamar ao mundo que estamos a fazer um voto de amar ternamente, de agir justamente e de caminhar humildemente com Deus, em comunidade e em função da missão. Talvez sintamos a necessidade de juntar mais um voto ou, talvez, combinar os três num só. O Espírito continua a mexer-se…não deixemos que as instituições e as estruturas sejam de obstáculo à liberdade do Espírito…; demos ao Espírito a liberdade de agir na direcção dum Novo Céu e duma Nova Terra… 4.1.2.5 Extractos de Documentos Capitulares de Várias Congregações Religiosas O modo de estar “no meio do povo” é um sinal e um testemunho profético de novos relacionamentos de fraternidade e amizade entre homens e mulheres em toda a parte. É uma mensagem profética de justiça e paz na sociedade e entre os povos. Como parte integrante da Boa Nova, esta profecia tem que ser cumprida através do compromisso activo com a transformação dos sistemas e estruturas pecaminosos em sistemas e estruturas cheias de graça. Também é uma expressão da “opção de participar nas vidas dos ‘pequeninos’ (minores) da história, para podermos dizer uma palavra de esperança e salvação a partir do meio deles mais pela nossa vida que pelas palavras”.

119 Esta opção decorre naturalmente da nossa profissão de pobreza numa fraternidade mendicante e está de acordo com a nossa dedicação a Jesus Cristo, vivida na dedicação aos pobres e àqueles em quem a face do Senhor se reflecte de maneira preferencial. É nosso dever contribuir para a compreensão da causa destes males; ser solidários com os sofrimentos dos que estão marginalizados; participar na sua luta pela justiça e pela paz; e lutar pela sua libertação total, ajudando-os a realizar o seu desejo por uma vida digna. Os pobres, os pequeninos (minores) constituem a maior parte da população mundial. Os seus complexos problemas estão ligados e, em grande parte, são causados pelas relações internacionais actuais e, mais directamente, pelos sistemas económicos e políticos que governam o nosso mundo de hoje. Nós não podemos ficar surdos perante o clamor dos oprimidos que pedem justiça. Devemos ouvir e interpretar - de facto - a partir da perspectiva dos pobres - daqueles que são oprimidos pelos sistemas económicos e políticos que hoje governam a humanidade. A realidade social desafia-nos. Porquanto atentos aos gritos dos pobres, e fiéis ao Evangelho, nós devemos tomar posição com eles, fazendo opção pelos ‘pequeninos’. Existe dentro da Ordem um desejo crescente de optar pela solidariedade com os ‘pequeninos’ da história, de levar aos nossos irmãos e irmãs uma palavra de esperança e salvação a partir do meio deles, mais pelas nossas obras que pelas nossas palavras…Recomendamos esta opção pelos pobres porque está de acordo com o carisma da Ordem, que se pode resumir numa vida de fidelidade a Jesus Cristo. ‘Fidelidade a Jesus Cristo’ também significa fidelidade aos pobres e àqueles em quem a face de Cristo se reflecte de maneira preferencial. A nossa inspiração em Elias, sobre a qual assenta o nosso carisma profético, convoca-nos a caminhar com os ‘pequeninos’ pelos caminhos que aquele profeta calcorreou na sua época pelos caminhos da justiça, opondo-se às falsas ideologias e enveredando por uma experiência concreta com o verdadeiro Deus vivo; pelos caminhos da solidariedade, defendendo as vítimas da injustiça e assumindo as suas posições; pelos caminhos do misticismo, lutando para restaurar, nos pobres, a fé em si mesmos, renovando a sua consciência de que Deus está do seu lado. Para nos prepararmos e nos educarmos para podermos assumir ‘as circunstâncias dos pobres’ de maneira evangélica, fazemos o propósito de:  reler a Bíblia também a partir da perspectiva dos pobres, dos oprimidos e dos marginalizados;  considerar os princípios cristãos da justiça e da paz como parte integrante da nossa formação, a todos os níveis;  fazer imersão nas circunstâncias em que os pobres vivem;  usar os meios da análise social à luz da fé para descobrir a presença do pecado incarnado em certas estruturas políticas, sócioeconómicas e culturais;  defender e encorajar mesmo os menores indícios de vitalidade. Carmelitas

120 “Enquanto seguimos Jesus Cristo, enraizemo-nos ainda mais na Palavra de Deus, à medida que tomamos o partido dos empobrecidos, dos trabalhadores, dos excluídos e suas famílias, enfrentando em união com eles as várias situações que exigem uma tomada de posição e uma resposta de forma concreta. Unamos, portanto, as nossas forças às deles… para dizer SIM
    

à vida, à verdade, ao diálogo e à partilha, à demolição das barreiras existentes entre indivíduos e povos, à construção duma sociedade sem dominação, onde a justiça, a concorrência e a exclusão sejam denunciadas, ao respeito pela criação;

para dizer NÃO
   

à violência, à discriminação, ao consumismo, à monopolização da terra e dos bens materiais.

