61_O Conceito de Justiça em Santo Agostinho

O Conceito de Justiça em Santo Agostinho

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Texto retirado da obra de
• SILVIO DE MACEDO

“História do pensamento jurídico”
• • Rio de Janeiro:Biblioteca Jurídica Freitas Bastos

com o estremecimento das estru­turas sociais vigentes.Expressão de três culturas • O pensamento jurídico de Santo Agostinho opera o sincretismo na cultura clássica greco-romana. sob o "clan" do Cristianismo. a começar por seu conceito de Justiça: • "A Justiça é como uma ordem inerente ao amor de Deus" {De . com suas teses revolucionárias.

com elas. a hermenêutica. irradiando através de uma produção imensa as novas ideias.• Santo Agostinho retira o conceito de intuições criadoras oriundas do Cristianismo. e. • A inserção do pensamento agostiniano na história marca definitivamente a cultura ocidental. a filosofia. E sua presença na cultura ocidental tem uma função ímpar. Renovam-se a teologia. • Ninguém emitiu conceitos mais belos .

"a estrela que brilha perenemente" (Aristóteles). "a virtude das virtudes" (Platão). A justiça é a expressão do amor do sábio". . Estaria tudo no superlativo. Amor. a grande paixão dos romanos.Justiça como expressão do amor do mais sábio • A Justiça é o resultado do maior amor do mais sábio dentre os homens. através da luz que se irradiou do Cristianismo. • O conceito de verdade filosófica teve nos gregos seu grande requinte no pensamento socrático e obteve os altos níveis de reflexão em Aristóteles e o de verdade revelada. Verdade. nessa triangulação da perfeição: Justiça. • O conceito de Justiça teve na Antiguidade clássica a sua maior valorização.

na forma da "ágape" = amor sacrificial. em consequência. • O conceito de justiça agostiniano ilumina os demais conceitos do sistema. filosofia da história. original e ímpar durante muitos séculos. de forma candente este julgamento a respeito dos Estados que cometem injustiças: . • De Civitate Dei é a grande obra do Bispo de Hipona. filosofia do direito.• A tese nova seria a tese do amor. que motiva as ideias agostinianas. Daí os reflexos na sua definição acima de Justiça. que se classifica como a grande construção de filosofia social. • Emite. amor doação.

o homem deve tentar sempre a verticalização. sabendo-se que a justiça penal tipifica como o delito dos mais graves o latrocínio. a fim de de encontrar a verdadeira direção da . Dei. 4). penetrando na profundidade de si mesmo. semelhante à luz do vagalume. • Diante das imperfeições da justiça humana.• "Os reinos sem justiça não passam de grandes latrocínios" (De Civ. IV.

manifestando-se como tendência à coesão. configura-se como postulado da ordem universal humana. • c) — Lei temporal — as leis contidas no direito . • As normas de conduta são iluminadas pelas verdades transparentes na mente humana. à unidade. • Sendo o Direito um fenômeno de ordem coexistencial. O Conceito de Direito emerge assim de três ordens: • a) — Lei eterna — inerente à realidade transcendente. • b) — Lei natural — iluminação da mente humana. à concórdia.• Santo Agostinho define o Direito como a "tranquilitas ordinis". de natureza indelével.

A história desse conceito apresenta três relevos históricos: Em Aristótels. por sua vez. Santo Agostinho e Jellineck. O Estado é uma sociedade . Daí que o Estado não teria nascido da convenção. uma natureza política e uma natureza moral.O Conceito de Estado em Agostinho • O conceito de Estado agostiniano é dos mais famosos. a estrutura social. • A sociedade. em que a "utilitas" e a "cupiditas" constituem suas manifestações características. sujeita porém às leis da divina providência. O Estado repousa na natureza política. • O povo. tem seu fundamento nas leis intrínse­cas à natureza humana e não no contrato. mas da natureza humana viciada. revela três naturezas: uma natureza econômica.

e • b) — Conceito histórico: "coetus multitudinis rationalis. na concepção agostiniana. • O Estado teria assim natureza instrumental. júris consensu et utilitate communione societatus" (conceito coinci­dente com o de Cícero). rerum quas deligit concordi communione societatus".Dois conceitos de Estado para Santo Agostinho • a) — Estado especulativo: "coetus multitudinis. .

III. 28). Ep. a terrestre — o amor-próprio até o desprezo de Deus. Os conceitos "Civitas Humana" e . 21). • E repetindo a conceituação paulina: "A lei natural é o reflexo em nós da luz de Deus" — "ratio inscripta" (São Paulo. dois amores fundaram duas cidades. "Sem lei se manifesta a Justiça de Deus. que traduzem os dois tipos de amor. Dei. v. e a celeste — o amor de Deus até o desprezo de si mesmo" (De Civ." • A coexistência humana está situada em duas dimensões.A teoria dos dois amores • A teoria dos dois amores é a grande construção ética e estética agostiniana: • "Assim. Rom.

e se transforma no conflito histórico entre Estado e Igreja".. A antinomia entre uma e outra deixa de ser o contraste ideal entre moral subjetiva e inferior e a política. razão .Continuação. exterior e coativa. esta pertence somente à cidade de Deus.. • O dualismo entre "civitas divina" e "civitas terrena" é afinal o dualismo entre vida ético-religiosa e vida política. • No que tange à Justiça.