Continuemos também com a análise social que nos leva a tomar medidas contra as causas da injustiça:
 

desenvolvendo uma cultura da solidariedade - relações de solidariedade, tais como projectos alternativos, redes de actuação, grupos; dando a conhecer às entidades decisórias as necessidades urgentes, os desejos e o potencial de indivíduos e de grupos.

Rever com coragem o nosso estilo de vida e as nossas opções económicas a nível pessoal, comunitário e congregacional, para assegurar que estejam de acordo com as nossas orientações apostólicas. Optar por entrar em relacionamentos novos e vivificadores, com a decisão de ficarmos abertos aos outros e sensíveis aos gritos dos que são explorados e ficam empobrecidos. Acções colectivas. A Congregação, como entidade pública e internacional, é uma força dinâmica. O nosso compromisso apostólico com os pobres exige que nós tomemos uma posição colectiva a favor da justiça e da paz. Trata-se dum caminho profético dentro da sociedade e dentro da Igreja de hoje. Irmãzinhas da Assunção 4.1.3 Redefinir a Igreja Tal como a vida religiosa precisa de ser redefinida, também a Igreja. Se Deus quiser, a redefinição da vida religiosa resultará numa redefinição da própria Igreja. Jesus profetizou a

121 chegada do Reino, mas a Igreja nasceu gradualmente 60 - uma Igreja que se tornou fortemente institucionalizada, hierárquica, clericalizada e cheia de poder. Pouco a pouco, a dimensão comunitária da Igreja primitiva foi obscurecida. O Concílio Vaticano II definiu a Igreja como “povo de Deus”. O compromisso com a JPIC envolve um compromisso com a redefinição da Igreja, por forma a reflectir a dimensão comunitária dum povo de Deus, com tudo o que o conceito implica. Ao sermos Igreja, nós comprometemo-nos, em parceria, com a promoção do Reino de Deus… Por vezes surgem questões de justiça na Igreja institucional. A Igreja é convocada para pregar a libertação e a justiça para todos e a trabalhar para esse fim. Para fazê-lo, a Igreja precisa de ser justa e de ser vista como justa. Para a Igreja ser justa, os relacionamentos dentro da comunidade eclesial têm que ser justos. A Igreja conta com a inspiração do Espírito Santo para não cair em erros doutrinais. Precisa-se da mesma ajuda do Espírito Santo para a Igreja não cair em erros comportamentais em relação aos seus membros e outras pessoas. A Igreja também precisa de estar atenta aos sentimentos dos povos a seu respeito e precisa de ouvir o clamor daqueles que sentem que a Igreja não está a actuar com justiça. Muitos sentem que são tratados com injustiça, como por exemplo, quando são privados duma formação adequada ou quando lhes é negada a oportunidade de participar plenamente naquilo que o baptismo os convoca a fazer. Nos nossos dias, as mulheres levantam as suas vozes para convocar a Igreja institucional a responder pelo seu comportamento e atitudes opressivas em relação a elas. Embora a Igreja não seja uma democracia, o magistério tem favorecido a democracia como a forma mais justa de estrutura social. A Igreja só terá credibilidade se adoptar e seguir, nas suas próprias estruturas, as virtudes da democracia na maneira mais conforme com a natureza e a vocação da Igreja. Na Igreja primitiva, o evangelho social não era praticado como um estratagema para atrair a si as pessoas estranhas, mas simplesmente porque era uma expressão natural da fé em Cristo. A invocação ‘Maranatha’ (Vinde,Senhor!) exprimia uma esperança intensa que ainda se não cumpriu. A injustiça ainda não desapareceu; a opressão ainda não foi eliminada; a pobreza, a fome, e até a perseguição ainda são a ordem do dia. Com Jesus, o reinado de Deus não se realizou na sua plenitude. Cada vez que rezamos o Pai Nosso, nós rezamos “Venha a Nós o Vosso Reino”. Esta oração obriga-nos a redefinir a Igreja de forma que ela possa ser credível. Uma Convocação à Participação, à Responsabilidade e à Veracidade: “Por certo que a Igreja deve praticar, no seu estilo de vida, a responsabilidade e a veracidade que ela exige no sector público. Se fizermos um exame de consciência franco e corajoso, nós temos mesmo que admitir que há áreas com necessidade de reforma na nossa administração de dinheiros e outros recursos destinados às nossas dioceses e aos pobres. Muitas vezes, nós não abrimos os nossos livros de contas a auditores, e muito menos mostramos os relatórios já verificados por auditores aos nossos benfeitores, por medo de sermos apanhados com as mãos sujas! Em decisões referentes a projectos, nós dificilmente envolvemos as pessoas a quem os próprios subsídios de desenvolvimento são dirigidos. Será que realmente admitimos os nossos erros e tomamos medidas concretas para corrigir as situações?” 61

60

David Bosch in Transforming Mission, explica claramente como entende a diferença entre um “Movimento” e a Igreja institucionalizada; pp. 47-55. 61 AMECEA Documentation Service, Nairobi, Quénia, 1 de Fevereiro de 1997.

122 Dom T. Mpundu, Bispo de Mbala-Mpika, Zâmbia O Medo Prático de Perder o Controle… “O terreno mais sensível a choques entre a comunidade e a hierarquia é o do dinheiro; e a razão por que muitos sacerdotes sentem relutância em fazer avançar o processo sinodal está no medo não declarado de os leigos virem a controlar a caixa das esmolas. A mensagem do sínodo acentuou a necessidade duma gestão transparente (44). A responsabilidade pública e a transparência financeira são de esperar, numa sociedade democrática. Se os chefes da Igreja continuarem a encobrir o uso de dinheiros institucionais com o manto do segredo, ficam expostos a acusações de corrupção e a abater a vontade do povo em fazer ofertas. A autoconfiança que o Sínodo exige só poderá ter êxito se a comunidade estiver envolvida na administração dos seus fundos. Onde os padres são responsáveis e transparentes perante a comunidade, as entradas das paróquias sobem e, no fim, até eles ficam em melhores condições. Uma cultura democrática desafiará cada vez mais, e mais justamente, a maneira de usarmos a propriedade eclesial” 62. Algumas Perguntas para Reflexão e Debate Adicional sobre os Nossos Esforços na Redefinição da Igreja: 1. Quais são algumas das eclesiologias emergentes, e como é que elas promovem os valores do Reino? 2. A imagem da Igreja Universal depende da imagem das igrejas locais. Em concreto, quais são alguns dos valores do Reino que podes promover no teu contexto tendo em mira a redefinição da Igreja? Como é que a podes implementar? 3. Durante cerca de 2000 anos, os clérigos têm continuado a exercer uma função dominante na definição da Igreja. Como encararias a acção dos leigos e das religiosas na redefinição da Igreja numa linha de corresponsabilidade, tendo em mira o Reinado de Deus?

62

Ibidem, pág. 6.

123

A.7 Lista de Membros Promotores da Justiça, Paz e Integridade da Criação - JPIC ( nas Casas Gerais de Roma, 1997) Abella Joseph, CMF Figli del Cuore Immacolato di Maria Via Sacro Cuore di Maria, S 00197 Roma Tel: 06/80910011 - fax: 06/80910047 E-mail: jmabella@pcn.net Anderson Kathryn, MSM Suore Mantellate Serve di Maria di Pistoia Via Mentore Maggini, 51 00143 Roma Tel: 06/50340 10; 06/5034028 Fax: 06/5 192324 Anso Javier, SM Marianisti (Società di Maria) Via Latina, 22 - 00179 Roma Tel: 06/70475892; 06/779956 Fax: 06/7000406 E-mail: gentemp@sm.curia.it Aubert Bertrand, OFM Cap. Curia Generalizia Frati Minori Cappuccini Via Piemonte, 70 - 00187 Roma Tel: 06/4620121 - fax: 06/4828267 E-mail: aubbertrand@compuserve.com Mantini Angela, CMS; Forster, Margitt, CMS Missionarie Comboniane