• Sua vida (1225-1274) define o apogeu da Escolástica. "Doctor" e "Sanctus": — Doctor Angelicus.O pensamento jurídico de São Tomas de Aquino • Teoria política tomística • Santo Tomás de Aquino. E sua obra atesta uma exuberância criadora que se manifesta na exegese escritural. na teologia e na filosofia. e. da filosofia medieval. titulação que resume duas expressões máximas: a de natureza intelectual e a de natureza moral. .

• Summa Theologica. . •De Regimine Principum (Do regime dos princípios. • Comentários aos livros políticos de Aristóteles (In Libros Politicorum Aristotelis (expositio). do governo dos príncipes ao Rei de Cipro).• Obras de São Tomás que reúnem os aspectos jurídicos de sua doutrina • Comentários à Ética Nicomáquea • • • • de Aristóteles (In Decem Libros Ethicorum Aristotelis). ou seja.

. em que o Estado é visto como consequência do pecado. 188. pois "o impulso social" é marca do homem — a qual não se encontra nem nos animais. é também pensador político. 2 ae. • A concepção tomista admite que a comunidade política tem um valor ético intrínseco que lhe é específico. Santo Tomás não aceita o Estado como resultado do pecado original. • Santo Tomás. ed.• O importante da filosofia política tomística é a superação do pessimismo da Patrística em relação às coisas públicas. e em particular de Santo Agostinho. sendo sua existência algo como poena et remedium peccati. nem nos seres sobre-humanos. 5) está escrito que a negação da vida social é um signo de infrahumanidade. • Discordando da Patrística em geral. apesar de grande Teólogo e Filósofo. o que se conclui da . q. e assim tem conotação otimista. Na Suma Teológica (2a.

. que também não concordava que o Estado fosse um produto do pecado original (Summa. art. avaliando no entanto que as leis feitas pelos homens representam um nível médio entre o crime e a virtude. não aceitando que o Estado seja uma consequência do pecado como castigo. sobretudo. não adota o pessimismo metafísico tradicional. o direito de resistência à . O resultado do tácito consentimento das vontades e não o pacto formal.• Recebendo a influência de Aristóteles e Santo Agostinho. • O Estado é um produto natural e não artificial. 1. ou seja. a ad. Neste particular. • A teoria política tomística prevê que o Estado atinge um fim ético através do Direito. está com Santo Agostinho. q. • Um dos fatos notáveis da teoria tomista é sua pregação contra a tirania. em que a noção de pecado se projetava na vida social. 92. Ia. 2).

com os outros homens considerados socialmen­te: neste particular que é sujeito a uma determinada comunidade. a todos os homens que nela estão compreendidos" (Justitia. quod ille qui servit alucui communi-tati onunibus hominibus qui sub communitate illa cannentar". • 2 — A relação entre Justiça e Verdade • São Tomás estabelece uma relação fundamental entre verdade e justiça: "A justiça portanto se chama verdade. Uno modo. Sum-ma.Justiça e Verdade • O Conceito de Justiça • 1 — Definição: "A Justiça tem por escopo ordenar o homem nas suas relações com os outros homens. ordi-nat hominem in comparatione ad alum. . Quod quidem potest esse dupliciter. De um lado. Alio modo. . a.5). Isso pode ocorrer de dois modos. porque é a retidão impressa na vontade . ad alium in communi secundum scilicet. ad alium singularites. 58.

A particular divide-se em: comunicativa e distributiva . • c) — A justiça adquirida e a infusa (esta última depende • da graça divina) .. a segunda em comum. • A geral divide-se em: por causalidade e por predicacação: a primeira em legal. 2ae.As várias formas de Justiça • São Tomás distingue várias formas da Justiça.5) • e a justiça como hábito. a. a saber: • a) — A justiça como retidão do ato (Ia. 21. • b) — A justiça geral que ordena para o bem comum e a particular que ordena as pessoas em particular. Q.

Para desig­nar o "Direito subjetivo" ele usa os termos "licitum" e "potestas". Mas esta é um momento da filosofia do ser. Este nunca emprega a palavra lei no sentido de "lei física". São Tomás abandona a interpretação voluntarista. A razão humana dela participa como lei natural. norma. cuja lei é a razão: "Omnia per rationem justificare". • O Conceito de Lei • Desenvolvendo a concepção agostiniana no que diz respeito à lei. o Direito tem sua origem na ética. Para ele. como um emanação universal. porque ela é apenas "razão do Direito". como lei. a qual é aplicada por sua vez nas . • Na concepção tomística. • Por outro lado. apelando para a própria razão. isto é.O conceito de Direito • O termo Direito (jus) é entendido no sentido de jus objectivum (norma agendi) em São Tomás. e sim como ato de império. a lei não se confunde com o Direito. a Lei eterna normatiza toda a realidade.