124 Via Boccea, 506 - 00166 Roma Tel: 06/61560273 - fax: 06/61561963 E-mail: cmsarchs@pcn.net E-mail: comboniane@pcn.net Beaudoi Ruth, SUSC Holy Union Sisters Santa Unione dei Sacri Cuori Via Aurelio Saffi, 28 - 00152 Roma Tel: 06/5810378 - fax: 06/5895754 Blondel Monique, PSA Piccole Suore dell’Assunzione Piazza San Francesco, 3 00045 Genzano di Roma Tel: 06/9396171 - fax: 06/9396041 Bouchard Claire M, SSCC Congregazione dei Sacri Cuori di Gesù e di Maria Via Aurelia, 145, Scala C Tnt. 11-14 00165 Roma Tel: 06/6381140 - fax: 06/6381013 E-mail: 112052.3171 @compuserve.com Brion Edouard, SSCC Congregazione dei Sacri Cuori Via Rivarone, 85 - 00166 Roma Tel: 06/66415538 - fax: 06/66414173 E-mail: 106335.2.1 6@compuserve.com Byrne Patricia, RC; Lizada Linda, RC Nostra Signora del Ritiro al Cenacolo Piazza Madonna del Cenacolo, 15 00136 Roma Tel: 06/35420054 1-2-3 - fax: 06/35343800 Byrne Moya, MFIC Missionarie Francescane dell’Immacolata Concezione Via Lorenzo Rocci, 64 - 00151 Roma Tel: 06/65742341 - fax: 06/6536581 E-mail: mfic@rm.nettuno.it Cabo Mathieu, S.C. Fratelli del S. Cuore Piazza del Sacro Cuore, 3 - 00152 Roma Tel: 06/58233 129 - fax: 06/538853 Carroll Patrick, OSM

125 Servi di Maria Piazza San Marcello, S - 00187 Roma Tel: 06/69930234 - fax: 06/6792131 E-mail: pcarroll@iol.it Casey Archie, SX Missionari Saveriani Viale Vaticano, 40 - 00165 Roma Tel: 06/39375421 - fax: 06/39366571 E-mail: sgmissionisx@glauco.it Cassidy Eileen, SND Suore di Nostra Signora di Namur Via Raffaello Sardiello, 20 - 00165 Roma Tel: 06/66418704 - fax: 06/66418709 E-mail: ECassidyND@aol.com Cawood, Regina, FDNSC Figlie di Nostra Signora del Sacro Cuore Via del Casale di S. Pio V, 37 00165 Roma Tel: 06/6622027 - fax: 06/6628793 Celaschi Nancy, OFS; Monteiro Celine, FMM Conferenza Francescana Internazionale del III Ordine Regolare CFITOR Piazza Risorgimento, 14, mt. B9 00192 Roma Tel: 06/39723521 - fax: 06/39760483 E-mail: IFCTORSG@T1N.it (Celine) E-mail: IFCTORSG@TIN.it (Nancy) Cellana Franco, IMC Missionari della Consolata Viale Mura Aurelie, 11 - 00165 Roma Tel: 06/6384241 - fax: 06/6382879 E-mail: dige@ismico.org Czerny Michael, SJ / Foglizzo Paolo, SJ Compagnia di Gesù (Gesuiti) Borgo S. Spirito, 4 C.P. 6139 - 00195 Roma Prati Tel: 06/68977395 - fax: 06/6879283 E-mail: sjs@sjcuria.org Daun Christel, SSpS Congregazione Missionaria Serve dello Spirito Santo Via Cassia, 645 - 00189 Roma

126 Tel: 06/33260247 - fax: 06/33252 148 E-mail: JPCris@pcn.net Davis Barbara / Bautista Guadelupe, RGS Sorelle del Buon Pastore Via San Raffaello Sardiello, 20 00 165 Roma Tel: 06/664185545 - fax: 06/66418864 E-mail: Smagda@aol.com de Preville Marie-José, SMSM Suore Missionarie della Società di Maria Via Cassia, 1243 - 00189 Roma Tel: 06/30367867 - fax: 06/30311273 D’Costa Reba Veronica, RNDM; Rider Marie Thérèse, RNDM Suore di Nostra Signora delle Missioni Via di Bravetta, 628 - 00164 Roma Tel: 06/66158400; 06/661S8348 - fax: 06/661S7365 E-mail: mdmsec@tin.it Eckhoff Mary Ann, SSND Suore Scolastiche di Nostra Signora Via della Stazione Aurelia, 95 – 00165 Roma Tel: 06/66418065; 06/66418075 Fax: 06/6641 1212 E-mail: 11 3235.3636@ compuserve.com Feliciano Mary Vincent, OSB Suore Benedettine Missionarie di Tutzing Via dei Bevilacqua, 60 - 00163 Roma Tel: 06/66500601; fax: 06/66500671 E-mail: mbsvincent@compuserve.com Fernando Beatrice Suore del Divin Salvatore Villa Salvator Mundi Viale Mura Gianicolensi, 67 00152 Roma Tel: 06/588961 fax: 06/58896023; 06/5895634 E-mail: dg.smih@pcn.net Fernando Rose, FMM Francescane Missionarie di Maria Via Giusti, 12 - 00185 Roma Tel: 06/70453555 - fax: 06/77207458