quaedam participatio jus"). promulgada por aquele que representa a comunidade" (Quaedam rationis ordinatio ad bonum commune. 91. à definição acima. a. . imutável. . promulgata). Poder-se-ia aplicar a teoria das Causas. portan­to. de Aristóteles. do seguinte modo: a) — causa eficiente: Chefe da comunidade. aquele que a representa.3). • • . diferencia-se da "Lei eterna". perene. universal. 91. podemos dar agora a defi­nição tomística: "Certa ordenação da razão para o bem comum. a. ad ao qui curam communi-tatis habet.A divisão da lei segundo São Tomás • • • • • • • Lei Eterna — inerente à vontade de Deus. c) — Lei Humana — é um ditame da razão prática — ("Lex est quoddam dictamen praticae rationis" — Q.3). b) — Lei Natural — ("lex naturalis est aliquid diversuma lege aeterna. sendo uma parti­cipação nela (Q. Definição da lei: em consequência.

.Das Formas da Lei • São Tomás admite várias formas da lei. 2a.. 2ae. a do An­tigo Testamento. 47. 96. 4). . 3).. 2). 1). 2ae. • f) — Lex nova — "Lei do Evangelho é lei do amor. • b) — Lex aeterna — "excede à razão" — 2a. "Foi consumada com a morte de Cristo" (3a. 2ae. D. 98.... 21. 2ae. 2).. • d) — Lex divina — "Deus é lei de si próprio" (Ia. 64... • c) — Lex naturalis — "certa participação na Lei eterna em nós" (Ia. como se vê do esquema abaixo: • a) — Lex in communi — "pertence à moral" (Ia. 2ae. 108. • g) — Lex humana — "O fim desta é a tranquilidade temporal da comunidade" (Ia. 14. 1. • e) — Lex vetus — referente à lei mosaica. 8. 2). "Na nova Lei não se determina a pena de morte ou de mutilação corporal" (2a.. arg. A do Novo Testamento.

.. não sendo de acordo com a razão. • d) — a lei humana tem seus limites. importa aos homens de conformidade com suas condições (Q.I). 92. 95. Um ato humano é justo enquanto seja reto. q. a. segundo a regra da razão. a lei tirânica. a.I). "Lex injusta non est lex.Particularidades sobre a Lei Humana • A concepção tomística sobre a lei humana apresenta as seguintes particularidades • a) — a lei humana tem um fim ético. • b) — a lei humana é subordinada à lei natural. 2ae. Assim. isto é. . 96. O objeto da lei é guiar os homens à prática da virtude que lhe é pró­ pria. a. sed corruptio legis" (Summa. • c) — a lei humana tem poderes e caráter de genera­ lidade de norma. isto é. não passa de uma perversão da razão. A primeira regra da razão é portanto lei da natureza (Q.2). Ia. sendo proporcionada ao bem comum (Q.

a. que se justifica pela mu­dança das condições. 96.4). portanto. porque já está nos "Provérbios" (8): "É por mim que os Reis reinam e que os legisladores decretam as coisas justas" — (Q.Continuação. 96. os bons não estão sujeitos à lei. a. a.I). 97. Neste sentido. • g) — a lei humana é material. • e) — a lei humana é obrigatória. mas só os escravos do erro (Q. em correspondência das diversas situa­ções (Q..5). em consequência de ser justa. enquanto a vontade dos maus dela discorda.. a vontade dos bons é conforme à lei. Assim. . • f) — a lei humana tem coatividade.

ao primado do poder espiritual.O Estado na concepção de São Tomás • A concepção aristotélica influiu poderosamente no conceito de Estado tomístico. porque tal visão significaria um pessimismo metafísico. o homem não é tirânico ao aceitá-lo. para São Tomás. • O Estado não é. . a uma tendência da pessoa humana. sujeito. Este seria uma emanação da própria natureza hu­mana. uma consequência do pecado. e sim tende a satisfação a uma necessidade social. por consequência. Deste modo.

Porque o Estado não pode estar a serviço . afirmava não ser ela um direito natural. Tratarse-ia de um problema de direito das gentes. assegurando que a lei.cont.Sobre o Estado.. uma marca das imperfeições do homem. deve possuir meios reguladores da atividade humana. como alguns filósofos haviam afirmado. • Contrário à escravidão por considerá-la afrontosa à natureza humana. pelo próprio significado e essência racional. e o Estado deve limitar-se a uma coação equilibradora. Mas assegurava a legitimidade da coerção. • Há necessidade de uma profunda justificação moral dos atos humanos..

expressão do "pater-familias". chamada direito. • O Estado tomista não se confunde com o Estado autocrático. mas . Daí que só os homens em nível moral elevado são capazes de imprimir na coletividade uma direção.O sentido ético do Estado: o Direito • Há um sentido ético implícito no viver humano e o Estado procura realizar seu fim ético através de uma atividade específica.

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