127 E-mail: JPICgen@Fmm.org Foale Jeff, CP. Passionisti, Congregazione della Passione di Gesù Cristo Piazza Ss. Giovanni e Paolo, 13 00 184 Roma Tel: 06/7727 1230 - fax: 06/7008454 E-mail: 101600.1 23@compuserve.com Giertych Celestine, CSSF Suore Feliciane o Suore di S. Felice da Cantalice Via del Casaletto, 540 - 00151 Roma Tel: 06/6530216 - fax: 06/6533908 Gosser Karen, SHCJ Suore del Bambin Gesù Via della Maglianella, 379 - 00166 Roma Tel: 06/61561902 - fax: 06/61563394 E-mail: kgosser@compuserve.com J/P Coordinator CssR Congregazione del Santissimo Redentore (Redentoristi o Liguorini) Via Merulana, 31 C.P. 2458 - 00100 Roma Tel: 06/494901 - fax: 06/4466012 Hassan Agnes Mary, OLA Suore di Nostra Signora degli Apostoli Via Ghislieri, 15 - 00152 Roma Tel: 06/5343877 - fax: 06/5770155 Heneghan John, CFC Congregazione dei Fratelli Cristiani Via della Maglianella, 375 - 00166 Roma Tel: 06/61560253 - fax: 06/61564545 E-mail: heneghan.cfc@rm.nettuno.it Hinde Mary, RSCJ Società del Sacro Cuore di Gesfi Via Tarquinia Vipera, 16 - 00152 Roma Tel: 06/582303332 - fax: 06/58203896 E-mail: mhinde@iol.it Hirota Filo, MMB Mercedarie Missionarie di Bérriz Viale Pola, 10 - 00198 Roma Tel: 06/84134441 - fax: 06/8413213

128 E-mail: mmbroma@tin.it Hofer Marc, FSC Fratelli delle Scuole Cristiane Via Aurelia, 476 C.P. 9099 00100 Roma Tel: 06/665231- fax: 06/6638821 E-mail: mhofer@lasalle.org Jesunesan Philippiah, OMI Missionari Oblati di Maria Immacolata Via Aurelia, 290 - C.P. 9061 00100 Roma Tel: 6/398771 - fax: 06/39375322 E-mail: p-jesunesan@pcn.net Loughran Mary, SFB Santa Famiglia di Bourdeaux Via dei Casali Santovetti, 58 00165 Roma Tel: 06/66418656- fax: 06/6641 1470 E-mail: sfbsec@pcn.net Modigan Breda/Colette Flourez, IJ Suore del Bambino Gesù Via Girolamo Nisio, 21/D - 00135 Roma Tel: 06/305475 1 - fax: 06/3054808 Marlinga Miriam, CSFN Suore della Sacra Famiglia di Nazareth Via Nazareth, 400 - 00166 Roma Tel: 06/6240929 - fax: 06/6241295 (J/P Coordinator) Francescani Conventuali Piazzetta S. Spagnoli, 1 06081 Assisi (PG) Italia Tel: 075/515194 - fax: 075/815197 Meckl Mechtild, IBMV Moozhayil Isabel, IBMY Istituto della Beata Vergine Maria Via Nomentana, 250 - 00162 Roma Tel: 06/862202-224/06/862202-226 fax: 06/860756 1 Miller Marietta, OSF Suore Francescane della Penitenza Carità Cristiana

129 Via Cassia, 870 - 00189 Roma Tel: 06/3325821 - fax: 06/33252865 E-mail: mmiller@mail.crownnet.com Saveria, 1CM Suore Missionarie del Cuore Immacolato di Maria Via Filogaso, 40 - 00173 Roma Tel: 06/72672512 - fax: 06/72672513 Muller Ingeborg, CPS Suore Missionarie del Preziosissimo Sangue Via S. Giovanni Eudes, 93 - 00163 Roma Tel: 06/6641 1908 - fax: 06/66510438 Conaire Gear di Francisco, OFM Via S. Maria Mediatrice, 25 00165 Roma Tel: 06/68491218 - fax: 06/68491266 E-mail: pax@ofin.org Ollevier Willy, CICM (Scheut) Congregazione del Cuore Immacolato di Maria (Missionari di Scheut) Via S. Giovanni Eudes, 95 - 00163 Roma Tel: 06/665003 1 - fax: 06/66500360 E-mail: contact@cicm-mission.org O’Neil MiceAl, 0. Carm. Ordine dei Carmelitani Via Giovanni Lanza, 138 Tel: 06/462018 1 diretto: fax: 06/4620 1847 E-mail: Moneill@pcn.net 00184 Roma 06/46201843 O’Reilly Kieran, SMA Società delle Missioni Africane Via della Nocetta, 111 - 00164 Roma Tel: 06/6616841 - fax: 06/66 168490 E-mail: Kieran@pcn.net Oudenrijn v.d. Anne, MSOLA Gemme Marguerite, MSOLA e Suore Missionarie di Nostra Signora D’Africa Viale Trenta Aprile, 15 - 00153 Roma Tel: 06/5810059 - fax: 06/5885667 E-mail: trentaprile@rm.nettuno.it Pasini Patrizia, MC

130 Missionarie della Consolata Via P. Foscari, 52 - 00139 Roma Tel: 06/88641494 - fax: 06/88641492 E-mail: delc.mc@pcn.net Peeters Thomas, CMM Missionari di Mariannhill Via S. Giovanni Eudes, 91 - 00163 Roma Tel: 06/6641 1909 - fax: 06/66414128 E-mail: mariannhill@alt.it Pereira Rose di Lima, RSHM Missionari del Sacro Cuore Tel: 06/8622061 - fax: 06/86215627 E-mail: misacor.gen@pcn.net Sarr Anne Michel Congregazione Suore dell’Immacolata Concezione di Castre Via V. Viara de Ricci 24 - 00168 Roma Tel: 06/3051863 - fax: 06/3010630 E-mail: ME 1 089@mclink.it Schnieder Mechthild, MSC Suore Missionarie del Sacro Cuore di Gesù (Hiltrup) Via Martiri di Via Fani, 22 01015 Sutri (VT) Tel: 0761/608300 - fax: 0761/608822 E-mail: mschilgen@pelagus.it Seigel Mick, SVD Curia Generalizia della Società del Verbo Divino Via Verbiti, 1 - 00164 Rome Tel: 06/5754021 - fax: 06/5783031 E-mail: svd.Jpc@pcn.net Sherry Allen, FMS Fratelli Maristi Piazza M. Champagnat, 2 - 00144 Roma C.P. 102550 Tel: 06/54517240 - fax: 06/54517217 E-mail: solidar@fins.it Skinnader John, CSsp Congregazione dello Spirito Santo Clivio di Cenna, 195 - 0036 Roma Tel: 06/3540461 - fax: 06/35450676 E-mail: cssp@rm.nettuno.it

131

Slade Deirdre Figlie di Maria e Giuseppe Via Garibaldi, 28 - 00153 Roma Tel: 06/5812331 - fax: 06/5815149 E-mail: DFMJ@compuserve.com Stemnock Bernie Marie, OSF Suore Francescane Insegnanti del III Ordine Regolare Via N. Piccolomini, .27 - 00175 Roma Tel: 06/6374548 - fax: 06/6382874

Undurraga Benito, M.Afr. Missionari d’Africa (Padri Bianchi) Via Aurelia, 269 - C.P. 9078 - 00100 Roma Tel: 06/3936341 - fax: 06/39363479 E-mail: mafrg@rm.nettuno.it Weber Françoise Figlie di Gesù e Maria, del Sacro Cuore Via Alessio,22/24 - 00153 Roma Tel: 06/5746643 - fax: 06/574665 1 Wermelinguer Marie Clement, SU Suore di Sant’Orsola Via dei Lentuli, 62 - 00175 Roma Tel: 06/7140216 - fax: 06/7612575 Wilson Gemma, SM Congregazione di Maria (Suore Mariste) Via Aurelia, 292 - 00165 Roma Tel: 06/39366532 - fax: 06/39375253 E-mail: cecgemsm@tin.it Thoolen Frans, SMA Secretary Executive, JPIC Commission e USG/UISG Via Aurelia, 476 - CP 9099 - 00100 Roma Tel:/fax: 06/6622929 E-mail: jpicusguisg@rm.nettuno.it

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